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Crítica | Cicatrizes (2019)

A realidade de famílias com casos de crianças desaparecidas é realmente dramática. O tempo de espera, a investigação, a busca pessoal, os inúmeros sentimentos envolvidos e a forma como a vida se organiza a partir da tragédia, quando nem a criança nem o corpo são encontrados, deixam claras as feridas que esse tipo de situação causa em todos os envolvidos. Em Cicatrizes (2019), o diretor Miroslav Terzic se debruça sobre esse tema, mas não de um modo unicamente realista ou quase documental, como vemos em muitas obras do gênero.

SPOILERS!

Escrito por Elma Tataragic, Cicatrizes tem como base uma realidade presente na vida de muitas famílias sérvias, que é a de crianças desaparecidas ainda muito novas, muitas delas ainda na maternidade. Em ditaduras como as do Chile e da Espanha existem centenas relatos bem conhecidos a esse respeito, de bebês que eram reportados para os pais como se estivessem nascido mortos, mas na verdade eram sequestrados e dados ou vendidos para outras famílias. Neste filme sérvio, o roteiro também aborda essa realidade, centrando a história na cidade de Belgrado e numa mistura de suspense e melodrama, fazendo-nos acompanhar a vida de Ana e sua busca, há 18 anos, por um filho morto no nascimento e cujo corpo o hospital numa mostrou.

A atriz Snezana Bogdanovic é quem carrega a linha dramática da obra, fazendo um trabalho primoroso na maneira como esconde ou, na maioria das vezes, controla seus mais intensos sentimentos. O filme é basicamente o seu ponto de vista desesperançado, em uma cidade de cores sem graça e que parece estacionada no tempo, assim como muita coisa na vida dessa personagem, que escanteou a filha e infernizou a vida da polícia, da obstetra, dos funcionários do hospital e de sua própria família, com a ideia fixa de que o menino a que ela deu à luz não está morto. E se está, ela quer saber onde foi enterrado. Ou porque nunca foi mostrado o corpo para ela ou para o pai da criança.

O roteiro cria bem rapidamente a sensação de deslocamento de Ana em seu dia a dia. Infelizmente Tataragic não acerta no desenvolvimento da filha e deixa muito frouxa a linha de participação da irmã da protagonista, mas mesmo esses casos são pontos negativos menores, cujo incômodo é mais localizado e não consegue impregnar negativamente o filme, que é uma verdadeira experiência angustiante. Em dado momento, o espectador tem a impressão que o texto seguirá um caminho de intriga e teoria da conspiração; em outro, há leves nuances de realismo mágico, com personagens desaparecendo de cena; e em outros, tememos pela vida da mãe, que nosso julgamento se divide em classificar como neurótica ou alguém que está vendo a verdade onde a maioria não está.

A ausência de música na maior parte da obra serve para nos colocar mais solidamente na crua realidade dessa família, mesmo que elementos ficcionais façam parte da vida da protagonista. Muitas cenas com tomadas em becos escuros e cenários desertos também reforçam a ideia de isolamento em oposição à força policial e, ao que parece, bandidos contratados para fazer com que Ana pare de procurar pelo filho.

A parte final de Cicatrizes traz algo que para alguns espectadores pode parecer um problema de roteiro (o que não é) ou gerar conflitos de interpretação. Na minha leitura, a polícia conseguiu um documento forjado de adoção, algo que Ana sabia que não podia lutar contra. Em nenhum momento eu realmente achei que esse documento fosse verdade, mesmo que Ana não tenha desmentido para o Comissário, e isso pelo simples fato de que se fosse um caso de adoção, não fazia sentido nenhuma haver uma longa investigação aberta pela polícia, mudanças obviamente criminosas no registro da prefeitura para o nome dos pais do menino, a contratação de criminosos para amedrontar Ana ou a confirmação do marido e da irmã de que o filho de fato havia morrido, segundo informação do hospital. Se o menino tivesse sido entregue para adoção, esse conjunto de situações não seria possível.

E é esse aspecto do roteiro que torna a história ainda mais intrigante e com um final que pode trazer um sabor bem amargo para alguns espectadores. O fato é que há uma tentativa de comunicação entre mãe e filho neste fim, uma característica simples, mas muito bonita, que flerta novamente com algo meio fantasioso, vide o fato de o menino ter o mesmo TOC da mãe, arrumando a peça com os cavalos de porcelana na entrada da casa. Cicatrizes é um filme que exala a dor de uma realidade triste, vivida não apenas na Sérvia, mas que no presente caso ganha ares ficcionais ainda mais tenebrosos e com decisões do roteiro que, admito, podem afastar uma parte do público.

Cicatrizes (Savovi) — Sérvia, 2019
Direção: Miroslav Terzic
Roteiro: Elma Tataragic
Elenco: Snezana Bogdanovic, Marko Bacovic, Jovana Stojiljkovic, Vesna Trivalic, Dragana Varagic, Pavle Cemerikic, Igor Bencina, Radoje Cupic, Ksenija Marinkovic, Rade Markovic, Radoslav ‘Rale’ Milenkovic, Jelena Stupljanin, Bojan Zirovic
Duração: 105 min.

Crítica | Homeland – 8X01: Deception Indicated

  • Há spoilersLeia, aqui, as críticas das demais temporadas.  

Depois de quase dois anos, Homeland volta às telinhas para sua oitava e derradeira temporada em uma jornada brilhante, ainda que não perfeita, desde sua estreia em 2011, com o começo do que chamo Trilogia Brody. E, mesmo tendo tido tanto tempo para pensar no que poderia ser o mote desse encerramento, fui pego de surpresa por uma escolha tão simples e óbvia, mas tão maravilhosamente lógica e circular, que Deception Indicated imediatamente capturou minha atenção: se a série começou com as suspeitas da agente bipolar da C.I.A. Carrie Matheson (Claire Danes) sobre a lealdade do soldado americano Nicholas Brody (Damian Lewis), que passou anos preso pelo talibã, então nada melhor do que ela acabar com suspeitas sobre a própria Carrie depois que ela passou 213 dias em um gulag russo, privada de seus medicamentos e sendo torturada.

Melhor do que isso é que o roteiro de Debora Cahn e do showrunner Alex Gansa não se contenta em deixar as suspeitas unicamente ao encargo de um agente carrancudo que a interroga em um sanatório militar na Alemanha quando o episódio começa, mas sim ao transformar a protagonista em uma narradora não confiável, ao não só fazer o espectador duvidar do que ela fala, como também semear dúvidas na própria Carrie, que passa a ter sua já perturbada mente assombrada pela terrível possibilidade de ela ter revelado os nomes de sua rede de espiões e infiltrados. O episódio é, portanto, angustiante e desesperador, voltando a usar a bipolaridade de Carrie como fio condutor da narrativa, algo que sempre tem enorme potencial quando é bem explorado como nas duas temporadas anteriores.

Saul Berenson (Mandy Patinkin), agora o todo-poderoso conselheiro do presidente Warren (Beau Bridges, que ainda não apareceu, mas que foi introduzido na temporada anterior), está em meio a negociações de paz exatamente com o talibã de ninguém menos do que Haissam Haqqani (Numan Acar, que também ainda não apareceu), aquele mesmo personagem que fez um acordo sombrio com Dar Adal (F. Murray Abraham) ao final da cambaleante quarta temporada e cujo arco, até agora, permanecia aberto para frustração de muitos (minha inclusive!). Só isso já é outra notícia alvissareira para quem acompanha a série, já que, ao que tudo indica, teremos um desfecho para essa ponta que havia sido largada por completo (talvez propositalmente). Não demora, porém, e o vice-presidente do Afeganistão manifesta-se publicamente recusando a libertar prisioneiros talibãs em poder de seu governo, elemento fundamental de negociação, exigindo que Berenson tome medidas desesperadas e reincorpore Carrie para uma missão em Cabul.

Devo dizer que teria gostado mais do episódio se ele tivesse ido mais devagar com a louça. Carrie no hospital ainda tinha muito a oferecer e sua retirada de lá ainda na metade do capítulo foi um pouco frustrante, especialmente considerando a velocidade com que ela imediatamente entra em ação, algo que chega até a ser desnorteador. Sim, compreendi perfeitamente a proposta de revelar o assassinato de um de seus informante pelos talibãs como chave para a dúvida interna de Carrie sobre os 180 dias que ela não se lembra estando em poder dos russos, mas isso poderia ter vindo talvez de outra forma ou até mesmo no episódio seguinte, sem precisar movimentar a trama na velocidade da luz logo em seu início.

E a rapidez dos acontecimentos também acaba atrapalhando a fluidez da missão de Max Piotrowski (Maury Sterling), que volta não só à campo, mas no meio do fogo cruzado no Vale de Korangal, no Afeganistão, em uma missão de conserto de equipamento de espionagem em território hostil e tremendamente perigoso, cercado de um pelotão que logo se afeiçoa do calado personagem. Último personagem da “velha guarda” da série fora Carrie e Saul, a presença de Max, aqui, não só é abrupta como diferente de tudo que vimos antes em relação a ele, pelo que Deception Indicated teria lucrado mais se, no lugar de se preocupar em deslocar Carrie do hospital quase que instantaneamente, tivesse preparado melhor o terreno para o especialista em escutas eletrônicas. Ainda que a missão dele já seja claramente conectada aos acontecimentos ao redor de Saul, será interessante ver como isso evoluirá e se ele será mantido apartado do restante do elenco, talvez desenvolvendo seu pelotão.

Claire Danes está novamente impressionante em seu papel, com uma performance natural, que deixa sua personagem constante à beira do abismo, prestes a pular. Sua reações em momentos chave, como quando ela confronta seu interrogador no sanatório, recebe a notícia de Saul de que ela voltará à ativa ou quando ela descobre sobre o assassinato de seu informante são de se tirar o chapéu, com a atriz prometendo um tour de force final que tornará Carrie uma das mais memoráveis personagens da televisão moderna.

A correria do episódio, porém, tem um lado muito positivo, já que ele deixa, em relativamente poucos minutos, o circo perfeitamente armado para o que vem por aí, costurando as suspeitas sobre Carrie em um tecido que de maneira genial retorna à premissa original da série, devolvendo a personagem ao Oriente Médio,  e, finalmente, trazendo Haqqani e, claro, seu torturador russo Yevgeny Gromov (Costa Ronin) de volta. E assim, com o tabuleiro devidamente posto, os 11 episódios finais têm todas as peças necessárias para encerrar Homeland com toda a pompa e circunstância que a série merece.

Homeland – 8X01: Deception Indicated (EUA, 09 de fevereiro de 2018)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Lesli Linka Glatter
Roteiro: Debora Cahn, Alex Gansa
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain
Duração: 55 min.

Crítica | Doctor Who – 12X07: Can You Hear Me?

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  • Há SPOILERS! Leia aqui as outras críticas da Nova Série. E aqui as críticas da Série Clássica. Para livros, áudios, quadrinhos e listas de Doctor Who, clique aqui.

Até o mais desgostoso dos espectadores deverá admitir que a premissa de Can You Hear Me? é fantástica e prometia um daqueles misteriosos episódios de terror bem legais que a gente já teve na série antes. O resultado, porém, não foi assim tão animador como esperávamos, mas teve seus bons momentos e conseguiu trabalhar de maneira aceitável o seu assunto principal, garantindo uma boa diversão, apesar das barrigas.

Dividida entre Aleppo, 1380; Sheffield, 2020 e a nave de Zellin, num futuro distante, a trama explora os medos mais intensos, e a partir dessa situação temos um convite para olhar para dentro de cada um, gerando oportunamente um final de episódio bastante reflexivo e que aparentemente acena para a partida dos companions da Doutora (pelo menos Ryan e Yaz), o que evidentemente me deixou pulando de felicidade — e mais uma vez deixo claro que não é por desgostar deles, é porque eu estou enjoado deles e penso que os roteiros, embora tenham melhorado muitíssimo a dinâmica de um time grande na TARDIS, ainda não está conseguindo explorar organicamente o trio + a Doutora. E a minha primeira reclamação sobre o episódio tem a ver com esse assunto, por sinal.

Eu tenho a maior curiosidade para saber como foi o processo de escrita de Chris Chibnall e Charlene James para este capítulo. De quem foi a ideia de colocar a garota síria (Tahira, interpretada por Aruhan Galieva) como adicional temporária na TARDIS e mais Tibo (Buom Tihngang), o amigo de Ryan? Gente é o que não falta nessa nave ou nessa temporada e está claro o quanto isso segura o roteiro pelo rabo, em duas medidas: na estranheza, porque a gente fica se perguntando: “cadê fulano?“, e na estupidez, porque não há tempo de criar falas ou dar funções minimamente interessantes para esses coadjuvantes de momento (e eu implicava com a coitada da Courtney Woods, interpretada por Ellis George, na era do 12º Doutor! Mal sabia eu que estava no Paraíso!), de modo que ficam todos com cara de bolacha falando amenidades que ninguém se importa, atravancando o uso dos companions (que já são muitos) e o escopo de ação da Doutora, que precisa abarcar todo mundo. Ai ai…

O que torna o texto interessante, no entanto, é a jornada em torno do medo ou do desequilíbrio metal e que traz, na figura do vilão Zellin a conexão com diversos momentos da Série Clássica, como os Eternals (Enlightenment), os Guardians of Time (The Ribos Operation) e o Celestial Toymaker, que tem uma citação especial, dado o jogo que Zellin monta para a Doutora. Aparentemente estamos diante de um episódio isolado, mas ele tem a sutil habilidade de aglutinar rapidamente pequenos elementos da temporada, como o Dregs de Orphan 55 e a Criança Atemporal, dando um senso maior de unidade, mesmo que não nos encha de respostas. Eu me diverti com a história em si, mas não pude deixar de me irritar com a já citada superpopulação do núcleo central e em mais dois momentos, que acho que realmente estragaram muita coisa.

O primeiro foi aquela TE – NE – BRO – SA escapada da Doutora. Eu juro pra vocês que eu pausei o episódio para tentar respirar e me acalmar com o que eu vi naquela cena. Aquilo foi horrível em tudo o que se possa imaginar: foi uma escapada feia e burra para os moldes e inteligência da Doutora; foi uma das resoluções mais mal editadas que eu já vi em toda a minha vida e, pior ainda, foi uma cena num ponto alto do episódio, já orbitando o clímax, e exigia que o roteiro desse a máxima atenção para fazer um bom crescendo até o ponto máximo. Só que em poucos segundos vem aquele Deus Ex Machina e pronto, a Doutora estava liberta…

Por outro lado, me agradou demais a atenção dada aos companions, cenas que deveriam aparecer na primeira metade da 11ª Temporada, mas tudo bem, pelo menos apareceram, certo? Esse é o tipo interessante de exploração de personalidade e vida pessoal dos personagens e que casa bem com a temática do capítulo, dando um pouco mais de pistas sobre as ações, o pensamento e os anseios de cada um. Mas aí, caindo na maldição dessa Era (que para cada coisa boa deve ter uma ruim) tem aquele monólogo bonito e doloroso do Graham com a Doutora e ela simplesmente escanteia o cara! Eu fiquei muito bravo com os roteiristas nesse ponto. A Doutora dar um puxão de orelha na Yaz e dizer que eles “fazem perguntas demais” é uma coisa que faz sentido esperar dela, mas tratar o Graham daquele jeito? A 13ª Doutora? Não faz nenhum sentido. Estragou um momento bonito a troco de nada, indo na contramão de tudo o que se construiu da Doutora até aqui e perdendo outra oportunidade de ouro para fazer com que ela se mostrasse mais.

Apesar dos pontos negativos do episódio, eu realmente gostei da história como um todo. O que me incomoda é que mesmo em episódios que eu tenho gostado da maior parte, a ponto de estarem solidamente acima da média, ainda vejo tropeços quase inacreditáveis para DW a essa altura do campeonato. Impossível não se irritar com Chris Chibnall por isso.

Doctor Who – 12X07: Can You Hear Me? (Reino Unido, 9 de fevereiro de 2020)
Direção: Emma Sullivan
Roteiro: Chris Chibnall, Charlene James
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Clare-Hope Ashitey, Aruhan Galieva, Nasreen Hussain, Buom Tihngang, Bhavnisha Parmar, Ian Gelder
Duração: 45 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning

  • Há spoilers! Para ler as críticas dos outros episódios, clique aqui.

Remembrance teve a difícil, mas vitoriosa tarefa de reintroduzir Jean-Luc Picard para a audiência moderna, dando conta de uma trama completamente nova e ao mesmo tempo profundamente enraizada na mitologia do adorado personagem de Patrick Stewart. Maps and Legends, por seu turno, carregou no texto expositivo para correr com a contextualização, muitas vezes se socorrendo de conveniências e esquecendo de fazer pleno uso do meio audiovisual. The End is the Beginning, o terceiro episódio seguido dirigido por Hanelle Culpepper, parece fechar a “trilogia introdutória” da 1ª temporada de Star Trek: Picard, introduzindo três novos personagens (na série), desenvolvendo o lado de Soji no cubo Borg e, claro, finalmente colocando o ex-almirante novamente no espaço.

É muita coisa para abordar em tão pouco tempo, sem dúvida, mas o roteiro de Michael Chabon e James Duff consegue equilibrar melhor exposição com ação, entregando um episódio mais redondo que o anterior que, porém, continua com problemas, mais notavelmente o “paraquedismo” de personagens e de saídas fáceis para questões complexas. Mesmo assim, considerando as quase duas décadas que separam a última aparição de Picard em qualquer tela e a retirada do personagem de sua aposentadoria bucólica em seu vinhedo francês, The End if the Beginning, quando visto em conjunto com os capítulos anteriores, estabelece muito bem a premissa da temporada, engajando o espectador nessa nova aventura e prometendo muito para o que vem por aí.

Iniciando com um flashback que marca o fim da carreira do protagonista na Frota Estelar e que estabelece a razão do relacionamento mais do que estremecido dele com a comandante Raffi Musiker, sua segunda em comando (como é visto em mais detalhes no prelúdio em quadrinhos Star Trek: Picard – Contagem Regressiva), que o culpa por abandonar seu posto e basicamente condená-la ao ostracismo, algo que é reiterado pelo doloroso diálogo dos dois no presente, no trailer de Musiker – vivida por Michelle Hurd – no meio de nada com lugar nenhum. O fascinante nesse aspecto é o esforço que a série faz para desconstruir a imagem perfeita que temos de Jean-Luc Picard. O comandante altivo de A Nova Geração dá lugar a um homem extremamente orgulhoso, que não é capaz de enxergar sua própria arrogância. Musiker coloca mais uma pá nessa cova do “Super Picard” quando joga na cara do ex-almirante sua incapacidade de procurá-la depois de tanto tempo, só fazendo quando precisa de um favor particularmente complicado. E quem achar que isso é um desrespeito ao personagem, pensem novamente, pois isso é, na verdade, uma grande homenagem a ele. Perfeição não tem espaço em uma série de valor e essa humanização de Picard é absolutamente essencial para seu personagem funcionar de verdade em tempos modernos, isso sem falar que a exposição dessas suas características negativas está em consonância com o que ele sempre demonstrou ser, mas que as lentes bondosas anteriores apenas procuravam focar nos aspectos positivos.

A introdução de Cristóbal “Chris” Rios (Santiago Cabrera) e de seu divertido holograma de emergência, que é uma versão menos desgrenhada de si mesmo, carece de qualquer sutileza. Depois de uma sugestão da rabugenta Musiker, Picard simplesmente aparece na impecável ponte da nave do piloto que, ato contínuo, ganha alguns minutos contextualizadores – com e sem Picard – que é mais uma amostragem de um roteiro que precisa correr para firmar sua história. A questão é que isso poderia ser evitado se essa trilogia inicial tivesse balanceado a aparição de seus personagens, talvez trazendo Musiker mais para o começo, o que permitiria que Rio entrasse mais cedo, sem que fosse necessário recorrer a diálogos que didaticamente estabelecem quem ele é e o que ele pensa da Frota Estelar em geral e de Picard em particular. Ou isso ou esses elementos poderiam simplesmente ser introduzidos mais vagarosamente nos próximos capítulos. Seja como for, o personagem em si parece ser interessante e Cabrera parece muito à vontade no papel.

A ação no Château Picard, com os romulanos assassinos chegando para eliminá-lo, por seu turno, foi um ótimo momento de ação pura, com excelentes coreografias que, muito acertadamente, mantiveram Picard comendo pelas beiradas, só se aproveitando dos estragos causados pelos mais do que eficientes Laris e Zhaban. Isso é essencial para a verossimilhança da série, que não pode simplesmente jogar um octogenário no meio da pancadaria sem tornar tudo ridículo. Tudo bem que a entrada providencial da doutora Agnes Jurati foi o típico momento clichê para fazer olhos rolarem, mas esse é um pecado menor no contexto geral.

Lá no cubo Borg, que tem a ação paralelizada – em seu fim – com o que acontece na residência de Picard, vemos Soji começar a despertar para o que realmente é: uma androide. A forma como isso é executado, porém, pareceu-me desnecessariamente confusa, a começar pela (re)introdução de Hugh, o ex-drone Borg vivido mais uma vez por Jonathan Del Arco, que deu vida ao personagem em três episódios de A Nova Geração. Agora diretor do Artefato, ele mostra sua admiração por Soji, permitindo-a que entreviste uma romulana que também fora drone Borg. Tudo bem que o objetivo era reiterar a importância de Soji para a temporada, inclusive apelidando-a de “A Destruidora”, mas a trama, aqui, pareceu-me cheia de idas, vindas, explicações estranhas e invencionices que atrapalharam a fluidez da narrativa, algo que nem mesmo a direção firme de Culpepper conseguiu corrigir com eficiência. De certa forma, pareceu um enorme derramamento de mitologia em questão de pouquíssimos minutos que acabou quebrando a tensão do momento.

Seja como for, agora a equipe de Picard parece estar formada, com um objetivo mais ou menos estabelecido (conveniente pacas deixar Musiker achar Bruce Maddox offscreen, não?), a série pode finalmente começar de verdade, sem precisar enxertar mais história pregressa ou salpicar a trama de elementos complicadores só pela vontade de complicar. Por vezes, a simplicidade é o melhor caminho e JL, com toda sua calma e empáfia, parece saber bem disso.

Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning (EUA, 06 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Michael Chabon, James Duff
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco
Duração: 43 min.

Crítica | Legends of Tomorrow – 5X02: Miss Me, Kiss Me, Love Me

plano crítico legends of tomorrow Miss Me, Kiss Me, Love Me (2020)

  • Há SPOILERS! Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Dando um bom pulo de qualidade e diversão de Meet the Legends para cá, LoT parece ter encontrado um bom caminho na perigosa premissa de reaproveitar a dinâmica de “caça aos vilões” que marcou a 4ª Temporada. Miss Me, Kiss Me, Love Me (título que brinca com a famosa canção Poison, do Bell Biv DeVoe) é um indicativo verdadeiro de que essa temática pode funcionar, agora que trabalha com uma alma condenada numa atmosfera bem diferente daquela em que apareceu Raputin e, ainda assim, logrou um baita resultado final.

Existem referências nos diálogos a Chinatown (1974), Tubarão (1975) e Os Simpsons, enquanto a trama se passa em Los Angeles, no ano de 1947, e no futuro. O clima de máfia em cores flerta com o noir, mas segue a escola cômica (no texto e na fotografia) de O Escorpião de Jade, o que me deixou preocupado no início, porque a quebra dramática no começo do episódio não flui bem, o que poderia colocar tudo a perder, já que a maior parte do tempo seria nesse cenário da “Era de Ouro”. É então que o texto de Ray Utarnachitt revela a sua verdadeira intenção e abraça a comédia sem abandonar o perigo da vez ou ignorar os esforços das Lendas para dar cabo de mais um infame liberado por Astra.

A estratégia utilizada pelo autor é perfeita: a parte cômica serve como costura do enredo, assim, vemos uma boa dose de cenas hilárias dentro e fora da nave, com destaque para Ava achando que cantava maravilhosamente bem e para o aniversário do pai de Behrad (o meu bloco favorito do capítulo). É através dessas pequenas distrações que a grande problemática do episódio se passa. Depois de estabelecida a proposta, todo o capítulo flui deliciosamente bem, de modo que é até possível perdoar a má desenvolvida colocação de Ray na Polícia, linha que só funciona no final, mas que mesmo assim não é algo assustadoramente ruim, apenas mal introduzido.

Nós já tivemos situações familiares cômicas e complexas quando visitamos a família de Nate algumas vezes na Temporada passada, então esse tipo de trabalho na série já é conhecido, e a melhor coisa em relação a ele é que funciona bem: os visitantes têm algo a esconder e a família, sem saber, coloca-os em situações delicadas (e por isso, cômicas), exatamente o que temos em toda a sequência com Nate e B tentando esconder quem de fato são… e o que fazem.

Eu achei que iria odiar a volta de Zari (novamente reciclagem de outro elemento da série, feito antes com Charlie), mas eu curti muito esse retorno dela. A personagem agora é um influenciadora digital daquelas bem patéticas, e que desconfia do trabalho do irmão e do estranho “professor” que ele levou para casa. Era já o tempo de algo dar errado, como de fato deu. Mas deu errado para melhor, claro. Nessa linha, só temos boas coisas para esperar dessa temporada. Louvado Seja!

Legends of Tomorrow – 5X02: Miss Me, Kiss Me, Love Me (EUA, 20 de maio de 2019)
Direção: David Geddes
Roteiro: Ray Utarnachitt
Elenco: Brandon Routh, Caity Lotz, Tala Ashe, Jes Macallan, Olivia Swann, Amy Louise Pemberton, Nick Zano, Dominic Purcell, Matt Ryan, Shayan Sobhian, Haley Strode, Jonathan Sadowski, David Diaan
Duração: 42 min.

Crítica | The Flash – 6X10: Marathon

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Embora eu não tenha checado mais de perto, tenho a impressão de que essas “premieres” de meio de temporada de The Flash normalmente falham em dar continuidade aos ganchos interessantes deixados pelo episódio anterior ao hiato. Foi assim no ano passado com The Flash and the Furious, que conseguiu desperdiçar, numa tacada só, os ganchos deixados pelo encarreiramento entre um episódio comemorativo e um crossover! Nesse sentido, Marathon consegue romper um pouco com a tradição, ao menos no que diz respeito ao formato e ritmo de desenvolvimento da temporada.

Não que o episódio seja em princípio muito diferente do que costuma rezar o manual: temos aqui uma típica “faxina pós-evento”, temperada por teasers ocasionais das subtramas que irão nos decepcionar divertir ao longo das próximas semanas. Porém, uma coisa que funciona melhor aqui se compararmos ao passado da série é justamente a estruturação da trama maior da temporada.

Continuando a boa pegada do novo time de showrunners, a história aqui tem mais cara de “começo de temporada” do que de “retorno do hiato” propriamente dito. E isso é muito bom, já que parece colocar em prática uma proposta de duas sub-temporadas mais curtas como alternativa à longuíssima “história sem fim” usual. Com a ameaça de Bloodwork/Hemoglobina devidamente contida (ao menos por hora) e poucas pontas soltas para adereçar, a produção consegue ter fôlego narrativo para se dar ao luxo de explorar o inconfundível terreno de filler sem soar tão prolixa e desorientada quanto costuma ser o caso.

Nossa faxina pós-Crise tem seus altos e baixos, e na verdade não faz muito mais do que nos informar a respeito das consequências da reestruturação geral do Multiverso da CW, agora concentrado em uma Terra-Primordial. Difícil escapar da impressão de que essa reintegração vai acabar se dando de forma um tanto desajeitada, em especial no que diz respeito a aproveitar a ocasião para efetivar uma renovação profunda na série — o que, no final das contas, imagino que se aproximaria mais de um reboot do que de qualquer outra coisa. Por outro lado, também não tenho como negar o charme dessa continuidade integrada entre as séries, que tem melhorado a cada ano e, especialmente nesse epílogo, lida de forma totalmente quadrinhesca com os efeitos da morte de Oliver Queen.

Temos aqui um Diggle (David Ramsey) em um momento intermediário entre o final da Crise e o finale de Arrow, trazendo para Barry (Grant Gustin) um presente especial deixado por Oliver, que coloca os dois em uma busca um tanto sem pé nem cabeça e que tem como propósito amarrar tematicamente a subtrama de nosso protagonista com a do episódio em si, ao mesmo tempo em que nos detemos um pouco mais sobre sua reação ao sacrifício do Arqueiro. Dada a relação dos dois e o papel do herói veterano em inspirar o heroísmo de Barry, a investida é mais do que justa e, exemplificando bem a temática do episódio, mostra os ganhos que uma desacelerada necessária pode conceder no momento certo.

Na prática, a simplicidade dessa linha narrativa faz do episódio um raro capítulo “Flash-lite” (ou seja, com pouca presença de nosso velocista titular), muito provavelmente devido à necessidade prática de se filmar tudo isso simultaneamente aos episódios da Crise. E tudo bem com isso! Muito mais vale ver pouco do nosso herói, em cenas mais alongadas que se servem de um drama concreto e sincero do que desgastar o personagem no típico gato e rato emocional sonífero de sempre, não? Ironicamente, quem sai melhor servida pela situação é ninguém menos que Iris West-Allen (Candice Patton), personagem praguejada por tanto tempo por subtramas preguiçosas e esculachadas e que finalmente tem tido a chance de se rehabilitar sob a batuta de Eric Wallace.

O grande feito do novo time produtivo foi realizar um bom episódio no qual o núcleo de Iris ocupa o protagonismo. Dado o estado em que a temporada passada nos entregou a personagem, é um feito e tanto. O núcleo do The Citizen continua cativante e aproveita a construção feita na primeira metade da temporada para mostrar que agora é capaz de sustentar suas próprias subtramas de forma legítima. Como bom fã das histórias focadas no Planeta Diário (e da clássica série Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman), eu acabo sempre sendo parcial a uma boa história de super-herói focada na investigação jornalística, e posso dizer que esse foi o melhor episódio para Iris desde… provavelmente sempre? A personagem consegue puxar seu núcleo narrativo sem cair nas fracas retratações usuais — o diálogo com Joe (Jesse L. Martin), em especial, mostra os personagens em uma boa forma que é rara de se ver em um bom tempo!

Paralelamente à revelação bem compassada da Black Hole e ao teaser do que parece ser uma nova iteração do Mestre dos Espelhos (num cliffhanger alongado sensacional), temos tempo ainda para um conflito tenso entre Nevasca (Danielle Panabaker) e uma nova Doutora Luz (Emmie Nagata) — com um traje ofensivamente ruim ao ponto de me lembrar dos Movellans de Doctor Who. Os armamentos alienígenas e a conspiração armadas pelo episódio são um passo na direção certa, no sentido de que eu penso que a série teria muito a ganhar em deixar de lado as tramas mais mirabolantes em favor de um super-heroismo básico, ao menos para explorar melhor nosso novo status quo.

Por falar nisso, Cisco (Carlos Valdes) confirma que Harry e Jessie aparentemente não conseguiram escapar do cataclisma da Terra-2, o que, se confirmado seria uma verdadeira lástima. Minha esperança é que o sumiço do (novamente ex-)Vibro esteja ligado a uma futura volta à forma, quem sabe encontrando o Conselho dos Wells em um algum “abrigo anti-Crise”? Eles não iam acabar com uma das melhores coisas da série, que é a tradição dos “infinitos Wells”, né? Né…?

No total, Marathon consegue explorar de forma interessante um formato que tradicionalmente não funcionou na série. Ironicamente, consegue isso ao fazer o mínimo e continuar se apoiando nos acertos dessa nova fase. O mérito pela temática de “a vida é uma maratona, não uma corrida” funcionar bem, por exemplo, aponta mais pelo fato de que é um “tema motivacional” que surge de forma orgânica, dados os eventos da primeira metade da temporada, ao invés de vir com a mão pesada de sempre para ocupar a cota de draminhas baratos, provando nossa teoria de que é tudo uma questão de jeito. Mas será possível que é preciso que o ator do Flash esteja ocupado gravando outra coisa para termos mais protagonismo por parte de Iris? Ou será que a produção finalmente pegou o jeito e fará jus à personagem? Veremos!

The Flash – 6×10: Marathon — EUA, 4 de fevereiro de 2020
Direção: Stefan Pleszczynski
Roteiro: Sam Chalsen, Lauren Barnett
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Danielle Nicolet, Jesse L. Martin, David Ramsey, Victoria Park, Kayla Compton, Eric Nenninger, Emmie Nagata
Duração: 43 min.

Crítica | Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

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Quando Aves de Rapina (e seu grandioso subtítulo que não será replicado aqui) acabou, fiquei inicialmente em conflito. Afinal, ele funciona constantemente como uma própria extensão da cabeça caótica de Arlequina (Margot Robbie), que enxerga o mundo como um grande parque de diversões colorido. Ao mesmo tempo, o longa nunca se entrega completamente a uma deadpoolzação de sua narrativa. Pelo contrário, a fotografia do excelente Matthew Libatique até se aproxima de um tom mais sombrio (lembrando suas parcerias com Darren Aronofsky), principalmente no terceiro ato do filme. É justamente daí que vem minha frustração inicial, pois eu queria ver mais dessa extrapolação, visualmente falando. 

No entanto, fui percebendo que Aves de Rapina não poderia ser apenas um surto pós-término de sua protagonista. Nem uma grande diversão inconsequente de alguém que está dando o dedo do meio para todo mundo, como eu queria. Por mais que tenha tenha saído de sua posição submissa ao Coringa e finalmente desfrute de uma autonomia, o mundo a volta de Arlequina ainda é dominado por homens. Por isso, existe aqui um equilíbrio coerente entre a comemoração de sua emancipação e um sinal de alerta nunca lhe deixa relaxar completamente. A Gotham que Arlequina vive é extremamente traiçoeira e suja, principalmente quando se trata de homens. 

Assim, é precisamente por isso que o grupo Aves de Rapina é formado. Não por serem mulheres que automaticamente se gostam, o que soaria um tanto simplificador e genérico, mas pela necessidade do momento. Todas estão atrás de um grande mcguffin (objeto desejado por todos e que move a trama): o diamante da família Bertinelli. De início, existe até uma corrida entre elas para ver quem fica com a jóia. Todavia, o que o grupo rapidamente assimila é que mesmo existindo uma grande diferença entre elas, há um inimigo em comum mais urgente. Se aquelas mulheres já são tanto massacradas pelos mafiosos e policiais de Gotham, não há porque elas facilitarem o trabalho deles matando umas as outras. Desta forma, acaba surgindo assim uma sororidade muito natural dentro daquele contexto específico e que depois se expande para um genuíno respeito após lutarem juntas em sincronia.  

Nesta lógica de sororidade, a sequência final (na qual todas estão reunidas) acaba assimilando uma movimentação que se utiliza principalmente de ataques combinados entre o grupo, ressaltando a importância do trabalho em equipe. Não só isso, como toda ação parece se equilibrar muito bem entre uma brutalidade coreografada da franquia John Wick (não à toa, já que Chad Stahelski, criador da franquia, ajudou nas filmagens) com a estética festeira de Arquelina, o que nos leva diretamente para a questão da harmonia entre o exagero e a sobriedade que se propaga pelo longa. Enquanto pernas estão sendo quebradas e rostos estão sendo cortados, confetes rosas explodem e uma trilha sonora pop fazem tudo parecer um grande videoclipe para maiores de idade, o que faz total sentido dentro da cabeça da anti-heroína.

Entre os outros elementos que Aves de Rapina nos remete ao caos mental de Harley, o principal é a maneira como a narrativa se organiza de um modo não linear. Quebrando a quarta parede ao interagir com o público, esta é uma história da protagonista para nós. Assim como alguém que está numa mesa de bar contando seus feitos, é normal uma interrupção para relembrar de algo que havia esquecido de mencionar. Além de servir como uma representação de sua cabeça embaralhada, é até interessante pensar que é a própria Arlequina esteja controlando o filme, podendo fazer o que quiser com sua linearidade e servindo até como uma outra emancipação em um nível metalinguístico. 

Falando em emancipação, além do próprio Coringa, este é um filme que tenta a todo jeito se afastar da imagem sexualizada de Margot Robbie em Esquadrão Suicida. Não há mais os planos do David Ayer que começavam nos pés da atriz e subiam até sua cabeça. Inclusive, em uma cena de assédio envolvendo Roman Sionis (Ewan McGregor alopradíssimo) e uma figurante, a diretora Cathy Yan sabe criar o terror apenas ao focar em suas pernas desnudas ou no rosto da atriz, contrastando bem a diferença que uma direção feminina faz. 

Similarmente, a própria Margot está cada vez mais confortável com o papel, sabendo abusar muito bem da falsa inocência irônica da Arlequina com suas caras e bocas sempre expansivas, além da debochada narração em off. Contudo, o melhor da personagem acaba saindo de suas interações com a jovem Cassandra Cain (Ella Jay Basco). Em uma relação de tutora e aprendiz, a menina é a primeira que trata a protagonista como alguém que existe por si só, e não intrinsecamente ligada ao Coringa, precisamente porque ela não sabe quem ele é. Nos poucos minutos em que estão juntas sem estarem sendo perseguidas, chegamos mais próximos de ver o que seria Harley como mãe — louca, mas com intenções honestas. Em contraste, todas as subtramas envolvendo as outras protagonistas nunca ganham força por si só, sempre presas a condição de tentar encaixar três mini histórias de origem, que apenas dão o básico de caracterização para que suas personagens não sejam meramente unidimensionais.

No fim, eu diria que Aves de Rapina é como ir à uma festa para beber sem moderação, mas acompanhado daquele seu amigo que te lembra de tomar água e de se controlar. Na hora, você sente raiva porque só quer curtir, mas, no dia seguinte, agradece. No meio de um passeio frenético pela mente de Harley Quinn em seu momento de empoderamento, o filme constantemente quebra sua onda lisérgica de alegria para nos lembrar que o mundo ainda é cruel com as mulheres e ainda há muito pela frente. Homens que usam de suas relações de poder para assediarem, padrastos agressores ou profissionais que tomam crédito por um trabalho feito por mulher. Aliás, nada mais irônico do que, no confronto final, todos os capangas estarem mascarados com caras de animais. Resume bem o longa como a união de mulheres que estão tentando sobreviver em ambiente predatório.

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn) – USA, 2020
Direção: Cathy Yan
Roteiro: Christina Hodson
Elenco: Margot Robbie, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell, Ewan McGregor, Rosie Perez, Ella Jay Basco, Chris Messina
Duração: 109 min.

Crítica | Jojo Rabbit

Crianças, é hora de queimar alguns livros!
– Fraulein Rahm

A comparação é inevitável. Creio ser perfeitamente possível afirmar que Taika Waititi conseguiu com seu Jojo Rabbit o mesmo tipo de feito delicado e difícil que Charles Chaplin e Mel Brooks alcançaram com, respectivamente, O Grande Ditador e Primavera para Hitler: trafegar com aparente tranquilidade no fio da navalha que é arriscar-se a satirizar o nazismo, desafiando o limite entre a humanidade e a desumanidade que deve ser o balizador para esse tipo de obra, como meu colega Luiz Santiago bem abordou em sua crítica do citado filme de Brooks. Usar a figura de Adolf Hitler e todas as atrocidades que decorrem daí para extrair risadas dos espectadores vem com o preço de se compreensivelmente pisar em calos e de se afastar alguns, ao mesmo tempo que inafastavelmente cria uma certa hesitação em todos os demais que resolverem encarar a obra até o final, hesitação essa oriunda do mero fato de rir, de até gargalhar em alguns momentos.

Jojo Rabbit conta a história de Johannes “Jojo” Betzler (Roman Griffin Davis iniciando sua carreira artística), um menino de apenas 10 anos que vive com sua mãe Rosie (Scarlett Johansson) em uma cidadezinha alemã nos estertores da Segunda Guerra Mundial depois da morte de sua irmã mais velha e da ausência do pai que foi lutar no fronte italiano. Mas Jojo foi completamente impregnado pela propaganda nazista e é um orgulhoso membro da Juventude Hitlerista ao ponto de andar fardado quase que o tempo todo, ter as paredes de seu quarto emplastradas de imagens de idolatria à tudo nazista e, como se isso não bastasse, ter ninguém menos do que o próprio Adolf Hitler (Taika Waititi) – ou uma versão dele, claro – como amigo imaginário. Nesse cenário, que conta ainda com a mentoria do Capitão Klenzendorf (Sam Rockwell) na arte da guerra, o jovem descobre a existência de Elsa (Thomasin McKenzie) uma adolescente judia em uma parede falsa no quarto de sua irmã, escondida lá por sua própria mãe.

O que segue daí é uma enternecedora história de amadurecimento em meio a um dos maiores horror que a humanidade já enfrentou e que Waititi costura sempre que pode em todas as linhas de diálogo que escreveu com base no romance Caging Skies, de Christine Leunens. O texto não esconde a lavagem cerebral dos jovens, a hipocrisia nazista e o retrato absurdo que é pintado do povo judeu, com direito a ilustrações detalhadas de como essa “raça” funciona e porque ela é tão “perigosa”, mas a forma como o diretor enfoca sua obra a enquadra, de certa forma, como um conto-de-fadas. Sei que muitos estranharão essa minha correlação em um filme com essa temática, mas é que as cores fortes especialmente do quarto da irmã de Jojo, além dos figurinos do garoto que combinam com o de sua mãe, além de diversos outros elementos cênicos e o fato de que a cidade onde vive permanece intacta quase que por toda a projeção e isso sem contar com o filtro esmaecido da fotografia de Mihai Malaimare Jr. (O MestreO Ódio que Você Semeia) e com a bela trilha sonora de Michael Giacchino, que levou o Oscar na categoria por Up – Altas Aventuras, reiteram essa abordagem do diretor que, volto a repetir, arrisca-se ao fazer isso.

O risco vem do grau de “fofura” que a fita inegavelmente tem se por um momento conseguirmos nos abstrair de toda a ambientação. O pequeno Roman Griffin Davis é em grande parte responsável por isso, com uma atuação mirim que é no mínimo espetacular, mas que aperta em todos os botões corretos para que adoremos o garoto mesmo quando ele fala as maiores barbaridades possíveis. A questão é que alguns poderão concluir – e não estarão errados, adianto logo – que Waititi tenta fazer o espectador esquecer-se momentaneamente dos horrores nazistas ao trabalhar seu filme dessa maneira mais lúdica e diretamente cômica, incluindo um desenvolvimento para Klenzendorf que é inegavelmente hilário. No entanto, tenho para mim que o diretor e roteirista, mesmo marretando algumas situações aqui e ali e fazendo uso de algumas conveniências, mantém o controle e o equilíbrio sobre sua narrativa ao balancear o que ele apresenta na forma de fábula com o estilhaçamento do conto de fadas nos 15 ou 20 minutos finais, afastando a “mera” sátira e o humor negro e recrudescendo a crítica direta, retirando o espectador do conforto que porventura estivesse, algo que até mesmo seu personagem imaginário (por si só um Hitler satírico inesquecível como o de Preacher, ainda que bem diferente) acompanha tematicamente, tornando-se cada vez mais absurdo e histérico.

Há, também, muito coração em Jojo Rabbit. A relação do menino com sua mãe é belíssima e funciona para amplificar o abismo entre a lavagem cerebral nazista e a inocência infantil, com Rosie encarando o fanatismo de seu filho com tristeza, mas sem confrontamentos que poderiam ter o efeito contrário. O mesmo vale para o jogo de aproximação de Jojo e Elsa, com momentos daqueles de rachar o coração, algo com que Giacchino quase que maquiavelicamente joga com sua trilha. Até mesmo a relação de Jojo com o Capitão Klenzendorf – rude no começo – desenvolve-se com fluidez e lógica, com diversas piscadelas importantes para a vida privada do militar caolho.

Waititi pode não ter ainda uma carreira tão longa ou ser um cineasta tão bom quanto Chaplin e Brooks, mas sua ousada sátira de época ao nazismo contribui, de sua própria maneira, para que o assunto não seja esquecido, especialmente hoje em dia em que as pessoas tendem a tratar os assuntos – simples ou complexos, inconsequentes ou graves – sem qualquer tipo de cuidado ou serenidade. Ao trazer um humor humano e inteligente para essa delicada equação, os horrores históricos são enfatizados e não diminuídos, abrindo espaço para conversas sadias ou para reflexões sobre o tema.

Jojo Rabbit (Idem, EUA/República Tcheca/Nova Zelândia – 2019)
Diretor: Taika Waititi
Roteiro: Taika Waititi (baseado em romance de Christine Leunens)
Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson, Taika Waititi, Sam Rockwell, Rebel Wilson, Alfie Allen, Stephen Merchant, Archie Yates, Luke Brandon Field, Sam Haygarth, Stanislav Callas, Joe Weintraub, Brian Caspe, Gabriel Andrews
Duração: 108 min.

Crítica | Doctor Who – 12X06: Praxeus

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  • Há SPOILERS! Leia aqui as outras críticas da Nova Série. E aqui as críticas da Série Clássica. Para livros, áudios, quadrinhos e listas de Doctor Who, clique aqui.

Como existe uma similaridade de proposta deste episódio com o pior da temporada até agora (Orphan 55), eu vou reservar um tempo para falar da estrutura desse 12º ano do do show antes de entrar no episódio propriamente dito. E isso se deve não apenas à já dita proximidade temática como também ao caráter humano que ele traz, envolvendo recorte étnico, de sexualidade e ambiental. Eu já imagino os Megazord do Ódio vazando óleo e usando o termo “politicamente correto” errado e fora de contexto. O primeiro ponto que eu quero levantar é sobre a questão ambiental. Já fiz um apanhado histórico em relação à série lá no texto de Orphan 55, e mantenho exatamente a mesma opinião aplicada a este aqui, de modo que não vou repetir a mesma coisa. Menos um assunto. Já o segundo ponto é sobre o que faz esse episódio ser problemático, e o que é mais triste: isso tem pouco a ver com o episódio em si.

Para não ser injusto, eu restringirei o meu escopo comparativo apenas à Nova Série, mas quero deixar claro que há um número gigantesco de exemplos na Série Clássica que dão suporte ao meu argumento. E para não perder tempo, vamos nos ater apenas a Doctor Who, certo? Vamos lá. É um padrão para a série, desde o seu revival em 2005, manter uma estrutura organizacional de temporadas que tenha mais ou menos essa dinâmica: “apresentação de problemática/tema da temporada; episódios de intervalo com mínima ligação; episódio chocante ligado à problemática/tema da temporada; episódios de intervalo com alguma ou nenhuma ligação; reta final com diferentes níveis de relação diante da problemática da temporada; Finale“. Ou seja, todos nós já estamos acostumados com os fillers elegantes ou charmosos de Doctor Who, embora existam exceções (óbvio!), como os fartamente lembrados Love & Monsters e Fear Her, embora não sejam os únicos. Com isso já tiramos um “problema que não é um problema” de cena: episódio filler ou relativamente solto na temporada nunca foi uma novidade na série. TODAS as temporadas do show são organizadas com “pausas para respirar” e dar a oportunidade de colocar o Doutor num cenário diferente, sem real compromisso com a temática maior. Este não é o problema. O problema aqui é…

… a absurda falta de sensibilidade de Chris Chibnall (e sim, isso é culpa dele porque uma das coisas que ele mesmo disse que tem é a opinião final em relação à organização dos episódios na temporada) em fazer com que uma trama tão destoada da temática central seguisse a um episódio do nível de Fugitive of the Judoon. Eu, como espectador, imaginava uma sequência imediata, mas se não isso, pelo menos uma ligação direta e dramaticamente relevante em torno daquela ideia! O que tivemos com Praxeus, que é um bom episódio, foi uma quebra total após um turbilhão de informações, interferindo de fato na qualidade da temporada e também na forma como a gente vê o episódio. E você pode argumentar que a passagem para este foi 100% mais elegante que a de Spyfall – Part Two para Orphan 55, e eu concordo. Agora vamos pensar um pouco sobre a maneira como a ligação foi feita: o que o roteiro estava tentando nos sugerir? Que os sinais colhidos em 3 continentes diferentes teriam alguma coisa a ver com o drama dos Judoon ou um assunto correlato, certo? Pois cá estamos, falando inteiramente de outra coisa. Que organização tenebrosa de grade da temporada, meu Santo Omega!

Já o episódio em si foi uma experiência divertidíssima para mim. Eu gosto muito da estrutura frenética de abordagem de Chibnall, que aqui escreve o roteiro ao lado de Pete McTighe, mesmo autor de Kerblam!. O que é melhor nisso é que o tratamento dado aos companions, ao menos em termos de uso deles em cena, está em constante melhora, o que é surpreendente. Mas tem coisa que é difícil aceitar. A Doutora deixar Yas ir sozinha para um lugar que acabaram de fugir de aliens? Ainda com outra viajante ocasional da TARDIS? Não comprei isso de jeito nenhum, mas ao mesmo tempo, gostei de ver as duas jovens em ação. Da mesma forma, achei estúpido Ryan entrar na ala de quarentena do hospital, mas gostei da ação solo dele no Peru. E vale aqui acrescentar que foi MUITO legal ver a série trazer pessoas de diferentes nacionalidades e visitar diferentes países. Todavia, lá no fundo da minha cabeça, continua algo martelando desde o terceiro episódio: quando é que a gente vai visitar outro planeta? Por favor, que tenha pelo menos UM episódio ambientado de fato em outro lugar, outra Galáxia! A gente gosta da nossa casa, mas vamos sair da Terra um pouco?

A disposição do problema do vírus foi outro ponto positivo aqui. Como o episódio se passa em diferentes lugares, foi interessante ver os esforços conjuntos para trazer alguma resolução à causa e nesse aspecto eu só tenho uma grande decepção: criaram um mistério insano diante dos aliens e quando a gente viu a cara deles… eram iguais a nós. Nem pra ter uma orelhinha maior, um olho de uma cor diferente, umas tatuagens, uma roupa diferente! De todo modo, foi uma boa participação desses indivíduos, assim como a do casal com problemas conjugais que acabam ganhando bastante destaque. Os tropeços em relação a eles ficam mais por conta do personagem de Warren Brown, que tem uma personalidade mais esquiva, fria, desapegada. Com tanta gente no episódio para dar atenção, faltou tempo para expandir e mostrar uma mudança mais orgânica para ele.

Sem didatismo no final (aleluia!), a temática ambiental funcionou perfeitamente bem e manteve a cara ágil da temporada, embora essa agilidade esteja ligada ao deslocamento de personagens + edição, não necessariamente de entendimento geral do problema na narrativa, que de fato acaba demorando um pouco mais para se mostrar de todo (o que para mim não é um problema, só estou apontando fatos). Eu certamente gostaria mais se este episódio estivesse no começo da temporada, não depois de uma porrada de novidades que tivemos uma semana antes. Por que, Chibnall? Por que?

Doctor Who – 12X06: Praxeus (Reino Unido, 2 de fevereiro de 2020)
Direção: Jamie Magnus Stone
Roteiro: Chris Chibnall, Pete McTighe
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Warren Brown, Matthew McNulty, Molly Harris, Joana Borja, Thapelo Maropefela, Gabriela Toloi, Soo Drouet, Tristan de Beer
Duração: 45 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends

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  • SPOILERS! Para ler as críticas dos outros episódios, clique aqui.

Em seu segundo episódio, Star Trek: Picard compreensivelmente continua tentando estabelecer as bases da história sendo contada e a relevância de Jean-Luc Picard em todo esse jogo de mistério e espionagem. No entanto, ao afastar completamente a ação do capítulo, Maps and Legends tem um roteiro carregado de textos expositivos que, diferente de Remembrance, fazem a narrativa andar de maneira claudicante, muito mais de lado do que efetivamente em frente.

Tenho plena consciência que as séries clássicas da franquia Star Trek e A Nova Geração em particular prezavam muito mais o diálogo do que a ação, muito mais o verbo do que os punhos ou os phasers, mas, mesmo tendo angariado um status cult, isso não quer dizer automaticamente que essa é a melhor maneira de se contar uma história no audiovisual. Falar no lugar de mostrar no cinema ou na TV é, na maioria das vezes, cacoete narrativo ou, simplesmente, atalho para pular etapa e chegar mais rapidamente a determinado destino. 

Maps and Legends usa esse expediente diversas vezes ao longo de sua duração, tornando o episódio cansativo e didático demais, com doses cavalares de tecno-bobagens para rechear conversas relativamente vazias, como se Michael Chabon e Akiva Goldsman tivessem decidido regurgitar todo o palavreado supostamente técnico para substituir desenvolvimento narrativo. Basta ver a investigação interminável de Picard e Laris no apartamento de Dahj em Boston, que tem como única função verdadeira revelar a existência da Zhat Vash, uma organização romulana ainda mais secreta que a Tal Shiar e que tem como base uma forte política anti-sintéticos. O resto é firula para ocupar tempo de tela, o que nem seria um problema muito sério se algo semelhante não acontecesse novamente na interação de Picard com Agnes Jurati e também entre Soji e Narek no Cubo Borg que, separado da mente cibernética coletiva, ganhou o nome de Artefato.

Falando no Artefato, é muito interessante como a série reapresenta os Borgs, agora não mais como uma ameaça – pelo menos não no momento -, mas sim como fonte de tecnologia para os romulanos que, no processo, libertam os que foram assimilados da prisão cibernética, deixando-os por aí como “restos” de uma operação aparentemente muito lucrativa. Há um potencial enorme nessa linha narrativa que espero fortemente que germine ao longo da temporada.

Outro momento muito interessante, desta vez tendo Picard nos holofotes, foi a chegada do almirante aposentado no QG da Frota Estelar. Não só ele fica indignado por não ser reconhecido na recepção por um jovem, como sua conversa com a Almirante Kirsten Clancy (Ann Magnuson) dá muito errado, revelando de fato o quanto seu orgulho e vaidade o impedem de enxergar o óbvio: por mais que Picard tenha tido seu valor, ele não pode viver de seus méritos passados para fazer o que quiser sem maiores explicações. Por mais que torçamos por Picard, temos que reconhecer que ele não só largou a Frota Estelar há uma década e meia, como também acabou de desancar sua organização em TV ao vivo. Sua frustração é visível, mas, sob vários aspectos, absolutamente devida.

Por outro lado, o preâmbulo que reconstrói a revolta dos sintéticos em Marte pareceu-me gratuita e desnecessária nesse momento da série, a não ser que, nos próximos episódios, continuemos a ser brindados com os detalhes do que ocorreu. Igualmente, a revelação de que o protagonista sofre de alguma doença terminal – e, pior, que ela teria sido responsável por sua explosão durante a entrevista – soou-me como artifício dramático desesperado para criar urgência em uma história que não parece precisar de mais esse elemento complicador. 

É claro que a confirmação da existência de um complô profundo que envolve a Federação e os romulanos (mais um alienígena fisicamente alterado para se passar por humano como em Discovery!) funciona como o grande chamariz do episódio, mas mesmo isso vem talvez rapidamente demais, sem que haja tempo algum para que o espectador mature o bombardeio de informações em sua cabeça. Seja como for, por mais batida que essa escolha possa parecer, há, assim como no caso dos Borg, um bom potencial a ser explorado aí.

Agora é esperar que o próximo episódio termine de vez com a armação da história da temporada, abrindo espaço para que o nível de didatismo seja reduzido, equilibrando-o com ação, mas não ação na base da pancadaria incessante, pois disso já temos demais por aí, e sim ação digna de um capitão octogenário saindo de sua aposentadoria. Star Trek: Picard tem tudo para ser memorável, mas, para isso, precisa saber deixar sua história fluir de verdade.

Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends (EUA, 30 de janeiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Akiva Goldsman
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis
Duração: 44 min.

Crítica | Os Órfãos

Na dinâmica de produção ocidental, quando uma narrativa é construída, as ideias precisam estar bem amarradas, explicadas até o desfecho, tendo em vista expor ao público as motivações para o desempenho dos personagens diante de suas ações. Os orientais são mais flexíveis, gostam de brincar com o excesso de subjetividade, indo ao extremo oposto das propostas que ocorrem do “lado de cá”. Isso não significa que todos os filmes ocidentais sejam óbvios demais, pois há casos que deixam espaço para interpretações múltiplas, ou finais que, ao flertar com a dubiedade, saem das padronizações comuns ao cinema comercial, necessariamente palatável para que haja o consumo. Essa era a proposta da cineasta italiana Floria Sigismondi para Os Órfãos. Não deu certo. A culpa, por sua vez, não é da polêmica escolha de seu desfecho que foge do convencional, mas das estratégias narrativas ao longo do processo de evolução dramática. São incongruências tão fortes que até no ato da escrita desta reflexão, não consegui manter alguma linearidade para traçar os pontos críticos que considero relevantes diante da experiência.

Mais recente tradução intersemiótica de A Volta do Parafuso, clássico gótico de Henry James, publicado em 1898, os realizadores flertaram com as possibilidades do final aberto, o que pode ser pensado como algo positivo, frescor para o excesso de didatismo do cinema contemporâneo, mas por conta de sua condução imprecisa da metade para o terceiro e último ato, acaba por se perder, tal como a protagonista, envolta numa redoma de mistérios, corredores com iluminação parca, aparições estranhas, etc. Antes de excursionar pelos problemas da narrativa, mas antes disso, creio que seja relevante tecer algumas considerações sobre o ponto de partida, isto é, o texto literário de James, alvo de polêmicas desde sempre na história da crítica literária do século XX, material transformado em roteiro pela dupla formada por Chad Hayes e Carey Hayes. As discussões psicológicas podem render um bom debate, mas infelizmente, do ponto de vista artístico, o filme é um punhado de imagens esplendorosas, criadas em meio ao texto estéril.

No enredo, um narrador não identificado acompanha o seu amigo a ler o manuscrito de uma governanta e sua falecida amiga, ambas funcionárias de uma antiga e macabra mansão. No desenvolvimento da história, o leitor fica entre a presença sobrenatural e as alucinações dos personagens que protagonizam os acontecimentos, com fantasmas que podem ser interpretados como extensões macabras de nossa realidade cotidiana, ou seja, alegorias para os medos e perturbações internas de alguém que transforma a sua existência numa assombrosa sequência de fatos aterrorizantes. Debatido largamente por especialistas, o final aberto da história nunca teve uma interpretação fechada, sendo assim, essa proposta diante de tal enredo não é exclusividade dos realizadores de Os Órfãos, mas parte do conteúdo antes mesmo de ser transformado em narrativa da era da reprodutibilidade técnica.

No filme, enfático diante de suas referências góticas, com edificações antigas, envoltas numa bruma misteriosa, a protagonista Kate (Mackenzie Davis) circula, tendo em vista cumprir a sua função de professora. Ela será a mentora de Flora (Brooklyn Price), uma menina aparentemente doce, mas construída de maneira ambivalente, o que nos deixa diante da dúvida sobre ser um anjo ou demônio. Miles (Finn Wolfhard), por sua vez, é o garoto problemático, expulso da escola por agredir um colega. Será assim que se tornará mais presente dentro de casa. Enquanto ele é hostil, agressivo com animais, em especial, ao pisar num peixe ou esmagar uma aranha com as mãos, a sua irmã é sempre sorridente e gentil. Com o avanço da narrativa, desconfiados por causa dos sons e imagens estranhos que circulam pelos espaços, a protagonista e nós, espectadores, não sabemos exatamente o que é real ou imaginário, o que é assombração ou pesadelo, quem de fato tem está bem ou tomado por más intenções. Até a primeira hora tudo isso é empolgante. O problema é que a atmosfera de pesadelo logo começa a ficar tediosa, com os personagens viciados dentro do eixo circulatório da narrativa que não avança, mantendo-se dentro da equação suspense + susto + aparição sobrenatural = pesadelo ou situação macabra real. O que a história entrega é que algo de muito estranho ocorreu com a professora anterior, detalhes entregues de maneira parcial pela Sra. Grose (Barbara Marten).

A direção de fotografia assinada por David Ungaro é bastante colaborativa, em especial na iluminação dos ambientes e movimentação da câmera, o que nos permite uma identificação com a protagonista ao adentrar numa zona tão incomum ao seu cotidiano. No entanto, a estética não é suficiente quando o texto falha. Tudo bem que a obra que serve como ponto de partida traz o vocábulo “volta” no seu título, mas em Os Órfãos, a circularidade depois dos 50 primeiros minutos de filme torna o seu desenvolvimento prejudicial, algo que torna ainda mais inaceitável o desfecho que não podemos chamar de aberto, mas escancarado. Uma opção, que por sinal, não sabemos se faz parte de uma ousada e autêntica vontade de sair do lugar comum ou a busca dos realizadores por polêmica. Tudo bem que as noites praticamente sem dormir tornaram os dias da protagonista mais difíceis, o algo que justifica o seu mergulho no tecido alucinatório costurado ao longo dos 100 minutos de filme, mas ainda assim, não é suficiente para justificar a falta de ação no segundo ato, talvez o mais prejudicado de todos, principalmente pelo excesso de aparições dos fantasmas (ou alucinações) diante de Kate, imagens promovidas pelo bom trabalho de Brenda Taylor enquanto supervisor dos efeitos visuais da produção, recurso que por sua vez, não é suficiente, como dito no começo do parágrafo, haja vista as demandas dramáticas concebidas de maneira inadequada.

Inicialmente temos uma exposição de fatos que estabelece bem a intrigante estadia na Mansão da família Fairchild. Há pouco jumpscare, a trilha sonora de Nathan Pollock promove a imersão, elementos que possibilitam a imersão. O design de produção de Paki Smith é apurado, geralmente um recurso obrigatório em narrativas com toques góticos. Os clichês estão lá: a ala sombria que não deve ser acessada, as bonecas com representatividade dúbia, tal como os manequins de uma sala de costura, assustadores, parte da direção de arte de Nigel Pollock, responsável por preencher os espaços da cenografia de Justine Wright. São repetições comuns aos filmes situados em casas assombradas que não incomodam, ao contrário, permitem a identificação diante do vasto imaginário das habitações amaldiçoadas por presenças nefastas. O que torna as coisas problemáticas é a maneira como a direção conduz tais clichês, materiais subaproveitados na condução da história que parece enrolar tanto que em seu desfecho, basicamente não nos importamos mais com o que vai acontecer. Sobre o uso de jumpscare, cabe ressaltar, é comedido na primeira parte e torna-se excessivo do meio para o final, a ponto de se tornar cansativo.

Escolhida como tema da segunda temporada da série A Maldição da Residência Hill, focada em Shirley Jackson em seu primeiro ano, a história de Henry James continua sendo de interesse da indústria cultural, pois oferta aos espectadores, muitas possibilidades de entretenimento. Se as novas versões continuarem dentro deste esquema de final aberto, é bem possível que agrade em partes, o público consumidor, mas irrite a nossa crítica preguiçosa, interessada em filmes que explicam demasiadamente o seu conteúdo ou tente, mesmo que erroneamente, conseguir ser o “furo” ao analisar e amarrar o desfecho da história que a própria diretora tentou, ao longo da divulgação, explicitar que é ambivalente, bastante aberto, tendo em vista provocar os espectadores, convidando-lhes para um “banquete” de interpretações próprias, oriundas da espectatorialidade mais ativa. A indignação diante de nosso campo de reflexão veio quando buscava um horário ideal para assistir ao filme. Antes mesmo da aparição das sessões disponíveis, uma série de textos agregados no Google são apresentados. Com títulos de qualidade duvidosa, oriundos do jornalismo cultural sensacionalista, boa parte das críticas de Os Órfãos focavam na explicação do final, ou em dizer, de maneira taxativa, que a narrativa é a pior produção de terror de todos os tempos. Curioso que em um deles, a pessoa diz não ser especialista em terror. Então, como dizer taxar assim de maneira tão irresponsável? Sinal dos tempos, uma era de horror que não acomete apenas o interior das produções, mas que se desdobra em nossa realidade, talvez até mais horripilante.

Os Órfãos (The Turning, EUA – 2020)
Direção: Floria Sigismondi
Roteiro: Carey W. Hayes, Chad Hayes, Henry James
Elenco: Barbara Marten, Brooklynn Prince, Denna Thomsen, Finn Wolfhard, Mackenzie Davis, Mark Huberman, Niall Greig Fulton
Duração: 100 min.

Crítica | Joias Brutas

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Cinco anos antes de Joias Brutas, em 2014, os irmãos Benny e Josh Safdie dirigiam o longa Amor, Drogas e Nova York. Naquela história, a moradora de rua Harley estava presa em uma rotina que se baseava em conseguir dinheiro suficiente para comprar uma quantia de drogas que lhe deixasse anestesiada por um dia. Na manhã seguinte, a mesma coisa, e assim ia passando o tempo, um dia após o outro. Assim, era como se a protagonista estivesse sempre confiando seu futuro ao acaso ou na sorte. Afinal, não há como prever o aparecimento de um surto psicótico ou uma overdose. Já em Bom Comportamento, de 2017, o fugitivo Connie entrava uma crescente de decisões impulsivas que iam formando uma grande bola de neve, na tentativa de conseguir dinheiro para pagar a fiança de seu irmão preso. De certo modo, o novo trabalho dos Safdies é um grande amálgama desses dois filmes.

Em Joias Brutas, o joalheiro e judeu Howard Ratner (Adam Sandler) — assim como os outros protagonistas dos Safdies —  possui um vício. No seu caso, apostar, não só com dinheiro, mas, consequentemente, com a sua própria vida. Após conseguir uma rara pedra de opala de mineradores da Etiópia, Ratner começa diversas negociações paralelas e acaba se enrolando com todas elas. Todavia, para quitar suas dívidas anteriores, ele vai se afundando em mais apostas arriscadas, principalmente envolvendo jogos de basquete.

Desde o início somos transportados para a frenética vida de Ratner. Ele é um personagem que está em constante movimento e sempre ao telefone negociando novos esquemas que surgem decorrentes dos anteriores. Se não há nenhum momento de respiro durante a narrativa, é porque o filme segue a mesma lógica de um mercado financeiro especulativo. Não há tempo de pensar, só de uma reagir imediatamente, em uma relação muito direta entre causa e consequência que parece se reinventar através de um caos a todo momento. Se Joias Brutas é uma experiência tão sufocante desde que começa, um dos principais motivos é porque, nós, com uma visão de fora, conseguimos ver que o protagonista está cavando sua própria cova, ao mesmo tempo que ele está totalmente cego diante do jogo que está imerso.

Para Howard, cada ato desesperado é como uma tentativa de retomar controle de algo que já está totalmente longe de seu alcance. Mais do que estar no poder, como ele indica em uma determinada conversa com Kevin Garnett (jogador de basquete que interpreta a si mesmo), é sobre ter a sensação de comando. Este mesmo raciocínio é o que acontece com o próprio Garnett, que, quando está sob a posse da pedra de opala, acredita que faz partidas melhores na NBA

Como alguém que se aventurou em apostas, fica fácil, para mim, entender toda essa questão central de falso-controle que envolve o protagonista. Lembro de passar horas discutindo com amigos sobre a lógica de uma roleta. Entre várias apostas possíveis, uma delas é se a próxima bola a ser sorteada será da cor preta ou vermelha. A chance de cada uma são iguais, sempre. Entretanto, eu só entrava com dinheiro toda vez que havia, no mínimo, uma sequência de cinco bolas de uma cor para apostar contra ela. Na minha cabeça, eu tinha a impressão de que era mais seguro apostar assim. No entanto, estou apenas me enganando, pois nada impede que venha a sexta bola da mesma cor. Não há como ser mais esperto que o próprio sistema.

Me perdoem pela digressão acima, mas tal analogia me pareceu cabível como um resumo do que é assistir Joias Brutas. O personagem vivido por Sandler possui tanta convicção que está contornando a situação que chegamos a nos iludir, junto com ele, conforme a progressão da trama. O pior ainda é que o roteiro escrito pelos próprios Safdies e por Ronald Bronstein nos manipula justamente porque cede pequenas vitórias momentâneas, apenas para trazer uma catástrofe maior no segundo seguinte. Chega a ser curioso que no meio da história, Howard receba uma ligação positiva do seu médico sobre o resultado da colonoscopia que ele havia realizado no início do filme. Ele fica genuinamente aliviado por alguns segundos, mas não consegue nem assimilar este momento, porque está discutindo no meio de seu escritório.

Aliás, nessa lógica de um protagonista que está constantemente precisando se provar, a escolha de Adam Sandler acaba sendo a melhor possível. Com exceção de Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson, o ator parecia ter entrado em uma zona de conforto nesta década em papéis cômicos voltados para um nicho muito específico de público. Desta vez, assim como o próprio Howard, Joias Brutas soa como uma grande prova para Sandler mostrar seu valor e que, no fundo, o declínio de sua carreira teve muito mais a ver com escolhas erradas do que sua capacidade como ator. Há um misto de sofrimento e de energia que vai se adaptando muito bem para cada situação que o personagem se encontra, acompanhando a bipolaridade de picos do longa. 

Por fim, em Joias Brutas, os Safdies fogem do submundo dos junkies, das drogas e dos rejeitados de seus filmes anteriores, mas, no fundo, eles apenas estão mostrando o outro lado da mesma moeda. Agora, eles vão para uma Nova York dos leilões, dos empresários, rappers e apostas para abordar o mesmo tema: o vício. E, pobre ou rico, o vício é a ruína do homem. Algo que os diretores parecem entender melhor do que ninguém no cinema norte-americano moderno. 

Joias Brutas (Uncut Gems) – USA, 2019
Direção: Josh Safdie e Benny Safdie
Roteiro: Josh Safdie, Benny Safdie e Ronald Bronstein
Elenco: Adam Sandler, Julia Fox, Lakeith Stanfield, Idina Menzel, Kevin Garnett, Judd Hirsch, The Weeknd, Tilda Swinton, John Amos, Trinidad James, Eric Bogosian, Marcia DeBonis, Pom Klementieff,  Natasha Lyonne
Duração: 135 min.