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Crítica | Star Trek: Picard – 1X09: Et in Arcadia Ego, Part 1

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A primeira parte do episódio duplo de encerramento da temporada inaugural de Star Trek: Picard é, juntamente com Stardust City Rag, o mais Star Trek até agora de uma série que poderia ser muito mais do que tem conseguido ser. Os ingredientes narrativos clássicos estão todos aqui, começando pelo planeta misterioso que abriga uma utopia robótica, passando pelo divertido exagero das orquídeas espaciais e culminando com bons momentos de ação típicos de uma história baseada em um presságio apocalíptico.

Et in Arcadia Ego não só é um título que diretamente referencia um paraíso bucólico (a região da Arcádia, no centro do Peloponeso, era reputado na Grécia Antiga como literalmente o paraíso na Terra), como também é o nome de duas pinturas semelhantes do pintor francês Nicolas Poussin, do século XVII, retratando a morte em meio a uma cena pastoral. Digo que a referência é à Poussin e não ao italiano Giovanni Francesco Barbieri, que pintou antes de Poussin obra de mesmo tema, com o mesmo título, pois o fato de haver duas obras por Poussin é uma rima temática com os dois quadros pintados por Data que é parte do mistério que Picard começa a desvendar já no primeiro episódio. É, sob todos os aspectos, uma bela forma de se criar um movimento circular para a narrativa.

Aliás, esse movimento circular acontece também pela introdução de Altan Inigo Soong, filho de Noonian Soong, criador de Data (e, claro, de Lore), e que é vivido também por Brent Spiner, desta vez sem a maquiagem e as lentes de sua contrapartida sintética. Trazer o próprio Data de volta seria uma trapaça feia e a escolha feita, aqui, é elegante e respeita o legado da Nova Geração, ao mesmo tempo, que funciona para trazer o querido ator de volta de maneira relevante.

Se a chegada a Coppelius é extremamente tumultuada, com um breve combate espacial interrompido pela chegada de Sete e do Cubo Borg, além das surreais aparições das tais “flores espaciais”, quando a tripulação de Picard está em terra, a história reduz seu ritmo e, mesmo diante da chegada de uma gigantesca frota romulana, tudo vai sendo abordado sem pressa, com Picard reencontrando Sete e Elnor e, depois, todos seguindo para o vilarejo dos sintéticos que é, claro, a Arcádia do título em latim. O equilíbrio entre ação e exposição consegue ser alcançado muito rapidamente, sempre com o objetivo de impulsionar a narrativa.

O retorno do tema da doença terminal de Picard, algo tocado antes tão brevemente que eu nem mais lembrava direito, é outra tentativa de resgatar a direção narrativa da temporada, que sofreu demais pela necessidade quase doentia de seus showrunners de marretar todas as referências e coadjuvantes famosos possíveis para agradar o fã nostálgico. Fica evidente a falta de desenvolvimento desse elemento ao ponto de o roteiro de Michael Chabon e Ayelet Waldman ter que voltar a ele mais de uma vez em parcos 45 minutos, quase que pedindo desculpas por terem enterrado o assunto por tanto tempo. Mesmo prevendo uma cura milagrosa no episódio final – a não ser que o plano seja mudar o nome da série – espero que haja uma função narrativa maior para a doença terminal do protagonista do que só atrair simpatia pelos seus atos heroicos.

Era bastante previsível que a revelação da visão cataclísmica para os sintéticos seria exatamente o catalisador da tragédia. Afinal, já cansamos de ver o Paradoxo da Predestinação sendo usado por aí e, com a revelação de que há sintéticos ainda mais evoluídos em algum lugar (ou tempo) do universo – será que esse pode ser o gancho para a conexão com Discovery? -, a inevitabilidade desse caminho fica patente.

Tenho minhas dúvidas, porém, se estamos diante de uma temporada que encerrará um arco nela mesma, ou se uma possível 2ª temporada continuará diretamente essa mesma história. Digo isso, pois parece haver muita coisa ainda a ser revelada e abordada, especialmente os tais sintéticos super-evoluídos, além de toda a política envolvendo romulanos, Frota Estelar e a proibição geral de sintéticos. Considerando o tempo que foi perdido em episódios que andaram de lado, o último episódio teria que ser tão repleto de encaixes e soluções, que temo o mais completo tumulto. Mas, claro, só saberemos na semana que vem.

Chega a ser curioso como o espírito de uma série clássica conseguiu ser capturado com muito mais perfeição aqui do que em episódios como Nepenthe, claramente criado com exatamente esse objetivo. Fica muito evidente que as famosas e tão cobiçadas e cavoucadas “referências”, hoje em dia, mais atrapalham do que beneficiam a arte de contar uma história. É torcer para que o encerramento da temporada mantenha essa linha e compense um pouco os problemas que a série teve.

Star Trek: Picard – 1X09: Et in Arcadia Ego, Part 1 (EUA, 19 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Akiva Goldsman
Roteiro: Michael Chabon, Ayelet Waldman
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jeri Ryan, Brent Spiner
Duração: 45 min.

Crítica | The Hunt (2020)

plano critico the hunt 2020

Atenção atenção lacradores de todo o mundo! Denunciadores de lacadores de todo o mundo! Direitistas e esquerdistas! Politicamente corretos e incorretos! Que tal caírem na porrada, empunharem armas e… vence quem conseguir sair vivo no final?“. Pois esta deveria ser a sinopse oficial de The Hunt (2020), filme de Craig Zobel, escrito por Nick Cuse e Damon Lindelof (recém-saídos de Watchmen) e que dentre muitas outras coisas, coloca representantes de espectros de pensamento político e de práticas sociais distintas para literalmente lutarem por suas vidas.

A trama significa várias coisas, mas não há absolutamente nada de profundo no enredo, de modo que levar muito a sério a chacota que os roteiristas claramente estão fazendo com toda a gente é produto de mente sandia. Ao mesclar uma porção de ingredientes do horror à dinâmica básica dos filmes de ação, os responsáveis pela obra nos colocam em uma “luta pela vida” que passa a ter um outro significado quando aparece um casal casal no posto de gasolina e joga na cara do espectador uma coleção de frases feitas, defesas de causas e contrariedades em opiniões polêmicas, tudo para efeito simples de ser louco e pseudo-engajado num filme que só quer rir da cara de extremistas e chatos-teóricos-de-todas-as-coisas.

Esse é o tipo de obra que consegue enganar os briguentos por causas nulas. “Ah, mas porque a mensagem…“. Calma aí, que mensagem? Comédias cínicas — especialmente as que brincam com realidade política — tendem a expor um caldeirão de ideias e, em torno delas, colocar os personagens agindo, não necessariamente defendendo algo. Se vocês prestarem bem atenção no final do filme, entenderão que, para começo de conversa, o grande evento da caçada sequer poderia ter existido e a casca supostamente “democrata” dele é o escracho hilário em torno de situações absolutamente reais, mas não colocadas dentro dos contextos corretos. Pegaram a ironia? Pode-se encontrar aí crítica ao “exagero ideológico“, crítica à “postura beligerante” de certos grupos ou “crítica aos extremismos“, mas na real, o filme só está se divertindo em cima da insanidade de algumas pessoas: aqueles que querem levar às últimas consequências as coisas mais banais possíveis… ou aqueles que querem inventar um problema humanitário diferente para cada nova ação daquele que está ao lado.

No todo, The Hunt é uma divertida caçada de gente podre que se acha “gente boa” a um bando de gente podre que se acha “gente boa“. É no exagero, nas piscadelas militarizantes das hilárias e rápidas mortes que vemos no início (Emma Roberts e Justin Hartley foram os melhores!) que o texto constrói a sua zombaria a tudo e a todos, não necessariamente às ideias desses indivíduos, mas à contradição dessas ideias com o mundo à sua volta e à própria hipocrisia dessas pessoas quando confrontadas com situações de crise. A trilha sonora também faz parte da brincadeira, porque cria uma atmosfera clássica e ponderada para uma moderna luta mortal que começa sem motivo e termina com um erro cometido por ego ferido e uma vontade patológica de vingança. Em suma, é uma metáfora empírica para qualquer briga de internet que já vimos ou já tivemos.

Embora engaje de forma inteligente o público, The Hunt peca porque fica apenas na casca mesmo, até na maneira como dá sentido às duas mulheres mais poderosas da obra, maravilhosamente interpretadas por Betty Gilpin (minha favorita) e Hilary Swank. É até possível aceitar o desenvolvimento do filme mantido à base de tiro, porrada e bomba, desde que o destino final da narrativa quisesse chegar em algum lugar tão prático quanto caçada que representou, não apenas na sugestão ou interpretação que joga para o público. Se unirmos o escrupuloso início do filme (um dos meus momentos favoritos da direção de fotografia, junto com a cena do bunker e a da cozinha) com o flashback, entendemos que existe sim um “sentido geral” pretendido pelos roteiristas, mas esse sentido é enfraquecido ao máximo no final. Nem os diálogos rasos e a frequente estupidez de alguns personagens (escolhas propositais, mas cuja repetição enerva um pouco) conseguem frustrar tanto.

A esse despeito, porém, a vitória da Bola de Neve é uma última excelente sacada dos autores. Agora só falta alguém vir aqui comentar que o roteiro é pró-Sanders por causa disso. E claro, dizer que o filme, seus criadores e o crítico que deu 3,5 para a obra são “lacradores” (viu, Laklasteh?). É como eu sempre digo (e como The Hunt deixa bem claro para quem quiser ver): ninguém tem o monopólio da babaquice.

The Hunt (2020) — EUA, 2020
Direção: Craig Zobel
Roteiro: Nick Cuse, Damon Lindelof
Elenco: Betty Gilpin, Hilary Swank, Ike Barinholtz, Wayne Duvall, Ethan Suplee, Emma Roberts, Christopher Berry, Sturgill Simpson, Kate Nowlin, Amy Madigan, Reed Birney, Glenn Howerton, Steve Coulter, Dean J. West, Vince Pisani, Teri Wyble, Steve Mokate, Sylvia Grace Crim, Jason Kirkpatrick, Macon Blair, J.C. MacKenzie, Justin Hartley
Duração: 90 min.

Crítica | Amazing Stories (2020) – 1X03: Dynoman and the Volt!!

O revival de Amazing Stories – ou Histórias Maravilhosas, como ficou conhecida por aqui – tem exatamente a mesma missão de sua predecessora: trazer histórias de fantasia simples e descompromissadas para um público que não quer mais do que uma dose semanal de algo na linha da boa e velha Sessão da Tarde. E, se lembrarmos de The Cellar e The Heat, os dois primeiros episódios da antologia, esse objetivo tem sido alcançado.

Dynoman and the Volt!! apenas reitera o bom caminho que a série vem seguindo, desta vez usando o clichê de uma história de super-heróis para abordar o clichê de uma história sobre envelhecimento e conexão entre gerações. E, quando uso o termo clichê, não o faço em seu sentido negativo que muitos conectam a ele. Clichê é, ao contrário, apenas um artifício narrativo muito repetido e o que determina se ele será bom ou não é o roteiro como um todo e não seu mero emprego. E, mesmo que as pretensões do episódio não sejam lá estratosféricas, os clichês que vemos em utilização ampla funcionam bem e resultam em uma simpatia de história que, como as demais, deixará o espectador com um sorriso no rosto ao seu final.

Nela, o rabugento e grosseirão Joe Harris (o saudoso Robert Forster em seu penúltimo papel), um homem de terceira idade que sofrera um acidente, muda-se para a casa de seu filho Michael (Kyle Bornheimer) e acaba estabelecendo contato mais estreito com seu neto mais novo Dylan (Tyler Crumley), fã de quadrinhos e que adora criar suas próprias fantasias para sair atrás de gostosuras no Halloween. Os laços entre avô e neto são estabelecidos ao redor de um anel de brinquedo do super-herói Dynoman que chega misteriosamente pelo correio para Joe 60 anos depois de ele o ter encomendado. Obviamente, o anel dá poderes ao ancião e a história parte daí para trabalhar três gerações da família Harris em um conto de aquecer corações.

O roteiro de Peter Ackerman é simples talvez até demais, já que telegrafa cada movimento futuro, além de explicar o que vemos por meio de diálogos que somente existem para serem redundantes. Com isso, a direção de Susanna Fogel não consegue fugir muito do básico e, como não há muita história para realmente ser desenvolvida, acaba valendo-se de elipses que por vezes mostram-se atabalhoadas e perdidas, quebrando um pouco a lógica narrativa. Isso é particularmente sensível na ação do clímax que não faz exatamente muito sentido e parece extremamente corrida, ainda que “bonitinha”.

O que realmente funciona no episódio é a sempre agradável presença de Forster e a imediata conexão do ator com o jovem Crumley, de maneira que os dois acabam formando uma dupla improvável, mas que funciona do começo ao fim. Mais do que isso, o episódio consegue evitar ser muito meloso, mas sem deixar de entregar belos momentos de ternura capitaneados pelos dois e, por vezes, também contando com o Harris “do meio” também bem interpretado pelo simpático Bornheimer.

Na seara dos efeitos especiais, apesar de uso muito esparso de CGI e alguns efeitos práticos, eles são bem empregados e não detraem do resultado final, lembrando que eles não têm um fim e sim mesmo e, portanto, não pesam na narrativa. O objetivo é fazer os efeitos ficarem em segundo, talvez até terceiro plano, só aparecendo quando realmente essenciais para justificar a premissa do episódio.

Dynoman and the Volt!! é um adorável conto de conflito de gerações que tem o pano de fundo “da moda” dos super-heróis, mas que realmente cativa pela marcante presença de Robert Forster em tela. Com mais um acerto, Amazing Stories vem se firmando com um porto seguro para escapismo televisivo de qualidade, o que pode parecer uma contradição em termos, mas que, lá no fundo, não é não.

Amazing Stories – 1X03: Dynoman and the Volt!! (EUA, 20 de março de 2020)
Direção: Susanna Fogel
Roteiro: Peter Ackerman
Elenco: Robert Forster, Tyler Crumley, Kyle Bornheimer, Alison Bell, Toby Nichols, Morgan Gao
Duração: 47 min.

Crítica | Kingdom (2019) – 2ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.

Como afirmei na crítica da 1ª temporada de Kingdom, a série sul-coreana de zumbis passada durante o feudalismo veio como uma lufada de ar fresco para o já bem desgastado sub-gênero. Afinal, não é todo dia que nos deparamos com intrigas palacianas servindo de pano de fundo para uma infestação de desmortos enlouquecidos que, diferente do usual, dormem durante a noite (ou assim nos levaram a crer!).

Mas a temporada inaugural, de seis episódios velozes e furiosos, teve seus problemas, dentre eles uma narrativa sócio-política maniqueísta demais que não permitia o desabrochar da história nos momentos de calmaria sem zumbis e a necessidade de se manter certos segredos – lembrem-se que o primeiro episódio até escondia a natureza da série – que segurava um pouco a pancadaria desenfreada. Continuava sendo uma diversão completa, mas faltava algo.

E a boa notícia é que, agora, não falta mais!

A 2ª temporada, com a mesma quantidade de episódios, utiliza muito bem a vantagem de já ter toda sua premissa explicada, além de não haver qualquer tipo de amarra em termos de reviravoltas ou surpresas para o espectador. O que vemos é a continuação imediata do cliffhanger em que descobrimos que os desmortos não gostam é de frio, com dois episódios quase inteiros repletos de memoráveis sequências de ação de deixar qualquer um roendo as unhas. E o melhor é que até a intriga política por trás acaba se beneficiando disso, já que ela ganha algumas nuances interessantes, como a relativização da relação entre o Conselheiro Real Cho Hak-ju e sua ardilosa filha, a Rainha Cho, e a revelação de que nem toda a casta nobre é composta de gente que não liga para nada a não ser seu próprio umbigo, já que essa característica, antes, ficava restrita ao altivo príncipe herdeiro quixotesco Lee Chang.

Muito claramente existe uma melhor conversa entre os dois “lados” dessa história, algo que é bem-vindo e certamente oriundo da necessidade de se lidar com os zumbis sem intervalos, sempre com soluções engenhosas para permitir um respiro entre sequências sanguinolentas épicas. Ainda acontecem algumas pequenas reviravoltas, como a traição do leal Mu-yeong e o envenenamento de Cho Hak-ju, mas elas são orgânicas, suaves e perfeitamente dentro da lógica estabelecida pela história. Não é mais a surpresa pela surpresa, como a questão dos desmortos acordados durante o dia e sim algo que contribui efetivamente para o desenvolvimento tanto dos personagens quanto da narrativa.

Os dois elementos que realmente diferenciavam a série – sua belíssima fotografia e sua reconstrução de época cuidadosa – continuam firmes e fortes aqui, com os diretores Kim Seong-hun e Park In-Je aproveitando-se ao máximo das filmagens em locação, com planos gerais de fazer o queixo cair como o da sequência da morte de Mu-yeong na floresta gelada com árvores de tronco branco ou quando as hordas de monstros ganham inacreditavelmente boas coreografias em meio a campos abertos em momentos que certamente foram de extrema complexidade cinematográfica tamanha a quantidade de extras e de acontecimentos simultâneos. O figurino salta aos olhos até mesmo na estranha beleza que é ver Lee Chang e seus soldados com túnicas ensopadas de sangue.

Por vezes, é bem verdade, o CGI – normalmente utilizados com parcimônia em alguns panos de fundo – falha e mostra sua “cara”, ameaçando retirar o espectador de determinadas sequências como a da corrida/combate nos telhados do palácio real. Mas a grande verdade é que isso só acontece se quisermos ser muito implicantes, pois é palpável o detalhismo em todos os outros quesitos, com essa sequência que destaquei e que acontece mais para o final da temporada sendo particularmente espetacular.

Desgosto, porém, do subaproveitamento quase criminoso de Seo-bi, a médica vivida por Bae Doona, que parece muito mais um artifício narrativo de revelação das características da planta que ressuscita os mortos do que uma personagem propriamente dita. Do jeito que os roteiros são escritos, ela é como se fosse uma nota de rodapé, um detalhe conveniente para explicar ao espectador aquilo que muitas vezes é perfeitamente possível deduzir apenas com imagens. E, quando ela é inserida na ação – o que só acontece de verdade mais para o final – sua presença é quase invisível. Considerando o belo desenvolvimento que Lee Chang ganhou, ainda que talvez indo rápido demais de príncipe mimado para salvador dos fracos e oprimidos, era de se esperar algo semelhante para a médica, o que acaba não acontecendo, retirando de Doona a oportunidade de brilhar.

Por outro lado, é de se elogiar a forma como a história fica redonda e cuidadosamente encerrada, com todas as pontas sendo devidamente amarradas em um conjunto harmônico e lógico que tem início, meio e fim definidos. É por isso que o epílogo, que só existe para justificar uma 3ª temporada, acaba ficando forçado, introduzindo outros elementos exógenos à trama, mais especificamente o mistério da origem da planta e o verme aparentemente em estase que acorda no rei mirim. Se eu ignorasse esses 10 minutos finais que são completamente expletivos e aceitasse o subaproveitamento de Seo-bi, a temporada seria perfeita não só como temporada, mas também como fechamento de uma saga. Infelizmente, porém, a necessidade tipicamente hollywoodiana tomou de assalto a produção sul-coreana e, muito provavelmente, a história continuará.

Mas não podemos ter tudo, não é mesmo? Se a continuidade é inevitável, só nos resta torcer para que ela seja tão boa quanto a 2ª temporada, com a torcida para que a personagem de Bae Doona ganhe o destaque e a relevância que merece.

Kingdom ( 킹덤, Coréia do Sul – 13 de março de 2020)
Direção: Kim Seong-hun, Park In-Je
Roteiro:  Kim Eun-hee (baseado em seu webcomic)
Elenco: Ju Ji-hoon, Ryu Seung-ryong, Bae Doona, Kim Seong Gyu, Kim Sang-ho, Heo Joon-ho, Jeon Seok-ho, Kim Hye-jun, Jung Suk Won
Duração: 269 min. por episódio (6 episódios no total)

Crítica | Legends of Tomorrow – 5X07: Romeo V. Juliet: Dawn of Justness

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  • Há SPOILERS! Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Eu simplesmente me recuso a acreditar que uma nave como a Waverider só tenha UM banheiro! Como é possível uma coisa dessas, minha gente? Bom, pelo menos no quesito cômico esse tipo de absurdo gerou duas sequências divertidas, embora forçadas diante da tal questão ‘inacreditável’. A primeira dessas cenas — que abre este episódio maravilhosamente intitulado Romeo V. Juliet: Dawn of Justness — estabelece que estamos realmente diante da partida de Ray Palmer, o Eléktron. O fechamento de mais uma antiga porta para as Lendas.

E que ótima oportunidade para uma saída, fazendo-a como uma “última missão” dramática, hilária e ao mesmo tempo essencial para Ray, não? A presença de Shakespeare aqui traz alguns momentos vergonhosos de caracterização no início, mas isso é tão rápido e tão pequeno diante do restante do episódio que se torna até um pequeno charme. Na primeira parte do episódio o time se divide em duas partes: Charlie e os meminos vão até a taverna onde está o Bardo e Sara e as meninas estão em uma reunião do Book Club na nave, dando as boas-vindas à novata Zari. Pois digam o que disserem, mas a festa do Book Club estava pelo menos umas 156 vezes melhor que a festinha na taverna.

E o mais legal é que a direção de Alexandra La Roche também acompanha essa mudança de espaço e atmosfera, colocando bons momentos de ação em cada uma das “saidinhas”, mas em sequências diferentes, de modo que a montagem mostra sequências sérias e de pura diversão contrastadas com o que acontece no núcleo vizinho. E encaixado no meio dessa duplicidade narrativa — que não trata de assuntos diferentes: é que apenas uma parte da equipe sai para campo na primeira metade do episódio, já que a missão parecia ser inicialmente fácil demais e não havia necessidade de todos fora da nave —  temos Astra novamente em um dilema, o que talvez a faça mudar de ideia em relação à parceria que fechou com Constantine… embora ainda não saibamos quais serão as consequências após ela saber o que é que o mago está procurando.

O que me deixa imensamente feliz em um episódio como esse é como a simplicidade do enredo se junta a algo necessário e importante para a série (realizar logo a saída de alguém que já tinha confirmado a saída) e ao mesmo tempo criar uma partida emocionante e criativa com isso, seguindo a história da temporada. A briga entre Nate e Ray me pareceu um estranho exagero em meio a tudo isso (afinal, estamos falando de dois amigos adultos, um deles recém-casado!), mas ao mesmo tempo compreendi o uso desse exagero pelo roteiro, porque de certa forma combina com a postura bem criançona dos dois melhores amigos aqui.

A primeira peça do ‘Loom of Fate’ foi então encontrada (disfarçada em anel), o adeus de Ray foi oficializado e mais um passo foi dado no misterioso drama entre Constantine e Astra. Quando a coisa é escrita com qualidade, não precisa ser nada complexa e nem épica, não é mesmo? Basta ser um bom drama e que nos traga diversão, como essa lindeza aqui (mista de melancolia) nos trouxe.

Legends of Tomorrow – 5X07: Romeo V. Juliet: Dawn of Justness (EUA, 17 de março de 2020)
Direção: Alexandra La Roche
Roteiro: Ray Utarnachitt, Matthew Maala
Elenco: Brandon Routh, Caity Lotz, Maisie Richardson-Sellers, Tala Ashe, Jes Macallan, Courtney Ford, Olivia Swann, Amy Louise Pemberton, Nick Zano, Dominic Purcell, Matt Ryan, Ramona Young, Shayan Sobhian, Sarah Strange, Rowan Schlosberg, Art Kitching, Liam Howe, Riley Orr, Jesse Inocalla, Brett Harris
Duração: 42 min.

Crítica | The Flash – 6X15: The Exorcism of Nash Wells

  •  SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Embora não desenvolva os ganchos preparados pelo episódio anterior no sentido específico que eu mais esperava (leia-se: com Barry Allen tomando as rédeas da situação pós-morte da Força de Aceleração), The Exorcism of Nash Wells consegue manter a boa qualidade dessa sequência de episódios e exemplificar do que a série é capaz, desde que a produção se esforce minimamente para desenvolver seus potenciais.

O que é legal é que esse episódio mostra aquilo que eu sempre defendo em relação a essas séries da CW: não é nem preciso dispensar o foco dramalhão-motivacional que pauta as produções do canal (voltadas a um público adolescente, imagino — faz tanto tempo que nem sei mais dessas coisas) para tornar a coisa mais palatável para um público mais amplo incluindo, é claro, o nerdão que no fundo preferiria estar assistindo a um bom episódio de desenho ou lendo um gibi do personagem. O capítulo traz, afinal de contas, uma enxurrada de cenas focadas na rememoração de sofrimentos passados e filosofadas profundas dos personagens sobre seu estado emocional. Mas, pelo menos para mim, a coisa funciona por dois motivos: 1. as cenas emergem de maneira orgânica e tem ressonância temática com o foco do episódio (a perda que Nash (Tom Cavanagh) sofreu no passado) e 2. elas não entram no roteiro em detrimento do desenvolvimento das outras subtramas.

Por falar nelas, quantas! Só não digo que a série chega a ter coisa demais acontecendo ao mesmo tempo porque o ritmo do episódio consegue sustentar cada um dos núcleos muito bem, sendo que cada um deles explora terrenos já conhecidos para o público que se mantém firme e forte no seriado até hoje. Fazendo um bom uso tanto da personagem de Cecile (Danielle Nicolet) quanto de várias tecnobugigangas já estabelecidas no passado da série, o resgate psíquico de Nash consegue ter tempo para explorar dramaticamente o seu passado que, embora não tenha me surpreendido, conseguiu me ganhar pela execução bem acabada das reações emocionais dos personagens. As sequências do passado de Nash, além de fazerem crescer o personagem, mostram um pouco do que é perdido em parte com o fim do multiverso — a total liberdade de explorar cenários totalmente distantes da usual Central City.

Na frente de casa, a subtrama envolvendo a Mestra dos Espelhos e sua disputa com o clã de meta-assassinos com poderes de luz (a descrição faz parecer mais maneiro do que de fato é!) trouxe excelentes sequências de ação, com destaque para os efeitos visuais dos poderes de Sunshine (Natalie Sharp). A dinâmica do Team Flash central — Barry, Cisco (Carlos Valdes) e Caitlin (Danielle Panabaker), claro! — consegue sustentar muito bem ambas as histórias da semana, e o Velocista Escarlate consegue bancar duas resoluções heroicas muito bacanas em tempo recorde. Sério, acho que já tivemos sequências de dez episódios que não tiveram um momento sequer para Barry quanto ele teve nos vinte minutos finais desse capítulo.

E isso foi uma virada e tanto, já que no comecinho do episódio eu comecei a perder fé de que continuariam com a boa fase para Barry. Não curti muito a primeira cena de discussão sobre a criação de uma nova Força de Aceleração: aquele é o Barry que pra mim já deu, com um chororô do tipo “Mas a gente precisa fazer isso, gente, não interessa que vocês não saibam, vocês não sabem o que eu to passando! E eu vou usar drogas de aceleração sim, por que, alguma coisa de mal da veio disso?”. Me poupe, vá, seu Allen!

Por sorte, essa sombra do passado não deu mais as caras ao longo do episódio, e a atuação heróica dele nas duas frentes compensou a escorregada mostrando um pouco do Barry ideal: reagindo rápido com soluções inusitadas e, de preferência, sem falar com a voz embargada de choro. Ironicamente, tivemos até uma boa dose de choro no confronto com Thawne — mas, veja bem, choro mesmo, justificado e sustentado de forma orgânica pelo roteiro (e, na medida do possível, pela atuação), e não o chororô daquele momento inicial. Mais do que espantar a assombração acelerativa-negativa de Eobard Thawne, o capítulo consegue dar mais um passo no verdadeiro exorcismo que a série necessita: da caracterização torta que o personagem principal teve que sofrer ao longo dos anos.

The Exorcism of Nash Wells trouxe boas doses de ação, comédia (Cecile se preparando para o exorcismo / nocauteando Wells com um tabuleiro de Ouija!) e — claro — altas doses de personagem. Embora essa mistura tenha dado as caras de forma constante em toda a história da série até hoje, a fase atual tem conseguido fazer a mistura funcionar de forma mais empolgante e intensa, servindo aos personagens e ao enredo com desenvolvimentos orgânicos cujo payoff acontece no tempo de exibição mesmo. Uma história onde o Team Flash derrota Thawne mais uma vez é mil vezes mais interessante do que “teaser nº 16 do retorno do vilão no final de temporada”, e felizmente é o que tivemos aqui.

The Flash – 6×15: The Exorcism of Nash Wells — EUA, 17 de março de 2020
Direção: Eric Dean Seaton
Roteiro: Lauren Barnett, Sterling Gates
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Jesse L. Martin, Tom Cavanagh, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Danielle Nicolet, Efrat Dor, Victoria Park, Kayla Compton, Patrick Sabongui, Natalie Sharp
Duração: 43 min.

Crítica | Avenue 5 – 1ª Temporada

O espaço é frio, capitão.

O escocês de pais italianos Armando Iannucci começou sua carreira no mundo do entretenimento na BBC, trabalhando em diversas produções televisivas e radiofônicas. Já com sua carreira bem fincada em solo firme, ele ganhou notoriedade com a sensacional sátira política The Thick of It, estrelando Peter Capaldi e que depois ganharia até um longa-metragem, Conversa Truncada, dirigido pelo próprio Iannucci. Atravessando o oceano, ele criou Veep para a HBO, ficando à frente do programa por cinco bem-sucedidas temporadas, além de co-escrever e dirigir o sensacional A Morte de Stalin em 2017, de volta à Inglaterra.

Esse breve resumo de sua carreira é apenas um indicador de que seu nome é suficiente para atrair a atenção dos espectadores e isso é particularmente verdadeiro no caso de Avenue 5, sua nova empreitada produzida pela HBO, já que a série é bem diferente daquilo que costumeiramente Iannucci faz. No lugar de sátiras políticas, sua grande especialidade, o showrunner partiu para a ficção científica como pano de fundo para ele abordar, com muito humor, um recorte da sociedade moderna.

A premissa é muito simples: um luxuoso cruzeiro espacial de algumas semanas sofre um acidente que o retira de seu curso normal, ampliando a estimativa de retorno para mais de três anos. Está instalado o completo caos em espaço confinado que coloca à prova a humanidade de todos ali. Mas Iannucci não se preocupa em criar personagens realistas ou colocar o lado sci-fi da história em primeiro plano. Ao contrário, o que vemos desfilar diante das telas poderia acontecer em qualquer outro lugar (um prédio em chamas como em Inferno na Torre, um navio afundando como em O Destino do Poseidon e assim por diante), mas as pessoas que populam a gigantesca nave cujo nome batiza a série são meramente arquétipos que somente funcionam de verdade porque a escolha do elenco foi inspiradíssima.

No comando da nave, temos o capitão Ryan Clark, vivido pelo eterno Dr. House, Hugh Laurie, que não passa de um fanfarrão empregado do magnata Herman Judd (Josh Gad), um completo incompetente ganancioso. Circulando ao redor dos dois, há a passageira encrenqueira Karen Kelly (Rebecca Front), o relações públicas niilista Matt Spencer (Zach Woods), a assistente caninamente obediente de Judd, Iris Kimura (Suzy Nakamura) e a inteligente engenheira Billie McEvoy (Lenora Crichlow), somente para citar os principais. Com exceção de Billie, todos os demais personagens, inclusive aqueles não citados aqui, tem uma importante característica em comum: são desagradáveis até a raiz do cabelo.

Iannucci nunca teve medo de colocar no centro dos holofotes personagens impossíveis de se conectarem com os espectadores, mas, aqui, ele coloca sua galeria inteira de personagens nessa categoria, cada um de seu próprio jeito, seja por um ser individualista, o outro esnobe e aquele outro simplesmente chato e cansativo. É como se Avenue 5 – a nave – fosse um repositório do pior que a humanidade tem a oferecer, com foco, claro, nas lideranças e o quanto elas estão desconectadas com seus liderados. Por isso eu mencionei que só a seleção eficiente do elenco torna a navegação pelos capítulos algo prazeroso de se ver, particularmente os trabalhos de Laurie, aqui uma versão light de seu clássico médico emburrado, e Gad em uma versão, digamos, malignamente inspirada de seu LeFou, em A Bela e a Fera.

Os momentos cômicos transitam entre ótimos e hilários acertos que são repetidos ad nauseam com pequenas variações como as gags envolvendo tudo aquilo que acaba orbitando a nave, o bom e o moderadamente bom, como a franqueza desconcertante de Matt, o completo descaso de Judd, a “bateção” de cabeça de Clark (com direito a olhos rolando o tempo todo por parte de Billie) e a encheção de saco de Karen, além do humorista sem graça Jordan Hatwal (Himesh Patel) e o que simplesmente não funciona, ou seja, basicamente todo o cansado núcleo na Terra que tem Rav Mulcair (Nikki Amuka-Bird), controladora da missão, na linha de frente e que só parece existir em razão do cliffhanger.

Mesmo com os problemas, o que não faltam são risadas se o espectador entrar no espírito dessa comédia que tem o egoísmo, o descaso, a ambição e a incompetência como seus elementos qualificadores no que certamente é uma visão pessimista de Iannucci, mas que está longe de ser irreal. Avenue 5 talvez incomode mais por desnudar justamente esses aspectos, fazendo-nos não exatamente nos conectarmos com seus personagens (pois não dá, vão por mim), mas sim – e muito pior – nos vermos neles de uma maneira ou de outra, como em um espelho que só mostra aquilo que não queremos ver.

Mas, mesmo quem não quiser mergulhar a essa profundidade encontrará divertimento nessa bolha de podridão que flutua no espaço sem poder voltar para a Terra. Avenue 5, já renovada para a segunda temporada, é mais um acerto de Iannucci, desta vez bem fora de sua zona de conforto.

Avenue 5 – 1ª Temporada (EUA, 19 de janeiro a 15 de março de 2020)
Criação e showrunner: Armando Iannucci
Direção: Armando Iannucci, Natalie Bailey, Annie Griffin, Peter Fellows, Becky Martin, David Schneider, William Stefan Smith
Roteiro: Armando Iannucci, Simon Blackwell, Tony Roche, Georgia Pritchett, Will Smith, Peter Fellows, Ian Martin, Peter Baynham, Jon Brown, Charlie Cooper, Daisy Cooper, Sean Gray
Elenco: Hugh Laurie, Josh Gad, Zach Woods, Rebecca Front, Suzy Nakamura, Lenora Crichlow, Nikki Amuka-Bird, Ethan Phillips, Himesh Patel
Duração: 267 min. (nove episódios)

Crítica | Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

E chegamos à metade da penúltima temporada de Better Call Saul, momento solene que significa, basicamente, que só teremos mais 15 episódios dessa maravilha televisiva no total geral. Mas não adianta sofrer por antecipação, não é mesmo? Dedicado a Max parece ser, sob todos os aspectos, um momento de virada, mas não algo apressado ou óbvio e sim algo costurado com elegância e cadência por Vince Gilligan e Peter Gould, além de sensacionais momentos cômicos envelopados em uma penumbra sombria.

Better Call Saul é definido por muitos como uma comédia, mas eu nunca interpretei a série dessa maneira. Sim, há humor embutido em sua narrativa como parte do que é Jimmy McGill, algo amplificado sobremaneira sempre que ele, como Saul Goodman (usando ou não o nome de sua persona trapaceira), faz aquilo que melhor sabe fazer. Portanto, sempre houve risadas e muita diversão nessa jornada cativante de um dos mais bem desenvolvidos personagens da televisão moderna, mas a série é sem dúvida dramática, rivalizando com a própria Breaking Bad em muitos aspectos. Dedicado a Max, de certa forma, tem seu humor em doses mais generosas, à flor da pele, com momentos legitimamente hilários, mas que funcionam muito mais para amplificar a sensação de tudo vai dar errado do que como algo feito para realmente divertir.

Mas não se enganem, pois eu me diverti muito. A belíssima cena em que Kim conta para Jimmy sua conversa com Kevin é absolutamente irretocável, com Rhea Seehorn e Bob Odenkirk tão à vontade que eu seria capaz de assistir um spin-off inteiro só com Odenkirk fazendo Kim e Seehorn Kevin. A cumplicidade entre eles foi maravilhosa, com o retorno, com força total, daquela conexão “bandida” que os dois têm, refestelando-se com pequenos golpes. A excitação fica no ar, assim como a mais plena satisfação dos dois personagens.

E é claro que os criativos golpes de Jimmy – como Saul – para atrapalhar a vida de Kevin e atrasar a evicção do último morador da terra em que o dono do Mesa Verde quer colocar seu call center são, todos eles, de dar câimbras estomacais, com direito ao xerife indeciso que sempre tem que fazer uma ligação e o empreiteiro que fica enfurecido com as óbvias malandragens. Novamente, uma sitcom rasgada tendo Saul Goodman, o advogado malandro, no centro da atenções, entraria facilmente na minha lista de “séries que eu gostaria muito que um dia fossem feitas”.

Mas toda essa comicidade, como disse, não é gratuita e não existe apenas com um fim em si mesma. Ela, muito ao contrário, parece ser um agente catalisador de um futuro sombrio. Já cansei de defender, em resposta a comentários sobre o futuro de Kim, que eu acho que Gilligan e Gould têm planos diferentes para ela do que uma desgraça que leve à sua morte ou algo assim (eu até já especulei que acho que ela aparecerá naquele futuro em preto-e-branco de Jimmy como Gene), mas isso não quer dizer que o futuro dele não será carregado de máculas. Notem bem que Kim parece muito menos interessada em fazer justiça para o velhinho que se recusa a sair de casa do que sabotar seu cliente, como se ela quisesse livrar-se desse fardo, mas sem simplesmente desistir dele. Ah, mas ela é indecisa, alguns dirão. Talvez, mas não é apenas isso. Há uma parte de Kim que gostaria de trocar seus tailleurs bem recortados pelo equivalente feminino dos ternos espalhafatosos de Jimmy. Kim tem Giselle Saint Claire em seu coração, por assim dizer.

Esse seu conflito interno fica evidente quando ela confronta Rich, o sócio sênio do escritório onde trabalha, e que já farejou exatamente essa ambiguidade nela. Mas sua reação quando ele oferece justamente o que ela quer – largar Mesa Verde – é justamente o oposto, como uma criança que só passa a ligar para seu brinquedo antigo novamente quando sua mão diz que vai doá-lo. Esse conflito a corrói, pois, diferente de Jimmy, ela não consegue se sentir à vontade com seus impulsos e isso não pode acabar muito bem profissionalmente para ela, pelo menos não enquanto ela não souber manter um equilíbrio interno ou permitir que uma “personalidade” tome conta da outra.

E se esse subtexto melancólico e sombrio já fica saliente logo abaixo da superfície do lado Jimmy-Kim do episódio, ele é pujante na narrativa focada em Mike, que se recupera de seu ferimento quase auto-infligido em um vilarejo mexicano de casas de barro batido com uma incongruente fonte moderna e preta no centro da praça com a inscrição que dá o título do episódio. Como muita gente lembrará, Max é o apelido de Maximino Arciniega, químico e parceiro de Gus em sua empreitada criminosa que Hector Salamanca assassina a mando de Don Eladio Vuente, chefão do cartel de drogas. Tenho para mim, porém, que Max foi mais do que apenas um parceiro de negócios de Gus e os dois eram amantes.

Essa fonte de pedra preta é como uma chaga, uma marca disforme – apesar de completamente geométrica – que parece representar não exatamente uma homenagem pura a Max por Gus, mas sim o desejo de vingança que sai da boca de Gus como uma pústula ao final do episódio. Mike, que está perdido também entre sentimentos conflitantes, precisa ser resgatado e Gus sabe muito bem disso, oferecendo-lhe mais uma vez um lugar ao seu lado. O contraste desses sentimentos pesados com toda a ambientação bucólica e serena ao redor torna tudo ainda mais terrível e corrosivo.

Dedicado a Max é uma metade de temporada da mais alta categoria que nos faz gargalhar ao mesmo tempo em que tememos pelos nossos personagens queridos. É como quando alguém faz uma brincadeira particularmente espirituosa sobre coisa séria, transformando a risada espontânea em algo que depois, em retrospecto, sentimos vergonha de ter soltado.

Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max (EUA, 16 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Jim McKay
Roteiro: Heather Marion
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Dean Norris, Steven Michael Quezada
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 46 min.

Crítica | The Walking Dead – 10X12: Walk With Us

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Não aguento mais isso.

A grande dificuldade de analisar séries como um todo é a possibilidade de tudo ser posto a perder em uma temporada (como pra mim foi o caso da última de Game of Thrones), por isso costuma-se analisá-las dentro do recorte da temporada, que mesmo bem encaminhada, também pode ser terrivelmente prejudicada por apenas um episódio, principalmente quando esse marca um momento decisivo das ações. Infelizmente, Walk With Us se enquadra nessa definição, um episódio “grande” que arrega em escala e toma escolhas no mínimo questionáveis dentro do panorama final do arco dos sussurradores, consequentemente, afeta diretamente vários bons elementos quase consolidados na temporada e não faz valer a sua construção até aqui, principalmente por parte dos três últimos singelos episódios.

O principal problema começa nas vias orçamentárias. Fica difícil decifrar o motivo, mas desde meados da 7ª Temporada, a queda de investimento por episódio era gritante e a série se tornava cada vez mais “feia” do ponto de vista técnico, mesmo sendo naquele período, ainda com a queda de audiência, uma das séries mais lucrativas do momento. Parecia uma falta de culhões não arriscar na série em meio ao decrescente público, contudo com Angela Kang assumindo como showrunner, na prática a produção passou a correr mais riscos no roteiro, experimentando diversos métodos diferenciados para tentar conquistar novamente o telespectador, com o agravante de perda e desvio de elenco constantes para se resolver.

Então, se desde a 9ª Temporada esses riscos vêm sendo tomados, a única justificativa plausível para essa baixa grana investida seria a maior extração de lucros possível para compensar a queda de público, o que acaba sendo um tiro no pé, porque quando se pode entregar momentos de grande escala, que fizeram os picos de audiência no passado, não há investimento e eles precisam ser desviados de forma artificial e sem peso na narrativa, perdendo o pouco de público casual que ainda acompanha.

Pois bem, todo esse desabafo válido para esse período mencionado foi para começar a demonstrar a minha indignação de “A Batalha de Hilltop” não ter nem acontecido. O gancho cirúrgico de Morning Star foi absolutamente inútil, porque o episódio o engole em elipse e mostra os personagens basicamente prontos para fuga e Hilltop caída em míseros 5 minutos de uma batalha (mostrada na íntegra em promo da semana) fechada em planos, e ao mesmo tempo, contemplativa em câmera lenta com fins previamente estabelecidos. Além de esvair todo o senso de temor colocado pelo episódio anterior, abusando da suspensão de descrença (como eles conseguiram sair daquela situação? Pouco importa? Não é assim, TWD…), as decisões tomadas durante o episódio orquestram arcos de forma tão protocolar que desvincula qualquer importância que eles poderiam ter.

Por exemplo, separar os personagens “pós-batalha” é algo que já foi feito na 4ª Temporada, depois da guerra com o governador, só que dentro de um período bem mais longínquo, o que elaborava um panorama tranquilo para desenvolver os personagens e extrair o máximo do desespero por eles estarem tão distantes uns dos outros. Mesmo que o recorte aqui seja mais curto e com um destino certo, geograficamente não há qualquer sentido porque a horda gigante de zumbis que destruiu Hilltop não sumiu do nada (ou melhor, sumiu porque o roteiro “precisava”), e se houvesse o investimento necessário, ela continuaria perseguindo cada personagem ali mostrado para dar continuidade minimamente à urgência que deveria ser aquela situação. 

Tudo bem, não “houve” orçamento para fazer isso, aí sim, seria uma ótima hora de implementar uma elipse, colocando os personagens bem mais à frente e em território já próximo a Alexandria, justificando não haver zumbis por perto. Contudo, a outra forma como o roteiro tenta contornar a falta de tensão de perigo próximo, que seria a procura das crianças que em teoria fugiram com Ezequiel, quebra esse raciocínio, já que ele não se encontrava no ponto combinado com Daryl e ainda estava preso em Hilltop, onde rapidamente Daryl o encontra embaixo dos escombros e mais rapidamente ainda volta quando as crianças são encontradas.

Podem ter ocorrido várias elipses temporais e geográficas aí? Sim, mas a montagem é tão desorganizada que não elabora esses saltos com coerência e os move inteiramente por conveniência. Confirmando o sumiço protocolar das linhas de força zumbi, Negan e Alfa passeiam sozinhos pelo campo de mortos pós-batalha, abrindo-se um com o outro de forma inescrupulosa, desenhando expositivamente o grande acontecimento de antemão esperado entre os dois graças às HQs. Sendo precoce como o roteiro, afirmo que a morte dela e de Gama como fato isolado é deveras impactante, principalmente pensando em não ser episódios de meio ou final de temporada, contudo, na prática, na construção da temporada elas não fazem tanto sentido pelas amarras preguiçosas. Indo por partes, Gama e Alden na disputa com o sobrinho não foi algo bem elaborado no episódio anterior para ser nesse, só para a morte de Gama ter o pensamento “Poxa, ela finalmente conseguiu fazer as pazes com ele, iria poder curtir a sobrinha, mas acaba morrendo”, sério? 

Parando para pensar, essa intriga inicial é incoerente com o próprio Alden, visto que ele era o Salvador e foi perdoado, pelo histórico, ele deveria ter demonstrado compaixão logo de cara, mas não, fez frescura que acabou matando a mulher nas mãos de Beta, que também ficou de frescura ao se expor em terreno aberto somente para ter o prazer de humilhar Gama esperando que ela virasse zumbi para levá-la a Alfa e mostrar o quanto ele é obediente. Sorte dele que Alden é tão desprovido de inteligência que ao invés de acertar uma flechada nele, preferiu acertar em Gama para ela ter uma morte “digna”, mas convenhamos senhor Alden, dava para você ter feito os dois, não? E as conveniências nas mortes não valem só para os sussurradores, pois Earl também foi morto neste episódio possivelmente pelo mesmo zumbi fracote que mordeu o Carl, porque pense numa mordida fraca que parecia mais uma humana normal, cadê os maquiadores para arrancar um toco de braço daquele rapaz?

Enfim, mesmo sendo absolutamente terciário, o melhor momento do episódio o envolve junto a Judith, forçada a matá-lo para proteger o restante das crianças figurantes que estavam ali, um dos poucos momentos delicados da direção de Greg Nicotero, que com o auxílio da ótima atriz mirim Cailey Fleming, acertou ao menos em um micro desenvolvimento do episódio. Comentando os outros, Magna retorna sozinha após o evento na caverna, no meio da manada da batalha de Hilltop, sem mostrar como ela chegou até ali, apenas contando verbalmente, e a gente que acredite nela, sem qualquer sentimento de desespero para incentivar o pessoal a ligeiramente começar a procura pela amiga, ou remorso de Carol, apesar do que ela fez. Carol que era a mulher personagem possível (só que não) para dar o passe livre para Eugene ir em busca do amor de sua vida, na conversa mais sentimentalmente brega da temporada. 

Pior que isso só a revelação final de que na verdade ela estava orquestrando o plano com Negan desde o princípio, um twist bacana do ponto de vista fandom, mas extremamente incoerente diante do seu arco dramático na temporada. Quer dizer então que todas aquelas decisões irracionais eram teatrinho? E que no fundo ela sabia o que estava fazendo e era só para enrolar e dar tempo de Negan matar Alfa? Puxando os outros episódios, com muita suspensão de descrença dá para dizer que sim, já que ela iria levar Lydia para Alfa e de alguma forma tentar matá-la lá com o Negan, mas para que isso fizesse sentido, era necessário mais tempo, até para Negan ter a confiança de Alfa para fazer o serviço. Ou seja, essa amarra, além de completamente jogada, faz com que todos os meus elogios ao retorno do emocional desamparado da personagem – que retomou uma das melhores características da série que era os desafios narrativos consequenciais da frágil mente humana em situações de risco – sejam invalidados. Não que Carol por tudo que passou não seja capaz de tal feito, mas o jogo criado em cima disso foi no mínimo trapaceiro, no pior sentido.

E era algo completamente desnecessário, visto que a cena de manipulação do Negan em si, desconsiderando as conveniências já mencionadas ou aquela cena avulsa com o Aaron, foi bem construída. O desconforto do personagem matando “sem querer” os zumbis na cabeça e não no coração, ele não agrupando a horda, sequestrando Lydia como isca e se abrindo com a Alfa para atraí-la a uma armadilha, tudo foi bastante plausível porque houve uma prévia consolidada anteriormente. Contudo, colocar isso na conta da Carol foi o último tiro no pé de um episódio que já estava problemático e ficou ainda mais covarde. Dava para tudo isso que aconteceu ter ocorrido de outra maneira, se a série evocasse os culhões passados em algo definitivo, cada subtrama dessa seria orquestrada dentro da batalha principal não mostrada, e o resultado tinha enorme potencial de ser um dos grandes episódios da série. Infelizmente, não foi o caso e a temporada perde muito o fôlego na reta final, mesmo que ainda tenha quatro capítulos para se ajeitar, o recado está reforçado, mesmo no geral, ainda subestimada, não dá mais para confiar em regularidade com The Walking Dead.

The Walking Dead – 10X12: Walk With Us — EUA, 15 de março de 2020
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Nicole Mirante-Matthews, Eli Jorne
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

Crítica | Homeland – 8X06: Two Minutes

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Não sei quantas vezes, em apenas seis episódios, Carrie engrupiu Jenna de todas as formas possíveis a ponto de eu não saber exatamente se eu fico com pena ou com raiva da agente mais incompetente da CIA. Bastou dar uma missão para a sujeita que é garantia que ela não será cumprida.

Por outro lado, Two Minutes, episódio que marca a metade da temporada final de Homeland, cumpre sua missão de fazer a transição entre a complexa armação de tabuleiro que culminou com a morte do presidente Warner e a captura de Max que, por sua vez, carrega a caixa preta do helicóptero e o que está por vir. É muito interessante ver a amplificação da conexão de Carrie com Yevgeny Gromov, até porque eu tinha receio que a jogo de sombras em cima da lealdade da agente bipolar, tema principal da temporada que retorna à base da Trilogia Brody, fosse abafado. Muito ao contrário, o episódio recrudesce esse aspecto, mais uma vez colocando Carrie na mira de Mike e Jenna e, pior ainda, do próprio Saul Berenson, que se sente traído.

A tensa sequência que batiza o episódio é simples, mas muito bem construída, ao mesmo tempo mantendo-nos no escuro sobre as intenções de Yevgeny e sobre a possível manipulação de Carrie por ele, culminando na mais do que esperada segunda fuga dela que, obviamente, não tinha a menor chance de entrar no avião (vai ser muito divertido quando Jenna descobrir que mais uma vez foi ludibriada…). Gosto muito também da forma como Costa Ronin e Claire Danes conseguem formar uma dupla hesitante que esbanja química e conexão em tela, ele com aquele jeito cínico, mas estranhamente sincero que marca Yevgeny e ela com a fúria cheia de hesitação que marca Carrie.

Do outro lado do oceano, o facilmente manipulável presidente Benjamin Hayes – algo que já havia ficado bem claro na relação dele com David Wellington logo depois da morte de Warner – tem um momento daqueles que realmente deu vontade enfiar a cabeça em algum buraco de tanta vergonha alheia quando ele cai no papinho do espertíssimo presidente afegão Abdul Qadir G’ulom (pouco falei de Mohammad Bakri, mas ele está sensacionalmente vilanesco aqui – poderia ser fácil um baita inimigo de James Bond!) para desespero completo de seu chefe de gabinete e de Saul Berenson. Tudo está armado para que a tão almejada paz termine de ruir com uma provável maior presença militar americana no Afeganistão, tudo que G’ulom sempre quis.

Meu único receio, porém, é que a segunda metade da temporada cozinhe essa escalação da guerra em fogo baixo de forma que muito lentamente os episódios sejam ocupados com tudo o que for necessário para que o resgate de Max e a busca pela caixa preta aconteçam, com uma revelação canhestra de que, como Carrie desconfia, o helicóptero do presidente Warner não foi derrubado e sim caiu em razão de um problema mecânico, absolvendo o talibã e colocando a opinião pública contra G’ulom e Hayes ainda a tempo de um final, digamos, mais esperançoso. Mas isso é só algo que me passou pela cabeça enquanto os créditos finais do episódio rolavam, já que, mesmo quando Homeland erra – ou seja, na 4ª temporada – a não série não deixa de ser desafiadora e jamais subestima o espectador. Howard Gordon e Alex Gansa, aliás, tiveram um bom tempo para imaginar um fim digno a esses oito anos de aventuras de Carrie para eles seguirem esse caminho tão pouco imaginativo.

Portanto, ainda que a busca pela caixa preta certamente tenha sua importância, as maquinações políticas americanas, afegãs, paquistanesas e do talibã precisam estar competindo pela atenção do espectador, ali muito perto do já mencionado tema central – e bem pessoal – da temporada. Com Carrie agindo completamente fora da lei e, ainda por cima, em conluio com um espião russo, Homeland tem tudo para ter seis explosivos episódios pela frente, com ótimas chances de Jenna ser enganada mais uma meia dúzia de vezes para tornar tudo ainda melhor.

Homeland – 8X06: Two Minutes (EUA, 15 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Tucker Gates
Roteiro: Debora Cahn, Alex Gansa
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas
Duração: 55 min.

Crítica | Westworld – 3X01: Parce Domine

PLANO CRÍTICO WESTWORLD Parce Domine EPISÓDIO TV

  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia, aqui, as críticas dos outros episódios.

É um exercício e tanto voltar para Westworld depois de todo esse tempo. Muitas dúvidas sobre personagens, sobre quem é quem, sobre onde está cada um e quais são as intenções gerais desses indivíduos acabam vindo à mente e bate aquele pequeno desespero que temos no retorno de séries mais complexas, pois o medo de “ter se esquecido de tudo” é uma constante inevitável. Para nossa nossa sorte, Jonathan Nolan e Lisa Joy fazem deste Parce Domine um retorno fácil de se acompanhar, no sentido de ligação com o que aconteceu antes na série e a nova safra de episódios, ao mesmo tempo olhamos para tudo e pensamos… “calma aí, Westworld acabou na temporada passada e eu estou vendo um spin-off?“.

Porque é justamente o que o início desta 3ª Temporada parece, à primeira vista: um spin-off — e em nenhum momento estou me referindo a isso de forma negativa, caso ainda não tenha dado para entender a nota máxima que antecede o texto. Os showrunners já haviam afirmado que este ano do show  traria uma presença maior dos humanos, mas não só isso: uma representação um pouco mais simpática ou esperançosa em relação a eles, o que não acontecera nas temporadas anteriores. Com a fuga de Dolores (no corpo de Charlotte Hale) com as pérolas de identidade na bolsa, estava claro que uma investida pesada em algum tipo de conflito seria construída nessa temporada, o que de fato acontece, mas de modo crível e sem confusão narrativa — graças aos céus que aquela dor de cabeça para entender as diferentes realidades da 2ª Temporada passou!

Novamente em seu corpo “original”, Dolores está controlando alguns pontos estratégicos e tem a intenção de fazer algo no nosso mundo, de confrontar, de alguma forma, a humanidade. Agora vejam, dessa premissa para fazer com que a série soasse como linha barata de “cientista maluco querendo dominar o mundo” era um pulo. Por isso é muito apreciável o caminho que o texto faz nessa realidade de 2058, mostrando cada um agindo, a seu tempo e em um núcleo específico, tudo três meses depois dos eventos de The Passenger: Dolores enfrentando Jerry para ter acesso a uma empresa de Inteligência Artificial; a introdução de Caleb (Aaron Paul), ex-soldado traumatizado pela morte de seu amigo; Bernard morando no sudeste da Ásia, escondendo-se, após ser culpabilizado pelo massacre do Parque; e Charlotte assumindo o controle da Delos. No processo, descobrimos a existência de uma Inteligência Artificial estratégica chamada Rehoboam, e de seu controlador total no momento, um homem chamado Serac.

Considerados esses elementos, temos basicamente um “episódio piloto” aqui, com caminhos inesperados sendo tomados pelos personagens e numa narrativa que sabe muito bem que está mudando consideravelmente o espaço de representação para o público e, por isso mesmo, vai com calma, ao mesmo tempo que nos dá novas informações e constrói uma boa base para desenvolver ao longo deste terceiro ano, terminando, inclusive, com uma enigmática sequência de Maeve num cenário nazista… Pois é.

A atuação de Evan Rachel Wood é absurda de tão boa e a direção de Nolan soube aproveitar bem as locações em Singapura, a fim de dar ao público uma boa representação visual e crível do mundo daqui a 30 anos. A dualidade entre o as “criaturas dos Parques” versus o mundo de seus criadores, a construção de um trampolim social para se conseguir controle das pessoas (de certa forma me trouxe Continuum à memória) e, já de cara, a nova exposição da farsa em torno do termo “livre arbítrio” aparecem aqui como excelentes ingredientes, num episódio diferente de tudo o que vimos na série antes, mas definitivamente bem realizado. A gente não mensura muito bem a saudade de alguma coisa até ter contato de novo com ela, não é mesmo? Como essa série fazia falta!

Westworld – 3X01: Parce Domine (EUA, 16 de março de 2018)
Direção: Jonathan Nolan
Roteiro: Jonathan Nolan, Lisa Joy
Elenco: Evan Rachel Wood, Tessa Thompson, Aaron Paul, Thandie Newton, Lena Waithe, Tommy Flanagan, Jeffrey Wright, Kid Cudi, Marshawn Lynch
Duração: 68 min.

Crítica | A Maldição do Espelho (2019)

Queen-Spades-plano crítico rainha de espadas a maldição do espelho 2019 filme

Embora não seja exatamente uma sequência de A Dama do Espelho: O Ritual das Trevas (2015), A Maldição do Espelho se passa no mesmo Universo, adota exatamente a mesma premissa, mas coloca outros personagens e situações em cena, agora ambientado no mesmo Internato citado e mostrado através de recortes de jornal no primeiro filme.

O espectador tem aqui uma primeira reação de estranheza ao perceber a abordagem meio anacrônica entre a representação do Internato (que em tudo lembra os anos 1920) e a colocação de novas tecnologias, tornando os personagens deslocados no tempo, num tipo de Universo onde o velho e o novo se unem. A própria forma que o diretor Aleksandr Domogarov desenvolve o roteiro de Maria Ogneva ressalta visualmente essas diferenças. Uma cena noturna com alguns estudantes ouvindo música numa caixa de som, ligada a um aplicativo, num ambiente que de moderno não tem nada é o ponto mais alto dessa percepção e essas inconstâncias de tempo em relação ao que vemos na tela permanecem até o final do filme. Lembra bastante Bates Motel, para falar a verdade, onde a atmosfera, os figurinos e a abordagem da direção de arte/desenho de produção flertam com o passado, mas celulares, carros modernos outras tecnologias nos lembram que estamos no presente.

Aqui, a premissa de invocação tem um ponto de partida bem mais interessante do que no longa de 2015, pois usa como tema a depressão infantil causada pela não aceitação da perda da mãe, e então direciona os personagens para o lugar onde os tormentos acontecerão. Infelizmente o roteiro não explica o princípio de “ativação” da Rainha (ou Dama) de Espadas. Nós podemos aludir ao fato de que tanto a personagem da lenda quanto a mãe de Olya (Angelina Strechina) e Artyom (Daniil Izotov) queriam salvar seus filhos da morte, mas ainda assim, não é nada que o texto faz questão de confirmar. De toda forma, a ida dos irmãos para o Internato parece ser daquelas coincidências onde o mal atrai indivíduos frágeis para a sua armadilha, que é de fato o que acontece aqui.

No desenvolvimento dos personagens principais, o roteiro é mais engraçado (no mal sentido) do que coerente. As motivações da irmã mais velha parece apenas birra sem sentido, enquanto o irmão mais novo tem sim uma boa atenção do texto, mas o menino é uma mímica do medo, tendo contato com “o outro mundo” praticamente sem diálogos, já que é mais focada aqui a linguagem não verbal. E isso é bom, inclusive é um recurso recorrente em filmes do gênero, a questão é que não há um propósito maior para isso, o que acaba deixando o menino apenas como um garotinho depressivo que quer ficar com a mãe morta. É aterrador, garante bons momentos na tela, mas mesmo com um objetivo final absurdamente simples, parece não conseguir pavimentar bem a estrada para o personagem chegar até lá.

O que de fato recebe um bom tratamento na obra é a relação dos indivíduos que participaram do ritual de invocação, frente ao espelho, com a chegada da Dama de Espadas para “realizar” o que pediram. A similaridade com A Dama do Espelho é notável nesse ponto, embora o caminho de susto e até a presença da entidade (de aparência bem menos assustadora aqui) sejam mais sólidas nessa versão de 2019. Curiosamente, o roteiro dá uma boa finalização e até motivações coerentes para os coadjuvantes, com todos sendo ceifados pela Dama de modo cada vez mais chamativo (o drama da menina gorda é o meu favorito), até que o enredo se afunila apenas para o núcleo dos dois irmãos ao lado de dois aliados (um professor e um colega do Internato). No longa de 2015, o roteiro estragou a experiência do público com um falso clímax e um elemento de possessão patético, que destruiu o final do longa. Aqui, ao contrário, o diretor opta por trabalhar com diferentes dimensões — dentro e fora do espelho — e consegue fechar o ciclo de horror de modo interessantíssimo.

Notem como, na cena final, o predomínio do verde no cenário de invocação e nos ambientes próximos (uso também presente no longa de Svyatoslav Podgaevskiy) muda para azul, e aí temos uma ótima saída para o contato final entre a entidade e os seus invocadores. A forma como o longa é finalizado tem um nível de angústia absurdo e combina bem com a obra. Particularmente, tenho ao mesmo tempo horror e fascínio para esse tipo de vingança maligna (vide um tipo similar de prisão utilizado em Convenção das Bruxas que me aterrorizou quando criança) e a escolha do diretor em terminar o filme nessa nota, quase acenando para uma continuação, é aceitável. Mesmo que não haja uma sequência, deixar o filme em aberto, nesse sentido, foi a melhor escolha possível, pois não entrega de verdade o final feliz e ao mesmo tempo faz a esperança, a impossibilidade e o mal andarem lado a lado. Um fim definitivamente melhor que o começo do filme, fazendo de fato valer a sessão.

A Maldição do Espelho (Pikovaya dama. Zazerkale/Пиковая дама: Зазеркалье) — Rússia, 2019
Direção: Aleksandr Domogarov
Roteiro: Maria Ogneva
Elenco: Angelina Strechina, Daniil Izotov, Yan Alabushev, Darya Belousova, Claudia Boczar, Violetta Davydovskaya, Vladimir Kanuhin, Vladislav Konoplyov, Dmitriy Kulichkov, Tatyana Kuznetsova, Valeriy Pankov, Elvira Shilova, Alyona Shvidenkova, Anastasia Talyzina, Igor Yashanin
Duração: 83 min.