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Crítica | Homeland – 8X09: In Full Flight

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Já começa a ficar constrangedor ver Jenna ser enganada por Carrie. Sim, eu morri de rir com a protagonista engrupindo a agente da CIA mais uma vez (alguém está contando?) para que ela revelasse o esconderijo dos soldados que a estavam caçando, mas confesso que meu lado de crítico chato já começa a ficar cansado do expediente e, mais ainda, de tornar minha suspensão da descrença ainda mais elástica para acomodar uma personagem tão facilmente manipulável como Jenna. Sei que é um detalhe no episódio, mas o fato é que ele ficou muito saliente como um momento importante dentro do roteiro escrito pelos próprios showrunners.

Seja como for, o foco de In Full Flight foi a desesperada procura de Carrie pela caixa preta do Chalk Two, helicóptero onde estavam os presidentes americano e afegão, em Kohat, vilarejo paquistanês que nada mais é do que um enorme bazar onde se vende todo tipo de equipamento bélico imaginável. Com a ajuda do prestativo Yevgeny, Carrie, que faz jogo duplo o tempo todo, revelando apenas o que é estritamente necessário para que ela cumpra sua missão, acaba encontrando o tão cobiçado aparelho em uma sequência que dependeu demais de coincidência para meu gosto. Afinal, considerando a quantidade de lugares possíveis para ela encontrar a sacola de Max, Carrie esbarra nela praticamente na primeira loja em que entra, passeando por filas de prateleiras repletas dos mais variados artigos como se estivesse em um supermercado bem abastecido pré-Coronavírus.

Apesar de essa ação em Kohat ter sido bem conduzida em termos de tensão, com a direção de Dan Attias trafegando bem entre câmera tremida para dar a impressão de documentário e tomadas mais gerais, com cortes paralelos para a perseguição monitorada pela CIA em Cabul, o peso da conveniência narrativa é grande. Deveria ter sido muito mais difícil e perigoso para Carrie encontrar a caixa preta naquele mafuá repleto de figuras ameaçadoras e não algo reputado à pura sorte (ok, não foi exatamente apenas sorte, mas vocês entenderam). Compreendo a necessidade de correr com a narrativa, já que a série está em sua reta final, mas fica evidente que sacrificaram realismo em prol da economia de alguns minutos.

Por outro lado, foi alvissareiro notar que o já mencionado jogo duplo de Carrie teve como resposta a revelação do jogo duplo de Yevgeny que finalmente revela suas garras (apesar de mostrar afeição que reputo genuína pela ex-agente da CIA), aproveitando-se da oportunidade para levar embora a caixa preta com objetivo ainda incerto, mas que certamente tem relação com a proximidade russa com os talibãs e/ou Paquistão e/ou Afeganistão, dependendo do interesse em fazer a vindoura guerra parar, ao revés, concretizá-la. Presumo que muito dos três episódios finais serão dedicados à caçada de Yevgeny e ao conteúdo da caixa, agora que Carrie e nós agora sabemos que tudo não passou de um acidente, algo que pode mudar a política agressiva do presidente marionete americano, ainda que eu tenha poucas esperanças de que essa informação chegará a tempo ou, se chegar, não será descartada como desinformação.

Falando no presidente americano, está aí um personagem que dá vontade de pular na tela para esmurrar. Que sujeito mais sem personalidade! E isso quer dizer, claro, que esse lado da macro-política está funcionando muito bem, com uma ótima atuação de Sam Trammell, especialmente no meio do fogo cruzado entre os personagens de John Zabel e Saul Berenson, com um David Wellington murchinho e completamente desesperançoso em seu canto. Continuo um pouco desapontado com a forma como Zabel entrou na série, como tive a oportunidade de abordar na crítica do episódio anterior, mas sua presença tem valido a pena nem que seja para nos deixar fumegando de raiva.

Aliás, irritante também é a postura “sou o maioral” de Jalal Haqqani, aproveitando-se da execução do pai para arvorar-se como assassino de presidentes e reunindo um exército de talibãs grande o suficiente para assustar até mesmo a fria e pragmática Tasneem Qureishi. A panela de pressão está prestes a explodir e tudo andou tão rápido que isso acaba só reforçando minha conclusão de que a informação da caixa preta, se um dia vier à luz do dia, não terá força para impedir a detonação.

Apesar de In Full Flight ter sido o episódio mais fraco da temporada até agora em razão de suas conveniências narrativas, isso não quer dizer muita coisa, pois o nível do que vem sendo apresentado é altíssimo. Foi apenas um rápido soluço que, espero, a trinca final de episódios mais do que compensará.

Homeland – 8X09: In Full Flight (EUA, 05 de abril de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Dan Attias
Roteiro: Alex Gansa, Howard Gordon
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas, Hugh Dancy
Duração: 47 min.

Crítica | Westworld – 3X04: The Mother of Exiles

plano crítico westworld série HBO

  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia, aqui, as críticas dos outros episódios.

Foi Emma Lazarus em seu soneto The New Colossus (1883) que chamou a Estátua da Liberdade de “A Mãe dos Exilados”. Título de um monumento que simbolizava uma Nova Era, o primeiro olhar para o lugar da promessa de uma vida diferente, The Mother of Exiles aparece aqui em Westworld como um farol para uma narrativa que parece temer demasiadamente sair dos trilhos e está se pautando de aberturas e fechamentos em pequenos ciclos, inclusive com respostas muito importantes antes mesmo do meio da temporada.

A escolha, mesmo que pareça estranha — ainda mais para os padrões da série — tem um sentido em si mesma. Está claro desde Parce Domine que teremos nessa temporada um conflito e um ideal central tão intricados, que os showrunners resolveram engrandecer os assuntos principais entregando chaves de portas importantes, como a revelação completa sobre Caleb no episódio passado e agora a revelação sobre Dolores e sua jogada de mestre ao criar corpos diferentes para um tipo de mente replicada de si mesma. Uma verdadeira aula de narcismo à la Arte da Guerra que funciona como uma vingança e uma antecipação quase inacreditável de passos frente aos planos de Serac ou mesmo frente ao andamento dos planos de Dolores no comando da Delos.

É claro que quando a gente tem um plot tão bom, mas ao mesmo tempo tão revelador como este já no episódio 4 de uma temporada de 10, dá uma certa apreensão pelo que vem pela frente, mas acho que passamos do ponto de nos preocupar com essa série, não é mesmo? Só espero não estar cometendo o mesmo erro que alguém cometeu ao falar sobre o futuro de Game of Thrones antes de tudo ruir. Insisto, porém: no presente caso, creio que estamos em terreno mais seguro.

A volta de William como um homem alquebrado e com esse “destino” que teve (ao menos no momento) nos dá uma dica sobre o quanto os criadores pretenderão criar de novidade em cima dessa nova premissa, sem apelar de forma ampla para mistérios — seja temáticos ou de personagens — do passado. Notem que a discussão sobre o retorno do Setor 16 está novamente na mesa e este é o verdadeiro desejo de Serac: encontrar a chave para destravar todo o conhecimento ali armazenado e então moldar o mundo sob sua visão, já que, segundo ele, o homem é o pior inimigo que existe dele mesmo — e só por um olhar na destruição de Paris a gente entende que esse futuro de 2058 é consideravelmente mais problemático do que imaginávamos.

Paul Cameron dirige o episódio com toda a elegância possível para gerar aquilo que o roteiro propõe: o grande passo de Dolores e a revelação de que todos os corpos são… Dolores também. Gosto bastante do uso de uma paleta majoritariamente escura aqui (grande destaque para o azul, como se estivesse inundando a todos) e principalmente da soberba montagem, que guia todos os blocos atualmente em andamento na série, de modo que eles chegam ao final do capítulo com todos descobrindo a grande verdade ao mesmo tempo. A impressão que eu tenho agora é que esses 4 capítulos iniciais foram um grande preâmbulo temático e que o contra-ataque de Serac ou o avanço ainda maior de Dolores é que trarão os elementos mas duradouros da 3ª Temporada, em termos de camadas secundárias. Se for mantido o fantástico nível de ação que tivemos aqui, mais um coeso entrelaçamento dos fatos, estamos em boas mãos. Que venha, então.

Westworld – 3X04: The Mother of Exiles (EUA, 05 de abril de 2018)
Direção: Paul Cameron
Roteiro: Jordan Goldberg, Lisa Joy
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright, Tessa Thompson, Aaron Paul, Vincent Cassel, Ed Harris, Elando Baltimore, Chad Doreck, Tommy Flanagan, Chrystall Friedemann, John Gallagher Jr., Rafi Gavron, Diego Gilberte, Brian Gilleece, Iddo Goldberg, Luke Hemsworth, Katja Herbers, Hiroyuki Sanada
Duração: 65 min.

Crítica | Never Rarely Sometimes Always

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Escrever sobre um filme como Never Rarely Sometimes Always (2020) é um dos muitos momentos em que fica gritante o meu desejo de que tivéssemos hoje em nosso quadro uma mulher como colunista, para que o texto sobre o filme pudesse ter não apenas um viés analítico-social de abordagem (como o meu), mas também de uma experiência de fala, algo que só uma mulher poderia ter, por motivos óbvios. E veja bem a palavra que eu utilizei aqui: “experiência” e não “lugar” de fala, já que este último é algo que todo mundo tem (ou que deveria ter, em um cenário social onde existe liberdade de expressão), e que como teoria, a rigor, não existe, a não ser para majoritariamente censurar ou desqualificar opiniões de indivíduos fora do fenômeno em debate.

O título em inglês dá conta das opções em um questionário sobre a frequência em que certos eventos ocorrem na vida de uma pessoa (nunca, raramente, às vezes, sempre) e no presente longa, escrito e dirigido por Eliza Hittman (Ratos de Praia), referem-se às experiências sexuais e relações afetivas de uma mulher frente aos seus parceiros, a fim de se montar um quadro prático da vida e emoções anteriores à sua escolha pela clínica de aborto. E é por isso que eu citei acima a importância da experiência de fala num argumento central como este. Em minha leitura, como homem, haverá apenas o que é possível em casos assim: uma análise crítica, observacional, caminho tomado por qualquer um extra-pele a quem está no centro de um problema. Aqui no site vocês vão encontrar vários momentos impactantes em que eu também me deparei com isso, mas vou destacar dois, um também sobre o aborto, em 24 Semanas e outro sobre estupro, em Elle.

Bem mais interessante do que o tratamento dado pela cineasta à masculinidade e à homossexualidade em Ratos de Praia, o presente filme retrata com grande poder os efeitos de uma violência ou abuso sexual (embora isso não seja explícito, há muitas indicações ao longo da obra) na vida de uma jovem que, por inúmeros fatores externos a ela, não é devidamente denunciado. A diretora deixa claro que o problema é composto por uma série de camadas envolvendo sistema e atores sociais, e por isso mesmo faz um recorte específico dentro da premissa perfeita para esse tipo de linha narrativa: o estudo de caso. A vítima da violência aqui é Autumn (Sidney Flanigan), que engravida após ser estuprada. Seu silêncio em relação ao ato leva a jovem a um outro patamar, que é o de busca pelo que fazer e como fazer com o bebê que ela não quer.

Embora o roteiro estenda demasiadamente situações que poderiam se beneficiar com a presença de mais personagens ou elementos também conhecidos nesse tipo de cenário, fica evidente que a cineasta procurou basear a sua direção no máximo de nuances e silêncios possíveis. Não vejo tudo isso como um benefício a longo prazo para o filme, mas a sensação pretendida pela diretora está fixa aqui, inquestionável: as horas intermináveis de desespero e dúvida, a angústia de não poder contar com ninguém (ou com pouquíssimas pessoas), o medo de represália social e, por tabela, o medo de qualquer outra violência masculina, a qualquer momento. Evidente que isso aparece no enredo como uma “conveniência neurótica” à mão justamente quando o roteiro mais precisa para delinear a visão emocionalmente perturbada da protagonista e de sua prima, mas tudo é real aqui… do assediador que se exibe no metrô ao bem-intencionado jovem paquerador que só quer dar uns beijos e curtir a presença de uma garota que acabou de conhecer. Depois de uma violência e com a vítima ainda tendo que lidar com as consequências do que foi cometido conta ela, tudo, à primeira vista, causa medo.

O roteiro não está interessado em discutir o aspecto ético, moral, legal ou de qualquer outra ordem do aborto, assim como não se propõe a discutir uma luta da mulher contra o sistema e contra seu algoz pessoal. A angústia maior do filme é esse sentimento de “resignação” desesperada, marcada, claro, por uma tomada de atitude, mas sempre às custas da mulher. Essa sensação de abandono está o tempo inteiro no filme, como já citei, fortemente costurada pelo silêncio, mas também por um trilha sonora econômica, uso mais restrito de diálogos e muitas ações, expressões e sentimentos transmitidos apenas através das atuações. A novata Sidney Flanigan não desperdiça o papel, mas não tem o alcance dramatúrgico necessário para levar nas costas um filme onde pelo menos metade das emoções são transmitidas apenas pela forma como a atriz constrói seu personagem. A mensagem final, no entanto, está dolorosamente talhada. E ela alcança um nível ainda maior de impacto por sabermos que é um retrato cruel da nossa realidade.

Never Rarely Sometimes Always (Reino Unido, EUA) — 2020
Direção: Eliza Hittman
Roteiro: Eliza Hittman
Elenco: Talia Ryder, Sidney Flanigan, Ryan Eggold, Sharon Van Etten, Aurora Richards, Rose Elizabeth Richards, Brian Altemus, Lizbeth MacKay, Mia Dillon, Drew Seltzer, Théodore Pellerin
Duração: 100 min.

Crítica | Ducktales – 3X01 e 2: Challenge of the Senior Junior Woodchucks! e Quack Pack!

plano crítico ducktales Challenge of the Senior Junior Woodchucks! e Quack Pack!

  • SPOILERS! Leia aqui as críticas dos episódios anteriores.

Cada nova temporada é um furacão

A família Pato chega em sua terceira temporada, com participações especiais e novos adversários já estabelecidos. Assim como na temporada anterior, os dois primeiros episódios são lançados no mesmo dia, então hoje é dobradinha Ducktales.
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Challenge of the Senior Junior Woodchucks!

plano crítico Challenge of the Senior Junior Woodchucks! ducktales

É o dia da cerimônia que vai definir um novo “escoteiro mirim sênior”, e Huguinho está concorrendo à vaga, mas primeiro deve competir contra Violeta, a única capaz de tomar seu lugar. Os dois aceitam o desafio, proposto por Capitão Bóing (um escoteiro condecorado), e seguem em uma jornada arriscada nas florestas selvagens de Patópolis. Enquanto isso, o resto da família procura pelo tesouro secreto de Isabella Finch, uma exploradora lendária que inspirou vários livros de aventura que o próprio Patinhas lia quando criança. 

A prioridade do episódio é explorar a relação de Huguinho com sua própria arrogância, tendo de lidar com o fato de que talvez não seja o melhor escoteiro mirim de sua equipe. Isso faz com que ele abandone suas próprias crenças no guia de regras para tentar provar que é o verdadeiro merecedor do título sênior. Sua adversária, Violeta, tem mais destaque e espaço para ser desenvolvida, e por isso descobrimos mais sobre suas motivações e informações sobre sua família.

Assim, podemos ver os pais da personagem, talvez o primeiro casal gay a aparecer na série até agora. Agora é torcer para que eles tenham mais alguma participação no futuro e não sejam apenas mais um caso da Disney tentando apelar para um demográfico sem respeitá-lo o suficiente para colocá-lo em primeiro plano. Confio na equipe de Ducktales o suficiente para que eles não estraguem os personagens, mas nunca se pode confiar na Disney.

Felizmente, podemos notar que Lena está mais confortável com os outros personagens, chegando a dar dicas para Violeta de algumas piadas e ofensas que ela pode fazer para distrair Huguinho. E uma linha de diálogo indica que Lena foi adotada pelos pais de Violeta, então as constantes dicas que ela dá para sua irmã caçula tem um significado maior para a personagem. 

A jornada de Patinhas, Donald, Zezinho, Luisinho, Patrícia e Dumbela é constantemente interrompida por um pássaro misterioso com uma canção capaz de irritar Patinhas ao ponto dele não conseguir mais fazer suas aliterações quando está nervoso. Algumas piadas recorrentes, como essa e o mosquitinho que não deixa Donald em paz, são as partes mais engraçadas do episódio, já que a aventura de Huguinho e Violeta é responsável pela dose de ação.  

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Quack Pack!

plano crítico ducktales Quack Pack! (2020)

Quack Pack! tem sido um dos episódios mais comentados entre os fãs da série antes mesmo de estrear, isso porque ele promete desde os trailers, e as imagens de divulgação da temporada, uma participação de Pateta. Isso já seria o suficiente para fazer desse episódio um dos mais especiais da série, mas felizmente os roteiristas são bons demais para depender apenas disso e criam uma das tramas mais absurdas e divertidas até agora.

Há algo estranho acontecendo na mansão Patinhas: todos tem frases de efeito, Donald está sorrindo, Patinhas repreende um dos sobrinhos por arrecadar dinheiro e toda vez que alguém entra por uma porta ou faz um comentário engraçado, ouvimos aplausos e uma risada de fundo. Não demora para Huguinho perceber que a família está presa em uma sitcom, com direito a transições entre cenas e cortes para comerciais de refrigerante (admito que a música do comercial é bem chiclete, e eu adorei).

Podemos ver várias referências e piadas com metalinguagem ao estilo de séries como Seinfeld e That’s 70 Show (principalmente por conta das transições com os personagens dançando sem qualquer ligação com o resto da trama), sem contar que eles não perderam a oportunidade de brincar com as chamadas entre os programas da Disney, onde uma celebridade desenha a logo do estúdio no canto da tela. 

A explicação para todos irem parar em uma sitcom envolve Donald e seu desejo por uma família normal. E quando eu digo desejo, é óbvio que envolve um gênio da lâmpada. E nesse mundo perfeito de Donald, sua voz “normal” retorna, e ele é dublado mais uma vez por Don Cheadle. Nessa comédia gravada a família não corre mais riscos, sua única aventura é viver em paz e todos usam as suas roupas clássicas dos quadrinhos e desenhos animados, incluindo Pateta, que faz o papel do vizinho dos patos, também usando sua roupa do desenho A Turma do Pateta, e trabalhando como fotógrafo, sua profissão em Pateta: O Filme.

A participação de Pateta é curta, mas ainda vale a pena ter a personagem interagindo com a família pato e trazendo suas marcas registradas, como a risada e o berro de dor quando tem o traseiro furado. Por ser apenas uma personagem coadjuvante, existe a possibilidade de Pateta estar presente apenas nesse episódio, o que já aconteceu com outros, mas ele é divertido demais para não ser aproveitado mais vezes. 

Há muitas referências nesse episódio, até mesmo no título. Quack Pack foi uma série de 1996, tentativa da Disney em criar uma comédia estrelada por Donald e seus sobrinhos, mas infelizmente não deu certo com o público ou crítica e durou apenas uma temporada. Ela chegou a passar no Brasil com o nome TV Pato. Mais tarde no episódio, o gênio da lâmpada do filme Ducktales – O Tesouro da Lâmpada Perdida menciona como esteve preso ali desde a década de 1990, uma piada com a data de lançamento do filme.Esse também é o primeiro episódio da nova série onde podemos ver seres humanos, representados como a platéia do episódio em que a família se encontra presa. E para continuar falando um pouco mais do Pateta, ele chega a mostrar algumas fotografias em sua carteira, de eventos da sua série e dos dois filmes estrelados por ele e seu filho, Max. 

Hilário, bizarro e cheio de referências, Quack Pack! é mais um ótimo episódio de uma animação que não consegue decepcionar. 

Ducktales – 3X01 e 3X02: Challenge of the Senior Junior Woodchucks! e Quack Pack! (EUA, 04 de Abril de 2020)
Criação: Francisco Angones e Matt Youngberg
Direção: Tanner Johnson
Roteiro: Madison Bateman e Francisco Angones (The Most Dangerous Game… Night!), Bob Snow (Quack Pack!)
Elenco: David Tennant, Dani Pudi, Ben Schwartz, Bobby Moynihan, Kate Micucci, Tony Anselmo, Beck Bennett, Paget Brewster, Toks Olagundoye, Bill Farmer
Duração: 21 min.

Crítica | Downhill (2020)

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Já passamos da discussão sobre a produção de remakes ou isso ainda está em pauta? Porque em produções como Downhill (2020), refilmagem do ótimo filme sueco Força Maior (2014), temos o impulso de fazer perguntas aos quatro ventos sobre a necessidade desse tipo de produção, e pior, em tão pouco tempo entre o original e a criação para preguiçosos, como é o caso. Porque se estamos falando de um intervalo de pelo menos uma década entre um lançamento e outro, é possível compreender o apelo, mesmo que a discussão sobre necessidade artística permaneça. Falamos aí de nova tecnologia, de um mundo consideravelmente diferente e todo um contexto onde será possível ao menos separar visual e conceitualmente os projetos. Nada disso é válido para Downhill.

Julia Louis-Dreyfus e Will Ferrell formam aqui o casal que sustenta a briga desenvolvida pelo roteiro, mas que os esforços de Jesse Armstrong, Nat Faxon e Jim Rash só conseguem transformar em uma briga de casal que atira para diversos lados mas não consegue alcançar lugar nenhum. Chega a ser irritante imaginar que a Searchlight Pictures (ex-Fox) tenha investido dinheiro em uma refilmagem que sequer se dá o trabalho de repetir os problemas matrimoniais de uma forma que fizessem o espectador pensar em algo e não apenas que observasse ações simplórias e reações insossas de uma briga causada por uma mistura de desespero, impulso e covardia do homem que correu sozinho da “avalanche controlada” em vez de procurar levar consigo os filhos e mulher ou ficasse no lugar para protegê-los.

A casca dos eventos do roteiro de Ruben Östlund é mantida aqui, mas nutrida por um ensaio cômico maior e mais fácil. Por um lado, isso ganha pontos por parecer orgânico na tela, mas aí devemos os cumprimentos à dupla protagonista, que não à toa sagrou-se no gênero e sabe como apresentar esse tipo de comportamento mesmo em cenários onde o espaço para o riso é limitado ou onde a comédia é mais comprometida com o seu lado ácido do que com o seu lado puramente divertido. E logo voltamos ao problema original, que é a falta de profundidade do roteiro. Para um enredo que pretende utilizar a acidez (humorística ou não) como linha de costura, o mínimo que se deveria fazer era tratar o problema com foco e não sair espalhando situações que geram becos sem saída e, no fim, nenhuma delas diz ou representa algo minimamente importante para os indivíduos.

Se a personagem de Julia Louis-Dreyfus tem um pouco mais de sorte nisso (a despeito da forma como o roteiro a expõe no final), o personagem de Will Ferrell sofre mais as penas de um roteiro que descomplica e emburrece não só a história como um todo, mas os atores, suas motivações e principalmente aquilo que se poderia tirar do grande impasse descortinado pelo filme. Afinal, há uma boa quantidade de camadas reflexivas exploradas no roteiro original. Aqui, entretanto, notamos apenas indicações simples ou o início de uma discussão de assuntos que nunca são verdadeiramente explorados ou ganham um encerramento satisfatório, a exemplo da própria atitude de Pete ou da discussão de Billie com Charlotte (Miranda Otto) sobre o que configura ou não uma traição ou sobre a felicidade num relacionamento.

Na simplicidade do conflito e na espera de algo além do óbvio, o público fica mesmo com belas paisagens na tela, cenas de pessoas esquiando e supostamente um ajuste moral no fim do filme. Se o espanto, na verdade, é mais uma insatisfação por ter pedido tempo vendo algo assim, fica cada vez mais inabalável a constatação de que (a maior parte das) refilmagens parecem obedecer a uma amaldiçoada cartilha de preguiça narrativa e comprovação de que eram absolutamente desnecessárias. Downhill é só mais uma confirmação da regra.

Downhill (2020) — EUA, 2020
Direção: Nat Faxon, Jim Rash
Roteiro: Jesse Armstrong, Nat Faxon, Jim Rash (baseado em roteiro original de Ruben Östlund)
Elenco: Julia Louis-Dreyfus, Will Ferrell, Miranda Otto, Zoe Chao, Zach Woods, Julian Grey, Kristofer Hivju, Ammon Jacob Ford, Giulio Berruti, Nadiv Molcho, Jono Bergmann, Peter Schorn, Ferdinand Ramml, Kimberly Rydell
Duração: 86 min.

Crítica | Coffee & Kareem

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Comédia é um gênero complicado. Mais do que qualquer outro gênero ou tipo específico de filme — incluindo aqui aqueles terrores que desafiam a cada segundo a nossa suspensão da descrença; os dramas com 9 mil símbolos a cada segundo e até aqueles pseudo-políticos de finais abertos que trazem à toda todas a viagens de ácido do público afetado por esse tipo de produção –, as comédias dependem de um conjunto maior de elementos para funcionar e, por mais intensa, dura e agressiva que seja, se não tiver a delicadeza de saber onde aparecer, o que ocultar e que botões apertar, a obra se tornará uma tentativa desesperada pelo riso, o que torna o produto patético. Coffee & Kareem (2020) pende para esse lado da corda.

O diretor Michael Dowse dirigiu um filme bastante similar na safra anterior, Stuber: A Corrida Maluca (2019), cuja fórmula é trocada aqui para uma dinâmica que quase todo mundo gosta: um adulto (normalmente um homem) tentando estreitar laços e convencer uma criança ou adolescente a fazer alguma coisa, na maioria das vezes… apenas conviver civilizadamente. A temática é antiga e faz o público rir disso no cinema pelo menos desde Shirley Temple! Assim, a primeira coisa a se considerar no longa é o fato de que estamos em um território onde pelo menos alguma coisa, nem que seja isoladamente, terá um bom princípio narrativo.

Um policial branco chamado — wait for it… — Coffee (Ed Helms, que continua sem graça) está namorando uma mulher negra chamada Vanessa (Taraji P. Henson) e é com o filho dessa mulher, Kareem (Terrence Little Gardenhigh), que o roteiro fixa a briga que sustenta o filme, numa relação “pai-e-filho” dentro de uma comédia de ação, tendo o mundo dos policiais corruptos como agravador do problema. Como comentei antes, ao menos a premissa dessa relação funciona, e em parte o comportamento dos personagens é ao menos capaz de ensaiar ou gerar algumas risadas na primeira parte do filme. Com piadas que vão do exagero puro e simples do comportamento de uma criança negra da periferia até curiosas incursões no politicamente incorreto, o texto logra um bom empurrão inicial para a ação, somando aí a apresentação soberba da Detetive Watts (Betty Gilpin), disparadamente a melhor personagem do filme, exceto pelo final, onde nada é bom.

O problema é que o mesmo texto que começa a construir algo cheio de possibilidades simplesmente se perde naquilo que ele quer retratar. De repente, o filme não é mais sobre a relação “pai-e-filho” e nem sobre a postura molenga de Coffee na Corporação. Passamos para um plot mais intricado, onde uma porção de esquetes sobre o tráfico e depois sobre policiais corruptos e depois ainda voltando para o relacionamento de Coffee e Vanessa acabam ganhando destaque. Nessa abertura enorme de janelas, os personagens vão perdendo suas melhores características e, como é de praxe em comédias onde isso ocorre, se tornam forçados e completamente desagradáveis. O enxugamento da qualidade dos personagens é tamanho, que até a Detetive Watts termina o filme com uma representação ridícula de seu comportamento,  o que acaba não fazendo nenhum sentido para a personagem, que foi construída como uma mulher muito inteligente.

Perdido o foco e esvaziadas as personagens, pouco sobra de verdadeiramente chamativo na fita. O que temos, no todo, é uma boa promessa, uma boa condução da direção nas cenas mais ágeis, uma presença aplaudível de Betty Gilpin e algumas poucas cenas boas antes da reta final. Não é um filme absolutamente dispensável, mas para ser sincero não é um filme que eu indicaria. Para quem quer algo engraçado e ligado ao mundo do crime, tem produção recente e de qualidade sobre isso acessível a todos (alô alô Magnatas do Crime!). Pensando pelo lado positivo, é até bom que seja assim, porque aí já evita que isso vire mais uma franquia ligada ao mundo de policiais unidos a um civil fora da curva. Mas não dá realmente pra duvidar que tentem fazer. Coitados de nós.

Coffee & Kareem (EUA, 2020)
Direção: Michael Dowse
Roteiro: Shane Mack
Elenco: Ed Helms, Taraji P. Henson, Terrence Little Gardenhigh, Betty Gilpin, RonReaco Lee, David Alan Grier, Andrew Bachelor, William ‘Big Sleeps’ Stewart, Serge Houde, Eduard Witzke, Chance Hurstfield, Diana Bang, Erik McNamee, Samantha Cole, Terry Chen
Duração: 88 min.

Crítica | Amazing Stories (2020) – 1X05: The Rift

Encerrando com categoria a primeira temporada do revival de Amazing Stories (Histórias Maravilhosas), The Rift traz uma adaptação da HQ homônima de 2017 escrita pelo americano Don Handfield e pelo britânico Richard Rayner, com arte do piauiense Leno Carvalho, que, por sua vez, parece ser fortemente inspirada no clássico Nimitz – De Volta ao Inferno só que ao contrário. No lugar de um porta-aviões moderno ser transportado para a 2ª Guerra Mundial em razão de um fenômeno misterioso, é um piloto americano lutando por sobre Rangun que cai em Ohio. Ou seja, a temporada acaba como começou com The Cellar, abordando o eterno e sempre bem-vindo artifício sci-fi da viagem no tempo, ainda que de maneiras bem diferentes.

Sem perder muito tempo, o episódio começa com Mary Ann (Kerry Bishé) e Elijah (Duncan Joiner), respectivamente madrasta e enteado, em viagem de mudança quando o mencionado avião passa raspando por sobre suas cabeças e cai em um riacho. O piloto, o tenente Theodore Cole (Austin Stowell), é salvo por Mary Ann e logo levado pelas autoridades para o hospital mais próximo, enquanto um agência governamental secreta chega ao local do acidente para tomar controle de tudo e reverter os efeitos da “fenda” do título. A partir daí, o óbvio passa a acontecer, com Elijah conectando-se com o piloto e os dois, em fuga, tentando entender exatamente o que aconteceu e como evitar o pior.

Mais uma vez, Amazing Stories não tenta surpreender com linhas narrativas originais ou mesmo com a execução original de linhas narrativas batidas. Ao contrário, a série esmera-se em trabalhar os clichês e até os arquétipos narrativos sem maiores invencionices, entregando, normalmente, capítulos honestos, bem feitos e que tem o entretenimento como foco principal. The Rift não é diferente, mas, talvez indo um pouco além do que os demais episódios foram, o roteiro escrito pela dupla responsável pela HQ sabe criar relações enternecedoras entre Mary Ann e Elijah e entre Elijah e Theodore que usam as coincidências inerentes ao gênero e à história como parte da engrenagem para justificar certas conveniências, o que acaba funcionando muito bem.

Além disso, há uma boa e imediata conexão entre Bishé, Joiner e Stowell, com os três atores estabelecendo química em qualquer dupla que formem, algo que não só deve ser creditado ao elenco, como também ao trabalho de direção de Mark Mylod, com extensa carreira em séries como Entourage, Game of Thrones, Shameless e Succession. Mesmo na correria e tendo ainda que lidar com a equipe de “Homens de Preto” que chega ao local, o cineasta tem excelente controle de câmera, mantendo uma estrutura fácil de acompanhar e aplicando filtros em momentos precisos, como quando Theodore lembra de sua casa antes de partir para a guerra ou segurando boas tomadas com fotografia noturna sem muito esforço como a da pista de pouso mais ao final.

A correria que o roteiro impõe à direção é, sem dúvida, o ponto mais fraco do episódio, que mereceria uma minutagem um pouco mais alongada ou, até mesmo, arrisco dizer, a divisão em duas partes para que um pouco mais desse universo construído velozmente pudesse ser abordado com mais vagar. Por outro lado, é sempre um sinal positivo quando queremos ver mais de determinada cena e é exatamente isso que acontece muitas vezes, como no reencontro de Theodore com sua esposa ou na conexão à beira do rio dele com Elijah.

The Rift vem para fechar com chave de ouro a mini-temporada inaugural de Amazing Stories, entregando substancialmente mais da mesma atmosfera agradável e descompromissada de Sessão da Tarde que marcou a série oitentista original e que volta com força total pela Apple TV+. Só resta, agora, torcer pela renovação da série em formato de antologia para que ganhemos mais histórias maravilhosas spielberguianas para aquecer nossos corações.

Amazing Stories – 1X05: The Rift (EUA, 03 de abril de 2020)
Direção: Mark Mylod
Roteiro: Don Handfield, Richard Rayner
Elenco: Edward Burns, Kerry Bishé, Austin Stowell, Duncan Joiner, Juliana Canfield, Aly Ward Azevedo, Jay DeVon Johnson, Desmond Phillips, Andrew Benator, Bernardo Cubria, Michael Chandler
Duração: 48 min.

Crítica | Better Call Saul – 5X07: JMM

Hello darkness, my old friend.
– Simon & Garfunkel

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Um dos maiores pontos de interrogação dessa temporada de Better Call Saul era a razão para a presença intermitente de Howard, primeiro oferecendo emprego em seu escritório para Jimmy e, depois, sendo alvo de bolas de boliche arremessadas e prostitutas enviadas por Saul, em uma espécie de vingança mesquinha. O que Vince Gilligan e Peter Gould queriam com isso, afinal de contas, já que, apesar da comicidade das sequências, elas não estavam de forma alguma se encaixando no todo. Mas a resposta veio agora, em JMM, como mais uma prova que essa dupla criativa não costuma errar.

Howard, ao que tudo indica, foi usado como a proverbial gota d’água, como o vetor para a explosão de Saul que terminou de dissipar o que ainda havia de Jimmy nele. Chega a dar pena do advogado almofadinha que ainda tenta, mais uma vez, oferecer o emprego a Jimmy como uma forma de expiar seus próprios pecados e de “salvar” o irmão de Chuck. Essa última oferta, ali nos corredores do tribunal, com Jimmy olhando para as consequências dos atos do cartel que agora passou a defender, era, quase que literalmente, sua última chance, sua última forma de escapar de seu futuro sombrio de defensor de criminosos que não mostram um pingo de arrependimento pelo que fizeram.

Não é que Howard seja um inocente útil em toda essa equação, pois ele tem sua parcela de culpa em tudo o que aconteceu antes – ainda que infinitamente menor do que a parcela de culpa de Chuck e do próprio Jimmy -, mas sim que sua tentativa de se redimir ao tentar redimir Jimmy mostrou-se genuína ao ponto de ele entender os ataques que sofrera, ataques esses que foram válvulas de escape para um Jimmy furioso consigo mesmo. E, novamente, quando, ainda furioso, esse Jimmy perde as estribeiras com Howard, gritando nos corredores de seu local de trabalho, é como se ele estivesse deixando, ali, suas últimas palavras como Jimmy e abrindo de vez as portas para Saul, o advogado de bandido ou, como diria Jesse para Walter, o advogado bandido.

Sei que me adiantei nos comentários, começando pelo final, mas é que ver o descontrole de Jimmy foi chocante, um momento realmente forte e que, em retrospectos, podemos ver que estava em banho maria já há muito tempo, quase passando do ponto. Se rebobinarmos para os momentos anteriores do próprio episódio, com Lalo e depois Mike exigindo que Jimmy soltasse o bandido com pagamento de caução, por mais improvável que isso fosse sob o ponto de vista jurídico, com a transformação da sigla JMM de James Morgan McGill (que nunca foi) para Justice Matters Most (“Justiça é o Que Mais Importa”) para, finalmente, Just Make Money (“Apenas Fazer Dinheiro”) e os olhares de Jimmy para a família da vítima de Lalo, entendo a magnitude do que estava fazendo, entenderemos o dilema e a certa facilidade com que Jimmy varre o que ainda tinha de moralidade para debaixo do tapete e encara o trabalho que o tornaria famoso de braços abertos, sem, aparentemente, mais reservas.

E isso porque a abrupta proposta de casamento de Kim à Jimmy ao final de Wexler v. Goodman tinha, no final das contas, um raciocínio frio e prático por trás: minimizar as mentiras entre eles e impedir que um testemunhe contra o outro se um dia eles chegarem a esse ponto. Tive a impressão que havia sido algo fruto do desespero de Kim em ver sua relação com Jimmy desmoronar; mas não, ela tinha um plano sólido por trás daquele discurso que colocou seu parceiro contra a parede. Mas, na execução do plano, no casamento em cartório dos dois com Huell como testemunha (e hilariamente achando que tudo é um golpe – o que, de certa forma, não deixa de ser), vemos pela primeira vez em todas essas temporadas os dois realmente juntos e… felizes. A maneira distante como eles sempre se trataram é dissipada aqui, com sorrisos, brincadeiras e um momento raro de desejo e intimidade na cama em que Kim recebe a notícia de que Jimmy havia sido contratado pelo cartel de drogas como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Muitos podem ver isso tudo como algo que coloca Kim e Jimmy mais próximos ainda do abismo, mas, sinceramente, tenho uma visão especulativa diferente e creio que o caminho que a relação dos dois tomará será no mínimo peculiar.

Um episódio perfeito talvez merecesse mais comentários, mas acho que o uso do adjetivo “perfeito” deixa já muito claro minha opinião sobre ele. Eu poderia falar da curta, mas excelente sequência de Mike finalmente voltando a contactar Jimmy e, depois, revelando-se como “curado” diante de sua nora e neta, como se o trabalho para Gus fosse sua própria válvula de escape; de Gus e Nacho explodindo a loja dos Los Pollos Hermanos para manter a farsa em relação aos Salamancas e a Don Eladio, com o ódio fluindo do olhar destruidor de Gus; do estabelecimento ainda mais forte da conexão de Gus com a Madrigal, empresa dona de sua cadeia de lojas de frango frito e que, como fica claro, banca o super-laboratório subterrâneo na futura lavanderia, mas isso seria chover no molhado, pois é quase inacreditável que tantas peças móveis conectadas na base dos “seis graus de Kevin Bacon” funcione tão bem narrativamente, com transições fluidas e lógicas que mantém a temática de expiação e de mergulho no lado mais sombrio da personalidade em cada momento.

JMM parece ser o enterro de Jimmy e o começo de Saul como o vemos no episódio 2X08 (Better Call Saul) e seguintes da 2ª temporada de Breaking Bad. Mas ainda há um grande espaço temporal para ser coberto, mesmo que, eventualmente, as duas séries não se alcancem completamente e, tenho certeza que, no processo, Gilligan e Gould têm ainda diversas bolas curvas para arremessar.

Better Call Saul – 5X07: JMM (EUA, 30 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Melissa Bernstein
Roteiro: Alison Tatlock
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey
Duração: 48 min.

Crítica | Homeland – 8X08: Threnody(s)

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Uma trenodia é uma ode, poema ou composição triste e/ou fúnebre e o 8º episódio da última temporada de Homeland entrega justamente o que promete no título, inclusive com a pluralização da palavra. Chegam ao fim, aqui, não só Haissam Haqqani e, junto com ele, a esperança de paz Oriente Médio, como também o silencioso, tímido, mas corajoso Max Piotrowski, especialista em escuta eletrônica que era o último personagem clássico da série fora Carry e Saul.

O roteiro de Patrick Harbinson e Chip Johannessen, dupla imbatível na escrita da série, novamente entrega um texto afiado, repleto de tensão e angústia que, se não chega a nos dar exatamente esperança especialmente sobre o fim de Max, certamente valoriza muito os acontecimentos, pintando um quadro sombrio para o futuro tanto da protagonista, como da série como um todo. Tornando as mortes interdependentes, os roteiristas deixam claro de início que nada acabará bem e o pior acontece na reunião da sede de sangue e de vingança de G’ulom com a covardia e a falta de personalidade de Hayes, em demonstrações do que de pior o ser humano é capaz.

Toda o nervosismo que o episódio cultiva vem das desesperadas tentativas de David Wellington de ganhar a queda de braço contra John Zabel (Hugh Dancy, marido de Claire Danes) sobre quem tem mais o ouvido do influenciável presidente americano, com o segundo, extremamente belicista, daqueles que acham que tudo se resolve com bomba, tiro e porrada, levando os EUA à proximidade de mais uma guerra, desta vez tendo o Paquistão como alvo. Particularmente, a entrada de Zabel na série, que aconteceu ao final de F**ker Shot Me, e sua alçada a personagem-chave quase que instantaneamente aqui em Threnody(s) incomodou-me muito, por ele ser personagem novo, sem contexto, que deveria ter sido apresentado bem mais cedo na temporada de forma que ele funcionasse melhor aqui. Entendo perfeitamente a necessidade de um personagem assim, para contrabalançar o bom-mocismo de David que realmente parece querer fazer o melhor diante das circunstâncias, mas é justamente por ser evidente essa necessidade que essa peça deveria ter sido usada antes, mesmo que de maneira tangencial.

A grande verdade, porém, é que a história sobrevive a esse “intruso” graças à qualidade do trabalho da dupla de roteiristas e também de Michael Klick na direção que orquestra uma montagem paralela extremamente eficiente que contrapõe os dramas de Haqqani, sempre em planos americanos ou close-ups, e de Max, sempre visto à distância, em planos gerais. Sabemos que não há saída para nenhum dos dois, ganhamos momentos de respiro quando a prisão de Max segura a execução de Haqqani por um tempo, somente para tudo desmoronar em seguida. E, como se isso não bastasse, a reunião dos talibãs sob as mentiras engendradas por Jalal Haqqani é como sal da ferida, tornando toda a situação próxima de uma bomba prestes a explodir.

Mas toda essa desgraça funciona, na verdade, como degraus de uma escada para os torturantes momentos finais de Carrie, que espera o resgate do corpo de Max chorando sobre ele e expiando seus pecados para Yevgeny. A presença de Saul é um bálsamo, pois, com ele ali, tudo correrá bem, ainda que mesmo ali saibamos que as coisas não são tão simples assim. As dúvidas sobre a idoneidade de Carrie depois de seus sete meses presa na Rússia e de seus recentes contatos com Yevgeny precisavam cair sobre ela como uma guilhotina e é exatamente isso que aqueles segundos próximos ao helicóptero em que os soldados querem algemá-la significam. Mesmo que Saul não tivesse mesmo ideia do que estava prestes a acontecer, o mundo de Carrie termina de desabar ali, sem nenhum amigo seu vivo e o único que ela considerava aliado mostrando-se no mínimo impotente. Para o manipulador Yevgeny ser a última esperança de achar a caixa preta do helicóptero dos presidentes, quer dizer que, possivelmente, a agora novamente ex-agente da CIA chegou a seu outro fundo do poço.

A essa altura do campeonato, mesmo com a súplica de Haqqani para que Saul continue o caminho da paz, já não consigo vislumbrar qualquer final próximo do feliz. Não que eu esperasse isso, claro, mas, antes, eu conseguia ver raios de luz no meio da escuridão total e, agora, não mais. Um presidente fraco sendo manipulado por um conselheiro abertamente pró-guerra; a morte de um líder sendo utilizada como mecanismo para recrudescer sentimentos de vingança; uma quase declaração de guerra e uma agente da CIA desertando seu posto e bandeando-se para o lado de alguém cujas intenções estão longe de ser claras. O mundo de Homeland – talvez assim como o nosso – está em frangalhos e reconstruí-lo é um sonho longínquo. Melhor mesmo já irmos nos preparando para mais trenodias…

Homeland – 8X08: Threnody(s) (EUA, 29 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Michael Klick
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas, Hugh Dancy
Duração: 48 min.

Crítica | The Walking Dead – 10X14: Look at the Flowers

plano crítico The Walking Dead – 10X14 Look at the Flowers

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Ou um tolo disposto a acreditar em futuros amigos.

Aproximando-se do final da 10ª Temporada fica mais claro o alarme falso dos sussurradores, prometidos como a maior ameaça da série até então, mas na prática nunca funcionando dessa forma (tal como o Negan), extremamente bem introduzidos, mas com um arco enrolado tão à exaustão que foi diminuindo o tamanho deles conforme o tempo. A Alfa MORREU no episódio passado e parece que toda a sua trupe evaporou junto a ela, porque ninguém fica sabendo disso ao longo desse episódio além de Beta e outros cinco capangas. Inclusive, aquele final vinha com a conexão forçada de Carol como a precursora do plano ao liberar Negan para matá-la, uma jogada deviadamente irresponsável, no limbo, mas que parecia na fala “You take long enough”, transparecia uma lucidez de que ela sabia que era certa, para o discurso mudar justamente na cena seguinte, em que ela já começa reclamando ao Negan que demorou demais e começa a transtornar de novo, dizendo que quer ficar sozinha e partindo sem rumo, para lugar nenhum.

Já defendi a personagem antes, poucos episódios atrás (especificamente em Squeeze), mesmo sendo uma dramaticidade de atitudes irracionais que ela já havia tomado antes na série, havia coerência e verdade segundo a tendenciosa crescente do arco até aquele momento. Contudo, com o fim de Alfa, com a confiança daquela fala e dado o “planejamento” que o roteiro assumiu, escancaradamente explicado na primeira cena forçando a conexão, não faz sentido ela, nesse episódio, continuar maluca da cabeça alucinando fantasminha (de novo) para lembrar da sua fragilidade que já está clara há muito tempo. O que isso significa? De novo, aquela famosa enrolação marota que The Walking Dead adora fazer em episódios de numerações parecidas. Ao menos em determinado tempo, a série fazia uma questão de esconder, agora pouco importa, Negan nem a questiona ao não cumprir a parte do trato de levá-lo para Alexandria como álibi de testemunha, porque eventualmente ele não está nem um pouco preocupado, no território inimigo, em ser pego, porque já parece que sabe o que vai acontecer nas cenas seguintes.

Ok. Admito que mesmo assim foi de enorme satisfação a cena em que três dos sussurradores encurralam Negan e Daryl, que encontra o personagem na cabana de Lydia (sumida, de novo), e todo o contexto leva a crer que ambos estavam encrencados, mas inesperadamente os capangas mascarados se ajoelham perante Negan como se fosse o novo Alfa. Aproveitando a situação, principalmente diante da grande desconfiança de Daryl, Negan articula um teatrinho para satisfazer o ego, e consequentemente, pela indomável performance de Jeffrey Dean Morgan, por alguns segundos consegue levar o público a achar que realmente a série poderia mudar totalmente o rumo e colocá-lo como vilão de novo (e seria sensacional se acontecesse, diga-se de passagem). Mas lógico, na hierarquia dos “sussu”, quem estava devoto a isso era Beta, que assim como Carol passa o episódio tendo devaneios inúteis com a Alfa zumbi, a diferença é que ele não quase morre gratuitamente com isso e que não era um fantasminha, mas a cabeça da mulher falando com ele e o guiando a tomar alguma atitude. 

Ora, qual seria esse grande plano do subconsciente de Beta, digo, que a cabeça de Alfa tinha para guiá-lo? Pegar um vinil, aparentemente dele mesmo pelo que deu a entender, chamado Half Moon, começa tocar e juntar zumbis na área para que ele possa guiá-los de lá, Rob Zombie ficaria orgulhoso. Mas, cadê o resto dos zumbis da caverna? Ou do ataque a Hilltop? Não eram controlados por eles? Como dito, parece que eles evaporaram junto de Alfa, tanto que na cena em que Beta pega a cabeça de Alfa, só dois o acompanham ao invés uma manada considerável, um deles é comido pela cabeça e o outro foge e fica por isso mesmo, a ameaça final parece ser apenas Beta e o restante dos zumbis que irão à vingança, com desvantagem. A promessa de que “nunca vimos uma horda tão grande como aquela do penhasco” possivelmente ficará na falácia, afinal só faltam mais dois episódios para o fim, e o próximo, que até tinha tempo para organizar isso, não vai porque irá provavelmente ocupar o que esse deveria ter sido, que é a jornada de Eugene em conhecer a tal nova comunidade de Stephanie no rádio.

Infelizmente até nisso eles enrolaram, embora a preocupação geográfica mais uma vez tenha ido para o espaço. Como depois de tanto tempo eles se deparam com uma cidade nova aparentemente tão próxima dali, porque Atlanta certeza que não era vista a demora imensurável que foi chegar em Alexandria originalmente, então fica o questionamento. Chega a ser tão grotesco que vai além dos erros de montagem, também presentes no capítulo, que em uma cena Negan e Daryl trocam palavras, e na outra, Daryl já está em Alexandria recebendo Carol que quase morreu na cena anterior, sozinha, cadê a cena de ligação entre os fatos? Ou melhor, Negan entrou lá de boa mesmo por causa do Daryl? Aliás, o combinado de Eugene e Stephanie era só que ambos se encontrassem, mas Ezequiel e Yumiko decidem ir também só para haver três ceninhas de enrolação, uma com Yumiko e Magna falando se é uma boa ideia ela acompanhar e abandonar de novo o grupinho delas, já separado, e as outras duas com Ezequiel possivelmente se despedindo de Jerry porque deve morrer logo em breve, e outra que ele questiona se deve continuar ou não pela limitação física.

A Stephanie mesmo só vai dar as caras por meio segundo nos minutos finais do episódio, obviamente, como dito, deixando o gancho de como se desdobrará essa nova comunidade para o próximo. Espremendo tudo ao final, não houve nada, a história não avançou, personagens não foram desenvolvidos, situações que já não estavam previstas para ele foram criadas, foi um travamento completo e inútil de dezenas de situações pendentes que ficaram para ser resolvidas somente no último episódio, que nem tem data mais para estrear, visto a baderna que está a produção da série, não houve tempo nem de concluir um episódio já gravado de longa data na pós-produção, porque nem os produtores devem saber como ele deve acontecer para ligar o universo compartilhado e finalizar de forma minimamente recompensadora essa decepcionante temporada.

The Walking Dead – 10X14: Look at the Flowers — EUA, 29 de fevereiro de 2020
Direção: Daisy Mayer
Roteiro: Channing Powell
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

Crítica | Crip Camp: Revolução Pela Inclusão

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Em 2019, a recém-criada produtora Higher Ground, do casal Barack e Michelle Obama, trazia seu primeiro filme, Indústria Americana. O documentário focava no dia-a-dia de uma fábrica automobilística comprada por chineses, mesclando temas como a troca cultural entre os trabalhadores e questões sindicais. Agora, na segunda produção da dupla, Crip Camp: Revolução Pela Inclusão, os Obamas também apostam em uma história real que aborda direitos sociais e civis. Todavia, a diferença é que se no filme vencedor do Oscar havia uma certa postura distanciada e insegura de suas intenções, o novo filme da Netflix é uma visão totalmente subjetiva, intimista e nostálgica, com o diretor James Lebrecht, um cadeirante, recordando de suas memórias em um acampamento para deficientes na década de 70 e, posteriormente, a luta política pelos direitos dessas pessoas.

Entre as coisas que mais chamam a atenção no filme, é interessante ver como ele opta por uma mudança de tom muita abrupta. Em sua primeira metade, o que temos é a apresentação de toda aquela vida no acampamento. Primeiro, vem uma insegurança no relato de todas aquelas pessoas, sempre acostumadas com a rejeição. Contudo, rapidamente o clima de alegria e contamina o documentário, seja pelo próprio registro do passado ou pela maneira como Lebrecht está sempre entrevistando seus antigos colegas no presente de maneira descontraída. 

Parece um detalhe bobo, mas a condução de muitas dessas conversas para um lado mais amoroso e sexual é fundamental para quebrar um tabu existente quanto a isso. Justamente por não ser uma visão de fora, que talvez se preocupasse em um lado muito mais apelativo e que explorasse a dor daquelas pessoas, mas sim de alguém que vive aquilo, Lebrecht abraça a normalidade e a banalidade, tornando seu documentário incrivelmente humano. Não que mostrar o sofrimento real daquelas pessoas se tornasse um vitimismo barato, algo absurdo de concluir, mas a opção de uma abordagem mais otimista reforça que todas aquelas pessoas também são humanas e possuem sentimentos como todos os outros da sociedade. Neste sentido, Crip Camp é revolucionário.

Em contrapartida, na segunda metade, a narrativa ruma para caminhos mais sérios. Apesar de ser um tanto quanto anticlimático e contrastante em relação aos acontecimentos do acampamento, a mudança de direção se justifica. Afinal, o filme não é só divertimento e nem teria como ser, pois naquela época era praticamente inexistente o direito daquela minoria. Logo, Crip Camp também não deixa de ser um manifesto. Lebrecht reconhece que sem a existência daquela luta, seu documentário jamais existiria. Assim, nada mais justo do que retribuir aqueles que lutaram fazendo greve de fome por 20 dias durante a luta pelos direitos civis do que postergar a existência dos mesmos no próprio ato de resgatar imagens documentais.

No fim, Revolução Pela Inclusão fica neste meio termo entre mero registro despretensioso eu um documentário político didático típico da Netflix, uma vez que vai se criando a sensação de que talvez o primeiro talvez só exista para reforçar o segundo. Através da estrutura narrativa estabelecida, é precisamente pelos momentos de alegria do início do longa que se aumenta a importância do sacrifício posterior. Se eu falava que Lebrecht agia genuinamente na condução do registro de imagens do acampamento e nas conversas, a espontaneidade dos mesmos acabam perdendo sua força quando são utilizados não como fim em si mesmo, ainda que sejam um meio para uma das causas mais nobres possíveis.  

Crip Camp: Revolução Pela Inclusão (Crip Camp: A Disability Revolution) — Estados Unidos, 2020
Direção: Nicole Newnham, James Lebrecht
Roteiro: Nicole Newnham, James Lebrecht
Elenco: Larry Allison, Dennis Billups, Judith Heumann, James Lebrecht, Evan White
Duração: 107 mins.

Crítica | Westworld – 3X03: The Absence of Field

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  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia, aqui, as críticas dos outros episódios.

Bom, como se não bastassem as notícias ruins da atualidade, descobrimos agora que em 2058 não existirão mais elefantes. E é com essa frase animadora que eu começo a falar sobre o interessante episódio de Westworld nesta semana, que trouxe diversas perguntas e, tenho certeza, fez a festa na cabeça dos espectadores que adoram dissecar possibilidades e pensar em inúmeras teorias sobre o que assistem, o que definitivamente não é o meu caso. Mas o que foi apresentado pela série até aqui é, de fato, um bom cenário de preparação de guerra. Sigo entre curioso e animado pelo desenrolar desse conflito.

O foco em “Charlotte” foi um exercício de sugestão muito interessante do roteiro, embora um pouco confuso no começo. E não digo isso porque a identidade de quem está naquele corpo segue um mistério para nós. Falo diretamente em relação ao processo que o texto de Denise Thé oferece, tornando a personagem presente e solidificando a sua presença com mistério e com um despertar que é capaz de gerar uma história inteirinha sobre perspectiva, entendimento de si e escolhas pessoais (até onde é possível), ou seja, o retrabalhar de ingredientes já conhecidos da série, mas que nunca perdem a validade ou a graça, especialmente quando colocados em outra base narrativa, com outros personagens, condições e consequências a serem analisados.

Confesso que só comecei a aproveitar de verdade esse bloco a partir da cena em que “Charlotte” chega em casa, mais precisamente, sua cena com o filho. A atuação de Tessa Thompson ganha aí uma outra proporção, e tanto esta quanto as cenas dela com Dolores e com o abusador que estava assediando o garotinho no parque são as minhas favoritas do episódio. É a partir do núcleo de “Charlotte” que a temporada ganha uma cara nova, adicionando um certo tempero de narrativa intricada, algo que alguns espectadores gostam bastante. O que me deixa feliz com os mistérios e possibilidades abertas neste terceiro ano é que elas nos permitem pensar diretamente nas ações em jogo, o que torna a situação mais realista e com possibilidades plausíveis que podemos aludir aqui e ali, fazendo-nos parte direta do processo de construção, mesmo que não saibamos exatamente o que está sendo construído — diferente do tsunami simbólico-temporal intransponível e permanentemente confuso da temporada passada.

O mesmo processo de lidar com dilemas de autoconhecimento ou de “acordar para a realidade” se dá no núcleo de Caleb, agora definitivamente ao lado de Dolores. O que descobrimos sobre ele é que é um humano com um implante capaz de fazer com que seja possível controlar certas funções vitais de seu corpo — ao que me parece, é algo comum para os militares do futuro. Nesse mesmo núcleo, temos mais informações sobre a misteriosa Inteligência Artificial chamada Rehoboam, vindo aqui com uma citação de “Mundo Espelhado”. O que é mais amedrontador em relação a isso é que a coleta de dados pessoais de todos nós é uma realidade hoje, e que isso é utilizado para moldar uma porção de coisas no mercado consumidor e de produção (e aqui estou sendo bonzinho e não vou levantar outras áreas porque aí teria que dar muito contexto para não entrar no barco dos alucinados de teorias de conspiração… e não estou com paciência e nem vontade de fazer isso. Sem contar que aqui não é o lugar. Quem sabe um Plano Polêmico no futuro?).

É aplaudível a maneira totalmente pé no chão com que os roteiros estão trabalhando situações complicadas e sugestões sobre o andamento da problemática central, considerando o papel diferente de cada personagem, a dúvida sobre QUEM são e como suas realidades se encaixam. Como imaginávamos, o desenvolvimento dos grandes temas começariam a partir deste terceiro episódio e não fomos decepcionados. Claro que o enredo demora um pouco mais para engatar, mas no fim, compensa com gosto o início. Ninguém segura mais Dolores!

Westworld – 3X03: The Absence of Field (EUA, 29 de março de 2018)
Direção: Amanda Marsalis
Roteiro: Denise Thé
Elenco: Evan Rachel Wood, Tessa Thompson, Aaron Paul, Vincent Cassel, Lawrence Adimora, Cody Banta, Cameron Blunt, Stephanie Burke, Cindy Choi, Lorna Duyn, Tommy Flanagan, Dexter Hobert, Remington Hoffman, Pom Klementieff, Nikol Kollars, Mathieu Szymkowiak
Duração: 65 min.