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Crítica | The Flash – 6X12: A Girl Named Sue

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

The Flash segue consistente em sua fase renovada, provando novamente a precisão das mudanças que o time de produção atual tem feito em relação ao modelo da série, especialmente desgastado ao longo das temporadas anteriores. Nosso episódio da vez, A Girl Named Sue, mostra que a nova ordem na casa é capaz até mesmo de entregar a apresentação de uma subtrama há muito tempo anunciada de forma justa, envolvente e — sempre bom — surpreendente!

O leitor que acompanha nossa cobertura da série já deve saber que Ralph Dibny (Hartley Sawyer) é um dos meus personagens favoritos de todo o extenso elenco da série, a versão da CW surpreendentemente tendo conseguido fazer jus ao Homem Elástico dos quadrinhos, mesmo levando em conta as ocasionais derrapadas. Assim, não tem como não admitir que a introdução de Sue Dearbon (Natalie Dreyfuss) não trazia uma carga de expectativa e de justificada apreensão da minha parte, em especial com a recente jogada para escanteio que o personagem de Ralph recebeu ultimamente.

Felizmente, o episódio não desperdiça a ocasião e prova que a estratégia de colocar o núcleo no banco de reservas é sempre válida quando significa explorar de forma legitimamente interessante as narrativas potenciais dos personagens, quando sua vez chegar. Muito mais vale um episódio bom desses do que meia dúzia de aparições reduzindo o Homem Elástico a alívio cômico e/ou contraponto em uma nova DR no Team Flash, não é?

Em termos de roteiro, não consigo pensar em forma mais eficiente de introduzir Sue do que a que tivemos aqui. Ao mesmo tempo em que se presta homenagem às origens da personagem e da relação com Dibny nos quadrinhos originais, temos também uma série de ajustes que a colocam em boa sintonia com essa versão do personagem, resultando em uma química interessante e instantânea. Enquanto, assim como no original, temos o Homem Elástico perseguindo a moça em um comportamento levemente stalker, no twist final  descobrimos que a persecutoriedade não apenas era recíproca e, pior ainda, resultou em uma traição fria e calculista! Esse encaminhamento tornou a personagem instantaneamente mais interessante, introduzindo conflito na subtrama romântica de uma forma que cai perfeitamente bem com o personagem. A dinâmica de Lupin III e Fujiko Mine cai perfeitamente bem para a dupla, e espero que possa ser trabalhada com o ritmo que merece. Não temos pressa em ver o casal “feliz para sempre”, eu quero ver é drama e desgraça (desculpa, Ralph)!

Fora isso, a dinâmica pessoal da dupla também funciona muito bem desde o inicio, valendo-se de diálogos bem escritos, boa atuação e a benção de algo que costumeiramente falta para a série: sutileza. Não é difícil imaginar (e ainda pode muito bem acontecer) uma versão desse episódio recheada de diálogos toscos em que Ralph explica ao espectador o paralelo e as semelhanças entre ele e Sue, roubando a coisa toda de qualquer organicidade. Mesmo o momento breve em que Cecile (Danielle Nicolet) dá as caras para fazer um pouco dessas honras, a coisa funciona bem pois serve de base para um momento comédico bem atuado que entrega o mesmo ponto (a compatibilidade e identificação de Ralph e Sue, mesmo que já suspeitemos dela nesse momento) sem precisar soletrar para nós de forma maçante.

A aventura lupinesca do (ainda não) casal — não bastassem as máscaras, temos até o macacão de couro a la Fujiko da Sue! — acaba em um combate muito bacana contra Ultraviolet (Alexa Barajas), onde ambos conseguem brilhar e, no final das contas, segue até uma pontinha para nosso Velocista Escarlate salvar o dia na hora H. Gostei de absolutamente tudo nessa subtrama, que de quebra conseguiu se encaixar perfeitamente com o restante do arco maior da temporada, que tem conseguido deixar de lado a afobação e o teasing característicos em favor de uma narrativa que, no melhor dos sentidos, parece uma excelente série em quadrinhos se desenvolvendo.

Não dá um belo fôlego renovado acompanhar as ocorrências metahumanas em Central City sem fazer com que tudo gire em torno de alguma ameaça futura pré-determinada com ligações profundas com o passado/futuro de Barry, a Força de Aceleração e os ensinamentos que seus pais deixaram para ele? Com um elenco tão extenso e forte de personagens, é uma injustiça que a série faça menos do que isso, e felizmente estamos tendo um ótimo aproveitamento de personagens que antes acabavam totalmente esmagados pela ladainha narrativa de sempre.

A subtrama de Iris (Candice Patton) e sua duplicata espelhada (podemos combinar de chamar ela de Siri?) continua forte, aproveitando o espaço de tempo alocado para o plot-B para algo muito mais interessante do que o habitual. Construindo uma potencial nova versão do Mestre dos Espelhos, a náufraga especular Eva McCulloch (Efrat Dor), esse núcleo evoca muito bem a aparição anterior do vilão, tomando o tempo para mostrar o truque anterior de se resfriar o espelho não funcionando aqui — provavelmente devido aos poderes que McCulloch adquiriu sem saber. Mais uma vez: não dá pra imaginar a mesma coisa sendo tratada na base do esculacho, com Cisco apenas comentando algo como: “Putz, não dá para congelar o espelho dessa vez porque as leituras de matéria escura ultrapassaram o eixo negativo!”? O quão mais interessante é trazer a continuidade passada de forma orgânica e tomar o tempo para mostrar nossos personagens tentando se virar com o que sabem, ao invés de rechear o caminho do “ponto A” ao “ponto B” da história com um tratado de diálogo expositivo?

A Girl Named Sue é tudo que eu espero de um bom episódio de The Flash: elenco bem explorado de personagens, diálogo afiado, momentos cômicos, sequências de ação, suspense, ausência de plots repetidos de forma canalha e dramalhões desnecessários. Sei que temos que tomar cuidado ao animar com essa série, mas estou cada vez mais caindo nesse novo truque da CW! Sério mesmo, o que poderia acontecer de errado, agora?

Peraí, semana que vem vai ter o quê!? Ah não…

The Flash – 6×12: A Girl Named Sue — EUA, 18 de fevereiro de 2020
Direção: Chris Peppe
Roteiro: Thomas Pound, Lauren Certo
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Hartley Sawyer, Jesse L. Martin, Tom Cavanagh, Danielle Nicolet, Efrat Dor, Natalie Dreyfuss, Alexa Barajas
Duração: 43 min.

Crítica | Frankie (2019)

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Existe uma crença de que viajar pode ser um ato transformador. Pelo menos, é isso que uma família rica e cheia de problemas de relacionamento acredita. Explorar o desconhecido e o místico de uma região é também um exercício de autoconhecimento. Ou talvez a simples experiência compartilhada e a mudança de ares seja o suficiente para que aquelas pessoas acreditem que o mesmo irá acontecer com elas por meio de osmose. Este é o caso da famosa atriz Frankie (Isabelle Huppert), que sempre organiza uma viagem familiar quando quer anunciar algo grande. Desta vez, a escolhida é a histórica cidade de Sintra, em Portugal. Para além de praias, florestas, ruas íngremes de pedra, monumentos religiosos e fontes com possíveis poderes de cura, a protagonista está lá por um motivo. Após a recaída de seu câncer, Frankie quer agir como um pombo do amor e aproveitar o máximo de tempo possível com todos os seus entes queridos, mas também deixando um espaço para que eles resolvam seus problemas sozinhos.

Basicamente, o longa é narrativamente dividido em diversas subtramas e poderia facilmente se chamar Antologia do Amor em Sintra”. Contudo, apesar de nunca haver um senso de fechamento para todas essas histórias e nem uma conexão direta com a jornada de Frankie, há algo em comum em todas elas e que acaba revelando a verdadeira protagonista do filme: a cidade portuguesa. Filmado pelas lentes de Rui Poças (colaborador frequente de Miguel Gomes e João Pedro Rodrigues), o cinegrafista consegue capturar Sintra como uma entidade viva e que mesmo ainda estando ao fundo dos diálogos, chama atenção de um jeito que também não tira a força destes e se torne apenas uma tour paisagística. Sempre caminhando ou olhando tanto para o horizonte na linha do mar ou quanto para o “mar verde” de árvores, os personagens parecem sentir os ventos daquela cidade costeira provocar um desejo de mudança em seus espíritos. 

Em Frankie, Sintra se torna o palco que acomoda todas as fases que uma relação pode ter: temos aqueles que estão vivendo uma paixão de verão; os que estão em um relacionamento estável; os que percebem que estão vivendo um romance desgastado ou que não estão com a pessoa certa; e aqueles solteiros que vivem bem consigo mesmo ou descobrem que precisam de alguém. Em um momento do filme, Frankie diz que não quer ver as pessoas chorando a sua volta, mas apenas aproveitando o momento. Por este motivo, faz até sentido que não exista um grande desfecho dramático e emocional para cada relação, como se o roteiro de Sachs e Zacharias se curvasse às vontades de sua protagonista, que quer apenas aproveitar o momento despretensiosamente. Aliás, isso é algo que acaba ficando claro desde a cena inicial, na qual ela se prepara, sem pressa, para entrar na piscina e retira a parte de cima de seu biquíni, em um ato que já demonstra essa vontade de apenas aproveitar o agora, sem filtros.

Neste sentido, Huppert — que assim como em Câmera de Claire, parece interpretar a si mesma —  ganha força principalmente por esconder uma enorme fragilidade através de um visível esforço justamente estar sempre tentando contê-la. De certo modo, além de ter a mudança como mote, Frankie, paradoxalmente, é também sobre conformismo. Personagens que relutam em mudar ou aceitar o destino indesejado, mas que precisam de alguma forma se adaptar a ele. Assim, o que se revela é que que tudo parece estar longe do controle de seus personagens.

Em um momento do longa, Paul (Jérémie Renier), revela que sua mãe, Frankie, havia planejado uma viagem para Algarve (também em Portugal), quando ele tinha 18 anos, para que houvesse uma aproximação com Jimmy (Brendan Gleeson), seu novo padrasto, e Sylvia (Vinette Robinson), sua futura meia-irmã. Contudo, contrariando os planos da matriarca, os dois jovens acabaram se relacionando, o que impediu que eles se reunissem como família e fazendo com que Paul fosse morar longe. Similarmente, a viagem para Sintra guarda contornos parecidos: na tentativa de unir sua amiga Ilene (Marisa Tomei) com o próprio Paul, mal sabia Frankie que o destino guardava outros planos para Ilene. Ao final do filme, quando a atriz percebe o que está acontecendo, ela observa de longe, em um misto de medo e conformação com a situação, finalmente entendendo que o amor talvez seja algo incontrolável, assim como a morte. Aliás, voltando na questão da mística de Sintra, curioso pensar nos dois personagens que ao início do filme bebem na fonte considerada mágica.

São duas situações paralelas (e até cíclicas) que reforçam em Frankie a indiferença da vontade humana diante dos desejos da paixão e da própria natureza, que se regem por forças autônomas — e, neste caso, parecem acontecer em um lugar estrangeiro: Algarve e Sintra. No fim, é significativo que Ira Sachs decida finalizar seu filme com um plano tão distanciado, mostrando a pequenez daqueles dramas — que não deixam de ser burgueses — diante de um pôr-do-sol. Sintra prometeu uma mudança, mas traçou o seu próprio para aquela família. O que resta é a contemplação e aceitação do destino.

Frankie – França, Portugal 2019
Direção: Ira Sachs
Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias
Elenco: Isabelle Huppert, Brendan Gleeson, Greg Kinnear, Marisa Tomei, Jérémie Renier, Pascal Greggory, Ariyon Bakare, Vinette Robinson, Carloto Cotta, Mikaela Lupu, Senia Nannua
Duração: 98 min.

Crítica | Doctor Who – 12X08: The Haunting of Villa Diodati

plano crítico doctor who The Haunting of Villa Diodati

  • Há SPOILERS! Leia aqui as outras críticas da Nova Série. E aqui as críticas da Série Clássica. Para livros, áudios, quadrinhos e listas de Doctor Whoclique aqui.

Eu vou começar dizendo que ainda não ouvi Mary’s Story, áudio da Big Finish que faz parte de um combo de 4 aventuras em sua Série Mensal de Doctor Who, sob o título guarda-chuva de The Company of Friends (BF #123). Esta história se passa exatamente no mesmo dia que The Haunting of Villa Diodati, e tem gerado certo desconforto ente os espectadores da BF, o que entendo perfeitamente. Eu gostaria que pelo menos houvesse a indicação de que a Doutora apagou a mente dessa trupe toda, o que pode ter acontecido em elipse, claro, mas a gente não sabe ao certo. De todo modo, é sempre possível encontrar um caminho sólido para adequar paradoxos e contradições desnecessárias (e para ser franco, bem desrespeitosas, já que a BF é um baú de ouro oficialmente licenciado pela BBC para trabalhar com Doctor Who) entre os áudios e a série. Uma coisa é certa: não será a primeira e nem a última vez que isso acontece. Uma lástima, é verdade. Mas é aquele ditado: “tudo, não terás“.

Quando eu descobri o título desse episódio, algumas semanas antes dele ser exibido, eu vibrei de emoção. Trata-se de um momento precioso na História da Literatura Universal, quando Percy Bysshe Shelley, Mary Shelley, Lord Byron e John William Polidori (acompanhados da irmã adotiva de Mary, Claire Clairmont) se reuniram na Villa Diodati, próximo ao Lago Léman (aqui, Lake Geneva), na Suíça, em junho de 1816. Do “concurso literário” proposto entre os amigos nesta ocasião, saíram diversas produções assustadoras, das quais entraram para a história O Vampiro, de Polidori (inspirado em O Fragmento, de Byron, rascunhado na ocasião) e principalmente Frankenstein, de Mary Shelley. Para amantes da literatura gótica, especialmente em suas raízes, esse é o tipo de episódio que a gente vê com um brilho macabro nos olhos. E que bom que a roteirista Maxine Alderton acertou a maior parte do tempo naquilo que ela se propôs contar.

O Time-TARDIS chega à Villa Diodati com um propósito que o texto explica mal e parece que não sabe bem como fazer valer no início. Para nossa sorte, o desconforto passa rápido e de maneira até que bastante orgânica eles começam a experimentar (juntamente com os residentes) coisas sobrenaturais. Há uma vibe interessante de Ghost Light aqui e toda a história de terror tem solidez o bastante para se sustentar, tanto que até a aparição do Cyberman solitário, eu estava achando a obra um interessantíssimo e divertido filler. A surpresa, porém, foi muito boa. Ver um dos plots do ano ligado ao que parecia ser apenas uma viagem solta da Doutora foi uma das coisas mais legais em termos de encadeamento narrativo nesta temporada, sem contar que o episódio em si tem uma direção muito competente na criação dos espaços de terror, misturando fantasmas ao imaginário total de “casa assombrada“, algo que tem uma explicação ainda mais interessante e um mistério a tiracolo (tadinho do Graham, todo chocado porque viu fantasmas).

A movimentação dos personagens na mansão, a belíssima direção de fotografia e o progressivo elemento de medo nos leva para um ótimo final, que traz a Doutora fazendo um baita discurso enraivecido, plenamente coerente com sua personalidade (dá vontade, não é, Chibnall e Charlene James? Vê se aprendem a não descaracterizar e desrespeitar a personagem, can you hear me?) e apostando alto para salvar uma vida e em seguida, desfazer as consequências de seus atos. Meu impasse com esse episódio está no tratamento final desse plano. A Doutora mostra um pouco a Percy como ele iria morrer (de fato, ele morreu afogado) e engana o dispositivo vivo dentro do poeta, que sai do corpo na mesma hora. A questão é que não há nenhum indício de que a Doutora apagou a memória de Percy, e isso é problemático em tantos níveis que não vou nem começar a escrever. Eu falei no começo da crítica que a gente pode encontrar caminhos para justificar algumas coisas da série, mas por favor, isso não é um “simples” problema de resolução harmoniosa para paradoxos, contradições e outras escolhas difíceis de se explicar à primeira vista. A Doutora mostra e reafirma (pedindo desculpas ao poeta pela espiada trágica do futuro!) algo que ele não deveria ver de jeito nenhum e parece que as coisas ficam por isso mesmo. É complicado… quando não é uma coisa, é outra.

Está claro agora que abrimos a porta de entrada para um Finale de temporada que tomará os dois episódios restantes deste 12º ano do show. Estou curioso e ao mesmo tempo apreensivo pelo que Chimbs nos trará adiante. Já vou colocar minha barba de molho. A coisa vai esquentar.

Doctor Who – 12X08: The Haunting of Villa Diodati (Reino Unido, 16 de fevereiro de 2020)
Direção: Emma Sullivan
Roteiro: Maxine Alderton
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Lili Miller, Jacob Collins-Levy, Nadia Parkes, Maxim Baldry, Patrick O’Kane, Lewis Rainer, Stefan Bednarczyk, Sarah Perles
Duração: 45 min.

Crítica | Homeland – 8X02: Catch and Release

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Homeland é uma obra de ficção, claro, mas a série sempre primou pelo realismo, especialmente no que se refere à intrincada geopolítica que procura abordar. E a derradeira temporada, talvez a primeira a mergulhar de cabeça na desejada paz no Oriente Médio, vem para primeiro discutir exatamente que paz é essa que todos dizem que almejam, usando isso como pano de fundo para momentos de tensão que explodem precisamente logo nesse segundo episódio e que efetivamente arma o que está por vir.

Sempre abracei um conceito que meu pai me ensinou, de que o Homem é, fundamentalmente, um ser beligerante. Somos formados e moldados por conflitos tanto em escala global quanto em escala pessoal e a paz é algo que mais se parece com utopia, com algo que precisamos dizer que queremos sob pena de enlouquecermos, mas que, lá no fundo, sabemos ser impossível. Uma visão pessimista, sem dúvidas, mas olhando apenas para o presente e ao nosso redor, diria que é uma visão realista, especialmente no que se refere ao Oriente Médio. E Catch and Release deixa isso dolorosamente evidente quando afirma que mesmo os americanos só querem a paz como veículo para a retirada estratégica de suas tropas e não como algo verdadeiramente duradouro. Talvez Saul Berenson mantenha acesa a chama da esperança e Mandy Patinkin está incrível em passar esse sentimento quando ouve a gravação da conversa telefônica de Haqqani com seu filho que Max obteve, mas tudo ao redor dele conspira contra, desde seu próprio governo, passando pelos afegãos, pelos paquistaneses, pelos russos e, claro, pelos próprios talibãs.

A teia que esse episódio joga nesse panorama impossível é muito bem trabalhada, com cada elemento sendo uma decorrência lógica do que vimos em Deception Indicated e do que efetivamente vemos no mundo real. Carrie precisa recorrer à chantagem para fazer com que o vice-presidente afegão volte atrás em sua declaração de que não soltará os prisioneiros talibãs, condição fundamental para as conversas de paz continuarem, a filha do presidente afegão conspira para derrubar de vez as tratativas com um atentado à Haqqani que coloca Saul em maus lençóis e, por trás disso tudo, os russos, representados pelo ardiloso Yevgeny Gromov, manipula tudo por trás, inclusive – e especialmente – a própria Carrie. É um labirinto complexo que, muito propriamente, nos impede de ver qualquer saída minimamente razoável, já apontando para um final que não consigo imaginar que seja sequer próximo do feliz.

E é disso que Homeland é feito, essencialmente: cenários impossíveis que até ganham resoluções “cinematográficas” para agradar seu público, mas que nunca são fáceis ou mesmo agradáveis. O maior exemplo disso é o final da temporada anterior que forçou Carrie a abrir mão de sua filha e a entregar-se ao cativeiro russo, retornando completamente destruída psicologicamente, com efeitos que, felizmente, foram carregados para a última temporada como parte de seus pilares. Duvidar do que a agente enregou ou não aos russo é um brilhante retorno à Trilogia Brody, mas ter Yevgeny de volta como personagem ativo é esfregar sal da ferida, algo que fica ainda mais terrível quando as imagens e sons do passado que até agora nos deixaram ver parecem indicar que o russo e Carrie tiveram uma relação mais próximo ainda do que só carrasco e prisioneira, mas como resultado da privação de Carrie de seus medicamentos, não como algo genuíno.

Saindo do eixo central de personagens da série, devo dizer que tenho gostado muito da forma como a agente Jenna (Andrea Deck) vem sendo usada na temporada. Apresentada como alguém ainda verde, o que automaticamente manteve Carry distante, aqui ela tem seu papel expandido e percebemos que ela realmente ainda tem muito a aprender, logo estragando a entrevista falsa com Samira Noori (Sitara Attaie), nome tão gentilmente cedido por Yevgny. Tomara que Jenna (e possivelmente até Samira) ganhe crescente destaque na temporada. No lado paquistanês, a traiçoeira Tasneem (Nimrat Kaur), personagem que foi apresentada na série lá na 4ª temporada e que fez gigantescos estragos, continua com um papel pequeno, mas essencial que também espero ver expandido em razão de seus laços com Haqqani e com o talibã.

Mesmo que eu mantenha minha posição inicial de que eu gostaria de ter visto mais de Carrie Matheson no hospital militar antes de ir para campo, é inegável que não teríamos um episódio dessa categoria para armar a temporada sem a agente bipolar em Cabul. E o melhor é que, aqui, tivemos Saul também em ação, resultando em seu sequestro (de novo!) por Haqqani e uma simpática coronhada de AR-15. Se é verdade que, se queremos paz, devemos nos preparar para a guerra, Catch and Release fez isso muito bem!

Homeland – 8X02: Catch and Release (EUA, 16 de fevereiro de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Lesli Linka Glatter
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie
Duração: 42 min.

Crítica | Sonic – O Filme

A chegada do espinhoso Sonic em sua versão cinematográfica foi esperada por muitos fãs desde que os rumores ganharam forma e se transformaram em projeto sólido com agendamento para 2020. Os anéis e seus sons peculiares, os passeios velozes do nosso herói azulado por Green Hill, os embates com Robotinik e outros momentos das aventuras que algumas gerações acompanharam desde a década de 1990, nos jogos da SEGA, agora já podem ser conferidos em sua tradução intersemiótica assinada por Jeff Fowler. Nada contra os efeitos visuais, a construção live-action de Sonic, tampouco ao filme em si, adequado para a proposta na qual está inserido. O grande problema é a nossa expectativa, nostálgica demais, pois se você espera ver uma “adaptação” do videogame que esteja focada em detalhes vivenciados pela nossa relação passada com o joystick nas mãos, adianto que você, caro leitor, vai se arrepender profundamente.  E se arrepender por culpa exclusivamente sua.

Ao longo dos 99 minutos da aventura, acompanhamos os personagens criados por Naoto Ohshima, Hirokazu Yasuhara e Yuji Naka, adaptados dos games para a linguagem cinematográfica pelo roteiro da dupla formada por Patrick Casey e Josh Miller. Eles nos mostram a chegada de Sonic (voz de bem Schwartz), o porco-espinho veloz que chegou ao nosso mundo através do anel que lhe serve como portal. Aqui na Terra, habita a interiorana cidade de Green Hill, um local pacato que logo mais será o cenário para as loucas ações do Dr. Ivo Robotinik (Jim Carrey), personagem envolto numa roupagem do seu ator no modo anos 1990, isto é, muitas caras e bocas, histrionismo que chega na linha de ultrapassagem dos limites do que é engraçado. Sonic, com hábitos e visões diferentes do mundo ao seu redor, torna-se amigo de Tom Wachowski (James Marsden), carismático policial da região que está prestes a mudar de vida.

Com projeto para sair de Green Hill e comandar situações em que as pessoas de fato necessitem de sua ajuda, o personagem possui como necessidade dramática o interesse de imprimir mais significados na ficha de sua vida. Ele é casado com a doce e gentil Maddie Wachowski (Tika Sumpter), veterinária que lhe apoia nos projetos delineados para logo mais, planos que se modificam quando conhece o porco-espinho e decide se aliar em prol da defesa do mundo contra os planos maléficos do cientista louco que em alguns momentos, nos remete a Hitler, até mesmo numa breve referência musical. Assim, a dupla entrará num combate de tirar o fôlego, com direito aos já esperados diálogos cheios de piadas, cenas de ação frenéticas e efeitos visuais para deixar a plateia animada com a produção. Isso se você não for exigente demais.

Foi preciso menos de 30 minutos para me convencer de que Sonic – O Filme não é uma tradução digna do legado do game. Sabemos que o ponto de partida é apenas o personagem, pois um filme desse segmento não pode e nem deve ser uma cópia fiel do que lhe serve de material de base. No entanto, a música tema famosa é tocada num momento muito breve próximo ao final, os anéis, acredito, tornam-se a única referência direta dos games e apesar do carisma dos protagonistas, a narrativa carece de uma história que seja algo além do entretenimento para o público infantil ou experiência saudosista para marmanjos como eu, à beira dos 40 anos, nostálgicos em busca de memórias do passado onde os problemas reais eram transformados em alegorias para as nossas brincadeiras.

Ficamos à espera de um ritmo que não avança tão vertiginosamente como o próprio Sonic. E convenhamos, Jim Carrey está tão exagerado que em alguns trechos senti vergonha alheia de seu personagem farsesco demais. Para quem jogou Sonic, sabe que o vilão sempre foi a representação cabal da cultura do excesso. Exagerado, nada sutil, cheio de apetrechos para encher o caminho do porco-espinho de obstáculos. No filme, por sua vez, a caracterização beira ao excesso, numa busca por transformar o antagonista numa figura excessivamente idiota. De tão idiota, torna-se banal. Não fosse o já citado carisma dos protagonistas e os diálogos afiados de Sonic, cheio de referências aos ícones da cultura pop musical e cinematográfica, a narrativa iria naufragar vertiginosamente.

Ademais, o que encontramos em Sonic – O Filme é uma história genérica sobre um vilão destrutivo sendo combatido por uma dupla do bem. Parece a mesma produção de sempre no gênero aventura estadunidense, focado na salvação da humanidade e destruição do que é mal e vil. No desfecho, os créditos emulam inteligentemente algumas passagens das primeiras fases da versão em game, diurnas, com paisagens naturais como destaque. Como pesquisador e interessado nos tratados da tradução intersemiótica, sei que não devemos questionar qualquer filme pelo viés da “fidelidade”, pois nenhuma produção cinematográfica deve ou tem que ser a cópia da influência literária, musical, histórica, biográfica, etc. No entanto, esperamos alguma correspondência, algo que acontece de maneira tão diluída que não nos satisfaz enquanto pessoas em busca das memórias de uma era mágica, onde munidos do Mega Drive e do nosso desejo em jogar, adentrávamos no mundo de Sonic e viajávamos em sua trajetória lúdica.

Aos interessados apenas numa animação divertida sobre a luta entre o bem e o mal, o filme pode até funcionar, ou não, depende muito, principalmente do grau de exigência. Os efeitos visuais coordenados pela dupla Lindsay Adams e Caroline Adams, da Future Associate, não deixam a desejar em nenhum momento. A condução musical de Junkie XL também é eficiente, assim como a edição de Stacey Schroeder e Debra Neil-Fisher, um segmento importante para um filme repleto de cenas que pedem um ritmo mais frenético. Tudo isso, no entanto, pode não ser suficiente quando o espectador não tem a referência do personagem e acha tudo muito genérico, ou então, por conhecer a trajetória de Sonic, desejava maior relação com o universo de onde o porco-espinho foi adaptado. Não dá para saber. O que sei é que esperava ver alguma passagem pelo Cassino, um breve trecho ou referência ao âmbito das plataformas de petróleo, os obstáculos com magma, a metrópole ao estilo Fritz Lang das fases finais de Sonic 2, minha maior referência. Não teve, no entanto, não é o que diminui a qualidade do filme. É apenas o que não alimenta a minha faminta expectativa.

Sonic – O Filme (Sonic the Hedgehog) — Estados Unidos, 2020
Direção: Jeff Fowler
Roteiro: Patrick Casey e Josh Miller, Naoto Ohshima, Hirokazu Yasuhara, Yuji Naka
Elenco: Adam Pally, Bailey Skodje, Ben Schwartz, Breanna Watkins, Dean Petriw, Debs Howard, Elfina Luk, Frank C. Turner, James Marsden, Jeanie Cloutier, Jeff Sanca, Jim Carrey, Leanne Lapp, Lee Majdoub, Melody Nosipho Niemann, Natasha Rothwell, Neal McDonough, Nicholas Dohy, Shannon Chan-Kent, Tika Sumpter
Duração: 99 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor

  • Há spoilers! Para ler as críticas dos outros episódios, clique aqui.

Conforme aprendemos nesse episódio e que inclusive está em seu título, a ordem de freiras romulanas Qowat Milat tem como princípio basilar o “caminho da absoluta franqueza” e, inspirado nele, tenho que ser direto: Star Trek: Picard até que não é ruim, mas a série precisa urgentemente ser mais do que a infinita reunião de uma nova equipe para o ex-almirante Jean-Luc Picard e, por mais, eu quero dizer que toda aquela trama envolvendo Soji no cubo Borg também não está funcionando a contento. Pronto, tendo tirado isso da frente, deixe-me começar a análise de Absolute Candor.

Depois de introduzir Laris e Zhaban, romulanos da ordem Tal Shiar que Picard salvou e que, agora, trabalham em seu vinhedo e a doutora Agnes Jurati, especialista em androides e de apresentar Raffi, a ex-imediata do almirante, que, por sua vez, introduz o comandante Rios (e seus mais do que convenientes hologramas-paus-para-toda-obra), é chegada a hora de apresentar mais gente do passado de Picard. Não só a ordem das freiras guerreiras Qowat Milat é tirada da cartola como parte do drama de Picard sobre o fim da evacuação dos romulanos depois do ataque em Marte, como os showrunners aparentemente precisavam criar uma espécie de filho postiço para o protagonista que, claro, hoje em dia, é um ninja romulano mortal que faria inveja a Snake Eyes e Storm Shadow juntos.

Todo aquele flashback fofinho de Picard de chapéu panamá e roupa de linho branco (brega mandou lembranças) em Vashti foi uma sucessão interminável de “rolação de olhos” para mim. E a coisa fica ainda mais estranha se considerarmos que Picard levou Laris e Zhaban para casa, mas não voltou para resgatar o então jovem Elnor com quem ele estabeleceu profunda conexão e que as freiras deixaram claro que ele não tinha lugar ali. É muita vontade de criar um sidekick para Picard brincar de ser pai…

E, claro, toda aquela ação no presente em Vashti também não ajudou muito, pois foi uma sucessão de clichês mal ajambrados de estranho em terra estranha, de reconexão com o antigo protegido (agora vivido por Evan Evagora)  e, pior, de uma ameaça completamente aleatória em órbita que dá espaço para a chegada ainda mais aleatória de Sete de Nove (Jeri Ryan). O roteiro de Michael Chabon não consegue nem mesmo consertar a situação confusa no cubo Borg que só fica mais enevoada e desinteressante a cada capítulo.

Mas calma, não é o fim do mundo. Eu nem mesmo detestei o episódio. Ele ficou ali um pouquinho acima da linha média porque, convenhamos, Patrick Stewart é Patrick Stewart e, ainda por cima, o episódio é dirigido por ninguém menos do que Jonathan Frakes, o próprio Número Um e que foi responsável por três filmes da franquia Star Trek, dentre eles Nêmesis, que considero o melhor, e que tem se provado um excelente diretor de TV. É ele que consegue fazer uma limonada diretorial do limão roteirístico de Chabon, trabalhando boas sequências tanto na ponte da La Sirena (Picard não resistindo o comando foram excelentes momentos cômicos e ao mesmo tempo enervantes) quanto na superfície do planeta, especialmente a sequência de ação no bar romulano que culminou com uma cabeça decepada por Elnor.

No entanto, voltando ao começo de meus comentários, chega. Não dá mais para a 1ª temporada de Star Trek: Picard girar em torno da construção de uma nova tripulação para o resgate de Soji. O artifício não só já deu o que tinha que dar, como cansa pela introdução mais do que conveniente de gente perfeita para as funções necessárias. Além disso, a trama no cubo Borg simplesmente precisa tomar tenência e rumo, pois, até agora, ela não passa de uma bobagem cheio de invencionices que serve de desculpa para o romance do romulano com a androide. Afinal, há um potencial enorme nesse revival de A Nova Geração que seria um crime se fosse desperdiçado!

Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor (EUA, 13 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco, Jeri Ryan, Evan Evagora
Duração: 45 min.

Crítica | Locke & Key – 1ª Temporada

Baseada em excelente HQ homônima criada por Joe Hill e Gabriel Rodriguez (que, aliás, fazem brevíssimas pontas como paramédicos no último episódio), Locke & Key, desenvolvida por Carlton Cuse, Meredith Averill e Aron Eli Coleite para o Netflix, parte de uma ideia fascinante sobre chaves mágicas espalhadas em uma antiga mansão que são descobertas por três irmãos para desenvolver uma mitologia interessante em uma temporada que, porém, nem sempre acerta no alvo. Mesmo assim, considerando a estrutura de apenas 10 episódios com tamanho padrão e os ótimos efeitos especiais, a série consegue manter-se ágil por praticamente toda sua duração, com a introdução de mistérios de toda a ordem que, por incrível que pareça, são quase todos eles resolvidos ao longo da narrativa, por muito pouco não tornando a história totalmente auto-contida.

Essa qualidade – solucionar problemas que introduz – é sem dúvida um dos trunfos da temporada. Mesmo iniciando a narrativa com uma história “já começada” sobre uma família que se muda para a cidade de Matheson (Lovecraft nos quadrinhos) depois que o patriarca é assassinado por um jovem perturbado, a estrutura não rígida de flashbacks dá conta do recado ao costurar passado e presente primeiro a conta-gotas e, depois, de maneira mais ampla, inclusive com voltas breves no tempo para explicar situações estranhas. Há também um cuidado dos roteiros em manter o foco nos três irmãos da família Locke – Tyler (Connor Jessup), o mais velho; Kinsey (Emilia Jones), a do meio; e Bode (Jackson Robert Scott), o mais novo -, mas sem transformá-los nos únicos personagens da história, o que permite a abertura da narrativa para coadjuvantes como Joe Ridgeway (o veterano Steven Williams), o diretor da 11ª série da escola dos jovens, Ellie (Sherri Shaum) e Rufus Whedon (Coby Bird), respectivamente mãe e professora de educação física e seu filho autista que é o faz-tudo da mansão dos Lockes, a Keyhouse, o Esquadrão Savini, nerds viciados em filmes de horror que fazem amizade com Kinsey e assim por diante.

Por outro lado, alguns personagens em tese importantes só aparecem quando conveniente. Duncan Locke (Aaron Ashmore), tio dos adolescentes e guardião da mansão, é um desperdício de tempo de tela. Apesar de gostar de Ashmore, seu papel não tem muita razão de ser depois que ele apresenta a casa para sua cunhada e sobrinhos, já que ele fica mais tempo em Boston, completamente offscreen e, quando aparece em Matheson, fica restrito a um ou duas linhas de diálogo com apenas uma honrosa exceção mais para a frente. No entanto, o crime maior fica mesmo com Nina Locke (Darby Stanchfield), a matriarca. Ela é como um papel de parede bonito: dá vida ao ambiente, mas não tem qualquer outro objetivo do que ser apenas isso. Até mesmo quando seu vício é abordado, os roteiros tratam como “problema da semana”, ou seja, torna-se o tema de um episódio que, já no seguinte – puft! – desapareceu, o que é até um desserviço à doença em si, passando uma mensagem no mínimo equivocada, para não dizer completamente errada.

Pelo menos os irmãos Locke funcionam bem dentro do que se espera de uma série adolescente. Não há aquele tipo de conexão imediata que os garotos de Stranger Things evoca no público, mas a trinca de atores é suficientemente eficiente para trabalhar bem os papeis basicamente clichê que lhes foram entregues: o quase adulto perdido entre o que fazer da vida e a responsabilidade que precisa carregar, a bela adolescente rebelde e o inteligentíssimo garoto que, aliás, é o primeiro a encontrar as chaves. Considerando as limitações impostas, dentre elas uma espécie de simplificação do trauma sofrido com a morte de Rendell Locke (Bill Heck), provavelmente para tornar a série mais leve e palatável para um público maior (algo que a HQ simplesmente não é, ainda bem)

Mas o verdadeiro atrativo é mesmo a premissa fascinante da criação de Hill e Gonzalez. A existência de chaves misteriosas, cada uma capaz de algo incrível, desde abrir a cabeça das pessoas, passando por reconstrução de objetos, manipulação de sombras até alterações corporais, abre um leque grande de possibilidades que, fico feliz em atestar, o CGI maneja muito bem, diria até acima da média de séries semelhantes e sem aquele tipo de economia que o espectador percebe facilmente. Toda a mitologia por trás das chaves, das portas, da vilã Dodge (Laysla De Oliveira) e da Key House como um todo é abordada com cenários variados que mostram muito carinho pelo material fonte (a casa é magnífica por dentro e por fora) e com um encadeamento de eventos que mantém a lógica interna intacta.

Não gostei muito, no entanto, da simplicidade do clímax, pois ele subestima a inteligência dos Lockes e, por tabela do espectador. E gostei muito menos do gigantesco epílogo de mais de 20 minutos que só existe para armar uma segunda temporada, ainda que conte com reviravoltas bacanas, mesmo que previsíveis, pois ele quebra a cadência narrativa completamente e poderia ter sido encaixado de maneira mais orgânica nos últimos dois episódios, pelo que espero que essa escolha equivocada gere dividendos extras em possível futura temporada.

Quem não gosta de “séries de adolescente”, algo que o canal de streaming tem em profusão, pode até virar o nariz para Locke & Key, mas isso seria um erro. Não é ainda uma obra desafiadora como Dark (e provavelmente nunca será) e pode não ter a magia nostálgica de Stranger Things (ainda que com a mesma qualidade narrativa), mas a adaptação da HQ de Joe Hill e Gabriel Rodriguez, mesmo com suas concessões para domá-la e torná-la mais universal, oferece diversão inteligente em um mundo mágico realmente fascinante.

Locke & Key – 1ª Temporada (EUA – 07 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Carlton Cuse, Meredith Averill, Aron Eli Coleite (baseado em HQ de Joe Hill e Gabriel Rodriguez)
Direção: Michael Morris, Tim Southam, Mark Tonderai-Hodges, Dawn Wilkinson, Vincenzo Natali
Roteiro: Joe Hill, Aron Eli Coleite, Liz Phang, Meredith Averill, Mackenzie Dohr, Andres Fischer-Centeno, Brett Treacy, Dan Woodward, Michael D. Fuller, Vanessa Rojas
Elenco: Darby Stanchfield, Connor Jessup, Emilia Jones, Jackson Robert Scott, Petrice Jones, Laysla De Oliveira, Griffin Gluck, Bill Heck, Aaron Ashmore, Sherri Saum, Thomas Mitchell Barnet, Kevin Alves, Genevieve Kang, Hallea Jones, Kolton Stewart, Asha Bromfield, Jesse Camacho, Eric Graise, Felix Mallard, Steven Williams, Coby Bird
Duração:

Crítica | O Grito (2020)

Envolto em especulações e tratado como “o reboot que ninguém pediu”, O Grito é a nova versão da maldição japonesa transformada em narrativa estadunidense. Ao organizar a agenda para conferir a produção, um dos mecanismos mais comuns do crítico de cinema diante deste tipo de abordagem renovadora da indústria cultural é acionar o sensor “viu que eu disse?”, isto é, “aquele” botão que reafirma a nossa convicção acerca do fracasso retumbante diante de algo que não acreditamos que seja possível dar certo. A atmosfera amaldiçoada de O Grito nos permite isso. A primeira refilmagem chegou em 2004 e ganhou duas continuações. O seu “impacto” cultural é relativamente recente e com ampla possibilidade de alcance para as gerações mais recentes. O universo de Samara Morgan, em 2017, ganhou continuação e fracassou grandiosamente, sem conseguir captar o clima tecnológico mais contemporâneo.

Diante de tantas possibilidades para dar errado, por qual motivo Sam Raimi se interessou em reiniciar a história que contou há menos de 20 anos? Será que o filme vai se apresentar como uma história sem razão de existir, enfraquecida por causa de tantos investimentos dentro de uma mitologia considera já esgotada? São muitas as perguntas, mas todas com a sua devida resposta. Primeiro, preciso reforçar que diferente do esperado pelo tal sensor crítico, O Grito não é um filme descartável, nulo, sem sentido. Ao contrário, a versão mais atual acrescenta alguns elementos não trabalhados na versão de 2004 e brinca com as expectativas do cinéfilo que vai para a sessão em busca dos problemas para reiterar a ineficácia esperada diante da produção, principalmente em sua falsa caminhada para o hollywoodiano final feliz esperado depois que uma maldição é supostamente aniquilada.

Com subtexto ainda voltado ao esfacelamento da família pós-moderna, o que podemos observar e nos responder diante dos questionamentos sobre o retorno de Sam Raimi como produtor desta versão em 2020 é a rentabilidade deste tipo de história, voltada para a transformação de nossos medos mais profundos em entretenimento recheado de sustos, gritos, desespero e assombrações que nos ajudam a expurgar, durante a sessão, os medos externos, gravitacionais na vida real, mais tenebrosos que qualquer representação ficcional. A mitologia, por sinal, não foi apenas esgotada pelos realizadores estadunidenses e suas continuações, mas também demasiadamente exposta pelo próprio criador japonês, Takashi Shimizu, realizador de numerosas versões da maldição. Por sinal, ao passo que o filme avança e os créditos finais se estabelecem diante do público, somos obrigados a ficar reticentes diante da ideia de um reboot.

Diferente do que geralmente se faz dentro da proposta de reinicialização, aqui temos uma nova refilmagem da história de Shimizu, cineasta responsável pelo “original”, além de ter sido importado para os Estados Unidos, tendo em vista assumir o remake de seu próprio filme, em 2004. Desta vez, Nicolas Pesce toma conta do posto de diretor, dando para a narrativa um clima ainda mais claustrofóbico. Ainda assim, aposto na ideia de remake, apesar das fronteiras tênues com a ideia de reboot. Os realizadores apostam na concentração da história nos Estados Unidos, com desdobramentos trágicos para todas as pessoas que infelizmente se debatem com a maldição. O fogo, mais uma vez, surge como elemento escolhido para o cancelamento do rastro de horror, com personagens envolvidos numa assombração oriunda de um momento tomado por profundo ódio e rancor. As idas e vindas entre passado e presente são constantes, com ligações mais explicativas que a versão de 2004, um pouco mais ousada neste aspecto.

Esclarecido tais aspectos, volto ao questionamento do sensor. Somos obrigados, por conta das experiências com outros universos narrativas, a acreditar que O Grito será um filme catastrófico, mas o resultado não é bem esse, apesar das críticas negativas e das opiniões de muitos cinéfilos e consumidores de entretenimento. O protagonismo desta vez não é charmoso como na trama de 2004, a edição didática próximo ao desfecho colabora com a nossa descrença num cinema que permita ao público agir mais ativamente diante das história que consome e o uso de jumpscare, em alguns momentos, atrapalha a fruição de uma sensação de medo mais orgânica, algo que no entanto pode ser considerado mínimo se comparado ao que é feito no cinema contemporâneo de terror. Nem por isso, podemos considerar a experiência descartável. É na verdade um filme que não se justifica enquanto “novidade”, mas que funciona dentro de sua própria proposta consciente da retomada de uma abordagem já conhecida por boa parte de seu público-alvo.

Vamos, assim, para a história. Adiante retomamos as questões estéticas e contextuais da produção. Com direção do já citado Nicolas Pesce, cineasta guiado pelo roteiro escrito numa parceria com o argumento proposto por Jeff Buhler, O Grito nos apresenta as histórias cruzadas de pessoas envolvidas na maldição que envolve uma casa na rua Campos, 44. Em tempos como o nosso, com vírus viajantes diante de nossa perspectiva global, a maldição alegoriza um contágio, mas numa perspectiva sobrenatural. O acometido não precisa necessariamente ter feito nada de errado, como na cartilha moralista slasher, que dizima os jovens que fazem sexo e usam drogas, ou então, em filmes de possessão, tramas com pessoas tomadas por espíritos malignos depois de brincar erroneamente com algum tabuleiro ouija. Sem poupar qualquer um que tenha se envolvido na maldição, direta ou indiretamente, a assombração da trama é agressiva e não abre espaço para talismãs, rezas e escapatória.

É a própria representação do horror diante do que é inevitável. São vidas com destino já selado, tal como as curvas dramáticas da tragédia clássica. É nessa perspectiva que acompanhamos a Detetive Muldoon (Andrea Riseborough), mãe e esposa em luto, pois o marido morreu por causa de um câncer, há pouco tempo, algo em torno dos três meses. Ela retorna ao trabalho e logo em sua primeira semana participa da investigação de um caso que parece conectado com outra história predecessora, interpretada pelo Detetive Goodman (Démian Bichir), um homem fechado em torno de si, grosseiro, pouco compreensivo e que parece temer qualquer assunto que tenha a ver com a tal investigação do passado recente, algo que levou o seu parceiro para uma trajetória de loucura e horror que depois saberemos ser fruto da maldição em questão, ceifadora do destino de todos. Intrigada, principalmente pelo fato de necessitar de algum sentido adicional em sua vida sofrida, Muldoon se envolve cada vez mais com os acontecimentos em torno da tal casa, ponto catalisador de todo o mal que toma o filme.

O seu mergulho profundo nos impede de acreditar que haverá escapatória. Em sua pesquisa insistente, Muldoon descobre a tragédia que aconteceu no passado de um casal à espera de um filho, conectado pela casa, com a história de Fiona Landers (Tara Westwood), aparentemente a “paciente zero” estadunidense, pois o filme nos leva a crer que ela tenha sido a contagiada que ao chegar de Tóquio, trouxe consigo a maldição “Ju-On”, explicada de maneira muito breve lá pelo meio da narrativa. Sem a presença do pálido Toshio, desta vez, temos a pequena Melinda (Zoe Fish), garota porta-voz da assombração que vem acompanhada de sua falecida mãe. Além de Fiona Landers, o casal Spencer (interpretado por John Cho e Betty Gilpin) e dos policiais que centralizam a história, ainda temos Faith Matheson (Lin Shaye) e William Matheson (Frank Faison), casal atendido por Lorna Moody (Jacki Weaver), especialista em suicídio assistido, chamada para intervir na vida da Sra. Matheson, doente e em fase terminal. Conectados entre si, os personagens têm em comum a tal maldição, adquirida pelo contato com a casa.

Com essa proposta, O Grito nos entrega uma narrativa que segue de maneira eficiente todos os trâmites burocráticos exigidos num filme de terror contemporâneo, esquematizado dentro do sistema industrial com financiamentos que não permitem falhas de ordem estética. Na direção de fotografia, Zack Galler consegue dialogar bem com o design de produção repleto de sépia e tons claros, assinado por Jean-Andre Carriere. Há bastante contraste com os ambientes escuros, em simbiose com o emprego de “alguma” profundidade de campo, responsável por representar as ameaças constantes. Os movimentos são sempre em prol da promoção de sustos, alguns baratos, outros mais sofisticados, elaborados numa parceria também eficiente entre o design de som e os efeitos visuais, ambos assinados por Bryan Parker e Matt Hansen, respectivamente. Não podemos deixar de destacar a maquiagem da equipe de Brenda Magalas, um dos pontos altos neste tipo de filme, setor geralmente desconsiderado diante das nossas preocupações de ordem dramática. Os figurinos de Patricia J. Henderson cumprem a missão de revestir os personagens em seus perfis físicos, sociais e psicológicos, a circular pelos cenários de adornados pela direção de arte assinada por Bruce Cook, igualmente eficiente.

A trilha sonora é assinada pela dupla The Newton Brothers, num trabalho de composição também dedicado, diferente do que se tem feito no campo do terror atualmente. Eles conseguem climatizar a narrativa com alguns toques entre materiais orgânicos e produção eletrônica. Ademais, num retorno ao que foi dito sobre a ideia de reboot, não de remake, cabe ressaltar que O Grito dedica os seus créditos a Nicolas Pesce e Jeff Buhler, inspirados por Takashi Shimizu. Se esse for o caso, o nome de Stephen Susco, roteirista da refilmagem de 2004, deveria estar no filme, não é mesmo? Desta forma, a produção não reinicia o universo dos três filmes, mas recria o japonês Ju-On – O Grito, de Shimizu, numa segunda reprodução, após 16 anos da primeira iniciativa. E, em seu processo criativo, os realizadores continuam no investimento acerca dos problemas que gravitam em torno das famílias contemporâneas, orientais ou ocidentais, tomadas pelos novos modelos sociais, pela violência masculina representada no assassinato da figura de uma matriarca, história transformada em conto folclórico e que serve de alegoria para nos fazer refletir o lugar da mulher dentro do cenário político e social atual. O filme pode até não agradar unanimemente, mas o subtexto em questão é inegável e está lá, basta observar atentamente.

O Grito (The Grudge) — Estados Unidos, 2020
Direção: Nicolas Pesce
Roteiro: Jeff Buhler, Nicolas Pesce, Takashi Shimizu
Elenco: Andrea Riseborough, Betty Gilpin, Bradley Sawatzky, David Lawrence Brown, Demián Bichir, Ernesto Griffith, Frankie Faison, Jacki Weaver, Jim Kirby, Joel Marsh Garland, John Cho, Lin Shaye, Nancy Sorel, Robert Kostyra, Robin Ruel, Stefanie Sherk, Stephanie Sy, Tara Westwood, William Sadler, Zoe Fish
Duração: 94 min.

Crítica | Legends of Tomorrow – 5X03: Slay Anything

Crítica _ Legends of Tomorrow – 5X03_ Slay Anything plano crítico

  • Há SPOILERS! Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Rolou uma certa invejinha de AHS: 1984, não rolou? Rolou sim, Dona Legends of Tomorrow! Mas aquela inveja verde, boa, que nos trouxe mais um episódio divertido, interessante e que não apenas trabalhou com (muitas!) referências para o gênero, mas soube aplicá-las em favor do enredo. Porque hoje chegamos a um ponto em que roteiristas estão enfiando referências e easter eggs de tudo quanto é proveniência nos episódios e nos filmes, mas… sem quê nem porquê. Aí ficamos com aquela obra que pisca para um monte de coisa consagrada, mas deixa de lado a qualidade da própria história que deveria dar suporte a essas piscadelas. Para nossa sorte, isso não acontece em Slay Anything.

O episódio é uma continuação direta de Miss Me, Kiss Me, Love Me e nos mostra como a equipe lidou com Zari após a sua hilária chegada no fim do capítulo anterior. Diferente daquela ocasião, onde tudo em relação à personagem pareceu orgânico, tivemos alguns momentos meio fora de tom aqui, especialmente quando a vimos sozinha no “quarto-prisão” da Waverider. Essa percepção, porém, desaparece quando a personagem está acompanhada, o que traz um certo receio para o que teremos nos episódios seguintes envolvendo Zari. Espero fortemente que ele não se torne uma Charlie da vida.

O foco central do episódio, porém, foi um bom mergulho no slasher, referenciando obras como Halloween: A Noite do Terror (1978), Sexta-Feira 13 (1980), A Hora do Pesadelo (1984) e claro, fazendo a recriação da famosa cena de Carrie, a Estranha (1976), referência que já se tornou tão clássica quanto o próprio filme. Todo o elemento de terror aqui funciona muitíssimo bem e constitui a melhor coisa do episódio. O drama materno (um tanto edípico) alcança um nível curioso de “revisão” do gênero, mas dentro de uma perspectiva coerente para com o show, mesclando o sci-fi, a viagem no tempo e esse tipo de assassinato em série com a presença e missão das Lendas + todo o plot da temporada, que é a vinda das almas do inferno novamente para a Terra. E aqui isso aparece do modo menos óbvio possível, o que me fez gostar ainda mais dessa parte do enredo.

Meu problema está no bloco de Charlie, que acaba arrastando Constantine também. Ele está bem em cena, porque começa na Waverider e tem um caminho lógico para seguir; já a fujona simplesmente acontece de estar na casa do mago, como quem não quer nada. O show está bem divertido, mas eu não consigo segurar o medo que assoma no horizonte toda vez que penso em Zari influenciadora digital, em Charlie e em Gary, que definitivamente perdeu a graça. É aquele ponto de uma série que tem tudo para dar certo na temporada corrente, mas também traz as sementes do que pode dar errado. Tomara que consigam segurar bem as pontas aqui. Não podemos perder a nossa dose de humor super-heroico da semana!

Legends of Tomorrow – 5X03: Slay Anything (EUA, 20 de maio de 2019)
Direção: Alexandra La Roche
Roteiro: Matthew Maala, Tyron B. Carter
Elenco: Brandon Routh, Caity Lotz, Tala Ashe, Jes Macallan, Maisie Richardson-Sellers, Courtney Ford, Amy Louise Pemberton, Nick Zano, Dominic Purcell, Matt Ryan, Shayan Sobhian, Adam Tsekhman, Beth Riesgraf, Seth Meriwether, Lisa Marie DiGiacinto, Pascal Lamothe-Kipnes, Garrett Quirk, Veronika London, Jasmine Vega, Samuel Braun
Duração: 42 min.

Crítica | The Flash – 6X11: Love is a Battlefield

The Flash Love Is A Battlefield

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

O episódio desta semana de The Flash continua a corajosa (e nada invejável) missão, iniciada pelo capítulo anterior, de consertar Iris (Candice Patton). Antes um dos centros dramáticos mais importantes da produção, a personagem foi sendo arrastada por um lamaçal de narrativas desinteressantes, clichês preguiçosos e forçações de barra que acabaram a tornando, para muitos, um verdadeiro fardo para a série. O que surpreende é que o negócio funciona muito bem! O espanto não é devido a uma falta de fé na produção, “haterismo” barato ou algo do tipo: é que não é a primeira vez que tentam fazer isso e, normalmente, a emenda saiu pior que o soneto…

Love is a Battlefield abraça a ideia de reexaminar a personagem de tal forma que consegue abordar uma auto-crítica desses fatores sem apelar para a comédia. Uma coisa é a série brincando consigo mesma a respeito da dependência preocupante do Team Flash em relação aos discursos motivacionais. É divertidinho, é engraçado, mas ao final das risadas nada muda e continuamos atropelados pelos mesmos vícios narrativos de sempre. A opção aqui é mais arriscada, já que aborda a situação por uma veia dramática: a crise do relacionamento entre Barry (Grant Gustin) e Iris reflete, de certa forma, a própria “crise” entre o público e a personagem, não? Com o recém encontrado protagonismo da personagem, as dúvidas encaradas por Barry têm muito em comum com aquilo que podemos perguntar sobre a Sra. West-Allen. Quando foi que tudo mudou? Desde quando as coisa estão assim? Qual é, afinal de contas, o melhor papel dela na dinâmica do Team Flash?

Dada a inclinação da série para elementos românticos, não é de se surpreender que o Valentine’s Day sirva de pano de fundo para um episódio focado na vida cotidiana dos personagens e suas relações interpessoais. A oportunidade não é desperdiçada, pareando a crise pessoal de Barry com a DR supervilanesca entre Amunet Black (Katee Sackhoff) e Goldface (Damion Poitier), que traz um bem-vindo contraponto comédico ao dramalhão do núcleo principal. No campo de batalha do casal Flash, achei especialmente bacana a forma como Iris questiona os papéis que assumiu ao longo da série, contrastando com o seu recém-encontrado protagonismo à frente do “Team Citizen”.

Uma execução menos cuidadosa seria capaz de tornar a coisa toda mais um dos choramingos maçantes que ela estrelou ao longo desses seis anos. Felizmente, a construção da evolução da personagem tem tomado seu tempo para se dar da forma mais orgânica possível, resultando em algo totalmente diferente do que se costuma ver na série. São duas coisas muito diferentes:

  1. “Olha gente, não sei muito bem o que eu vim fazer aqui, mas não estou gostando de nada disso e, no fundo, eu sou o Flash tanto quanto meu marido, então vocês por favor me respeitem e vejam como eu sou uma personagem interessante, importante e essencial. Se eu não fosse, não estaria tendo que explicar isso pra vocês assim, mastigadinho, certo? Certo…?”
  2. “Barry, você literalmente viajou para a China para investigar uma manchinha de lama na máscara que ganhou de herança do Arqueiro, enquanto um grupo de assassinos perseguia a galera do meu jornal. Não tô falando que você não deveria ter ido, mas sim te mostrando que eu também mereço algum crédito e sei me cuidar melhor do que você pensa!”

Nem precisa dizer qual dos dois é mais interessante narrativamente, né? No primeiro caso, é o velho “falar ao invés de mostrar”, tentar convencer o público de que a personagem tem profundidade e conflito sendo que nada do que está sendo aludido na fala foi mostrado de forma convincente anteriormente na série. No segundo caso, um conflito orgânico entre dois pontos de vista plenamente justificáveis, discutindo eventos que nós acompanhamos acontecer na semana passada. Essa nova direção mostra que é possível, afinal de contas, nos fazer nos importar com a vida pessoal de nosso casal titular!

Deixando de lado a perspectiva externa do crítico chato para falar dos pormenores da história em si, a trama entre Amunet e Goldface, embora esteja longe de ser algo memorável, acerta bem na tonalidade comédica e com uma exploração juvenil do tema dos relacionamentos sem cair nos clichês de sempre. Apesar de gostar de Amunet, não era uma das personagens que eu tinha em mente para voltar tão cedo, enquanto Goldface estrelou um dos piores episódios da série, na minha opinião. Ou seja, que eu tenha me divertido com a dupla é um sinal de que foram elencados muito bem! Gostei bastante da subtrama envolvendo a flor especial, que deu um recheio metafórico bem bacana para o conflito entre os dois. A decisão de coroar tudo com uma cena ultra-galhofa funcionou bem, coroando com uma lição de moral jovial um filler leve, divertido e que, ainda assim, não deixa de servir bem à narrativa maior da temporada.

Parece que estou esquecendo de alguma coisa… Ah é! Um detalhezinho crucial nessa história toda, o qual pode acabar revelando ser essa apenas mais uma das tentativas frustradas de reabilitar a graça da Sra. West-Allen: o tempo todo estávamos lidando com a “Iris Espelhada” e não com a verdadeira! Embora essa revelação coloque em risco a legitimidade de todo o desenvolvimento de personagem feito aqui, a revelação do final não deixou de ser uma bela surpresa. Colocando sob perspectiva as ações dela ao longo de todo o episódio, o plot twist funciona justamente pela construção alongada e bem feita entre o episódio anterior e esse. É uma jogada simples de roteiro, mas que funciona bem justamente por isso. Veremos o que os próximos capítulos nos reservam!

Mas se tivermos que escolher entre a Iris antiga e essa nova versão, será que podemos ficar com a número 2?

The Flash – 6×11: Love is a Battlefield — EUA, 11 de fevereiro de 2020
Direção: Sudz Sutherland
Roteiro: Kelly Wheeler, Jeff Hersh
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Jesse L. Martin, Kayla Compton, Tom Cavanagh, Katee Sackhoff, Damion Poitier
Duração: 43 min.

Crítica | O Preço da Verdade

O Preço da Verdade (Dark Waters) – USA, 2019 plano crítico

Como carioca, não deixa de ser meio chocante constatar a óbvia coincidência que é o lançamento de O Preço da Verdade, ao mesmo tempo que acontece este escândalo envolvendo a CEDAE e a contaminação da água. Porém, longe de ser apenas mais um destes filmes protocolares que apontam para a corrupção de grandes empresas ou instituições, o novo longa de Todd Haynes dialoga muito bem com um de seus primeiros trabalhos, o excelente Mal do Século (1995). Além de se assimilarem em sua temática ambientalista, é como se seus protagonistas — Julianne Moore no passado e Mark Ruffalo hoje — estivessem sufocados e doentes deste contato com o sistema no qual eles fazem parte e precisam se descontaminar. E isso é algo que só acontece de uma forma: descobrindo a verdade e saindo da posição de privilégio em que vivem, ou seja, de sua zona de conforto.

Em Mal do Século, a personagem de Moore passa a ficar doente de seu próprio cotidiano: uma dona de casa negligenciada pelo marido e que encontra seu refúgio nas coisas mais banais e consumistas como aulas de ginástica e idas ao salão de beleza. Aquilo que inicialmente era seu prazer efêmero vai se revelando como uma grande vazio que Haynes transformou em, literalmente, uma doença. Já em O Preço da Verdade, Robert Bilott (Ruffalo) é um advogado workaholic que normalmente trabalha defendendo grandes empresas químicas. Contudo, após receber a visita de um fazendeiro de sua cidade local (e que conhecia sua avó), o protagonista descobre que uma das principais companhias que ele defende está despejando produtos químicos na água e matando o gado da região. Posteriormente, ao decidir investigar a situação, ele descobre que ela pode ser muito mais grave e todos podem estar sendo contaminados há anos. 

Logo, Haynes está menos interessado em seguir um sub gênero investigativo no qual seu protagonista vai apenas vomitando milhares de informações através de planos e contraplanos em cenas de reuniões burocráticas. Não que isso também não aconteça em alguns momentos, mas, assim como em Mal do Século, sua principal preocupação reside muito mais em criar uma atmosfera na qual Robert vai percebendo que todo o sistema que ele faz parte está manchado. Neste sentido, toda a fotografia de Edward Lachman acerta ao trazer uma frieza cinzenta que filtra o filme com um tom de desesperança e que remete diretamente a uma sensação de sujeira e poluição generalizada. 

Assim, conforme a narrativa avança, o que parece mover Robert é justamente um expurgo da culpa que ele acredita carregar. Afinal, o roteiro não deixa muito espaço para um maior contexto do seu passado, mas é como se em algum momento da vida ele tivesse se vendido para fazer parte do grande jogo corporativista. Nem ele e nem nós sabemos muito bem o motivo dele ter aceitado ajudar no caso que coloca sua posição em risco, mas é como se, ao ser lembrado de suas origens na cidade pequena, um sentimento adormecido de justiça despertasse nele.

Todavia, mesmo lutando pela “causa certa”, ele ainda não deixa de ser visto como um advogado preocupado com o lucro pela próprio fazendeiro ou como um lunático pela própria mulher, além de parecer cada vez mais perdido em jantares de gala. Até por isso, sua obsessão se torna resolver aquele caso exclusivamente, como sua própria salvação ou redenção. Portanto, é muito indicativo que a montagem do filme decida misturar, através da montagem, o nascimento do filho de Robert com sua narração dos efeitos colaterais com a doença, que não só aumenta sua paranoia mas reforça que essa culpa parece cada vez mais forte nele. 

Ainda em paranoia, não há exatamente um inimigo visível ou personificado em O Preço da Verdade, apenas helicópteros sobrevoando ou uma sombra em um estacionamento. Nada indica que o protagonista pode morrer ao ligar a ignição de seu carro, mas Haynes e um Ruffalo cada vez mais estressado conseguem fazer desta simples cena uma das mais urgentes. De certo modo, isso acontece justamente porque, apesar de sua fotografia fria, o filme nos coloca para dentro da investigação junto com Robert. A atuação de Ruffalo carrega uma raiva impaciente contra o sistema e, simultaneamente, um medo em descobrir quão fundo está enraizada a corrupção que torna plausível uma própria somatização dos sintomas de achar que está sendo envenenado pela água ou sendo perseguido. 

Retomando sua temática ambientalista de Mal do Século, há uma principal diferença entre este e O Preço da Verdade. Se Juliane Moore fugia para um acampamento para viver isolada e esquecer da doença da cidade, essa não pode ser mais a solução em 2020. A ideia aqui não é a fuga, mas o enfrentamento, uma mea culpa de que todos nós talvez tenhamos vendidos nossos valores em algum momento. São dois filmes que falam sobre uma contaminação sendo uma psicológica e a outra literal) e que identificam a causa na mentalidade gananciosa do sistema, mas agora Todd Haynes acredita que o homem ainda pode ser salvo caso enfrente as instituições que ele fazia parte.

O Preço da Verdade (Dark Waters) – USA, 2019
Direção: Todd Haynes
Roteiro: Mario Correa, Matthew Michael Carnahan
Elenco: Mark Ruffalo, Anne Hathaway, Tim Robbins, Bill Pullman, Bill Camp, Victor Garber, Mare Winningham, William Jackson Harper
Duração: 126 min.

Crítica | Cicatrizes (2019)

A realidade de famílias com casos de crianças desaparecidas é realmente dramática. O tempo de espera, a investigação, a busca pessoal, os inúmeros sentimentos envolvidos e a forma como a vida se organiza a partir da tragédia, quando nem a criança nem o corpo são encontrados, deixam claras as feridas que esse tipo de situação causa em todos os envolvidos. Em Cicatrizes (2019), o diretor Miroslav Terzic se debruça sobre esse tema, mas não de um modo unicamente realista ou quase documental, como vemos em muitas obras do gênero.

SPOILERS!

Escrito por Elma Tataragic, Cicatrizes tem como base uma realidade presente na vida de muitas famílias sérvias, que é a de crianças desaparecidas ainda muito novas, muitas delas ainda na maternidade. Em ditaduras como as do Chile e da Espanha existem centenas relatos bem conhecidos a esse respeito, de bebês que eram reportados para os pais como se estivessem nascido mortos, mas na verdade eram sequestrados e dados ou vendidos para outras famílias. Neste filme sérvio, o roteiro também aborda essa realidade, centrando a história na cidade de Belgrado e numa mistura de suspense e melodrama, fazendo-nos acompanhar a vida de Ana e sua busca, há 18 anos, por um filho morto no nascimento e cujo corpo o hospital numa mostrou.

A atriz Snezana Bogdanovic é quem carrega a linha dramática da obra, fazendo um trabalho primoroso na maneira como esconde ou, na maioria das vezes, controla seus mais intensos sentimentos. O filme é basicamente o seu ponto de vista desesperançado, em uma cidade de cores sem graça e que parece estacionada no tempo, assim como muita coisa na vida dessa personagem, que escanteou a filha e infernizou a vida da polícia, da obstetra, dos funcionários do hospital e de sua própria família, com a ideia fixa de que o menino a que ela deu à luz não está morto. E se está, ela quer saber onde foi enterrado. Ou porque nunca foi mostrado o corpo para ela ou para o pai da criança.

O roteiro cria bem rapidamente a sensação de deslocamento de Ana em seu dia a dia. Infelizmente Tataragic não acerta no desenvolvimento da filha e deixa muito frouxa a linha de participação da irmã da protagonista, mas mesmo esses casos são pontos negativos menores, cujo incômodo é mais localizado e não consegue impregnar negativamente o filme, que é uma verdadeira experiência angustiante. Em dado momento, o espectador tem a impressão que o texto seguirá um caminho de intriga e teoria da conspiração; em outro, há leves nuances de realismo mágico, com personagens desaparecendo de cena; e em outros, tememos pela vida da mãe, que nosso julgamento se divide em classificar como neurótica ou alguém que está vendo a verdade onde a maioria não está.

A ausência de música na maior parte da obra serve para nos colocar mais solidamente na crua realidade dessa família, mesmo que elementos ficcionais façam parte da vida da protagonista. Muitas cenas com tomadas em becos escuros e cenários desertos também reforçam a ideia de isolamento em oposição à força policial e, ao que parece, bandidos contratados para fazer com que Ana pare de procurar pelo filho.

A parte final de Cicatrizes traz algo que para alguns espectadores pode parecer um problema de roteiro (o que não é) ou gerar conflitos de interpretação. Na minha leitura, a polícia conseguiu um documento forjado de adoção, algo que Ana sabia que não podia lutar contra. Em nenhum momento eu realmente achei que esse documento fosse verdade, mesmo que Ana não tenha desmentido para o Comissário, e isso pelo simples fato de que se fosse um caso de adoção, não fazia sentido nenhuma haver uma longa investigação aberta pela polícia, mudanças obviamente criminosas no registro da prefeitura para o nome dos pais do menino, a contratação de criminosos para amedrontar Ana ou a confirmação do marido e da irmã de que o filho de fato havia morrido, segundo informação do hospital. Se o menino tivesse sido entregue para adoção, esse conjunto de situações não seria possível.

E é esse aspecto do roteiro que torna a história ainda mais intrigante e com um final que pode trazer um sabor bem amargo para alguns espectadores. O fato é que há uma tentativa de comunicação entre mãe e filho neste fim, uma característica simples, mas muito bonita, que flerta novamente com algo meio fantasioso, vide o fato de o menino ter o mesmo TOC da mãe, arrumando a peça com os cavalos de porcelana na entrada da casa. Cicatrizes é um filme que exala a dor de uma realidade triste, vivida não apenas na Sérvia, mas que no presente caso ganha ares ficcionais ainda mais tenebrosos e com decisões do roteiro que, admito, podem afastar uma parte do público.

Cicatrizes (Savovi) — Sérvia, 2019
Direção: Miroslav Terzic
Roteiro: Elma Tataragic
Elenco: Snezana Bogdanovic, Marko Bacovic, Jovana Stojiljkovic, Vesna Trivalic, Dragana Varagic, Pavle Cemerikic, Igor Bencina, Radoje Cupic, Ksenija Marinkovic, Rade Markovic, Radoslav ‘Rale’ Milenkovic, Jelena Stupljanin, Bojan Zirovic
Duração: 105 min.