Hitchcock: Anos 40

Crítica | Sabotador

estrelas 2,5

Sabotador, quinto filme de Alfred Hitchcock em Hollywood, marcou o início de sua separação umbilical de David O. Selznick, o lendário produtor que o trouxera aos Estados Unidos e que catapultaria sua carreira logo em sua primeira tentativa, com Rebecca, A Mulher Inesquecível. Com a história alinhavada, Selznick autorizou a confecção do roteiro, mas, na hora “H”, seu então editor, Val Lewton, vetou o resultado do trabalho, o que forçou o diretor a procurar a Universal para levar seu projeto à cabo.

Todo mundo sabe o resultado desse movimento. Hitchcock fez Sabotador e Sombra de Uma Dúvida em seguida pela Universal e teria lá sua segunda casa, onde criaria muitos de seus grandes e inesquecíveis clássicos. Só que, antes de chegar lá, o Mestre do Suspense tropeçou.

Esse é o caso de Sabotador. Toda a questão girou em torno do fato que, por maior que tivesse sido o sucesso de Hitchcock até então, a Universal não podia simplesmente investir muito em diretor que estreava no estúdio. Assim, nada de atores de primeira linha, o que resulta no primeiro grande corte da fita. O cineasta foi basicamente obrigado a aceitar trabalhar com Robert Cummings e Priscilla Lane, figurinhas fáceis, mas inexpressivas que a Universal tinha sob contrato  de trabalho.

E, apesar de Hitchcock sempre ter sido conhecido pelo quão estritamente controlava seu “gado”, atores de nome acabam mesmo fazendo a diferença. Mas o outro grande problema de Sabotador é que ele literalmente começou a ser filmado duas semanas depois do ataque japonês à Pearl Harbor e a consequente e definitiva entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial. O que isso significou na prática? Ora, um filme que já era patriótico tornou-se absurdamente – mesmo para os padrões de hoje – maniqueísta, com personagens que ou são muito maus ou muito bons, sem absolutamente nenhum meio termo. Dorothy Parker, roteirista trazida pela Universal, encarregou-se de “enriquecer” o roteiro com papagaiadas expositivas de fazer rolar os olhos.

Mas esses são apenas dois dos problemas de Sabotador. Antes de abordar os demais, porém, vou brevemente tratar a história do filme.

Tudo começa com a sabotagem de uma fábrica de aviões na costa oeste americana, com a culpa pelo ocorrido recaindo no obviamente inocente Barry (Cummings) que, ato contínuo, foge para provar sua inocência. Como material investigativo, ele só tem a memória de um esbarrão em Fry (Norman Lloyd), um funcionário da mesma fábrica logo antes do incêndio e sua desconfiança de que há algo de errado com essa pessoa. Uma espécie de road movie então se inicia, com Barry fugindo de carona em carros, caminhões e até em um circo itinerante para descobrir a verdade.

A luta para limpar seu próprio nome é sempre uma temática interessante. Mas o primeiro erro do roteiro é nos entregar o vilão nem bem com 15 minutos de projeção. As lembranças de Barry o levam exatamente à riquíssima casa de um vilanesco senhor, com direito a roupão, bebida na mão, uma linda criancinha caminhando pela piscina para contrastar sua pureza com a maldade do avô e alguns capangas bombados. Chega a incomodar a sequência, que leva a outra ainda pior: o encontro fortuito de Barry com um senhor cego e que mora sozinho em uma cabana no meio do nada e que imediatamente “vê” a bondade em Barry e o entrega à sua filha Pat (vivida por Lane) para que ela o auxilie a se livrar das algemas que o aprisionam.

E, claro, no meio disso tudo, Barry é ajudado pelo santo de todos os caminhoneiros, um homem que, sem nem querer saber quem é Barry, faz das tripas coração para auxiliá-lo. É como se o mundo fosse tomado, única e exclusivamente, de pessoas más ou de pessoas boas, nunca de pessoas maldosamente boas ou bondosamente más e isso só para simplificar. Ah, e eu já falei que as atrações circenses chegam ao cúmulo de determinar uma votação democrática para verem se ajudam Barry e Pat?

Só que a coisa não para por aí. Hitchcock fez muito uso de filmagens em locação, o que acabou enriquecendo enormemente sua obra, com um belo trabalho de fotografia de Joseph A. Valentine, que viria trabalhar com o diretor no filme seguinte e em Festim Diabólico. Até aí, só tenho elogios. O problema é mesmo geográfico. E antes que os mais afoitos venham reclamar, não sou xiita quanto ao uso errôneo da geografia em filmes. Não me importo se a ação começa em um lugar e, plausivelmente, acaba em outro, mesmo que seja distante.

O problema em Sabotador é que os personagens dizem que estão indo para “leste” e, como se tivessem pedido teletransporte para Scotty, da Enterprise, logo aparecem em Nova York (vindos da Califórnia que, hoje em dia, exige voos de 6 horas, imagine em 1942…). E o mais irritante é que Barry e Pat se separam, mas sempre se encontram novamente, não interessa a distância, tudo porque, também usando filmagem em locação e meio que servindo de test drive para o final de Intriga Internacional, Hitchcock força um final difícil de engolir na Estátua da Liberdade.

Ainda que a tecnologia usada à época fosse de tirar o chapéu, com câmeras com poderosos zooms, superimposições e um trabalho impressionante de fusão entre locação e filmagem em estúdio, é muito difícil sentir qualquer resquício de tensão na perseguição climática, especialmente depois da interminável fuga de Barry e Pat por todos os EUA, com direito a Pat jogando um pedaço de papel de um arranha-céu que cai perfeitamente na frente de pessoas dispostas a ajudá-la (lá no 70º andar de um prédio qualquer em Nova York – minha suspensão da descrença quebrou nesse momento).

Mesmo considerando o orçamento baixo imposto pela Universal e os atores “B” também determinados pelo estúdio, Hitchcock já tinha uma bagagem invejável na mão para errar tão feio em Sabotador. É como se ele tivesse se enquadrado em uma cartilha de fazer filme que traiu completamente sua personalidade, mesmo que a fotografia em locação e algumas sequências de ação lembrem de relance o diretor que ele já era em 1942.

Mas reputo muito mais à Selznick pela peça que ele pregou em Hitchcock e à fatalidade de Pearl Harbor por esse soluço na carreira americana do Mestre do Suspense ainda em formação do que ao diretor (não que ele seja isento de culpa, pois não é). Tanto é assim, na verdade, que Sombra de Uma Dúvida funcionaria como um “noves fora” logo no ano seguinte.

  • Crítica originalmente publicada em 03 de março de 2014. Revisada para republicação em 18/02/2020, em comemoração aos 120 anos de nascimento do Mestre do Suspense e da elaboração da versão definitiva do Especial do diretor aqui no Plano Crítico.

Sabotador (Saboteur, EUA – 1942)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Peter Viertel, Joan Harrison, Dorothy Parker
Elenco: Priscilla Lane, Robert Cummings, Otto Kruger, Alan Baxter, Clem Bevans, Norman Lloyd, Alma Kruger, Vaughan Glaser, Dorothy Peterson, Ian Wolfe
Duração: 109 min.

Crítica | Suspeita

estrelas 4

Quando Alfred Hitchcock mudou-se para os Estados Unidos em 1939, ele começou uma impressionante carreira de muitos acertos. Com Rebecca, seu primeiro filme em solo ianque, ele foi indicado a “meros” 11 Oscars, levando os de filme e fotografia. Em seguida, com Correspondente Estrangeiro, ele foi indicado a mais seis Oscars, mas não amealhou nenhum. Seu terceiro filme, sua única comédia de verdade, Um Casal do Barulho (esse título “sessão da tarde” é ruim demais…), foi um grande sucesso de bilheteria em 1941 e passou a década de 40 sendo adaptado algumas vezes para o rádio e uma vez para o teatro, tamanha sua fama.

Assim, o diretor já tinha uma enorme bagagem de sucessos em território americano e podia se dar ao luxo de escolher seus roteiros e foi o que ele fez com Suspeita, baseado em romance de Anthony Berkeley, escrito a seis mãos, duas delas de sua esposa, Alma Reville, e companheira por toda a vida e peça fundamental para seu sucesso. Assim como no caso de Rebecca, apesar da produção ser americana, Suspeita é tipicamente um suspense britânico, carregado da tensão e das reviravoltas que marcariam a carreira do (ainda em formação) Mestre do Suspense, passado na Inglaterra e contando até com a presença de uma dama e um cavaleiro da Ordem Britânica no elenco (Sir Cedric Hardwicke e Dame May Whitty). A fita também marca a volta de Joan Fontaine a um filme do diretor e a primeira parceria dele com Cary Grant, que geraria outras três grandes obras até 1959.

A narrativa começa bruscamente, sem nenhum tipo de explicação ou tempo para respirar, com o mulherengo Johnnie (Grant) dividindo um vagão da 1ª classe de um trem com a solteirona Lina (Fontaine), mas entregando ao conferente um tíquete de 3ª classe. Ele tanto faz que acaba conseguindo ficar no vagão e olhares são trocados. Sem perder tempo, um romance primeiro platônico se inicia e, depois, vem algo mais sério, resultando no casamento dos dois. Acontece que Johnnie é um salafrário mentiroso, o típico “171”, algo que fica claro desde a sequência no trem, mas Lina, perdidamente apaixonada, acaba tendo que lidar com os vícios de seu marido, o mais importante deles sendo uma certa ojeriza a qualquer coisa que se relacione a “trabalho”.

Os imbróglios em que Johnnie se mete vão se aprofundando e nós, espectadores, vendo o que está acontecendo por intermédio unicamente dos olhos de Lina, ficamos desesperados e torcemos pela heroína, ainda que entendamos que ela não pode simplesmente largá-lo, pois há amor no meio. Resta saber se ele no mínimo é correspondido.

Hitchcock usa todos os truques que conhece para despistar o espectador, fazendo como um mágico faz ao subir no palco. Poucos personagens coadjuvantes são introduzidos: apenas o pai e a mãe de Lina (o cavaleiro e a dama da Ordem Britânica), Beaky (Nigel Bruce), um amigo/cúmplice de Johnny e Isobel (Auriol Lee), uma amiga de Lina e escritora de romances policiais. Com isso, ele tem tempo de trabalhar a excelente química existente entre Grant e Fontaine, unindo e separando o casal com as mais diversas situações suspeitas. Quando Beaky finalmente entra na trama no segundo ato e funciona como peça-chave para o terceiro, Hitchcock consegue usar a narrativa de forma que ele seja um elemento importante para o andamento da obra e não alguém que está lá para preencher a tela. Com Beaky, por exemplo, Hitchcock usa jogos de tabuleiro para criar pistas visuais (nada discretas, aliás) e para contrastar a esperteza de Johnny com a aparente inocência de Beaky.

A trilha sonora também é fundamental para a criação do suspense, como Hitchcock mesmo faria de maneira quase que insuperável em Psicose.  Usando Wiener Blut, valsa de Strauss, como tema constante para o casal, ele manobra a composição, alterando seu tempo e seu arranjo para passar sentimentos completamente diferentes, como alegria, tensão e tristeza. Franz Waxman (que viria a trabalhar em Janela Indiscreta) compõe o resto da premiada trilha original, com notas fortes e eletrizantes quando a narrativa exige, mas sem uma qualidade marcante, que realmente deixe uma impressão duradoura.

Hitchcock, porém, mesmo com um material fonte interessante para trabalhar e que ele torna ainda mais interessante em filme, acaba errando com a utilização de Isobel. Apesar da personagem ser introduzida razoavelmente cedo na estrutura da obra, ela ganha uma desproporcional atenção no terço final, algo que não é nem esperado e muito menos orgânico para o desfecho, ainda que importante. Parece até que algo foi “perdido” na mesa de montagem, assim como acontece com a brusquidão do início da fita, que nos joga os personagens no colo de forma pouco ortodoxa.

Mas Suspeita funciona muito bem apesar de seus problemas aqui e ali. A manutenção do suspense por Hitchcock literalmente até os segundos finais do filme e as excelentes atuações do atores principais fazem da quarta empreitada do diretor em solo americano uma delícia de diversão, com um charme irresistível. Não à toa, ele concorreu a três Oscars, de melhor filme (a terceira indicação consecutiva de um filme de Hitchcock nessa categoria), trilha sonora e melhor atriz, levando o de atriz (Fontaine), a única vez em que um ator em obra do Mestre do Suspense ganharia esse prêmio. Nada mal para um britânico perdido no Novo Mundo, não é mesmo?

  • Crítica originalmente publicada em 28 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 11/02/2020, em comemoração aos 120 anos de nascimento do Mestre do Suspense e da elaboração de uma versão definitiva do Especial do diretor aqui no Plano Crítico.

Suspeita (Suspicion, EUA – 1941)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Samson Raphaelson, Joan Harrison, Alma Reville (baseado em romance de Anthony Berkeley)
Elenco: Cary Grant, Joan Fontaine, Cedric Hardwicke, Nigel Bruce, Dame May Whitty, Isabel Jeans, Heather Angel, Auriol Lee, Reginald Sheffield, Leo G. Carroll
Duração: 99 min.

Crítica | Um Casal do Barulho (Sr. e Sra. Smith)

estrelas 3,5

Hitchcock lançou dois filmes em 1941. O primeiro, Um Casal do Barulho, no final do mês de janeiro, e o segundo, Suspeita, no início de novembro. Filmes completamente diferentes. O segundo, um ótimo suspense. O primeiro, uma comédia clássica com todos os ingredientes e toda a graça comum a esse tipo de obra.

Segundo o próprio diretor, nas entrevistas que deu a François Truffaut, Um Casal do Barulho (que título nacional mais Sessão da Tarde esse, hein!) nasceu de sua amizade com Carole Lombard. A atriz perguntou ao cineasta se ele aceitaria juntar-se a ela para realizar um filme e, sem saber exatamente por quê, ele acabou aceitando. O resultado foi uma obra completamente diferente de tudo quanto o cineasta já havia feito e faria, sendo, portanto a única comédia (pura) de sua carreira.

A história é basicamente a relação de Ann e David Smith (Carole Lombard e Robert Montgomery) após descobrirem que seu casamento no civil não era mais válido. Partindo de uma premissa bem construída no início do filme, o roteiro de Norman Krasna brinca com o ego do casal, passando de um para outro a força do discurso de raiva e a recusa de assinar novamente os papéis do casamento. É um exemplar das comédias de “gato-e-rato”, onde o homem ou a mulher perseguem seus parceiros disfarçadamente, recusando-se a se assumirem apaixonados mas querendo que a paixão logo se concretize.

Se há alguma coisa que nos faça pensar em Hitchcock (como estilo) durante a projeção, são as indicações estéticas aprimoradas, especialmente no início da obra. O filme é fotografado de uma forma muito bela por Harry Stradling Sr., que também trabalharia em Suspeita; mas da sua primeira metade para frente se torna pouco ousado, sem as famosas indicações metafóricas na imagem, ponto recorrente nos filmes de Hitchcock. Um melhor uso dos símbolos e angulação voltam a aparecer na reta final, durante a estadia dos Smith e da família Custer no chalé de inverno.

Há um ritmo constante de amor e fuga que sustenta o filme de maneira bastante eficiente. O que aparece para quebrar um pouco essa satisfatória linha é a concepção do roteiro para o final. Depois da via crucis até chegar a um acordo entre os orgulhosos pombinhos, era de se esperar um ponto final de maior peso, mesmo que também seguisse o modelo de sugestão sexual. A rapidez com que a sequência final acontece talvez tenha contribuído para isso, e o filme termina um pouco vago para o público, não necessariamente ruim, mas insatisfatório.

Todavia, é possível se divertir bastante durante a sessão. Aliás, essa impressão de diversão é a que temos quando vemos a atuação da dupla Lombard e Montgomery e depois do amigo que vai apimentar a relação entre o casal “separado”, personagem interpretado com muita competência por Gene Raymond. Hitchcock disse várias vezes que as filmagens transcorreram de modo bastante tranquilo e agradável, o único problema é que ele se sentia perdido na direção porque “não conhecia aquele tipo de personagem“, então seguiu à risca o que estava decupado no roteiro, sem intervir de outras maneiras.

Essa relação de amizade nos sets culminou com a anedota contada pelo próprio Hitchcock a Truffaut, dizendo que no primeiro dia das filmagens teve uma grande surpresa vinda de Carole Lombard, uma brincadeira tirada da famosa frase do cineasta de que os atores eram gado — ou deveriam ser tratados como gado. Faço questão de citar o trecho da entrevista:

_ […] Carole Lombard tinha mandado construir uma jaula com 3 compartimentos, e dentro havia três vacas vivas, de tenra idade, cada uma exibindo, em volta do pescoço, uma grande rodela branca pendurada, com um nome: Carole Lombard, Robert Montgomery e Gene Raymond. […] Minha observação era apenas uma generalização, mas Carole Lombard me deu essa resposta espetacular, a fim de fazer uma brincadeira. Acho que ela concordava bastante comigo nesse assunto.

Mesmo não sendo uma obra-prima, Um Casal do Barulho é daqueles filmes dos anos 40 simplesmente deliciosos de se assistir. E ainda tem o bônus de ser um adorável elefante branco na filmografia do Mestre do Suspense.

  • Crítica originalmente publicada em 1º de abril de 2014. Revisada para republicação em 04/02/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Um Casal do Barulho / Sr. e Sra. Smith (Mr. & Mrs. Smith) – EUA, 1941
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Norman Krasna
Elenco: Carole Lombard, Robert Montgomery, Gene Raymond, Jack Carson, Philip Merivale, Lucile Watson, William Tracy, Charles Halton, Esther Dale, Emma Dunn, Betty Compson
Duração: 95 min.

Crítica | Correspondente Estrangeiro

estrelas 4

Quando filmou Correspondente Estrangeiro, seu segundo filme em Hollywood, Hitchcock já tinha experiência em dirigir dramas de espionagem e de cunho político das mais diversas motivações, como podemos comprovar em algumas de suas películas britânicas como O Homem Que Sabia Demais (1934), Sabotagem (1936), Agente Secreto (1936) e A Dama Oculta (1938).

Depois de tentar contratar Gary Cooper para o papel principal e receber um “não” do ator (que se arrependeria disso anos depois), Hitchcock precisou se conformar com um elenco que não o conquistara totalmente, mas do qual conseguiu boas atuações e com o qual conseguiu fazer um filme ágil e instigante, dentro de um contexto dramático do século XX: o início da II Guerra Mundial.

Além do tema, prendem o espectador as locações do filme e o modo como o diretor usou do espaço para tornar a caçada e a descoberta um tanto exóticas. Incluímos aí também o público que geralmente se incomoda com questões de verossimilhança, mesmo que levemos em consideração que Hitchcock tinha como meta desprezar esse tipo de recurso toda vez que fosse possível, a fim de dar maior voz à fantasia. Eu já abordei esse tema outras vezes em críticas dos filmes britânicos do cineasta e volto a dizer que, em sua fase americana, o diretor foi mais criterioso em “desprezar a verossimilhança“, fazendo isso de modo bastante aceitável dentro de sua proposta e dentro de um determinado contexto fílmico, uma atitude que infelizmente não podemos dizer exatamente de todas as suas obras anteriores a Rebecca.

A ação do roteiro se passa no início de 1939, quando um jornalista americano é enviado para a Europa a fim de fazer a cobertura dos eventos que poderiam ou não causar uma guerra. A escolha de Jones (Joel McCrea), o jornalista em questão, é posta no roteiro com um forte tom de cinismo, onde vemos claramente a mão de Hitchcock no texto, mesmo que ele não receba os créditos por isso. Sem nenhuma motivação política e total ignorância em relação aos acontecimentos do Velho Continente, Jones era a “pessoa ideal” para farejar notícias que venderiam jornais e que seriam diferentes de tudo o que o editor geral recebia naquele momento. E… bem, por mais irônico que seja, Jones acaba encontrando uma grande reportagem. Simplesmente por acaso.

Perceba que o engajamento do personagem principal se dá por motivos bem diferentes de uma causa política. Se precisasse classificar, diria que é a intenção de um furo jornalístico instigante e a paixão por uma garota que o faz entrar num covil de nazistas disfarçados e que tem no renomado presidente da associação pacifista um de seus líderes.

O jogo de intenções pessoais, patrióticas e ético-morais dá ao roteiro algo além da descoberta de um espião nazista ou de um grupo que quer matar um político holandês para desencadear a guerra. Talvez pelo disfarce dramático do texto, cujo foco principal é a ação de Jones, a atenção de grande parte dos espectadores centre-se nessa linha de eventos mas há também posições ideológicas nas entrelinhas que, de maneira muito sutil, vêm à tona no embate entre os personagens, cujo comportamento e o que fazem para defender seu país ou a paz mundial diz mais do que suas palavras, discursos, títulos e funções oficiais.

Correspondente Estrangeiro é um dos mais esteticamente virtuosos filmes em preto e branco de Hitchcock. Desde as tomadas ainda nos Estados Unidos, dentro da redação do jornal, até as belíssimas cenas no moinho de vento ou no centro de Amsterdã, temos o cerco de um ambiente quase idílico, um lugar onde não concebemos haver pessoas que querem iniciar um conflito bélico de grandes proporções. Porém, mais uma vez, o diretor nos faz entender que as aparências enganam e que nem a História nem o crime perdoam ou poupam inocentes, alienados, politicamente engajados e isentos. Em algum momento, todos se tornarão vítimas.

  • Crítica originalmente publicada em 24 de março de 2014. Revisada para republicação em 28/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent) – EUA, 1940
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Joan Harrison, James Hilton, Robert Benchley
Elenco: Joel McCrea, Laraine Day, Herbert Marshall, George Sanders, Albert Bassermann, Robert Benchley, Edmund Gwenn, Eduardo Ciannelli, Harry Davenport, Martin Kosleck, Frances Carson
Duração: 120 min.

Crítica | Rebecca, A Mulher Inesquecível

estrelas 4,5

François Truffaut: Está satisfeito com Rebecca?

Alfred Hitchcock: Não é um filme de Hitchcock. É uma espécie de conto e a própria história data do fim do século XIX. Era uma história bem velhinha, bem fora de moda. Naquela época havia muitas escritoras: não tenho nada contra, mas Rebecca é uma história sem nenhum humor.

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Alfred Hitchcock mudou-se para os Estados Unidos no final de 1939, a convite do badalado produtor David O. Selznick, que tinha acabado de lançar …E O Vento Levou. A princípio, o diretor britânico estrearia em Hollywood com uma adaptação de Titanic, mas Selznick mudou de ideia sobre o projeto e, aproveitando a simpatia de Hitchcock para com a obra de Daphne Du Maurier (de quem já adaptara para o cinema A Estalagem Maldita e futuramente viria adaptar Os Pássaros), comprou os diretos do romance Rebecca e se propôs a produzir o filme, com Hitchcock na direção.

Apesar de Rebecca marcar a estreia do Mestre do Suspense nos Estados Unidos, trata-se na verdade de um filme tipicamente britânico, com a maior parte do elenco principal composto por britânicos. Assim, Hitchcock se sentiu em casa no quesito “equipe de trabalho” e, mesmo que tivesse Selznick dando ordens e interferindo nas filmagens com frequência, a produção não foi difícil, apenas não foi prazerosa para o diretor, que além do produtor rigoroso, tinha que lidar com um romance de época num momento de sua carreira em que o suspense já se alvorava no topo de suas ambições de filmagem.

A história é dividida em duas partes dramáticas. Na primeira, temos Maxim de Winter (Laurence Olivier) e a futura segunda Sra. de Winter (Joan Fontaine), personagem que nunca é chamada pelo nome… um mistério que o diretor segura até o fim da obra, sem nos revelar. Essa primeira observação é interessante porque mostra muita coisa da personalidade dependente e subserviente dessa jovem senhora que se casa com um homem cuja esposa falecida é adorada e lembrada por todos à sua volta.

Já a segunda parte do filme acompanha o longo caminho percorrido pela personagem de Joan Fontaine para se adaptar à casa e conquistar o seu lugar num mundo que parece só haver espaço para Rebecca, a mulher inesquecível.

A despeito da indiferença de Hitchcock para com o filme, trata-se de uma obra verdadeiramente notável, um início esplêndido do cineasta em Hollywood. O suspense não é o verdadeiro gênero da película, mas o drama psicológico que se desenrola na tela tem uma forte presença de elementos caros ao diretor, algo que foi ressaltado a contento no roteiro e também na concepção estética, partindo da música marcante de Franz Waxman e da excelente direção de arte de Lyle R. Wheeler, que tinha acabado de receber um Oscar por seu trabalho em …E O Vento Levou.

Hitchcock guia a história por um caminho que não só engana e prende o espectador como também o faz perceber a mudança visual de um ponto a outro da fita. Enquanto o casal protagonista está em Monte Carlo, percebemos um maior número de cenas em externas, fotografia mais clara e ambientes menores e bastante preenchidos, deixando claro uma aparência de verão feliz e amor nascente. Todavia, quando a jovem Sra. de Winter chega à nova casa, vemos aumentar drasticamente o número de cenas em internas, presença de cenas noturnas, prenúncio de tempestade, névoa e cômodos sempre muito grandes, deixando a personagem de Joan Fontaine pequena e perdida em meio a tanta pompa e na overdose de objetos e hábitos da falecida Rebecca. E quando a verdade vem à tona, de uma maneira orgânica e num acertado ritmo dramático, o espectador fica sem chão.

Durante o filme, tem-se a oportunidade de presenciar todo tipo de comportamento, desde ameaças e medo até demonstrações de amor, uma avalanche de sentimentos que desembocam no final com a medonha Sra. Danvers defendendo o santuário de sua amada e antiga patroa e a teia que a todos prendia se desfazendo, mesmo que o ambiente que lhe sustentara ainda pairasse na cena final.

Rebecca, a Mulher Inesquecível é um grande filme de Alfred Hitchcock, um drama de característica misteriosa com direito a dominação psicológica, tormentos e acusações a uma jovem frágil e sem grande poder de ação para mudar um mundo que parece querer afastá-la a todo custo. Poucos diretores conseguiram trabalhar tão bem pela primeira vez fora de casa, realizando um filme que não tinha lá muito appeal e um produtor ao estilo da personagem da Sra. Danvers. Isso só mostra o quão afiado Hitchcock estava a essa altura de sua carreira, depois de passar anos treinando e aprendendo em sua terra natal. Agora, com maior orçamento, mais experiência e melhor equipe de produção, ele estava pronto para mostrar que sabia fazer grandes filmes e Rebecca é o primeiro passo desse notável momento.

  • Crítica originalmente publicada em 18 de março de 2014. Revisada para republicação em 25/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Rebecca, a Mulher Inesquecível (Rebecca) – EUA, 1940
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Robert E. Sherwood, Joan Harrison, Philip MacDonald, Michael Hogan (baseado na obra de Daphne Du Maurier).
Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Nigel Bruce, Reginald Denny, C. Aubrey Smith, Gladys Cooper, Florence Bates, Melville Cooper.
Duração: 130 min.