Harry Treadaway

Crítica | Star Trek: Picard – 1X10: Et in Arcadia Ego, Part 2

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Pelo menos um leitor matou a grande surpresa reservada para o final da 1ª temporada de Star Trek: Picard, prevendo o uso do golem inacabado visto brevemente no laboratório de Altan Inigo Soong, filho do criador de Data, como o novo corpo de Jean-Luc Picard. Em outras palavras, um twist perfeitamente circular não só para a temática da temporada em si, como para toda a trajetória do protagonista desde que seu coração foi substituído por uma versão mecânica em A Nova Geração e suas assimilações pelos Borg aconteceram como elementos formativos de sua personalidade tanto na clássica série quanto no melhor filme da franquia, Primeiro Contato.

Portanto, por mais que alguns possam virar o nariz para a solução encontrada, tenho para mim que ela foi o encaixe necessário para a temporada inaugural das aventuras de Picard já bem avançado em idade acabar com um saldo positivo, mas ainda ficando aquém de seu verdadeiro potencial. Afinal, se eu aplaudo a escolha dos showrunners em transformar o protagonista em um androide, a jornada até lá foi repleta de altos e baixos, desvios narrativos, fan services deslocados, enfim, uma sucessão de problemas que, por melhor que tenha sido o episódio duplo de encerramento, não foi suficiente para que eles tenham sido curados.

O próprio tratamento que os roteiros deram para a doença terminal de Picard é algo que me incomodou profundamente. Não só o assunto foi introduzido em um breve e críptico diálogo entre o ex-almirante e seu médico, como ele não ganhou qualquer tipo de contexto e, pior ainda, desenvolvimento ao longo da temporada. Ao contrário, ele foi soterrado debaixo de uma extensa minutagem dedicada à bobagens para agradar fãs, como Riker fazendo pizza de coelho-unicórnio (WTF!) ou Sete de Nove surgindo não uma, mas duas vezes como borg ex machina. Com isso, fomos relembrados desse “detalhe” somente na primeira parte de Et in Arcadia Ego que culmina aqui com a providencial morte de Picard justamente no minuto seguinte que ele consegue resolver todo o problema entre sintéticos, Federação e Romulanos. Coincidência é um eufemismo brabo, diria.

Aliás, um de meu receios sobre a resolução do conflito era justamente que tudo acontecesse rapidamente demais e foi exatamente o que aconteceu. Rápido, mas não ilógico, que fique bem claro. Ok, há ilogicidades, mas estas ficam confinadas a coisas como “como é que Narissa estava lá no Cubo sem ser detectada pelos xBs” que podem ser respondidas com algo na linha de “para Sete poder chutar a bunda da moça, arremessando-a em um abismo”, o que pode ser incômodo, mas que sem dúvida é catártico, mesmo que tenhamos que ouvir choramingos arrependidos de Sete para Ríos.

A velocidade dos eventos demonstra muito claramente, mais uma vez, que a temporada foi desequilibrada em termos de ação, com praticamente tudo o que é mais relevante acontecendo de maneira apertada e econômica em meros 40 minutos do episódio final, aí incluindo a já citada luta de Sete contra Narissa, a união providencial de Narek com Ríos, Raffi e o inútil do Elnor, a revelação de que Jurati estava do lado dos humanos depois de sua “traição”, a traição de Soong, a chegada da frota romulana (estranho que o Zhat Vash seja uma organização super-secreta, mas que tem uma frota desse tamanho…), a chegada da frota da Federação (o comando temporário de Riker, aí sim, é um exemplo de ótimo fan service) e, claro, o plano suicida de Picard. Sobre o plano, aliás, ele é a cara de Picard e, nesse quesito, a temporada foi perfeitamente justa com o legado do personagem. Não há nada que signifique mais a essência do adorado ex-capitão do que um sacrifício altruísta dessa natureza, mesmo que ele tenha que ser atrapalhado por diálogos mal escritos e extremamente expositivos do tipo “o exemplo vem de cima” e tal.

Tudo teria sido praticamente perfeito, portanto, se os roteiros tivessem trabalhado todos esses elementos de ação ao longo de mais alguns episódios, sem esquecer de tornar a doença de Picard algo mais presente e constante em sua vida e não uma nota de rodapé que, de repente, do nada, torna-se relevante e sem transformar Narek em não muito mais do que um mero extra glorificado, considerando toda a importância que ele teve antes. Da mesma forma, o belo epílogo em que ele se reencontra com seu amigo Data na Matrix… digo, na simulação virtual onde a consciência do comandante androide vive, poderia ter ganhado mais solenidade do que apenas um pedaço dos 20 minutos finais de projeção de forma que até a transferência da consciência de Picard para o golem pudesse ser explorada um pouquinho mais, sem que, mais uma vez, precisássemos que os personagens sentassem à mesa para explicar o óbvio ululante.

No entanto, apesar de todos os pesares e assim como a primeira parte desse final, a segunda conseguiu capturar a essência do que faz Star Trek ser Star Trek, algo que esteve infelizmente muito ausente na temporada, entregando um desfecho que funciona bem para a história como um todo e muito bem para quem realmente interessa, ou seja, Jean-Luc Picard. Tomara que os showrunners aprendam um pouco com a experiência e construam uma segunda temporada que dependa menos de afagos nostálgicos e mais de uma história realmente sólida e bem distribuída ao longo dos episódios, de preferência aprofundando os personagens que formam a atual tripulação e não se perdendo com novos ou antigos integrantes que não agreguem nada para a história que será contada.

Star Trek: Picard – 1X10: Et in Arcadia Ego, Part 2 (EUA, 26 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Akiva Goldsman
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jeri Ryan, Brent Spiner, Jonathan Frakes
Duração: 57 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X09: Et in Arcadia Ego, Part 1

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A primeira parte do episódio duplo de encerramento da temporada inaugural de Star Trek: Picard é, juntamente com Stardust City Rag, o mais Star Trek até agora de uma série que poderia ser muito mais do que tem conseguido ser. Os ingredientes narrativos clássicos estão todos aqui, começando pelo planeta misterioso que abriga uma utopia robótica, passando pelo divertido exagero das orquídeas espaciais e culminando com bons momentos de ação típicos de uma história baseada em um presságio apocalíptico.

Et in Arcadia Ego não só é um título que diretamente referencia um paraíso bucólico (a região da Arcádia, no centro do Peloponeso, era reputado na Grécia Antiga como literalmente o paraíso na Terra), como também é o nome de duas pinturas semelhantes do pintor francês Nicolas Poussin, do século XVII, retratando a morte em meio a uma cena pastoral. Digo que a referência é à Poussin e não ao italiano Giovanni Francesco Barbieri, que pintou antes de Poussin obra de mesmo tema, com o mesmo título, pois o fato de haver duas obras por Poussin é uma rima temática com os dois quadros pintados por Data que é parte do mistério que Picard começa a desvendar já no primeiro episódio. É, sob todos os aspectos, uma bela forma de se criar um movimento circular para a narrativa.

Aliás, esse movimento circular acontece também pela introdução de Altan Inigo Soong, filho de Noonian Soong, criador de Data (e, claro, de Lore), e que é vivido também por Brent Spiner, desta vez sem a maquiagem e as lentes de sua contrapartida sintética. Trazer o próprio Data de volta seria uma trapaça feia e a escolha feita, aqui, é elegante e respeita o legado da Nova Geração, ao mesmo tempo, que funciona para trazer o querido ator de volta de maneira relevante.

Se a chegada a Coppelius é extremamente tumultuada, com um breve combate espacial interrompido pela chegada de Sete e do Cubo Borg, além das surreais aparições das tais “flores espaciais”, quando a tripulação de Picard está em terra, a história reduz seu ritmo e, mesmo diante da chegada de uma gigantesca frota romulana, tudo vai sendo abordado sem pressa, com Picard reencontrando Sete e Elnor e, depois, todos seguindo para o vilarejo dos sintéticos que é, claro, a Arcádia do título em latim. O equilíbrio entre ação e exposição consegue ser alcançado muito rapidamente, sempre com o objetivo de impulsionar a narrativa.

O retorno do tema da doença terminal de Picard, algo tocado antes tão brevemente que eu nem mais lembrava direito, é outra tentativa de resgatar a direção narrativa da temporada, que sofreu demais pela necessidade quase doentia de seus showrunners de marretar todas as referências e coadjuvantes famosos possíveis para agradar o fã nostálgico. Fica evidente a falta de desenvolvimento desse elemento ao ponto de o roteiro de Michael Chabon e Ayelet Waldman ter que voltar a ele mais de uma vez em parcos 45 minutos, quase que pedindo desculpas por terem enterrado o assunto por tanto tempo. Mesmo prevendo uma cura milagrosa no episódio final – a não ser que o plano seja mudar o nome da série – espero que haja uma função narrativa maior para a doença terminal do protagonista do que só atrair simpatia pelos seus atos heroicos.

Era bastante previsível que a revelação da visão cataclísmica para os sintéticos seria exatamente o catalisador da tragédia. Afinal, já cansamos de ver o Paradoxo da Predestinação sendo usado por aí e, com a revelação de que há sintéticos ainda mais evoluídos em algum lugar (ou tempo) do universo – será que esse pode ser o gancho para a conexão com Discovery? -, a inevitabilidade desse caminho fica patente.

Tenho minhas dúvidas, porém, se estamos diante de uma temporada que encerrará um arco nela mesma, ou se uma possível 2ª temporada continuará diretamente essa mesma história. Digo isso, pois parece haver muita coisa ainda a ser revelada e abordada, especialmente os tais sintéticos super-evoluídos, além de toda a política envolvendo romulanos, Frota Estelar e a proibição geral de sintéticos. Considerando o tempo que foi perdido em episódios que andaram de lado, o último episódio teria que ser tão repleto de encaixes e soluções, que temo o mais completo tumulto. Mas, claro, só saberemos na semana que vem.

Chega a ser curioso como o espírito de uma série clássica conseguiu ser capturado com muito mais perfeição aqui do que em episódios como Nepenthe, claramente criado com exatamente esse objetivo. Fica muito evidente que as famosas e tão cobiçadas e cavoucadas “referências”, hoje em dia, mais atrapalham do que beneficiam a arte de contar uma história. É torcer para que o encerramento da temporada mantenha essa linha e compense um pouco os problemas que a série teve.

Star Trek: Picard – 1X09: Et in Arcadia Ego, Part 1 (EUA, 19 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Akiva Goldsman
Roteiro: Michael Chabon, Ayelet Waldman
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jeri Ryan, Brent Spiner
Duração: 45 min.

Crítica | Mr. Mercedes – 3ª Temporada

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Mr. Mercedes não é uma série que teme se reinventar. Com Brady Hartsfield (Harry Treadaway), o personagem título, morto na temporada passada pela ex amiga Lou (Breeda Wool), o 3º ano altera radicalmente a dinâmica do show, que sempre se concentrou na disputa do vilão com Bill Hodges (Brendan Gleeson). A trama parte do assassinato de John Rothstein (Bruce Dern), um aposentado autor de livros de detetive, morto em casa durante um assalto. O invasor, Morris Bellamy (Gabriel Ebert), foge com milhares de dólares e algo mais valioso: um manuscrito com uma aventura inédita de Jimmy Gold, popular personagem do autor. Mas Morris se acidenta na fuga e perde o dinheiro e o manuscrito, que é encontrado por Peter Saubers (Rarmian Newton), um adolescente cuja família está em dificuldades financeiras. Enquanto Bill tenta livrar Lou da cadeia pela morte de Brady, ele é chamado para ajudar a investigar a morte de Rothstein, ao mesmo tempo em que Morris caça a pessoa que achou os manuscritos. Baseada no livro de Stephen King, Achados e Perdidos, a 3ª Temporada possui dois Plots centrais: a caça ao manuscrito e o julgamento de Lou. Estas tramas pouco se afetam  mas dividem o tema das marcas de um legado.

Morris é um antagonista bem diferente de Brady, não só por não agir sozinho, já que tem Alma Lane (Kate Mulgrew) como parceira, mas também por ser mais explosivo e humano, dividido entre momentos de grande fragilidade e raiva homicida. Já Alma Lane é uma vilã mais tradicional, uma mulher dominadora e sem consciência que se diverte com os crimes que comete e mantém com Morris uma sórdida e distorcida relação de mentora e aprendiz, desde que o violentou quando o criminoso era uma criança. Os Saubers, por sua vez, trazem elementos interessantes, como o fato do patriarca Tom (Josh Daugherty) ter perdido a mobilidade após ser ferido no massacre do Mercedes, causando a crise  da família. Tal situação de causa e efeito é inteligente, já que sem Hartsfield, talvez Peter tivesse agido diferente em relação ao manuscrito. Claro, Peter torna-se tão fascinado por Jimmy Gold, que assim como Morris, passa a se inspirar nas ações do personagem para lidar com a disputa do manuscrito. O problema é que Peter é irritante e pouco carismático. Sua persona arredia e fechada o torna muito difícil de se gostar, o que é um problema quando a narrativa dedica tanto tempo a ele.

As cenas na corte discutem com propriedade a questão da justiça com as próprias mãos, e tornam Lou a personagem mais instigante deste ciclo, ao mostrá-la sendo influenciada por visões do Mr. Mercedes. Nunca fica claro se Brady transferiu a sua consciência para a mente da colega (algo sugerido no fim da 2ª Temporada) ou se essa influência é fruto de um trauma, o que é uma ambiguidade interessante. A temporada explora bem os coadjuvantes, como  Holly (Justine Lupe), cujo papel no julgamento surge como um desafio de superação, enquanto a relação da moça com o advogado de Lou, Roland Finkelstein (Brett Gelman) é construído de forma sensível ao mostrar a jovem autista passar a permitir que alguém se aproxime de forma mais íntima. Ida (Holland Taylor) também ganha mais espaço pelo passado que compartilha com Morris e Rothstein, ainda que o fato de ela ser professora de Peter e vizinha de Bill seja uma incômoda conveniência narrativa.

Mas se os coadjuvantes são melhor utilizados, o protagonista acaba deixado de lado. Os roteiros tentam suprir o vácuo deixado por Brady dando a Bill uma nova obsessão com o caso Rothstein, já que a obra do autor teria tido grande importância na formação do detetive. Mas o texto não da credibilidade a pessoalidade de Hodges com o caso, ainda que afirme que ela exista. Por mais que haja uma história para se contar sobre Hodges buscando um legado que supere o conflito com Hartsfield, tudo surge como uma reflexão tardia, incluindo o retorno da filha de Bill, Allie (Maddie Hasson), nos episódios finais. Apesar da escanteada em Bill, a trama do manuscrito consegue prender o nosso interesse até o fim, mais pelo carisma dos envolvidos (tirando Peter) do que pela investigação em si, embora a coisa melhore a partir da segunda metade da temporada, após uma recompensa milionária ser oferecida pelo manuscrito. E se elogiei o Plot do do julgamento, torna-se óbvio após a sua conclusão que ele parece mais preparar terreno para uma 4ª Temporada do que impactar os episódios atuais .

A direção da série, sabendo quando flertar com o gore trash e quando ser sutil, bastando observar o quão econômicas são as cenas de alucinação de Lou para preservar a ambiguidade de seu estado (e não trazer Harry Treadaway de volta nestas cenas se encaixa bem nesta proposta de ambiguidade). A trilha sonora segue sendo um ponto forte do show, ilustrando bem a personalidade e os momentos vividos pelos personagens. Brendan Gleeson vive Bill com uma naturalidade invejável, conseguindo fazer com que Hodges se destaque, mesmo com os conflitos fracos que recebe. Justine Lupe merece aplausos por sua interpretação delicada como Holly, evitando cair na armadilha de fazer dos tiques e manias da jovem uma muleta.  E se Breeda Wool entrega uma atuação inquietante como Lou, nos deixando sempre com o pé atrás em relação a moça, Gabriel Ebert faz de Morris um vilão com quem conseguimos simpatizar, apesar de tudo, enquanto Kate Mulgrew se diverte a beça como a psicótica Alma. Vale destacar ainda Bruce Dern como Rothstein, cujo comportamento ácido em cena nos dá uma ideia do tipo de personagem que o autor criou em seus livros e que cativou tanto Bill e Morris.

Ainda que não consiga ficar à altura do ano de estreia, a 3ª Temporada de Mr. Mercedes mostra-se muito mais consistente que a temporada anterior. A interessante temática de como pessoas tão diferentes como Brady Hartsfield, John Rothstein, e Bill Hodges podem marcar a vida das pessoas e deixarem legados tanto positivos quanto negativos, dá o senso de conclusão da nova leva de episódios. Como os ciclos passados, a temporada pode perfeitamente encerrar a história, mas com um caminhão de sorvete igual ao de Brady voltando a circular pelos subúrbios, uma sugestão de que podemos voltar a ver estes personagens é plantada. Embora a série ainda não tenha sido oficialmente cancelada, uma quarta temporada de Mr. Mercedes é improvável, especialmente após o fechamento do Audience Network, canal que produzia o programa. Eu não iria reclamar em ver Bill em uma 4ª (e última) temporada, mas se este foi o final, David E. Kelley e Jack Bender podem se orgulhar de terem dado um fim digno para a sua adaptação da Trilogia Bill Hodges, que mesmo longe de ser uma obra prima, firma-se como uma das melhores adaptações de  King para a TV.

Mr. Mercedes- 3ª Temporada – EUA, 10 de Setembro de 2019 a 12 de Novembro de 2019.
Criadores: David E. Kelley e Jack Bender
Showrunner: David E. Kelley
Direção: Jack Bender, Laura Innes, Michael J. Leone
Roteiro: David E. Kelley e Jonathan Shapiro (Baseado em romance de Stephen King)
Elenco: Brendan Gleeson, Justine Lupe, Breeda Wool, Holland Taylor, Jharrel Jerome, Maximiliano Hernandez, Gabriel Ebert, Kate Mulgrew, Rarmian Newton, Josh Daugherty, Claire Bronson, Brett Gelman, Bruce Dern,  Natalie Paul, Glynn Turman, Meg Steedle, Maddie Hasson, Patch Darragh.
Duração: 10 episódios de aproximadamente 50 minutos.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X08: Broken Pieces

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Broken Pieces é um episódio que me deixou na dúvida sobre como analisá-lo. Por um lado, ele desnuda exatamente o que há de muito errado nessa temporada inaugural de Star Trek: Picard, mas, de outro, ele consegue, se visto independentemente, cumprir seu objetivo, que é parar, revelar, recapitular e preparar o espectador para o episódio duplo final Et in Arcadia Ego, que irá ao ar uma parte por semana.

Vamos, então, começar pelo que há de negativo ou, melhor dizendo, o que ele representa de negativo para tudo o que veio antes. Sabem os clássicos livros de Agatha Christie, em que ela desenvolve sua história de maneira a levar Hercule Poirot a colocar todos os suspeitos em uma sala para, então, revelar o assassino? Pois bem, Broken Pieces é exatamente o capítulo que aborda a famosa sala. Mas, com todo respeito, os showrunners da série não lambem as botas da sensacional autora britânica e transformaram quase todos os capítulos anteriores, que deveriam levar organicamente à “cena da sala”, em um festival de nostalgia e saudosismo que foi muito além de trazer Jean-Luc Picard de volta de sua aposentadoria.

Como disse mais assertivamente na crítica de Nepenthe, esse olhar para trás é simpático e bem-vindo, mas somente quando ele mantem-se saudavelmente nas beiradas, jamais interferindo pesadamente na narrativa. No entanto, o que vimos em Star Trek: Picard, até agora, foi um desfile incessante de situações forçadas para que velhos personagens voltassem para as telinhas por alguns momentos de forma a matar a saudade de fãs da velha guarda como eu, por exemplo. Mas a grande verdade é que esse vício acabou tomando conta da temporada, corrompendo a história original que começou muito bem e jogando-a para o banco de reserva.

Portanto, esses “pedaços quebrados” do título não formam um todo que se encaixa natural e facilmente, pois eles perderam espaço para pontas de Sete de Nove, de Deanna Troi, de William Riker, de Hugh e assim por diante sem que muito fosse oferecido em termos de efetivo desenvolvimento. E é por isso que o episódio sob comento revela a nudez do rei ao literalmente fazer a tripulação de Picard sentar ao redor de uma mesa para que, então, o quebra-cabeças pudesse ser montado com textos expositivos atrás de textos expositivos. A diferença para as histórias de Agatha Christie é que, em seus livros, o artifício da reunião reveladora é parte orgânica da narrativa na maioria dos casos e, aqui, ao contrário, a explicação do que aconteceu até aqui parece literalmente “cenas dos capítulos anteriores” ou, pior ainda, um momento que subestima a inteligência do espectador e diz algo como “senta aqui para eu te explicar exatamente o que aconteceu até agora, seu burrinho”.

Dito isso – e aí vem o lado bom da coisa toda -, tenho que confessar que Broken Pieces consegue quebrar o arco descendente que acometeu a temporada desde The Impossible Box. E esse resultado é obtido não só pelo retorno de Sete, como também por intermédio da simpática investigação que Raffi empreende na La Sirena depois que o Capitão Rios reconhece Soji e entra em modo de auto-destruição. Sei o que muitos vão dizer: haja conveniência! E é verdade, pois os dois artifícios narrativos que citei dependem que suspendamos nossa descrença e aceitemos o providencial “botão de pânico” que invoca Sete e a mais completa e absurda coincidência que é Rios já ter se deparado com uma “irmã” da androide.

Mas, se entubarmos esses dois atos roteirísticos divinos, a forma como eles são desenvolvidos sacode o episódio, retirando a série do marasmo nostálgico em que ela se encontrava. No Cubo Borg, por exemplo, é simplesmente um deleite ver Sete reativar a parafernália de seus algozes e criar uma “mini-colméia” para enfrentar Narissa, com direito a excelentes efeitos especiais que vão da regeneração do Cubo até a dolorosa defenestração dos XBs em estase. Na La Sirena, a diversão fica por conta dos hologramas de Rios tentando lembrar de onde o capitão lembra de Soji, sob o comando da “inspetora” Raffi. Santiago Cabrera teve poucos momentos para brilhar na temporada, mas, aqui, multiplicado por seis – e cada um com seu jeito e sotaque – o ator encontra um sensacional palco para realmente soltar-se e entregar excelentes e hilárias performances.

Talvez eu tenha que falar um pouco do prólogo que mostra a cerimônia de criação do Zhat Vash, mas prometo ser breve. Esse pequeno “pedaço de informação” cumpre a função muito mais de estabelecer uma ponte que justifique a existência de Ramdha na temporada do que efetivamente trazer algo que não sabíamos. Tudo bem que é interessante que essa visão não é de futuro, mas sim de um passado remoto, há 200 ou 300 mil anos em que uma raça foi aniquilada por suas próprias criações, mas convenhamos que essa historinha sempre eficiente à la Skynet não precisava de algo muito elaborado para funcionar. O que me deixa particularmente cabreiro é que I.A. destruindo o universo foi o mote da segunda temporada de Star Trek: Discovery e se houver conexão com a série-irmã, ela provavelmente cairá de para-quedas, o que é ruim, e, se não houver, a constatação de que há uma crise de originalidade nas equipes responsáveis por Star Trek lá na CBS é uma tristeza.

Com a temporada caminhando para seu final, fica a torcida para a série realmente mostrar a que veio para além do mero saudosismo nerd. Há possibilidade ainda não de recuperação total, mas de uma demonstração definitiva de que Star Trek: Picard não precisa ficar no passado para mostrar que tem futuro.

Star Trek: Picard – 1X08: Broken Pieces (EUA, 12 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Maja Vrvilo
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jeri Ryan
Duração: 56 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X07: Nepenthe

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Seria bem mais honesto aos meus olhos se Star Trek: Picard se chamasse Star Trek: Epilogue. Afinal, a história das filhas de Data é até interessante e bem amarrada na mitologia do ex-Almirante Picard, mas a grande verdade é que, até agora, ela só tem sido mesmo uma espécie de desculpa para que os showrunners revisitem personagens clássicos para dar-lhes histórias que cobrissem as últimas duas décadas e uma espécie de fim, seja ele da natureza que for.

Não que seja terrível a ideia de uma série baseada quase que exclusivamente no saudosismo, mas o ponto é que essa escolha tem soterrado a narrativa que deveria, pelo menos em tese, ser a principal. Se espremermos, os sete episódios que foram ao ar até agora não têm material novo suficiente para preencher nem três de duração regulamentar de 45 minutos. Claro que é muito bacana ver Data, Sete de Nove, Hugh e, agora, Deanna Troi (Marina Sirtis) e William Riker (Jonathan Frakes) novamente depois de tanto tempo, mas o problema reside em que todo esse fan service tem tido um fim em si mesmo, não impulsionando a história efetivamente, talvez com exceção dos flashbacks/sonhos com Data.

Chega a ser cansativo ver Kestra (a simpaticíssima Lulu Wilson), filha de Troi e Riker, agir como uma Trekker e nos contar – usando o diálogo canhestro com Soji como desculpa – toda a importância de Data e o porquê de ele se preocupar em ter uma filha com saliva e muco. É igualmente cansativo todo o gigantesco texto expositivo de vários minutos em momentos diferentes para revelar os detalhes da vida e morte de Thaddeus, filho mais velho da dupla, que tragicamente sonhava em ter um lar que não fosse uma nave espacial e que, certamente fazendo inveja a J.R.R. Tolkien, inventou nada menos do que 12 línguas para seu mundo imaginário, uma delas de uma espécie de borboleta que “fala” com o bater de asas (ohhhh, tão poético…).

Tudo isso fica parecendo material perfeito para uma HQ ou um livro que focasse o intervalo entre a aposentadoria e a volta de todos esses personagens, mas que, em um episódio que deveria ser “de fuga”, em um momento já adiantado de uma temporada de apenas 10 episódios, torna-se uma torneira que jorra informações completamente desnecessárias apenas para fazer os olhinhos dos fãs brilharem. Novamente, nada contra SE os roteiros não cismassem em pegar a história principal e colocar em segundo, por vezes terceiro plano para que todo personagem “de uso único” da temporada ganhasse seu momento para lembrar do passado.

Mas claro que Nepenthe lida também com a trama principal de duas maneiras. Uma sacrificando Hugh em mais uma demonstração de que os personagens coadjuvantes, nessa temporada, têm, de uma forma ou de outra, vida curta. Eles são utilizados apenas quando necessários – outras vezes nem isso, pois não dá para dizer que a presença de Sete foi exatamente necessária – e descartados logo em seguida, seja com uma singela despedida, seja com, no caso aqui, uma morte besta que poderia ter sido evitada pelo ninja romulano que, por sua vez, até ganha bons momentos de pancadaria, mas que ainda não mostrou a que veio para além desses breves arroubos de ação.

A outra maneira é na perseguição à La Sirena por Narek, o romulano que não toma banho, com direito a um flashback que finalmente revela o que aconteceu com a Dra. Jurati naquele fatídico encontro com a Comodoro Oh, chefe da segurança da Frota Estrelar. E que flashback… hummm… porcaria, não? Bastou a vulcana fazer a fusão mental com a doutora para ela “descobrir” que o universo será destruído se os sintéticos forem autorizados a existir e em momento algum agir como uma cientista e indagar sobre o que ela viu. Afinal, para que, não é mesmo? É muito melhor engolir uma pílula rastreadora logo de cara e concordar, assim como quem não quer nada, em matar o ex-namorado assim que o encontrar, além de sabotar a missão de um honrado ex-Almirante. Faz MUITO mais sentido do que parar para pensar um pouco, pesquisar e, por incrível que pareça, até mesmo conversar com as pessoas ao seu redor! Talvez Jurati seja uma crítica social, como a encarnação audiovisual das hordas de internautas que leem somente as manchetes de artigos de redes sociais e acreditam piamente no que está escrito sem qualquer bom senso ou verificação… Se for assim, pelo menos a personagem tem uma função nobre, caso contrário tomara que ela não saia de seu coma ou morra engasgada com bolo…

Se eu fosse unicamente pela nostalgia, minha avaliação do episódio seria muito mais alta, mas a grande verdade é que nostalgia só é boa em filmes e séries se ela não se torna o centro da história, invertendo completamente a lógica narrativa. Convenhamos que só pelo fato de a série chamar-se Star Trek: Picard, trazendo Patrick Stewart de volta, toda a dose necessária de saudosismo já estava devidamente preenchida e com folga. Mas não. Aparentemente isso não era o suficiente e, no lugar de contar uma história nova, olhando para a frente e apenas por vezes lembrando-se do passado, os showrunners resolveram olhar para trás o tempo todo, apenas de vez em quando olhando para a frente. Uma pena.

Star Trek: Picard – 1X07: Nepenthe (EUA, 05 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Doug Aarniokoski
Roteiro: Samantha Humphrey, Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jonathan Frakes, Marina Sirtis, Jonathan Del Arco, Tamlyn Tomita
Duração: 59 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X06: The Impossible Box

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Stardust City Rag foi, em sua essência, um filler cheio de galhofas que se valeu fortemente da nostalgia para reintroduzir Sete de Nove e dar um encerramento à querida personagem de Star Trek: Voyager. Nesse espírito, o episódio acabou funcionando para mim, pois de certa forma nos desviou do que estava dando errado em Star Trek: Picard, ou seja, roteiros que não sabem dosar ação com reflexão e uma estrutura cansativa de montagem de equipe que durou tempo demais. E The Impossible Box é mais uma prova de que falta ritmo à série que tirou Jean-Luc Picard de sua aposentadoria.

Se o episódio anterior não se levou a sério e, por isso, tornou possível aceitar as diversas conveniências que pontilharam a história, aqui acontece justamente o contrário. A narrativa é seríssima e é, para todos os efeitos, o desfecho da “fase um” da série, já que lida com o resgate de Soji por Picard lá no Cubo Borg, agora chamado de O Artefato. Por essa razão é que o roteiro repleto de saídas fáceis cansa demais, começando pela obtenção de uma credencial diplomática em 10 segundos por uma Raffi bêbada pedindo favor a uma agora ex-amiga, parte de um plano mal-ajambrado para justificar a presenta da La Sirena em espaço romulano, continuando com a “sala secreta” com “teletransportador secreto” que faria inveja ao deus ex machina mais conveniente e terminando com a presença heroica de Elnor no momento certo (e que agora pode matar sem sequer ser repreendido, pelo visto…), tudo é construído ao redor de “é assim porque eu quero que seja e que se dane”.

E isso porque eu nem mencionei o caso completamente deslocado – em termos de momento – entre Rios e a Dra. Jurati, com direito até à racionalização ridiculamente excessiva da situação e o fato de que Jean-Luc Picard, chegando abertamente ao Cubo Borg, não atrai a atenção imediata de TODOS os romulanos por ali, que no mínimo deveriam ter colocado seus espiões em peso seguindo o ex-almirante e o canino Hugh. Se espremermos, notaremos que a trajetória de Picard no Cubo é, basicamente, andar, ter lembranças dolorosas, andar, conversar com Hugh e… andar, pois tudo o que interessa acontece ao seu redor sem conexão alguma com ele. Tudo bem que eu mesmo advogo para que nenhum roteiro se engrace e coloque um ator octogenário em sequências de ação, pois isso seria ridículo, mas daí a transformar o que seria ação em um passeio no parque é um pouquinho demais.

Ah, mas alguns dirão que a ação, aqui, ficou por conta da relação de Zarek (só eu que acho esse personagem com constante cara de quem não toma banho há semanas?) com Soji, com o primeiro levando a segunda desavisada – e que convenientemente passa a descobrir em velocidade meteórica que ela não talvez não seja quem é – para um ritual romulano que, você adivinhou, não é nada mais do que “andar” por um caminho desenhado no chão falando sobre seus sonhos. É como um consultório psiquiátrico que troca o divã por mobilidade resultando em algo corrido e, novamente, extremamente conveniente, tudo para que os romulanos finalmente descubram o planeta natal da androide, provavelmente o assunto que ocupará os episódios finais da temporada.

Mas há pontos positivos, claro. Além da presença forte de Patrick Stewart em atuação prazerosa de se assistir, a interação de Picard com Hugh, se vista separadamente, é bem construída e bem estabelecida. Da mesma forma, a música-tema de Star Trek tocando na ponte da La Sirena depois que Raffi consegue as credenciais diplomáticas foi um toque bacana que precisa ser repetido mais vezes. E, finalmente, o ponto principal: esse foi o primeiro episódio da temporada que não usa a nostalgia – para além da presença de Picard, óbvio – como mola mestra.

Nostalgia é algo que, em doses homeopáticas, tende a funcionar muito bem, reunindo gerações diferentes de espectadores. Star Trek: Picard começou fortemente assim, como era de se esperar, mas o problema é que a temporada não havia ainda largado de verdade essa muleta narrativa. The Impossible Box, ao focar inteiramente na história do presente, deixa a nostalgia um pouco de lado e passa a se valer apenas das novas situações e novos personagens apresentados na série. Claro que os problemas que apontei não são magicamente apagados simplesmente porque o roteiro muda de tom nesse aspecto, mas é sem dúvida algo a ser aplaudido, ficando a torcida para que isso continue nos quatro episódios finais.

A 1ª temporada de Star Trek: Picard vai caminhando para seu fim sem ainda dizer a que realmente veio para além de ressuscitar um amado personagem clássico da franquia. Os showrunners parecem por um lado não saber como desvencilhar-se do passado e, por outro, como trabalhar o presente de maneira cadenciada, com roteiros realmente bem estruturados que fujam das soluções tiradas da cartola. Será uma pena se a temporada acabar sem que Jean-Luc Picard retome seu trono de ícone de Star Trek.

Star Trek: Picard – 1X06: The Impossible Box (EUA, 27 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Maja Vrvilo
Roteiro: Nick Zayas
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List
Duração: 55 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor

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Conforme aprendemos nesse episódio e que inclusive está em seu título, a ordem de freiras romulanas Qowat Milat tem como princípio basilar o “caminho da absoluta franqueza” e, inspirado nele, tenho que ser direto: Star Trek: Picard até que não é ruim, mas a série precisa urgentemente ser mais do que a infinita reunião de uma nova equipe para o ex-almirante Jean-Luc Picard e, por mais, eu quero dizer que toda aquela trama envolvendo Soji no cubo Borg também não está funcionando a contento. Pronto, tendo tirado isso da frente, deixe-me começar a análise de Absolute Candor.

Depois de introduzir Laris e Zhaban, romulanos da ordem Tal Shiar que Picard salvou e que, agora, trabalham em seu vinhedo e a doutora Agnes Jurati, especialista em androides e de apresentar Raffi, a ex-imediata do almirante, que, por sua vez, introduz o comandante Rios (e seus mais do que convenientes hologramas-paus-para-toda-obra), é chegada a hora de apresentar mais gente do passado de Picard. Não só a ordem das freiras guerreiras Qowat Milat é tirada da cartola como parte do drama de Picard sobre o fim da evacuação dos romulanos depois do ataque em Marte, como os showrunners aparentemente precisavam criar uma espécie de filho postiço para o protagonista que, claro, hoje em dia, é um ninja romulano mortal que faria inveja a Snake Eyes e Storm Shadow juntos.

Todo aquele flashback fofinho de Picard de chapéu panamá e roupa de linho branco (brega mandou lembranças) em Vashti foi uma sucessão interminável de “rolação de olhos” para mim. E a coisa fica ainda mais estranha se considerarmos que Picard levou Laris e Zhaban para casa, mas não voltou para resgatar o então jovem Elnor com quem ele estabeleceu profunda conexão e que as freiras deixaram claro que ele não tinha lugar ali. É muita vontade de criar um sidekick para Picard brincar de ser pai…

E, claro, toda aquela ação no presente em Vashti também não ajudou muito, pois foi uma sucessão de clichês mal ajambrados de estranho em terra estranha, de reconexão com o antigo protegido (agora vivido por Evan Evagora)  e, pior, de uma ameaça completamente aleatória em órbita que dá espaço para a chegada ainda mais aleatória de Sete de Nove (Jeri Ryan). O roteiro de Michael Chabon não consegue nem mesmo consertar a situação confusa no cubo Borg que só fica mais enevoada e desinteressante a cada capítulo.

Mas calma, não é o fim do mundo. Eu nem mesmo detestei o episódio. Ele ficou ali um pouquinho acima da linha média porque, convenhamos, Patrick Stewart é Patrick Stewart e, ainda por cima, o episódio é dirigido por ninguém menos do que Jonathan Frakes, o próprio Número Um e que foi responsável por três filmes da franquia Star Trek, dentre eles Nêmesis, que considero o melhor, e que tem se provado um excelente diretor de TV. É ele que consegue fazer uma limonada diretorial do limão roteirístico de Chabon, trabalhando boas sequências tanto na ponte da La Sirena (Picard não resistindo o comando foram excelentes momentos cômicos e ao mesmo tempo enervantes) quanto na superfície do planeta, especialmente a sequência de ação no bar romulano que culminou com uma cabeça decepada por Elnor.

No entanto, voltando ao começo de meus comentários, chega. Não dá mais para a 1ª temporada de Star Trek: Picard girar em torno da construção de uma nova tripulação para o resgate de Soji. O artifício não só já deu o que tinha que dar, como cansa pela introdução mais do que conveniente de gente perfeita para as funções necessárias. Além disso, a trama no cubo Borg simplesmente precisa tomar tenência e rumo, pois, até agora, ela não passa de uma bobagem cheio de invencionices que serve de desculpa para o romance do romulano com a androide. Afinal, há um potencial enorme nesse revival de A Nova Geração que seria um crime se fosse desperdiçado!

Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor (EUA, 13 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco, Jeri Ryan, Evan Evagora
Duração: 45 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning

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Remembrance teve a difícil, mas vitoriosa tarefa de reintroduzir Jean-Luc Picard para a audiência moderna, dando conta de uma trama completamente nova e ao mesmo tempo profundamente enraizada na mitologia do adorado personagem de Patrick Stewart. Maps and Legends, por seu turno, carregou no texto expositivo para correr com a contextualização, muitas vezes se socorrendo de conveniências e esquecendo de fazer pleno uso do meio audiovisual. The End is the Beginning, o terceiro episódio seguido dirigido por Hanelle Culpepper, parece fechar a “trilogia introdutória” da 1ª temporada de Star Trek: Picard, introduzindo três novos personagens (na série), desenvolvendo o lado de Soji no cubo Borg e, claro, finalmente colocando o ex-almirante novamente no espaço.

É muita coisa para abordar em tão pouco tempo, sem dúvida, mas o roteiro de Michael Chabon e James Duff consegue equilibrar melhor exposição com ação, entregando um episódio mais redondo que o anterior que, porém, continua com problemas, mais notavelmente o “paraquedismo” de personagens e de saídas fáceis para questões complexas. Mesmo assim, considerando as quase duas décadas que separam a última aparição de Picard em qualquer tela e a retirada do personagem de sua aposentadoria bucólica em seu vinhedo francês, The End if the Beginning, quando visto em conjunto com os capítulos anteriores, estabelece muito bem a premissa da temporada, engajando o espectador nessa nova aventura e prometendo muito para o que vem por aí.

Iniciando com um flashback que marca o fim da carreira do protagonista na Frota Estelar e que estabelece a razão do relacionamento mais do que estremecido dele com a comandante Raffi Musiker, sua segunda em comando (como é visto em mais detalhes no prelúdio em quadrinhos Star Trek: Picard – Contagem Regressiva), que o culpa por abandonar seu posto e basicamente condená-la ao ostracismo, algo que é reiterado pelo doloroso diálogo dos dois no presente, no trailer de Musiker – vivida por Michelle Hurd – no meio de nada com lugar nenhum. O fascinante nesse aspecto é o esforço que a série faz para desconstruir a imagem perfeita que temos de Jean-Luc Picard. O comandante altivo de A Nova Geração dá lugar a um homem extremamente orgulhoso, que não é capaz de enxergar sua própria arrogância. Musiker coloca mais uma pá nessa cova do “Super Picard” quando joga na cara do ex-almirante sua incapacidade de procurá-la depois de tanto tempo, só fazendo quando precisa de um favor particularmente complicado. E quem achar que isso é um desrespeito ao personagem, pensem novamente, pois isso é, na verdade, uma grande homenagem a ele. Perfeição não tem espaço em uma série de valor e essa humanização de Picard é absolutamente essencial para seu personagem funcionar de verdade em tempos modernos, isso sem falar que a exposição dessas suas características negativas está em consonância com o que ele sempre demonstrou ser, mas que as lentes bondosas anteriores apenas procuravam focar nos aspectos positivos.

A introdução de Cristóbal “Chris” Rios (Santiago Cabrera) e de seu divertido holograma de emergência, que é uma versão menos desgrenhada de si mesmo, carece de qualquer sutileza. Depois de uma sugestão da rabugenta Musiker, Picard simplesmente aparece na impecável ponte da nave do piloto que, ato contínuo, ganha alguns minutos contextualizadores – com e sem Picard – que é mais uma amostragem de um roteiro que precisa correr para firmar sua história. A questão é que isso poderia ser evitado se essa trilogia inicial tivesse balanceado a aparição de seus personagens, talvez trazendo Musiker mais para o começo, o que permitiria que Rio entrasse mais cedo, sem que fosse necessário recorrer a diálogos que didaticamente estabelecem quem ele é e o que ele pensa da Frota Estelar em geral e de Picard em particular. Ou isso ou esses elementos poderiam simplesmente ser introduzidos mais vagarosamente nos próximos capítulos. Seja como for, o personagem em si parece ser interessante e Cabrera parece muito à vontade no papel.

A ação no Château Picard, com os romulanos assassinos chegando para eliminá-lo, por seu turno, foi um ótimo momento de ação pura, com excelentes coreografias que, muito acertadamente, mantiveram Picard comendo pelas beiradas, só se aproveitando dos estragos causados pelos mais do que eficientes Laris e Zhaban. Isso é essencial para a verossimilhança da série, que não pode simplesmente jogar um octogenário no meio da pancadaria sem tornar tudo ridículo. Tudo bem que a entrada providencial da doutora Agnes Jurati foi o típico momento clichê para fazer olhos rolarem, mas esse é um pecado menor no contexto geral.

Lá no cubo Borg, que tem a ação paralelizada – em seu fim – com o que acontece na residência de Picard, vemos Soji começar a despertar para o que realmente é: uma androide. A forma como isso é executado, porém, pareceu-me desnecessariamente confusa, a começar pela (re)introdução de Hugh, o ex-drone Borg vivido mais uma vez por Jonathan Del Arco, que deu vida ao personagem em três episódios de A Nova Geração. Agora diretor do Artefato, ele mostra sua admiração por Soji, permitindo-a que entreviste uma romulana que também fora drone Borg. Tudo bem que o objetivo era reiterar a importância de Soji para a temporada, inclusive apelidando-a de “A Destruidora”, mas a trama, aqui, pareceu-me cheia de idas, vindas, explicações estranhas e invencionices que atrapalharam a fluidez da narrativa, algo que nem mesmo a direção firme de Culpepper conseguiu corrigir com eficiência. De certa forma, pareceu um enorme derramamento de mitologia em questão de pouquíssimos minutos que acabou quebrando a tensão do momento.

Seja como for, agora a equipe de Picard parece estar formada, com um objetivo mais ou menos estabelecido (conveniente pacas deixar Musiker achar Bruce Maddox offscreen, não?), a série pode finalmente começar de verdade, sem precisar enxertar mais história pregressa ou salpicar a trama de elementos complicadores só pela vontade de complicar. Por vezes, a simplicidade é o melhor caminho e JL, com toda sua calma e empáfia, parece saber bem disso.

Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning (EUA, 06 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Michael Chabon, James Duff
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco
Duração: 43 min.

Crítica | Mr. Mercedes – 2ª Temporada

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Após uma excelente 1ª Temporada, que adaptou com elegância o primeiro romance da Trilogia Bill Hodges, Mr. Mercedes opta em seu 2ª ano por ignorar o segundo livro e usar como base para a trama o livro Fim de Turno, o final da trilogia. Embora estranha à primeira vista, a decisão faz sentido, já que a série pode dar continuidade ao duelo entre Bill Hodges (Brendan Gleeson) e o psicopata Brady Hartsfield (Harry Treadaway), enquanto na literatura, Stephen King optou por colocar esse duelo em espera no segundo livro, ao por Hodges em uma aventura desvinculada do assassino. Mas se o show mantém o público confortável ao manter o seu principal vilão, por outro lado, gera estranheza ao incluir elementos de ficção científica e paranormalidade inexistentes na série até então.

Na trama da temporada um ano se passou desde que Bill, com a ajuda de Holly Gibney (Justine Lupe) impediu que Brady cometesse um novo massacre. Enquanto Hodges e Holly abriram uma agência de investigação particular, Hartsfield continua em estado vegetativo (após ser violentamente atingido na cabeça por Holly no final da temporada anterior), recebendo apenas as visitas de Bill, que mantém o assassino sob constante vigilância. Mas quando o neurocirurgião Felix Babineau (Jack Huston), influenciado pela esposa Cora (Tessa Ferrer), uma implacável chefe de marketing de uma empresa farmacêutica, resolve testar drogas experimentais em Brady para tirá-lo de seu estado catatônico, a consciência do maníaco desperta — ainda que externamente ele mantenha o estado vegetativo. Agora, vivendo em um cenário psíquico e desenvolvendo a habilidade de controlar as mentes mais fracas que se aproximam de seu corpo, Brady dá início a uma nova onda de mortes.

Nesta nova temporada, a série adota mais fortemente os signos do terror, vide as gráficas cirurgias cerebrais a que Babimeaus submete Brady, e os pesadelos que Bill passa a ter com o assassino. Mas o programa continua a ter como fio condutor a rivalidade co-dependente entre Hodges e Brady, ainda que essa dinâmica comece a ser problematizada pelo detetive. Parte da jornada de Hodges nesta temporada é a busca por uma vida que não seja definida por seu conflito com o Mr. Mercedes, já que por mais que Brady esteja aparentemente fora de combate, Bill não consegue dar o caso por encerrado, o que gera preocupações em seus amigos, Holly e Ida (Holland Taylor) em especial. Brady, por sua vez, ressurge mais cruel, pois ao não precisar mais ocultar a sua natureza psicótica, pode abraçar sem restrições a maldade e o sadismo que lhe são característicos. Desse modo, torna-se interessante que a trama carregue elementos fantásticos ao retratar o assassino mais como um monstro do que como um ser humano, ainda que continue a trabalhar as vulnerabilidades do personagem através das aparições de projeções de suas vítimas mais próximas, como sua mãe e irmão, que surgem dentro de sua mente.

A direção da série serve-se bem das possibilidades que os poderes telepáticas do vilão proporcionam para criar sequências de tensão e terror em diferentes níveis, enquanto a direção de arte é inventiva na criação do cenário mental que Brady ocupa, que surge como uma versão surreal do porão de sua casa visto na 1ª Temporada, com direito ao famigerado Mercedes ensanguentado. A edição também ganha maior destaque nesta temporada, especialmente pelas sequências que intercalam as ações de Brady em seu mundo mental com as consequências no mundo externo, com o momento em que Bill é atacado em sua casa pelo gigantesco Al (Mike Starr) no sétimo episódio sendo o grande destaque. E claro, a trilha sonora do programa continua um show à parte, com uma seleção musical que contando com Blues, Jazz e Rock, ilustram com perfeição os conflitos de seus personagens, o que pode ser percebido desde a nova sequência de abertura.

Apesar destas qualidades, esta 2ª Temporada possui falhas que acabam tornando-a um pouco irregular, começando pela presença de subtramas absolutamente dispensáveis, como a envolvendo Jerome (Jharrel Jerome) e seus problemas com Harvard, que não levam a lugar algum e pouco contribuem com o desenvolvimento do personagem. Outros arcos, como a relação entre o casal Babineau e o jogo de interesses em que seu casamento se transforma quando os experimentos com Brady saem do controle não só falham em captar o interesse do público, como são abandonados nos episódios finais, sem ganhar um desfecho apropriado.

A série faz uma opção interessante ao dedicar um tempo considerável para desenvolver as vítimas do controle mental de Brady: a enfermeira Sadie (Virginia Kull), e o auxiliar Al, já que ao testemunharmos como o vilão viola a vida dessas pessoas ao transformá-las em armas sem vontade, a ameaça em torno dele torna-se mais profunda e trágica. Entretanto, ao fazer isso, Mr. Mercedes acaba dando pouco espaço para personagens veteranos importantes. Holly, por exemplo, embora seja a grande parceira de Bill e surja mais madura do que na 1ª Temporada, acaba sendo não muito mais do que um suporte para o desenvolvimento de Bill, não tendo o seu próprio, apesar da ótima química de cena entre Gleeson e Lupe. Lou (Breeda Wool), por sua vez, já é melhor servida pela história, que vê a (antes confiante) personagem ser consumida pelo trauma de ser traída e quase morta a facadas por Brady (que ela acreditava ser o seu melhor amigo), em uma atuação intensa de Wool.

Tal como a temporada anterior, este 2º ano se desenvolve de forma relativamente lenta. Isso não é necessariamente um problema, bastando ver os ótimos episódios iniciais, que inserem os elementos fantásticos na série à medida em que Bill passa a desconfiar da atormentada enfermeira Sadie. Mas em seu segundo terço, a série parece se arrastar desnecessariamente, sem que nenhum personagem que não Hodges ganhe um desenvolvimento mais profundo para compensar o ritmo lento. Mas o maior pecado da temporada se encontra em seus episódios finais, quando a trama sofre uma virada radical, indo por um caminho que ignora tudo o que havia sido construído antes, resultando em um incômodo anticlímax. Ainda que o final conclua de forma adequada as histórias de Bill e Lou na temporada, o Plot apresentado nos dois episódios finais envolvendo o julgamento de um Brady desperto e supostamente curado de sua psicopatia soa deslocado.

A 2ª temporada de Mr. Mercedes merece créditos por ter a coragem de inserir elementos fantásticos totalmente estranhos ao Universo que havia sido construído até então, e ainda assim faze-los funcionar. A atmosfera soturna e intimista apresentada na 1ª Temporada continua presente e o elenco principal, liderado pelo brilhante Brendan Glesson, continua afiadíssimo. Entretanto, os novos personagens apresentados estão longe de ser tão carismáticos ou complexos quanto os vistos anteriormente, o ritmo da história torna-se cansativo em certo ponto e o desfecho, embora ousado, soa descolado do resto da trama. Apesar de nitidamente inferior ao ano de estreia, Mr. Mercedes ainda se mantém um drama policial instigante cujo acréscimo inusitado de elementos de terror paranormal apenas enriqueceram a rivalidade obsessiva entre Bill Hodges e o personagem título, rivalidade que continua a ser o coração da série.

Mr. Mercedes- 2ª Temporada. EUA, 22 de Agosto de 2018 a 24 de Outubro de 2018
Criadores: David E. Kelley e Jack Bender
Showrunner: David E. Kelley
Direção: Jack Bender, Peter Weller, Laura Innes.
Roteiro: Dennis Lehane, David E. Kelley, Mike Batistick, Samantha Stratton, Alexis Deane, Sophie Owens Bender, Brian Goluboff, Jonathan Shapiro.
Elenco: Brendan Gleeson, Harry Treadaway, Justine Lupe, Jharrel Jerome, Breeda Wool, Holland Taylor, Scott Lawrence, Jack Huston, Tessa Ferrer, Maximiliano Hernandez, Nancy Travis, Makayla Lysiak, Virginia Kull, Mike Starr.
Duração: 10 Episódios de aproximadamente 50 Minutos.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends

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Em seu segundo episódio, Star Trek: Picard compreensivelmente continua tentando estabelecer as bases da história sendo contada e a relevância de Jean-Luc Picard em todo esse jogo de mistério e espionagem. No entanto, ao afastar completamente a ação do capítulo, Maps and Legends tem um roteiro carregado de textos expositivos que, diferente de Remembrance, fazem a narrativa andar de maneira claudicante, muito mais de lado do que efetivamente em frente.

Tenho plena consciência que as séries clássicas da franquia Star Trek e A Nova Geração em particular prezavam muito mais o diálogo do que a ação, muito mais o verbo do que os punhos ou os phasers, mas, mesmo tendo angariado um status cult, isso não quer dizer automaticamente que essa é a melhor maneira de se contar uma história no audiovisual. Falar no lugar de mostrar no cinema ou na TV é, na maioria das vezes, cacoete narrativo ou, simplesmente, atalho para pular etapa e chegar mais rapidamente a determinado destino. 

Maps and Legends usa esse expediente diversas vezes ao longo de sua duração, tornando o episódio cansativo e didático demais, com doses cavalares de tecno-bobagens para rechear conversas relativamente vazias, como se Michael Chabon e Akiva Goldsman tivessem decidido regurgitar todo o palavreado supostamente técnico para substituir desenvolvimento narrativo. Basta ver a investigação interminável de Picard e Laris no apartamento de Dahj em Boston, que tem como única função verdadeira revelar a existência da Zhat Vash, uma organização romulana ainda mais secreta que a Tal Shiar e que tem como base uma forte política anti-sintéticos. O resto é firula para ocupar tempo de tela, o que nem seria um problema muito sério se algo semelhante não acontecesse novamente na interação de Picard com Agnes Jurati e também entre Soji e Narek no Cubo Borg que, separado da mente cibernética coletiva, ganhou o nome de Artefato.

Falando no Artefato, é muito interessante como a série reapresenta os Borgs, agora não mais como uma ameaça – pelo menos não no momento -, mas sim como fonte de tecnologia para os romulanos que, no processo, libertam os que foram assimilados da prisão cibernética, deixando-os por aí como “restos” de uma operação aparentemente muito lucrativa. Há um potencial enorme nessa linha narrativa que espero fortemente que germine ao longo da temporada.

Outro momento muito interessante, desta vez tendo Picard nos holofotes, foi a chegada do almirante aposentado no QG da Frota Estelar. Não só ele fica indignado por não ser reconhecido na recepção por um jovem, como sua conversa com a Almirante Kirsten Clancy (Ann Magnuson) dá muito errado, revelando de fato o quanto seu orgulho e vaidade o impedem de enxergar o óbvio: por mais que Picard tenha tido seu valor, ele não pode viver de seus méritos passados para fazer o que quiser sem maiores explicações. Por mais que torçamos por Picard, temos que reconhecer que ele não só largou a Frota Estelar há uma década e meia, como também acabou de desancar sua organização em TV ao vivo. Sua frustração é visível, mas, sob vários aspectos, absolutamente devida.

Por outro lado, o preâmbulo que reconstrói a revolta dos sintéticos em Marte pareceu-me gratuita e desnecessária nesse momento da série, a não ser que, nos próximos episódios, continuemos a ser brindados com os detalhes do que ocorreu. Igualmente, a revelação de que o protagonista sofre de alguma doença terminal – e, pior, que ela teria sido responsável por sua explosão durante a entrevista – soou-me como artifício dramático desesperado para criar urgência em uma história que não parece precisar de mais esse elemento complicador. 

É claro que a confirmação da existência de um complô profundo que envolve a Federação e os romulanos (mais um alienígena fisicamente alterado para se passar por humano como em Discovery!) funciona como o grande chamariz do episódio, mas mesmo isso vem talvez rapidamente demais, sem que haja tempo algum para que o espectador mature o bombardeio de informações em sua cabeça. Seja como for, por mais batida que essa escolha possa parecer, há, assim como no caso dos Borg, um bom potencial a ser explorado aí.

Agora é esperar que o próximo episódio termine de vez com a armação da história da temporada, abrindo espaço para que o nível de didatismo seja reduzido, equilibrando-o com ação, mas não ação na base da pancadaria incessante, pois disso já temos demais por aí, e sim ação digna de um capitão octogenário saindo de sua aposentadoria. Star Trek: Picard tem tudo para ser memorável, mas, para isso, precisa saber deixar sua história fluir de verdade.

Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends (EUA, 30 de janeiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Akiva Goldsman
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis
Duração: 44 min.

Crítica | Mr. Mercedes- 1ª Temporada

plano crítico mr. mercedes 1ª temporada plano crítico série

Quem conhece o trabalho de Stephen King, ou está familiarizado com as adaptações de sua obra; sabe o quanto a luta entre o bem e o mal é um tema recorrente dos escritos do autor. Mr. Mercedes, série baseada no romance homônimo de King, estreou em 2017 no canal Audience trazendo esse conflito dicotômico clássico inserido dentro de uma narrativa policial sem os típicos elementos sobrenaturais geralmente associados ao autor, mas com a interessante provocação sobre a co-dependência dos dois lados desta batalha. Mr. Mercedes tem como ponto de partida um crime brutal, onde um maníaco dirigindo um Mercedes roubado atropela um grupo de pessoas que esperava a abertura de uma feira de empregos, deixando dezesseis mortos e ferindo dezenas. Dois anos depois, o assassino batizado pela mídia como “Mr. Mercedes” nunca foi encontrado, e o detetive responsável pelo caso, Bill Hodges (Brendan Gleeson) está aposentado, assombrado pelo crime que não conseguiu resolver. Mas ao começar a receber emails provocadores do assassino, Bill sai da apatia em que mergulhou para levar o maníaco à justiça, custe o que custar.

Comandada por David E. Kelly, a série, ao longo dos dez episódios desta 1ª temporada, está mais preocupada em estabelecer os paralelos e diferenças entre Hodges e o vilão Brady Hartsfield (Harry Treadaway) do que no jogo de gato e rato que se estabelece entre eles. Quando a trama efetivamente começa, após o chocante prólogo que mostra o massacre da feira de empregos (filmado de forma crua por Jack Bender, que dirige a maioria dos episódios), encontramos Bill e Brady vivendo existências morosas e rotineiras que parece destruí-los. O ex-policial passa os dias bebendo e assistindo TV, enquanto Brady está preso em um trabalho frustrante em uma loja de eletrônicos — e em uma relação incestuosa com a mãe alcoólatra Deborah (Kelly Lynch) com quem mora. Os únicos momentos em que Brady se sente vivo é quando está em seu porão com seus computadores ou disfarçado de sorveteiro para espreitar os seus inimigos. É irônico, portanto, que ao tentar conduzir Hodges ao suicídio com as suas provocações virtuais, como havia feito com a dona do Mercedes, Olivia (Ann Cusack), Brady acaba justamente demovendo o detetive da ideia.

O conflito dá o sopro de vida que esses dois homens precisavam, mas a forma como interagem com aqueles à sua volta é o que define a real natureza dos dois protagonistas, já que ambos partem de arquétipos que são humanizados por seus coadjuvantes. Entre estes coadjuvantes estão Ida Silver (Holland Taylor), a sábia e charmosa vizinha de Bill, Jerome Robinson (Jharrel Jerome), um jovem hacker amador que corta a grama de Bill para completar a renda e que acaba envolvido na investigação e Janey Patterson (Mary-Louise Parker), irmã de Olivia, que contrata Hodges como detetive particular e acaba se envolvendo com ele. Destaco ainda as personagens que se tornaram as favoritas dos fãs (e grandes ladras de cena), Holly Gibney (Justine Lupe), uma jovem autista e sobrinha de Janey, que tem importância vital na caça ao Mr. Mercedes, e com quem o detetive desenvolve uma relação paternal, e Lou Linklater (Breeda Wool), a sarcástica colega de trabalho de Brady, que sofre constantes ataques homofóbicos e é a pessoa mais próxima que o psicopata tem de uma amiga.

Claro, de nada adiantaria ótimos coadjuvantes se não tivéssemos dois bons atores nos papéis principais, mas felizmente, Gleeson e Treadaway são perfeitos como Hodges e Brady. Gleeson dá á Bill Hodges a aspereza e mau humor típicos de um homem que sente que seu tempo passou, embora à medida em que a trama avança, ele revele um lado mais tenro e gentil do detetive, que começa a se abrir mais para as pessoas ao seu redor, mas ainda mantendo um certo ar ranzinza que é o grande charme do personagem. Treadaway, por sua vez (substituindo o falecido Anton Yelchin), consegue fazer com que o público veja Brady Hartsfield não apenas como um maníaco homicida raso, ao explorar as fragilidades e contradições da personalidade do vilão, especialmente no que diz respeito à sua dinâmica de domínio/dominação com a mãe. Percebemos em alguns momentos que Brady até tenta lutar contra a sua psicose, o que leva inclusive a algumas sequências de humor ácido hilárias, como aquela onde o rapaz imagina matar todos os presentes em um almoço de negócios. Mas embora humanize o seu vilão, os roteiros nunca permitem que esqueçamos a sua real natureza monstruosa e mesquinha, o que é apoiado pela atuação de Treadaway, que só retrata Brady realmente à vontade quando este dá vazão aos seus piores impulsos, que destroem e deformam qualquer sentimento positivo que possa ter..

A trilha sonora é um verdadeiro personagem dentro de Mr. Mercedes, com Punk Rock, Jazz e Blues. A seleção musical não só é excelente, como também ilustra de forma perfeita os vários momentos dramáticos vividos por seus personagens, como It’s Not Too Late, de T-Bone Burnett, que toca na abertura e conversa com os principais conflitos de Bill Hodges na temporada, ou Hi Ho Nobody’s Home de David Baerwald, que destaca um momento de grande transformação para o vilão. Por ser uma série conduzida muito mais por seus personagens do que pela própria trama, Mr. Mercedes não tem pressa de estabelecer os seus conflitos, construindo com calma os pontos de virada da narrativa (especialmente em seus 5 primeiros episódios), o que pode desagradar os mais impacientes. Ainda que a série compense a falta de ação com um bom desenvolvimento psicológico de seus personagens, não se pode negar a existência de uma pequena barriga em sua primeira etapa, já que personagens como Holly, por exemplo, poderia ter sido introduzidos um pouco mais cedo para dar um pouco mais de credibilidade à sua relação com Bill (que ainda assim, é muito bem construída). A metade final da temporada já é um pouco mais acelerada, ao intensificar o jogo de gato e rato entre Hodges e Brady e tornar este conflito mais pessoal à medida em que os corpos começam a se acumular, dando o tempo necessário para que os personagens possam reagir e absorver a morte de outros, montando o palco para o ato final.

Mr. Mercedes entrega uma 1ª Temporada sólida, que ao apresentar um protagonista bastante humano — conquistando a nossa torcida — e um vilão sinistro e carismático, aposta na dinâmica quase simbiótica entre os dois, que só conseguem ser a melhor (e pior) versão de si mesmos devido ao conflito que travam. Contando com bons roteiros, uma direção segura que trabalha com competência a tensão psicológica da narrativa e suas passagens muitas vezes macabras; uma trilha sonora brilhante, um elenco coadjuvante afiado e protagonistas com total domínio sobre os seus personagens, a estreia da série de David E. Kelly é uma das grandes adaptações de Stephen King. Sendo Mr. Mercedes o primeiro livro de uma trilogia, não foi surpresa que a temporada se encerre deixando ganchos potenciais para temporadas futuras, que com a boa recepção da série não só aconteceriam, como também permitiriam aos criadores tomarem maiores liberdades com o material original. Mas essa é outra história.

Mr. Mercedes- 1ª Temporada – EUA, 09 de Agosto de 2017 a 11 de Outubro de 2017.
Criadores: David E. Kelly e Jack Bender
Showrunner: David E. Kelly
Direção: Jack Bender, John Coles, Laura Innes, Kevin Hooks
Roteiros: David E. Kelly, A.M Holmes, Dennis Lehane, Bryan Goluboff (Baseados em romance de Stephen King)
Elenco: Brendan Gleeson, Harry Treadaway, Kelly Lynch, Jharrel Jerome, Scott Lawrence, Robert Stanton, Breeda Wool, Justine Lupe, Mary Louise Parker, Holland Taylor, Ann Cusack, Katharine Houghton, Nancy Travis, Maddie Hasson
Duração: 10 episódios de aproximadamente 50 Min.

Crítica | The Crown – 3ª Temporada

  • Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Os mais de dois anos de intervalo entre as segunda e terceira temporadas de The Crown podem ter sido resultado de exigências inerentes à produção, mas esse distanciamento ajudou na absorção de uma das mais ousadas escolhas recentes da televisão e que, acho, jamais aconteceu na mesma magnitude e circunstâncias: a troca integral do elenco principal. Saem Claire Foy, Matt Smith e Vanessa Kirby como, respectivamente, a Rainha Elizabeth II, o Duque de Edimburgo e a Princesa Margaret, e entram Olivia Colman, Tobias Menzies e Helena Bonham Carter nesses inesquecíveis papeis.

Tendo sacramentado o elenco original, a substituição do elenco se dá por insistência do showrunner Peter Morgan para tornar o envelhecimento dos personagens algo mais natural, sem precisar recorrer a maquiagem ou próteses, com a “troca” ocorrendo logo nos primeiros segundos de projeção de maneira extremamente elegante e reverencial, por intermédio da alteração da efígie da rainha nos selos de seu reino. Mesmo considerando que seria possível a trinca original continuar por pelo menos mais essa temporada, já que suas contrapartidas da realeza têm 34 (Margaret), 41 (Elizabeth) e 43 anos em 1964, quando a história começa, creio que essa foi uma escolha mais do que acertada já que os eventos que vemos desenrolar na tela vão até 1977, no jubileu de prata da rainha, e, por melhor que fosse o trabalho de maquiagem, Foy, com 35 anos, teria sua excelente performance habitual potencialmente maculada. Além disso, Colman, com 45 anos, tem um rosto consideravelmente mais maduro e sério, características essenciais para a forma como essa temporada aborda a rainha, agora uma mulher perfeitamente adequada ao peso da coroa que carrega, tendo domado todos os seus sentimentos a tal ponto que, na maioria das vezes, ela esquece que, lá no fundo, ainda é humana e pode se dar ao luxo de deixar-se afetar pelos eventos ao seu redor, sejam eles felizes ou tristes.

E esse é realmente o triunfo da temporada: fazer a protagonista trafegar no fio da navalha, em um delicado trabalho que a coloca muitas vezes sob uma luz ruim, capaz de transformá-la em vilã aos olhos do público. Colman, que é uma das grandes atrizes britânicas de sua geração, entrega uma performance magnificamente fria nas primeiras camadas, mas sempre deixando que semblantes de calor e humanidade escapem aqui e ali por um olhar, por um breve tremor na boca ou por sua postura, algo que é intensificado cirurgicamente pelos magníficos trabalhos dos quatro diretores que se encarregaram, neste ano, de trazer a trama monárquica à vida. Em termos de fisicalidade porém, quem mais consegue se aproximar de sua contrapartida da vida real logo no começo da temporada é Tobias Menzies e seu Philip, um personagem consideravelmente mais abertamente sensível, ainda que sempre resoluto em suas opiniões sobre a quase completa santidade dos rituais da monarquia. Helena Bonham Carter, por seu turno, é a que deixou o maior abismo na forma como vive sua personagem se comparada com sua antecessora no papel, algo que é proposital dado o crescimento exponencial da amargura de Margo tanto com seu agora marido Antony Armstrong-Jones (Ben Daniels substituindo Matthew Goode) quanto com sua família, mas sem nunca deixar de ressaltar os traços do amor que sente por eles, por mais incongruente que isso possa parecer.

Outra grande diferença dessa temporada em relação às demais é seu caráter mais fortemente episódico, ou seja, com cada capítulo abordando uma história específica com começo, meio e fim que somente em pouquíssimos casos ganham interconexões. Essa foi mais uma escolha ousada de Peter Morgan, pois ele arriscou que sua criação perdesse a sensação de unicidade, passando a ser uma coleção de anedotas sobre a vida da realeza britânica no século XX. No entanto, novamente vê-se o cuidadoso planejamento do showrunner e seu talento para contar uma história. Afinal, não é todo mundo que é capaz de escrever o roteiro cinematográfico de Frost/Nixon, composto, basicamente, de uma longa entrevista real, e manter a atenção do espectador. O que ele faz é escolher um tema central que não necessariamente é trabalhado em primeiro plano o tempo todo, mas que fica permanentemente nas entrelinhas, com a escolha, aqui, sendo o enfraquecimento da percepção favorável da monarquia pelo povo britânico, algo que reflete a realidade dos fatos históricos, especialmente com a vitória do Partido Trabalhista logo no começo da temporada, quebrando a hegemonia do Partido Conservador (os Tories) e marcando a entrada do Primeiro Ministro Harold Wilson (Jason Watkins), de tendências socialistas que são pontuadas por vários elementos do primeiro episódio, como a brevíssima participação de John Lithgow novamente como Winston Churchill e a paranoia relacionada com uma infiltração da KGB no governo britânico.

Ao longo dos episódios, acurácia história e liberdade ficcional se misturam em uma obra superlativa, que nasceu para exigir as pontuações mais hiperbólicas do público e dos críticos. Da mesma maneira que a crise econômica britânica é trabalhada genialmente em Margaretologia, um episódio leve, com uma perfeita participação de Clancy Brown (o Kurgan, de Highlander) como o presidente americano Lyndon Johnson, com consequências nefastas pessoalmente para a princesa Margo, a temporada é capaz de lidar de forma sombria com uma infelizmente famosa tragédia ocorrida em Aberfan (também título do episódio), uma cidade mineradora, em 1966, demonstrando o quão difícil e injusto é o papel de Rainha da Inglaterra e o quanto Elizabeth II está conformada nessa sua fase da vida, pagando um preço caríssimo por isso.

Eu certamente poderia escrever sem parar sobre cada um dos episódios da temporada, mas, prezando a brevidade, não o farei. No entanto, não posso deixar de destacar duas novas adições ao elenco que trouxeram não só uma qualidade dramatúrgica ainda mais assombrosa à série, quanto um sabor melancólico, mas belíssimo às histórias, já que esses novos personagens são uns dos poucos fora do pequeno núcleo principal que têm narrativa continuada. A primeira adição é a de Jane Lapotaire como a Princesa Alice, mãe de Philip que, no terceiro episódio – Bubbikins – enternece corações ao ser trazida para o palácio real em razão do golpe de estado em andamento na Grécia, onde vive como freira. Sua presença é inteligentemente usada para dar ainda mais estofo ao marido da rainha, colocando-o em dúvida sobre sua função, sobre seus feitos, algo que é notadamente explorado durante a chegada do homem à lua que vemos sob seu prisma em Poeira Lunar, o sétimo episódio.

A segunda adição é a de Josh O’Connor como o Príncipe Charles, filho mais velho da rainha e herdeiro do trono. Não só o jovem ator é fisicamente muito parecido à sua contrapartida viva, como sua atuação é um primor que desmistifica aquela impressão midiática que certamente a maioria das pessoas tem sobre o príncipe. Aqui, o que vemos é um rapaz inocente, sensível, honesto e, sobretudo, amoroso, que não entende ainda o que se espera dele um dia e que, por isso, não consegue compreender seu lugar no mundo. O episódio que o introduz, Tywysog Cymru, o sexto, é um primor de construção de personalidade, usando sua coroação como Príncipe de Gales para relativizá-lo completamente em meio ao sentimento fortemente nacionalista do País de Gales, região britânica com costumes e, principalmente, língua próprias. E essa delicadeza na retratação de Charles continua e é acentuada em Na Corda Bamba, o oitavo episódio, que estabelece o começo de seu relacionamento com Camilla Shand, vivida por Emerald Fennell, e que chega a seu clímax em Imbróglio, o capítulo seguinte que também retorna ao tema da mineração, só que sob outro enfoque e que, para quem conhece a história verdadeira, deixa pontas soltas para a próxima temporada que verá a chegada de Margaret Thatcher como Primeira Ministra.

Não tenho nenhuma dúvida em afirmar desde já – ainda na metade do projeto de Peter Morgan – que The Crown é uma das melhores e mais ricas séries da década, capaz de transformar assuntos potencialmente áridos em uma sinfonia narrativa quase sem par que assombra por ter um elenco soberbo, um design de produção de fazer o queixo cair e por nos fazer rever o século XX a partir de um olhar elegante e sublime. E isso fica ainda mais incrível quando mais uma vez lembramos que estamos falando de uma obra que não teve cerimônia em trocar todo o seu elenco principal de um ano para o outro.

The Crown – 3ª Temporada (EUA/Reino Unido – 17 de dezembro de 2019)
Criação: Peter Morgan
Direção: Benjamin Caron, Christian Schwochow, Jessica Hobbs, Sam Donovan
Roteiro: Peter Morgan, James Graham, David Hancock
Elenco: Olivia Colman, Tobias Menzies, Helena Bonham Carter, Marion Bailey, Charles Dance, John Lithgow, Derek Jacobi, Geraldine Chaplin, Ben Daniels, Jason Watkins, Erin Doherty, Jane Lapotaire, Josh O’Connor, Michael Maloney, Emerald Fennell, Andrew Buchan, Finn Elliot, Clancy Brown, Mark Lewis Jones, Tim McMullan, Harry Treadaway
Duração: 481 min. (10 episódios no total)