Gina Mascetti

Crítica | Abismo de um Sonho

Abismo de um Sonho marca a primeira vez que Federico Fellini dirigiu um filme sozinho, já que sua estreia atrás das câmeras se deu em regime de co-direção em Mulheres e Luzes, ao lado de Alberto Lattuada. Só que, mais importante do que isso, o filme marca a primeira vez que Fellini aborda um tema recorrente em sua maravilhosa filmografia: a oposição da realidade e sonho.

A história é simples: um casal recém-casado vai passar uma e curta e atarefada lua-de-mel em Roma. Ivan Cavalli (Leopoldo Trieste) quer apresentar sua esposa à sua respeitada família. Wanda Cavalli (Brunella Bovo), por sua vez, tem um sonho: conhecer pessoalmente o Xeque Branco (que é inclusive o título original do filme) ou, mais precisamente o “ator” de fotonovelas (aqueles que forem muito novos, pesquisem para descobrir o que é essa curiosa forma de arte) Fernando Rivoli (Alberto Sordi). Quando Wanda sai de fininho para ir até o “estúdio” onde as fotonovelas são escritas, ela se envolve em uma sequência de acontecimentos que a impede de voltar para o marido que, claro, se desespera e tenta a todo custo impedir que sua família descubra sua desgraça.

Estabelecida a situação acima em não mais do que dez minutos, Fellini, então, biparte seu filme. De um lado, a realidade. Nela, vemos Ivan tentando, a todo custo, descobrir onde é que foi parar sua esposa ao mesmo tempo em que dribla a atenção de sua família dizendo que ela adoecera e ficara no quarto. Usando um bigode e um sobretudo claro, Leopoldo Trieste vive um Ivan que é uma espécie de antecessor do Inspetor Jacques Clouseau, magnífico personagem que seria criado por Peter Sellers em 1963: atrapalhado, de olhos esbugalhados e um tanto inocente.

Do outro lado, o sonho. Não se enganem, pois não é sonho propriamente dito, com imagens oníricas do subconsciente, mas sim a realidade vista pelos olhos sonhadores de Wanda que vai atrás de sua obsessão heroica, o tal Xeque Branco. Em sua ingenuidade, ela não consegue verdadeiramente separar o personagem da pessoa, especialmente depois que seu primeiro e surreal encontro com o ator se dá no meio do mato (em Óstia, litoral próximo a Roma) com o Xeque, todo paramentado, balançando em um bizarro balanço. Nesse momento, Wanda deixa de ser a esposa de Ivan e mergulha com aqueles olhinhos brilhantes e inocentes no seu mundo de fotonovelas, em seu mundinho particular de sonhos onde tudo pode ser realidade.

A contraposição da realidade com sonho ou com o “ideal imaginado” é belíssima no filme, definitivamente retirando-o do lugar comum. Além disso, Fellini monta sua obra de forma que as narrativas sejam simultâneas, criando uma dinâmica muito interessante e impedindo que as sequências com Ivan ou com Wanda fiquem longas demais, potencialmente cansando o espectador.

O uso de música “circense” também pontua o filme de Fellini, marcando, também, sua primeira parceria com o grande Nino Rota, parceira essa que se manteria por muitos e muitos anos. A música de Rota é especialmente importante nas sequências de sonho de Wanda, ajudando no ar de “ideal da mente” que Fellini tenta criar, trazendo até um camelo para o set de filmagens na praia de Óstia. Aliás, toda a sequência na praia merece destaque especial pelo trabalho de câmera de Fellini com Arturo Gallea, diretor de fotografia. Os dois conseguem captar incríveis detalhes em uma conturbada e populosa filmagem em locação que enlouqueceria qualquer um. E o momento em que a fotonovela é efetivamente fotografada é de arrancar fartas risadas.

Abismo de um Sonho também conta com uma ponta de Giulietta Masina, esposa de Fellini e que já havia trabalhado em Mulheres e Luzes. O interessante é que, aqui, ela faz o papel de uma prostituta chamada Cabíria, papel esse que ela viria a reprisar e expandir, também sob a batuta do marido, em 1957, no estupendo Noites de Cabíria.

Abismo de um Sonho merece ser visto, revisto e estudado como uma espécie de casulo em que o trabalho imagético de Fellini se desenvolve, para definitivamente transformá-lo em um dos maiores diretores do Cinema. Uma pequena joia bruta que já revela o começo de sua lapidação.

  • Crítica originalmente publicada em 09 de maio de 2013. Revisada para republicação em 27/01/2020, como parte da versão definitiva do Especial Federico Fellini aqui no Plano Crítico.

Abismo de um Sonho (Lo Sceicco Bianco, Itália – 1952)
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano (baseado em história de Michelangelo Antonioni, Federico Fellini e Tullio Pinelli)
Elenco: Alberto Sordi, Brunella Bovo, Leopoldo Trieste, Giulietta Masina, Ernesto Almirante, Lilia Landi, Fanny Marchiò, Gina Mascetti, Jole Silvani, Enzo Maggio
Duração: 86 min.

Crítica | Mulheres e Luzes

Quando foi para trás das câmeras para fazer Mulheres e Luzes, seu primeiro filme, Federico Fellini não era um iniciante na arte do Cinema. Já havia trabalhado como roteirista de programas de rádio e de gags para filmes, envolveu-se com o neorrealista Roberto Rossellini, chegando a ser indicado ao Oscar de melhor roteiro em 1947, juntamente com Sergio Amidei e outros, por seu trabalho em Roma, Cidade Aberta.

Seu trabalho com Rossellini acabou levando-o a forjar laços de amizade com Alberto Lattuada, com quem escreveu Sem Piedade, dirigido por este último, e esses laços levaram os dois a co-dirigirem Mulheres e Luzes. Apesar do fracasso comercial que foi o filme, ele é um ótimo começo de carreira e já delinearia muito bem o trabalho de Fellini nas décadas seguintes.

Como o título original (Luci del Varietà) deixa claro , a fita versa sobre o teatro de variedades, algo muito próximo, assim como o circo, ao coração do diretor italiano. E seu carinho por esses artistas mambembes que reflete, de certa forma, a vida na Itália não muito depois da Segunda Guerra Mundial, com muita pobreza e tentativas de reconstrução, fica evidente a cada fotograma de Mulheres e Luzes, uma pequena grande obra desse inesquecível diretor.

A história é enganosamente simples: um grupo de artistas vai de cidade em cidade fazendo seu pequeno show de variedades. Em uma dessas viagens, a estonteante Liliana “Lily” Antonelli (Carla Del Poggio) acaba se juntando ao grupo ao enfeitiçar o diretor Checco Dal Monte (Peppino De Filippo). Ela mal sabe atuar e dançar, mas sua forma física acaba atraindo clientela e, claro, gerando rusgas internas no grupo, com muitos dos artistas sentindo ciúmes da moça, especialmente Melina, namorada de Checco, vivida pela esposa de Fellini, Giulietta Masina.

A tentativa desenfreada de Lily de subir na carreira pode ser vista de duas maneiras: um ato feito de caso pensado, sem que ela se importe em que calos pisa ou como algo que ocorre em virtude sim de sua vontade em crescer, mas aliado à sua inocência. As duas interpretações são plenamente possíveis, ainda que a primeira seja a mais fácil e direta. No entanto, a atuação de Del Poggio carrega um ar de dubiedade, de deslumbramento, que dá uma cor especial ao filme e gera a dubiedade que apontei.

Checco é que é o incorrigível e unidimensional nessa história toda. Ele corre atrás do “rabo de saia” disponível e, quando Lily entra no circuito, ele só tem olhos para ela, esquecendo-se completamente de Melina, que, como fica claro, é absolutamente devotada a Checco. E tanto Peppino De Fillipo quanto Giulietta Masina estão excelentes na película, com especial destaque para Masina que, em seu primeiro papel, de certa maneira já cria o molde segundo o qual forjaria seus futuros personagens.

A narrativa é objetiva, mas carrega muitas nuances e a fotografia de Otello Martelli (que viria a se tornar um parceiro de Fellini) em preto-e-branco, trabalhando com muita luz natural nos locais abertos para transparecer aridez, abandono e luzes mais mudas e discretas para filmagens em locais fechados, passando a impressão de pobreza, umidade e desleixo completo, que acaba contrastando com a genuína alegria da trupe de atores em atuar sob quaisquer condições. Eles vivem para aquilo e o ambiente basicamente não interessa desde que eles tenham uns aos outros. E esse senso de união, de amizade é o que é quebrado pela luminosa presença de Lily, apesar dos esforços de Melina em fazer de tudo para manter o grupo coeso, mesmo que para isso ela tenha que sacrificar sua própria felicidade.

Fellini voltaria um sem número de vezes ao meio artístico para tirar inspiração para seus filmes. Mulheres e Luzes foi a obra que abriu o magnífico e prolífico caminho do diretor que influenciaria diversos outros.

  • Crítica originalmente publicada em 04 de maio de 2013. Revisada para republicação em 20/01/2020, como parte da versão definitiva do Especial Federico Fellini aqui no Plano Crítico.

Mulheres e Luzes (Luci del Varietà, Itália – 1950)
Direção: Federico Fellini, Alberto Lattuada
Roteiro: Federico Fellini, Alberto Lattuada, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano (não creditado)
Elenco: Peppino De Filippo, Carla Del Poggio, Giulietta Masina, John Kitzmiller, Dante Maggio, Checco Durante, Gina Mascetti, Giulio Calì, Silvio Bagolini, Giacomo Furia, Mario De Angelis, Vanja Orico, Enrico Piergentili, Renato Malavasi, Joseph Falletta, Folco Lulli
Duração: 97 min.