Giallo

Crítica | Yellow (2012)

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Antes de Yellow (2012), Ryan Haysom dirigiu outros dois curtas-metragens (LV 16 e Feral, obras de 2008 e 2009, respectivamente), tendo também trabalhado na equipe assistente de algumas grandes produções, como V de Vingança e Nem Tudo é o Que Parece. Com isso em mente, é interessante notar que temos aqui um um integrante de uma grande equipe de produção assumindo a cadeira de diretor, numa produção pequena, mas ambiciosa.

Desde o título capturamos a homenagem do cineasta ao giallo, gênero que ele procura representar de maneira bastante referencial, com um tipo específico de assassino vestindo luvas prestas de couro (em dinâmica similar à estreia de Dario Argento, em O Pássaro das Plumas de Cristal) e um tratamento com pouquíssimas falas e pesado uso da trilha sonora, como é mais frequente encontrar nos gialli de baixo orçamento e assinados por novos diretores nos anos 2000, sendo as referências mais bem acabadas Amer (2009) e A Estranha Cor das Lágrimas do seu Corpo (2013).

Escrito pelo próprio diretor, ao lado de Jon Britt, o roteiro aposta nas ações diretas, mostrando as mortes acontecendo e contextualizando de maneira insatisfatória a presença do tal serial killer nas ruas. O drama do duplo, a identidade de um assassino e a ocultação de outro, aliado um drama psicológico intenso e uma relação de poder completada pelo assassinato cruel de mulheres formam a melhor parte da obra, mas quase que unicamente ancorado na imagem. A trilha sonora é um bom complemento, mas não se destaca por um uso escrupuloso ou na tentativa de se criar algum tipo de sentimento mais bem modulado no espectador.

Já as mortes ganham uma boa representação visual, a despeito da soltura delas em relação ao todo. O curta acaba parecendo um conjunto de esquetes com ótimos momentos de tensão e violência (referenciando uma clássica cena de Um Cão Andaluz e tudo), mas a costura principal dessa jornada de sangue e gritos fica no ar, sem muito sentido e com um encerramento aberto que não beneficia em nada a obra, já afetada negativamente pelo desenvolvimento solto. Vale para conferir um dos poucos exemplares dos gialli nos anos 2010, mas apesar dos bons flertes, não é um curta que traz a glória dos melhores exemplares do gênero. Mesmo considerando o módico formato em questão.

Yellow (UK, Alemanha, 2012)
Direção: Ryan Haysom
Roteiro: Ryan Haysom, Jon Britt
Elenco: Stephen M. Gilbert, Hester Arden, Rocco Menzel
Duração: 26 min.

Crítica | Os Passos (1975)

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Em arte, existem inúmeras formas de “ser diferente“. Quando falamos de cinema, especialmente de cinema de gênero, a diferenciação de um artista para outro se dá quando observamos as escolhas de cada um e a forma como obedeceram/desobedeceram, manipularam e criaram em cima das regras de uma determinada cartilha. E sim, há um grande número de caminhos possíveis para se tomar nesse cenário. Peguemos o caso do giallo, por exemplo. Seu próprio expositor de pedra angular no cinema, Mario Bava, foi um dos que mais gostavam de mexer nas estruturas desses terrores à italiana, e dele podemos citar como bom representante de mudanças + experimentalismo emergencial o longa que dirigiu em 1970: Cinco Bonecas Para a Lua de Agosto.

É claro que Bava não era o único que gostava de mexer nas regras e ingredientes do giallo, fosse na forma, fosse no conteúdo, especialmente no desenvolvimento deste — como vemos, por exemplo, em Premonição, de Lucio Fulci, só para citar um filme de outro Mestre com essa abordagem “fora do comum“. Aqui em Os Passos (1975), um exercício semelhante é realizado no enredo. O resumo já poderia chocar: aqui, há apenas uma morte explícita, executada quase que por autodefesa ou por acidente (embora não seja nenhuma das duas coisas).

Último longa de ficção e segundo giallo dirigido por Luigi Bazzoni — diretor de uma curta, mas marcante carreira — Le Orme nos faz acompanhar a tradutora Alice Cespi/Campos (Florinda Bolkan, em ótima atuação) cuja vida passa por uma reviravolta. Ao acordar, certo dia, ela se dá conta de que “perdeu” o dia anterior (me veio à mente a clássica história Ontem Foi Segunda-Feira, de Theodore Sturgeon) e as lembranças que ela tem misturam-se com um terrível pesadelo sobre um filme que ela viu na infância, o angustiante Footprints on the Moon, que mostrava astronautas largados na superfície da Lua para ver quando tempo resistiam ali, tudo parte de um “experimento científico” levado a cabo por um cientista louco, interpretado por Klaus Kinski.

Baseado em Las Huellas, de Mario Fanelli, o filme explora uma condição de desequilíbrio psicológico que não é identificado como tal pela pessoa e gera toda uma situação que termina por agravar ainda mais o quadro. A confusão, o isolamento e a fragilidade também entram em cena, já que Alice vai pouco a pouco encontrando pessoas que parecem tê-la visto na pequena cidade de Garma (Turquia), local onde ela não se lembrava de ter estado. Bazzoni dirige de maneira elegante os passos de sua personagem, progressivamente mudando de comportamento, tornando-se mais histérica e mostrando sinais de violência. As cenas em que vemos Florinda Bolkan fugindo de alguma coisa ou tentando entender, em desespero, o que parece ser uma conspiração geral em torno dela (lembra um pouco A Breve Noite das Bonecas de Vidro, não?) são muito bem filmadas, possuem um excelente ritmo e uma atmosfera exemplar (criando verdadeiros blocos de cor — destaque para o azul — a cada mudança de emoções da protagonista), gerada pela fotografia de Vittorio Storaro, primo do diretor Luigi Bazzoni.

Há um quê de existencial na forma como o texto guia as descobertas de Alice, mas a atenção para esse lado mais íntimo de sua existência não é explorada. O enredo foca nos elementos externos que a afetam diretamente, já que ela não tem condições de olhar para si, e acaba atribuindo a si própria apenas aquilo que as pessoas dizem dela. Há algumas poucas cenas onde a vemos lutar contra esse impulso, chegando ao final não com uma busca íntima para se manter sã, mas com uma fuga desesperada de um perigo inexistente. Essa falta e os desajustas na apresentação da trama central, que é intricada demais para ser abandonada logo em seguida, são lombadas fáceis de se perdoar aqui. Alguns espectadores podem até achar “demasiado” o uso dos astronautas como representação da completa quebra psicológica da personagem (infelizmente colocaram aqueles letreiros no final, então o filme perdeu a sua excelente capacidade ambígua), mas a presença deles justifica o que vem a seguir. É um ponto sem volta para a perturbada Alice. Uma mulher numa teia de imensas ameaças que, no final das contas, tinha como maior perigo contra si a sua própria mente.

Os Passos (Le Orme) — Itália, Turquia, 1975
Direção: Luigi Bazzoni, Mario Fanelli (não creditado)
Roteiro: Luigi Bazzoni, Mario Fanelli (baseado na obra de Mario Fanelli)
Elenco: Florinda Bolkan, Peter McEnery, Nicoletta Elmi, Caterina Boratto, John Karlsen, Esmeralda Ruspoli, Evelyn Stewart, Miriam Acevedo, Rosita Torosh, Luigi Antonio Guerra, Klaus Kinski, Lila Kedrova, Feridun Çölgeçen, Bruno Degni, Franco Magno, Lidia Zanussi, Luciano Zanussi
Duração: 96 min.

Crítica | Premonição (1977)

PLANO CRÍTICO PREMONIÇÃO 1970 GIALLO

Terceiro e último giallo de Lucio Fulci nos anos 1970, vindo após os icônicos Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (1971) e O Segredo do Bosque dos Sonhos (1972), Premonição traz uma abordagem inovadora para o gênero, distanciando-se do gore e até de outras convenções que esperamos encontrar nos gialli, trabalhando mais o medo, o sangue, os assassinatos e os elementos psicológicos dentro de uma esfera parcialmente sobrenatural: o fato de Virginia Ducci (Jennifer O’Neill), a protagonista da história, ter a capacidade de ver tragédias que estão acontecendo à distância, ou que ainda acontecerão.

Há uma elegância e um tratamento bem mais sério para o tema desta obra do que em qualquer outro giallo do diretor, linha de abordagem necessária para uma trama cujo foco não são os terríveis eventos que a caracterizam como um “terror à italiana“, mas o processo percorrido até que se chegue a esses terríveis eventos. O espectador não é distanciado do tema uma única vez, mas a jornada meio paranoica de Virginia e sua capacidade de premonição colocada à prova tomam conta da saga, com o roteiro aproveitando o possível “sobrenatural” para apresentar o detetive amador da vez e para chegar à resolução do caso, montando o belo quebra-cabeça de pistas que envolvem pinturas, objetos, cores e pessoas numa visão aparentemente sem sentido. E é aí que reside a melhor sacada do roteiro de Fulci, Gianviti e Sacchetti: o trabalho inteligente com a percepção do tempo.

Valendo-se da aplaudível direção de fotografia a cargo de Sergio Salvati (em sua terceira colaboração com Fulci), o diretor cria um estado permanente de atenção e de confusão sobre quando é que se passam as visões da protagonista, cada uma delas vindo à tona por um uso escrupuloso do zoom, enquadrando com perfeição os olhos da personagem e sempre vindo de um plano aberto e de um ângulo distinto, ressaltando o sentido ativado por gatilhos lúgubres — uma sensação igualmente incômoda para a costura do filme, porque se repete do início ao fim. Pouco a pouco, as premonições começam a fazer sentido e tanto criminosos quanto vítimas são colocados contra a parede.

Mesmo que possamos destacar o fato de que o roteiro não trabalha muito bem o núcleo policial (nem na investigação e nem no contato final com o parapsicólogo), fica difícil tirar de Premonição os louros de suas conquistas. Aqui, enxergamos a morte como um assunto mais complexo do que a mera exposição dos corpos mortos num gialli — o que também é bom, quando bem feito, mas é igualmente incrível quando um diretor burla essas convenções para criar algo diferente em cima, como Fulci fez neste filme ou como Bava fizera em Cinco Bonecas Para a Lua de Agosto, só para citar um outro exemplo famoso desse tipo de criação diferenciada no gênero. Um filme para se angustiar e sentir a estranha proximidade da morte anunciada.

Premonição (Sette Note in Nero) — Itália, 1977
Direção: Lucio Fulci
Roteiro: Lucio Fulci, Roberto Gianviti, Dardano Sacchetti
Elenco: Jennifer O’Neill, Gabriele Ferzetti, Marc Porel, Gianni Garko, Evelyn Stewart, Jenny Tamburi, Fabrizio Jovine, Riccardo Parisio Perrotti, Loredana Savelli, Salvatore Puntillo, Bruno Corazzari, Vito Passeri, Franco Angrisano, Veronica Michielini, Paolo Pacino
Duração: 95 min.

Crítica | Cinco Bonecas Para a Lua de Agosto

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A trajetória de produção para este filme foi uma verdadeira novela. Inicialmente oferecido e imediatamente recusado por Mario Bava, o longa tinha como roteiro um “quem matou?” clássico, descaradamente sugado de E Não Sobrou Nenhum, de Agatha Christie. A primeira recusa do Maestro do Macabro, no entanto, teve data de validade. Precisando de dinheiro, seu envolvimento com o projeto acabou sendo inevitável, e ele ainda precisou lidar com algo que, a curto prazo, fez com que odiasse o filme: a falta de tempo para preparação. Da assinatura do contrato para o início das filmagens, o diretor teve menos de uma semana para decupar, imaginar cenas a seu gosto, considerar exploração de personagens e trabalhar de uma outra maneira os assassinatos, como era sua intenção. E isso acabou tendo impacto na qualidade do filme.

Um ponto a ser considerado aqui é que desde a sua criação da pedra angular do giallo no cinema, com A Garota Que Sabia Demais, Bava vinha pouco a pouco se distanciando do formato “padrão” desse gênero, procurando renovar a maneira como ele guiava os assassinatos, a motivação/psicologia do assassino e a trajetória da investigação assim como da caça do criminoso às vítimas. Mantendo o seu sempre aplaudível apuro estético, o diretor nos trouxe experiências diferentes em Seis Mulheres Para o Assassino (1964) e O Alerta Vermelho da Loucura (1970), de modo que Cinco Bonecas acabou também sendo parte desse exercício de diferenciação do método, embora não tenha sido totalmente escolha do diretor e sim um caminho de direção que ele foi forçado a tomar por conta do pouco tempo que teve para conceber ideias de como deveria dirigir o texto de Mario Di Nardo.

O nível de isolamento dos personagens, vindo do romance da Rainha do Crime, é colocado de maneira interessante aqui. Um grupo de indivíduos formado por um professor e cientista, alguns milionários com atividades criminosas e suas respectivas esposas vão passar alguns dias de relaxamento em uma ilha, onde aparentemente só mora uma família, que no recorte de tempo da obra, está sem o casal; apenas a jovem filha se encontra na casa. Ela é conhecida e tem acesso à casa dos ricaços, uma espécie de companhia inocente à qual ninguém presta muita atenção. De cara existem alguns desconfortos de justificativas nesse premissa, mas como sabemos, isso não é raro nos gialli, e para ser sincero, o roteiro de Di Nardo está repleto de problemas parecidos, com personagens bastante rasas (embora com um nível de encantamento alto, conquistado através da direção de Bava, na forma de expor esses indivíduos na tela) e alguns problemas de adequação de tempo narrativo (passagem dos dias) e principalmente de explicação para uma certa visita de oficiais da marinha à ilha, procurando levá-los ao continente.

O interessante aqui, porém, é a forma como o diretor consegue trabalhar essas inconsistências e fazer algo que soa como verdadeira ironia ao gênero que verdadeira fundou: esconder os assassinatos. Quase todos os personagens aqui morrem e todos eles são assassinados fora do quadro. Para um giallo, com seus já esperados assassinatos operísticos, isso é uma mudança e tanto. No entanto há um bom motivo para o diretor tomar esse caminho. O roteiro não está muito preocupado em colocar o mistério em torno de uma figura icônica. A figura aqui age nas sombras, pode ser um dos visitantes da ilha (ou até a jovem que está sozinha enquanto os pais viajam), mas isso não importa, não é o foco. O que interessa aqui é o encadeamento dessas mortes e para onde isso nos irá levar. É aí que a ocultação dos assassinatos e certas piscadelas visuais e cheias de significados simbólicos ou metalinguísticos ganham terreno.

A manutenção de toda carne morta no freezer; a belíssima cena da briga entre os homens que acaba derrubando uma mesa cheia de globos de vidro (?), que descem as escadas e vão cair em uma banheira onde se encontra uma outra pessoa morta (minha cena favorita do filme); aquela brincadeira boba e muito representativa de um assassinato encenado em forma de ritual logo na sequência inicial, dentro da casa; e, por fim, a própria resolução do caso (parcialmente confusa e insatisfatória, mas ainda assim, representativa de um olhar diferente sobre o tema) dão a Cinco Bonecas Para a Lua de Agosto a sua alma diferente dos pares, mesmo tendo aspectos reconhecíveis do gênero e também de seu diretor. Um filme odiado pelo próprio Bava mas que carrega coisas boas demais para ser ignorado. Apesar de tudo, um bom filme.

Cinco Bonecas Para a Lua de Agosto (5 Bambole Per la Luna D’agosto) — Itália, 1970
Direção: Mario Bava
Roteiro: Mario di Nardo
Elenco: William Berger, Ira von Fürstenberg, Edwige Fenech, Howard Ross, Helena Ronee, Teodoro Corrà, Ely Galleani, Edith Meloni, Mauro Bosco, Maurice Poli
Duração: 82 min.

Crítica | O Monstro de Veneza

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Embora seja um pouco mais ajeitadinho que A Hiena de Londres, giallo da safra anterior na cronologia do gênero, O Monstro de Veneza (1965), dirigido por Dino Tavella, ainda mostra grande disparidade de qualidade em relação aos longas de Mario Bava que estabeleceram esse estilo de terror no cinema, a saber, A Garota Que Sabia Demais (1963) e Seis Mulheres Para o Assassino (1964). Ainda assim, trata-se de um filme com um valor que o longa de Gino Mangini não tinha: utilizar-se das recém-criadas regras do estilo para apresentar um assassino em série… mascarado (na verdade, uniformizado!).

Embora a maturidade desse tratamento para um psicopata mascarado só chegasse aos gialli em 1973, com Torso, de Sergio Martino, é interessantíssimo ver como neste filme de 1965 um recurso são antigo do cinema (uso de máscaras em filmes de terror) passa a ser refigurado, trabalhado em uma linha que não tinha por foco principal o susto, mas o estabelecimento de uma figura representativa de algo maior, de um vício e prazer de morte capaz de assustar a toda a cidade (aqui, como o título diz, a cidade de Veneza, relativamente bem aproveitada pelo diretor), carregar um método de assassinato em série, ter o foco em mulheres e se cercar de alguns adereços e memorável iconografia, algo que diretores mais competentes conseguiriam trabalhar com primazia.

Essa pequena atenção do diretor e do desenho de produção já pode ser vista na abertura, com uma bela e macabra representação do “covil” do assassino (as catacumbas da cidade), lugar que volta no final da obra, mostrando mais detalhes do espaço, onde também fica uma espécie de laboratório onde o monstro embalsama as mulheres bonitas que mata, a fim de colocá-las em sua coleção. Algo em comum entre as vítimas é o fato de serem muito novas (17 ou 18 anos) e que na verdade desaparecem sem deixar rastros. Mesmo que isso não seja um mistério para o espectador — porque vemos o “monstro” da cidade usar um equipamento de mergulho para ir dos canais ao seu covil — o roteiro trabalha bem o mistério em torno desses desaparecimentos, cabendo ao jornalista Andrea (Luigi Martocci) o papel de investigador amador.

O desenvolvimento da história, porém, não faz jus à boa ideia proposta. E nesse aspecto temos uma coleção de coisas ruins acontecendo: diálogos infantis ou simplesmente estúpidos, parte do elenco em performances duvidosas, montagem que não ajuda a manter um bom ritmo para a história, trilha sonora usada com grande exagero e mal arranjo de tramas paralelas, especialmente dos romances. Como eu disse no começo, porém, o filme tem um resultado final superior a um outro giallo daquele início dessas produções na Itália (o já citado A Hiena de Londres) e logra até nos impressionar em alguns momentos, especialmente através da direção de arte, retrabalhando um cenário que seria o típico barroco dos filmes de terror para a nova abordagem dessa temática no país. O fim ainda traz o mérito de não poupar perdas, o que é sempre bom de se ver em obras com uma grande ameaça que precisa ser controlada.

Il Mostro di Venezia (Itália, 1965)
Direção: Dino Tavella
Roteiro: Paolo Lombardo, Gian Battista Mussetto, Dino Tavella, Antonio Walter
Elenco: Maureen Brown, Luigi Martocci, Alcide Gazzotto, Alba Brotto, E. Caruso, Viki Castillo, Carlo Russo, Paola Vaccari, Maria Rosa Vizzina, Gaetano Dell’Era, Pietro Walter, Roberto Contero, Francesco Bagarin, Luciano Gasper, Anita Todesco, Antonio Grossi, Jack Judd
Duração: 83 min.

Crítica | A Hiena de Londres (La Jena di Londra)

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Sob o pseudônimo de Henry Wilson, o diretor Gino Mangini escreveu e dirigiu este seu primeiro longa de ficção, A Hiena de Londres, um giallo que, em sua reta final, procura fechar a saga do assassino fazendo relações com O Médico e o Monstro, embora não consiga muita coisa com isso após a questionável qualidade do desenvolvimento do enredo.

A história começa com uma narração em off, dando-nos o tempo e o espaço da ação: Londres, 19 de dezembro de 1883. Um serial killer chamado Martin Bauer, conhecido como “A Hiena”, enfim foi capturado e será finalmente enforcado. Durante três anos “A Hiena” aterrorizou a cidade de Londres, cometendo uma série de estrangulamentos, especialmente de mulheres. Ainda na introdução, sabemos que a execução acontece, mas, pouco tempo depois, o corpo de Bauer desaparece de seu túmulo. Está criado então o núcleo em torno do qual todo o enredo irá se desenvolver.

O maior problema do roteiro deste filme é a gigantesca confusão entre os blocos narrativos. Se por um lado nós aproveitamos a linha do assassino (e é interessante por se tratar de um giallo das primeiras safras — embora seja muitíssimo inferior aos filmes fundadores do gênero, A Garota Que Sabia Demais e Seis Mulheres Para o Assassino), tendo a câmera mostrando apenas os pés do indivíduo caminhando em direção às vítimas e depois apenas mostrando parcialmente o corpo, não conseguimos mergulhar na obra através de suas outras camadas. As relações entre os personagens, suas intenções e os próprios indivíduos se confundem na história, demorando bem mais do que deveria para que o espectador consiga colocar cada um em seu lugar.

Para piorar a situação, há uma camada romântica misturada com intriga — que obviamente é afetada pelo suspense e pelo medo do que o assassino pode fazer com as mulheres — que não serve para nada além de gastar tempo. Assim, vemos o processo investigativo avançar, os assassinatos acontecerem, uma certa pontinha de sobrenatural marcar alguns momentos do filme (ao menos como sugestão), mas os personagens coadjuvantes e os assuntos paralelos que orbitam a trama central não ajudam em nada. Como o diretor não tem um apuro notável na maneira de guiar a obra (são poucos os planos realmente muito bons), o espectador fica apenas com um plot intrigante e querendo saber a identidade do assassino, tendo que aturar complementos narrativos alheios à história principal que inclusive afastam a ameaça em alguns momentos.

A forma como a explicação para todos os mistérios é dada tem de positivo apenas a sugestão do desespero por parte de um médico/cientista que fez um certo experimento e viu que tudo saiu muito errado. Por um breve momento a narração captura a essência de pavor e arrependimento contidas no ato final de O Médico e o Monstro, mas para que isso tivesse impacto na obra inteira, era preciso que o roteiro construísse a história diante dessa perspectiva, o que infelizmente não acontece.

Para quem tem interesse em ver todos os gialli já produzidos e principalmente conhecer os mais diferentes estilos que moldaram o gênero desde o seu início, A Hiena de Londres é uma obra essencial. Mas para além desse interesse histórico, não há praticamente mais nada para se aproveitar aqui.

A Hiena de Londres (La Jena di Londra) — Itália, 1964
Direção: Gino Mangini
Roteiro: Gino Mangini
Elenco: Giotto Tempestini, Diana Martín, Tony Kendall, Ilona Drash, Claude Dantes, Luciano Pigozzi, Giovanni Tomaino, Gino Rossi, Angelo Dessy, Gino Rumor, Attilio Dottesio, Mario Milita, Anita Todesco
Duração: 89 min.

Crítica | Júlia Kendall – Vol.5: Os Reféns

plano crítico julia kendall os reféns Julia – Le avventure di una criminologa #5 I Sequestrati

Neste quinto capítulo da série Aventuras de uma Criminóloga, o roteiristas Giancarlo Berardi e Maurizio Mantero abordam o caso de um comando de ex-soldados que mantém a família de um joalheiro como refém, para forçá-lo a abrir o cofre da loja. A operação é narrada como uma instigante história de ação, investigação e suspense — e traz pela primeira vez uma mulher, Laura Zuccheri, ilustrando uma história de Júlia Kendall –, também mesclando organicamente o grande problema do volume com dramas menores, seja para a vida da criminóloga, seja para os reféns ou os sequestradores.

O texto começa simples, com uma cadência tão bem modulada, que chega a dar um pouco de medo, já que fica aquele ponto de atenção na mente: “será que os roteiristas vão conseguir tratar um tema relacionado a reféns em tão pouco tempo?“. Claro que estamos falando de um quadrinho de 130 páginas, mas o enredo não está direcionado unicamente a um assunto. Não podemos nos esquecer que assim como Nick Raider e como uma porção de histórias de Dylan Dog e Dampyr, Júlia pertence ao gênero giallo, de modo que a particularidade dos assassinatos, a violência com estilo e detalhes, o apelo psicológico e o tratamento ansioso da história (do tipo que deixa a gente esperando que a qualquer momento alguma coisa ruim aconteça, não de maneira sugestiva, mas porque temos base para esperar isso) chamam totalmente a nossa atenção para o texto e nos deixa apreensivos pelo andamento da trama. Só que mais uma vez Berardi nos mostra que não há motivo nenhum para se preocupar.

Ligando os pontos das relações entre os personagens, temos o namorado holandês de uma das sequestradas (linha rápida, mas tratada com perfeita colocação na história, sem forçar a barra e sem fazer com que se torne apenas uma sugestão inútil); o drama particular dos bandidos — que na verdade são ex-militares com TEPT, cada um lidando de forma diferente com a questão –; a pequena história interna do distrito, com uma referência refigurada, hilária e inteligente a Os Assassinatos na Rua Morgue e, por fim, a própria linha de Júlia como assistente do Distrito que acaba tendo que cuidar dos dois núcleos onde existem reféns.

Aproveitando-se de quadros simples para mostrar cenas rápidas de movimento, tiroteio ou ação pura em pelo menos duas dinâmicas opostas no tratamento de um caso de sequestro (uma para a casa do joalheiro, onde está a família, e outra para a loja, onde está o empresário, seus funcionários e clientes) os autores criam uma forte tensão que vai se delineando a cada página, fechando cada ponta a seu tempo (sem correrias ou dissonâncias dramáticas) e terminando com uma piscadela para um problema policial menor, apresentado no início da trama. Uma forma leve de fechar uma crônica pesada como essa e que, infelizmente, sabemos não estar nada longe da realidade em casos assim.

Julia – Le avventure di una criminologa #5: I Sequestrati (Itália, fevereiro de 1999)
Editora original:
 Sergio Bonelli Editore
No Brasil:
 Editora Mythos, 2005 e 2019
Roteiro: Giancarlo Berardi, Maurizio Mantero
Arte: Laura Zuccheri
Capa: Marco Soldi
130 páginas

Crítica | Dylan Dog: O Retorno do Monstro

PLANO CRITICO DYLAN DOG O RETORNO DO MONSTRO

Em algum lugar em Gales, em maio de 1971, vários assassinatos brutais acontecem. Logo nas primeiras páginas de O Retorno do Monstro, Tiziano Sclavi nos apresenta esse terrível cenário de morte (um massacre, na verdade), que servirá de guia para o desenvolvimento desta oitava aventura de Dylan Dog.

Depois de vemos os corpos mutilados de diversas maneiras na casa da família Steele, atravessamos 16 anos e chegamos ao tempo presente (1987, no caso, ano em que a edição foi publicada), em Londres, com Dylan sendo contratado por uma sobrevivente para investigar o tal “retorno do monstro”. Isso quer dizer que Damien, o condenado pelo massacre de 71, fugiu do hospital psiquiátrico onde estava internado. Um hospital de onde era impossível fugir… a não ser que o interno não fosse humano — conceito parcialmente abordado no texto, mas de maneira pouco eficiente ou informativa, deixando muitas dúvidas e buracos sobre o elemento “mutante” desse personagem.

No aspecto puramente ligado ao giallo, a história é interessante e até divertida. Como sempre acontece nas boas tramas do gênero esperamos que mais mortes aconteçam a qualquer momento, mas aqui, o roteiro equilibra esse lado dentro de uma perspectiva mais séria e que só entenderemos no final, adicionando um certo sabor gótico à saga (com aquele ideal de maldição inquebrável) e finalizando o tormento de mais uma Steele sofrendo de cegueira… e possivelmente de algo que pode evoluir para uma atitude mais descontrolada e mortal.

DD #8 - plano crítico o retorno do monstro dylan dog

O processo de investigação é bastante simples, mais teórico do que prático e infelizmente o papel de Groucho na história é mal trabalhado, sem contar que ele é rapidamente retirado da trama, sem maiores explicações ou conexões interessantes com o que está acontecendo. Seria melhor, nesse caso, se o personagem não tivesse aparecido efetivamente, apenas citado; ou que tivesse participado “à distância” dos planos de Dylan para colher provas e buscar outros documentos sobre o massacre do passado, a fim de entender a ameaça do presente.

Gosto bastante da arte de Luigi Piccatto na parte final da história, com todas aquelas armadilhas no castelo sobre o qual a mansão dos Steele foi construída. É o tipo de labirinto, busca e fuga que deixa a trama mais interessante. E mesmo que aí faltem elementos que poderiam elevar a qualidade da história — o espaço é tão bacana e tão cheio de possibilidades, que o leitor lamenta o não-uso do castelo para incrementar o significado, causas ocultas ou outras forças quaisquer em torno do massacre –, o leitor aproveita cada momento da correria do detetive. Uma investigação simples de Dylan Dog para um crime terrível e com um final de ares cinematográficos. Não é uma história exemplar, mas é uma boa história.

Dylan Dog #8: O Retorno do Monstro (Il ritorno del mostro) — Itália, maio de 1987
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Record (1992), Conrad (2002)
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Luigi Piccatto
Capa: Claudio Villa
100 páginas