Frankie Faison

Crítica | O Grito (2020)

Envolto em especulações e tratado como “o reboot que ninguém pediu”, O Grito é a nova versão da maldição japonesa transformada em narrativa estadunidense. Ao organizar a agenda para conferir a produção, um dos mecanismos mais comuns do crítico de cinema diante deste tipo de abordagem renovadora da indústria cultural é acionar o sensor “viu que eu disse?”, isto é, “aquele” botão que reafirma a nossa convicção acerca do fracasso retumbante diante de algo que não acreditamos que seja possível dar certo. A atmosfera amaldiçoada de O Grito nos permite isso. A primeira refilmagem chegou em 2004 e ganhou duas continuações. O seu “impacto” cultural é relativamente recente e com ampla possibilidade de alcance para as gerações mais recentes. O universo de Samara Morgan, em 2017, ganhou continuação e fracassou grandiosamente, sem conseguir captar o clima tecnológico mais contemporâneo.

Diante de tantas possibilidades para dar errado, por qual motivo Sam Raimi se interessou em reiniciar a história que contou há menos de 20 anos? Será que o filme vai se apresentar como uma história sem razão de existir, enfraquecida por causa de tantos investimentos dentro de uma mitologia considera já esgotada? São muitas as perguntas, mas todas com a sua devida resposta. Primeiro, preciso reforçar que diferente do esperado pelo tal sensor crítico, O Grito não é um filme descartável, nulo, sem sentido. Ao contrário, a versão mais atual acrescenta alguns elementos não trabalhados na versão de 2004 e brinca com as expectativas do cinéfilo que vai para a sessão em busca dos problemas para reiterar a ineficácia esperada diante da produção, principalmente em sua falsa caminhada para o hollywoodiano final feliz esperado depois que uma maldição é supostamente aniquilada.

Com subtexto ainda voltado ao esfacelamento da família pós-moderna, o que podemos observar e nos responder diante dos questionamentos sobre o retorno de Sam Raimi como produtor desta versão em 2020 é a rentabilidade deste tipo de história, voltada para a transformação de nossos medos mais profundos em entretenimento recheado de sustos, gritos, desespero e assombrações que nos ajudam a expurgar, durante a sessão, os medos externos, gravitacionais na vida real, mais tenebrosos que qualquer representação ficcional. A mitologia, por sinal, não foi apenas esgotada pelos realizadores estadunidenses e suas continuações, mas também demasiadamente exposta pelo próprio criador japonês, Takashi Shimizu, realizador de numerosas versões da maldição. Por sinal, ao passo que o filme avança e os créditos finais se estabelecem diante do público, somos obrigados a ficar reticentes diante da ideia de um reboot.

Diferente do que geralmente se faz dentro da proposta de reinicialização, aqui temos uma nova refilmagem da história de Shimizu, cineasta responsável pelo “original”, além de ter sido importado para os Estados Unidos, tendo em vista assumir o remake de seu próprio filme, em 2004. Desta vez, Nicolas Pesce toma conta do posto de diretor, dando para a narrativa um clima ainda mais claustrofóbico. Ainda assim, aposto na ideia de remake, apesar das fronteiras tênues com a ideia de reboot. Os realizadores apostam na concentração da história nos Estados Unidos, com desdobramentos trágicos para todas as pessoas que infelizmente se debatem com a maldição. O fogo, mais uma vez, surge como elemento escolhido para o cancelamento do rastro de horror, com personagens envolvidos numa assombração oriunda de um momento tomado por profundo ódio e rancor. As idas e vindas entre passado e presente são constantes, com ligações mais explicativas que a versão de 2004, um pouco mais ousada neste aspecto.

Esclarecido tais aspectos, volto ao questionamento do sensor. Somos obrigados, por conta das experiências com outros universos narrativas, a acreditar que O Grito será um filme catastrófico, mas o resultado não é bem esse, apesar das críticas negativas e das opiniões de muitos cinéfilos e consumidores de entretenimento. O protagonismo desta vez não é charmoso como na trama de 2004, a edição didática próximo ao desfecho colabora com a nossa descrença num cinema que permita ao público agir mais ativamente diante das história que consome e o uso de jumpscare, em alguns momentos, atrapalha a fruição de uma sensação de medo mais orgânica, algo que no entanto pode ser considerado mínimo se comparado ao que é feito no cinema contemporâneo de terror. Nem por isso, podemos considerar a experiência descartável. É na verdade um filme que não se justifica enquanto “novidade”, mas que funciona dentro de sua própria proposta consciente da retomada de uma abordagem já conhecida por boa parte de seu público-alvo.

Vamos, assim, para a história. Adiante retomamos as questões estéticas e contextuais da produção. Com direção do já citado Nicolas Pesce, cineasta guiado pelo roteiro escrito numa parceria com o argumento proposto por Jeff Buhler, O Grito nos apresenta as histórias cruzadas de pessoas envolvidas na maldição que envolve uma casa na rua Campos, 44. Em tempos como o nosso, com vírus viajantes diante de nossa perspectiva global, a maldição alegoriza um contágio, mas numa perspectiva sobrenatural. O acometido não precisa necessariamente ter feito nada de errado, como na cartilha moralista slasher, que dizima os jovens que fazem sexo e usam drogas, ou então, em filmes de possessão, tramas com pessoas tomadas por espíritos malignos depois de brincar erroneamente com algum tabuleiro ouija. Sem poupar qualquer um que tenha se envolvido na maldição, direta ou indiretamente, a assombração da trama é agressiva e não abre espaço para talismãs, rezas e escapatória.

É a própria representação do horror diante do que é inevitável. São vidas com destino já selado, tal como as curvas dramáticas da tragédia clássica. É nessa perspectiva que acompanhamos a Detetive Muldoon (Andrea Riseborough), mãe e esposa em luto, pois o marido morreu por causa de um câncer, há pouco tempo, algo em torno dos três meses. Ela retorna ao trabalho e logo em sua primeira semana participa da investigação de um caso que parece conectado com outra história predecessora, interpretada pelo Detetive Goodman (Démian Bichir), um homem fechado em torno de si, grosseiro, pouco compreensivo e que parece temer qualquer assunto que tenha a ver com a tal investigação do passado recente, algo que levou o seu parceiro para uma trajetória de loucura e horror que depois saberemos ser fruto da maldição em questão, ceifadora do destino de todos. Intrigada, principalmente pelo fato de necessitar de algum sentido adicional em sua vida sofrida, Muldoon se envolve cada vez mais com os acontecimentos em torno da tal casa, ponto catalisador de todo o mal que toma o filme.

O seu mergulho profundo nos impede de acreditar que haverá escapatória. Em sua pesquisa insistente, Muldoon descobre a tragédia que aconteceu no passado de um casal à espera de um filho, conectado pela casa, com a história de Fiona Landers (Tara Westwood), aparentemente a “paciente zero” estadunidense, pois o filme nos leva a crer que ela tenha sido a contagiada que ao chegar de Tóquio, trouxe consigo a maldição “Ju-On”, explicada de maneira muito breve lá pelo meio da narrativa. Sem a presença do pálido Toshio, desta vez, temos a pequena Melinda (Zoe Fish), garota porta-voz da assombração que vem acompanhada de sua falecida mãe. Além de Fiona Landers, o casal Spencer (interpretado por John Cho e Betty Gilpin) e dos policiais que centralizam a história, ainda temos Faith Matheson (Lin Shaye) e William Matheson (Frank Faison), casal atendido por Lorna Moody (Jacki Weaver), especialista em suicídio assistido, chamada para intervir na vida da Sra. Matheson, doente e em fase terminal. Conectados entre si, os personagens têm em comum a tal maldição, adquirida pelo contato com a casa.

Com essa proposta, O Grito nos entrega uma narrativa que segue de maneira eficiente todos os trâmites burocráticos exigidos num filme de terror contemporâneo, esquematizado dentro do sistema industrial com financiamentos que não permitem falhas de ordem estética. Na direção de fotografia, Zack Galler consegue dialogar bem com o design de produção repleto de sépia e tons claros, assinado por Jean-Andre Carriere. Há bastante contraste com os ambientes escuros, em simbiose com o emprego de “alguma” profundidade de campo, responsável por representar as ameaças constantes. Os movimentos são sempre em prol da promoção de sustos, alguns baratos, outros mais sofisticados, elaborados numa parceria também eficiente entre o design de som e os efeitos visuais, ambos assinados por Bryan Parker e Matt Hansen, respectivamente. Não podemos deixar de destacar a maquiagem da equipe de Brenda Magalas, um dos pontos altos neste tipo de filme, setor geralmente desconsiderado diante das nossas preocupações de ordem dramática. Os figurinos de Patricia J. Henderson cumprem a missão de revestir os personagens em seus perfis físicos, sociais e psicológicos, a circular pelos cenários de adornados pela direção de arte assinada por Bruce Cook, igualmente eficiente.

A trilha sonora é assinada pela dupla The Newton Brothers, num trabalho de composição também dedicado, diferente do que se tem feito no campo do terror atualmente. Eles conseguem climatizar a narrativa com alguns toques entre materiais orgânicos e produção eletrônica. Ademais, num retorno ao que foi dito sobre a ideia de reboot, não de remake, cabe ressaltar que O Grito dedica os seus créditos a Nicolas Pesce e Jeff Buhler, inspirados por Takashi Shimizu. Se esse for o caso, o nome de Stephen Susco, roteirista da refilmagem de 2004, deveria estar no filme, não é mesmo? Desta forma, a produção não reinicia o universo dos três filmes, mas recria o japonês Ju-On – O Grito, de Shimizu, numa segunda reprodução, após 16 anos da primeira iniciativa. E, em seu processo criativo, os realizadores continuam no investimento acerca dos problemas que gravitam em torno das famílias contemporâneas, orientais ou ocidentais, tomadas pelos novos modelos sociais, pela violência masculina representada no assassinato da figura de uma matriarca, história transformada em conto folclórico e que serve de alegoria para nos fazer refletir o lugar da mulher dentro do cenário político e social atual. O filme pode até não agradar unanimemente, mas o subtexto em questão é inegável e está lá, basta observar atentamente.

O Grito (The Grudge) — Estados Unidos, 2020
Direção: Nicolas Pesce
Roteiro: Jeff Buhler, Nicolas Pesce, Takashi Shimizu
Elenco: Andrea Riseborough, Betty Gilpin, Bradley Sawatzky, David Lawrence Brown, Demián Bichir, Ernesto Griffith, Frankie Faison, Jacki Weaver, Jim Kirby, Joel Marsh Garland, John Cho, Lin Shaye, Nancy Sorel, Robert Kostyra, Robin Ruel, Stefanie Sherk, Stephanie Sy, Tara Westwood, William Sadler, Zoe Fish
Duração: 94 min.

Crítica | Espiral da Cobiça

Eis um filme que a própria protagonista sequer acreditava na possibilidade de dar certo. Recentemente, num programa televisivo, Halle Berry foi entrevistada e num desses famigerados questionamentos que adoram flagrar o constrangimento alheio, ela precisou responder algo sobre o pior filme de sua carreira. Todos esperavam Mulher-Gato, produção deliciosamente kitsch que recebeu críticas negativas do público e da crítica na época de seu lançamento. A atriz, no entanto, driblou as expectativas óbvias e disse que considera Espiral da Cobiça o seu menor trabalho. Ela pediu desculpas aos envolvidos na produção, mas alegou que já sabia que a história não “era lá essas coisas mesmo antes de começar a filmar”.

Bem característico do gênero suspense da década de 1990, a produção não chega a ser ruim como a atriz afirma, mas fica devendo muito ao potencial que tinha para se desenvolver, principalmente por conta de seu roteiro óbvio, inspirado em tantas histórias já contadas pela indústria hollywoodiana. Dirigido e escrito por Amy Holden Jones, a produção lançada em 1996 retrata Josie Potenza (Halle Berry), uma esposa que revela para um desconhecido o seu desejo de ver o marido morto. Como assim? É O Mestre dos Desejos? Não, apesar da sinopse oficial inadequada nos levar para esse caminho. Na trama, guiada por princípios de Alfred Hitchcock mal trabalhados, todas as evidências indicam que ela é a principal culpada pela morte do marido rico. Será?

Sigamos. O filme começa com a bela esposa num interrogatório, desses com espelho falso, onde alguns escutam tudo pelo lado exterior. Os detetives Ron (Frankie Faison) e Dan (Charles Hallohon) retiram as algemas da moça, tendo em vista escutá-la pausadamente. Assim, ela começa a narrar a história. Esposa de Tony Potenza (Christopher McDonald), marido que bebia muito e agia de maneira irregular dentro de casa, Josie vivia uma versão mediana do american way of life, isto é, dinheiro e conforto, mas marido infiel e maus tratos. Ela mantém um caso com Jake (Clive Owen), estratégia para canalizar o estresse cotidiano do casamento. Ele, conhecido do marido dela, possui uma dívida, oriunda de um empréstimo para manter o seu restaurante em pleno funcionamento.

Certo dia, Josie rompe com Jake e decide caminhar de maneira adequada com o seu marido. Pede uma viagem e acredita na possibilidade de mudança das coisas. Com Tony, segue para uma cabana sofisticada numa região montanhosa. Ele, sempre conectado com o trabalho, não consegue se desvencilhar e precisa voltar para resolver questões. Ela, ao ficar para descansar, vai um dia para um bar e conhece Cole (Peter Greene), um galanteador insistente que percebe a vulnerabilidade de Josie e começa a aprofundar-se no bate-papo. Num certo momento, o tópico é o casamento e ela, inebriada pela bebida e insatisfeita com o andamento da sua vida, alega que gostaria de ver o marido morto.

Mais adiante, numa noite com jantar romântico marcado, Tony é brutalmente assassinado. Assim começa a montanha-russa de reviravoltas. Vale ressaltar, caro leitor, que dialogamos ao longo do filme com a versão da protagonista para os fatos. É um discurso em primeira pessoa. Mas será que de fato, a esposa do marido assassinado fala a verdade? Ou será que estamos diante de uma inocente? As excessivas reviravoltas tornam o filme um esforço da produção em nos enganar diante de pistas falsas, encerradas depois que a produção acaba e encontramos a personagem dentro de um carro, ao estilo Kathleen Turner em Corpos Ardentes. Precisa dizer mais?

Com os figurinos de Coleen Kelsall, Halle Berry desfila pelo filme sempre bem vestida e maquiada, acompanhada da trilha sonora de John Frizzel e captada pelas imagens da direção de fotografia de Haskell Wexler. Espiral da Cobiça funciona como suspense para as pessoas que buscam apenas entretenimento, sem nenhum bom senso ou busca por verossimilhança. Esteticamente adequado para o que se produzia nos anos 1990, o filme é um suspense que segue a linha da moral dúbia dos seres humanos e do perigo da história contada unicamente por um ponto de vista. Em casos como esse, a costumeiramente incompetente polícia hollywoodiana deveria saber que é preciso apurar e contemplar outros lados da história. Deu no que deu.

Espiral da Cobiça (The Rich’s Man Wife/Estados Unidos, 1996)
Direção: Amy Holden Jones
Roteiro: Amy Holden Jones
Elenco:Allan Rich, Charles Hallahan, Clive Owen, Frankie Faison, Halle Berry, Peter Greene
Duração: 94 min