Fevereiro de 2020

Crítica | Você Não Estava Aqui

Crítica _ Você Não Estava Aqui plano crítico cinema ken loach

Existem filmes em que o sentimento que geram no espectador é bem mais intenso, importante e memorável que a própria obra, e isso frequentemente se dá quando a sintonia entre roteiro e direção transmite de maneira magnética e arrasadora uma triste realidade. Notem bem as palavras que eu escolhi para definir essa experiência: “magnética e arrasadora“. Isso porque, diferente de muitas obras baseadas em fatos reais ou que espelham um problema, uma situação social existente, Você Não Estava Aqui (2019) está muito mais preocupado em exibir o dia a dia da família Turner do que delinear e explorar até o último detalhe a situação da vez: a vida dos trabalhadores por conta própria.

Se você possui a carteirinha de cinéfilo já há algum tempo, certamente sabe o que esperar de um filme dirigido pelo socialista Ken Loach. Novamente acompanhado pelo amigo e parceiro de longa data, o roteirista Paul Laverty, Loach foca desde cedo em algo que o espectador demorará para perceber, mas quando percebe, já está inteiramente mergulhado na situação representada na tela, e isso partindo de uma abordagem que normalmente não é esperada do diretor: a tentativa sincera de uma família conseguir melhorar sua condição de vida — ou pelo menos ter o bastante para manter a casa, os filhos, a comida na mesa… enfim, a vida funcionando no piloto automático financeiro –, através das belas promessas feitas pela informalidade. A realidade do “seja seu próprio chefe“.

Uma das marcas de Ken Loach é o trabalho com atores em começo de carreira ou que nunca fizeram um filme antes, assim como o improviso e o realismo na abordagem dos problemas, tendo grande ajuda da enorme competência de Paul Laverty em escrever diálogos que não parecem fazer parte em um filme, mas uma conversa ou uma discussão que nós já tivemos ou que já vimos alguém ter. No presente filme, o destaque vai para a soberba atuação de Kris Hitchen como Ricky Turner, o pai de família que após pular de emprego em emprego, desempenhando inúmeras funções, decide partir para um contrato de trabalho informal, onde ele, em tese, daria as regras do jogo. Não demora muito tempo, porém, para perceber que esse tipo de contrato não é nem de longe aquilo que promete ser.

Aqui é importante fechar as pontas da questão, para que a imagem da situação social representada (especialmente aos olhos dos que possuem dificuldade de interpretação ou análise de um recorte de problema) seja vista em sua totalidade. A primeira dessas pontas é a funcionalidade desse tipo de emprego. Sim, essa atividade ou linha de contrato funciona bem para alguns e é até a preferência de outros indivíduos e suas famílias. Mas nunca foi a realidade da maioria. Depois, a questão da escolha. Porque os indivíduos que estão nesse tipo de atividade ou em contratos massacrantes, aceitaram os termos, portanto, escolheram trabalhar nessas condições. Basta apenas entender o tipo de “escolha” que estamos falando. Se alguém não consegue emprego em nenhuma outra área, possui dívidas e tem filhos, outros membros da família ou a si mesmo para sustentar, a questão deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade. Note também que o recorte aqui é dado para indivíduos que não possuem nenhum tipo de benefício governamental para ajuda/complemento de renda. E isso porque estamos falando de um país do capitalismo central, o Reino Unido. Imagine a mesma situação numa nação acada vez mais embrenhada na periferia do sistema, como a nossa…

Diante desse tipo de ‘novo trabalho’, o pai e a mãe passam a ter menos tempo para eles mesmos (como indivíduos e como casal) e menos ainda para os filhos. Ocorre que a adolescência não espera dificuldades financeiras passarem para depois existir, então os conflitos no seio familiar começam a aparecer e o enredo, assim como a realidade, começa a nos enervar, enfurecer, emocionar. A excelente interpretação que eu comentei antes, vida de Kris Hitchen, passa a ter a sua própria cota em todos os outros atores em cena. Novamente: as discussões, os momentos de alegria e tristeza, tudo neste filme parece uma filmagem real do que acontece com uma família trabalhadora no dia a dia, tamanha é a naturalidade com que o elenco entrega suas performances e como o roteiro não está chamando a atenção para si, justamente por mostrar algo real ocorrendo da maneira mais natural possível, algo que a direção (também muito simples) destaca, fundamentando a impressão documental que o filme em geral nos traz.

A preparação que o cineasta fez em toda a primeira parte começa a dar frutos na segunda, com o espectador percebendo (e talvez vendo um reflexo de sua própria realidade) o horror que é precisar de tempo, mas não ter tempo, porque o trabalho e o trajeto para o trabalho + o cansaço pelo trabalho ocupa a maior parte da vida e drena praticamente toda a energia para que se faça outras coisas. A vida, portanto, passa a ser o cumprimento de horas para pagar coisas que o empregado jamais imaginava que deveria pagar, os raros momentos com a família, as horas de sono e o aprisionamento a situações que são em geral vistas como “grande responsabilidade” mas que na prática mostram algo extremamente triste (e tenho certeza que já aconteceu com praticamente todos os que me leem nesse momento): o ponto de ter que ir trabalhar muito doente por causa do medo de perder o emprego.

A estrutura de crônica para o passar dos dias, aqui, é o meu único impasse em relação à montagem da obra: a divisão em pequenos atos separados por fades. Independente disso, o que temos é o elogiável recorte de um ramo específico do trabalho contemporâneo (a apelidada “uberização“) na base mais fraca da corda social. O mais doloroso da experiência que a obra nos passa é o quão tudo o que o roteiro expõe está ancorado em uma prática que sabemos ser real para esse setor — e também para muitos outros não contemplados por leis trabalhistas. E ainda vale notar que esse tipo de status tem aumentado no mundo todo.

O trabalho sempre foi um aspecto bastante discutido das economias, pois é a partir dele que temos a geração de riqueza (bom… para a maior parte da população do planeta, pelo menos) e a circulação da moeda via mercado consumidor. Com o avanço da tecnologia, o aumento da população, o enxugamento de leis trabalhistas e o amplo incentivo de iniciativas independentes de trabalho, seja de maneira mais livre, contratual, ou através de iniciativas temporariamente mais ousadas, com CNPJ e tudo (a exemplo do Brasil, em final de 2019, início de 2020) um novo tipo de classe trabalhadora tem aparecido. Um novo ajuste de tempo, de deslocamento, de valor de salário que não cobre custo de vida + inflação progressiva e deterioramento da saúde por questões ligadas à estafa tem feito parte das novas discussões. Para nós, aqui no Brasil, a realidade consegue ainda ser mais suja, cruel e até sanguinária que a que vemos em Você Não Estava Aqui, mas o poder dessa obra abre as portas para que a gente sinta, pense e repense o novo mercado de trabalho que está se formando à nossa volta.

Você Não Estava Aqui (Sorry We Missed You) — Reino Unido, França, Bélgica
Direção: Ken Loach
Roteiro: Paul Laverty
Elenco: Kris Hitchen, Debbie Honeywood, Rhys Stone, Katie Proctor, Ross Brewster, Charlie Richmond, Julian Ions, Sheila Dunkerley, Maxie Peters, Christopher John Slater, Heather Wood, Albert Dumba, Natalia Stonebanks, Jordan Collard, Dave Turner, Stephen Clegg, Darren Jones, Nikki Marshall, Micky McGregor
Duração: 101 min.

Crítica | Superman: Red Son (Entre a Foice e o Martelo)

Bem… esta animação não é exatamente uma adaptação. É uma versão aproximada da excelente minissérie Entre a Foice e o Martelo (2003), um elseworld da DC que gerou muita expectativa quando foi anunciada a sua transposição para as telas, mas que nos trouxe, como base narrativa, a recriação da birra política típica do início da Guerra Fria. E pra começar, vai a pergunta nevrálgica de tudo isso: por que diabos os produtores convidaram J.M. DeMatteis para escrever o roteiro de uma animação com esse tema?

A linha central do texto, claro, apega-se ao original, embora sem muitos detalhes de origem. A cápsula de Krypton cai na União Soviética e é lá que cresce Somishka, o garoto que se tornaria o Superman. Acompanhamos a trama a partir de 1946, numa cena que em moral e sentimento, serve para introduzir alguns conceitos curiosos para o protagonista, ideias retomadas pelo roteirista na parte final da história, quando ele é confrontado com seus métodos políticos dentro do espectro ditatorial.

Sim, a abordagem de DeMatteis é cultural e politicamente esperada, mas é curioso o quanto ele ensaia algumas saídas da dicotomia comunismo X capitalismo, o quanto reflete alguns interessantes problemas atuais na forma como explora certos momentos (a construção do Muro de Berlim, a revelação de Diana sobre sua sexualidade e toda a ideia de “alien”, claramente refletindo sobre a xenofobia), mas a essência do roteiro nega muita coisa do original — que também tem suas falhas, mas funciona muito bem no todo –, especialmente na forma de amarrar as questões políticas com as questões super-heroicas. E é aí que o negócio de “mocinhos individualistas e bandidos coletivistas” termina por minar a força da história, reduzindo-a à um briguinha anacrônica dos tempos pré-1991.

O ato que tem uma melhor exposição dos temas políticos aliado ao desenvolvimento dos personagens (Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Luthor, Lanternas Verdades) é o que mostra a estabilização das grandes conquistas do Império Soviético nessa realidade alternativa e a discussão sobre os métodos que o Super-Comunista utilizou para chegar aí. Como discute-se posteriormente, seu caminho é diferente do de Stálin, mas o peso de sua mão e a forma como lida com as dissidências políticas termina no mesmo balaio, só que com um resultado não letal — o que acaba sendo relativo, já que lavagem cerebral é também um tipo de morte, visto que se tira a liberdade de escolha, pensamento e ação livre do indivíduo. Vejam o tanto de premissa interessante para o roteiro fincar os pés e criar um poderoso conflito, não só político, mas também heroico, com o aproveitamento máximo dos principais personagens em cena. Infelizmente, isso acontece bem pouco na história.

O confronto com o Batman foi o mais frustrante de todos. Os diálogos, a luta, o caminho para o desfecho, tudo isso é ruim nessa sequência. Para não dizer que não sobra nada, salvam-se o uso de cores para o covil (o que não é lá um grande elogio, já que tudo é mergulhado em vermelho e a arte ali precisava ser simples, porque estamos falando de um esconderijo) e a dublagem, que é decente em toda animação, especialmente de Jason Isaacs, como Superman, mas ainda assim não há nada memorável. A mesma coisa se repete no derradeiro bloco, com um pouquinho mais de ânimo da direção (é, Sam Liu…) na oposição entre Brainiac, Super e Luthor, mas no fim parece que falta alguma coisa. O espectador espera uma continuação mais fluída para a batalha, um complemento mais impactante de uma sequência de diálogos ou mesmo uma ponte interessante (até emotiva, por que não?) entre o momento de crise e a partida do Superman com a nave do Coluano, mas não temos nada disso. O diretor nos dá de “presente” uma memória afetiva narrada em off, fazendo o Super-Vermelho lembrar-se de seus valores… Mais anticlimático impossível.

Argumentos de que adaptar obras de cunho político é difícil, especialmente nesse mundo dos super-heróis, são válidos, mas isso não significa que o roteiro não poderia ser bom, não poderia criar o conflito com uma base forte de desenvolvimento nos dois lados da moeda em vez de reafirmar o velho ping pong da Grande América, mãe da liberdade, justiça e da glória financeiras. Especialmente porque isso fica parecendo discussão de samambaia em rede social, transportada para a tela, começando no fanboyzismo e não chegando a lugar nenhum além de sua própria ideia. É o tipo de exposição narcísica de uma temática que torna tudo chato, já que o espectador se dá conta de que até os conflitos que pareciam legais no começo servem à logica nós X eles e não à lógica do “isso vai ser usado para contar uma boa história de oposição de forças“…

Bem, é o que temos para hoje, infelizmente. E para os que gostam de dizer isso, já podem acrescentar mais uma chacotinha em sua lista pessoal: “o comunismo não funcionou nem na animação do Superman!“.

Superman: Red Son (EUA, 25 de fevereiro de 2020)
Direção: Sam Liu
Roteiro: J.M. DeMatteis (baseado na obra de Mark Millar, Dave Johnson e Kilian Plunkett)
Elenco: Jason Isaacs, Amy Acker, Diedrich Bader, Vanessa Marshall, Phil Morris, Paul Williams, Greg Chun, Phil LaMarr, Jim Meskimen, Sasha Roiz, William Salyers, Roger Craig Smith, Jason Spisak, Tara Strong, Anna Vocino, Jim Ward, Travis Willingham, Winter Ave Zoli
Duração: 84 min.

Crítica | Martin Eden

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Enquanto o homem tiver poder sobre suas palavras, ele terá controle sobre si mesmo e, consequentemente, esta será sua única resistência contra as forças do mundo sobre ele. É isto que acredita Martin Eden (Luca Marinelli), um marinheiro sedutor que é aspirante a poeta (apesar de ter largado a escola) e sempre carrega um livro consigo. Da classe trabalhadora e com dificuldades de pagar o aluguel oferecido por seu cunhado, o protagonista passa a se aventurar em uma família burguesa ao se relacionar com Elena Orsini (Jessica Cressy), ao passo que toma palanque em reuniões socialistas.

A primeira coisa que chama atenção no longa de Pietro Marcello é o modo como ele insere na narrativa curtas sequências documentais tiradas do passado. Apesar de ser um filme sobre um homem em sua primeira camada, Martin Eden também é sobre o povo. Como um sonho delirante em que realidade e sonho se confundem, a experimentação de Marcello nos coloca na cabeça deste artista que passeia entre dois mundos: o da classe operária e da burguesia; da arte e da política. Basicamente, é quase como se estivéssemos diante de uma obra anacrônica, que com pitadas de neorrealismo, mas colorida em technicolor.

Em uma certa cena, Martin vai ao cinema com Elena e, enquanto a moça afirma ter adorado aquela história amável e esperançosa, o escritor não se impressiona, afirmando que já vira muitos contos como aquele e que há muitas outras coisas para se contar. Isso se desencadeia em uma discussão na qual Elena fala que a escrita de seu namorado é crua, sendo marcada pela tragédia e morte. Logo em seguida, ele retruca que para quem está de barriga cheia, é fácil dizer que não acredita na fome. Acho necessário transcrever todo este texto, pois ele é toda a essência de Martin Eden. Um filme que vive do conflito, tanto de classes mas também, principalmente, interno.

Neste sentido, é interessante ver como o roteiro de Marcello e Brauci trabalha principalmente o sentimento de não pertencimento por parte de seu protagonista, que cada vez vai se seduzindo pelos charmes da burguesia e pelos olhos azuis chamativos de Elena, mas, ao mesmo tempo, mantém ainda um flerte com suas origens, o que é metaforicamente representado pelo seu romance com a garçonete e a câmera sempre. 

Seguindo esta linha conflitante, ao discursar em um palanque operário, Martin fala que é a lei natural dos homens serem governados uns pelos outros e que, quando os revolucionários se organizarem em um Estado, a escravidão voltará. Similarmente, quando discute com aristocratas em um jantar, aponta que eles se autointitulam liberais, mas adotam medidas socialistas. Como um operário-artista que sempre seguiu seu próprio caminho e caiu de paraquedas na vida política, ele vai percebendo que nenhum dos dois grupos se preocupa com o indivíduo, algo que desperta uma raiva muito bem evocada por Luca Marinelli.

Por isso, pode até se dizer que Martin Eden é um filme um tanto quanto paradoxal e este que vos escreve talvez nem chegue a alguma conclusão alguma, já que sua própria ideia central é essa combinação de um romance de verão e um drama político dentro da mente de um artista indeciso sobre o seu próprio lugar no mundo. No fim, ao anúncio de que a guerra começara, Martin se encontra no meio da praia, estando à sua direita um grupo de imigrantes da classe trabalhadora e militares à esquerda. Recusando lados, o artista vai em frente, para o mar, rumo ao horizonte inalcançável. Uma desistência da sociedade, um reconhecimento de que nada daquilo valeu a pena? Ou a liberdade que sempre almejara para seu indivíduo?

Martin Eden  – Itália, Alemanha, França, 2019
Direção: Pietro Marcello
Roteiro: Pietro Marcello, Maurizio Braucci
Elenco: Luca Marinelli, Marco Leonardi, Vincenzo Nemolato, Rinat Khismatouline, Pietro Ragusa, Aniello Arena, Lana Vlady, Jessica Cressy
Duração: 125 min.

Crítica | A Hora Da Sua Morte

A história dos filmes de terror nos apresenta uma série de portais malignos, caminhos aterrorizantes por onde alguns desavisados adentram e quase sempre nunca saem ilesos. Espelhos, poços, televisores, casas, porões e, mais recentemente, smartphones.  Como cinema também é a arte do contexto, o advento do avanço tecnológico em nossas sociedades não ficaria de fora das abordagens temáticas desta arte que reflete as ansiedades de suas respectivas gerações. Ciente do potencial de uma narrativa sobre o medo e o pavor oriundos da cibercultura, Justin Dec investiu algum tempo na concepção do roteiro que seria a sua estreia como cineasta, tendo resultado, A Hora Da Sua Morte, terror que nos oferta alguns bons momentos dramáticos, mas que se perde diante do excesso de subtramas e explicitude do monstro que carrega os personagens para o além, no horário e data marcada para a partida.

Quem define o agendamento é um aplicativo chamado Countdown. Depois que o individuo faz o download e confere a hora da sua morte com base no fornecimento de dados, a morte traça o seu planejamento, algo que pode ser para algumas horas após a solicitação de conferência ou uma data muito distante, preocupação futura e sem pressa. Para dar ritmo ao filme, é óbvio que a protagonista vai acessar como numa brincadeira, por curiosidade, e descobrir, assim, que a sua morte vai ocorrer dentro de poucos dias. Diante do exposto, os envolvidos correm contra o tempo e lutam para driblar a morte, mas por aparentemente não terem assistidos aos filmes da franquia Premonição, não sabem que a entidade é esperta e sagaz, sedenta por vidas e sem interesse algum em dar sossego para as pessoas que se acham geniais demais para dobrá-la.

O começo de A Hora Da Sua Morte é promissor ao escolher a referência ideal para estabelecer um clima metalinguístico. Uma personagem percorre uma rua deserta e nos faz lembrar Jamie Lee Curtis em Halloween: A Noite do Terror, de John Carpenter. A direção de fotografia assinada por Maxime Alexandre enquadra a moça da mesma maneira que o clássico, numa sensação de perseguição que não se pode enxergar, mas pode ser sentida. Angustiada, a jovem anda mais depressa para casa, tenta abrir a porta da frente, encontra dificuldade, tudo semelhante e com ponto de vista da entidade, algo semelhante aos momentos finais da referência em questão. Não temos Michael Myers, mas a morte, de qualquer maneira, está à espreita. Tal como a fórmula básica do terror, a primeira vítima se estabelece e saberemos que mais adiante, outras pessoas vão passar pelo mesmo sufoco, com as suas histórias mais (ou um pouco mais) desenvolvidas.

É quando entramos na trajetória da enfermeira Quinn (Elisabeth Lail). Ela conversa com um dos pacientes do hospital que trabalha e descobre que uma das coisas que deixa o rapaz angustiado é o tal aplicativo que de acordo com o papo, só oferece mais 19 horas para ele. Intrigada, apesar de cética, Quinn dialoga com os colegas de trabalho e todo mundo faz o download para entrar na moda e descobrir a suposta hora de falecimento. Alguns conseguem visualizar décadas, mas a moça descobre ter apenas mais três dias de vida. Quando acontecimentos estranhos começam a gravitar em torno de seu próximo dia, a enfermeira investe na contagem regressiva e busca alternativas para driblar o esquema do aplicativo e sobreviver. O problema é que ela já lida com monstros internos demais: o luto diante da morte da mãe, o assédio do Dr. Sullivan (Peter Facinelli), seu chefe de plantão, as pressões do ambiente profissional que apenas o favorecem e outros dilemas que atrapalham a sua luta contra as forças do mal.

Com premissa que nos remete ao embate entre uma pessoa desavisada e o esoterismo de uma maldição, semelhante ao que temos na já citada franquia Premonição, bem como em Arraste-Me Para O Inferno, A Morte Te Dá Parabéns, dentre outros, A Hora Da Sua Morte começa bem envolvente, mas depois faz uma mixagem pouco orgânica de coisas demais. As dispersões empregam as subtramas expostas anteriormente, gravitantes em torno da protagonista, juntamente com um padre caçador de demônios, a base do aplicativo em latim, a perseguição também conflitante da entidade que busca a sua irmã mais nova (Thalita Bateman), etc. Numa loja de celulares, Quinn tenta se livrar do aparelho, mas descobre logo depois que é uma alternativa ineficaz, pois nem assim a sua base de dados fornecida no ato do download é apagada, alegoria interessante da nossa relação atual com a cibercultura, algo que infelizmente fica apenas na superfície, a boiar com os destroços do que poderia ser um filme impressionante.

Na loja, a protagonista conhece Matt (Jordan Calloway), jovem que está na mesma situação que ela, pressionada por todos os lados. É óbvio que na ótica cinematográfica que busca ser agradável e confortável para o público, os dois vão se conhecer mais profundamente e engatar um namoro com prazo de validade próximo da expiração. É a entrada de um personagem que não acrescenta nada além de mais elementos para justificar o avanço da história de um curta para o formato longa-metragem. Ainda assim, não é só de coisas ineficazes que se faz a produção. Preciso ressaltar que o design de produção de Clayton Hartley é imersivo, bem trabalhado em prol da iluminação e dos movimentos da direção de fotografia. A trilha sonora assinada pela dupla formada por Danny Bensi e Saunder Jurrians não possui nada de muito especial, mas também não é nula.

Trata-se de uma composição muitas vezes abafada por conta do excesso de jumpscare, recurso sempre presente nas aparições da entidade maquiada pela equipe de Kevin Wasner e construída com apoio de Dan Levitan, supervisor dos abundantes, mas exagerados efeitos visuais. O tal monstro que representa fisicamente a morte nos remete ao eficaz demônio de Invocação do Mal 2. É só por alguns instantes, mas permite tal ilação. Ainda na seara sonora, importante ressaltar a sinalização da chegada de mensagens macabras do aplicativo, isto é, um berro que a todo instante serve de elemento para nos fazer tomar sustos, mesmo que não seja a hora adequada, afinal, tais dispersões atrapalham os poucos bons momentos de desenvolvimento dramático da história. Há a iniciativa de pavimentar questões da nossa realidade, tais como a nossa guarda às vezes muito aberta para o download de aplicativos que se inserem em nossas vidas de maneira muito intrusiva, por meio da inteligência artificial que os ergue, alimentada por dados que vão desde os nossos documentos mais básicos aos mínimos detalhes de nossas emoções e expressões comportamentais.

É uma era mágica, de facilidades que mudaram a nossa forma de agir no mundo, mas também é à beira do precipício, a entrada por uma zona habitada por pouquíssimas pessoas cautelosas. Prova disso são os episódios de Black Mirror, alguns muito eficientes ao empreender tais discussões. Ademais, em seus 90 minutos, A Hora Da Sua Morte não equilibra as doses narrativas que trafegam entre o interessante e o banal, postura do roteiro e da direção responsáveis por desequilibrar o filme e deixa-lo mais bobo e menos inteligente do que o argumento promete. É uma chance desperdiçada diante do cenário atual dos filmes de terror, abundantes, reflexo do entretenimento em simbiose com o nosso contexto histórico de incertezas e ansiedades. Há duas décadas, a internet, os aparelhos e as inovações em torno disso tudo disponibilizaram temas intrigantes para o campo do suspense e do terror, mas não é só de tema que um filme sobrevive. Se a história é interessante e magnética, o seu caminho narrativo também precisa ser, algo que a produção em questão tenta, mas não consegue. O desfecho, por sinal, deixa espaço para uma continuação, seguida de uma pergunta retórica por parte dos espectadores mais exigentes: será que há algo de relevante ainda a ser contado?

A Hora da Sua Morte (Countdown) — Estados Unidos, 2019
Direção: Justin Dec
Roteiro: Justin Dec
Elenco: Anne Winters, Austin Zajur, Charlie McDermott, Dillon Lane, Elizabeth Lail, Jeannie Elise Mai, John Bishop, Jordan Calloway, Lana McKissack, Lisa Linke, Mariano ‘Big Dawg’ Mendoza, Marisela Zumbado, P.J. Byrne, Peter Facinelli, Talitha Eliana Bateman, Tichina Arnold, Tom Segura, Willow Hale
Duração: 90 min.

Crítica | Dolittle

Velocidade. Após assistir a nova adaptação do famoso médico capaz de se comunicar com os animais, essa foi a palavra que ficou gravada em minha mente. Não de uma maneira positiva, devo dizer.

Dirigido por Stephen Gaghan, o filme conta a história do doutor John Dolittle (Robert Downey Jr.) a partir do momento em que se isola da sociedade em sua imensa propriedade após Lily Dolittle (Kasia Smutniak), sua amada esposa, morrer em um naufrágio em meio a uma grande aventura que tentara realizar. Deprimido e somente com seus amigos do reino animal como companhia, Dolitte acaba tendo sua reclusão interrompida pelo aparecimento repentino de Tommy Stubbins (Harry Collet) e Lady Rose (Carmel Laniado). Os problemas, tanto do protagonista quanto da obra, começam aí.

Antes de descobrirmos como é a vida do prestigiado médico dentro de sua fortaleza, acompanhamos os acontecimentos sob a ótica de Stubbins, com ele descobrindo o local da moradia de Dolittle a partir da ajuda de Poly (Emma Thompson). Ou seja, personagem e plateia passam pelo deslumbramento ao conhecer aquele mundo particular ao mesmo tempo. É, então, que a velocidade aparece para atrapalhar tudo.

Conforme desbrava o imenso jardim do terreno em direção a casa de Dolittle, o jovem, que também demonstra grande apreço pelos animais, cruza com alguns dos companheiros de nosso protagonista até ficar preso em uma armadilha e… Lady Rose simplesmente se materializa no local. Questionando o invasor e alegando possuir assuntos urgentes para tratar com o médico, a personagem parece conseguir transitar sem grandes dificuldades pela casa, já que, como descobrimos em seguida, adentrou a área com uma carruagem de quatro cavalos guiada por um cocheiro. O espaço, apresentado na primeira cena como o local onde Dolittle se isolou completamente da sociedade e ninguém mais conseguiu contato com ele, é facilmente visitada por dois adolescentes, cavalos e meios de transporte.

Tudo isso acontece em questão de alguns poucos minutos, causando, além de dúvidas, bastante confusão. O ermitão, que era intransigente sobre voltar ao convívio social, facilmente muda de opinião e o vemos atendendo ao pedido de Lady Rose para visitar a rainha Victoria (Jessie Buckley), que está gravemente doente.

Os acontecimentos vêm à tona como uma bola de neve que mal nos deixa pensar se o que está sendo apresentado tem coerência e segue uma linha lógica. Além de não explorar o aparentemente bastante interessante universo particular do doutor, tudo o que nos é apresentado de uma forma muda em questão de minutos, dando a impressão que a direção queria passar de uma vez pelo primeiro terço do longa para investir na aventura. Curiosamente, essa é a parte mais interessante da obra, onde conseguimos notar alguma consistência narrativa.

Com a rainha muito perto da morte, Dolittle, Stubbins e toda sua trupe animalesca precisam encontrar o fruto da Árvore do Éden (sim, totalmente bíblico) para salvar a realeza e partem de navio em busca da salvação. Lady Rose, nesse momento, acaba escanteada e reaparece, de fato, somente ao final da fita, nos fazendo pensar por qual razão teve tanto destaque no início do filme. Confusões e mais confusões.

De positivo podemos nos apegar na construção das diversas personagens. Ainda que não seja algo extremamente complexo, profundo e cheio de camadas, as personalidades são, de um modo geral, satisfatoriamente definidas e nos importamos com o bem estar de, pelo menos, os principais animais. As atuações de Robert Downey Jr. e Michael Sheen, como o doutor Blair Müdfly, também são positivas, ainda que não sejam nada de espetacular e único.

Mesmo com um elenco recheado de grandes nomes (Antonio Banderas, Octavia Spencer, Rami Malek, Selena Gomez, John Cena, Marion Cotillard, Ralph Fiennes e Tom Holland também estão presentes no filme), Dolittle tropeça nas próprias pernas por não saber dosar a velocidade e a quantidade de informação que pretende passar, entrando em contradição em diversos momentos. Some isso a uma computação gráfica deplorável em boa parte da projeção e temos como resultado uma comédia que, no máximo, arranca algumas risadas isoladas dos espectadores. Pelo elenco presente, deveria entregar muito mais.

Dolittle — China, Estados Unidos, Reino Unido, 2020
Direção: Stephen Gaghan
Roteiro: Stephen Gaghan, Dan Gregor, Doug Mand, Chris McKay
Elenco: Robert Downey Jr., Harry Collet, Carmel Laniado, Kasia Smutniak, Emma Thompson, Jessie Buckley, Michael Sheen, Antonio Banderas, Octavia Spencer, Rami Malek, Selena Gomez, John Cena, Marion Cotillard, Ralph Fiennes, Tom Holland
Duração: 101 minutos

Crítica | Luta Por Justiça

Just Mercy luta por justiça plano crítico cinema

Quando se pensa no subgênero drama de tribunal e que envolve a questão racial, é difícil não se lembrar da obra-prima O Sol É Para Todos (1962), de Robert Mulligan. Claro, é um tanto quanto injusto estabelecer um patamar tão elevado como base de comparação para Luta por Justiça, principalmente se pensarmos nas disparidades entre o lendário Gregory Peck e Michael B. Jordan — não me entendam mal, pois eu gosto de MBJ, principalmente por Fruitvale Station: A Última Parada. Infelizmente, 57 anos se passaram e é triste constatar que ainda é muito necessário contar histórias sobre como o sistema penitenciário ainda está totalmente preso a uma lógica racista e que, consequentemente, as condenações à morte podem estar atingindo muitos inocentes. Bem, e de que forma o novo filme de Destin Daniel Cretton traz um refresco ao tema que aborda?

Em 1986, o afro-descendente “Johnny D.” (Jammie Fox) fora acusado de matar uma jovem branca em Monroeville, Alabama — no Sul dos Estados Unidos. Condenado a pena de morte e já desesperançoso por conta dos seus advogados anteriores que nada fizeram, aquele homem se vê diante do advogado recém-formado de Harvard, Bryan Stevenson (Michael B. Jordan). Contudo, a diferença deste para os outros é que existe no jovem graduado um grande espírito idealista e que, acima de tudo, por também ser negro, Bryan sabe que ele pode estar diante de uma grande injustiça. Ao constatar que há diversas incongruências nos depoimentos originais, o caso será julgado novamente. 

O primeiro problema de Luta por Justiça se encontra justamente na figura de seu protagonista. Aliás, quem é seu protagonista? O advogado, o condenado, ou a luta racial como um todo? Baseado no livro escrito pelo próprio Bryan Stevenson, fica um pouco claro que o ponto de vista predominante acaba sendo deste. Em um certo momento da trama, o advogado é até acusado de estar pegando estes casos de pena de morte para uma autopromoção de seu trabalho e, de certa forma, a própria lógica do filme é um tanto quanto cúmplice disso. Com uma clássica cara de produção feita para a temporada de premiações e com um roteiro repleto de frases de efeito para que Michael B. Jordan brilhe, entramos em uma questão até paradoxal aqui. 

Afinal, se Luta Para Justiça é para exaltar o ativismo de Stevenson ou para consagrar Jordan, toda a luta racial vira segundo plano dentro da narrativa e, assim, duvida-se de suas intenções. Aliás, ainda que este seja uma autobiografia do advogado, trata-se de um recorte muito estranho que pouco aprofunda suas motivações e deixa seu relacionamento com Eva Ansley (uma desinteressada Brie Larson) solto no meio dos outros acontecimentos. Voltando à questão racial, Cretton opta por retratar os policiais e membros do poder de Monroeville como supremacistas sem compaixão alguma e que sentem até um certo prazer erótico, como na cena da revista ou do próprio policial que morde a boca de prazer ao ver o negro sendo eletrocutado. De fato, não há nenhum problema em ir por este lado, já que, de fato, existem pessoas assim (algo que é muito bem retratado em Infiltrado na Klan), mas me parece meio contraditório que o roteiro vá buscar uma humanização dessas pessoas no terceiro ato, principalmente na figura do promotor vivido por Rafe Spall. Em consequência, toda a redenção do personagem parece servir apenas ao andamento da trama.

De mesmo modo, como uma típica história de tribunal, no qual seu clímax se passa no julgamento final, me impressiona o quanto esta talvez seja uma das cenas mais desinteressante dos últimos tempos dentro deste gênero. Cretton aposta em um plano unicamente no rosto de Jordan e aquilo basicamente se torna uma leitura de roteiro clichê que sai da boca do ator da maneira menos impactante possível. Por um lado, se toda fala que sai da boca de Michael B. Jordan parece ensaiada e pronta para ir ao DVD do Oscar, há de destacar que o que ele faz de melhor é justamente quando seu personagem não fala. O advogado é intimidado pelas forças policiais em algumas cenas e se sente uma mistura de ódio, impotência e medo em seu rosto, ao mesmo tempo que há uma inteligência de não fazer nada de impulsivo, pois sabe que será pior para ele. É justamente uma indignação em sua voz que senti falta na cena do Tribunal, como a imponência de Peck no filme de 1962. 

Por fim, Luta por Justiça é minimamente competente ao trazer para nossas mentes a necessidade de se discutir novamente a pena de morte, mas que nunca se aprofunda o  suficiente tanto neste tema, quanto no racismo institucional. Ao invés disso, ele passa boa parte do tempo funcionando como um episódio medíocre de um seriado de advogado ou com cenas repetitivas mostrando a malvadez dos policiais sulistas. Talvez, caso se mostrasse mais interessado no drama daqueles condenados e suas famílias, o longa poderia soar mais genuíno em sua mensagem e menos uma autopromoção dos feitos de Bryan Stevenson — e, consequentemente, uma autopromoção do próprio Michael B. Jordan em um filme de estúdio pensado estrategicamente para premiações.  

Luta por Justiça (Just Mercy) – USA, 2019
Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham
Elenco: Michael B. Jordan, Jamie Foxx, Brie Larson, O’Shea Jackson Jr., Rafe Spall, Rob Morgan, Tim Blake Nelson, Drew Scheid, Steve Coulter
Duração: 136 min.

Crítica | Frankie (2019)

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Existe uma crença de que viajar pode ser um ato transformador. Pelo menos, é isso que uma família rica e cheia de problemas de relacionamento acredita. Explorar o desconhecido e o místico de uma região é também um exercício de autoconhecimento. Ou talvez a simples experiência compartilhada e a mudança de ares seja o suficiente para que aquelas pessoas acreditem que o mesmo irá acontecer com elas por meio de osmose. Este é o caso da famosa atriz Frankie (Isabelle Huppert), que sempre organiza uma viagem familiar quando quer anunciar algo grande. Desta vez, a escolhida é a histórica cidade de Sintra, em Portugal. Para além de praias, florestas, ruas íngremes de pedra, monumentos religiosos e fontes com possíveis poderes de cura, a protagonista está lá por um motivo. Após a recaída de seu câncer, Frankie quer agir como um pombo do amor e aproveitar o máximo de tempo possível com todos os seus entes queridos, mas também deixando um espaço para que eles resolvam seus problemas sozinhos.

Basicamente, o longa é narrativamente dividido em diversas subtramas e poderia facilmente se chamar Antologia do Amor em Sintra”. Contudo, apesar de nunca haver um senso de fechamento para todas essas histórias e nem uma conexão direta com a jornada de Frankie, há algo em comum em todas elas e que acaba revelando a verdadeira protagonista do filme: a cidade portuguesa. Filmado pelas lentes de Rui Poças (colaborador frequente de Miguel Gomes e João Pedro Rodrigues), o cinegrafista consegue capturar Sintra como uma entidade viva e que mesmo ainda estando ao fundo dos diálogos, chama atenção de um jeito que também não tira a força destes e se torne apenas uma tour paisagística. Sempre caminhando ou olhando tanto para o horizonte na linha do mar ou quanto para o “mar verde” de árvores, os personagens parecem sentir os ventos daquela cidade costeira provocar um desejo de mudança em seus espíritos. 

Em Frankie, Sintra se torna o palco que acomoda todas as fases que uma relação pode ter: temos aqueles que estão vivendo uma paixão de verão; os que estão em um relacionamento estável; os que percebem que estão vivendo um romance desgastado ou que não estão com a pessoa certa; e aqueles solteiros que vivem bem consigo mesmo ou descobrem que precisam de alguém. Em um momento do filme, Frankie diz que não quer ver as pessoas chorando a sua volta, mas apenas aproveitando o momento. Por este motivo, faz até sentido que não exista um grande desfecho dramático e emocional para cada relação, como se o roteiro de Sachs e Zacharias se curvasse às vontades de sua protagonista, que quer apenas aproveitar o momento despretensiosamente. Aliás, isso é algo que acaba ficando claro desde a cena inicial, na qual ela se prepara, sem pressa, para entrar na piscina e retira a parte de cima de seu biquíni, em um ato que já demonstra essa vontade de apenas aproveitar o agora, sem filtros.

Neste sentido, Huppert — que assim como em Câmera de Claire, parece interpretar a si mesma —  ganha força principalmente por esconder uma enorme fragilidade através de um visível esforço justamente estar sempre tentando contê-la. De certo modo, além de ter a mudança como mote, Frankie, paradoxalmente, é também sobre conformismo. Personagens que relutam em mudar ou aceitar o destino indesejado, mas que precisam de alguma forma se adaptar a ele. Assim, o que se revela é que que tudo parece estar longe do controle de seus personagens.

Em um momento do longa, Paul (Jérémie Renier), revela que sua mãe, Frankie, havia planejado uma viagem para Algarve (também em Portugal), quando ele tinha 18 anos, para que houvesse uma aproximação com Jimmy (Brendan Gleeson), seu novo padrasto, e Sylvia (Vinette Robinson), sua futura meia-irmã. Contudo, contrariando os planos da matriarca, os dois jovens acabaram se relacionando, o que impediu que eles se reunissem como família e fazendo com que Paul fosse morar longe. Similarmente, a viagem para Sintra guarda contornos parecidos: na tentativa de unir sua amiga Ilene (Marisa Tomei) com o próprio Paul, mal sabia Frankie que o destino guardava outros planos para Ilene. Ao final do filme, quando a atriz percebe o que está acontecendo, ela observa de longe, em um misto de medo e conformação com a situação, finalmente entendendo que o amor talvez seja algo incontrolável, assim como a morte. Aliás, voltando na questão da mística de Sintra, curioso pensar nos dois personagens que ao início do filme bebem na fonte considerada mágica.

São duas situações paralelas (e até cíclicas) que reforçam em Frankie a indiferença da vontade humana diante dos desejos da paixão e da própria natureza, que se regem por forças autônomas — e, neste caso, parecem acontecer em um lugar estrangeiro: Algarve e Sintra. No fim, é significativo que Ira Sachs decida finalizar seu filme com um plano tão distanciado, mostrando a pequenez daqueles dramas — que não deixam de ser burgueses — diante de um pôr-do-sol. Sintra prometeu uma mudança, mas traçou o seu próprio para aquela família. O que resta é a contemplação e aceitação do destino.

Frankie – França, Portugal 2019
Direção: Ira Sachs
Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias
Elenco: Isabelle Huppert, Brendan Gleeson, Greg Kinnear, Marisa Tomei, Jérémie Renier, Pascal Greggory, Ariyon Bakare, Vinette Robinson, Carloto Cotta, Mikaela Lupu, Senia Nannua
Duração: 98 min.

Crítica | O Preço da Verdade

O Preço da Verdade (Dark Waters) – USA, 2019 plano crítico

Como carioca, não deixa de ser meio chocante constatar a óbvia coincidência que é o lançamento de O Preço da Verdade, ao mesmo tempo que acontece este escândalo envolvendo a CEDAE e a contaminação da água. Porém, longe de ser apenas mais um destes filmes protocolares que apontam para a corrupção de grandes empresas ou instituições, o novo longa de Todd Haynes dialoga muito bem com um de seus primeiros trabalhos, o excelente Mal do Século (1995). Além de se assimilarem em sua temática ambientalista, é como se seus protagonistas — Julianne Moore no passado e Mark Ruffalo hoje — estivessem sufocados e doentes deste contato com o sistema no qual eles fazem parte e precisam se descontaminar. E isso é algo que só acontece de uma forma: descobrindo a verdade e saindo da posição de privilégio em que vivem, ou seja, de sua zona de conforto.

Em Mal do Século, a personagem de Moore passa a ficar doente de seu próprio cotidiano: uma dona de casa negligenciada pelo marido e que encontra seu refúgio nas coisas mais banais e consumistas como aulas de ginástica e idas ao salão de beleza. Aquilo que inicialmente era seu prazer efêmero vai se revelando como uma grande vazio que Haynes transformou em, literalmente, uma doença. Já em O Preço da Verdade, Robert Bilott (Ruffalo) é um advogado workaholic que normalmente trabalha defendendo grandes empresas químicas. Contudo, após receber a visita de um fazendeiro de sua cidade local (e que conhecia sua avó), o protagonista descobre que uma das principais companhias que ele defende está despejando produtos químicos na água e matando o gado da região. Posteriormente, ao decidir investigar a situação, ele descobre que ela pode ser muito mais grave e todos podem estar sendo contaminados há anos. 

Logo, Haynes está menos interessado em seguir um sub gênero investigativo no qual seu protagonista vai apenas vomitando milhares de informações através de planos e contraplanos em cenas de reuniões burocráticas. Não que isso também não aconteça em alguns momentos, mas, assim como em Mal do Século, sua principal preocupação reside muito mais em criar uma atmosfera na qual Robert vai percebendo que todo o sistema que ele faz parte está manchado. Neste sentido, toda a fotografia de Edward Lachman acerta ao trazer uma frieza cinzenta que filtra o filme com um tom de desesperança e que remete diretamente a uma sensação de sujeira e poluição generalizada. 

Assim, conforme a narrativa avança, o que parece mover Robert é justamente um expurgo da culpa que ele acredita carregar. Afinal, o roteiro não deixa muito espaço para um maior contexto do seu passado, mas é como se em algum momento da vida ele tivesse se vendido para fazer parte do grande jogo corporativista. Nem ele e nem nós sabemos muito bem o motivo dele ter aceitado ajudar no caso que coloca sua posição em risco, mas é como se, ao ser lembrado de suas origens na cidade pequena, um sentimento adormecido de justiça despertasse nele.

Todavia, mesmo lutando pela “causa certa”, ele ainda não deixa de ser visto como um advogado preocupado com o lucro pela próprio fazendeiro ou como um lunático pela própria mulher, além de parecer cada vez mais perdido em jantares de gala. Até por isso, sua obsessão se torna resolver aquele caso exclusivamente, como sua própria salvação ou redenção. Portanto, é muito indicativo que a montagem do filme decida misturar, através da montagem, o nascimento do filho de Robert com sua narração dos efeitos colaterais com a doença, que não só aumenta sua paranoia mas reforça que essa culpa parece cada vez mais forte nele. 

Ainda em paranoia, não há exatamente um inimigo visível ou personificado em O Preço da Verdade, apenas helicópteros sobrevoando ou uma sombra em um estacionamento. Nada indica que o protagonista pode morrer ao ligar a ignição de seu carro, mas Haynes e um Ruffalo cada vez mais estressado conseguem fazer desta simples cena uma das mais urgentes. De certo modo, isso acontece justamente porque, apesar de sua fotografia fria, o filme nos coloca para dentro da investigação junto com Robert. A atuação de Ruffalo carrega uma raiva impaciente contra o sistema e, simultaneamente, um medo em descobrir quão fundo está enraizada a corrupção que torna plausível uma própria somatização dos sintomas de achar que está sendo envenenado pela água ou sendo perseguido. 

Retomando sua temática ambientalista de Mal do Século, há uma principal diferença entre este e O Preço da Verdade. Se Juliane Moore fugia para um acampamento para viver isolada e esquecer da doença da cidade, essa não pode ser mais a solução em 2020. A ideia aqui não é a fuga, mas o enfrentamento, uma mea culpa de que todos nós talvez tenhamos vendidos nossos valores em algum momento. São dois filmes que falam sobre uma contaminação sendo uma psicológica e a outra literal) e que identificam a causa na mentalidade gananciosa do sistema, mas agora Todd Haynes acredita que o homem ainda pode ser salvo caso enfrente as instituições que ele fazia parte.

O Preço da Verdade (Dark Waters) – USA, 2019
Direção: Todd Haynes
Roteiro: Mario Correa, Matthew Michael Carnahan
Elenco: Mark Ruffalo, Anne Hathaway, Tim Robbins, Bill Pullman, Bill Camp, Victor Garber, Mare Winningham, William Jackson Harper
Duração: 126 min.

Crítica | Cicatrizes (2019)

A realidade de famílias com casos de crianças desaparecidas é realmente dramática. O tempo de espera, a investigação, a busca pessoal, os inúmeros sentimentos envolvidos e a forma como a vida se organiza a partir da tragédia, quando nem a criança nem o corpo são encontrados, deixam claras as feridas que esse tipo de situação causa em todos os envolvidos. Em Cicatrizes (2019), o diretor Miroslav Terzic se debruça sobre esse tema, mas não de um modo unicamente realista ou quase documental, como vemos em muitas obras do gênero.

SPOILERS!

Escrito por Elma Tataragic, Cicatrizes tem como base uma realidade presente na vida de muitas famílias sérvias, que é a de crianças desaparecidas ainda muito novas, muitas delas ainda na maternidade. Em ditaduras como as do Chile e da Espanha existem centenas relatos bem conhecidos a esse respeito, de bebês que eram reportados para os pais como se estivessem nascido mortos, mas na verdade eram sequestrados e dados ou vendidos para outras famílias. Neste filme sérvio, o roteiro também aborda essa realidade, centrando a história na cidade de Belgrado e numa mistura de suspense e melodrama, fazendo-nos acompanhar a vida de Ana e sua busca, há 18 anos, por um filho morto no nascimento e cujo corpo o hospital numa mostrou.

A atriz Snezana Bogdanovic é quem carrega a linha dramática da obra, fazendo um trabalho primoroso na maneira como esconde ou, na maioria das vezes, controla seus mais intensos sentimentos. O filme é basicamente o seu ponto de vista desesperançado, em uma cidade de cores sem graça e que parece estacionada no tempo, assim como muita coisa na vida dessa personagem, que escanteou a filha e infernizou a vida da polícia, da obstetra, dos funcionários do hospital e de sua própria família, com a ideia fixa de que o menino a que ela deu à luz não está morto. E se está, ela quer saber onde foi enterrado. Ou porque nunca foi mostrado o corpo para ela ou para o pai da criança.

O roteiro cria bem rapidamente a sensação de deslocamento de Ana em seu dia a dia. Infelizmente Tataragic não acerta no desenvolvimento da filha e deixa muito frouxa a linha de participação da irmã da protagonista, mas mesmo esses casos são pontos negativos menores, cujo incômodo é mais localizado e não consegue impregnar negativamente o filme, que é uma verdadeira experiência angustiante. Em dado momento, o espectador tem a impressão que o texto seguirá um caminho de intriga e teoria da conspiração; em outro, há leves nuances de realismo mágico, com personagens desaparecendo de cena; e em outros, tememos pela vida da mãe, que nosso julgamento se divide em classificar como neurótica ou alguém que está vendo a verdade onde a maioria não está.

A ausência de música na maior parte da obra serve para nos colocar mais solidamente na crua realidade dessa família, mesmo que elementos ficcionais façam parte da vida da protagonista. Muitas cenas com tomadas em becos escuros e cenários desertos também reforçam a ideia de isolamento em oposição à força policial e, ao que parece, bandidos contratados para fazer com que Ana pare de procurar pelo filho.

A parte final de Cicatrizes traz algo que para alguns espectadores pode parecer um problema de roteiro (o que não é) ou gerar conflitos de interpretação. Na minha leitura, a polícia conseguiu um documento forjado de adoção, algo que Ana sabia que não podia lutar contra. Em nenhum momento eu realmente achei que esse documento fosse verdade, mesmo que Ana não tenha desmentido para o Comissário, e isso pelo simples fato de que se fosse um caso de adoção, não fazia sentido nenhuma haver uma longa investigação aberta pela polícia, mudanças obviamente criminosas no registro da prefeitura para o nome dos pais do menino, a contratação de criminosos para amedrontar Ana ou a confirmação do marido e da irmã de que o filho de fato havia morrido, segundo informação do hospital. Se o menino tivesse sido entregue para adoção, esse conjunto de situações não seria possível.

E é esse aspecto do roteiro que torna a história ainda mais intrigante e com um final que pode trazer um sabor bem amargo para alguns espectadores. O fato é que há uma tentativa de comunicação entre mãe e filho neste fim, uma característica simples, mas muito bonita, que flerta novamente com algo meio fantasioso, vide o fato de o menino ter o mesmo TOC da mãe, arrumando a peça com os cavalos de porcelana na entrada da casa. Cicatrizes é um filme que exala a dor de uma realidade triste, vivida não apenas na Sérvia, mas que no presente caso ganha ares ficcionais ainda mais tenebrosos e com decisões do roteiro que, admito, podem afastar uma parte do público.

Cicatrizes (Savovi) — Sérvia, 2019
Direção: Miroslav Terzic
Roteiro: Elma Tataragic
Elenco: Snezana Bogdanovic, Marko Bacovic, Jovana Stojiljkovic, Vesna Trivalic, Dragana Varagic, Pavle Cemerikic, Igor Bencina, Radoje Cupic, Ksenija Marinkovic, Rade Markovic, Radoslav ‘Rale’ Milenkovic, Jelena Stupljanin, Bojan Zirovic
Duração: 105 min.

Crítica | Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

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Quando Aves de Rapina (e seu grandioso subtítulo que não será replicado aqui) acabou, fiquei inicialmente em conflito. Afinal, ele funciona constantemente como uma própria extensão da cabeça caótica de Arlequina (Margot Robbie), que enxerga o mundo como um grande parque de diversões colorido. Ao mesmo tempo, o longa nunca se entrega completamente a uma deadpoolzação de sua narrativa. Pelo contrário, a fotografia do excelente Matthew Libatique até se aproxima de um tom mais sombrio (lembrando suas parcerias com Darren Aronofsky), principalmente no terceiro ato do filme. É justamente daí que vem minha frustração inicial, pois eu queria ver mais dessa extrapolação, visualmente falando. 

No entanto, fui percebendo que Aves de Rapina não poderia ser apenas um surto pós-término de sua protagonista. Nem uma grande diversão inconsequente de alguém que está dando o dedo do meio para todo mundo, como eu queria. Por mais que tenha tenha saído de sua posição submissa ao Coringa e finalmente desfrute de uma autonomia, o mundo a volta de Arlequina ainda é dominado por homens. Por isso, existe aqui um equilíbrio coerente entre a comemoração de sua emancipação e um sinal de alerta nunca lhe deixa relaxar completamente. A Gotham que Arlequina vive é extremamente traiçoeira e suja, principalmente quando se trata de homens. 

Assim, é precisamente por isso que o grupo Aves de Rapina é formado. Não por serem mulheres que automaticamente se gostam, o que soaria um tanto simplificador e genérico, mas pela necessidade do momento. Todas estão atrás de um grande mcguffin (objeto desejado por todos e que move a trama): o diamante da família Bertinelli. De início, existe até uma corrida entre elas para ver quem fica com a jóia. Todavia, o que o grupo rapidamente assimila é que mesmo existindo uma grande diferença entre elas, há um inimigo em comum mais urgente. Se aquelas mulheres já são tanto massacradas pelos mafiosos e policiais de Gotham, não há porque elas facilitarem o trabalho deles matando umas as outras. Desta forma, acaba surgindo assim uma sororidade muito natural dentro daquele contexto específico e que depois se expande para um genuíno respeito após lutarem juntas em sincronia.  

Nesta lógica de sororidade, a sequência final (na qual todas estão reunidas) acaba assimilando uma movimentação que se utiliza principalmente de ataques combinados entre o grupo, ressaltando a importância do trabalho em equipe. Não só isso, como toda ação parece se equilibrar muito bem entre uma brutalidade coreografada da franquia John Wick (não à toa, já que Chad Stahelski, criador da franquia, ajudou nas filmagens) com a estética festeira de Arquelina, o que nos leva diretamente para a questão da harmonia entre o exagero e a sobriedade que se propaga pelo longa. Enquanto pernas estão sendo quebradas e rostos estão sendo cortados, confetes rosas explodem e uma trilha sonora pop fazem tudo parecer um grande videoclipe para maiores de idade, o que faz total sentido dentro da cabeça da anti-heroína.

Entre os outros elementos que Aves de Rapina nos remete ao caos mental de Harley, o principal é a maneira como a narrativa se organiza de um modo não linear. Quebrando a quarta parede ao interagir com o público, esta é uma história da protagonista para nós. Assim como alguém que está numa mesa de bar contando seus feitos, é normal uma interrupção para relembrar de algo que havia esquecido de mencionar. Além de servir como uma representação de sua cabeça embaralhada, é até interessante pensar que é a própria Arlequina esteja controlando o filme, podendo fazer o que quiser com sua linearidade e servindo até como uma outra emancipação em um nível metalinguístico. 

Falando em emancipação, além do próprio Coringa, este é um filme que tenta a todo jeito se afastar da imagem sexualizada de Margot Robbie em Esquadrão Suicida. Não há mais os planos do David Ayer que começavam nos pés da atriz e subiam até sua cabeça. Inclusive, em uma cena de assédio envolvendo Roman Sionis (Ewan McGregor alopradíssimo) e uma figurante, a diretora Cathy Yan sabe criar o terror apenas ao focar em suas pernas desnudas ou no rosto da atriz, contrastando bem a diferença que uma direção feminina faz. 

Similarmente, a própria Margot está cada vez mais confortável com o papel, sabendo abusar muito bem da falsa inocência irônica da Arlequina com suas caras e bocas sempre expansivas, além da debochada narração em off. Contudo, o melhor da personagem acaba saindo de suas interações com a jovem Cassandra Cain (Ella Jay Basco). Em uma relação de tutora e aprendiz, a menina é a primeira que trata a protagonista como alguém que existe por si só, e não intrinsecamente ligada ao Coringa, precisamente porque ela não sabe quem ele é. Nos poucos minutos em que estão juntas sem estarem sendo perseguidas, chegamos mais próximos de ver o que seria Harley como mãe — louca, mas com intenções honestas. Em contraste, todas as subtramas envolvendo as outras protagonistas nunca ganham força por si só, sempre presas a condição de tentar encaixar três mini histórias de origem, que apenas dão o básico de caracterização para que suas personagens não sejam meramente unidimensionais.

No fim, eu diria que Aves de Rapina é como ir à uma festa para beber sem moderação, mas acompanhado daquele seu amigo que te lembra de tomar água e de se controlar. Na hora, você sente raiva porque só quer curtir, mas, no dia seguinte, agradece. No meio de um passeio frenético pela mente de Harley Quinn em seu momento de empoderamento, o filme constantemente quebra sua onda lisérgica de alegria para nos lembrar que o mundo ainda é cruel com as mulheres e ainda há muito pela frente. Homens que usam de suas relações de poder para assediarem, padrastos agressores ou profissionais que tomam crédito por um trabalho feito por mulher. Aliás, nada mais irônico do que, no confronto final, todos os capangas estarem mascarados com caras de animais. Resume bem o longa como a união de mulheres que estão tentando sobreviver em ambiente predatório.

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn) – USA, 2020
Direção: Cathy Yan
Roteiro: Christina Hodson
Elenco: Margot Robbie, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell, Ewan McGregor, Rosie Perez, Ella Jay Basco, Chris Messina
Duração: 109 min.

Crítica | Jojo Rabbit

Crianças, é hora de queimar alguns livros!
– Fraulein Rahm

A comparação é inevitável. Creio ser perfeitamente possível afirmar que Taika Waititi conseguiu com seu Jojo Rabbit o mesmo tipo de feito delicado e difícil que Charles Chaplin e Mel Brooks alcançaram com, respectivamente, O Grande Ditador e Primavera para Hitler: trafegar com aparente tranquilidade no fio da navalha que é arriscar-se a satirizar o nazismo, desafiando o limite entre a humanidade e a desumanidade que deve ser o balizador para esse tipo de obra, como meu colega Luiz Santiago bem abordou em sua crítica do citado filme de Brooks. Usar a figura de Adolf Hitler e todas as atrocidades que decorrem daí para extrair risadas dos espectadores vem com o preço de se compreensivelmente pisar em calos e de se afastar alguns, ao mesmo tempo que inafastavelmente cria uma certa hesitação em todos os demais que resolverem encarar a obra até o final, hesitação essa oriunda do mero fato de rir, de até gargalhar em alguns momentos.

Jojo Rabbit conta a história de Johannes “Jojo” Betzler (Roman Griffin Davis iniciando sua carreira artística), um menino de apenas 10 anos que vive com sua mãe Rosie (Scarlett Johansson) em uma cidadezinha alemã nos estertores da Segunda Guerra Mundial depois da morte de sua irmã mais velha e da ausência do pai que foi lutar no fronte italiano. Mas Jojo foi completamente impregnado pela propaganda nazista e é um orgulhoso membro da Juventude Hitlerista ao ponto de andar fardado quase que o tempo todo, ter as paredes de seu quarto emplastradas de imagens de idolatria à tudo nazista e, como se isso não bastasse, ter ninguém menos do que o próprio Adolf Hitler (Taika Waititi) – ou uma versão dele, claro – como amigo imaginário. Nesse cenário, que conta ainda com a mentoria do Capitão Klenzendorf (Sam Rockwell) na arte da guerra, o jovem descobre a existência de Elsa (Thomasin McKenzie) uma adolescente judia em uma parede falsa no quarto de sua irmã, escondida lá por sua própria mãe.

O que segue daí é uma enternecedora história de amadurecimento em meio a um dos maiores horror que a humanidade já enfrentou e que Waititi costura sempre que pode em todas as linhas de diálogo que escreveu com base no romance Caging Skies, de Christine Leunens. O texto não esconde a lavagem cerebral dos jovens, a hipocrisia nazista e o retrato absurdo que é pintado do povo judeu, com direito a ilustrações detalhadas de como essa “raça” funciona e porque ela é tão “perigosa”, mas a forma como o diretor enfoca sua obra a enquadra, de certa forma, como um conto-de-fadas. Sei que muitos estranharão essa minha correlação em um filme com essa temática, mas é que as cores fortes especialmente do quarto da irmã de Jojo, além dos figurinos do garoto que combinam com o de sua mãe, além de diversos outros elementos cênicos e o fato de que a cidade onde vive permanece intacta quase que por toda a projeção e isso sem contar com o filtro esmaecido da fotografia de Mihai Malaimare Jr. (O MestreO Ódio que Você Semeia) e com a bela trilha sonora de Michael Giacchino, que levou o Oscar na categoria por Up – Altas Aventuras, reiteram essa abordagem do diretor que, volto a repetir, arrisca-se ao fazer isso.

O risco vem do grau de “fofura” que a fita inegavelmente tem se por um momento conseguirmos nos abstrair de toda a ambientação. O pequeno Roman Griffin Davis é em grande parte responsável por isso, com uma atuação mirim que é no mínimo espetacular, mas que aperta em todos os botões corretos para que adoremos o garoto mesmo quando ele fala as maiores barbaridades possíveis. A questão é que alguns poderão concluir – e não estarão errados, adianto logo – que Waititi tenta fazer o espectador esquecer-se momentaneamente dos horrores nazistas ao trabalhar seu filme dessa maneira mais lúdica e diretamente cômica, incluindo um desenvolvimento para Klenzendorf que é inegavelmente hilário. No entanto, tenho para mim que o diretor e roteirista, mesmo marretando algumas situações aqui e ali e fazendo uso de algumas conveniências, mantém o controle e o equilíbrio sobre sua narrativa ao balancear o que ele apresenta na forma de fábula com o estilhaçamento do conto de fadas nos 15 ou 20 minutos finais, afastando a “mera” sátira e o humor negro e recrudescendo a crítica direta, retirando o espectador do conforto que porventura estivesse, algo que até mesmo seu personagem imaginário (por si só um Hitler satírico inesquecível como o de Preacher, ainda que bem diferente) acompanha tematicamente, tornando-se cada vez mais absurdo e histérico.

Há, também, muito coração em Jojo Rabbit. A relação do menino com sua mãe é belíssima e funciona para amplificar o abismo entre a lavagem cerebral nazista e a inocência infantil, com Rosie encarando o fanatismo de seu filho com tristeza, mas sem confrontamentos que poderiam ter o efeito contrário. O mesmo vale para o jogo de aproximação de Jojo e Elsa, com momentos daqueles de rachar o coração, algo com que Giacchino quase que maquiavelicamente joga com sua trilha. Até mesmo a relação de Jojo com o Capitão Klenzendorf – rude no começo – desenvolve-se com fluidez e lógica, com diversas piscadelas importantes para a vida privada do militar caolho.

Waititi pode não ter ainda uma carreira tão longa ou ser um cineasta tão bom quanto Chaplin e Brooks, mas sua ousada sátira de época ao nazismo contribui, de sua própria maneira, para que o assunto não seja esquecido, especialmente hoje em dia em que as pessoas tendem a tratar os assuntos – simples ou complexos, inconsequentes ou graves – sem qualquer tipo de cuidado ou serenidade. Ao trazer um humor humano e inteligente para essa delicada equação, os horrores históricos são enfatizados e não diminuídos, abrindo espaço para conversas sadias ou para reflexões sobre o tema.

Jojo Rabbit (Idem, EUA/República Tcheca/Nova Zelândia – 2019)
Diretor: Taika Waititi
Roteiro: Taika Waititi (baseado em romance de Christine Leunens)
Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson, Taika Waititi, Sam Rockwell, Rebel Wilson, Alfie Allen, Stephen Merchant, Archie Yates, Luke Brandon Field, Sam Haygarth, Stanislav Callas, Joe Weintraub, Brian Caspe, Gabriel Andrews
Duração: 108 min.