Federico Blee

Crítica | Han Solo: Uma História Star Wars (Marvel Comics)

Espaço: Corellia, Frota Imperial (espaço profundo), Mimban, Vandor, Kessel, órbita e espaço ao redor de Kessel, Savareen, Numidian Prime
Tempo: 13-10 a.B.Y.

No processo de leitura das adaptações literária e em quadrinhos de Han Solo: Uma História Star Wars, vi-me apreciando mais a história de origem do personagem que, originalmente, com o anúncio do filme, tive pouco interesse em conhecer, o que pode ter influenciado minha apreciação da obra dirigida por Ron Howard. Não é o que o longa tenha magicamente se transformado em algo excelente, mas consegui gostar mais da aventura descompromissada que ele definitivamente é.

A adaptação em quadrinhos, que, no Universo Star Wars, sempre ganhou tratamento vip pela Marvel Comics (que deveria estender esse tapete vermelho para suas tenebrosas adaptações/prelúdios em quadrinhos do Universo Cinematográfico Marvel), recebeu uma abordagem ainda mais especial, com uma minissérie não das tradicionais seis edições, mas sim sete e todas elas com capas alternativas. Considerando que o filme desapontou nas bilheterias, foi uma surpresa o investimento aqui e um investimento que, devo dizer logo de início, gera dividendos na história.

Para começar, há bem mais espaço para que todas as situações do filme sejam trabalhadas com vagar e com acréscimos de outras sequências que não estão no longa ou que aparecem por lá de maneira diferente. Robbie Thompson não chega sequer a usar o material extra da adaptação literária, mas, mesmo assim, entrega uma minissérie que não só respeita o material fonte, como acrescenta a ele e, melhor ainda, consegue viver independente dele, como uma aventura espacial protagonizada por um personagem particularmente muito convencido e cheio de si aprendendo todas as lições possíveis ao longo dos três anos em que a história se passa, considerando a elipse existente entre sua fuga de Corellia e seu encontro com Beckett e sua gangue em Mimban (curiosamente, esse é o primeiro planeta do universo literário expandido de Star Wars, tendo aparecido no clássico Splinter of the Mind’s Eye, de 1978).

Cada personagem de apoio também ganha um bom espaço relativo para conectar-se com a história macro, incluindo Val e Rio Durant, com os destaques, claro, ficando com Tobias Beckett – o modelo que inspira o futuro Han Solo -, Chewbacca e Qi’ra. Até mesmo os vilões Enfys Nest e Dryden Vos, de seus respectivos jeitos próprios, claro, ganham uma abordagem que vão além de seus respectivos arquétipos. O roteirista esforça-se de maneira bem sucedida para circundar o fato de Chewie falar em grunhidos – ou, tecnicamente, Shyriiwook – algo que Gerry Duggan também conseguira fazer na minissérie solo do personagem. Sem basear-se na bengala da tradução de Han Solo por todo o tempo ou pela tradução automática entre colchetes, Thompson consegue passar a necessária mensagem só com as inflexões possíveis das onomatopeias ilegíveis que ele utiliza, algo que o trabalho de letreiramento de Joe Caramagna captura e amplifica à perfeição.

A arte de Will Sliney é outra demonstração de um capricho fora do comum até mesmo para as adaptações de longas de Star Wars da Marvel, já que o trabalho do artista é lindíssimo, com enorme cuidado nos detalhes de cada personagem e de cada equipamento utilizado na minissérie. Seus traços “pintados” embelezam os movimentos e as expressões dos personagens, funcionando inclusive para Chewie e para os terríveis seres que comandam Han e Chewie em Corellia. Além disso, seu comando da progressão de quadros é muito boa, mesmo que, por vezes, ele acabe estabelecendo elipses que podem confundir quem não estiver prestando atenção. E, apesar de ele não usar com constância, suas páginas duplas – como a da imagem da Millenium Falcon que usei para ilustrar esse artigo – cumprem maravilhosamente bem a função dupla de contar a história e de deslumbrar o leitor.

Mesmo sendo um filme que muita gente desgosta, sua adaptação em quadrinhos é uma das melhores já feitas (e olha que há diversas adaptações por aí – confiram todas elas aqui) e merece ser conferida. Quem sabe o efeito de tornar o longa mais interessante que eu senti não se repete?

Han Solo: Uma História Star Wars (Solo: A Star Wars Story, EUA – 2017)
Contendo: Solo: A Star Wars Story #1 a 7
Roteiro: Robbie Thompson
Arte: Will Sliney
Cores: Federico Blee (#1, 2, 3, 5 e 7), Andres Mossa (#3, 4 e 6), Stefani Rennee (#3 e 6)
Letras: Joe Caramagna
Capas: Phil Noto
Editoria: Tom Groneman, Mark Paniccia
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: outubro de 2018 a abril de 2019
Páginas: 162

Crítica | Star Wars: Alvo Vader

Espaço: Ficari, Coruscant, Yuw, cinturão de asteroides Fellio, Arvina, Heva, Frota Imperial, Lowik (base rebelde secreta), Ryarten (flashback), Fuacha (flashback), Mytar (flasback), Chorin (flashback), Academia Carida (flashback), Qhulosk (flashback), Mimban (flashback)
Tempo: A Rebelião – entre os eventos de Uma Nova Esperança e O Império Contra-Ataca

Valance, o caçador de recompensa ciborgue, apareceu pela primeira bem cedo no Universo Expandido de Star Wars, mais precisamente na edição #16 da primeira HQ mensal da franquia, em meados de 1978, repetindo suas aparições outras diversas vezes. O personagem, ex-Stormtrooper que teve seu corpo destroçado em combate e, depois, reconstruído muita na linha do que aconteceu com Darth Vader, sempre odiou não só o Lorde Sith como também todo e qualquer androide ou robô, fazendo questão de destruí-los sempre que tem oportunidade.

Somente muitos anos depois é que o personagem ganhou seu primeiro nome – Beilert – graças à expansão The Hunt Within: Valance’s Tale, do jogo Star Wars Miniatures, fabricado pela Wizards of the Coast e escrito por Jason Fry. E, como todo bom personagem, ele foi “ressuscitado” no novo cânone de Star Wars pela Marvel Comics, aparecendo como cadete imperial amigo de Han Solo na minissérie Han Solo: Cadete Imperial, escrito por Robbie Thompson como uma espécie de mini-expansão de sua própria adaptação em quadrinhos de Han Solo: Uma História Star Wars. E é o mesmo Thompson que coloca Beilert Valance em destaque na minissérie em seis edições Alvo Vader, em que ele e um grupo de caçadores de recompensa são contratados pela organização criminosa A Mão Escondida para assassinar Darth Vader.

É sempre complicado contar uma história cujo final conhecemos. Afinal, considerando que a aventura se passa antes dos eventos de O Império Contra-Ataca, não há nenhuma chance de Valance e companhia conseguirem matar o Lorde Sith. O que resta, portanto, é a forma como a história é contada, com Thompson aproveitando para dar mais estofo a Valance e também a cada um de seus companheiros: Honnah, uma rastreadora gamorreana, Urrr’k, uma sniper tusken, Chio Fain, um hacker ardenniano e R9-19, um androide que não demora cinco segundos e é eliminado pelo ciborgue. Além disso, o próprio Vader caça A Mão Escondida em razão da relação da organização com a Aliança Rebelde, algo que também é costurado na narrativa e que nos permite ver um lado mais sombrio, por assim dizer, daqueles que conhecemos com sendo do lado do bem.

Mas o grande objetivo do roteirista é mesmo destacar Valance como o grande estrategista invencível e durão que não economiza na loucura de seus planos para se aproximar de Vader e eliminá-lo. É, portanto, diversão descompromissada de alta octanagem para reposicionar o caçador de recompensas como mais um importante personagem do novo cânone e, ao mesmo tempo, servir de teaser para a já anunciada mensal Star Wars: Caçadores de Recompensa, que terá o ciborgue como líder e começará em março de 2019. Portanto, nesse aspecto o texto de Thompson é bem-sucedido, já que ele não se preocupa muito em complicar, mas sim, apenas, explodir e atirar.

Quando o autor arrisca-se a ir um pouco além, porém, ele se complica e entrega um resultado errático. A impressão que temos é que Valance odeia Vader, mas nenhuma razão muito específica é dada mesmo quando seu passado remoto é abordado. E o mesmo vale para a suposta origem da organização criminosa que ele caça, que recebe uma contextualização no mínimo muito estranha com a minissérie já bem avançada. Não é, de forma alguma, porém, algo mortal para a compreensão da linha bem simplista da narrativa, mas sem dúvida incomoda o leitor mais atento, até porque não eram elementos realmente necessários para o bom desenvolvimento de Valance.

No lado da arte, Alvo Vader é uma mixórdia. São nada menos do que seis desenhistas e uma penca de outros coloristas se revezando nas seis edições, cada um com seu estilo próprio, que acaba retirando qualquer traço de unicidade visual. Não são artes individualmente ruins, longe disso, com destaque para o trabalho de Marc Laming na primeira edição e para Georges Duarte na última, mas essa proliferação de artistas em uma minissérie tão curta depõe contra o resultado final e dá a impressão que tudo foi feito de qualquer jeito só para encerrar logo a história.

Como uma forma de introduzir Beilert Valance de uma vez por todas no novo Universo Estendido de Star Wars, Alvo Vader cumpre sua função e diverte de maneira rasa. Tomara que a mensal que terá o personagem em destaque, porém, tenha mais a oferecer do que apenas isso.

Star Wars: Alvo Vader (Star Wars: Target Vader, EUA – 2019)
Contendo: Star Wars: Target Vader #1 a 6
Roteiro: Robbie Thompson
Arte: Marc Laming (#1), Chris Bolson (#1 e 5), Stefano Landini (#2 a 4 e 6), Roberto Di Salvo (#5 e 6), Marco Failla (#5), Georges Duarte (#6)
Cores: Neeraj Menon (#1 a 4 e 6), Jordan Boyd (#1), Andres Mossa (#1), Federico Blee (#1 e 4), Erick Arciniega (#1), Giada Marchisio (#4), Rachelle Rosenberg (#5 e 6)
Letras: Clayton Cowles (#1 a 3), Joe Caramagna (#4 a 6)
Capas: Nic Klein
Editoria: Tom Groneman, Mark Paniccia
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 03 de julho a 11 de dezembro de 2019
Páginas: 141

Crítica | Carrascos (2019) #1: Estou em um Barco

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de House of X e Powers X, prelúdios dessa nova fase dos mutantes.

Carrascos (ou Marauders, no original) é o segundo título a ser lançado a partir de House of X e Powers of X e, considerando seu roteirista, o que menos me interessava. Afinal, Gerry Duggan, um dos queridinhos atuais da Marvel Comics não é, nem forçando a barra, um bom escritor. Os únicos momentos em que ele consegue não estragar uma história é quando pega algo completamente descerebrado como Vingadores Selvagens.

No entanto, como Carrascos não parece ser lá um título muito importante dentro de Aurora de X (Dawn of X), o mega-projeto para repaginar os mutantes capitaneado por Jonathan Hickman (que tem o cargo de Head of X na publicação, aliás), o sofrimento é, digamos assim, menor. Chego até a desconfiar que Hickman, que deve ter tido voz na distribuição dos títulos derivados de sua maxissérie, tinha consciência disso e escolheu a dedo o que entregar a Duggan.

E vejam, Carrascos não é horrível e nem mesmo ruim. É, pelo menos nessa primeira edição, passável, e muito mais pela premissa geral ser estranha do que por culpa do roteirista. Na HQ, descobrimos logo na segunda página que Kitty Pryde não consegue atravessar os portais de Krakoa que são exclusivamente dedicados a mutantes. Essa situação remete a um passado anterior ainda à fase de Hickman perante os X-Men, quando Tony Stark, em Wolverine: Adamantium Agenda, de 2018, não só descobre que o Sr. Sinistro havia copiado os DNAs de todos os mutantes do mundo (algo finalmente desenvolvido em House of X/Powers of X), como nota que um mutante aparentemente importante não era um mutante de verdade, mas sim alguém “feito” para parecer um. Tudo leva a crer que Kitty Pryde é essa não-mutante que parece mutante, algo que mudaria radicalmente sua origem e sua história.

Para minha frustração, porém, uma questão tão importante como essa não é o foco de Carrascos. Ao contrário, isso não só fica em segundo plano, como o texto de Duggan empresta uma leve camada cômica ao assunto que amplifica uma sensação de deboche que não convence em momento algum. Não vemos nem mesmo Tempestade, a grande mentora de Kitty, preocupar-se com a situação.

(1) Kitty descobrindo que não pode usar os portais de Krakoa e (2) fazendo um belo e doloroso uso de seus poderes e de uma arma.

Paralelamente, Emma Frost, líder do Clube do Inferno, agora transformado em uma empresa (Hellfire Trading Company) com o objetivo de transportar os remédios milagrosos que Charles Xavier prometeu à humanidade em troca do reconhecimento da nação mutante, recruta Kitty para ser uma espécie de bucaneira não mutante para resgatar mutantes das nações que não reconheceram Krakoa e que proíbem a imigração de seus cidadãos mutantes para a ilha viva. A premissa é interessante, mas não sua forma de execução.

Por alguma razão inexplicada, o modo de transporte eleito para essa tarefa é um navio. Considerando a tecnologia de ponta disponível aos mutantes, atravessar os Sete Mares para salvar mutantes seria bacana somente se estivéssemos lendo uma história da série 1602. Seria muito mais crível colocar Kitty e sua equipe em um jato moderno voando para lá e para cá, algo que daria acesso imediato a países que não tenham acesso ao mar, algo que costuma ser um problema intransponível para navios.

Por mais que seja em tese irresistível uma premissa baseada na imagem de piratas, esse artifício é bobo demais, mas que Duggan leva até as últimas consequências, com Kitty até mesmo manejando uma espada comum. Fica anacrônico, o que é interessante, mas também fica bobo, quase cômico, o que é bem menos interessante. E isso sem contar que seu time, por enquanto composto de Homem de Gelo, Tempestade e Pyro (o original recém-ressuscitado), além de Lockheed, claro, e em breve também Bishop, é poderoso demais, o que retira um pouco o fator dificuldade da história.

Matteo Lolli ficou encarregado da arte e ele entrega um trabalho bonito, de traços simples, com cores vivas por Federico Blee que amplificam a atmosfera anacrônica de pirataria cinematográfica. No entanto, tenho problemas com a forma com os personagens são desenhados, todos sempre com rostos muito novos, quase inexistindo diferenças entre Kitty e Emma Frost ou até mesmo Wolverine. Isso faz parte de uma mania da editora em transformar todos os seus personagens em adolescentes ou jovens adults, e a arte de Lolli é particularmente problemática nesse aspecto.

Carrascos talvez funcionasse melhor como uma minissérie, pois não sei se há história para ser contada de maneira contínua. Seja como for, espero pelo menos que, nas próximas edições, o uso de um navio seja bem justificado e, principalmente, que a natureza dos poderes de Kitty – agora Kate – Pryde sejam bem explicados.

  • Obs: Voltarei a Carrascos quando o primeiro arco for finalizado.

Carrascos #1: Estou em um Barco (Marauders #1: I’m on a Boat, EUA – 2019)
Roteiro: Gerry Duggan
Arte: Matteo Lolli
Cores: Federico Blee
Letras: Cory Petit
Design: Tom Muller
Editoria: Chris Roberson, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 23 de outubro de 2019
Páginas: 38