Evan Rachel Wood

Crítica | Frozen 2

“O passado não é o que parece ser…”

Obs.: Pode parecer meio bobo este aviso, mas se possível, evite procurar todo e qualquer detalhamento sobre a história de Frozen 2, garanto que há muita surpresa por trás, até por conta disso, a crítica buscou não falar praticamente nada sobre a trama.

Se tiver um dia coragem de maratonar as 58 animações da Disney em seu estúdio principal (algo que quem vos escreve fez), é perceptível o encaixe de 3 a 4 fases de ouro muito representativas em sua história. A primeira e mais óbvia é a de suas animações iniciais, iniciada em 1937 com Branca de Neve e os Sete Anões, passando por Pinóquio, Fantasia, Dumbo e, por fim, Bambi em 1942, sendo marcada pela agressividade moralista adjunto de uma coragem experimental das técnicas inovadoras da animação. Uma segunda fase questionável se formaria no início da década de 50 com Cinderela e encerraria em 1967 com Mogli: O Menino Lobo. Contudo, apesar da sequência de ótimas animações como Peter Pan, A Dama e o Vagabundo e 101 Dálmatas, essa não tem uma característica peculiar em comum para se concretizar como uma fase. Então, opto por considerar como segunda a que seria a terceira fase de ouro, basicamente os anos 90.

Iniciada um pouquinho antes com A Pequena Sereia, em 1989, até Tarzan em 1999, é considerada como o período mais significativo do estúdio em sequências de animações marcantes, muito pelo prisma musical espetaculoso e reorganização das figuras dos contos de fadas classicistas em locais mais abrangentes. Depois do fim dessa fase, o estúdio passou por crises de identidade graças à descoberta do 3D, frequentando um limbo de produções medianas, perdidas na criação de uma identidade única (algumas, inclusive, de que gosto muito). Isso até a união criativa com a Pixar, que começou a influenciar nas decisões de projetos, muito provavelmente a partir de 2012, com Detona Ralph, que deu um norte para o possível início de uma nova fase de ouro do estúdio – agora em 3D – que, caso historicamente se concretize, tem como pilar o primeiro Frozen, divisor de opiniões ao se arriscar na higeniezação de adeptos ultrapassados das fantasias anteriormente criadas, mas sem negá-las na estruturação das tramas (a própria crítica deste site do colega Ritter não é positiva).

É compreensível esse caráter divisivo do projeto, principalmente numa revisitada 6 anos depois, seus discursos são ansiosos e dão um ritmo passageiro aos acontecimentos, a quebra de paradigmas se expõe demasiadamente nos objetos do roteiro e os tornam um pouco previsíveis, levando em conta o contexto atual. Contudo, vejo essas características ainda como tiros muito ousados pela curva que o estúdio vinha traçando, além de serem problemáticas facilmente contornadas por um ímpeto imagético conquistador na elaboração do universo dos personagens e, principalmente, das grudentas (no bom sentido) musicalidades. Não é à toa que permanece desde o seu lançamento – sendo um filme original – como a maior bilheteria de uma animação em todos os tempos, e provavelmente deve ser ultrapassada só por sua continuação.

Seguindo a lógica do cinema atual com a constante expansão de universos, o grande temor sobre Frozen 2, que é oficialmente a terceira continuação de algo do estúdio principal, é que caísse numa área de fachada autorreferencial que Wi-fi Ralph caiu, justificando-se apenas nas menções a problemáticas modernas, sem apresentar uma continuidade coesa da história anterior dentro delas. Felizmente, isso não acontece aqui, muito pelo contrário, seguindo a lógica de fases que detalhei nos parágrafos acima, este filme representa a maturação da concepção geral de sua fase pertencente, que como dito, teve seu pilar montado no primeiro, e agora, fechado no segundo com uma maturidade surpreendente. A base da história segue um conto incompleto em que os pais das irmãs Elsa e Ana contam a elas sobre um desentendimento desconhecido entre dois povos que resultou em um desequilíbrio da natureza, futuramente ameaçando a vitalidade de Arendelle com a raiva dos quatro elementos (água, ar, fogo e terra), obviamente forçando as duas no presente a entrarem numa nova jornada em busca da verdade.

Não muito diferente do antecessor, este também irá falar sobre erros cometidos no passado, mas ao invés de os expor logo de cara para proporcionar uma desconstrução de estereótipos, o filme criará uma redoma misteriosa sobre quais “erros” especificamente estão sendo tratados, evocando cada revelação como um novo passo de interações sentimentais entre os personagens, extravagadas em músicas ainda mais expressivas e melosas, mas que dão um peso épico ao que está para ser revelado. É um contraste de escala que fatalmente atiça cada vez mais a curiosidade do telespectador, especialmente pela simplicidade das pistas e configuração dos desafios, aparentemente também fáceis no caminho, que com o decorrer do tempo vão ganhando um formato sombrio ao se conectarem com a mitologia espiritual e as consequências que a tal verdade trouxe à funcionalidade daquela sociedade. Não que o tom seja essencialmente fúnebre, existe a liricidade do alívio cômico Olaf de tecer comentários pontualmente muito engraçados e da autodepreciação de alguns elementos específicos, como o romance de Kristoph e Anna que rende uma comédia situacional divertida, além de uma música fantástica enaltecendo sarcasticamente a breguice do ultrarromantismo do conto de fadas, e ao mesmo tempo, funcionando na sua utilização para o otimismo final ser comprado.

Porém, esse romance não é o pilar, as grandes surpresas vêm principalmente quando as consequências do mistério tomam conexões inesperadamente simbólicas com a história da sociedade americana. Lembra Pocahontas na primeira camada, propondo um reajuste das pendências entre colonizador e povos locais por meio do amor, mas o texto de Buck e Lee demonstra muito mais maturidade que esse clássico no caminho dessa resolução, por saber que o conflito de egos envolvidos, geracionalmente construídos, não tem um desapego tão simplório e permeia até a quebra por grandes tomadas de decisão. Espelhadamente, essa tomada de decisão no moderno se configura como um empoderamento, algo que ambas as irmãs têm em detalhes de suas próprias personalidades, sendo também a motivação para os seus conflitos pessoais. Em outras palavras, a grandiosidade imagética da história é uma ponte para engrandecer o simbólico e necessária ao entendimento entre as duas para ser possível preencher essa lacuna histórica manchada.

Metalinguisticamente, o filme através das duas passa o aprendizado para as crianças de que a quebra de preceitos antigos, por meio do empoderamento, um dia será a responsável pela resolução de pendências históricas, atingindo ou no mínimo equilibrando a paz entre diferentes povos e ideologias que, ainda assim, podem ser unidos por uma família, mas não a tradicional que força a hereditariedade monárquica, e sim aquela formada pelo amor verdadeiro ligado ao sangue. E parando pra pensar, essa é a grade que vem fomentando esta nova fase da Disney: os espécimes diferentes de Zootopia que pertencem a um mesmo reino precisam restabelecer as colocações sociais resolvendo um mistério para que sua sociedade possa evoluir; Moana parte sozinha, mas seu objetivo é o mesmo, resolver um mistério histórico de sua cultura por meio da tomada de decisão; até mesmo Operação Big Hero fornece uma aventura em que ideologias do passado prejudicam o andamento da evolução, mesmo em um cenário de amplitude tecnológica, e a tomada de decisão à frente do protagonista é o que vai se apresentar como heroísmo.

Ver essa temática se reconfigurando nos diferentes filmes, e aqui novamente aparecendo em um formalismo encorpado e bem consciente da didática elaborada através da relação contínua por meio do storytelling, é gratificante para uma empresa que já foi conhecida por sempre pregar estereótipos raciais. De toda sua fase recente, mesmo que a princípio não seja o melhor como animação, Frozen 2 é sem dúvidas o que tem o discurso mais sutilmente encaixado e honesto da Disney, e possivelmente, no futuro será um dos seus filmes mais importantes, como o primeiro que gritou inicialmente ao admitir que estava errado, e agora pensa cautelosamente em como arranjar uma solução para se desvincular daquele erro, confrontando-se através de sua própria narrativa clássica, recheada de um sentimentalismo conquistador. Um prato cheio para qualquer tipo público que não buscou fazer sua continuação pautada no agrado fácil, mas porque tinha uma gigantesca mensagem que chama todo mundo rumo ao desconhecido para poder revelá-la.

Frozen 2 (Frozen 2, EUA – 2019)
Direção: Chris Buck e Jennifer Lee
Roteiro: Jennifer Lee
Elenco: Kristen Bell, Idina Menzel, Jonathan Groff, Josh Gad, Santino Fontana, Evan Rachel Wood, Sterling K. Brown, Alfred Molina, Martha Plimpton, Rachel Matthews e Jason Ritter
Duração: 103min

Crítica | Be Natural: A História não Contada da Primeira Cineasta do Mundo

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A História é uma disciplina que lida com a memória, o impacto e as implicações contextualizadas (antes e depois dos fatos) das realizações humanas. É através dela que diversos recortes e interpretações da realidade são possíveis, dependendo de quem e com qual intenção ou a partir de quais fontes a registra. Com isso em mente, fica fácil entender o por quê indivíduos que estudaram e pesquisaram para registrar momentos históricos podem excluir ou modificar — dependendo de sua base de informações e contexto na produção do documento — o protagonismo de uma grande realização. Exatamente como os primeiros historiadores do cinema fizeram com a pioneira Alice Guy Blaché, considerada a primeira mulher cineasta do mundo, diretora de centenas de filmes (447, segundo o IMDB) dos quais, por muitos anos, ela não recebeu os devidos créditos.

Em Be Natural: A História não Contada da Primeira Cineasta do Mundo (2018), a diretora Pamela B. Green e sua co-roteirista Joan Simon fazem um belíssimo exercício de retomada histórica, indo diretamente nas fontes originais (fontes orais, escritas, filmadas ou gravadas) para contar a trajetória cinematográfica de Guy Blaché, indo de seu trabalho inicial como secretária de Léon Gaumont até a luta, nos anos finais de sua vida, para reaver os filmes perdidos com o tempo e conseguir a justa indicação dos créditos nos filmes que dirigiu e que constantemente foram atribuídos aos seus assistentes de direção ou cineastas que nem estavam no local das filmagens no dia em que Alice rodou a obra.

Mesmo que outras mulheres pioneiras sejam citadas com a devida importância para os primeiros passos do cinema, como Lois Weber (Mrs. Smalley) — a primeira diretora americana –, Germaine Dulac e Dorothy Arzner, o documentário não se perde e está sempre retornando ao seu tema principal, que é a diretora francesa. A narração que nos guia por diversos lugares e tempos é realizada por Jodie Foster, que igualmente assina como uma das produtoras executivas da fita.

Pamela Green adota um estilo extremamente dinâmico, rico em imagens, vídeos, áudios, fotografias, documentos e trechos de filmes da homenageada (até cenas do excelente Algie, the Miner aparecem aqui), mas não toma tempo demais com esses filmes na tela, como muitas vezes acontecem em documentários, onde até mais de 5 minutos por vez são consumidos com a exibição de cenas de um outro filme, o que é um grande absurdo. Há aqui em Be Natural um grande equilíbrio entre material de arquivo e a própria construção do filme, com registro da busca por informações sobre Alice, colocando Green em contato com diversos parentes próximos e distantes e algumas belas surpresas e descobertas no meio do caminho.

Se olharmos com atenção para o final do filme, perceberemos uma corrida maior e uma ausência de toda a elegância na demonstração de informações que tivemos ao longo de toda a sessão, o que impede que o longa alcance uma nota máxima. Esse aspecto técnico, todavia, em nada interfere na relevância e necessidade do tipo de informação que temos aqui. Aspectos da História do Primeiro Cinema na França e nos Estados Unidos são explorados, assim como a descoberta de diretores que foram marcados e até influenciados por Alice, como Eisenstein e Hitchcock; completando com mudanças e criações tecnológicas da indústria com o passar do tempo, o escanteamento das mulheres no papel criativo do cinema a partir dos anos 30 e o registro ou apagamento de seus feitos em livros, artigos, reportagens, aulas e discursos… tudo isso é discutido aqui, trazendo-nos no fim a felicidade de ver um nome como o de Alice Guy Blaché finalmente ser conhecido e reconhecido pelo que representou para a Sétima Arte.

Be Natural: A História não Contada da Primeira Cineasta do Mundo (Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché) — EUA, 2018
Direção: Pamela B. Green
Roteiro: Pamela B. Green, Joan Simon
Elenco: Richard Abel, Marc Abraham, Stephanie Allain, Gillian Armstrong, John Bailey, Cari Beauchamp, Lake Bell, Peter Billingsley, James Bobin, Serge Bromberg, Kevin Brownlow, Jon M. Chu, Diablo Cody, Bobby Cohen, Julie Corman, Geena Davis, Julie Delpy, Lorenzo di Bonaventura, Ava DuVernay, Jodie Foster, Michel Hazanavicius, Patty Jenkins, Ben Kingsley, Andy Samberg, Marjane Satrapi, Julie Taymor, Agnès Varda, Evan Rachel Wood
Duração: 103 min.