Erick Arciniega

Crítica | Star Wars: Alvo Vader

Espaço: Ficari, Coruscant, Yuw, cinturão de asteroides Fellio, Arvina, Heva, Frota Imperial, Lowik (base rebelde secreta), Ryarten (flashback), Fuacha (flashback), Mytar (flasback), Chorin (flashback), Academia Carida (flashback), Qhulosk (flashback), Mimban (flashback)
Tempo: A Rebelião – entre os eventos de Uma Nova Esperança e O Império Contra-Ataca

Valance, o caçador de recompensa ciborgue, apareceu pela primeira bem cedo no Universo Expandido de Star Wars, mais precisamente na edição #16 da primeira HQ mensal da franquia, em meados de 1978, repetindo suas aparições outras diversas vezes. O personagem, ex-Stormtrooper que teve seu corpo destroçado em combate e, depois, reconstruído muita na linha do que aconteceu com Darth Vader, sempre odiou não só o Lorde Sith como também todo e qualquer androide ou robô, fazendo questão de destruí-los sempre que tem oportunidade.

Somente muitos anos depois é que o personagem ganhou seu primeiro nome – Beilert – graças à expansão The Hunt Within: Valance’s Tale, do jogo Star Wars Miniatures, fabricado pela Wizards of the Coast e escrito por Jason Fry. E, como todo bom personagem, ele foi “ressuscitado” no novo cânone de Star Wars pela Marvel Comics, aparecendo como cadete imperial amigo de Han Solo na minissérie Han Solo: Cadete Imperial, escrito por Robbie Thompson como uma espécie de mini-expansão de sua própria adaptação em quadrinhos de Han Solo: Uma História Star Wars. E é o mesmo Thompson que coloca Beilert Valance em destaque na minissérie em seis edições Alvo Vader, em que ele e um grupo de caçadores de recompensa são contratados pela organização criminosa A Mão Escondida para assassinar Darth Vader.

É sempre complicado contar uma história cujo final conhecemos. Afinal, considerando que a aventura se passa antes dos eventos de O Império Contra-Ataca, não há nenhuma chance de Valance e companhia conseguirem matar o Lorde Sith. O que resta, portanto, é a forma como a história é contada, com Thompson aproveitando para dar mais estofo a Valance e também a cada um de seus companheiros: Honnah, uma rastreadora gamorreana, Urrr’k, uma sniper tusken, Chio Fain, um hacker ardenniano e R9-19, um androide que não demora cinco segundos e é eliminado pelo ciborgue. Além disso, o próprio Vader caça A Mão Escondida em razão da relação da organização com a Aliança Rebelde, algo que também é costurado na narrativa e que nos permite ver um lado mais sombrio, por assim dizer, daqueles que conhecemos com sendo do lado do bem.

Mas o grande objetivo do roteirista é mesmo destacar Valance como o grande estrategista invencível e durão que não economiza na loucura de seus planos para se aproximar de Vader e eliminá-lo. É, portanto, diversão descompromissada de alta octanagem para reposicionar o caçador de recompensas como mais um importante personagem do novo cânone e, ao mesmo tempo, servir de teaser para a já anunciada mensal Star Wars: Caçadores de Recompensa, que terá o ciborgue como líder e começará em março de 2019. Portanto, nesse aspecto o texto de Thompson é bem-sucedido, já que ele não se preocupa muito em complicar, mas sim, apenas, explodir e atirar.

Quando o autor arrisca-se a ir um pouco além, porém, ele se complica e entrega um resultado errático. A impressão que temos é que Valance odeia Vader, mas nenhuma razão muito específica é dada mesmo quando seu passado remoto é abordado. E o mesmo vale para a suposta origem da organização criminosa que ele caça, que recebe uma contextualização no mínimo muito estranha com a minissérie já bem avançada. Não é, de forma alguma, porém, algo mortal para a compreensão da linha bem simplista da narrativa, mas sem dúvida incomoda o leitor mais atento, até porque não eram elementos realmente necessários para o bom desenvolvimento de Valance.

No lado da arte, Alvo Vader é uma mixórdia. São nada menos do que seis desenhistas e uma penca de outros coloristas se revezando nas seis edições, cada um com seu estilo próprio, que acaba retirando qualquer traço de unicidade visual. Não são artes individualmente ruins, longe disso, com destaque para o trabalho de Marc Laming na primeira edição e para Georges Duarte na última, mas essa proliferação de artistas em uma minissérie tão curta depõe contra o resultado final e dá a impressão que tudo foi feito de qualquer jeito só para encerrar logo a história.

Como uma forma de introduzir Beilert Valance de uma vez por todas no novo Universo Estendido de Star Wars, Alvo Vader cumpre sua função e diverte de maneira rasa. Tomara que a mensal que terá o personagem em destaque, porém, tenha mais a oferecer do que apenas isso.

Star Wars: Alvo Vader (Star Wars: Target Vader, EUA – 2019)
Contendo: Star Wars: Target Vader #1 a 6
Roteiro: Robbie Thompson
Arte: Marc Laming (#1), Chris Bolson (#1 e 5), Stefano Landini (#2 a 4 e 6), Roberto Di Salvo (#5 e 6), Marco Failla (#5), Georges Duarte (#6)
Cores: Neeraj Menon (#1 a 4 e 6), Jordan Boyd (#1), Andres Mossa (#1), Federico Blee (#1 e 4), Erick Arciniega (#1), Giada Marchisio (#4), Rachelle Rosenberg (#5 e 6)
Letras: Clayton Cowles (#1 a 3), Joe Caramagna (#4 a 6)
Capas: Nic Klein
Editoria: Tom Groneman, Mark Paniccia
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 03 de julho a 11 de dezembro de 2019
Páginas: 141

Crítica | Excalibur (2019) #1: A Acolada de Betsy Braddock

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de House of X e Powers X, prelúdios dessa nova fase dos mutantes.

Depois de House of X, Powers of X, X-Men #1 e Carrascos #1, publicações que tradicionalmente têm uma pegada de ficção científica e que Jonathan Hickman, mais conhecido como o coordenador dessa nova era, nem de longe quer esconder (e nem deveria), eis que vem Excalibur para permitir que um pouco de magia invada essa nova ordem mundial dos mutantes. E essa primeira edição, escrita por Tini Howard, sacode um pouco o status quo por ser basicamente uma história de origem, mas uma origem de uma troca de gênero que já aconteceu antes: a transformação de Betsy Braddock, ex-Psylocke, na Capitã Britânia (confesso que prefiro Bretanha, pois Britânia é marca de eletrodoméstico…).

Começando a ação em Camelot, Howard logo estabelece que o castelo está sendo atacado por forças invasoras ainda não completamente reveladas e que Morgana Le Fay, na ausência de Arthur Pendragon, cuida da defesa. No entanto, há algo de estranho acontecendo com seu espelho d’água que é a origem da magia na região, já que um portal de origem vegetal foi misteriosamente aberto, drenando o poder. A conexão com Krakoa é evidente, mas a diferença é que esse portal é de Camelot para a ilha viva e não o contrário, pelo que Krakoa em si não parece ter nada a ver com ele.

Do lado de cá, Apocalipse, agora um amor de mutante, percebe esse fenômeno e, aos poucos, reúne um grupo para investigar o ocorrido: Vampira, que pode neutralizar a magia de Morgana que impede a abertura do portal por Krakoa; Gambit, que basicamente fica grudado em Vampira; Jubileu, que foi a última pessoa a falar com Betsy quando ela brevemente visita a ilha e Trinária, sua assistente. Tudo acontece com uma certa lentidão e sem maiores explicações, com uma narrativa paralela lá na Academia Braddock que serve para estabelecer novamente o relacionamento entre os gêmeos Brian e Betsy, com os dois, respondendo a um chamado de Camelot, teletransportando-se para Otherworld.

A dinâmica desse primeiro número é um pouco engessada e os eventos que levam à transformação de Besty em Capitã Britânia um pouco corridos demais, isso sem contar que são levemente confusos e misteriosos demais, algo que eu sei que é natural para uma primeira edição, mas que poderia ter sido melhor conduzido pelo roteiro de Howard se ela não tivesse perdido tanto tempo com as divertidas farpas trocadas entre Gambit e Apocalipse, dentre outros desvios. Ou isso ou, melhor ainda, ela talvez devesse ter esperado pelo menos mais uma edição para efetivar a transformação, dando mais tempo para o leitor absorver a história.

Mesmo assim, há um sabor especial nessa história que está no fato de ela, apesar de conectada com toda a chamada Aurora de X, ou Dawn of X, não mostra, pelo menos aqui, ter uma ligação tão umbilical assim, nada que, por exemplo, decorra diretamente do que vimos nas duas minisséries que antecederam a nova linha editorial dos mutantes, como é o caso de Carrascos. Claro que a questão do portal em si é a conexão direta com tudo o que Hickman apresentara, mas Excalibur parece oferecer, com sua magia, com seu outro mundo, um refresco conducente a uma história razoavelmente independente especialmente em razão de toda a ação em Camelot, que também afeta diretamente o Capitão Britânia original e sua relação com Morgana.

Além disso, apesar de Howard carregar na exposição e no leve tom cômico em relação a Apocalipse e seu nome impronunciável, a autora tem o perfeito controle das personalidades que trabalha. É por isso que o antagonismo de Gambit com En Sabah Nur funciona bem, assim como o lado romântico do cajun com Vampira que envolve até mesmo uma linha de diálogo sobre ter filhos. Betsy e Brian Braddock também são bem explorados, ainda que eu sempre vá preferir a personalidade mais arisca e silenciosa da “outra” Betsy.

A arte de Marcus To, com cores de Erick Arciniega, captura o espírito do que Jonathan Hickman quis imprimir à sua nova era perante os mutantes, estabelecendo uma boa identidade visual, mas a dupla nunca se esquiva de construir em cima e de soltar-se no lado de “conto de fadas sombrio” da história, inclusive escurecendo as tonalidades e marcando mais os traços físicos dos personagens em Camelot, algo que contrasta fortemente com, por exemplo, a relação dos gêmeos na Academia Braddock ou mesmo quando o gigantesco Apocalipse entra em cena em Krakoa.

O novo e bem diferente Excalibur promete muita diversão com essa primeira edição, reunindo tecnologia com magia de maneira orgânica, além de reunir um grupo potencialmente muito interessante. Será particularmente rico ver como a narrativa mágica de Camelot será costurada à da nova nação mutante na Terra, já que são literalmente dois mundos bem diferentes. Tenho certeza, porém, que há um plano master em movimentação para que isso aconteça, ainda que não fosse fazer mal se as histórias permanecessem razoavelmente separadas por mais algum tempo.

  • Obs: Voltarei a Excalibur quando o primeiro arco for finalizado.

Excalibur #1: A Acolada de Betsy Braddock (Excalibur #1: The Accolade of Betsy Braddock, EUA – 2019)
Roteiro: Tini Howard
Arte: Marcus To
Cores: Erick Arciniega
Letras: Cory Petit
Design: Tom Muller
Editoria: Annalise Bissa, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 30 de outubro de 2019
Páginas: 38