Eric Heisserer

Crítica | Bloodshot (2020)

Depois de emprestar sua voz para Groot, o alienígena arbóreo do Universo Cinematográfico Marvel, Vin Diesel volta ao mundo dos super-heróis dos quadrinhos para encarnar Raymond Garrison, codinome Bloodshot, personagem criado em 1992 por Kevin VanHook, Bob Layton e Don Perlin e publicado pela Valiant Comics, em um filme que prometia ser o começo de mais um universo compartilhado. Mas, juntamente com Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica, o pretenso blockbuster ficou aquém das expectativas de arrecadação muito em razão da pandemia da Covid-19, acarretando seu lançamento bem adiantado em vídeo sob demanda.

Em muitos aspectos, o personagem, como retratado no filme, assemelha-se a Wolverine, já que ambos compartilham de um “fator de cura” que os torna quase imortais e ambos têm, eufemisticamente, problemas de memória. Claro que, diferente do Carcaju canadense, Bloodshot não é mutante, mas sim o resultado da injeção de nano-robôs em seu sangue que lhe dá a capacidade de literalmente reconstruir-se integralmente, além da conveniente superforça e a mais conveniente ainda conexão automática com a internet e, dali, a praticamente todos os computadores do mundo.

Essas características, claro, são perfeitas para um show ininterrupto de CGI que Bloodshot se esmera em entregar, ainda que muitas vezes o exagero extremo das sequências de ação acabe revelando alguns problemas bastante visíveis em termos de movimentação e renderização de personagens. Mas não é nada que outras obras carregadas de computação gráfica e pancadaria super-heroística não sofram por aí, pelo que é perfeitamente possível chegar ao final com uma sensação razoável de que até que não foi perda completa de tempo assistir ao longa.

E a principal razão para ele ser aproveitável é a forma inteligente como ele perverte as expectativas sobre o que é um filme de origem de super-heróis. O que parece ser um prelúdio burocrático do soldado fortão que tem sua esposa brutalmente assassinada, catalisando sua transformação, acaba sendo utilizado dentro do roteiro como o catalisador de uma reviravolta narrativa que, diferente das demais, acontece ainda no primeiro terço, tornando tudo bem mais interessante, em retrospecto, do que algo meramente no automático do tipo que já vimos mil vezes por todos os cantos.

Mas calma. Não estou dizendo, com isso, que Bloodshot é o supra-sumo do subgênero, pois ele está muito, mas muito longe disso. Há muito clichê e o filme todo é uma amálgama de um sem-número de outras obras, o que por si só não é um problema muito sério quando bem utilizado. Acontece que o filme todo é quase que uma pancadaria única, com apenas uma delas – a que acontece mais para o começo, em um túnel, com fotografia vermelha – realmente destacando-se. Com isso, não existe nada nem próximo a desenvolvimento de personagem e a inexpressividade de Vin Diesel – nem carismático o sujeito é – não ajuda na conexão com seu indestrutível Wolverine sob efeito de esteroides. Por outro lado, seria leviano de minha parte simplesmente ignorar o “começo que não é começo” que citei mais acima como um diferencial que, querendo ou não, prende a atenção tempo o suficiente para que um engajamento mínimo ocorra, nem que seja para ver o quanto de despedaçamento Bloodshot aguenta.

Dave Wilson, na direção de seu primeiro longa, sabe que não tem gabarito para a tarefa e limita-se a fazer o que seu currículo diz que ele sabe fazer: computação gráfica. Com uma carreira quase que integralmente composta de trabalhos nos mais diversos games, ele faz de seu filme um game de 109 minutos que tem a vantagem de não deixar o espectador pensar. Essa é a estratégia, aliás, de praticamente todos os filmes com Vin Diesel, especialmente a também imortal franquia Velozes e Furiosos, pelo que não faria sentido mudar logo agora. E, quando se exige que o espectador pense, o que sobra é o visual e, se não formos muito exigentes, o que o cineasta entrega é digno, ainda que nunca verdadeiramente sensacional, fora de série ou inovador.

Alguém pode querer saber do restante do elenco, mas confesso que Eiza González, Sam Heughan e Alex Hernandez como os outros soldados “aumentados” do grupo de Bloodshot são tão inexpressivos, com seus personagens completamente fungíveis não sendo mais do que a raspa do tacho narrativo, que não há muito o que dizer, na verdade. Talvez, apenas, que a existência deles fosse completamente desnecessária no filme. Somente Guy Pearce tem alguma capacidade dramática ali, mas seu Dr. Emil Harting, cientista com um braço de Exterminador do Futuro responsável pela ressurreição do protagonista, é um recorte em cartolina desse tipo de personagem que chega a dar vontade de bocejar quando ele aparece em tela.

Como começo de um possível Universo Cinematográfico Valiant, Bloodshot desaponta por não conseguir realizar seu potencial. Como filme de ação super-heroística descerebrada carregado de CGI, ele passa raspando unicamente porque seu começo é razoavelmente diferente do que se pode esperar.

Bloodshot (Idem, EUA/China – 2020)
Direção: Dave Wilson
Roteiro: Jeff Wadlow, Eric Heisserer (baseado em criação de Kevin VanHook, Bob Layton e Don Perlin)
Elenco: Vin Diesel, Eiza González, Sam Heughan, Toby Kebbell, Talulah Riley, Lamorne Morris, Guy Pearce, Siddharth Dhananjay, Tyrel Meyer, Alex Hernandez
Duração: 109 min.