Ennio Flaiano

Crítica | A Trapaça (1955)

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estrelas 4

Há um ditado popular que diz: “um dia é da caça, o outro do caçador”. O significado desta frase dá conta de que em algum momento, quem faz sofrer (o caçador), também sofrerá. E esta é mais ou menos a impressão geral que temos ao racionalizarmos sobre A Trapaça (1955) de Federico Fellini. O filme praticamente volta ao ambiente boêmio e de vagabundagem ou ganho de dinheiro fácil que o diretor trabalhara em Os Boas-Vidas, mas desta vez o destino dos personagens principais é bem diferente. Enquanto no filme de 1953 o diretor abordou um ambiente mais jovem, de homens que chegavam à uma idade em que era importante ter algo seu ou alguma realização pessoal em suas vidas, neste A Trapaça, temos uma espécie de “destino final” para aqueles que continuaram na boa e solitária vida de descompromisso.

O personagem amargurado como o de Augusto (notavelmente interpretado por Broderick Crawford) é o futuro dos jovens boêmios que não quiseram abandonar suas vidas e tentar construir algo mais sólido para a posteridade – o que não necessariamente envolve casamento e filhos, apenas a realização de um projeto pessoal de vida, que considera amadurecimento e melhor reflexão sobre o que é importante e o que é supérfluo. O resultado? Uma velhice de golpes e pequenos outros crimes.

Aparentemente trata-se de uma grande e chateante lição de moral, mas não é nada disso. A ligação entre Os Boas-Vidas e A Trapaça é mais um exercício de comparação e observação do que um julgamento do próprio Fellini sobre o ‘ser gatuno’ e o vagabundo ou gigolô assumido. O diretor apresenta um ponto máximo de vitalidade no primeiro filme, e nesse segundo, uma espécie de realidade em que a tomada de consciência chega para uma pessoa. Dependendo do momento em que isso acontece, o indivíduo se livra de seu passado e consegue arquitetar uma nova vida (mesmo que seja colhendo os frutos de todos os roubos cometidos no passado, tornando-se um “respeitado cidadão”, como o velho amigo de Augusto).

O foco central de A Trapaça é um pequeno grupo de homens que aplicam golpes a camponeses ou suburbanos de Roma. Os golpes meio que se repetem no decorrer do tempo, apenas o local é diferente. Num primeiro momento a relação dos golpistas é parecida com a dos boas-vidas, à exceção da amizade, que no presente filme se resume apenas a um coleguismo. O ponto de partida para as mudanças é a festa de réveillon em que a tríade inicial de trapaceiros participa. Um evento ali ocorrido gira a roda da fortuna e todos parecem ser atingidos por um dardo de reflexão sobre seus atos.

Picasso é o primeiro a se retirar do grupo. Sua partida, no entanto, é patética e mostra uma das poucas fraquezas do roteiro de A Trapaça: o desaparecimento de personagens. Embora possamos imaginar que destino tomaram ou para onde foram Picasso e Roberto, não temos isso trabalhado no roteiro, apenas citado rapidamente — no caso do destino de Roberto –, já na reta final. Após a noite no parque de diversões, as coisas mudam para os golpistas e vemos o jogo da sorte virar para Augusto.

Esse conflito moral das personagens não deixa de ser interessante, mas desacelera o ritmo do longa (porque precisa de maior atenção para ser satisfatoriamente exposto) e frustra as expectativas do público em relação à promessa do texto, especialmente no seu desfecho — que devido a essa alteração de foco e tratamento de personagens do meio para frente, perde um pouco sua força narrativa. O resultado final, todavia, é muito bom e se vale da construção dramática pela maravilhosa trilha de Nino Rota e também pela ótima direção de Fellini. Um filme sobre maturidade que dialogava, em certos aspectos, com as mudanças pelas quais também passava o diretor. A partir daqui, muita coisa mudaria em sua abordagem na direção. Um caso de meteórico amadurecimento de um cineasta.

  • Crítica originalmente publicada em 18 de junho de 2013. Revisada para republicação em 24/02/2020, como parte da versão definitiva do Especial Federico Fellini aqui no Plano Crítico.

A Trapaça (Il Bidone) – Itália, França, 1955
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli
Elenco: Broderick Crawford, Giulietta Masina, Richard Basehart, Franco Fabrizi, Sue Ellen Blake, Irene Cefaro, Alberto De Amicis, Lorella De Luca, Giacomo Gabrielli, Riccardo Garrone
Duração: 112 min.

Crítica | A Estrada da Vida

estrelas 5

A Estrada da Vida marca o primeiro grande sucesso de Fellini e, também, o começo de uma trilogia existencialista do diretor que seria seguida de A Trapaça, terminando em Noites de Cabíria. Os três filmes contam com Giulietta Masina, esposa de Fellini por toda a vida, em papel de grande destaque e usam personagens como símbolos da luta para a recomposição moral da humanidade.

Masina vive a humilde e inocente Gelsomina, que é vendida por sua mãe para o brutamontes Zampanò (Anthony Quinn), um artista de circo que vive em sua carroça fazendo pequenos shows em vilarejos, normalmente envolvendo força bruta, como quebrar correntes e coisas do gênero. O contraste é evidente: fragilidade x força bruta, inocência x malícia, sonhos x realidade. Os dois passam a viajar e viver juntos, sempre com Zampanò desdenhando cruelmente Gelsomina e Gelsomina seguindo Zampanò como um cordeiro.

No meio dessa relação, surge Il Matto (“o bobo”), vivido por Richard Basehart. Ele é o artista galante que Zampanò odeia sem nenhuma razão específica além do evidente contraste entre os dois. O espectador logo percebe que uma tragédia se avizinha e que a maior vítima, provavelmente, será a frágil Gelsomina.

Mais do que uma história linear, A Estrada da Vida é um estudo da alma humana e da necessidade que temos de salvação. Gelsomina acha que Zampanò pode ser sua salvação e nós sabemos que isso jamais poderia acontecer. O coração tolo da inocente mulher não pode ver como Zampanò é cruel e despido de qualquer forma de amor. Ele é a força bruta, o ser humano em sua pior forma. Ela, ao contrário, é o ser humano puro, despido de maldade, completamente à mercê de gente como Zampanò. E o bobo, com suas atitudes brincalhonas, mas não inocentes, também traz um aspecto do ser humano: a sabedoria. Mas é uma sabedoria trágica.

Masina, saindo de seu curto papel da prostituta Cabíria em Abismo de um Sonho de Fellini, papel esse que viria a maravilhosamente expandir em 1957, tem uma atuação absolutamente irretocável. Ela transparece delicadeza, inocência, tristeza e compreensão (e perdão) como ninguém jamais conseguiu repetir. Sua Gelsomina é uma espécie de versão feminina de Carlitos, de Charlie Chaplin, mas sem a fisicalidade do papel. Sabemos que ela é o que representa sem que seja necessária uma só palavra.

Da sua maneira, o mexicano Anthony Quinn, que dez anos depois viria alcançar seu mais inesquecível papel em Zorba, o Grego, faz uma espécie de Hércules de filmes B. Grandalhão e forte, ele arrebenta correntes inflando o peito e corações com suas palavras. Ele é uma força da natureza completamente sem controle. Uma locomotiva sem freios que só pausa para pensar e refletir quando já é tarde demais, quando sua única chance de salvação vai embora. E, mesmo assim, Fellini consegue um feito extraordinário no tocante final de A Estrada da Vida, ao usar a câmera para dar ambiguidade a esse personagem tão terreno, tão maltratado pela vida. Zampanò ama ou não ama Gelsomina? Ele está mesmo arrependido do que fez? Entende o que ele é? Essas perguntas ficam para o espectador pensar.

Aliás, a beleza desse filme é nos despir completamente como seres humanos e brincar com nossos sentimentos mais escondidos. E a música de Nino Rota, solidificando sua profícua e longa parceria com Fellini, é um elemento importante para ajudar na contemplação do ser humano. Forte ao representar Zampanò, Rota não nos deixa esquecer de sua contrapartida mais frágil e flutua entre leitmotifs sem nunca perde o rumo, arrancando lágrimas sem muito esforço.

O filme foi justamente laureado com diversos prêmios, entre eles o Leão de Prata de Veneza, sendo o primeiro dos quatro Oscars do diretor na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Mas nenhum prêmio é capaz de eficientemente refletir a importância de A Estrada da Vida para o cinema moderno.

A Estrada da Vida (La Strada, 1954)
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano
Elenco: Anthony Quinn, Giulietta Masina, Richard Basehart, Aldo Slivani, Marcella Rovere, Livia Venturini
Duração: 108 min.

Crítica | Os Boas Vidas

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Federico Fellini assumiu pela primeira vez a direção de um filme ao lado de Alberto Lattuada, em Mulheres e Luzes (1950). Dois anos depois ele fez o seu primeiro voo solo, em Abismo de um Sonho, início interessante para uma carreira no cinema, trazendo uma história com elementos de fantasia, sonho, desejos e relações amorosas… além do delicioso toque metalinguístico, algo que o diretor sempre prezou e que traria à tona na maior parte de suas produções futuras.

Os Boas Vidas não estava na pauta de Fellini, quando terminada a produção de Abismo de um Sonho. O roteiro que ele tinha escrito e que foi recusado pelo produtor era o de A Estrada da Vida, então taxado de “muito sério” e escanteado pelo estúdio. Em contrapartida, foi oferecido ao diretor um orçamento para que ele realizasse uma comédia, desafio que ele enfrentaria ao lado de outros dois roteiristas, Ennio Flaiano e Tullio Pinelli. Os Boas-Vidas teve uma acolhida absurdamente calorosa da crítica e do público, sendo indicado ao Oscar de Melhor Roteiro e vencendo o Leão de Prata no Festival de Veneza. A história de um grupo de amigos em uma cidade do interior trazia algumas lembranças caras a Fellini, algo que é ainda ressaltado pela presença de seu irmão no elenco, Riccardo.

De forma geral, Os Boas Vidas mostra a vida adulta dos “jovens da guerra”. Sem perspectiva ou vontade de emplacar um projeto familiar, esses adultos ociosos e vagabundos alternam um presente cheio de divertimento, bebedeiras, caminhadas nas madrugadas, carnavais, apostas e relacionamentos casuais, enquanto a idade passa e parece que o amadurecimento deles não acompanha essa passagem. Em dado momento do filme um dos personagens diz ao outro: “nós precisamos casar“, tendo em mente aí o poder do matrimônio como possível iniciador de uma vida de trabalho, compromisso e responsabilidade.

Mas para esse grupo, nem o matrimônio parece o início de uma nova fase da vida, basta atentarmos para o casamento de um deles e o modo como levava sua relação com a esposa, vivendo na casa dos sogros e praticamente entregando a criação do filho à família, enquanto sua preocupação essencial é sentir-se jovem, ter casos com diversas mulheres e viver como um solteiro boêmio. Durante todo o filme — e essa é uma fala que aparece no desfecho, de maneira direta — aparece a possibilidade de deixarem essa cidade, irem para Roma ou outro lugar, onde um possível emprego ou a mudança de ares poderia mudar tudo. Mas apenas dois personagens conseguem livrar-se da comodidade do lugar e da vida fácil e sem muitos desafios.

Todavia, existe também o outro lado, o lado pessoal de cada um, a melancolia e angústia que paira em suas vidas, mesmo em momentos de diversão, como é o caso do carnaval ou o concurso de Miss, no início da fita. Embora rodeados de gente, os boas vidas vivem às voltas com seus interesses particulares, o evidente marasmo e inutilidade de suas existências, excetuando-se aí a personagem de Leopoldo, o escritor, que consegue ter sua comédia lida por um grande ator, mas que foge deste após segui-lo para uma região escura da cidade e julgar ser assediado sexualmente – a fuga é de uma inocência assombrosa para um homem com a idade de Leopoldo, que normalmente diria ao ator que não era homossexual e a coisa então se resolveria ali.

Fellini faz aqui uma comédia dramática de alcance atemporal. As situações mostradas no filme são repetidas ainda hoje, bem como o destino incerto de boa parte dos jovens que confiam demais nas provisões familiares para se sustentarem. Com uma fotografia belíssima e ótima trilha sonora de Nino Rota (em sua segunda parceria com Fellini), Os Boas Vidas é um ode à boemia, à tentativa de jovens alcançarem um caminho socialmente apreciado, o insucesso dessa empreitada, a presente angústia e a incerteza final — o próprio narrador diz que nós podemos imaginar o destino dos outros, mas eis aí a questão, temos cartas demais na mesa para podermos escolher uma só, ou simplesmente a mais fácil. No final das contas, há um grande ponto de interrogação, um término digno de todos os elogios recebidos e a prova máxima de que ali estava o produto de um gênio do cinema.

  • Crítica originalmente publicada em 16 de maio de 2013. Revisada para republicação em 03/02/2020, como parte da versão definitiva do Especial Federico Fellini aqui no Plano Crítico.

Os Boas Vidas (I Vitelloni) — Itália, França, 1953
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Ennio Flaiano (baseado em história de Tullio Pinelli)
Elenco: Franco Interlenghi, Alberto Sordi, Franco Fabrizi, Leopoldo Trieste, Riccardo Fellini, Leonora Ruffo, Jean Brochard, Claude Farell, Carlo Romano, Enrico Viarisio, Paola Borboni, Lída Baarová, Arlette Sauvage, Vira Silenti, Maja Niles
Duração: 109 min.

Crítica | Abismo de um Sonho

Abismo de um Sonho marca a primeira vez que Federico Fellini dirigiu um filme sozinho, já que sua estreia atrás das câmeras se deu em regime de co-direção em Mulheres e Luzes, ao lado de Alberto Lattuada. Só que, mais importante do que isso, o filme marca a primeira vez que Fellini aborda um tema recorrente em sua maravilhosa filmografia: a oposição da realidade e sonho.

A história é simples: um casal recém-casado vai passar uma e curta e atarefada lua-de-mel em Roma. Ivan Cavalli (Leopoldo Trieste) quer apresentar sua esposa à sua respeitada família. Wanda Cavalli (Brunella Bovo), por sua vez, tem um sonho: conhecer pessoalmente o Xeque Branco (que é inclusive o título original do filme) ou, mais precisamente o “ator” de fotonovelas (aqueles que forem muito novos, pesquisem para descobrir o que é essa curiosa forma de arte) Fernando Rivoli (Alberto Sordi). Quando Wanda sai de fininho para ir até o “estúdio” onde as fotonovelas são escritas, ela se envolve em uma sequência de acontecimentos que a impede de voltar para o marido que, claro, se desespera e tenta a todo custo impedir que sua família descubra sua desgraça.

Estabelecida a situação acima em não mais do que dez minutos, Fellini, então, biparte seu filme. De um lado, a realidade. Nela, vemos Ivan tentando, a todo custo, descobrir onde é que foi parar sua esposa ao mesmo tempo em que dribla a atenção de sua família dizendo que ela adoecera e ficara no quarto. Usando um bigode e um sobretudo claro, Leopoldo Trieste vive um Ivan que é uma espécie de antecessor do Inspetor Jacques Clouseau, magnífico personagem que seria criado por Peter Sellers em 1963: atrapalhado, de olhos esbugalhados e um tanto inocente.

Do outro lado, o sonho. Não se enganem, pois não é sonho propriamente dito, com imagens oníricas do subconsciente, mas sim a realidade vista pelos olhos sonhadores de Wanda que vai atrás de sua obsessão heroica, o tal Xeque Branco. Em sua ingenuidade, ela não consegue verdadeiramente separar o personagem da pessoa, especialmente depois que seu primeiro e surreal encontro com o ator se dá no meio do mato (em Óstia, litoral próximo a Roma) com o Xeque, todo paramentado, balançando em um bizarro balanço. Nesse momento, Wanda deixa de ser a esposa de Ivan e mergulha com aqueles olhinhos brilhantes e inocentes no seu mundo de fotonovelas, em seu mundinho particular de sonhos onde tudo pode ser realidade.

A contraposição da realidade com sonho ou com o “ideal imaginado” é belíssima no filme, definitivamente retirando-o do lugar comum. Além disso, Fellini monta sua obra de forma que as narrativas sejam simultâneas, criando uma dinâmica muito interessante e impedindo que as sequências com Ivan ou com Wanda fiquem longas demais, potencialmente cansando o espectador.

O uso de música “circense” também pontua o filme de Fellini, marcando, também, sua primeira parceria com o grande Nino Rota, parceira essa que se manteria por muitos e muitos anos. A música de Rota é especialmente importante nas sequências de sonho de Wanda, ajudando no ar de “ideal da mente” que Fellini tenta criar, trazendo até um camelo para o set de filmagens na praia de Óstia. Aliás, toda a sequência na praia merece destaque especial pelo trabalho de câmera de Fellini com Arturo Gallea, diretor de fotografia. Os dois conseguem captar incríveis detalhes em uma conturbada e populosa filmagem em locação que enlouqueceria qualquer um. E o momento em que a fotonovela é efetivamente fotografada é de arrancar fartas risadas.

Abismo de um Sonho também conta com uma ponta de Giulietta Masina, esposa de Fellini e que já havia trabalhado em Mulheres e Luzes. O interessante é que, aqui, ela faz o papel de uma prostituta chamada Cabíria, papel esse que ela viria a reprisar e expandir, também sob a batuta do marido, em 1957, no estupendo Noites de Cabíria.

Abismo de um Sonho merece ser visto, revisto e estudado como uma espécie de casulo em que o trabalho imagético de Fellini se desenvolve, para definitivamente transformá-lo em um dos maiores diretores do Cinema. Uma pequena joia bruta que já revela o começo de sua lapidação.

  • Crítica originalmente publicada em 09 de maio de 2013. Revisada para republicação em 27/01/2020, como parte da versão definitiva do Especial Federico Fellini aqui no Plano Crítico.

Abismo de um Sonho (Lo Sceicco Bianco, Itália – 1952)
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano (baseado em história de Michelangelo Antonioni, Federico Fellini e Tullio Pinelli)
Elenco: Alberto Sordi, Brunella Bovo, Leopoldo Trieste, Giulietta Masina, Ernesto Almirante, Lilia Landi, Fanny Marchiò, Gina Mascetti, Jole Silvani, Enzo Maggio
Duração: 86 min.

Crítica | Mulheres e Luzes

Quando foi para trás das câmeras para fazer Mulheres e Luzes, seu primeiro filme, Federico Fellini não era um iniciante na arte do Cinema. Já havia trabalhado como roteirista de programas de rádio e de gags para filmes, envolveu-se com o neorrealista Roberto Rossellini, chegando a ser indicado ao Oscar de melhor roteiro em 1947, juntamente com Sergio Amidei e outros, por seu trabalho em Roma, Cidade Aberta.

Seu trabalho com Rossellini acabou levando-o a forjar laços de amizade com Alberto Lattuada, com quem escreveu Sem Piedade, dirigido por este último, e esses laços levaram os dois a co-dirigirem Mulheres e Luzes. Apesar do fracasso comercial que foi o filme, ele é um ótimo começo de carreira e já delinearia muito bem o trabalho de Fellini nas décadas seguintes.

Como o título original (Luci del Varietà) deixa claro , a fita versa sobre o teatro de variedades, algo muito próximo, assim como o circo, ao coração do diretor italiano. E seu carinho por esses artistas mambembes que reflete, de certa forma, a vida na Itália não muito depois da Segunda Guerra Mundial, com muita pobreza e tentativas de reconstrução, fica evidente a cada fotograma de Mulheres e Luzes, uma pequena grande obra desse inesquecível diretor.

A história é enganosamente simples: um grupo de artistas vai de cidade em cidade fazendo seu pequeno show de variedades. Em uma dessas viagens, a estonteante Liliana “Lily” Antonelli (Carla Del Poggio) acaba se juntando ao grupo ao enfeitiçar o diretor Checco Dal Monte (Peppino De Filippo). Ela mal sabe atuar e dançar, mas sua forma física acaba atraindo clientela e, claro, gerando rusgas internas no grupo, com muitos dos artistas sentindo ciúmes da moça, especialmente Melina, namorada de Checco, vivida pela esposa de Fellini, Giulietta Masina.

A tentativa desenfreada de Lily de subir na carreira pode ser vista de duas maneiras: um ato feito de caso pensado, sem que ela se importe em que calos pisa ou como algo que ocorre em virtude sim de sua vontade em crescer, mas aliado à sua inocência. As duas interpretações são plenamente possíveis, ainda que a primeira seja a mais fácil e direta. No entanto, a atuação de Del Poggio carrega um ar de dubiedade, de deslumbramento, que dá uma cor especial ao filme e gera a dubiedade que apontei.

Checco é que é o incorrigível e unidimensional nessa história toda. Ele corre atrás do “rabo de saia” disponível e, quando Lily entra no circuito, ele só tem olhos para ela, esquecendo-se completamente de Melina, que, como fica claro, é absolutamente devotada a Checco. E tanto Peppino De Fillipo quanto Giulietta Masina estão excelentes na película, com especial destaque para Masina que, em seu primeiro papel, de certa maneira já cria o molde segundo o qual forjaria seus futuros personagens.

A narrativa é objetiva, mas carrega muitas nuances e a fotografia de Otello Martelli (que viria a se tornar um parceiro de Fellini) em preto-e-branco, trabalhando com muita luz natural nos locais abertos para transparecer aridez, abandono e luzes mais mudas e discretas para filmagens em locais fechados, passando a impressão de pobreza, umidade e desleixo completo, que acaba contrastando com a genuína alegria da trupe de atores em atuar sob quaisquer condições. Eles vivem para aquilo e o ambiente basicamente não interessa desde que eles tenham uns aos outros. E esse senso de união, de amizade é o que é quebrado pela luminosa presença de Lily, apesar dos esforços de Melina em fazer de tudo para manter o grupo coeso, mesmo que para isso ela tenha que sacrificar sua própria felicidade.

Fellini voltaria um sem número de vezes ao meio artístico para tirar inspiração para seus filmes. Mulheres e Luzes foi a obra que abriu o magnífico e prolífico caminho do diretor que influenciaria diversos outros.

  • Crítica originalmente publicada em 04 de maio de 2013. Revisada para republicação em 20/01/2020, como parte da versão definitiva do Especial Federico Fellini aqui no Plano Crítico.

Mulheres e Luzes (Luci del Varietà, Itália – 1950)
Direção: Federico Fellini, Alberto Lattuada
Roteiro: Federico Fellini, Alberto Lattuada, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano (não creditado)
Elenco: Peppino De Filippo, Carla Del Poggio, Giulietta Masina, John Kitzmiller, Dante Maggio, Checco Durante, Gina Mascetti, Giulio Calì, Silvio Bagolini, Giacomo Furia, Mario De Angelis, Vanja Orico, Enrico Piergentili, Renato Malavasi, Joseph Falletta, Folco Lulli
Duração: 97 min.