David Tennant

Crítica | Doctor Who: Time Crash e Voyage of The Damned

plano critico doctor who Voyage of The Damned (1)

Sempre se pensa em festas de fim de ano quando se fala de um especial de Doctor Who, mas nos esquecemos que o show sempre participa do Children in Need, uma campanha beneficente da BBC que culmina em uma programação especial. A maior parte das participações da série na campanha limita-se a esquetes ou interações dos astros (ou personagens) com o público. Mas alguns desses mini episódios ganharam relevância, vide a primeira cena completa do 10º Doutor, ou o mini episódio Time Crashprimeiro multi-Doctor da Nova Série. Escrito por Steven Moffat, o especial situa-se após The Last of the Time Lords, com a TARDIS do 10º se chocando com a do 5º Doutor. Transportado para a nave de sua versão futura, o 5º tenta desesperadamente resolver a crise, pois a presença das duas naves no mesmo espaço abrira um buraco no tempo. O 10º Doutor, no entanto, está menos preocupado por estar empolgado demais em rever o seu antigo Eu.

Time Crash é quase uma esquete que, girando em torno das farpas entre os Doutores, tece um afetuoso meta-comentário sobre a série. Os diálogos rápidos apontam as mudanças sofridas pelo show em suas duas versões, como a aura mais Cool e Pop que a Nova Série adotou ou os aspectos mais bregas da Série Clássica. Apesar da zoeira, há muita reverência ao passado e à sua influência no presente. Mas o grande trunfo do Especial está na química de Peter Davison e David Tennant. Davison reassume o papel do Quinto Doutor como se nunca o houvesse deixado, ao mesmo tempo em que claramente se diverte ao tirar sarro de si mesmo, sem nunca tornar-se autoparódico. Há quem reclame que o personagem surge aqui muito mais rabugento do que em sua era, mas dentro da proposta ligeira do especial, me parece dentro do personagem, principalmente quando lembramos como Davison vivia o Time Lord como um homem velho dentro de um corpo jovem (aqui já não tão jovem, o que é justificado no roteiro pelo caos temporal). Já Tennant entrega um Décimo Doutor mais eufórico do que de costume, de modo a não podermos culpar o 5º Doutor quando este o confunde com um fã. David Tennant é um grande fã de Doctor Who, que começou a ver a série com as histórias do Doutor de Davison; portanto o ator coloca muito de si na atuação deste mini episódio e nós sentimos grande cumplicidade com ele. O seu discurso de despedida ao 5º Doutor parece não ser apenas as palavras do 10º Doutor, mas do próprio Tennant.

Em sete minutos, Time Crash é uma história reverente ao passado da série, mas que também consegue ser espirituosa com esse passado. O roteiro de Moffat é simples e até pueril, mas dentro do formato e da proposta apresentadas, não poderia ser diferente. A química de cena dos dois atores é ótima, com os segundos finais sendo realmente pungentes, levando diretamente ao Especial de Natal. Nada mal para um mini episódio produzido para uma campanha beneficente.

Já o Especial natalino de 2007, antecipado pela Season Finale anterior e por Time Crash, começa com o Titanic se chocando contra a TARDIS. Mas este Titanic não é o famoso navio e sim uma nave espacial que replica o original. O Doutor decide passar a noite de Natal a bordo da nave, que promove uma festa para turistas do planeta Sto; mas como a sua versão terráquea, a nave se vê condenada após ser atingida por meteoros. Enquanto tenta salvar os sobreviventes e impedir que a nave caia em Londres, o Time Lord percebe que a colisão contra os meteoros não foi acidental e que alguém quer garantir a colisão do Titanic contra a Terra + a eliminação dos passageiros. Escrito por Russell T. Davies, Voyage of The Damned configura-se como um ‘filme catástrofe’, fazendo várias referências a clássicos do subgênero, O Destino de Poseidon (1972) em especial, compartilhando come esta obra o fato do desastre se passar durante uma festa de fim de ano.

Mas antes da parte “catástrofe” da trama, o roteiro mais uma vez lança um olhar cínico para o Natal, seja pelos hilários comentários do “historiador especialista” do Titanic, ou pelos recorrentes símbolos natalinos convertidos em maquinas assassinas; desta vez, um grupo de anjos de presépio robóticos com auréolas laminadas. É interessante perceber também como o showrunner volta a brincar com a ideia de um mundo que começa a aceitar a existência de visitas alienígenas, vide a cena onde um grupo de turistas do Titanic desce à Terra só para encontrar uma Londres praticamente deserta, já que devido aos eventos dos Especiais anteriores, o Natal passou a ser uma data temida na cidade. Além de apresentar Wilfred Mott, que surge de forma discreta neste Especial, mas que teria grande importância no futuro da série, a cena também fortifica os laços entre o Time Lord e Astrid, uma garçonete com quem ele faz amizade a bordo do Titanic e que demonstra um gosto por aventura que a tornam candidata a Companion, o que na maioria dos casos significa que ou ela vai terminar a história viajando na TARDIS, ou recebendo um elogio póstumo.

Após esse terço inicial mais leve, o Especial abraça de vez o aspecto de filme catástrofe, manipulando com competência os arquétipos e clichês do subgênero, de modo que sirvam não só ao universo Sci Fi da série, mas à jornada dramática que o showrunner planejou para o 10º Doutor no restante de sua Era. O roteiro de Davies merece crédito aqui por conseguir nos fazer ter empatia (ou antipatia) por cada um dos sobreviventes liderados pelo protagonista, o que é vital para o sucesso deste tipo de história. A narrativa também volta a explorar o quanto o Doutor pode ser falível, e que apesar de todas as suas habilidades e recursos, ele não é (ou não deve ser) uma figura divina — e que apesar dos seus esforços para que todos sobrevivam, não cabe a ele decidir quem merece ser salvo ou não. Esse flerte do Doutor com o divino volta a ser representado através de uma imagem que referencia figuras bíblicas, como já havia sido feito em The Last of The Time Lords, e como voltaria a ser feito mais algumas vezes em episódios posteriores.

James Strong, diretor já veterano da série a essa altura, concede grande elegância ao Especial, ao mesmo tempo em que cria uma atmosfera de tensão crescente, nunca quebrada pelos muito bem empregados momentos de alívio cômico. A montagem merece grande destaque pelo ótimo crescendo de suspense, com destaque para a sequência em que o Titanic é atingido, enquanto a direção de arte concede um bonito aspecto vintage ao episódio. Mas apesar dos acertos, falta na direção de Strong um momento dramático mais forte, tão essencial ao subgênero com que ele está trabalhando, algo que o diretor já se mostrou capaz de fazer no passado e que aqui consegue apenas arranhar. Não que seja mal executado, longe disso, mas senti que certas cenas tinham um potencial maior que acabaram não se concretizando.

Voyage of The Damned é um episódio cheio de adrenalina e tensão e uma homenagem divertida a clássicos do cinema catástrofe como o citado O Destino de Poseidon e também Inferno Na Torre (1974). Os valores de produção são sólidos, a direção de Mark Strong é competente e o roteiro de Davies transita bem entre a tensão e momentos mais descontraídos, além de trazer bons conflitos para o Doutor e uma peça importante em seu desenvolvimento. Ainda assim, este Especial de Natal é o tipo de episódio que se encerra nos deixando com a impressão de que embora seja bom, poderia ter sido bem melhor.

Doctor Who: Time Crash (Reino Unido, 16 de Novembro de 2007)
Direção: Graeme Harper
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: David Tennant, Peter Davison
Duração: 07 Minutos

Doctor Who: Voyage of The Damned (Reino Unido, 25 de Dezembro de 2007)
Direção: Mark Strong
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Kylie Minogue, Geoffrey Palmer, Russell Tovey, George Costigan, Gray O’Brien, Andrew Havill, Bruce Lawrence, Debbie Chazen, Clive Rowe, Clive Swift, Jimmy Vee, Bernard Cribbins, Paul Kasey
Duração: 71 Minutos

Crítica | Doctor Who: The Next Doctor

Vindo diretamente na sequência do cataclísmico Journey’s End, nosso Especial de Natal de 2008 representa a primeira instância onde a situação periclitante da vez não é preunciada pela “cena pós-créditos” do season finale que o antecede. Nada de Donna Noble vestida de noiva ou do Titanic invadindo a TARDIS — temos aqui uma aventura tecnicamente “avulsa”. Porém, se pensarmos um pouco melhor, veremos que essa impressão não se confirma muito bem.

Embora não tenhamos um vínculo cronológico direto, a verdade é que um forte elemento temático liga diretamente The Next Doctor com os eventos do episódio anterior. Contra o pano de fundo da mega reunião que marcou o clímax da temporada recém-encerrada, o Doutor se vê contemplando melancolicamente o papel de seus companions em sua jornada pelo tempo e espaço, ao mesmo tempo em que é levado a considerar a finitude de sua atual encarnação, tema que será central para o conjunto de Especiais que segue e que marca o fim das eras de Russel T. Davies como showrunner e de David Tennant como o 10º Doutor.

Iniciamos com um solitário Doutor desembarcando na Londres vitoriana, prestes a descobrir que chegou na véspera de Natal de um ano especialmente tranquilo. Ótimo, já que um bom feriado de final de ano não pede necessariamente ataques de símbolos natalinos letais ou chuva de cinzas Sycorax, certo? No entanto, algo sinistro se prepara pelos cantos misteriosos da cidade, pronto a emergir bem no dia festivo. Por sorte, alguém já está na cola do problema… o Doutor (David Morrisey), acompanhado de sua fiel companion, Rosita (Velile Tshabalala)!

Esse encontro entre o Doutor e uma possível (ainda que improvável) encarnação futura é mais uma daquelas premissas únicas que advém do conceito de regeneração, explorado de forma brilhante no que, com o benefício do ponto de vista atual, se mantem como o melhor momento possível para acontecer em termos de Série Nova. Embora a ideia obviamente pudesse funcionar com outras encarnações do Time Lord, o fato é que o egóico e vaidoso 10º Doutor é a figura perfeita tanto para encarar seu potencial sucessor (e justamente entregue a um momento de deprê total, diga-se de passagem) quanto para sustentar o tipo de auto-homenagem que o enredo presta ao personagem aqui, ressaltando seu sentido mais profundo de maneira crível e envolvente.

David Morrissey não desperdiça o momento, entregando uma atuação fantástica que diverte, comove e empolga. Sua química com Tennant é fortíssima do início ao fim, o que garante contornos ainda mais interessantes aos diálogos muito bem escritos de Davies. Como sempre, Tennant encarna os momentos mais dramalhescos e os vende com uma facilidade que autoriza o showrunner a explorar esse lado sem preocupar-se com o exagero. A emotividade tradicional desse Doutor serve muito bem tanto aos momentos cômicos quanto aos mais sóbrios (com a exceção de um momento em particular, do qual falaremos logo mais), e as reações do misterioso Doutor do futuro, muitas delas totalmente silenciosas, complementam o conjunto perfeitamente. Algumas das “piadas internas” são tão geniais quanto descaradas, incluindo aí a exploração comédica do Chameleon Arc visto em Human Nature Utopia. Um exemplo de fanservice finíssimo!

Antes de falarmos da ameaça dos Cybermen vitorianos como um todo, cabe uma pausa para tratar de um assunto de suma importância. Todas as vezes em que eu assisto esse episódio (que, por algum motivo, é um dos que acabei mais repetindo até hoje) eu me pego com a mesma dúvida: “Que diabos eram esses bichões-Cybermen mesmo? Será que eles explicam isso e eu esqueci?”. O motivo para isso é que eles meio que explicam, mas meio que não faz o menor sentido mesmo! Chamados oficialmente de Cybershades, essas criaturas hilárias estão presentes no primeiro encontro entre o Doutor e o “Próximo Doutor” — a melhor descrição que eu teria para seu visual seria uma cyber-conversão parcial do gorilão tosco que assombrava aquele jogo do programa do Sérgio Mallandro em que as crianças podiam escolher uma cabine para ganhar uma bicicleta, ou serem atacadas pela figura fantasiada e sair correndo chorando e em desespero. Alguém mais lembra disso?

Enfim, os Shades são o primeiro de dois elementos totalmente absurdos que são adicionados à mitologia Cyber ao longo dessa trama, e a explicação oficial é tão satisfatória quanto suas fantasias são convincentes: é dito que eles possuem “cérebros de cães e gatos” (e os corpos são de que, meu Menino Jesus?), e que são uma opção de batedores para a operação dos Cybermen que “evitam chamar muito a atenção”. Sério mesmo? Os caras conseguem ser ainda menos discretos do que aquele Cybermat-Anaconda que ataca a Sarah Jane em Revenge of the Cybermen! No final das contas eu continuo sem entender muito bem qual era a ideia por trás desses Shades — e rindo demais com a cena em que um deles inexplicavelmente é um cocheiro na carruagem que leva a Sra. Hartigan (Dervla Kirwan).

Falando na vilã, suas motivações e caracterização servem para enquadrar mais uma trama um tanto dark dando as caras em um especial natalino de Davies. O showrunner segue sua tradição de explorar ângulos particularmente pessimistas a respeito da natureza humana em meio ao contexto festivo, o que acaba sendo parte do charme desses episódios. Dona de um intelecto absolutamente fora dos padrões, Hartigan se alia aos Cybermen em busca de um programa pessoal de liberação que envolve desde a denúncia da hipocrisia do moralismo machista de sua época até uma caminhada destrutiva sobre Londes a bordo de um robô gigante construído via carvoaria movida a trabalho infantil forçado e potencialmente letal! Um bom exemplo de que não é legal apoiar um projeto até conhecer bem o plano por inteiro…

Equilibrando bem os elementos mais galhofeiros com as temáticas mais pesadas, trata-se de uma vilã marcante que explora os Cybermen sob um ângulo inovativo, fugindo do óbvio e aproveitando-se do período histórico da aventura para além dos visuais. O segundo elemento absurdo que dá as caras aqui, o citado robô gigante chamado Cyberking, vale principalmente pelo maneiríssimo visual, ainda que não faça muito sentido em termos da história. O Doutor explica se tratar de uma “nave de guerra” que possibilita a conversão em massa, mas nada do que acontece durante seu curto ataque às margens do Tâmisa passa muito bem essa noção. Em todo caso, um Cyberman gigante steampunk sempre teria meu apoio incondicional, mesmo que o episódio em que aparecesse não fosse de resto tão bom assim.

Porém, se a trama dos Cybermen embasa a origem do “Próximo Doutor” e constrói uma ameaça interessante para nosso trio de aventureiros combater, o verdadeiro coração desse especial se encontra mesmo na dinâmica interna dos personagens centrais. Gosto particularmente da cena em que o recém-revelado Jackson Lake se mostra enfurecido e completamente frustrado por não ser, afinal de contas, o herói que tinha se iludido a respeito. O Doutor responde com um misto sensacional de atenciosidade e maravilhamento, explicando que mesmo que sua identidade seja outra, tudo o que ele fez nesse período ao lado de Rosita foi mérito próprio. Esse momento também ecoa na cena de encerramento do episódio, quando declara que, se era para alguém assumir sua identidade por engano, estava grato por ter sido Lake. A única bola fora desse bela amizade acontece no momento em que Lake se dá conta de que sua esposa foi morta pelos Cybermen. No que deveria ser um breve momento de absoluta melancolia, os cilindros de informação começam a bipar, e o Doutor começa a se mover dançando pelo cenário com uma trilha sonora toda doidinha, completamente mal encaixada no momento…

Tirando essa mancada de lado, creio que a eficácia desses pequenos momentos melosos aponta para o sucesso da história em vender o heroísmo de Lake e Rosita como a contraparte otimista da Sra. Hartigan. Mesmo em condições adversas e em meio a tamanha tragédia que passou, o cara assumiu a identidade do Doutor, mostrando o potencial heroico dos humanos para além dos cantos mais podres da sociedade da época, e de quebra jogando o LARP de Doctor Who mais bem trabalhado da história. Minha única ressalva a respeito desse núclero todo é a de que eu acho que Lake deveria ter subido no balão junto com o Doutor. Poxa vida, depois de tanta hesitação e preparação a respeito de sua “TARDIS”, seria a despedida ideal para sua encarnação fajuta do Doutor, não é?

Curiosamente indo na direção oposta do que se passou com outros especiais de Natal da série, The Next Doctor foi um episódio cuja apreciação só aumentou para mim ao longo das revisitações. Justificando bem a duração mais alongada com uma narrativa cheia de elementos interessantes, o capítulo inaugurou muito bem o que acabaria sendo um inconstante último ano para o Doutor de David Tennant, explorando suas maiores forças na dinâmica com um elenco enxuto e de ótima qualidade. De quebra, temos aqui também a primeira aparição explícita dos nove doutores anteriores na Nova Série, um marco importante na unificação explícita da cronologia da franquia, após uma série de flertes mais tímidos. Uma ocasião bem escolhida para a homenagem, em mais um exemplo de fanservice. Big Finish, por favor, eu quero uma nova aparição do Prof. Lake para ontem!

Doctor Who: The Next Doctor (Reino Unido, 25 de Dezembro de 2008)
Direção: Andy Goddard
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, David Morrissey, Dervla Kirwan, Velile Tshabalala, Edmund Kente, Michael Bertenshaw, Jason Morell, Neil McDermott
Duração: 60 minutos

Crítica | Doctor Who: The End of Time – Part One

Doctor Who_ The End of Time - Part One plano crítico

Originalmente exibida no Natal de 2009, esta primeira parte do arco The End of Time teve como função preparar o terreno para a regeneração do 10º Doutor, após uma longa caminhada sozinho e várias especulações dos espectadores sobre em que momento viria de fato a morte do personagem de David Tennant para a entrada do já ‘odiado’ (como de praxe, em novos Doutores) Matt Smith. Mas há m detalhe que normalmente a gente se esquece no meio dessa grandeza e importância toda do episódio. Estamos diante de um Especial de Natal de Doctor Who! Um Especial de Natal onde a data esteve apenas como pano de fundo e absolutamente tudo no roteiro (aqui, de Russell T. Davies) foca em apenas uma coisa: construir o cenário para a futura morte do Doutor.

As duas cenas iniciais do episódio são ótimas. Primeiro temos o retorno do fantástico Wilfred Mott (Bernard Cribbins), que encontramos fazendo compras e o vemos lembrar-se de um pesadelo com o Mestre. Mais adiante ele se encontra com a misteriosa Time Lady interpretada por Claire Bloom e que tantas teorias suscita até hoje entre alguns whovians. No bloco seguinte, temos uma cena com o Doutor na Ood Sphere, em 4226. Esses dois ótimos momentos estabelecem um perigo maior que de fato teremos citado no episódio, mas eis aqui o meu primeiro grande problema com The End of Time – Part One: ele pouco vale como episódio solo, de modo que não faz sentido algum haver uma separação como Especial de Natal e Ano-Novo (partes 1 e 2). Como já disse, trata-se de um enredo de preparação. E quem dera que essa preparação valesse o tempo e a expectativa — a não ser que o espectador realmente se deixe levar pela tênue linha de costura com Rassilon falando ao longo do capítulo e aquela cena final, em plena Time War. Sim, tudo é grandioso. Épico. Música, intenção, exposição. Mas é uma cena, gente. Uma cena que não compensa as centenas de outras risíveis e irritantes cenas que temos aqui.

O veterano Euros Lyn assume a direção do episódio e procura fazer o máximo com os delírios quase super-vilanescos de Davies. Para isso, o diretor tomou muito cuidado com as cenas de ligação e afastamento dos personagens daquilo que seria o “misterioso problema” a ser trabalhado adiante. Vejam como momentos de caráter pessoal com os Oods e principalmente aquela soberba cena de David Tennant e Bernard Cribbins num café da cidade são conduzidas delicadamente, fazendo-nos sentir e não apenas observar aquilo que está acontecendo. Isso é importante para que o episódio não caia abaixo da linha média, porque é o que realmente parece que vai acontecer quando surge o plot de ressurreição do Mestre. Não há um único segundo envolvendo esse aspecto dramático que não seja ridículo. Não há preparação prévia para o ‘culto’ ao vilão e ainda assim eles conseguem saber o local da cremação, pegam o anel e conseguem recursos para reviver o renegado Time Lord. E vejam só, no meio do processo, Lucy praticamente tira da cartola um ~misterioso~ frasco contendo uma poção/antídoto que poderia impedir aquela abominação, tudo isso porque… wait for it… sua família tem contatos. Sim, isso é dito literalmente em um diálogo, do nada. Que morte horrível…

Daí para frente, a minha relação com o episódio é de uma irritação cortada por momentos de puro interessante pelo que poderia ser esta “outra coisa” que estava por vir. Já que o Especial de Natal é uma enganação barata em termos de motivação e que Davies resolveu transformar o Mestre num comilão energético que dá saltos gigantes e que tem até propulsão à la Homem de Ferro (Senhor Jesus…) chega um momento em que os eventos deixam de ser organicamente interessantes. Nossa atenção está mais jogada para o futuro, pelo mistério dos Time Lords e, claro, pela morte do Doutor. Mas notem que estamos falando de DW, então o elenco é fantástico, de modo que me dói ver alguém do porte de John Simm ter tão poucas cenas boas num episódio (os breves momentos dele com o Doutor, falando das batidas na cabeça, são poderosos) e o restante agindo de forma… bem… nomeiem vocês mesmos.

Na reta final o ritmo da trama fica cada vez mais intenso, a edição começa a mostrar um trabalho aplaudível e a trilha sonora não tem mais a intenção de se segurar. O clima criado é bom, mas o evento em cena… nem tanto. Por mais engraçado que seja o plano roubado/adaptado do Mestre, eu nunca consegui gostar dele de verdade. Pode-se pensar que Davies já fizera bizarrices piores (alô alô Love & Monsters!), logo, o evento dessa Parte 1 está condizente com a Era do showruuner. E sim, tudo isso é verdade. Mas a coerência de uma escolha dramática diante de uma tradição não torna o enredo que a contém automaticamente bom ou uma obra-prima, não é mesmo?

Poucas cenas impedem que The End of Time – Part One caia ainda mais em qualidade. No fim das contas, estamos diante de um Especial de Natal “desnatalizado” e de uma desculpa conceitual para segurar o 10º Doutor por mais um episódio no papel. Tsc tsc tsc… Por isso que eu prefiro o meu Especialzinho de Doctor Nárnia… (sim, podem soltar seus Daleks pra cima de mim, eu não ligo hehehehehe).

Doctor Who: The End of Time – Part One (Reino Unido, 25 de dezembro de 2009)
Direção: Euros Lyn
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, John Simm, Bernard Cribbins, Timothy Dalton, Catherine Tate, Jacqueline King, Claire Bloom, June Whitfield, David Harewood, Tracy Ifeachor, Sinead Keenan, Lawry Lewin, Alexandra Moen, Karl Collins, Teresa Banham
Duração: 60 min.