David Ramsey

Crítica | The Flash – 6X10: Marathon

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Embora eu não tenha checado mais de perto, tenho a impressão de que essas “premieres” de meio de temporada de The Flash normalmente falham em dar continuidade aos ganchos interessantes deixados pelo episódio anterior ao hiato. Foi assim no ano passado com The Flash and the Furious, que conseguiu desperdiçar, numa tacada só, os ganchos deixados pelo encarreiramento entre um episódio comemorativo e um crossover! Nesse sentido, Marathon consegue romper um pouco com a tradição, ao menos no que diz respeito ao formato e ritmo de desenvolvimento da temporada.

Não que o episódio seja em princípio muito diferente do que costuma rezar o manual: temos aqui uma típica “faxina pós-evento”, temperada por teasers ocasionais das subtramas que irão nos decepcionar divertir ao longo das próximas semanas. Porém, uma coisa que funciona melhor aqui se compararmos ao passado da série é justamente a estruturação da trama maior da temporada.

Continuando a boa pegada do novo time de showrunners, a história aqui tem mais cara de “começo de temporada” do que de “retorno do hiato” propriamente dito. E isso é muito bom, já que parece colocar em prática uma proposta de duas sub-temporadas mais curtas como alternativa à longuíssima “história sem fim” usual. Com a ameaça de Bloodwork/Hemoglobina devidamente contida (ao menos por hora) e poucas pontas soltas para adereçar, a produção consegue ter fôlego narrativo para se dar ao luxo de explorar o inconfundível terreno de filler sem soar tão prolixa e desorientada quanto costuma ser o caso.

Nossa faxina pós-Crise tem seus altos e baixos, e na verdade não faz muito mais do que nos informar a respeito das consequências da reestruturação geral do Multiverso da CW, agora concentrado em uma Terra-Primordial. Difícil escapar da impressão de que essa reintegração vai acabar se dando de forma um tanto desajeitada, em especial no que diz respeito a aproveitar a ocasião para efetivar uma renovação profunda na série — o que, no final das contas, imagino que se aproximaria mais de um reboot do que de qualquer outra coisa. Por outro lado, também não tenho como negar o charme dessa continuidade integrada entre as séries, que tem melhorado a cada ano e, especialmente nesse epílogo, lida de forma totalmente quadrinhesca com os efeitos da morte de Oliver Queen.

Temos aqui um Diggle (David Ramsey) em um momento intermediário entre o final da Crise e o finale de Arrow, trazendo para Barry (Grant Gustin) um presente especial deixado por Oliver, que coloca os dois em uma busca um tanto sem pé nem cabeça e que tem como propósito amarrar tematicamente a subtrama de nosso protagonista com a do episódio em si, ao mesmo tempo em que nos detemos um pouco mais sobre sua reação ao sacrifício do Arqueiro. Dada a relação dos dois e o papel do herói veterano em inspirar o heroísmo de Barry, a investida é mais do que justa e, exemplificando bem a temática do episódio, mostra os ganhos que uma desacelerada necessária pode conceder no momento certo.

Na prática, a simplicidade dessa linha narrativa faz do episódio um raro capítulo “Flash-lite” (ou seja, com pouca presença de nosso velocista titular), muito provavelmente devido à necessidade prática de se filmar tudo isso simultaneamente aos episódios da Crise. E tudo bem com isso! Muito mais vale ver pouco do nosso herói, em cenas mais alongadas que se servem de um drama concreto e sincero do que desgastar o personagem no típico gato e rato emocional sonífero de sempre, não? Ironicamente, quem sai melhor servida pela situação é ninguém menos que Iris West-Allen (Candice Patton), personagem praguejada por tanto tempo por subtramas preguiçosas e esculachadas e que finalmente tem tido a chance de se rehabilitar sob a batuta de Eric Wallace.

O grande feito do novo time produtivo foi realizar um bom episódio no qual o núcleo de Iris ocupa o protagonismo. Dado o estado em que a temporada passada nos entregou a personagem, é um feito e tanto. O núcleo do The Citizen continua cativante e aproveita a construção feita na primeira metade da temporada para mostrar que agora é capaz de sustentar suas próprias subtramas de forma legítima. Como bom fã das histórias focadas no Planeta Diário (e da clássica série Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman), eu acabo sempre sendo parcial a uma boa história de super-herói focada na investigação jornalística, e posso dizer que esse foi o melhor episódio para Iris desde… provavelmente sempre? A personagem consegue puxar seu núcleo narrativo sem cair nas fracas retratações usuais — o diálogo com Joe (Jesse L. Martin), em especial, mostra os personagens em uma boa forma que é rara de se ver em um bom tempo!

Paralelamente à revelação bem compassada da Black Hole e ao teaser do que parece ser uma nova iteração do Mestre dos Espelhos (num cliffhanger alongado sensacional), temos tempo ainda para um conflito tenso entre Nevasca (Danielle Panabaker) e uma nova Doutora Luz (Emmie Nagata) — com um traje ofensivamente ruim ao ponto de me lembrar dos Movellans de Doctor Who. Os armamentos alienígenas e a conspiração armadas pelo episódio são um passo na direção certa, no sentido de que eu penso que a série teria muito a ganhar em deixar de lado as tramas mais mirabolantes em favor de um super-heroismo básico, ao menos para explorar melhor nosso novo status quo.

Por falar nisso, Cisco (Carlos Valdes) confirma que Harry e Jessie aparentemente não conseguiram escapar do cataclisma da Terra-2, o que, se confirmado seria uma verdadeira lástima. Minha esperança é que o sumiço do (novamente ex-)Vibro esteja ligado a uma futura volta à forma, quem sabe encontrando o Conselho dos Wells em um algum “abrigo anti-Crise”? Eles não iam acabar com uma das melhores coisas da série, que é a tradição dos “infinitos Wells”, né? Né…?

No total, Marathon consegue explorar de forma interessante um formato que tradicionalmente não funcionou na série. Ironicamente, consegue isso ao fazer o mínimo e continuar se apoiando nos acertos dessa nova fase. O mérito pela temática de “a vida é uma maratona, não uma corrida” funcionar bem, por exemplo, aponta mais pelo fato de que é um “tema motivacional” que surge de forma orgânica, dados os eventos da primeira metade da temporada, ao invés de vir com a mão pesada de sempre para ocupar a cota de draminhas baratos, provando nossa teoria de que é tudo uma questão de jeito. Mas será possível que é preciso que o ator do Flash esteja ocupado gravando outra coisa para termos mais protagonismo por parte de Iris? Ou será que a produção finalmente pegou o jeito e fará jus à personagem? Veremos!

The Flash – 6×10: Marathon — EUA, 4 de fevereiro de 2020
Direção: Stefan Pleszczynski
Roteiro: Sam Chalsen, Lauren Barnett
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Danielle Nicolet, Jesse L. Martin, David Ramsey, Victoria Park, Kayla Compton, Eric Nenninger, Emmie Nagata
Duração: 43 min.

Crítica | Arrow – 8X10: Fadeout

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

E, depois de oito anos, Arrow, que marcou o pontapé inicial do Arrowverse, hoje populado das mais variadas séries, chega a seu fim. Com uma temporada final reduzida, mas completamente escrava do crossover Crise nas Infinitas Terras e que, no episódio anterior, também serviu de pontapé inicial para o spin-off Green Arrow & the Canaries, Fadeout vem para mais uma vez homenagear Oliver Queen e para preparar o terreno para o que está por vir, agora que o herói morreu e tornou-se o Espectro, figura que, tenho certeza, aparecerá vez ou outra nas séries do canal.

O mote é o enterro de Oliver, que abre oportunidade para afirmar que, em sua segunda morte, que também recriou o multiverso, o herói ressuscitou sua mãe Moira Queen, seu melhor amigo Tommy Merlyn e seu mentor Quentin Lance, além de ter eliminado o crime em Star City. Tentar entender o porquê de ele não ter ressuscitado mais gente, especialmente a Laurel Lance original, mesmo que o episódio tente oferecer explicações mequetrefes, é um exercício em futilidade, até porque a conclusão de que ele foi egoísta ao não ter eliminado o crime no mínimo nas cidades de seus amigos super-heróis, é inafastável, pelo que é melhor nem pensar nisso. Voltando ao enterro, ele é o ponto focal e a razão pela qual boa parte do elenco da série retorna – inclusive o sumido Rory Regan (ou Retalho), a Mia Smoak do futuro e, claro, Felicity -, mas os showrunners da série e que também escreveram o episódio, acharam pouco e tiveram que inserir ação, pois seria impensável fazer algo mais contemplativo ou reflexivo.

Com isso, eles inventam o sequestro (de novo!) de William, filho de Oliver. Sua versão adulta acabara de ser sequestrada em 2040 e, pelo visto, o William garoto ficou com ciúmes e quis o mesmo, em uma construção completamente artificial com uma resolução mais artificial ainda que coloca Mia nos holofotes como a grande herdeira do legado do Arqueiro Verde (uau, que surpresa…). Mas nem tudo é ruim nessa tentativa de se marretar ação no episódio, já que os flashbacks para 2012, em um momento importante na vida de Oliver em que, influenciado por John Diggle, ele deixa de matar bandidos (foi o mesmo momento em que a coragem dos showrunners em fazer algo diferente foi para o ralo). E digo que nem tudo é ruim não por esse momento em seu passado em si, pois ele é tão artificial quanto o sequestro de seu filho no presente e, claro, a conexão entre as duas coisas, mas sim porque a execução das sequências de ação é muito boa, completamente fora da curva em relação ao que vinha sendo apresentado ao longo dessa temporada e também da temporada anterior.

James Banford, que foi o responsável pelo tenebroso Purgatory e pelo fraco Starling City, tem talvez seu melhor trabalho com diretor aqui, especificamente nos dois planos-sequências do Arqueiro, no passado, liquidando capangas de um vilão que trafica humanos. Não só a coreografia é muito boa, como o dinamismo das duas cenas é impressionante, algo que há muito não se via em qualquer série da DC da CW. Claro que não há nem de longe o finesse dos incríveis planos-sequência de Demolidor, por exemplo, mas a pancadaria que vemos aqui é exatamente o tipo de despedida digna que eu esperaria para o super-herói, por mais que ele nunca tenha sido mais do que mediano para mim. Além disso, o foco em John Diggle tanto no passado quanto no presente dignifica o sidekick de Oliver e efetivamente o coloca como o herdeiro do herói, já que, convenhamos, é duro de engolir a tal Mia Smoak como super-heroína.

Tudo bem que a confirmação de que John Diggle tornar-se-á o Lanterna Verde da Terra Prime (presumivelmente aparecendo primeiro na série Superman & Lois, já que ele se muda para Metrópolis e já que a série dos Lanternas Verdes se passará em outra Terra) é feita da maneira mais marretada e boba possível, um daqueles fan services escritos em papel higiênico pelo entregador de cafezinho do estagiário do secretário do assistente de roteirista da série, mas o mero fato de o personagem ter um fim nessa linha, colocando-o não como um coadjuvante largado, mas sim como alguém que carrega efetivamente o legado do Arqueiro Verde de alguma forma, é algo que merece aplausos. Mas não muito efusivos, claro, pois meteoro caindo no jardim de sua casa, ele metendo a mão na cratera logo em seguida e tirando uma “caixa de óculos” com provavelmente o anel da Tropa dos Lanternas foi de fazer as retinas sangrarem…

E, com isso, mesmo com todo o chororô que marca a despedida, mesmo com a reformação do casal vai-não-vai Thea Queen e Roy Harper (aquele braço mecânico paraguaio dele foi comprado no camelô, só pode…), mesmo com a ressuscitação de personagens que muito provavelmente deveriam ter permanecidos mortos, mesmo que tenhamos que ter aturado Felicity de novo e mesmo que Star City tenha sido magicamente libertada dos crimes, no final das contas o adeus para Oliver Queen até que conseguiu ficar acima da linha do meramente mediano. Por outro lado, é triste notar que isso é o máximo que a CW consegue fazer para o personagem fundador de seu multiverso.

Arrow – 8X10: Fadeout (EUA, 28 de janeiro de 2020)
Showrunners: Marc Guggenheim, Beth Schwartz
Direção: James Bamford
Roteiro: Marc Guggenheim, Beth Schwartz
Elenco: Stephen Amell, David Ramsey, Katie Cassidy, Katherine McNamara, Colin Donnell, Willa Holland, Susanna Thompson, Paul Blackthorne, Emily Bett Rickards, Colton Haynes, Echo Kellum, Rick Gonzalez, Juliana Harkavy, Sea Shimooka, David Nykl, Katrina Law, Caity Lotz, Joe Dinicol, Jack Moore
Duração: 42 min.