Dargaud

Crítica | Blueberry – Vol.3: Águia Solitária

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Neste terceiro volume da série Blueberry temos uma continuação direta dos eventos de Tempestade no Oeste, agora com o Tenente protagonista responsável por um esquadrão de 30 homens cuja missão é transportar um comboio de munição do Exército através de um território repleto de Apaches. Os rifles e a pólvora carregados devem abastecer o destacamento que o General Crook está reunindo em Fort Bowie, no Arizona. Parece que os americanos vão mesmo investir em uma guerra contra os Apaches por um erro estratégico e ataque inicial dos próprios americanos.

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção aqui foi a capacidade de Jean-Michel Charlier seguir com a história de maneira sólida, considerando os acontecimentos que acompanhamos desde o início da série, em Forte Navajo, aventura para a qual, aliás, temos diversas referências no presente roteiro. É como se estivéssemos vendo uma série de TV: começamos a jornada a partir de um momento específico da vida do protagonista e nos dois livros seguintes (e imagino que será também a tônica para pelo menos os volumes imediatamente após a este terceiro) vemos as consequências disso, abordadas e citadas em momentos estratégicos e sem nenhum tipo de didatismo.

Aqui podemos ver mais claramente um lado ainda pouco explorado de Blueberry, que é o seu comando solo em uma missão de perigos muito grandes e por um amplo espaço territorial, por muitos dias. O que me incomoda no texto de Charlier aqui são algumas coincidências que não precisavam ocorrer e que minam a qualidade da obra, especialmente aquela (a pior de todas!) em quem uma chuva muito providencial começa a cair do céu no momento em que os bravos soldados mais precisavam. É o tipo de escorregão que acaba incomodando ainda mais quando visto diante de um todo mais maduro e muito bem arquitetado pelo autor, que insere um plot de traição no meio da jornada dos camisas-azuis e divide a história em blocos bem ritmados de obstáculos pelo meio do caminho — todas as lutas contra os índios são excelentes, por sinal, e contam com um capricho ainda maior do grande Moebius na arte.

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Para incrementar o enredo, o texto não faz do mistério de traição uma caminhada de mão única, adicionando uma discussão moral e até étnica no meio do caminho (novamente trazendo à tona a ideia de que gente ruim existe em todo lugar, em todas as raças), fazendo-nos suspeitar de pessoas diferentes ao passo que o esquadrão vai morrendo e o risco de perderem as armas transportadas se torna absolutamente real.

É muito bom ler histórias (especialmente em quadrinhos de faroeste) onde o autor e o desenhista trabalham uma linha mais realista de eventos, no sentido de que os perigos do deserto ou da pradaria afetam a todos, de fato colocam os indivíduos em perigo, matam um bocado deles e mostram por quê a vida nos territórios do Oeste mereceu entrar para o imaginário da ficção. Muita coisa do que historicamente ocorreu nessa região é tão ‘absurda’ e tão fantástica que parece material criado justamente para entreter. E Charlier e Moebius abordam aqui um desses muitos momentos da conquista americana: um dos períodos de guerra Apache.

Blueberry #3: A Águia Solitária (L’aigle Solitaire) — França, 1964
Edição original: 
Revista Pilote, edições 261 a 185
Edição original em álbum: Dargaud, 1967
No Brasil: Blueberry #2 (Abril, 1990)
Roteiro: Jean-Michel Charlier
Arte: Jean Giraud (Moebius)
48 páginas

Crítica | Valérian e Laureline: Bem-vindos a Alflolol

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O título dessa aventura de Valérian e Laureline é ironia pura. Pierre Christin começa o texto falando sobre o importantíssimo planeta Technorog (nome dado a ele pelos colonizadores terráqueos, mas na língua nativa se chama Alflolol), um planeta amarelo e laranja cercado por um cinturão de asteroides e do qual são retiradas inúmeras riquezas que a Terra e muitos planetas sob sua possessão precisam. O alto nível de produtividade aqui é louvado desde o início, e o autor nos dá um relatório industrial comentando sobre as estações flutuantes no Oceano Magneto, as minas gigantescas nas montanhas, as fábricas colossais nas planícies e as plantações hidropônicas próximas à área central. Um planeta-negócio-colônia-de-exploração que só tem alguns animais selvagens e indícios de uma civilização que lá viveu há pouco mais de 4.000 anos.

A fortuna crítica para a obra de Christin e Jean-Claude Mézières normalmente aponta Bem-vindos a Alflolol como “o álbum mais engajado da série”, onde os autores tecem uma intensa crítica o produtivismo cego e absolutamente predatório, desumano, conseguido a todo custo, e evocam as consequências de uma sociedade desenfreadamente industrializada e sem preocupação alguma com o meio-ambiente; uma sociedade que polui sem freios em nome do lucro e do chamado progresso. Todo o desenvolvimento do volume se fixa nesse ponto, mas não de forma didática ou como uma pregação panfletária. Os conceitos são diretamente expostos através das ações de Valérian, que é um bom soldado e precisa obedecer ordens, mesmo que elas não sejam justas ou que façam muito mal aos nativos do planeta, que saíram para dar uma voltinha de quatro milênios e agora estão retornando ao lar, espantados com todas as mudanças que encontram.

A base crítica da obra coloca os alflololeses como estranhos em sua própria terra, e eles são tratados como vagabundos que não gostam de trabalhar — linha de ação colonizadora/escravocrata/dominadora que normalmente atribuímos à relação dos colonos americanos com os índios, mas é na verdade a dinâmica de qualquer nação poderosa que toma conta do território de outra nação para fins econômicos. A História está aí para provar. Todas as ações do Governador local e de Valérian obedecendo a ordens cada vez mais questionáveis deixam o leitor enraivecido e mostram a grande diferença de pensamento e comportamento entre os dois protagonistas da saga, que mesmo entre farpas e brigas, se gostam muito. Eu ainda preferiria que Laureline não tivesse arroubos manhosos por supostamente estar sendo desprezada ou escanteada pelo parceiro, mas no fim, isso é um pouco de charme infantil que cabe também à personalidade dela.

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Há também no enredo uma forte chamada de atenção a Galaxity, pois é em nome dela que existe essa condição de desenvolvimento industrial negativo e de mal tratamento aos povos indígenas sob o colonialismo (impacto ecológico e sociológico do Império da Terra), e é por isso que eu gosto bastante de como a trama é encerrada. Inicialmente fiquei frustrado porque as páginas finais são bem corridas e existe um evento que é conveniente demais para a situação, não resolvendo, de fato, o problema — aliás, dando espaço para que os exploradores seguissem tranquilamente fazendo o que sempre fizeram. A decisão de Valérian, no entanto, leva as preocupações para o centro do sistema, para Galaxity, que agora precisa lidar diretamente com o povo que teve o território ocupado e parcialmente destruído em nome da civilização e do desenvolvimento. Valérian mostra que sabe muito bem quem e onde incomodar.

Com uma arte sempre maravilhosa, criando com muito cuidado as diversas linhas de produção e os diversos biomas de ‘Technorog’, além de trazer um tema que faz parte de grandes discussões de nosso tempo, Bem-vindos a Alflolol convida-nos a pensar sobre os limites e os caminhos de progresso, e como certos projetos de crescimento não são ruins apenas para nativos ou povos/indivíduos diretamente ligados “à causa“, mas para absolutamente todos. A diferença é que alguns grupos demorarão tanto para assumirem que existe um problema nisso, que só verão o estrago quando o próprio quintal for atingido. E aí, como já se tem visto em diversos recortes pelo mundo afora, será tarde demais.

Valérian e Laureline: Bem-vindos a Alflolol (Valérian et Laureline: Bienvenue sur Alflolol) — França, 16 de dezembro de 1971 a 11 maio de 1972
No Brasil: Valérian Integral N°2 (Edição Especial – Sesi-SP Editora, 2017)
Publicação original: Revista Pilote #632 a 653
Editora original (encadernado): Dargaud
Roteiro: Pierre Christin
Arte: Jean-Claude Mézières
Cores: Évelyne Tranlé
45 páginas