Damon Lindelof

Crítica | The Hunt (2020)

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Atenção atenção lacradores de todo o mundo! Denunciadores de lacadores de todo o mundo! Direitistas e esquerdistas! Politicamente corretos e incorretos! Que tal caírem na porrada, empunharem armas e… vence quem conseguir sair vivo no final?“. Pois esta deveria ser a sinopse oficial de The Hunt (2020), filme de Craig Zobel, escrito por Nick Cuse e Damon Lindelof (recém-saídos de Watchmen) e que dentre muitas outras coisas, coloca representantes de espectros de pensamento político e de práticas sociais distintas para literalmente lutarem por suas vidas.

A trama significa várias coisas, mas não há absolutamente nada de profundo no enredo, de modo que levar muito a sério a chacota que os roteiristas claramente estão fazendo com toda a gente é produto de mente sandia. Ao mesclar uma porção de ingredientes do horror à dinâmica básica dos filmes de ação, os responsáveis pela obra nos colocam em uma “luta pela vida” que passa a ter um outro significado quando aparece um casal casal no posto de gasolina e joga na cara do espectador uma coleção de frases feitas, defesas de causas e contrariedades em opiniões polêmicas, tudo para efeito simples de ser louco e pseudo-engajado num filme que só quer rir da cara de extremistas e chatos-teóricos-de-todas-as-coisas.

Esse é o tipo de obra que consegue enganar os briguentos por causas nulas. “Ah, mas porque a mensagem…“. Calma aí, que mensagem? Comédias cínicas — especialmente as que brincam com realidade política — tendem a expor um caldeirão de ideias e, em torno delas, colocar os personagens agindo, não necessariamente defendendo algo. Se vocês prestarem bem atenção no final do filme, entenderão que, para começo de conversa, o grande evento da caçada sequer poderia ter existido e a casca supostamente “democrata” dele é o escracho hilário em torno de situações absolutamente reais, mas não colocadas dentro dos contextos corretos. Pegaram a ironia? Pode-se encontrar aí crítica ao “exagero ideológico“, crítica à “postura beligerante” de certos grupos ou “crítica aos extremismos“, mas na real, o filme só está se divertindo em cima da insanidade de algumas pessoas: aqueles que querem levar às últimas consequências as coisas mais banais possíveis… ou aqueles que querem inventar um problema humanitário diferente para cada nova ação daquele que está ao lado.

No todo, The Hunt é uma divertida caçada de gente podre que se acha “gente boa” a um bando de gente podre que se acha “gente boa“. É no exagero, nas piscadelas militarizantes das hilárias e rápidas mortes que vemos no início (Emma Roberts e Justin Hartley foram os melhores!) que o texto constrói a sua zombaria a tudo e a todos, não necessariamente às ideias desses indivíduos, mas à contradição dessas ideias com o mundo à sua volta e à própria hipocrisia dessas pessoas quando confrontadas com situações de crise. A trilha sonora também faz parte da brincadeira, porque cria uma atmosfera clássica e ponderada para uma moderna luta mortal que começa sem motivo e termina com um erro cometido por ego ferido e uma vontade patológica de vingança. Em suma, é uma metáfora empírica para qualquer briga de internet que já vimos ou já tivemos.

Embora engaje de forma inteligente o público, The Hunt peca porque fica apenas na casca mesmo, até na maneira como dá sentido às duas mulheres mais poderosas da obra, maravilhosamente interpretadas por Betty Gilpin (minha favorita) e Hilary Swank. É até possível aceitar o desenvolvimento do filme mantido à base de tiro, porrada e bomba, desde que o destino final da narrativa quisesse chegar em algum lugar tão prático quanto caçada que representou, não apenas na sugestão ou interpretação que joga para o público. Se unirmos o escrupuloso início do filme (um dos meus momentos favoritos da direção de fotografia, junto com a cena do bunker e a da cozinha) com o flashback, entendemos que existe sim um “sentido geral” pretendido pelos roteiristas, mas esse sentido é enfraquecido ao máximo no final. Nem os diálogos rasos e a frequente estupidez de alguns personagens (escolhas propositais, mas cuja repetição enerva um pouco) conseguem frustrar tanto.

A esse despeito, porém, a vitória da Bola de Neve é uma última excelente sacada dos autores. Agora só falta alguém vir aqui comentar que o roteiro é pró-Sanders por causa disso. E claro, dizer que o filme, seus criadores e o crítico que deu 3,5 para a obra são “lacradores” (viu, Laklasteh?). É como eu sempre digo (e como The Hunt deixa bem claro para quem quiser ver): ninguém tem o monopólio da babaquice.

The Hunt (2020) — EUA, 2020
Direção: Craig Zobel
Roteiro: Nick Cuse, Damon Lindelof
Elenco: Betty Gilpin, Hilary Swank, Ike Barinholtz, Wayne Duvall, Ethan Suplee, Emma Roberts, Christopher Berry, Sturgill Simpson, Kate Nowlin, Amy Madigan, Reed Birney, Glenn Howerton, Steve Coulter, Dean J. West, Vince Pisani, Teri Wyble, Steve Mokate, Sylvia Grace Crim, Jason Kirkpatrick, Macon Blair, J.C. MacKenzie, Justin Hartley
Duração: 90 min.

Crítica | Watchmen – 1X09: See How They Fly

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  • Contém SPOILERS! Para ler a crítica de outras obras do Universo Watchmen, clique aqui. 

Quando a série Watchmen estreou, um turbilhão de teorias e possibilidades surgiram e foram desenvolvidas pelos espectadores, baseados em ideias ainda verdes sobre o futuro do Universo que vimos “encerrar-se” com a lula gigante de Ozymandias matando milhares e impedindo que um desastre nuclear acontecesse. Desde o início, a série figurava como uma empenhada trama com os dois pés na História, espelhando o momento político atual dos Estados Unidos (e ondas muito similares no Ocidente, nesse final de década), tratando questões ideológicas e sociais dentro do mundo igualmente politizado que Alan Moore concebeu. Um futuro diferente… mas não tão diferente assim daquilo a que estávamos acostumado na ficção e daquilo que estamos acostumados no cotidiano. E para coroar isso, mais um “plano de fim de mundo” veio à tona.

Toda a trajetória da série passou por uma ressignificação temporal/conceitual após o excelente A God Walks Into Abar, demonstrando que a morte de Judd Crawford, a investigação que se seguiu e a posterior descoberta de planos bem complexos da 7K tinham por princípio um plano ou uma visão/vivência do próprio Dr. Manhattan em relação ao seu futuro. Aqui em See How They Fly, todas as camadas importantes da série, de seu contexto aos seus planos mirabolantes foram resolvidos pelo roteiro (e pelo amor de Deus, chega de chorar pitangas porque a série não dedicou um episódio inteiro para explicar a metafísica e epistemológica trajetória do Lube-Man!). Independente de gostar ou não do que foi feito, uma coisa é certa: Damon Lindelof parece ter quebrado uma maldição aqui. Ele realmente foi coerente a longo prazo e diante de um intricado plano dramático.

No todo, See How They Fly me pareceu decepcionante, mas não pela falta de qualidade e sim pelas escolhas que o showrunner tomou. Algumas delas eu simplesmente não gostei (Laurie e Looking Glass prenderem Ozy, por exemplo. Apesar de entender o princípio de pensamento para esse Universo, nesse momento de sua História) e outras vão permanecer como um eterno conflito para mim, como o destino do Dr. Manhattan. A questão é complexa e, mais uma vez, coerente com o que a série apresentou, mas pelo menos no meu caso existe uma batalha que dificulta um abraço total nesse encerramento. Por um lado, acho muito interessante que esse tenha sido o “destino final” do azulão e que ele tenha se apaixonado por alguém que acabaria sendo ele mesmo a partir de determinado momento. É absolutamente a cara do personagem e, como todo mundo já imaginava, ele não morreria… a questão é como iria sobreviver àquela situação.

Nós já vimos e experimentamos um pouco de como Manhattan enxerga/vive a realidade. Dessa forma, não é difícil compreender que, para ele, exceto o momento de estática dos 10 anos ao lado de Angela que não conseguia ver, as coisas já estavam acontecendo. Da nossa perspectiva, no entanto (ou da perspectiva de qualquer outro personagem que não o Deus azul) a coisa pode parecer um pouco… estranha. E é mesmo. Esse estranhamento de mudança de corpo e gênero é ao mesmo tempo interessante e risível porque nos tira de uma zona de conforto e, mesmo tendo uma proposta sólida — o roteiro até respeitou a linha cíclica de contar a história –, não deixa de mexer com a raiz de tudo. É nesse ponto que os descontentamentos legítimos aparecem. A partir daqui, estamos no território de aceitação mesmo, de como cada espectador interpreta e aceita essas mudanças como consequências do original. Se o episódio passado deu o que falar, esse aqui então…

A condução do capítulo teve um ritmo aplaudível e passou muito fluidamente da explicação e fechamento do arco de Ozymandias (que achei que teria a pior condução, mas qual o quê! Mesmo não gostado do exato final, tive uma ótima experiência com todo o trajeto) para as explicações finais e fechamento do arco de Angela/Manhattan/Justiça Encapuzada, tornando a série cíclica não só em seu tempo, mas acenando para a História desse próprio Universo e também para o Watchmen original. Através de excelentes interpretações e uma corajosa tomada de rumo para uma obra tão adorada como esta, a série nos deixa com os mistérios essenciais resolvidos e, pelo menos para mim, com uma imensa vontade de uma segunda temporada. Se não vier, porém, tenho aqui a felicidade de ter visto um dos shows mais inventivos e interessantes da década, e mesmo não concordando ou gostando de algumas das resoluções, não dá para ignorar a grandeza dessa versão de Watchmen. Quem sabe o que o futuro nos reserva, não é mesmo?

Watchmen – 1X09: See How They Fly (EUA, 8 de dezembro de 2019)
Direção: Frederick E.O. Toye
Roteiro: Nick Cuse, Damon Lindelof (baseado na obra de Alan Moore e Dave Gibbons)
Elenco: Regina King, Yahya Abdul-Mateen II, Christie Amery, Danny Boyd Jr., Hong Chau, Adelaide Clemens, Steven I. Dillard, Elyse Dinh, Frances Fisher, Louis Gossett Jr., Jolie Hoang-Rappaport, Andrew Howard, Jeremy Irons, Ted Johnson, Tom Mison, Dylan Schombing, Jean Smart
Duração: 67 min.