colin farrell

Crítica | Magnatas do Crime

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Ah, mas contém os mesmos ingredientes do diretor desde Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes!“, clama choramingando o cinéfilo que está descobrindo agora como é que funciona uma assinatura autoral e recorrente no cinema. Acontece. Um dia, todos nós temos que aprender. Entretanto a afirmação é, no melhor dos sentidos, plenamente verdadeira. Posso até dizer, na mesma linha, que Guy Ritchie faz uma inteligente reciclagem de si mesmo em Magnatas do Crime, e com isso consegue entregar uma comédia ambientada no mundo do crime onde ele está perfeitamente à vontade com todos os aspectos da produção e, por isso mesmo, consegue manipulá-los na medida certa para nos impressionar e divertir.

Produto da Miramax após o desligamento com os Weinstein e compra parcial pelo conglomerado ViacomCBS, The Gentlemen não sofre pelos problemas de bastidores e também não é o tipo de filme pretensioso que se apaixona de tal forma pela ideia que se esquece de dar suporte a todos os mistérios, a fim de trabalhá-los no desenvolvimento, chegando ao fim com as deixas aceitáveis e bem contextualizadas para o público pensar no que vem depois. Isso e piscadelas referenciais que tornam a experiência ainda mais gostosa, coisas que vão do poster de O Agente da U.N.C.L.E. (2015) numa cena onde faz todo sentido que ele esteja lá, até o uso de filmes como complemento visual ou narrativo do que está acontecendo no momento, como A Conversação (1974) e A Noite do Terror (John Mackenzie, 1980).

Michael Pearson (Matthew McConaughey) está tentando vender o seu império de produção de maconha no Reino Unido, mas percebe que a tarefa não será fácil, porque o preço que ele pede pelo império é altíssimo e porque existem alguns candidatos a futuros chefões nesta mesma seara. Este é o plot central do roteiro escrito pelo próprio diretor, mas isso não é apresentado de maneira simples e nem necessariamente de forma linear para o público, que talvez precise de um pouquinho de boa vontade para entrar completamente na história quando o flashback inicial surge. A partir daí, porém, estará vidrado, atento e constantemente surpreendido pelas reviravoltas que a trama nos traz.

A linha narrativa é concebida de maneira metalinguística via um roteiro que Fletcher (Hugh Grant) tenta vender para Ray (Charlie Hunnam, que traz a minha atuação favorita do filme), braço direito de Michael Pearson. O roteiro narra as últimas operações da quadrilha para manter os negócios funcionando e o preço do império em alta. É com base nessa ideia bem elaborada de suborno que a realidade e a ficção se unem, inicialmente como um jogo — cabendo aí brincadeiras do próprio diretor com mudança de lente, intensidade de cor, tipo de filme simulado e razão de aspecto — e progressivamente como uma série de eventos do passado que vão se aproximando do momento presente e trazendo as suas consequências e respostas, inclusive para algo que temos logo na cena de abertura e que nos deixa curiosos para saber “como” e “quem” está envolvido naquela situação.

O elenco dá um show de ótimas atuações aqui, mas o trio Matthew McConaughey, Hugh Grant e Charlie Hunnam é imbatível. A personalidade, as ligações deles com outros personagens e a forma como reagem a situações de crise são o combustível perfeito para segurar a história com diversos mistérios, alguns deles se resolvendo para abrir a porta a um outro mistério, que traz consigo uma grande surpresa no final. Vê-se que o filme não perde o passo e que temos uma interessante jornada do início ao fim, embora seja prudente destacar que a agilidade da montagem e o encadeamento dos diversos dramas paralelos (trazendo muitos e ótimos personagens coadjuvantes, acompanhados de uma aplaudível trilha sonora) se deem melhor a partir do momento que o espectador entende a concepção do diretor para o personagem de Hugh Grant — e já imagino que por conta dessa costura narrativa alguns terão maior dificuldade de gostar ou de se conectar com o filme.

Reclamações puristas a respeito da autoindulgência de Guy Ritchie (voltar ao início do primeiro parágrafo) entram naquele tipo de lista que entendemos trabalhar com fatos, mas que por trazerem à tona uma prática cinematográfica encontrada em todo cineasta com uma assinatura reconhecível e recorrente, acaba tornando o argumento contraditório ou hipócrita. O olhar do diretor para a sua própria obra serve ao argumento de Magnatas do Crime como elemento central do jogo, expondo peças de diversão que tornam a comédia de máfia distinta do que vemos frequentemente no mercado, e algumas escolhas que mostram o diretor procurando renovar sua maneira de contar (e especialmente de revelar) um grande mistério.

Magnatas do Crime (The Gentlemen) — EUA, 2019
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Guy Ritchie (baseado em história co-escrita por Ivan Atkinson e Marn Davies)
Elenco: Matthew McConaughey, Charlie Hunnam, Michelle Dockery, Jeremy Strong, Lyne Renee, Colin Farrell, Henry Golding, Tom Wu, Chidi Ajufo, Hugh Grant, Simon R. Barker, Eddie Marsan, Jason Wong, John Dagleish, Jordan Long
Duração: 113 min.

Crítica | Doctor Who – 12X03: Orphan 55

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Escrito pelo mesmo autor de O Sapo Não Lava o Pé It Takes You AwayOrphan 55 é um episódio complicado e que já descobri que está sendo odiado pelos motivos mais estapafúrdios possíveis, alimentando aquela ideia de que quando a gente está disposto a odiar algo, a própria existência desse “algo” já é o bastante (eu tenho a minha lista curta de coisas assim, sei bem do que estou falando). Embora a jornada de Chris Chibnall à frente da série dê munição para esse tipo de pensamento, um pouco mais de sensatez e pé no chão poderia ajustar as reclamações para aquilo que o episódio realmente tem de problemático. E dentre essas coisas não estão os humanos mutantes e nem um trágico futuro possível do nosso planeta.

Ed Hime começa seu rap com um toque cômico e ainda assim solene, pelo humor afetado da Time Lady após a ‘revelação’ do Mestre em Spyfall – Part Two. A equipe está faxinando a TARDIS após a nojeira causada por uma espécie em época de acasalamento para quem eles, pelo visto, deram carona. Os diálogos são rápidos, Graham aparece todo pimpão com os cards promocionais que acumulou da máquina de café da nave e então a Doutora e seus companheiros são teletransportados para o Tranquility Spa, no planeta Orphan 55. A apresentação do problema/divertimento é bem feita, a direção de Lee Haven Jones é inacreditavelmente caprichada (algo que me faria sentir imensa raiva dele na segunda metade do episódio, simplesmente por passar de uma ótima direção para o piloto automático) e a interação do time da TARDIS com esse lugar de férias que logo se torna um problema também merece grande destaque (pedaços de The Leisure Hive e The Mysterious Planet me vieram à mente).

E aí chegamos a uma das estranhas reclamações: como isso se encaixa na linha do tempo da série? A resposta é: se encaixando! A Doutora deixa bem claro que o que se vê aqui é um futuro possível da Terra, com humanos mutantes. E convenhamos, reclamar disso em Doctor Who é estupidez pura e simples, porque já vimos humanos mutantes num futuro possível da Terra poluída em The Curse of Fenric; já vimos uma versão paralela da Terra ser devastada na obra-prima Inferno, e até na Nova Série já vimos uma versão modificada da Terra e dos humanos em Utopia, ou seja, hatear a mutação do Homo Sapiens e a mudança do planeta ainda tendo a indicação de que este é apenas um dos futuros possíveis me parece choro de bebezão que quer colocar problema onde não existe problema.

O mesmo se dá com a temática do episódio, que ao mesmo tempo segue a base de muitas histórias isoladas da série (com premissa + início ótimos) e traz em seu bojo uma mensagem de alerta para impactos negativos da humanidade sobre o meio ambiente, assunto que nós vemos aparecer sob os mais diversos patamares no show, desde The Moonbase, na Era do 2º Doutor, passando por The Green Death (3º Doutor) até citações leves ou trabalhos diretos com essa temática de desequilíbrio da flora/fauna do planeta que aparecem na Nova Série em diversos momentos, como em Planet of the OodThe Waters of Mars, The Hungry Earth/Cold BloodIn the Forest of the Night e já na fase atual do programa, em Arachnids in the UK. A mensagem em relação ao meio ambiente, portanto, nunca foi ausente na série e nunca foi um problema para a série. O que ocorre — e este é o meu maior impasse com o presente episódio — é a questionável abordagem do tema. E não por ser ESTE tema. Qualquer assunto importante que é mal entregue, mal abordado ou jogado ao didatismo acaba sendo um problema. Aqui, não estamos lamentando o conteúdo, mas a forma.

O trabalho que o roteiro faz brincando com a temática de base sob ataque num planeta que ainda não sabemos, mas é o nosso (referenciado muito mais De Volta ao Planeta dos Macacos do que o glorioso clássico dirigido por Franklin J. Schaffner) é inicialmente feito de modo aplaudível. A forma como Haven Jones filma o ataque do Dreg é absolutamente assustador, com cortes rápidos e se valendo de uma bela fotografia, variando cores de cena para cena, mas com a menor incidência possível de luz sobre o monstro, um tipo de mistério que o deixa ainda mais assustador, perdendo-se depois quando vemos os corpos pálidos, ridículos e um pouco menos assustadores em seu próprio habitat. À medida que o texto amplia o seu alcance e insere novos personagens, aí as coisas começam a cair de qualidade. O mecânico e o filho de cabelos verdes, por exemplo. Eu trocaria ambos por um tratamento inteligente do roteiro colocando a Doutora descobrindo como sair daquela situação. E o que dizer do irritante e inútil casal de velhinhos? É o tipo de camada de um roteiro que a gente olha e tenta entender o que deu na cabeça do escritor para colocar isso no episódio. O tempo gasto com essa bobagem poderia facilmente ser utilizado para desenvolver uma relação dupla realmente interessante e que merecia mais tempo de dela: Bella (Gia Lodge-O’Meally) & Ryan e depois Bella & Kane (Laura Fraser).

Após a ágil e realmente boa luta contra os Dregs e o teletransporte da equipe para a TARDIS, chegamos ao maior impasse do episódio para mim, aquele discurso final da Doutora. A atuação de Jodie Whittaker é muito boa, a mensagem é absolutamente necessária e interessante, mas minha gente, o que foi aquilo pelo amor de Deus? O diálogo da Doutora com a gang de repente se torna uma pregação que claramente se dirige ao público, num longo fôlego em torno de um tema que o próprio roteiro já tinha deixado extremamente claro. Eu não consigo entender o por que o autor achou necessário bater na mesma tecla, agora de maneira mais formal e com ar de pregação para o espectador. A pior e mais vergonhosa forma de se entregar uma mensagem, especialmente quando é uma repetição. O discurso até o futuro possível da Terra poderia pegar qualquer outro ramo possível envolvendo o grupo, com algum tipo de demonstração prática, mas o final mastigado desse episódio foi um bom banho de água fria em todo o restante. Uma pena. Porque o cerne do capítulo me divertiu bastante.

Doctor Who – 12X03: Orphan 55 (Reino Unido, 12 de janeiro de 2020)
Direção: Lee Haven Jones
Roteiro: Ed Hime
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Laura Fraser, Gia Lodge-O’Meally, James Buckley, Julia Foster, Amy Booth-Steel, Will Austin, Colin Farrell, Lewin Lloyd, Spencer Wilding
Duração: 45 min.