Clayton Cowles

Crítica | Star Wars: Cidadela dos Gritos

Espaço: Horox III (base rebelde provisória), Cidadela de Ktath’atn (Cidadela dos Gritos)
Tempo: A Rebelião – Poucos meses após a Batalha de Yavin

Cidadela dos Gritos é o segundo crossover do universo em quadrinhos de Star Wars a partir do completo reboot feito pela Marvel Comics quando readquiriu a propriedade em 2015. Ao passo que A Queda de Vader, era composto por seis edições, este é composto por apenas cinco, uma dedicada que leva o nome do arco e que dá o pontapé inicial para a história e quatro outras edições dos títulos mensais, aqui no caso Star Wars (logo em seguida ao arco A Guerra Secreta de Yoda) e Doutora Aphra (logo em seguida ao arco Aphra). Em outras palavras, a editora segue seu interessante padrão (na linha editorial Star Wars, que fique claro!) de arcos específicos por vezes intercalados de crossovers bem estabelecidos e fáceis de acompanhar.

A Doutora Aphra, depois de furtar um cristal contendo a consciência de um Jedi milenar chamado Rur, conforme visto em seu primeiro arco, procura a ajuda de Luke Skywalker para destravar seu conteúdo. O objetivo é oferecer Luke como uma curiosidade biológica para uma misteriosa rainha que, uma vez por ano, recebe candidatos de toda a galáxia, escolhendo apenas um e, em troca, oferecendo literalmente qualquer desejo. É, convenhamos, uma premissa um tanto quanto exagerada e mística demais por parte de Kieron Gillen e Jason Aaron, fazendo da tal rainha um ser deveras superpoderoso, capaz de atender desejos e realizar sonhos dos mais aleatórios. Mas, se o leitor aceitar esse pulo de lógica, a história que segue sem dúvida diverte, já que, claro, a tal rainha e todos os seus súditos não são o que parece, escondendo um terrível e mortal segredo na Cidadela dos Gritos.

(1) Krrsantan sendo Krrsantan e (2) Luke “dançando” com a rainha.

O crossover funciona como uma fusão de Drácula, de Bram Stoker, com Alien, o Oitavo Passageiro, salpicada de pitadas de Indiana Jones (notadamente de O Templo da Perdição) graças à presença da sempre ótima – e mais do que trapaceira – Aphra e seus adoráveis androides assassinos, além do delicado Wookie de pelagem preta Krrsantan. Correndo atrás do que é percebido como o sequestro de Luke, Han Solo, Leia Organa e Sana Starros partem para Ktath’atn para salvar o ex-fazendeiro e aspirante a Jedi e acabam envolvendo-se profundamente nos terrores escondidos pela rainha maléfica e sua entourage de soldados de elite com design belíssimo. Em muitos aspectos, a história é uma grande correria repleta de reviravoltas que acaba trazendo a mente a estrutura dos clássicos desenhos do Scooby-Doo, mas, claro, sem a pegada franca de humor, ainda que o texto seja bem leve mesmo diante dos acontecimentos que se desenrolam em deixar a narrativa perder ritmo ou tornar-se morosa.

A arte varia bastante. A melhor delas fica logo no one-shot dedicado que abre o arco, já que o desenho ficou por conta de Marco Checcheto, que, depois, não retorna para a história a não ser nas capas. Seus traços são muito bonitos e fluidos, com todos os personagens muito bem recriados, além de ele ter um enorme cuidado com os panos de fundo e com a tecnologia empregada. Salvador Larroca, que desenha as duas edições de Star Wars, também é um destaque em seu trabalho, com traços talvez menos imponentes e um pouco mais joviais, mas que acrescentam energia à ação. Finalmente, Andrea Broccardo, que ficou responsável pelos dois números de Doutora Aphra, peca por forçar um fotorrealismo feio e completamente desnecessário aos rostos dos personagens e que ele, ainda por cima, faz questão de destacar com uma série de close-ups que assustam mais do que as ações da rainha maléfica.

Muito sinceramente, Cidadela dos Gritos não exatamente justifica a formalidade de crossover desse tipo que, mal ou bem, é sempre um evento de razoável importância ou, pelo menos, deveria ser. Enquanto A Queda de Vader trouxe uma história realmente relevante, aqui o que temos é, apenas, uma aventura divertida que, apesar de acabar em aberto, prometendo um segundo round, não empolga tanto quanto deveria.

Star Wars: Cidadela dos Gritos (Star Wars: Screaming Citadel – EUA, 2017)
Contendo (na ordem de leitura):
 Screaming Citadel #1, Star Wars #31, Doctor Aphra #7, Star Wars #32, Doctor Aphra #8
História: Kieron Gillen, Jason Aaron
Roteiro: Kieron Gillen (Screaming Citadel #1, Doctor Aphra #7 e 8), Jason Aaron (Star Wars #31 e 32)
Arte: Marco Checcheto (Screaming Citadel #1), Salvador Larroca (Star Wars #31 e 32), Andrea Broccardo (Doctor Aphra #7 e 8)
Cores: Andres Mossa (Screaming Citadel #1), Edgar Delgado (Star Wars #31 e 32), Antonio Fabela (Doctor Aphra #7 e 8)
Letras: Joe Caramagna (Screaming Citdadel #1 e Doctor Aphra #7 e 8), Clayton Cowles (Star Wars #31 e 32)
Editoria: Heather Antos, Jordan D. White
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Data de publicação original: julho a agosto de 2017
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: agosto de 2019 (encadernado)
Páginas: 112

Crítica | Star Wars: Alvo Vader

Espaço: Ficari, Coruscant, Yuw, cinturão de asteroides Fellio, Arvina, Heva, Frota Imperial, Lowik (base rebelde secreta), Ryarten (flashback), Fuacha (flashback), Mytar (flasback), Chorin (flashback), Academia Carida (flashback), Qhulosk (flashback), Mimban (flashback)
Tempo: A Rebelião – entre os eventos de Uma Nova Esperança e O Império Contra-Ataca

Valance, o caçador de recompensa ciborgue, apareceu pela primeira bem cedo no Universo Expandido de Star Wars, mais precisamente na edição #16 da primeira HQ mensal da franquia, em meados de 1978, repetindo suas aparições outras diversas vezes. O personagem, ex-Stormtrooper que teve seu corpo destroçado em combate e, depois, reconstruído muita na linha do que aconteceu com Darth Vader, sempre odiou não só o Lorde Sith como também todo e qualquer androide ou robô, fazendo questão de destruí-los sempre que tem oportunidade.

Somente muitos anos depois é que o personagem ganhou seu primeiro nome – Beilert – graças à expansão The Hunt Within: Valance’s Tale, do jogo Star Wars Miniatures, fabricado pela Wizards of the Coast e escrito por Jason Fry. E, como todo bom personagem, ele foi “ressuscitado” no novo cânone de Star Wars pela Marvel Comics, aparecendo como cadete imperial amigo de Han Solo na minissérie Han Solo: Cadete Imperial, escrito por Robbie Thompson como uma espécie de mini-expansão de sua própria adaptação em quadrinhos de Han Solo: Uma História Star Wars. E é o mesmo Thompson que coloca Beilert Valance em destaque na minissérie em seis edições Alvo Vader, em que ele e um grupo de caçadores de recompensa são contratados pela organização criminosa A Mão Escondida para assassinar Darth Vader.

É sempre complicado contar uma história cujo final conhecemos. Afinal, considerando que a aventura se passa antes dos eventos de O Império Contra-Ataca, não há nenhuma chance de Valance e companhia conseguirem matar o Lorde Sith. O que resta, portanto, é a forma como a história é contada, com Thompson aproveitando para dar mais estofo a Valance e também a cada um de seus companheiros: Honnah, uma rastreadora gamorreana, Urrr’k, uma sniper tusken, Chio Fain, um hacker ardenniano e R9-19, um androide que não demora cinco segundos e é eliminado pelo ciborgue. Além disso, o próprio Vader caça A Mão Escondida em razão da relação da organização com a Aliança Rebelde, algo que também é costurado na narrativa e que nos permite ver um lado mais sombrio, por assim dizer, daqueles que conhecemos com sendo do lado do bem.

Mas o grande objetivo do roteirista é mesmo destacar Valance como o grande estrategista invencível e durão que não economiza na loucura de seus planos para se aproximar de Vader e eliminá-lo. É, portanto, diversão descompromissada de alta octanagem para reposicionar o caçador de recompensas como mais um importante personagem do novo cânone e, ao mesmo tempo, servir de teaser para a já anunciada mensal Star Wars: Caçadores de Recompensa, que terá o ciborgue como líder e começará em março de 2019. Portanto, nesse aspecto o texto de Thompson é bem-sucedido, já que ele não se preocupa muito em complicar, mas sim, apenas, explodir e atirar.

Quando o autor arrisca-se a ir um pouco além, porém, ele se complica e entrega um resultado errático. A impressão que temos é que Valance odeia Vader, mas nenhuma razão muito específica é dada mesmo quando seu passado remoto é abordado. E o mesmo vale para a suposta origem da organização criminosa que ele caça, que recebe uma contextualização no mínimo muito estranha com a minissérie já bem avançada. Não é, de forma alguma, porém, algo mortal para a compreensão da linha bem simplista da narrativa, mas sem dúvida incomoda o leitor mais atento, até porque não eram elementos realmente necessários para o bom desenvolvimento de Valance.

No lado da arte, Alvo Vader é uma mixórdia. São nada menos do que seis desenhistas e uma penca de outros coloristas se revezando nas seis edições, cada um com seu estilo próprio, que acaba retirando qualquer traço de unicidade visual. Não são artes individualmente ruins, longe disso, com destaque para o trabalho de Marc Laming na primeira edição e para Georges Duarte na última, mas essa proliferação de artistas em uma minissérie tão curta depõe contra o resultado final e dá a impressão que tudo foi feito de qualquer jeito só para encerrar logo a história.

Como uma forma de introduzir Beilert Valance de uma vez por todas no novo Universo Estendido de Star Wars, Alvo Vader cumpre sua função e diverte de maneira rasa. Tomara que a mensal que terá o personagem em destaque, porém, tenha mais a oferecer do que apenas isso.

Star Wars: Alvo Vader (Star Wars: Target Vader, EUA – 2019)
Contendo: Star Wars: Target Vader #1 a 6
Roteiro: Robbie Thompson
Arte: Marc Laming (#1), Chris Bolson (#1 e 5), Stefano Landini (#2 a 4 e 6), Roberto Di Salvo (#5 e 6), Marco Failla (#5), Georges Duarte (#6)
Cores: Neeraj Menon (#1 a 4 e 6), Jordan Boyd (#1), Andres Mossa (#1), Federico Blee (#1 e 4), Erick Arciniega (#1), Giada Marchisio (#4), Rachelle Rosenberg (#5 e 6)
Letras: Clayton Cowles (#1 a 3), Joe Caramagna (#4 a 6)
Capas: Nic Klein
Editoria: Tom Groneman, Mark Paniccia
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 03 de julho a 11 de dezembro de 2019
Páginas: 141

Crítica | Star Wars: Allegiance (Jornada para Star Wars: A Ascensão Skywalker)

O “selo” Jornada para Star Wars da Marvel Comics funciona como prelúdios em forma de minisséries para os filmes principais da franquia lançados pela Lucasfilm depois de sua aquisição pela Disney. O Despertar da Força ganhou uma história repleta de enigmas batizada de Império Despedaçado, Os Últimos Jedi foi agraciado com uma história focada na subaproveitada Capitã Phasma e, agora, A Ascensão Skywalker recebe um prelúdio que coloca a General Leia e o piloto Poe Dameron em missões separadas para tentar reconstruir a Resistência.

Diferente dos prelúdios em quadrinhos dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel que, normalmente, parecem histórias feitas às pressas e de qualquer jeito só para cumprir tabela, os de Star Wars trazem elementos interessantes que, mesmo que não acrescentem informações essenciais para a compreensão dos filmes que antecedem (e nem poderiam, não é mesmo?), funcionam bem dentro do conceito de Universo Expandido, algo que a própria Marvel Comics fez com muito sucesso ainda em 1977. Allegiance não é uma história com grandes pretensões e não tem sequer o objetivo de fazer uma ponte muito clara entre filmes, sendo muito mais apenas uma aventura simpática que parte da quase eliminação da Resistência que vimos em O Último Jedi e coloca os heróis em histórias paralelas que, apesar de nunca sequer tangenciarem, caminham na mesma direção.

Quando a minissérie em quatro edições começa, a Primeira Ordem é apresentada como uma força que não tem a menor dó em eliminar todos os planetas que tiveram alguma conexão com a Resistência. Por seu turno, o pequeno grupo rebelde liderado por Leia Organa precisa de mais armas e mais naves para começar a reerguer-se e contra-atacar. Poe Dameron, Finn e BB-8 estão em uma missão na lua de Avedot para recuperar armas da Nova República e Leia, Rey, Rose, C-3P0 e Chewbacca partem para Mon Cala, lar dos Mon Calamari e dos Quarren, para convencer seu monarca a ceder-lhes as naves que eles tão desesperadamente precisam.

De um lado, Poe e Finn têm que enfrentar os caçadores de recompensa originalmente introduzidos no Universo Star Wars na minissérie Galaxy’s Edge, tie-in da nova “terra” dedicada à criação de George Lucas nos parques americanos da Disney. Trata-se de uma história pouco inspirada, básica mesmo, que não traz nem surpresas e nem um pingo sequer de tensão. Claro que jamais esperaria que os heróis sequer sofressem arranhões na história, mas falta senso de urgência e algo que tenha no mínimo relevância narrativa maior do que só preencher páginas. Por outro lado, a história de Leia lutando contra a oposição dos Quarren isolacionistas ao seu pedido encontra ressonância maior dentro desse universo, já que coloca um planeta inteiro na berlinda, planeta esse, claro, lar do inesquecível Almirante Ackbar, falecido em Os Últimos Jedi, mas que deixou um filho, Aftab, que respeita Leia e o legado do pai. Não só a narrativa é substancialmente mais interessante nessa trama carregada de política e salpicada por bons momentos de ação, como ela reposiciona os Mon Calamari mais uma vez como um dos mais importantes povos militarísticos do lado do bem na saga, algo visto originalmente em O Retorno de Jedi, depois (ou antes, dependendo do ponto de vista) em Rogue One e, finalmente, em Os Últimos Jedi, com possível repetição em A Ascensão Skywalker se o mínimo da HQ for utilizado no filme.

Apesar do desequilíbrio na qualidade das histórias paralelas, a leitura é fluida e prazerosa já que o roteiro de Ethan Sacks consegue capturar bem as vozes dos personagens em um texto simples, mas bem amarrado. E, completando a sensação de unicidade, a arte de Luke Ross trabalha bem os visuais dos mais conhecidos personagens sem ficar completamente escravo às suas versões live-action, além de dar vida pujante e diversificada aos planetas que povoam a narrativa, mesmo que ele, no final das contas, não se arrisque muito e mantenha uma cadência básica, quase burocrática.

Star Wars: Allegiance não mudará a vida de ninguém e, em termos comparativos, é a mais fraca minissérie do selo Jornada para Star Wars, ainda que não seja uma obra daquelas desavergonhadamente dentro da categoria caça-níquel. Mesmo assim, os fãs da franquia terão o que apreciar nas aventuras dos personagens como um tira-gosto do que está por vir.

Star Wars: Allegiance (Idem, EUA – 2019)
Contendo: Star Wars: Allegiance #1 a 4
Roteiro: Ethan Sacks
Arte: Luke Ross
Cores: Lee Loughridge
Letras: Clayton Cowles
Capas: Marco Checchetto
Editoria: Tom Groneman, Mark Paniccia, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 09 a 30 de outubro de 2019
Páginas: 103

Crítica | Surfista Prateado: Black

De todos os personagens criados pela prolífica dupla Stan Lee e Jack Kirby, o Surfista Prateado é o mais fascinante e aquele que mais atrai histórias de cunho existencial e filosófico. Desde sua primeira aparição na sensacional Trilogia de Galactus, passando por maravilhas como A Resposta e Parábola, a figura do solitário singrador do espaço exilado na Terra depois de trair seu criador Galactus é de uma humanidade sem par.

E foi por isso que, quando soube que Donny Cates seria o roteirista de uma série solo do personagem, que acabou sendo a primeira do Surfista sem Stan Lee vivo, fiquei com receio. Mas minhas dúvidas não repousavam em qualquer reticência que eu tivesse ou tenha em relação ao autor, pois, muito ao contrário, considero seu trabalho para a Marvel Comics um dos grandes achados da editora. Acontece que a principal marca de Cates é seu exagero, sua tendência à completas repaginações de mitologias de personagens, algo que eu tinha na cabeça que jamais combinaria com Norrin Radd.

No entanto, para minha felicidade, Surfista Prateado: Black, minissérie em cinco edições que parte do arremesso do personagem pela Ordem Negra para dentro de um buraco negro em Guardiões da Galáxia (2019) #1, do próprio Cates, é puro Surfista Prateado clássico. Sim, a pegada enlouquecida do autor está presente, mas a reverência ao personagem e aos seus criadores também está lá em cada página dessa viagem lisérgica para os confins do espaço há bilhões de anos.

Sim, porque Cates adora “bilhões de anos”. Ele fez isso para criar a história pregressa dos simbiontes em Rex, o primeiro arco da publicação mensal atual de Venom e repetiu a dose na primeira minissérie solo do Motoqueiro Fantasma Cósmico, sua mais do que tresloucada criação. Portanto, aqui, como resultado do buraco negro, o Surfista acaba em um planeta bilhões de anos atrás somente para dar de cara com ninguém menos do que Knull, o Deus dos Simbiontes que Cates criara no retcon de Venom. Claro que a pancadaria cósmica come solta, com o Surfista sendo “infectado” pelo preto do título e vagarosamente tendo sua pele prateada corrompida.

No entanto, a minissérie está longe de ser só pancadaria. Afinal, eu mencionei que ela é “puro Surfista Prateado”, não é mesmo? É que Cates tem o cuidado e a delicadeza de abordar a própria essência do personagem como ex-arauto de Galactus, responsável indireto por bilhões, senão trilhões de mortes até rebelar-se para salvar a Terra. O roteiro, aliás, começa assim, com o personagem relembrando seu passado na espiral do buraco negro e revelando que um de seus nomes é exatamente Morte. Da forma como Cates aborda o assunto, parece até que ele está fazendo apenas uma homenagem a Lee e Kirby sem maiores consequências para a história que conta, mas, na medida em que a narrativa progride, o leitor percebe que a expiação da culpa que sempre corroeu o Surfista é o coração da aventura e é isso que a guia, em uma pegada filosófica e dramática belíssima e que, por incrível que pareça, genuinamente emociona.

Nesse passado remoto, não só vemos o Surfista lidar com seus demônios, com Knull sendo a representação física deles, como também há sua interação com um jovem Ego em uma releitura belíssima da parábola do leão e do ratinho, além de seu encontro com Galactus, ou melhor, com Galan antes que o processo de nascimento do Devorador de Mundos em sua incubadora termine de acontecer. São nesses momentos que Cates prova que realmente conhece o conturbado personagem e remexe profundamente em sua história, em sua vida, sem realmente alterá-la, mas dando-lhe outra dimensão que poderá surpreender muita gente com uma conclusão que certamente trará um sorriso para os rostos mais sisudos.

E se Cates captura muito bem a “voz” do Surfista, Tradd Moore é genial na forma que aborda sua aparência e esse universo “novo” em que o vemos. Os traços ultra-deformados dele para o Surfista emprestam uma aparência de “metal líquido” ao personagem que reflete visualmente seu sofrimento interno. Aos que preferem seus personagens anatomicamente perfeitos, porém, um aviso: Moore exagera, mas é um exagero bom, sensacional mesmo, e não o tipo de deformação desconjuntada que vemos no trabalho de Rob Liefeld ou em muita coisa de John Romita Jr. Além disso, sua pegada é completamente lisérgica como a história exige, lembrando-me muito – mas de maneira diferente – das maravilhosas “viagens” de Christian Ward em ODY-C com inacreditáveis pitadas do espaço sideral de Jack Kirby em obras como seu Quarto Mundo, Eternos ou sua adaptação de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, dentre outras, além das incríveis doideiras de Steve Ditko em Doutor Estranho. Basta para isso reparar como o céu é “habitado” por planetas, supernovas, nebulosas e todo o tipo de corpo cósmico, além das recriações magníficas de Ego e de Galan/Galactus, com as cores de Dave Stewart fazendo tudo explodir nas páginas dessa joia cósmica.

Comecei Surfista Prateado: Black sem muitas esperanças de ver algo ao mesmo tempo diferente e reverencial ao personagem e acabei a última página de queixo caído e querendo mais pela mesma dupla. Deve ter sido assim que quem leu o Surfista de Kirby e Lee nos anos 60 se sentiu. Que maravilha!

Surfista Prateado: Black (Silver Surfer: Black, EUA – 2019)
Contendo: Silver Surfer: Black #1 a 5
Roteiro: Donny Cates (baseado em história de Donny Cates e Tradd Moore)
Arte: Tradd Moore
Cores: Dave Stewart
Letras: Clayton Cowles
Capas: Tradd Moore
Editoria: Lauren Amaro, Danny Khazem, Darren Shan, C.B. Cebulsky
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 12 de junho a 30 de outubro de 2019
Páginas: 108

Crítica | Carnificina Absoluta

Não tem muito tempo que a Marvel Comics prometeu que iria dar um tempo em suas mega-sagas, algo que a editora efetivamente fez, mas, simultânea e sorrateiramente intensificando os chamados “eventos” que nada mais são do que sagas em escalas menores, ainda que por vezes elas não deixem nada a dever em escopo para as sagas propriamente ditas. Carnificina Absoluta é um desses eventos que tem todo o jeito e pretensão de ser uma saga, inclusive com uma enorme quantidade de tie-ins (nada menos do que oito publicações extras de uma ou duas edições e mais duas edições da mensal Amazing Spider-Man e quatro de Venom), envolvendo praticamente todo o Universo Marvel. Só para o leitor ter uma ideia da mecânica ensandecida da editora, no mesmo dia em que Carnificina Absoluta acabou, dois outros “eventos” começaram: Marvel 2099, que pretende revitalizar o futuro distópico originalmente introduzido em 1992 e Aniquilação: Scourge, continuação das duas sagas cósmicas que receberam o título Aniquilação primeiro entre 2005 e 2007 e, depois, com o subtítulo Conquista, entre 2007 e 2008.

No entanto, para manter minha sanidade e para ser 100% transparente com o leitor, a presente crítica leva em consideração apenas as cinco edições dedicadas de Carnificina Total que contam a história completa, ainda que alguns detalhes aqui e ali venham obviamente dos tie-ins, mas nada que realmente afete a compreensão do todo. No entanto, é importante notar que esse é um trabalho capitaneado por Donny Cates o autor vem se notabilizando por reformular profundamente a mitologia dos simbiontes desde que embarcou no título solo de Venom em julho de 2018, resultando nos arcos Rex e O Abismo que revelaram (ou retconaram, para ser mais preciso) a existência de um deus dos simbiontes de bilhões de anos de vida (e que o Surfista Prateado enfrenta na sensacional minissérie Black) e de um filho pré-adolescente para Eddie Brock. Portanto, embarcar em Carnificina Total sem conhecer pelo menos esses arcos não é recomendável (até porque eles são muito bons) ainda que, com um esforcinho, eu desconfio que seja possível ler o evento sem conhecimento prévio algum.

Seja como for, Carnificina Absoluta, como o nome indica, traz de volta o completamente insano Cletus Kasady, o Carnificina, só que, dessa vez, “vestindo” o simbionte-dragão Grendel, que lhe dá poderes próximos do divino. Seu objetivo é recolher os códices, que são traços que todos os simbiontes deixam no DNA de seus hospedeiros, de forma que ele possa reconectar-se com a mente coletiva dos seres espaciais e, com isso, acordar Knull, o tal deus dos simbiontes que está adormecido no coração do planeta dos simbiontes conforme os eventos vistos em Rex (viu, eu disse que é melhor ler os arcos de Venom antes). Como praticamente todos os personagens mais importantes – e alguns nem tanto – do Universo Marvel já foram hospedeiros, nem que por pouco tempo, de algum simbionte, todo mundo acaba sendo afetado pelo evento, já que Carnificina passa a controlar e a transformar boa parte dos super-heróis em fusões de simbionte com humano. Venom, com a ajuda do Homem-Aranha principalmente, precisam enfrentar essa gigantesca ameaça, que conta, ainda, com Norman Osborn como “segundo em comando” de Carnificina devido ao seu estágio atual de loucura completa depois que se tornou o Duende Vermelho.

Quem conhece Donny Cates sabe o que esperar: exageros extrememos. E ele entrega justamente isso. Mas, por outro lado, é só isso. A pancadaria come solta ao longo das cinco edições principais do evento sem que momentos narrativamente significativos realmente ocorram até a segunda metade do último número que, mesmo assim, permanecem sem explicações e com toda a pinta de que o que lemos foi apenas um prelúdio do que está por vir, em um resultado que, da mesma forma que me frustrou, pode frustrar muita gente que esperava algo minimamente fechado. Mas há qualidade nas doideiras que Cates escreve e ele sabe prender a atenção do leitor mesmo com relativamente muito pouco acontecendo, o que torna a leitura agradável, ainda que, em última análise insatisfatória e, poderia até dizer, enganosa considerando o final completamente em aberto (e absolutamente previsível, só para usar o modal do título).

Mesmo com muita energia e criatividade para esbanjar, o autor não consegue nem de longe barrar aquilo que ele mesmo construiu ao longo das mensais de Venom, pelo que Carnificina Absoluta parece apenas mais do mesmo, e isso já considerando as várias transformações por que passam diversos personagens ao longo das inchadas 186 páginas. Em outras palavras, depois de exagerar tudo o que queria exagerar em Venom e também na minissérie do Motoqueiro Fantasma Cósmico, Cates deixa o frescor de lado e reempacota suas tresloucadas criações com outro papel e vende novamente a mesma coisa, apenas trocando o preto de Venom pelo vermelho de Carnificina.

Falando em vermelho, o colorista Frank Martin escolheu belíssimas tonalidades para pintar as páginas do evento, mantendo-as quase que uniformemente vermelhas, mas sem agredir o leitor com um Pantone berrante. Ele sabe ser comedido quando precisa, mas a explosão vermelha nas páginas é belíssima, algo que, obviamente, também é responsabilidade de Ryan Stegman, que vem acompanhando Cates desde o começo dessa reformulação do Venomverso. O artista tem traços fortes, detalhados e chamativos, com leves “deformações” anatômicas para criar efeitos de primeira, como quando desenha o Homem-Aranha, mesmo em poses relaxadas, da maneira mais flexível e esguia possível sem ficar estranho. Da mesma forma, o Aracnídeo, muito como o vemos em Homem-Aranha Superior (que Stegman também desenhou uma boa parte), ganha olhos com grossos e muito expressivos contornos pretos que destacam positivamente o personagem. No entanto, por vez Stegman se empolga demais e desenha splash pages ou meias-páginas de ação que são confusas demais, com muito acontecendo ao mesmo tempo que acabam embaralhando a visão e tornando tudo muito genérico. Por sorte esses problemas só existem aqui e ali e não são exatamente muito sérios.

Carnificina Absoluta é uma pancadaria divertida, mas que não só não acrescenta muita coisa ao Venomverso, como parece ser apenas um prelúdio e uma rearrumação de tabuleiro para a continuidade do trabalho de Cates nas edições mensais de Venom ou, quem sabe, em mais outro evento desse tipo, algo como “Carnificina Absolutamente Máxima” ou algum título exagerado desses. Se o leitor quiser uma diversão descompromissada, porém, a combinação das insanidades de Cates com a bela arte de Stegman com as cores de Martin acabam sendo um prato cheio.

Carnificina Absoluta (Absolute Carnage, EUA – 2019)
Contendo: Absolute Carnage #1 a 5
Roteiro: Donny Cates
Arte: Ryan Stegman
Arte do flashback da edição #5: Mark Bagley, John Dell
Arte-final: JP Mayer, Ryan Stegman (#4), Jay Leisten (#4 e 5)
Cores: Frank Martin
Letras: Clayton Cowles
Editoria: Danny Khazem, Devin Lewis, Nick Lowe
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 07 de agosto a 20 de novembro de 2019
Páginas: 186