Clancy Brown

Crítica | Um Sonho de Liberdade

Há um grupo seleto de filmes que alcançaram o feito de terem sido recebidos com unânime entusiasmo tanto pela crítica como pelo público e ainda terem sobrevivido praticamente intactos à imperdoável prova do tempo. É exatamente esse o caso de Um Sonho de Liberdade, um dos filmes mais celebrados no ano de 1994 e que já se consolidou como um clássico amplamente presente no imaginário popular. O filme dirigido por Frank Darabont (estreante em longas-metragens na época) atingiu a posição que ocupa exatamente por executar com perfeição a fórmula do drama de redenção. Mas, ao contrário de filmes como Alcatraz – Fuga Impossível, protagonizado por Clint Eastwood em 1979, o leitmotiv de Um Sonho de Liberdade não será apenas as condições perversas da prisão onde o protagonista lutará por sua salvação. O filme protagonizado por Tim Robbins e Morgan Freeman tratará muito mais do diálogo do prisioneiro inocente com seu mundo.

O que vemos no filme de 1994 transcende sobremaneira o gênero dos dramas sobre prisões e, por isso mesmo, optei por tratá-lo dentro do escopo dos filmes de redenção. O que se destaca é mesmo a fábula sobre o homem comum que terá de suportar os acintes do real e prevalecer sobre um mundo profundamente injusto, cruel e com imensa capacidade de causar dor. Penso que a escolha do conto de Stephen King, que serve de base ao roteiro de Darabont, em evitar quaisquer referências ao mundo real seja bastante acertada, pois torna a prisão de Shawshank mais do que uma prisão. Torna-a uma metáfora da própria vida humana sobre a Terra – profundamente difícil e desafiadora. Quando Andy Dufrese (Tim Robbins) é encarcerado na fictícia prisão sem ter cometido crime algum, é ao homem mais ordinário, é a cada um de nós, que cada golpe e sevícia atingirão em cheio. O sentimento de compaixão (sofrer junto) que o filme desperta no público é um de seus maiores trunfos e, por isso mesmo, ele agrada tão fácil a gregos e troianos. Afinal, nada mais universal na condição humana que o sofrimento sem razão.

O fato de o personagem principal ser um outsider dentro de Shawshank é outro ponto que cativa o espectador, que certamente já se viu diante do absurdo da existência, completamente confuso e com um sentimento profundo de não pertencimento à realidade que o cerca. Ao mesmo tempo, Andy se vê impelido a pertencer de algum modo à sua nova realidade de prisioneiro, tal como cada um de nós terá de fazer para sobreviver em um mundo cheio de agruras. Um Sonho de Liberdade é uma fábula tão universal e conversa tão bem com o público que podemos pensar o enredo como um rito de passagem, que transita de um estado naif da existência para um estado maduro e sempre inacabado, em que se busca equilibrar a violência do real e as possibilidades de defesa e sobrevivência diante dele. Quando o personagem de Robbins provoca Ellis Boy “Redding” (Morgan Freeman) acerca da ideia de esperança, inquirindo-o se era melhor esquecê-la tal como fizera o velho suicida Brooks (James Whitmore), o chiste nada mais é do que uma reação do homem comum contra a realidade que o brutaliza. Andy sofre inúmeras punições. Ora as aceita. Ora as combate e tenta se haver com aquilo que dá conta.

O mais interessante na obra de Frank Darabont é notar que ela examina várias saídas para a realidade extrema em que vivem seus prisioneiros, violentados física, emocional e até sexualmente pelos guardas e pelo diretor desumano e despótico. Existe a resignação, vivida de modo autômato pelo personagem de Freeman e que ele mesmo compreenderá como caminho inviável em um longo diálogo com seu melhor amigo após a morte de Brooks. Existe a capitulação e a negação da vida enquanto ação e liberdade, que o personagem de Whitmore representa ao não conseguir sobreviver após sair da prisão. Curioso que ele chame a prisão de seu “lar”, reconhecendo-se não mais como um homem, mas apenas como um prisioneiro dependente sua casca de noz. Não seria esse o estágio mais profundo da má fé sartriana? Um Sonho de Liberdade põe o dedo na ferida sem piedade – o sofrimento pode se tornar a mais poderosa zona de conforto na medida em que nega o próprio homem como responsável por sua história.

A terceira saída para o homem imerso em uma realidade tão espinhosa é a esperança. Dita dessa forma, ela pode soar até como tolice. Mas o ritmo narrativo do filme, com sua direção e seu roteiro que não apressam a evolução do protagonista, nos permite compreender como é laborioso conservá-la diante de uma existência que nos açoita não uma ou duas, mas centenas de vezes. Quando Andy fala sobre a esperança e é desacreditado por seus companheiros, é estupendo notar que também somos nós, do outro lado da tela, que expressamos nossas dúvidas. Mas o desconforto que todos sentem ao redor do personagem de Tim Robbins demonstra que essa é a fonte da vida de cada um naquele lugar. Viktor Frankl, em seu livro Em Busca de Sentido, garante que os sobreviventes dos campos de concentração não eram os mais sábios nem os de melhor compleição física, mas o que tinham alguma razão maior para suportar tamanho sofrimento. Penso que a construção do personagem principal de Um Sonho de Liberdade vai ao encontro dessa ideia, pois não trata da esperança de modo ingênuo ou piegas. Apresenta-a como um longo e penoso exercício. A travessia final do protagonista rumo à liberdade, arrastando-se por meio quilômetro em um cano repleto de fezes, não seria a alegoria perfeita disso?

O fotograma mais icônico do filme, no qual Andy é registrado em um dos plongée mais conhecidos da história do cinema, celebra a vitória da esperança em um mundo que não parece comportar nenhuma. O personagem não consegue sua liberdade de modo heroico ou glorioso. Alcança-a arrastando-se sobre a imundície e a degradação. Essa cena joga a pá de cal, de uma vez por todas, sobre a possibilidade de que fosse esse mais um grande filme perdendo-se em um final de apelo fácil. Um olhar mais atento deve ainda apreender que aqui o processo também importa e muito. Um Sonho de Liberdade nos oferece algumas ferramentas para enfrentar a existência. Sentimentos nobres como a amizade e faculdades tão valorosas quanto a inteligência e a criatividade humanas, com as quais Andy demove seus companheiros de suas zonas de conforto e promove melhorias em sua vida no cárcere, parecem funcionar como poderosos estratagemas para conservar a expectativa de redenção. E não seria exagero pensar que também a arte, por meio de obras ficcionais e por isso mesmo tão legítimas como essa, seja igualmente valiosa na tarefa de dar  algum enlevo à vida.

Um Sonho de Liberdade (Shawshank Redemption – USA, 1994)
Direção: Frank Darabont
Rorteiro: Frank Darabont (baseado em conto de Stephen King)
Elenco: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, Clancy Brown, Willian Sadler
Duração: 142 min.

Crítica | The Mandalorian – Chapter 6: The Prisoner

  • Há spoilers.

Acho que todo mundo já conseguiu entender que Mando, o mandaloriano sem nome e sem rosto que protagoniza a série mais badalada do momento, é um badass silencioso e de bom coração com uma das armaduras mais bonitas do meio audiovisual. Mesmo assim, The Prisoner existe única e exclusivamente para reiterar essa fato já deixado sobejamente claro desde mais ou menos o terço final do primeiro episódio.

O roteiro de Christopher Yost e Rick Famuyiwa sequer perde tempo com algum tipo de contextualização ou um mínimo de cuidado narrativo e já joga Mando na base espacial de Ranzar Malk (Mark Boone Junior, de Sons of Anarchy) que o quer, assim como sua nave Razor Crest, para libertar alguém de um transporte prisional da Nova República. Para isso, o mandaloriano é inserido em uma equipe composta de Mayfeld (Bill Burr), um ex-atirador de elite do Império, Burg (Clancy Brown, o eterno Kurgan, de Highlander e que também deu voz a Savage Opress em The Clone Wars), um devaroniano particularmente grande e forte, Xi’an (Natalia Tena), uma Twi’lek que só usa facas e Q9-Zero (Richard Ayoade), um androide que pilota naves como ninguém.

Quando disse que não há cuidado no roteiro, é que ele realmente é o mais básico e rasteiro de todos até agora a tal ponto de até os diversos novos personagens serem extremamente sem graça e repetitivos (Burg e Xi’an só fazem grunhir por exemplo), o que é uma novidade na série. E a ação em si é pouco inspirada, cansativa e óbvia a cada fotograma. E não, não espero ser surpreendido sempre ou mesmo reviravoltas (todos sabem o quanto eu acho twists tirados da cartola desnecessários), mas eu espero que os clichês que vêm sendo usado sem nenhum pudor na série sejam bem empregados. Não é o caso aqui desde o momento em que Mando desaparece só para ressurgir triunfalmente atrás dos primeiros androides que eles enfrentam, passando pela traição de seu grupo e, de novo, pela traição ao final e a “reviravolta” do localizador no bolso do prisioneiro do título.

E, mais uma vez, o bebê Yoda é usado como instrumento de fofura extrema, mas que já está perdendo seu glamour. A essa altura do campeonato, faltando somente dois episódios para a 1ª temporada acabar, parece mais que não há roteiro nem para 30 minutos de episódio (e esse tem 43, o mais longo até agora!) e o tempo remanescente precisa ser preenchido com os olhões pretos ou os dedinhos do bichinho para mostrar o quão sensacional é a arte dos marionetistas que o controlam, o que de fato é, ainda que não cheguem nem aos pés do trabalho de Frank Oz com Yoda nem à absoluta maravilha que é o recente O Cristal Encantado: A Era da Resistência.

Em The Prisoner, nem mesmo aquele senso de aventura que mesmo os mais simples dos episódios anteriores esbanjavam está presente. Em outras circunstâncias, talvez mais no começo da temporada, o episódio poderia ser o típico veículo para deixar evidente as características do protagonista, mas, aqui, ele é só mais do mesmo com o agravante do final completamente disneyficado em que vemos que aqueles que traíram Mando foram deixados vivos, no máximo com chifres quebrados. Tudo bem o mandaloriano mostrar coração e conectar-se com o bebê Yoda ou com outros personagens com quem partilhou a tela, mas sua transformação de destemido caçador de recompensa em super-herói que não mata ninguém é um pouco demais e retira a aura de durão que ele vinha até aqui carregando muito bem.

A direção de Famuyiwa, que volta à série depois de The Child, cumpre sua função, mas, muito parecido com o roteiro que co-escreveu com Yost, pende fortemente para o lado burocrático, algo que simplesmente precisava ser diferente diante da estrutura de espaço confinado e repetitivo que é a nave-prisão. Planos abertos em corredores brancos funcionam bem uma, talvez duas vezes, mas não mais do que isso, especialmente em episódio tão curto, mas o diretor usa e abusa desses momentos sem realmente criar um mínimo de suspense ou estabelecer uma conexão entre os personagens que seja maior do que a óbvia animosidade que existe entre eles. Pelo menos a trilha sonora de Ludwig Göransson continua sendo a melhor trilha dessa fase pós-Disney de Star Wars, com o bônus de a música tema de Mando ganhar ótimas e inéditas variações nesse episódio.

The Prisoner, diferente de Mando, carece de coração, de algo mais que o destaque para além da fofura do bebê Yoda ou da eficiência absoluta do protagonista em face do perigo (que nunca é perigoso o suficiente). Ainda garante diversão daquelas bem basiconas, mas de uma forma que já está caminhando para um completo marasmo narrativo que simplesmente não poderia acontecer nesse final.

The Mandalorian – Chapter 6: The Prisoner (EUA, 13 de dezembro de 2019)
Showrunner: Jon Favreau
Direção: Rick Famuyiwa
Roteiro: Christopher Yost, Rick Famuyiwa
Elenco: Pedro Pascal, Carl Weathers, Bill Burr, Natalia Tena, Clancy Brown, Richard Ayoade, Ismael Cruz Cordova, Mark Boone Junior
Duração: 43 min.

Crítica | The Crown – 3ª Temporada

  • Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Os mais de dois anos de intervalo entre as segunda e terceira temporadas de The Crown podem ter sido resultado de exigências inerentes à produção, mas esse distanciamento ajudou na absorção de uma das mais ousadas escolhas recentes da televisão e que, acho, jamais aconteceu na mesma magnitude e circunstâncias: a troca integral do elenco principal. Saem Claire Foy, Matt Smith e Vanessa Kirby como, respectivamente, a Rainha Elizabeth II, o Duque de Edimburgo e a Princesa Margaret, e entram Olivia Colman, Tobias Menzies e Helena Bonham Carter nesses inesquecíveis papeis.

Tendo sacramentado o elenco original, a substituição do elenco se dá por insistência do showrunner Peter Morgan para tornar o envelhecimento dos personagens algo mais natural, sem precisar recorrer a maquiagem ou próteses, com a “troca” ocorrendo logo nos primeiros segundos de projeção de maneira extremamente elegante e reverencial, por intermédio da alteração da efígie da rainha nos selos de seu reino. Mesmo considerando que seria possível a trinca original continuar por pelo menos mais essa temporada, já que suas contrapartidas da realeza têm 34 (Margaret), 41 (Elizabeth) e 43 anos em 1964, quando a história começa, creio que essa foi uma escolha mais do que acertada já que os eventos que vemos desenrolar na tela vão até 1977, no jubileu de prata da rainha, e, por melhor que fosse o trabalho de maquiagem, Foy, com 35 anos, teria sua excelente performance habitual potencialmente maculada. Além disso, Colman, com 45 anos, tem um rosto consideravelmente mais maduro e sério, características essenciais para a forma como essa temporada aborda a rainha, agora uma mulher perfeitamente adequada ao peso da coroa que carrega, tendo domado todos os seus sentimentos a tal ponto que, na maioria das vezes, ela esquece que, lá no fundo, ainda é humana e pode se dar ao luxo de deixar-se afetar pelos eventos ao seu redor, sejam eles felizes ou tristes.

E esse é realmente o triunfo da temporada: fazer a protagonista trafegar no fio da navalha, em um delicado trabalho que a coloca muitas vezes sob uma luz ruim, capaz de transformá-la em vilã aos olhos do público. Colman, que é uma das grandes atrizes britânicas de sua geração, entrega uma performance magnificamente fria nas primeiras camadas, mas sempre deixando que semblantes de calor e humanidade escapem aqui e ali por um olhar, por um breve tremor na boca ou por sua postura, algo que é intensificado cirurgicamente pelos magníficos trabalhos dos quatro diretores que se encarregaram, neste ano, de trazer a trama monárquica à vida. Em termos de fisicalidade porém, quem mais consegue se aproximar de sua contrapartida da vida real logo no começo da temporada é Tobias Menzies e seu Philip, um personagem consideravelmente mais abertamente sensível, ainda que sempre resoluto em suas opiniões sobre a quase completa santidade dos rituais da monarquia. Helena Bonham Carter, por seu turno, é a que deixou o maior abismo na forma como vive sua personagem se comparada com sua antecessora no papel, algo que é proposital dado o crescimento exponencial da amargura de Margo tanto com seu agora marido Antony Armstrong-Jones (Ben Daniels substituindo Matthew Goode) quanto com sua família, mas sem nunca deixar de ressaltar os traços do amor que sente por eles, por mais incongruente que isso possa parecer.

Outra grande diferença dessa temporada em relação às demais é seu caráter mais fortemente episódico, ou seja, com cada capítulo abordando uma história específica com começo, meio e fim que somente em pouquíssimos casos ganham interconexões. Essa foi mais uma escolha ousada de Peter Morgan, pois ele arriscou que sua criação perdesse a sensação de unicidade, passando a ser uma coleção de anedotas sobre a vida da realeza britânica no século XX. No entanto, novamente vê-se o cuidadoso planejamento do showrunner e seu talento para contar uma história. Afinal, não é todo mundo que é capaz de escrever o roteiro cinematográfico de Frost/Nixon, composto, basicamente, de uma longa entrevista real, e manter a atenção do espectador. O que ele faz é escolher um tema central que não necessariamente é trabalhado em primeiro plano o tempo todo, mas que fica permanentemente nas entrelinhas, com a escolha, aqui, sendo o enfraquecimento da percepção favorável da monarquia pelo povo britânico, algo que reflete a realidade dos fatos históricos, especialmente com a vitória do Partido Trabalhista logo no começo da temporada, quebrando a hegemonia do Partido Conservador (os Tories) e marcando a entrada do Primeiro Ministro Harold Wilson (Jason Watkins), de tendências socialistas que são pontuadas por vários elementos do primeiro episódio, como a brevíssima participação de John Lithgow novamente como Winston Churchill e a paranoia relacionada com uma infiltração da KGB no governo britânico.

Ao longo dos episódios, acurácia história e liberdade ficcional se misturam em uma obra superlativa, que nasceu para exigir as pontuações mais hiperbólicas do público e dos críticos. Da mesma maneira que a crise econômica britânica é trabalhada genialmente em Margaretologia, um episódio leve, com uma perfeita participação de Clancy Brown (o Kurgan, de Highlander) como o presidente americano Lyndon Johnson, com consequências nefastas pessoalmente para a princesa Margo, a temporada é capaz de lidar de forma sombria com uma infelizmente famosa tragédia ocorrida em Aberfan (também título do episódio), uma cidade mineradora, em 1966, demonstrando o quão difícil e injusto é o papel de Rainha da Inglaterra e o quanto Elizabeth II está conformada nessa sua fase da vida, pagando um preço caríssimo por isso.

Eu certamente poderia escrever sem parar sobre cada um dos episódios da temporada, mas, prezando a brevidade, não o farei. No entanto, não posso deixar de destacar duas novas adições ao elenco que trouxeram não só uma qualidade dramatúrgica ainda mais assombrosa à série, quanto um sabor melancólico, mas belíssimo às histórias, já que esses novos personagens são uns dos poucos fora do pequeno núcleo principal que têm narrativa continuada. A primeira adição é a de Jane Lapotaire como a Princesa Alice, mãe de Philip que, no terceiro episódio – Bubbikins – enternece corações ao ser trazida para o palácio real em razão do golpe de estado em andamento na Grécia, onde vive como freira. Sua presença é inteligentemente usada para dar ainda mais estofo ao marido da rainha, colocando-o em dúvida sobre sua função, sobre seus feitos, algo que é notadamente explorado durante a chegada do homem à lua que vemos sob seu prisma em Poeira Lunar, o sétimo episódio.

A segunda adição é a de Josh O’Connor como o Príncipe Charles, filho mais velho da rainha e herdeiro do trono. Não só o jovem ator é fisicamente muito parecido à sua contrapartida viva, como sua atuação é um primor que desmistifica aquela impressão midiática que certamente a maioria das pessoas tem sobre o príncipe. Aqui, o que vemos é um rapaz inocente, sensível, honesto e, sobretudo, amoroso, que não entende ainda o que se espera dele um dia e que, por isso, não consegue compreender seu lugar no mundo. O episódio que o introduz, Tywysog Cymru, o sexto, é um primor de construção de personalidade, usando sua coroação como Príncipe de Gales para relativizá-lo completamente em meio ao sentimento fortemente nacionalista do País de Gales, região britânica com costumes e, principalmente, língua próprias. E essa delicadeza na retratação de Charles continua e é acentuada em Na Corda Bamba, o oitavo episódio, que estabelece o começo de seu relacionamento com Camilla Shand, vivida por Emerald Fennell, e que chega a seu clímax em Imbróglio, o capítulo seguinte que também retorna ao tema da mineração, só que sob outro enfoque e que, para quem conhece a história verdadeira, deixa pontas soltas para a próxima temporada que verá a chegada de Margaret Thatcher como Primeira Ministra.

Não tenho nenhuma dúvida em afirmar desde já – ainda na metade do projeto de Peter Morgan – que The Crown é uma das melhores e mais ricas séries da década, capaz de transformar assuntos potencialmente áridos em uma sinfonia narrativa quase sem par que assombra por ter um elenco soberbo, um design de produção de fazer o queixo cair e por nos fazer rever o século XX a partir de um olhar elegante e sublime. E isso fica ainda mais incrível quando mais uma vez lembramos que estamos falando de uma obra que não teve cerimônia em trocar todo o seu elenco principal de um ano para o outro.

The Crown – 3ª Temporada (EUA/Reino Unido – 17 de dezembro de 2019)
Criação: Peter Morgan
Direção: Benjamin Caron, Christian Schwochow, Jessica Hobbs, Sam Donovan
Roteiro: Peter Morgan, James Graham, David Hancock
Elenco: Olivia Colman, Tobias Menzies, Helena Bonham Carter, Marion Bailey, Charles Dance, John Lithgow, Derek Jacobi, Geraldine Chaplin, Ben Daniels, Jason Watkins, Erin Doherty, Jane Lapotaire, Josh O’Connor, Michael Maloney, Emerald Fennell, Andrew Buchan, Finn Elliot, Clancy Brown, Mark Lewis Jones, Tim McMullan, Harry Treadaway
Duração: 481 min. (10 episódios no total)