Claire Danes

Crítica | Homeland – 8X02: Catch and Release

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Homeland é uma obra de ficção, claro, mas a série sempre primou pelo realismo, especialmente no que se refere à intrincada geopolítica que procura abordar. E a derradeira temporada, talvez a primeira a mergulhar de cabeça na desejada paz no Oriente Médio, vem para primeiro discutir exatamente que paz é essa que todos dizem que almejam, usando isso como pano de fundo para momentos de tensão que explodem precisamente logo nesse segundo episódio e que efetivamente arma o que está por vir.

Sempre abracei um conceito que meu pai me ensinou, de que o Homem é, fundamentalmente, um ser beligerante. Somos formados e moldados por conflitos tanto em escala global quanto em escala pessoal e a paz é algo que mais se parece com utopia, com algo que precisamos dizer que queremos sob pena de enlouquecermos, mas que, lá no fundo, sabemos ser impossível. Uma visão pessimista, sem dúvidas, mas olhando apenas para o presente e ao nosso redor, diria que é uma visão realista, especialmente no que se refere ao Oriente Médio. E Catch and Release deixa isso dolorosamente evidente quando afirma que mesmo os americanos só querem a paz como veículo para a retirada estratégica de suas tropas e não como algo verdadeiramente duradouro. Talvez Saul Berenson mantenha acesa a chama da esperança e Mandy Patinkin está incrível em passar esse sentimento quando ouve a gravação da conversa telefônica de Haqqani com seu filho que Max obteve, mas tudo ao redor dele conspira contra, desde seu próprio governo, passando pelos afegãos, pelos paquistaneses, pelos russos e, claro, pelos próprios talibãs.

A teia que esse episódio joga nesse panorama impossível é muito bem trabalhada, com cada elemento sendo uma decorrência lógica do que vimos em Deception Indicated e do que efetivamente vemos no mundo real. Carrie precisa recorrer à chantagem para fazer com que o vice-presidente afegão volte atrás em sua declaração de que não soltará os prisioneiros talibãs, condição fundamental para as conversas de paz continuarem, a filha do presidente afegão conspira para derrubar de vez as tratativas com um atentado à Haqqani que coloca Saul em maus lençóis e, por trás disso tudo, os russos, representados pelo ardiloso Yevgeny Gromov, manipula tudo por trás, inclusive – e especialmente – a própria Carrie. É um labirinto complexo que, muito propriamente, nos impede de ver qualquer saída minimamente razoável, já apontando para um final que não consigo imaginar que seja sequer próximo do feliz.

E é disso que Homeland é feito, essencialmente: cenários impossíveis que até ganham resoluções “cinematográficas” para agradar seu público, mas que nunca são fáceis ou mesmo agradáveis. O maior exemplo disso é o final da temporada anterior que forçou Carrie a abrir mão de sua filha e a entregar-se ao cativeiro russo, retornando completamente destruída psicologicamente, com efeitos que, felizmente, foram carregados para a última temporada como parte de seus pilares. Duvidar do que a agente enregou ou não aos russo é um brilhante retorno à Trilogia Brody, mas ter Yevgeny de volta como personagem ativo é esfregar sal da ferida, algo que fica ainda mais terrível quando as imagens e sons do passado que até agora nos deixaram ver parecem indicar que o russo e Carrie tiveram uma relação mais próximo ainda do que só carrasco e prisioneira, mas como resultado da privação de Carrie de seus medicamentos, não como algo genuíno.

Saindo do eixo central de personagens da série, devo dizer que tenho gostado muito da forma como a agente Jenna (Andrea Deck) vem sendo usada na temporada. Apresentada como alguém ainda verde, o que automaticamente manteve Carry distante, aqui ela tem seu papel expandido e percebemos que ela realmente ainda tem muito a aprender, logo estragando a entrevista falsa com Samira Noori (Sitara Attaie), nome tão gentilmente cedido por Yevgny. Tomara que Jenna (e possivelmente até Samira) ganhe crescente destaque na temporada. No lado paquistanês, a traiçoeira Tasneem (Nimrat Kaur), personagem que foi apresentada na série lá na 4ª temporada e que fez gigantescos estragos, continua com um papel pequeno, mas essencial que também espero ver expandido em razão de seus laços com Haqqani e com o talibã.

Mesmo que eu mantenha minha posição inicial de que eu gostaria de ter visto mais de Carrie Matheson no hospital militar antes de ir para campo, é inegável que não teríamos um episódio dessa categoria para armar a temporada sem a agente bipolar em Cabul. E o melhor é que, aqui, tivemos Saul também em ação, resultando em seu sequestro (de novo!) por Haqqani e uma simpática coronhada de AR-15. Se é verdade que, se queremos paz, devemos nos preparar para a guerra, Catch and Release fez isso muito bem!

Homeland – 8X02: Catch and Release (EUA, 16 de fevereiro de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Lesli Linka Glatter
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie
Duração: 42 min.

Crítica | Homeland – 8X01: Deception Indicated

  • Há spoilersLeia, aqui, as críticas das demais temporadas.  

Depois de quase dois anos, Homeland volta às telinhas para sua oitava e derradeira temporada em uma jornada brilhante, ainda que não perfeita, desde sua estreia em 2011, com o começo do que chamo Trilogia Brody. E, mesmo tendo tido tanto tempo para pensar no que poderia ser o mote desse encerramento, fui pego de surpresa por uma escolha tão simples e óbvia, mas tão maravilhosamente lógica e circular, que Deception Indicated imediatamente capturou minha atenção: se a série começou com as suspeitas da agente bipolar da C.I.A. Carrie Matheson (Claire Danes) sobre a lealdade do soldado americano Nicholas Brody (Damian Lewis), que passou anos preso pelo talibã, então nada melhor do que ela acabar com suspeitas sobre a própria Carrie depois que ela passou 213 dias em um gulag russo, privada de seus medicamentos e sendo torturada.

Melhor do que isso é que o roteiro de Debora Cahn e do showrunner Alex Gansa não se contenta em deixar as suspeitas unicamente ao encargo de um agente carrancudo que a interroga em um sanatório militar na Alemanha quando o episódio começa, mas sim ao transformar a protagonista em uma narradora não confiável, ao não só fazer o espectador duvidar do que ela fala, como também semear dúvidas na própria Carrie, que passa a ter sua já perturbada mente assombrada pela terrível possibilidade de ela ter revelado os nomes de sua rede de espiões e infiltrados. O episódio é, portanto, angustiante e desesperador, voltando a usar a bipolaridade de Carrie como fio condutor da narrativa, algo que sempre tem enorme potencial quando é bem explorado como nas duas temporadas anteriores.

Saul Berenson (Mandy Patinkin), agora o todo-poderoso conselheiro do presidente Warren (Beau Bridges, que ainda não apareceu, mas que foi introduzido na temporada anterior), está em meio a negociações de paz exatamente com o talibã de ninguém menos do que Haissam Haqqani (Numan Acar, que também ainda não apareceu), aquele mesmo personagem que fez um acordo sombrio com Dar Adal (F. Murray Abraham) ao final da cambaleante quarta temporada e cujo arco, até agora, permanecia aberto para frustração de muitos (minha inclusive!). Só isso já é outra notícia alvissareira para quem acompanha a série, já que, ao que tudo indica, teremos um desfecho para essa ponta que havia sido largada por completo (talvez propositalmente). Não demora, porém, e o vice-presidente do Afeganistão manifesta-se publicamente recusando a libertar prisioneiros talibãs em poder de seu governo, elemento fundamental de negociação, exigindo que Berenson tome medidas desesperadas e reincorpore Carrie para uma missão em Cabul.

Devo dizer que teria gostado mais do episódio se ele tivesse ido mais devagar com a louça. Carrie no hospital ainda tinha muito a oferecer e sua retirada de lá ainda na metade do capítulo foi um pouco frustrante, especialmente considerando a velocidade com que ela imediatamente entra em ação, algo que chega até a ser desnorteador. Sim, compreendi perfeitamente a proposta de revelar o assassinato de um de seus informante pelos talibãs como chave para a dúvida interna de Carrie sobre os 180 dias que ela não se lembra estando em poder dos russos, mas isso poderia ter vindo talvez de outra forma ou até mesmo no episódio seguinte, sem precisar movimentar a trama na velocidade da luz logo em seu início.

E a rapidez dos acontecimentos também acaba atrapalhando a fluidez da missão de Max Piotrowski (Maury Sterling), que volta não só à campo, mas no meio do fogo cruzado no Vale de Korangal, no Afeganistão, em uma missão de conserto de equipamento de espionagem em território hostil e tremendamente perigoso, cercado de um pelotão que logo se afeiçoa do calado personagem. Último personagem da “velha guarda” da série fora Carrie e Saul, a presença de Max, aqui, não só é abrupta como diferente de tudo que vimos antes em relação a ele, pelo que Deception Indicated teria lucrado mais se, no lugar de se preocupar em deslocar Carrie do hospital quase que instantaneamente, tivesse preparado melhor o terreno para o especialista em escutas eletrônicas. Ainda que a missão dele já seja claramente conectada aos acontecimentos ao redor de Saul, será interessante ver como isso evoluirá e se ele será mantido apartado do restante do elenco, talvez desenvolvendo seu pelotão.

Claire Danes está novamente impressionante em seu papel, com uma performance natural, que deixa sua personagem constante à beira do abismo, prestes a pular. Sua reações em momentos chave, como quando ela confronta seu interrogador no sanatório, recebe a notícia de Saul de que ela voltará à ativa ou quando ela descobre sobre o assassinato de seu informante são de se tirar o chapéu, com a atriz prometendo um tour de force final que tornará Carrie uma das mais memoráveis personagens da televisão moderna.

A correria do episódio, porém, tem um lado muito positivo, já que ele deixa, em relativamente poucos minutos, o circo perfeitamente armado para o que vem por aí, costurando as suspeitas sobre Carrie em um tecido que de maneira genial retorna à premissa original da série, devolvendo a personagem ao Oriente Médio,  e, finalmente, trazendo Haqqani e, claro, seu torturador russo Yevgeny Gromov (Costa Ronin) de volta. E assim, com o tabuleiro devidamente posto, os 11 episódios finais têm todas as peças necessárias para encerrar Homeland com toda a pompa e circunstância que a série merece.

Homeland – 8X01: Deception Indicated (EUA, 09 de fevereiro de 2018)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Lesli Linka Glatter
Roteiro: Debora Cahn, Alex Gansa
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain
Duração: 55 min.