Charles Dance

Crítica | Victor Frankenstein

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Excetuando talvez a história do vampiresco Conde Drácula, nenhuma outra história de terror foi tão contada e recontada nas mais diferentes mídias do que a do Dr. Frankenstein, cientista criado por Mary Shelley, que ao tentar vencer a morte gerando o seu próprio ser através da ciência, cria um monstro feito com partes de cadáveres. A ideia de renovar essa trama tão conhecida ao contá-la do ponto de vista do assistente corcunda de Victor Frankenstein, Igor, (que não existe no romance original de  Shelley, tendo sido criado para os filmes da Universal) tinha os seus atrativos. Afinal, em muitas versões, o Corcunda Igor vê o cientista como uma espécie de deus e a jornada da perda da fé do assistente na figura de seu mentor poderia ter rendido um filme bem interessante. Infelizmente, o longa-metragem de Paul McGuigan nunca consegue arranhar qualquer potencial que a premissa poderia ter.

Na trama, um corcunda  autodidata (Daniel Radcliffe), é resgatado pelo cientista Victor Frankenstein (James McAvoy) do circo onde trabalhava sob maus tratos, após Frankenstein testemunhar o corcunda utilizar os conhecimentos anatômicos que aprendeu lendo livros roubados para socorrer uma aerialista acidentada. Victor cura a deformidade do corcunda, e o rebatizando de Igor, torna-o seu assistente. Entretanto, à medida em que vai tomando conhecimento da natureza dos experimentos de reanimação de matéria morta realizados por seu salvador, Igor começa a se perguntar até onde está disposto a ir por fidelidade a Frankenstein. Ao mesmo tempo em que a dupla é caçada por Roderick Turpin (Andrew Scott) — um obcecado inspetor de polícia que os acusa de roubar cadáveres –; Finnegan (Freddie Fox), um inescrupuloso milionário, decide financiar o projeto de Frankenstein de criar um Prometeu Moderno visando possuir um Exército particular.

Parte da proposta inicial do roteiro de Max Landis vai pela janela logo nos primeiros minutos de filme, quando sem grande dificuldade, Frankenstein cura a corcunda de Igor, resolvendo tudo com uma extração de fluídos e um colete ortopédico; tirando do personagem o símbolo do ícone que deveria representar. Ainda assim, o longa poderia ter rendido algo minimamente palatável se soubesse exatamente que história queria contar, o que claramente não é o caso. Victor Frankenstein transita de forma esquizofrênica entre o horror de ação, o thriller vitoriano e uma ação assumidamente mais aventuresca, com direito a um vilão “estilo James Bond” na figura de Finnegan. As escolhas narrativas e estéticas de Victor Frankenstein fazem do filme uma mistura indigesta do Sherlock da BBC (que teve vários episódios comandados pelo diretor deste filme), o Sherlock Holmes de Guy Ritchie, e o pavoroso Van Helsing de Stephen Sommers que nunca consegue dar a esta mistura de referências uma unidade coesa.

O filme, em boa parte do tempo, parece querer se apresentar como uma aventura quase satírica, o que pode ser percebido especialmente pela atuação de James McAvoy, que vive o cientista do título de forma deliciosamente efusiva e excêntrica. O Frankenstei de McAvoy um maníaco com uma persona quase infantil, e que claramente não tem a dimensão (e se tivesse, não se importaria) de suas ações. Nesses momentos, percebemos que o projeto de Paul McGuigan poderia ter funcionado como uma comédia gótica de ação, que inclusive cresce quando se permite tirar sarro dos signos ligados ao personagem, como a tempestade e a icônica frase “Está Vivo”.

Mas supostamente este deveria ser um filme contado pela perspectiva de Igor, na prática o nosso protagonista (apesar do título), e é ao tentar abordar as dúvidas e conflitos morais do (ex)corcunda de forma articulada com a maluquice quase paródica em torno de Frankenstein, que a obra se perde. O roteiro parece crer que o romance de Igor com a jovem acrobata Lorelei (Jessica Brown Findlay) será capaz de abrir os olhos do jovem para os erros de seu “benfeitor”, mas a relação nunca convence. A crise de confiança dos dois amigos que surge da revelação de segredos horríveis de Frankenstein não transita bem entre os aspectos cômicos e dramáticos da narrativa, nunca permitindo portanto, que nos envolvamos emocionalmente com os personagens, já que os atores parecem estar atuando em projetos diferentes.

O filme possui um trabalho de direção de arte interessante; retratando uma Londres suja, sombria e caótica. As sequências de ação por sua vez surgem burocráticas e pouco criativas. As criaturas criadas por Frankenstein ao longo do filme são  visualmente pobres, infelizmente, seja aquelas criadas por um CGI pouco convincente (que são a maioria), ou por um trabalho de maquiagem derivativo e pouco inspirado.

Entre tantas aparições do Dr. Franknestein e de seu monstro nos cinemas e na TV, é pouco provável que esta produção seja lembrada como uma adaptação digna da obra de Mary Shelley. A falta de um foco para o filme sobre como explorar os seus protagonistas, que nunca parece se decidir entre uma abordagem mais satírica e uma abordagem mais contida, somada a uma direção trôpega; fazem desta produção uma bomba, que nem mesmo a ciência de Frankenstein conseguiu trazer à vida.

Victor Frankenstein- Estados Unidos, 2015
Direção: Paul McGuigan
Roteiro: Max Landis (Baseado nos personagens de Mary Shelley)
Elenco: James McAvoy,Daniel Radcliffe, Jessica Brown Findlay, Andrew Scott, Freddie Fox, Charles Dance, Callum Turner, Daniel Mays, Bronson Webb, Alistair Petrie, Mark Gatiss, Louise Brealey, Guillaume Delaunay, Adrian Schiller, Valene Kane
Duração: 109 minutos.

Crítica | The Crown – 3ª Temporada

  • Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Os mais de dois anos de intervalo entre as segunda e terceira temporadas de The Crown podem ter sido resultado de exigências inerentes à produção, mas esse distanciamento ajudou na absorção de uma das mais ousadas escolhas recentes da televisão e que, acho, jamais aconteceu na mesma magnitude e circunstâncias: a troca integral do elenco principal. Saem Claire Foy, Matt Smith e Vanessa Kirby como, respectivamente, a Rainha Elizabeth II, o Duque de Edimburgo e a Princesa Margaret, e entram Olivia Colman, Tobias Menzies e Helena Bonham Carter nesses inesquecíveis papeis.

Tendo sacramentado o elenco original, a substituição do elenco se dá por insistência do showrunner Peter Morgan para tornar o envelhecimento dos personagens algo mais natural, sem precisar recorrer a maquiagem ou próteses, com a “troca” ocorrendo logo nos primeiros segundos de projeção de maneira extremamente elegante e reverencial, por intermédio da alteração da efígie da rainha nos selos de seu reino. Mesmo considerando que seria possível a trinca original continuar por pelo menos mais essa temporada, já que suas contrapartidas da realeza têm 34 (Margaret), 41 (Elizabeth) e 43 anos em 1964, quando a história começa, creio que essa foi uma escolha mais do que acertada já que os eventos que vemos desenrolar na tela vão até 1977, no jubileu de prata da rainha, e, por melhor que fosse o trabalho de maquiagem, Foy, com 35 anos, teria sua excelente performance habitual potencialmente maculada. Além disso, Colman, com 45 anos, tem um rosto consideravelmente mais maduro e sério, características essenciais para a forma como essa temporada aborda a rainha, agora uma mulher perfeitamente adequada ao peso da coroa que carrega, tendo domado todos os seus sentimentos a tal ponto que, na maioria das vezes, ela esquece que, lá no fundo, ainda é humana e pode se dar ao luxo de deixar-se afetar pelos eventos ao seu redor, sejam eles felizes ou tristes.

E esse é realmente o triunfo da temporada: fazer a protagonista trafegar no fio da navalha, em um delicado trabalho que a coloca muitas vezes sob uma luz ruim, capaz de transformá-la em vilã aos olhos do público. Colman, que é uma das grandes atrizes britânicas de sua geração, entrega uma performance magnificamente fria nas primeiras camadas, mas sempre deixando que semblantes de calor e humanidade escapem aqui e ali por um olhar, por um breve tremor na boca ou por sua postura, algo que é intensificado cirurgicamente pelos magníficos trabalhos dos quatro diretores que se encarregaram, neste ano, de trazer a trama monárquica à vida. Em termos de fisicalidade porém, quem mais consegue se aproximar de sua contrapartida da vida real logo no começo da temporada é Tobias Menzies e seu Philip, um personagem consideravelmente mais abertamente sensível, ainda que sempre resoluto em suas opiniões sobre a quase completa santidade dos rituais da monarquia. Helena Bonham Carter, por seu turno, é a que deixou o maior abismo na forma como vive sua personagem se comparada com sua antecessora no papel, algo que é proposital dado o crescimento exponencial da amargura de Margo tanto com seu agora marido Antony Armstrong-Jones (Ben Daniels substituindo Matthew Goode) quanto com sua família, mas sem nunca deixar de ressaltar os traços do amor que sente por eles, por mais incongruente que isso possa parecer.

Outra grande diferença dessa temporada em relação às demais é seu caráter mais fortemente episódico, ou seja, com cada capítulo abordando uma história específica com começo, meio e fim que somente em pouquíssimos casos ganham interconexões. Essa foi mais uma escolha ousada de Peter Morgan, pois ele arriscou que sua criação perdesse a sensação de unicidade, passando a ser uma coleção de anedotas sobre a vida da realeza britânica no século XX. No entanto, novamente vê-se o cuidadoso planejamento do showrunner e seu talento para contar uma história. Afinal, não é todo mundo que é capaz de escrever o roteiro cinematográfico de Frost/Nixon, composto, basicamente, de uma longa entrevista real, e manter a atenção do espectador. O que ele faz é escolher um tema central que não necessariamente é trabalhado em primeiro plano o tempo todo, mas que fica permanentemente nas entrelinhas, com a escolha, aqui, sendo o enfraquecimento da percepção favorável da monarquia pelo povo britânico, algo que reflete a realidade dos fatos históricos, especialmente com a vitória do Partido Trabalhista logo no começo da temporada, quebrando a hegemonia do Partido Conservador (os Tories) e marcando a entrada do Primeiro Ministro Harold Wilson (Jason Watkins), de tendências socialistas que são pontuadas por vários elementos do primeiro episódio, como a brevíssima participação de John Lithgow novamente como Winston Churchill e a paranoia relacionada com uma infiltração da KGB no governo britânico.

Ao longo dos episódios, acurácia história e liberdade ficcional se misturam em uma obra superlativa, que nasceu para exigir as pontuações mais hiperbólicas do público e dos críticos. Da mesma maneira que a crise econômica britânica é trabalhada genialmente em Margaretologia, um episódio leve, com uma perfeita participação de Clancy Brown (o Kurgan, de Highlander) como o presidente americano Lyndon Johnson, com consequências nefastas pessoalmente para a princesa Margo, a temporada é capaz de lidar de forma sombria com uma infelizmente famosa tragédia ocorrida em Aberfan (também título do episódio), uma cidade mineradora, em 1966, demonstrando o quão difícil e injusto é o papel de Rainha da Inglaterra e o quanto Elizabeth II está conformada nessa sua fase da vida, pagando um preço caríssimo por isso.

Eu certamente poderia escrever sem parar sobre cada um dos episódios da temporada, mas, prezando a brevidade, não o farei. No entanto, não posso deixar de destacar duas novas adições ao elenco que trouxeram não só uma qualidade dramatúrgica ainda mais assombrosa à série, quanto um sabor melancólico, mas belíssimo às histórias, já que esses novos personagens são uns dos poucos fora do pequeno núcleo principal que têm narrativa continuada. A primeira adição é a de Jane Lapotaire como a Princesa Alice, mãe de Philip que, no terceiro episódio – Bubbikins – enternece corações ao ser trazida para o palácio real em razão do golpe de estado em andamento na Grécia, onde vive como freira. Sua presença é inteligentemente usada para dar ainda mais estofo ao marido da rainha, colocando-o em dúvida sobre sua função, sobre seus feitos, algo que é notadamente explorado durante a chegada do homem à lua que vemos sob seu prisma em Poeira Lunar, o sétimo episódio.

A segunda adição é a de Josh O’Connor como o Príncipe Charles, filho mais velho da rainha e herdeiro do trono. Não só o jovem ator é fisicamente muito parecido à sua contrapartida viva, como sua atuação é um primor que desmistifica aquela impressão midiática que certamente a maioria das pessoas tem sobre o príncipe. Aqui, o que vemos é um rapaz inocente, sensível, honesto e, sobretudo, amoroso, que não entende ainda o que se espera dele um dia e que, por isso, não consegue compreender seu lugar no mundo. O episódio que o introduz, Tywysog Cymru, o sexto, é um primor de construção de personalidade, usando sua coroação como Príncipe de Gales para relativizá-lo completamente em meio ao sentimento fortemente nacionalista do País de Gales, região britânica com costumes e, principalmente, língua próprias. E essa delicadeza na retratação de Charles continua e é acentuada em Na Corda Bamba, o oitavo episódio, que estabelece o começo de seu relacionamento com Camilla Shand, vivida por Emerald Fennell, e que chega a seu clímax em Imbróglio, o capítulo seguinte que também retorna ao tema da mineração, só que sob outro enfoque e que, para quem conhece a história verdadeira, deixa pontas soltas para a próxima temporada que verá a chegada de Margaret Thatcher como Primeira Ministra.

Não tenho nenhuma dúvida em afirmar desde já – ainda na metade do projeto de Peter Morgan – que The Crown é uma das melhores e mais ricas séries da década, capaz de transformar assuntos potencialmente áridos em uma sinfonia narrativa quase sem par que assombra por ter um elenco soberbo, um design de produção de fazer o queixo cair e por nos fazer rever o século XX a partir de um olhar elegante e sublime. E isso fica ainda mais incrível quando mais uma vez lembramos que estamos falando de uma obra que não teve cerimônia em trocar todo o seu elenco principal de um ano para o outro.

The Crown – 3ª Temporada (EUA/Reino Unido – 17 de dezembro de 2019)
Criação: Peter Morgan
Direção: Benjamin Caron, Christian Schwochow, Jessica Hobbs, Sam Donovan
Roteiro: Peter Morgan, James Graham, David Hancock
Elenco: Olivia Colman, Tobias Menzies, Helena Bonham Carter, Marion Bailey, Charles Dance, John Lithgow, Derek Jacobi, Geraldine Chaplin, Ben Daniels, Jason Watkins, Erin Doherty, Jane Lapotaire, Josh O’Connor, Michael Maloney, Emerald Fennell, Andrew Buchan, Finn Elliot, Clancy Brown, Mark Lewis Jones, Tim McMullan, Harry Treadaway
Duração: 481 min. (10 episódios no total)