C.B. Cebulski

Crítica | Thor (2020) #1: O Rei Devorador – Parte Um, O Inverno Negro

Jason Aaron revolucionou Thor em seu longevo run do personagem entre 2012 e 2019 e sua anunciada saída e substituição por Donny Cates, meu roteirista favorito da Marvel Comics no momento, foi ao mesmo tempo uma notícia triste e alvissareira. Dificilmente Cates conseguirá fazer algo do mesmo nível, mas, se tem alguém que pode chegar lá é ele, nem que seja por intermédio de seus famosos exageros. No entanto, a grande verdade é que eu somente iria fazer a crítica da nova mensal de Thor, iniciada lá fora exatamente no dia 1º de dezembro, quando o primeiro arco acabasse. Mas eu acabei sucumbindo à tentação e não foi por uma razão muito digna: fiquei com extrema raiva da nova aparência do Deus do Trovão.

Portanto, eu simplesmente precisava desopilar o fígado e falar sobre isso logo e é assim que começarei essa crítica: que coisa esteticamente horrível fizeram com Thor aqui. Jason Aaron passou sete anos transformando o personagem em uma alma torturada, carregando o peso de nove reinos nos ombros, algo que tirou sua dignidade e custou um de seus olhos e um de seus braços, além de lhe deixar com a aparência de um guerreiro viking de lenda, todo barbado e com aparência mais velha. Eis então que vem Nic Klein e desfaz tudo, retornando Thor à sua aparência jovial com direito a cabelos longos de anúncio de xampu, tiara e um uniforme “galático” cheio de luzinhas que é desapontador. E mais: Thor, agora, tem dois olhos e dois braços também.

Ah, eu sei que muita gente dirá que isso é temporário, só enquanto Thor é um arauto de Galactus, transformação que é todo o objetivo dessa primeira edição, mas, muito sinceramente, era necessário mesmo essa reversão? Não bastava um Mjölnir todo brilhante e mega-poderoso para representar a fusão do poder asgardiano com o de Galactus? Era mesmo necessário mudar toda a aparência tão cuidadosamente construída – ou seria destruída? – por Aaron?

Mas calma! Eu não nasci ontem e sei que algo assim aconteceria mais cedo ou mais tarde. Além disso, já sou crescidinho o suficiente para saber separar meu descontentamento pessoal dos méritos da história sendo contada. E toda essa minha choradeira acima é só isso mesmo, uma choradeira. Eu tenho esse direito, afinal de contas, especialmente depois que vocês lerem o que vem depois desses dois pontos: eu não levei essas alterações estéticas em consideração para chegar à minha avaliação final sobre essa edição. Viram só?

Falando nisso, a edição é soberba. Não só a arte de Klein em tudo que não é a mudança de Thor na última página é espetacular, como a abertura da edição, com o martelo de Thor viajando por oito reinos só para derrubar um monstrão em Midgard e ajudar os Vingadores é o típico trabalho exuberante que Cates escreve, com direito até mesmo ao Homem de Ferro mandando um recado para seu colega com uma canetinha.

Além disso, a introdução discreta de um problema com Thor e sua capacidade de levantar o martelo empresta um tom solene e misterioso à narrativa que serve de preâmbulo para outro grande momento exagerado de Cates: a chegada arrasadora de Galactus em Asgard, simplesmente massacrando centenas (milhares?) de pessoas que estavam reunidas para ouvir o primeiro discurso de Thor como Pai de Todos. Segue a isso uma profecia sobre a chegada do tal Inverno Negro do título da HQ que, aparentemente, foi responsável pela destruição do universo original de Galactus, a reunião dos arautos mais recentes do Devorador de Mundos (inclusive o Motoqueiro Fantasma Cósmico) e a triunfal chegada do Surfista Prateado, agora todo preto como vimos na deslumbrante minissérie Surfista Prateado: Black, do próprio Cates. Pronto. Tudo o que precisamos para um potencialmente incrível arco narrativo está presente aqui nesse triunfal (re)começo para Thor.

Agora, só nos resta aguardar mais desse Thor reformulado por Cates e Klein e torcer para que o visual de modelo de xampu seja realmente temporário, revertendo à pegada Viking alguma hora. Como não tenho muita razão para duvidar da capacidade de Cates, que só vem acertando em tudo que faz para a Marvel, então estou tranquilo, especialmente depois de ter falado o que tinha que falar da nova estética emo do Deus do Trovão.

Thor (2020) #1: O Rei Devorador – Parte Um, O Inverno Negro (Thor #1: The Devourer King – Part One, The Black Winter, EUA – 2020)
Roteiro: Donny Cates
Arte: Nic Klein
Cores: Matthew Wilson
Letras e design: Joe Sabino
Capa: Olivier Coipel, Laura Martin
Editoria: Sarah Brunstad, Wil Moss, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 1º de janeiro de 2020
Páginas: 34

Crítica | Marvels X #1

Era uma vez duas graphic novels clássicas da Marvel Comics com envolvimento direto de um dos maiores nomes dos quadrinhos: Alex Ross. Marvels contava a história do Universo Marvel a partir do ponto-de-vista de um fotógrafo e Terra X imaginava um futuro distópico em que todos os habitantes do planeta ganharam poderes. Corta para 2019 e, como parte das extensas comemorações de seu 80º aniversário, a editora trouxe Alex Ross primeiro juntamente com Kurt Busiek para escreverem um singelo epilogo para Marvels e, agora, com Jim Krueger para uma minissérie em seis edições que preludia Terra X. Mas, diferente de Marvels: Epílogo, em Marvels X Ross ficou só nas ideias e não arregaçou as mangas para desenhar as páginas da história, apenas as capas, trabalho que ficou ao encargo de Well-Bee, nom de plume de Velibor Stanojevic.

E a singeleza das ideias que vemos na primeira edição da nova minissérie é quase desconcertante de óbvia e eficiente: Marvels X, como o título dá a entender, reúne Marvels com Terra X. Como? Muito simplesmente elegendo um personagem novo, o garoto David, como o ponto-de-vista pelo qual vemos o mundo pré-Terra X ser transformado pelas Névoas Terrígenas. Aquilo que Ross imaginou e Krueger escreveu na maxissérie de 1999-2000 ganha um começo, algo como o que Fear the Walking Dead deveria ter sido para The Walking Dead, por assim dizer. Exatamente como o fotógrafo de Marvels, David é fascinado por super-heróis, especialmente o Homem-Aranha, Capitão América e Homem de Ferro e, quando a história começa, nós o vemos brincando com recortes de ppel dos personagens enquanto sua família assiste, apreensiva, a notícias na televisão sobre uma epidemia que vem criando crostas nas peles dos humanos como o início do processo de formação de um casulo que revela novos poderes para cada um.

Mas Krueger não investe muito tempo nesse comecinho da infestação e logo estabelece um elipse em que vemos David, algum tempo depois, cuidando de sua irmã e de sua avó – a primeira desenvolvendo poderes e a segunda ficando enclausurada em um semi-casulo – à base de sucrilhos que consegue com uma vizinha que quase que completamente transformara-se em uma árvore falante. David, porém, permanece imaculado, completamente normal diante do inferno que o mundo ao seu redor transformou-se, com as pessoas usando seus novos poderes para basicamente reverter a um estado mais primal e selvagem. Aparentemente, o jovem é imune às Névoas Terrígenas e não entende o porquê, sofrendo por ser o único diferente onde mora e por ter, da noite para o dia, se transformado em chefe de uma família em frangalhos.

Como toda primeira edição, o objetivo é apresentar esse novo status quo – que, aliás, funciona até mesmo para quem não leu Terra X – e sedimentar David como o protagonista com quem o leitor pode facilmente identificar-se. O texto de Krueger é fácil de ler e foge completamente do didatismo que, aliás, marca Terra X, até porque o roteirista não precisa entrar nos porquês das transformações, algo perfeitamente justificado pela manutenção do foco em David e no que ele entende do mundo ao seu redor. Por outro lado, aqueles que leram Terra X podem achar estranho esse início abordado quase que como uma praga zumbi, uma vez que a situação na maxissérie está absolutamente controlada e normalizada. Claro que temos que levar em consideração que a história clássica se passa 20 anos depois do começo da epidemia, mas, mesmo assim, será importante que, de algum jeito, Krueger faça a ponte entre o que vemos aqui e  o que pode ser testemunhado em Terra X, pois a diferença é muito grande.

A arte de Well-Bee é bem diferente tanto da de Alex Ross em Marvels quanto da de John Paul Leon em Terra X, ficando em um meio-termo que faz pleno sentido. Não há nada das cores e traços vibrantes de Ross, mas também não há os aspecto sombrios de Leon. O que vemos é um garoto lidando com seríssimos problemas de maneira esperançosa, procurando a ajuda dos super-heróis que tanto ama e em quem tanto confia, elemento que dá azo ao que parece ser uma viagem até Nova York, com a ajuda de um misterioso caminhoneiro de tatuagem flamejante no braço que aparece para salvá-lo de uma enrascada. Well-Bee trabalha com vagar os detalhes desse universo, mas mantendo um ar de inocência sempre presente, algo que suas cores fazem sobressair constantemente como um raio de esperança nos olhos do pequeno jovem sem poderes em um mundo em que todos têm habilidades especiais.

Marvels X, pelo menos nessa sua primeira edição, funciona muito bem como uma homenagem de aniversário a duas das mais importantes graphic novels da editora e como uma história de méritos próprios que captura de imediato o leitor. Será sem dúvida muito interessante ver o que Krueger e Ross planejaram para o jovem David em sua desesperada busca por seus super-heróis favoritos.

Marvels X #1 (Idem – EUA, 2020)
História: Alex Ross, Jim Krueger
Roteiro: Jim Krueger
Arte: Well-Bee
Letras: Cory Petit
Capa: Alex Ross
Editoria: Shannon Andrews Ballesteros, Alanna Smith, Tom Brevoort, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 08 de janeiro de 2020
Páginas: 31

Crítica | Carrascos (2019) #1: Estou em um Barco

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de House of X e Powers X, prelúdios dessa nova fase dos mutantes.

Carrascos (ou Marauders, no original) é o segundo título a ser lançado a partir de House of X e Powers of X e, considerando seu roteirista, o que menos me interessava. Afinal, Gerry Duggan, um dos queridinhos atuais da Marvel Comics não é, nem forçando a barra, um bom escritor. Os únicos momentos em que ele consegue não estragar uma história é quando pega algo completamente descerebrado como Vingadores Selvagens.

No entanto, como Carrascos não parece ser lá um título muito importante dentro de Aurora de X (Dawn of X), o mega-projeto para repaginar os mutantes capitaneado por Jonathan Hickman (que tem o cargo de Head of X na publicação, aliás), o sofrimento é, digamos assim, menor. Chego até a desconfiar que Hickman, que deve ter tido voz na distribuição dos títulos derivados de sua maxissérie, tinha consciência disso e escolheu a dedo o que entregar a Duggan.

E vejam, Carrascos não é horrível e nem mesmo ruim. É, pelo menos nessa primeira edição, passável, e muito mais pela premissa geral ser estranha do que por culpa do roteirista. Na HQ, descobrimos logo na segunda página que Kitty Pryde não consegue atravessar os portais de Krakoa que são exclusivamente dedicados a mutantes. Essa situação remete a um passado anterior ainda à fase de Hickman perante os X-Men, quando Tony Stark, em Wolverine: Adamantium Agenda, de 2018, não só descobre que o Sr. Sinistro havia copiado os DNAs de todos os mutantes do mundo (algo finalmente desenvolvido em House of X/Powers of X), como nota que um mutante aparentemente importante não era um mutante de verdade, mas sim alguém “feito” para parecer um. Tudo leva a crer que Kitty Pryde é essa não-mutante que parece mutante, algo que mudaria radicalmente sua origem e sua história.

Para minha frustração, porém, uma questão tão importante como essa não é o foco de Carrascos. Ao contrário, isso não só fica em segundo plano, como o texto de Duggan empresta uma leve camada cômica ao assunto que amplifica uma sensação de deboche que não convence em momento algum. Não vemos nem mesmo Tempestade, a grande mentora de Kitty, preocupar-se com a situação.

(1) Kitty descobrindo que não pode usar os portais de Krakoa e (2) fazendo um belo e doloroso uso de seus poderes e de uma arma.

Paralelamente, Emma Frost, líder do Clube do Inferno, agora transformado em uma empresa (Hellfire Trading Company) com o objetivo de transportar os remédios milagrosos que Charles Xavier prometeu à humanidade em troca do reconhecimento da nação mutante, recruta Kitty para ser uma espécie de bucaneira não mutante para resgatar mutantes das nações que não reconheceram Krakoa e que proíbem a imigração de seus cidadãos mutantes para a ilha viva. A premissa é interessante, mas não sua forma de execução.

Por alguma razão inexplicada, o modo de transporte eleito para essa tarefa é um navio. Considerando a tecnologia de ponta disponível aos mutantes, atravessar os Sete Mares para salvar mutantes seria bacana somente se estivéssemos lendo uma história da série 1602. Seria muito mais crível colocar Kitty e sua equipe em um jato moderno voando para lá e para cá, algo que daria acesso imediato a países que não tenham acesso ao mar, algo que costuma ser um problema intransponível para navios.

Por mais que seja em tese irresistível uma premissa baseada na imagem de piratas, esse artifício é bobo demais, mas que Duggan leva até as últimas consequências, com Kitty até mesmo manejando uma espada comum. Fica anacrônico, o que é interessante, mas também fica bobo, quase cômico, o que é bem menos interessante. E isso sem contar que seu time, por enquanto composto de Homem de Gelo, Tempestade e Pyro (o original recém-ressuscitado), além de Lockheed, claro, e em breve também Bishop, é poderoso demais, o que retira um pouco o fator dificuldade da história.

Matteo Lolli ficou encarregado da arte e ele entrega um trabalho bonito, de traços simples, com cores vivas por Federico Blee que amplificam a atmosfera anacrônica de pirataria cinematográfica. No entanto, tenho problemas com a forma com os personagens são desenhados, todos sempre com rostos muito novos, quase inexistindo diferenças entre Kitty e Emma Frost ou até mesmo Wolverine. Isso faz parte de uma mania da editora em transformar todos os seus personagens em adolescentes ou jovens adults, e a arte de Lolli é particularmente problemática nesse aspecto.

Carrascos talvez funcionasse melhor como uma minissérie, pois não sei se há história para ser contada de maneira contínua. Seja como for, espero pelo menos que, nas próximas edições, o uso de um navio seja bem justificado e, principalmente, que a natureza dos poderes de Kitty – agora Kate – Pryde sejam bem explicados.

  • Obs: Voltarei a Carrascos quando o primeiro arco for finalizado.

Carrascos #1: Estou em um Barco (Marauders #1: I’m on a Boat, EUA – 2019)
Roteiro: Gerry Duggan
Arte: Matteo Lolli
Cores: Federico Blee
Letras: Cory Petit
Design: Tom Muller
Editoria: Chris Roberson, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 23 de outubro de 2019
Páginas: 38

Crítica | O Defunto Logan (Dead Man Logan)

Série completa
(não é uma média)

  • Só há spoilers das histórias anteriores do personagem, que podem ser lidas aqui. 

Criado por Mark Millar e Steve McNiven, o Velho Logan debutou em 2008 em arco homônimo e auto-contido da publicação mensal Wolverine Vol. 2, logo ganhando enorme notoriedade a ponto de ter servido de inspiração para o mais festejado filme solo do Carcaju, Logan, de 2017. Mantido intocado por surpreendentes sete anos, o personagem ganhou uma minissérie também simplesmente batizada com seu nome como parte dos vários tie-ins da saga Guerras Secretas (2015) que teve como função principal trazê-lo (ou uma versão idêntica dele pelo menos já que há quem considere que o primeiro Velho Logan é diferente desse segundo) para o universo padrão da Marvel Comics, ou seja, a Terra-616.

Em um universo diferente do seu e com o Wolverine “jovem” temporariamente morto, o Velho Logan passou a substituir sua contrapartida ainda sem cabelos grisalhos, ganhando uma série mensal própria entre 2016 e 2018 que durou 50 edições (10 volumes) em que teve seu já combalido fator de cura ainda mais debilitado com o uso da droga Regenix, fazendo com que o envenenamento por adamantium começasse a matá-lo, além de ter perdido um olho para sempre e uma mão, esta última tendo crescido de volta, inclusive com as garras, mas, claro, sem o revestimento metálico. Na última edição, um semi-morto Logan conseguiu derrotar Maestro e desmaiou na neve.

O Defunto Logan (ou Dead Man Logan no original) é a maxissérie em 12 edições que pretende encerrar a longa e sofrida jornada do personagem de uma vez por todas (ou, pelo menos, de uma vez por todas até quando resolverem usar o Velho Logan novamente). Publicada entre novembro de 2018 e outubro de 2019, a obra escrita por Ed Brisson e desenhada por Mike Henderson em seu primeiro trabalho para a Marvel, foi dividida em dois arcos bem definidos e diferentes – Pecados do Pai e Bem Vindo de Volta, Logan -, sendo que essa foi também a maneira que elegi para criticá-los, com uma nota geral (acima) e notas específicas para cada arco de seis edições.

Vamos lá!

Pecados do Pai
(O Defunto Logan #1 a 6)

(1) Velho Logan vs Vingadores e (2) Velho Logan vs Neo-Hidra.

Jeff Lemire trabalhou como roteirista da série mensal ao longo dos cinco primeiros encadernados de O Velho Logan, entregando belos arcos. Quando Ed Brisson assumiu o título na 25ª edição, contida no sexto encadernado – Dias de Fúria – a qualidade começou a oscilar muito, com um viés de queda, jamais retornando de verdade para o nível anterior. Pecados do Pai, o primeiro arco de O Defunto Logan, parece-se muito com o que Brisson vinha fazendo, o que, claro, não é exatamente algo encorajador. Mas há o que ser apreciado aqui se o leitor comprar o texto mais leve, por vezes até cômico que o autor escreve, retornando à primeira missão do Velho Carcaju quando chegou à Terra-616: eliminar Mystério de maneira que o trágico futuro que viveu não tenha chance alguma de ser repetido. Esse é o legado que ele quer deixar antes de morrer, algo que ele considera inevitável, tendo até passado muito da hora.

Mas, como toda boa história que envolve viagem no tempo (e, no caso, também no espaço), tentar matar aquele que deu causa à sua tragédia costuma ser justamente a causa de sua tragédia, algo que Brisson usa em doses generosas para construir seu arco inicial. Nele, depois que Logan é resgatado semi-morto do Canadá por seus colegas X-Men (Jubileu, Forge, Glob Herman e a Dra. Cecilia Reyes), ele parte para localizar Quentin Beck que está quieto no seu canto em uma clínica psiquiátrica. Com a ajuda do Gavião Arqueiro, que se recusa a deixar o amigo sozinho, a dupla começa sua investigação, logo inadvertidamente revelando suas intenções para a Srta. Sinistra que passa usar as informações sobre a queda dos heróis do futuro de Logan para arquitetar um plano para “repetir” o evento não só arregimentando Mystério, como também a da organização Neo-Hidra comandada por Pecado (filha do Caveira Vermelha) e Ossos Cruzados.

O lado cômico da história vem justamente do relacionamento entre os vilões, com Pecado aproveitando a oportunidade muito mais para divertir-se do que para efetivamente colocar em andamento um plano sério, o que enfurece a Srta. Sinistra, com Mystério no meio como um peru tonto, fazendo apenas hesitantemente o que lhe é ordenado. Ao mesmo tempo que essa não é a maneira que eu imaginava o desenvolvimento dessa linha narrativa, acho que devo parabenizar Brisson por transformar um limão em uma limonada, ainda que o resultado não seja exatamente espetacular ou fora da curva. A questão é que essa história de matar Mystério para evitar uma desgraça no futuro já tinha sido abordada antes e já havia ficado claro que o futuro de Logan é alternativo, que nada indicaria que o presente da Terra-616 levaria aos acontecimentos que viveu (obviamente!). Ele mesmo já havia feito as pazes com isso e não tinha mais como tirar um suco rico dessa fruta. É por isso que o que Brisson faz aqui – de maneira inesperada e engraçada – acaba funcionando, com a dinâmica entre os “malvados” permanecendo fresca e por vezes até mesmo hilária, com Pecado sendo uma debochada incorrigível e a Srta. Sinistra a frustração em pessoa.

O que realmente não funciona é a rotina do “fator de cura exaurido, mas que mesmo assim funciona sempre que necessário”, algo que já estava ficando cansativo antes e que, aqui, chega ao extremo, ou quase. Se não é para realmente limitar a capacidade do Velho Logan de causar estragos em seres superpoderosos como o Homem de Ferro, que ele retalha muito facilmente, então é melhor simplesmente esquecer disso. Sim, eu sei que as injeções de Regenix que Logan não hesita em se aplicar dão um boost no poder mutante dele, mas o problema persiste, até porque ele apanha tanto, mas tanto, e mesmo assim é capaz de lutar sozinho contra os Vingadores e contra uma horda de soldados da Neo-Hidra, que tudo perde a urgência e o mínimo de sensação de perigo e de potencial perda. Mas faz parte, pois Brisson já vinha escrevendo assim há tempos e eu realmente não esperaria algo muito diferente.

A arte de Mike Henderson é uma boa companheira para o texto leve de Brisson, com o artista preocupando-se muito mais com os acontecimentos em primeiro plano, incluindo expressões faciais e corporais, do que com detalhes de fundo, que geralmente são os mais simples possíveis. Com isso, ele trabalha uma progressão narrativa que não cansa, sequências de ação que, apesar de pouco inspiradas, são enérgicas e violentas (mas não explicitamente violentas, com gore e tripas, por exemplo) e que acaba funcionando bem para o tipo de história sendo contada. Talvez seu Velho Logan não pareça tão velho quanto devesse ser, mas isso não é lá algo particularmente problemático, porque o personagem continua consideravelmente mais velho que seus colegas, inclusive que ele mesmo em um breve encontro que ocorre na edição #6 que é, na verdade, um dénouement de despedida.

Pecados do Pai não deve ser lido com seriedade, mesmo considerando a rabugice de seu protagonista. Se o leitor souber o que esperar, terá em mãos um arco que pode não ser o esperado para algo próximo do fim, mas que funciona bem dentro de sua proposta.

Bem Vindo de Volta, Logan
(O Defunto Logan #7 a 12)

(1) Velho Logan de volta às Terras Devastadas e (2) Velho Logan com Dani Cage e Bruce Jr.

Usando a máquina do tempo de Maestro, Forge manda de o Velho Logan de volta para o seu próprio futuro e universo, mas sete anos depois que ele foi atrás da cabeça de Ultron, dando início à última aventura do personagem. Materializando-se no meio do nada com coisa nenhuma, o Carcaju anda durante dias e descobre que está na Flórida, região comandada pelo Lagarto, o que serve de início para uma road trip para Sacramento, já que ele deseja morrer junto de Maureen e de seus filhos chacinados pela gangue do Hulk. Claro que nada é fácil na vida de Wolverine e, depois de passar semanas servindo de bufê auto-regenerativo para uma família de canibais (Brisson está de parabéns pelo nível de doença que ele chega aqui), ele é resgatando por ninguém menos do que Dani Cage, filha de Jessica Jones e Luke Cage, que tem a tira-colo um jovem Hulk, Bruce Jr., que era um bebê quando Logan o deixou com ela e agora é um brutamontes que não só adora sair na pancadaria, como também devorar livros científicos.

Bem Vindo de Volta, Logan recaptura um pouco da essência do arco original de 2008, fazendo o leitor visitar novos lugares e revisitar outros nas Terras Devastadas, descobrindo novos sobreviventes heroicos e vilanescos nesse processo. Logan só quer morrer em paz, mas ele precisa ter certeza, antes, que Dani e Banner estarão seguros, já que um Hulk seria muito perigoso nas mãos erradas, especialmente nesse futuro em que as ações anteriores dele causaram um vácuo de poder ainda não preenchido completamente. E, de fato, em seu encalço só poderia mesmo estar seu arqui-inimigo Dentes-de-Sabre, aqui em sua “versão Frankenstein, já que Logan já o havia matado “definitivamente” antes, com direito a corpo picotado e as partes enterradas em lugares diferentes, obviamente nem de longe o suficiente.

É a escolha óbvia, mas perfeita para ser o vilão principal do arco final. Exagerado, falastrão e tão raivoso e violento quanto Logan, Victor Creed, por mais unidimensional que seja retratado, simplesmente precisava ser o final boss para Wolverine e a pancadaria vale a pena, algo que é deixado para a derradeira edição. Nas demais, a dinâmica entre o Velho Logan, Dani e Bruce Jr. também vale ouro, ainda que não terrivelmente original. Mas Brisson consegue criar uma trinca divertida que carrega muito bem a história, ainda que, de novo, o artifício do fator de cura que não funciona, mas que na verdade funciona seja de novo levado ao limite do aceitável (na verdade o autor ultrapassa e muito o limite), com direito até mesmo aos pulmões de Logan serem arrancados de seu peito, deixando-lhe com coloração azul por falta de oxigênio em uma escolha ao mesmo tempo de rolar os olhos e de fazer rir.

Sem entrar em detalhes para não mergulhar no terreno dos spoilers, o final do Velho Logan parece ser realmente definitivo (ainda que eu sempre duvide disso em quadrinhos), mas, muito mais do que isso, bonito e digno para o personagem. O círculo se completa e se fecha em um roteiro que retorna às raízes do personagem e lhe dá um adeus que muito provavelmente fará o leitor virar a última página com a sensação de dever cumprido, talvez até com um sorriso – ou uma lágrima – no rosto. Ao mesmo tempo, um novo capítulo nesse futuro é aberto, com Dani Cage ganhando um upgrade e o Hulk bem… o Hulk não precisa ser mais do que ele já é, não é mesmo? Considerando que esse “mini-universo” já vinha ganhando expansões, primeiro com O Velho Gavião Arqueiro, depois com O Velho Quill (em andamento na data da publicação da presente crítica) e os prometidos Vingadores das Terras Devastadas com lançamento previsto para janeiro de 2020, o encerramento não é surpresa e pode continuar a trazer histórias divertidas nesse futuro distópico em que os vilões ganharam a guerra.

Henderson, na arte, mostra-se bastante adaptável, alterando sua tonalidade leve do arco anterior para algo mais pesado, ainda que longe de sombrio. A violência mais explícita, a pancadaria mais constante e os diálogos mais sérios e melancólicos fizeram bem ao arco também no lado dos desenhos, com o artista mais à vontade para fazer desabrochar seu talento em recriar personagens icônicos de sua maneira, valendo especial destaque para essa versão do Hulk e para Dani Cage.

Bem Vindo de Volta, Logan, portanto, encerra de maneira digna as desventuras do Velho Logan e estabelece o que pode ser um novo começo nesse mundo desolado e desértico. Mas certamente o Carcaju grisalho fará falta!

O Defunto Logan (Dead Man Logan – EUA, 2018/9)
Contendo: Dead Man Logan #1 a 12
Roteiro: Ed Brisson
Arte: Mike Henderson
Cores: Nolan Woodard
Letras: Cory Petit
Capas: Declan Shalvey
Editoria: Chris Roberson, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 28 de novembro de 2018 a 30 de outubro de 2019
Páginas: 302

Crítica | Star Wars: Allegiance (Jornada para Star Wars: A Ascensão Skywalker)

O “selo” Jornada para Star Wars da Marvel Comics funciona como prelúdios em forma de minisséries para os filmes principais da franquia lançados pela Lucasfilm depois de sua aquisição pela Disney. O Despertar da Força ganhou uma história repleta de enigmas batizada de Império Despedaçado, Os Últimos Jedi foi agraciado com uma história focada na subaproveitada Capitã Phasma e, agora, A Ascensão Skywalker recebe um prelúdio que coloca a General Leia e o piloto Poe Dameron em missões separadas para tentar reconstruir a Resistência.

Diferente dos prelúdios em quadrinhos dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel que, normalmente, parecem histórias feitas às pressas e de qualquer jeito só para cumprir tabela, os de Star Wars trazem elementos interessantes que, mesmo que não acrescentem informações essenciais para a compreensão dos filmes que antecedem (e nem poderiam, não é mesmo?), funcionam bem dentro do conceito de Universo Expandido, algo que a própria Marvel Comics fez com muito sucesso ainda em 1977. Allegiance não é uma história com grandes pretensões e não tem sequer o objetivo de fazer uma ponte muito clara entre filmes, sendo muito mais apenas uma aventura simpática que parte da quase eliminação da Resistência que vimos em O Último Jedi e coloca os heróis em histórias paralelas que, apesar de nunca sequer tangenciarem, caminham na mesma direção.

Quando a minissérie em quatro edições começa, a Primeira Ordem é apresentada como uma força que não tem a menor dó em eliminar todos os planetas que tiveram alguma conexão com a Resistência. Por seu turno, o pequeno grupo rebelde liderado por Leia Organa precisa de mais armas e mais naves para começar a reerguer-se e contra-atacar. Poe Dameron, Finn e BB-8 estão em uma missão na lua de Avedot para recuperar armas da Nova República e Leia, Rey, Rose, C-3P0 e Chewbacca partem para Mon Cala, lar dos Mon Calamari e dos Quarren, para convencer seu monarca a ceder-lhes as naves que eles tão desesperadamente precisam.

De um lado, Poe e Finn têm que enfrentar os caçadores de recompensa originalmente introduzidos no Universo Star Wars na minissérie Galaxy’s Edge, tie-in da nova “terra” dedicada à criação de George Lucas nos parques americanos da Disney. Trata-se de uma história pouco inspirada, básica mesmo, que não traz nem surpresas e nem um pingo sequer de tensão. Claro que jamais esperaria que os heróis sequer sofressem arranhões na história, mas falta senso de urgência e algo que tenha no mínimo relevância narrativa maior do que só preencher páginas. Por outro lado, a história de Leia lutando contra a oposição dos Quarren isolacionistas ao seu pedido encontra ressonância maior dentro desse universo, já que coloca um planeta inteiro na berlinda, planeta esse, claro, lar do inesquecível Almirante Ackbar, falecido em Os Últimos Jedi, mas que deixou um filho, Aftab, que respeita Leia e o legado do pai. Não só a narrativa é substancialmente mais interessante nessa trama carregada de política e salpicada por bons momentos de ação, como ela reposiciona os Mon Calamari mais uma vez como um dos mais importantes povos militarísticos do lado do bem na saga, algo visto originalmente em O Retorno de Jedi, depois (ou antes, dependendo do ponto de vista) em Rogue One e, finalmente, em Os Últimos Jedi, com possível repetição em A Ascensão Skywalker se o mínimo da HQ for utilizado no filme.

Apesar do desequilíbrio na qualidade das histórias paralelas, a leitura é fluida e prazerosa já que o roteiro de Ethan Sacks consegue capturar bem as vozes dos personagens em um texto simples, mas bem amarrado. E, completando a sensação de unicidade, a arte de Luke Ross trabalha bem os visuais dos mais conhecidos personagens sem ficar completamente escravo às suas versões live-action, além de dar vida pujante e diversificada aos planetas que povoam a narrativa, mesmo que ele, no final das contas, não se arrisque muito e mantenha uma cadência básica, quase burocrática.

Star Wars: Allegiance não mudará a vida de ninguém e, em termos comparativos, é a mais fraca minissérie do selo Jornada para Star Wars, ainda que não seja uma obra daquelas desavergonhadamente dentro da categoria caça-níquel. Mesmo assim, os fãs da franquia terão o que apreciar nas aventuras dos personagens como um tira-gosto do que está por vir.

Star Wars: Allegiance (Idem, EUA – 2019)
Contendo: Star Wars: Allegiance #1 a 4
Roteiro: Ethan Sacks
Arte: Luke Ross
Cores: Lee Loughridge
Letras: Clayton Cowles
Capas: Marco Checchetto
Editoria: Tom Groneman, Mark Paniccia, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 09 a 30 de outubro de 2019
Páginas: 103

Crítica | Excalibur (2019) #1: A Acolada de Betsy Braddock

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de House of X e Powers X, prelúdios dessa nova fase dos mutantes.

Depois de House of X, Powers of X, X-Men #1 e Carrascos #1, publicações que tradicionalmente têm uma pegada de ficção científica e que Jonathan Hickman, mais conhecido como o coordenador dessa nova era, nem de longe quer esconder (e nem deveria), eis que vem Excalibur para permitir que um pouco de magia invada essa nova ordem mundial dos mutantes. E essa primeira edição, escrita por Tini Howard, sacode um pouco o status quo por ser basicamente uma história de origem, mas uma origem de uma troca de gênero que já aconteceu antes: a transformação de Betsy Braddock, ex-Psylocke, na Capitã Britânia (confesso que prefiro Bretanha, pois Britânia é marca de eletrodoméstico…).

Começando a ação em Camelot, Howard logo estabelece que o castelo está sendo atacado por forças invasoras ainda não completamente reveladas e que Morgana Le Fay, na ausência de Arthur Pendragon, cuida da defesa. No entanto, há algo de estranho acontecendo com seu espelho d’água que é a origem da magia na região, já que um portal de origem vegetal foi misteriosamente aberto, drenando o poder. A conexão com Krakoa é evidente, mas a diferença é que esse portal é de Camelot para a ilha viva e não o contrário, pelo que Krakoa em si não parece ter nada a ver com ele.

Do lado de cá, Apocalipse, agora um amor de mutante, percebe esse fenômeno e, aos poucos, reúne um grupo para investigar o ocorrido: Vampira, que pode neutralizar a magia de Morgana que impede a abertura do portal por Krakoa; Gambit, que basicamente fica grudado em Vampira; Jubileu, que foi a última pessoa a falar com Betsy quando ela brevemente visita a ilha e Trinária, sua assistente. Tudo acontece com uma certa lentidão e sem maiores explicações, com uma narrativa paralela lá na Academia Braddock que serve para estabelecer novamente o relacionamento entre os gêmeos Brian e Betsy, com os dois, respondendo a um chamado de Camelot, teletransportando-se para Otherworld.

A dinâmica desse primeiro número é um pouco engessada e os eventos que levam à transformação de Besty em Capitã Britânia um pouco corridos demais, isso sem contar que são levemente confusos e misteriosos demais, algo que eu sei que é natural para uma primeira edição, mas que poderia ter sido melhor conduzido pelo roteiro de Howard se ela não tivesse perdido tanto tempo com as divertidas farpas trocadas entre Gambit e Apocalipse, dentre outros desvios. Ou isso ou, melhor ainda, ela talvez devesse ter esperado pelo menos mais uma edição para efetivar a transformação, dando mais tempo para o leitor absorver a história.

Mesmo assim, há um sabor especial nessa história que está no fato de ela, apesar de conectada com toda a chamada Aurora de X, ou Dawn of X, não mostra, pelo menos aqui, ter uma ligação tão umbilical assim, nada que, por exemplo, decorra diretamente do que vimos nas duas minisséries que antecederam a nova linha editorial dos mutantes, como é o caso de Carrascos. Claro que a questão do portal em si é a conexão direta com tudo o que Hickman apresentara, mas Excalibur parece oferecer, com sua magia, com seu outro mundo, um refresco conducente a uma história razoavelmente independente especialmente em razão de toda a ação em Camelot, que também afeta diretamente o Capitão Britânia original e sua relação com Morgana.

Além disso, apesar de Howard carregar na exposição e no leve tom cômico em relação a Apocalipse e seu nome impronunciável, a autora tem o perfeito controle das personalidades que trabalha. É por isso que o antagonismo de Gambit com En Sabah Nur funciona bem, assim como o lado romântico do cajun com Vampira que envolve até mesmo uma linha de diálogo sobre ter filhos. Betsy e Brian Braddock também são bem explorados, ainda que eu sempre vá preferir a personalidade mais arisca e silenciosa da “outra” Betsy.

A arte de Marcus To, com cores de Erick Arciniega, captura o espírito do que Jonathan Hickman quis imprimir à sua nova era perante os mutantes, estabelecendo uma boa identidade visual, mas a dupla nunca se esquiva de construir em cima e de soltar-se no lado de “conto de fadas sombrio” da história, inclusive escurecendo as tonalidades e marcando mais os traços físicos dos personagens em Camelot, algo que contrasta fortemente com, por exemplo, a relação dos gêmeos na Academia Braddock ou mesmo quando o gigantesco Apocalipse entra em cena em Krakoa.

O novo e bem diferente Excalibur promete muita diversão com essa primeira edição, reunindo tecnologia com magia de maneira orgânica, além de reunir um grupo potencialmente muito interessante. Será particularmente rico ver como a narrativa mágica de Camelot será costurada à da nova nação mutante na Terra, já que são literalmente dois mundos bem diferentes. Tenho certeza, porém, que há um plano master em movimentação para que isso aconteça, ainda que não fosse fazer mal se as histórias permanecessem razoavelmente separadas por mais algum tempo.

  • Obs: Voltarei a Excalibur quando o primeiro arco for finalizado.

Excalibur #1: A Acolada de Betsy Braddock (Excalibur #1: The Accolade of Betsy Braddock, EUA – 2019)
Roteiro: Tini Howard
Arte: Marcus To
Cores: Erick Arciniega
Letras: Cory Petit
Design: Tom Muller
Editoria: Annalise Bissa, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 30 de outubro de 2019
Páginas: 38

Crítica | X-Force (2019) #1: Hunting Ground

Imagem: envoltório versão de Adi Granov.

  • Há spoilers. Leiam, cá, as críticas de House of X e Powers X, prelúdios dessa novidade período dos mutantes.

A primeira edição da novidade X-Force, que deriva dos prelúdios House of X e Powers of X do que já pode ser chamado de Era Jonathan Hickman dos mutantes, tem ao mesmo tempo muita e pouca coisa acontecendo, mergulhando o leitor em uma ótima combinação de elementos macro e micro da novidade dinâmica envolvendo a pátria mutante em Krakoa, mas, por vezes, parecendo fragmentada demais. O resultado, porém, é um dos melhores números 1 da “Primeira Vaga” de Aurora de X (Dawn of X), com o texto e a direção de Benjamin Percy prometendo um horizonte interessante para uma equipe híbrida, que foge um pouco (bastante?) das versões da X-Force a que nos acostumamos.

Para início de conversa, esse início de publicação tem menos o objetivo de formar uma equipe (porquê Carrascos #1 e Excalibur #1 mal ou muito fizeram) e mais o de reprofundar na mecânica da resguardo da ilhota, comandada por ninguém menos do que Black Tom Cassidy, mais um ex-vilão que vem viver em simetria com seus inimigos e que ganha incumbência de crédito. Formando uma rede neural com a ilhota viva, aprendemos os detalhes da estrutura biológica de resguardo da ilhota, um pouco que é contrastado por sequências com Wolverine e o Fera caçando e sendo caçados por uma indivíduo selvagem que vive por ali, deixando já evidente que Krakoa não é um paraíso idílico em que os mutantes podem simplesmente armar suas redes e viverem completamente livres de perigos. Uma vez que Wolverine muito muito diz, “se você se sente seguro, você se torna desmazelado”, um pouco que, simples, preludia e anuncia um ataque extrínseco à ilhota por uma força misteriosa e mortífero de infiltração que culpa grandes estragos antes de ser neutralizada (se é que ela é neutralizada ao final).

Também preludiando o ataque, a HQ começa com uma sociedade secreta formada para se opor à pátria mutante que é, por sua vez, infiltrada por Dominó em missão determinada pelo Professor X e monitorada por Sábia, missão essa que aparentemente dá muito incorrecto. Com isso, temos uma visão mais ampla das consequências geopolíticas da instauração da pátria mutante, já que os membros desse grupo – todos mascarados – parecem ser de países diferentes e provavelmente não só daqueles que se recusaram a reconhecer a soberania pleiteada por Xaiver na ONU. No entanto, esses “pedaços” de história – há outro em Sokovia – ficam razoavelmente desconexos nessa primeira edição e por vezes parece que Percy está simplesmente atirando para todos os lados. A paciência, porém, traz recompensas, já que, quando a história acaba, vê-se muito claramente o caminho que ele pretende seguir.

(1) Prenúncio interna e (2) prenúncio externa.

Tudo muito que não é lá um pouco muito original a edição terminar com mais uma morte não morrida de Charles Xavier, mormente tão cedo no projeto de Hickman. Chega a cansar e dar vontade de dar aquela revirada básica de olhos, já que, mais do que nunca, considerando o “Poço de Lázaro” mutante introduzido nas minisséries-prelúdio, mortes de portadores do gene X são coisas do pretérito, não muito mais do que “inconveniências” (sempre foram, na verdade, e não só de mutantes, simples, mas sim de qualquer personagem dos quadrinhos mainstream com exceção do Tio Ben – por enquanto…). Portanto, o cliffhanger da última página chega a ser truão e sem imaginação alguma, ainda que não acabe sendo um problema terrível que estrague a experiência.

Finalmente, muito do que vemos ao longo das páginas magnificamente desenhadas por Joshua Cassara segue a tradição mais violenta das formações anteriores de X-Force. Não há zero particularmente explícito, mas a pancadaria come solta e ela inclui até mesmo o Fera e Jean Grey, que não economizam nas demonstrações de raiva e de pouca preocupação com a vida de seus inimigos, ainda que esse vista permeie os diálogos mormente de Hank McCoy. Quando a edição acaba, porém, não existe ainda a X-Force propriamente dita, um pouco que provavelmente resultará diretamente desse ataque direto à ilhota que demonstra o quão as defesas de Black Tom Cassidy e de Krakoa são furadas e que por si só pode trazer desenvolvimentos narrativos interessantes na ilhota e perante o Parecer Sombrio (Quiet Council), o grupo que ditatorialmente (já que, até onde me consta, não houve eleição) comanda tudo por ali.

Mas Cassara merece mais menções do que somente uma en passant logo no parágrafo anterior. Se a história para alguns possa não ser muito interessante, seu trabalho certamente é e ele, sozinho, é justificativa suficiente para ler essa primeira edição. Seus traços sujos quebram aquela formosura quase antisséptica com que Krakoa vinha sendo exposta, um pouco que combina perfeitamente com as ameaças internas e externas para a sobrevivência da pátria mutante. Outrossim, seus traços dedicados mormente a Wolverine e Fera são belíssimos, a mistura perfeita entre selvageria destruidora e elegância heroica. Sua recriação de Black Tom Cassidy é supimpa para o que podemos esperar de um mutante em comunidade com Krakoa e seu prelúdio com Dominó é enervante e tenso. Ele é  menos eficiente com Jean Grey (o uniforme jovem dela não ajuda em zero, simples) e outros personagens menos afeitos a acessos de raiva porquê Sábia ou o Professor X, mas mesmo assim ele cria um conjunto que empresta uma categoria sombria mesmo aos personagens mais joviais. As cores do veteraníssimo Dean White são a cereja nesse bolo ao não fugir de uma paleta leal à original, mas emudecendo todas elas em um conjunto muito harmônico com o texto de viés pessimista de Percy.

X-Force já chega mostrando a que veio mesmo sem apresentar a equipe em sua formação final ou mesmo em alguma formação. Pode ser que a pegada não seja a mesma das versões anteriores do grupo, mas zero na Era Jonathan Hickman parece ser uma repetição do que veio antes, com exceção das mortes temporárias, pelo visto.

  • Obs: Voltarei a X-Force quando o primeiro roda for finalizado.

X-Force #1: Hunting Ground (EUA – 2019)
Roteiro: Benjamin Percy
Arte: Joshua Cassara
Cores: Dean White
Letras: Joe Caramagna
Design: Tom Muller
Editoria: Lauren Amaro, Chris Robinson, Darren Shan, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 06 de novembro de 2019
Páginas: 38

Critica | Novos Mutantes (2019) #1: O Sextante

  • Há spoilers. Leiam, cá, as críticas de House of X e Powers X, prelúdios dessa novidade tempo dos mutantes.

Criados por Chris Claremont e Bob McLeod em 1982, é um tanto estranho continuar chamando os Novos Mutantes de Novos Mutantes. E isso é mormente complicado quando a formação fundamental do grupo continua quase a mesma: Lupina, Mancha Solar, Miragem, Karma e Míssil (ainda que esse ainda não apareça). Sei que é uma bobagem insignificante reclamar disso, mas, considerando a evolução dos mutantes da Marvel Comics ao longo de todas essa décadas, teria sido também proveniente a modificação do nome do grupo.

Seja uma vez que for, a primeira coisa que labareda atenção em Novos Mutantes #1, escrita por Ed Brisson com Jonathan Hickman é a belíssima arte pintada do brasílio Rod Reis que, contrastando com o também magnífico trabalho de Joshua Cassara em X-Force #1, publicada na mesma semana, apresenta uma Krakoa paradisíaca capaz de aquecer o espírito de quem quer que leia a HQ e que já estabelece o tom mais ligeiro de amizade de longa data entre os jovens da equipe mutante, cá também composta por Magia, Zero, outros dois Novos Mutantes tradicionais, além de Câmara (confesso que nunca gostei da forma uma vez que os poderes dele se manifestam) e Mondo. Os personagens são todos recriados com um pé firme na tradição de cada um deles, o que empresta intimidade imediata, com os panos de fundo tanto na ilhéu viva quanto depois, na nave de Pirata e equipe sendo, sozinhos, razões suficientes para se respeitar o título e que remete o leitor ao estilo de Bill Sienkiewicz que trabalhou nos Novos Mutantes nos anos 80.

O gatilho narrativo usado pela dupla de roteiristas é muito simples, até puro: o libido dos jovens em rever seu colega Sam Guthrie, o Míssil. Uma vez que ele está em espaço Shi’ar com sua família, os Novos Mutantes usam o portal vegetal para pegarem carona com Pirata e, a partir daí, vemos a interação deles com os piratas espaciais que estão a caminho da estação espacial Condescendência. Para expressar a verdade, muito pouco em termos de ação acontece na edição, um tanto que imediatamente me lembrou de X-Men #1, de Hickman, o principal título da Aurora de X (Dawn of X). Lá, uma vez que cá, o importante é a interação entre os personagens, o restabelecimento da conexão entre eles em um primeiro passo para o que pode ser pelo menos um primeiro círculo que se passa no espaço, com os mutantes abandonados sem pestanejar por um Pirata talvez indiferente e distante demais para o meu paladar.

Essa primeira edição, portanto, parece demais com um {aperitivo}, uma vez que uma indicação do que está por vir, o que poderá – mas não deveria – alongar os que esperavam mais ação. Por fim, além da arte, o texto de Brisson e Hickman é muito muito trabalhado, com uma qualidade até poética, mormente no início em Krakoa, que consegue tomar muito a voz dos personagens nesse novo e inédito envolvente comunal, começando pela ressuscitação de Lupina até a chegada deles em seu novo lar, com uma divertida discussão em torno de moca, com uma Magia particularmente possessiva. Com isso, os autores conseguem também trazer um pouco da complicada história desses mutantes e deixar muito clara a conexão que eles carregam em razão de tudo que passaram sem se olvidar de também pincelar um pouco do status quo atual, com informações de que hoje estamos na sexta geração de mutantes e que os portais de Krakoa aparentemente se comunicam.

Em termos de primeiras edições dessa novidade tempo, Novos Mutantes #1 foi a mais ligeiro e simpática delas, uma vez que uma reunião de bons e velhos amigos que há muito não se viam, mas que têm muito em geral. Quando a história acaba, apesar de pouco ter realizado, o que fica é a sensação exata de que essa é a mesma velha equipe dos “Novos” Mutantes que conhecemos e apreciamos e que o horizonte de aventuras que eles prometem parece ser o primeiro passo para a expansão da Aurora de X para o espaço profundo.

  • Obs: Voltarei a Novos Mutantes quando o primeiro círculo for finalizado.

Novos Mutantes #1: O Sextante  (New Mutants #1: The Sextant, EUA – 2019)
Roteiro: Ed Brisson, Jonathan Hickman
Arte: Rod Reis
Letras: Travis Lanham
Design: Tom Muller
Editoria: Annalise Bissa, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 06 de novembro de 2019
Páginas: 38

Crítica | Anjos Caídos (2019) #1: Bushido

Extraindo o título e o conceito básico que reuniu mutantes “desajustados” em uma minissérie spin-off de Novos Mutantes em oito edições publicada em 1987, Anjos Caídos (Fallen Angels) é o último título da Primeira Onda da fase Aurora de X (Dawn of X) de Jonathan Hickman e o que tem sua premissa mais distante de toda a construção geopolítica trazida em House of X e Powers of X, mais distante ainda que Excalibur, o que de forma alguma é um defeito. Na verdade, é uma qualidade, pois nem tudo precisa necessariamente ter conexão tão estreita assim com Krakoa e com a Nova Ordem Mutante, por assim dizer.

Mas fiquem tranquilos, pois essa primeira edição também não é completamente desconexa de tudo o que foi erigido. Ao contrário até, não só temos a confirmação de que Charles Xavier realmente “morreu” no final de X-Force #1, estabelecendo a primeira grande conexão intra-títulos, como vemos Magneto comandando tudo despoticamente quando Psylocke – Kwannon assumindo de vez o nome da “fusão” de Betsy Braddock com seu próprio corpo (se não sabe nada disso, nem precisa tentar entender) – parte para pedir permissão para sair da ilha viva em razão do consequente fechamento dos portais depois do atentado. Ou seja, a narrativa jamais perde de vista o status quo atual da Nação Mutante, mas parte para uma história que parece não conversar diretamente com ele, mas sim com a vida pregressa da protagonista.

E o que Psylocke quer do lado de fora da ilha? É aqui que as coisas realmente ficam interessantes e muito misteriosas. Para começar, há um intrigante e quase que completamente ininteligível prelúdio em que vemos uma jovem com tatuagem de borboleta, depois de conectar um aparelho na cabeça, ser “possuída” e provocar um gigantesco acidente de trem no Japão que me lembrou muito o Sr. Vidro em Corpo Fechado. Corta para Krakoa e vemos Psylocke meditando quando recebe uma mensagem telepática de alguém – ou algo – que não se identifica dizendo que ela precisa sair dali para enfrentar um “deus”. É essa mensagem e sua convicção de que há verdade por trás dela que a leva até Magneto para pedir para sair e que, por sua vez, a redireciona ao Sr. Sinistro para que ela possa burlar as determinações do próprio Mestre do Magnetismo.

Somente depois que ela finalmente chega ao Japão levando X-23 a tira-colo que o preâmbulo começa a fazer sentido, com a revelação da existência de uma droga cibernética batizada de Overclock que foi proibida no mundo todo, mas cuja natureza permite que qualquer um com habilidades técnicas a monte a partir de peças facilmente encontráveis no mercado. É o Overclock que vemos a jovem conectar a seu crânio e causar o acidente de trem, mas a presença de uma entidade desconhecida por trás, que se autodenomina Apoth, estabelece-se como o inimigo central que aparentemente apoderou-se do corpo da filha retconada de Kwannon, e quase que com certeza é o tal “deus” que a voz misteriosa menciona para Psylocke.

(1) A droga cibernética Overclock e (2) Kwannon/Psylocke tendo sua paz violentamente interrompida.

Em termos de estabelecimento de premissa, essa primeira edição é de longe a mais intrigante e a mais potencialmente interessante de todos os títulos desse início da Era Jonathan Hickman. Mas isso por si só não é suficiente para tornar essa HQ a melhor de todos os números #1. E a principal razão para isso é a inabilidade de Bryan Hill em trabalhar organicamente a criação de uma equipe. Para começar, a missão em tese solitária dada a Psylocke por seja lá quem for, uma vez informada ao Sr. Sinistro, o leva a condicionar a saída da heroína da ilha à que ela reúna um grupo, como se o vilão (ex-vilão?) estivesse genuinamente preocupado com a jovem. Essa é a única motivação para que Psylocke aproxime-se de Laura Kinney e Kid Cable, em tese as únicas outras almas conturbadas que não conseguem achar tranquilidade na paz mutante criada por Xavier, Magneto e, secretamente, Moira X. Inquietos, os dois são cooptados por Kwannon, mas só X-23 acaba participando da ação no Japão, com a arte de Szymon Kudranksi encontrando dificuldades para diferenciar as personagens de maneira significativa, tornando-as fungíveis.

Com isso, apesar da premissa realmente interessante, a corrida para montar um grupo qualquer de mutantes “desajustados” é desnecessária e acaba resultando em um pareamento muito artificial por ser mal construído narrativamente. Claro que isso pode ser desenvolvido no futuro, mas essa é justamente a questão: para que a sangria desatada se seria perfeitamente possível construir uma nova equipe paulatinamente, de maneira mais lógica e menos parecida com o alistamento militar obrigatório para pessoas que têm muita vontade de matar e que não gostam de cantar e dançar em volta de fogueiras? Apesar de Kwannon parecer ser uma boa Psylocke e Laura ser a boa e velha Laura de sempre, as duas juntas, aqui, não funcionam bem.

Kudranski tem a responsabilidade de desenhar a  edição mais sombria dessa Primeira Onda e seus traços mais grossos e cheios de sombra funcionam muito bem para passar uma atmosfera densa, desesperançosa e niilista, com até mesmo o paraíso mutante sendo interpretado por esse viés mais carregado, potencialmente a partir do que seria a visão de Kwannon. Frank D’Armata acompanha o artista com cores tendentes ao cinza, mesmo que por muitas vezes usem o roxo, que é a assinatura visual da Psylocke Braddock e que parece que será aproveitado aqui também e que funciona como o maior artifício diferenciador na ação final no Japão entre Kwannon e Laura que, como já disse, é o maior problema da arte nessa edição.

Anjos Caídos #1 convence em sua premissa, mas não na formação da equipe. O bom dessa notícia é que é perfeitamente fazer uma correção de curso em edições futuras, já que a história em si é capaz de fisgar automaticamente seus leitores. Eu sei que eu fui fisgado tanto pelos mistérios, como pela pegada sombria e pela caracterização da nova Psylocke.

  • Obs: Voltarei a Anjos Caídos quando o primeiro arco for finalizado.

Anjos Caídos #1: Bushido (Fallen Angels #1: Bushido, EUA – 13 de novembro de 2019)
Roteiro: Bryan Hill
Arte: Szymon Kudranksi
Cores: Frank D’Armata
Letras: Joe Sabino
Design: Tom Muller
Editoria: Chris Robinson, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 06 de novembro de 2019
Páginas: 38