Brian Caspe

Crítica | Jojo Rabbit

Crianças, é hora de queimar alguns livros!
– Fraulein Rahm

A comparação é inevitável. Creio ser perfeitamente possível afirmar que Taika Waititi conseguiu com seu Jojo Rabbit o mesmo tipo de feito delicado e difícil que Charles Chaplin e Mel Brooks alcançaram com, respectivamente, O Grande Ditador e Primavera para Hitler: trafegar com aparente tranquilidade no fio da navalha que é arriscar-se a satirizar o nazismo, desafiando o limite entre a humanidade e a desumanidade que deve ser o balizador para esse tipo de obra, como meu colega Luiz Santiago bem abordou em sua crítica do citado filme de Brooks. Usar a figura de Adolf Hitler e todas as atrocidades que decorrem daí para extrair risadas dos espectadores vem com o preço de se compreensivelmente pisar em calos e de se afastar alguns, ao mesmo tempo que inafastavelmente cria uma certa hesitação em todos os demais que resolverem encarar a obra até o final, hesitação essa oriunda do mero fato de rir, de até gargalhar em alguns momentos.

Jojo Rabbit conta a história de Johannes “Jojo” Betzler (Roman Griffin Davis iniciando sua carreira artística), um menino de apenas 10 anos que vive com sua mãe Rosie (Scarlett Johansson) em uma cidadezinha alemã nos estertores da Segunda Guerra Mundial depois da morte de sua irmã mais velha e da ausência do pai que foi lutar no fronte italiano. Mas Jojo foi completamente impregnado pela propaganda nazista e é um orgulhoso membro da Juventude Hitlerista ao ponto de andar fardado quase que o tempo todo, ter as paredes de seu quarto emplastradas de imagens de idolatria à tudo nazista e, como se isso não bastasse, ter ninguém menos do que o próprio Adolf Hitler (Taika Waititi) – ou uma versão dele, claro – como amigo imaginário. Nesse cenário, que conta ainda com a mentoria do Capitão Klenzendorf (Sam Rockwell) na arte da guerra, o jovem descobre a existência de Elsa (Thomasin McKenzie) uma adolescente judia em uma parede falsa no quarto de sua irmã, escondida lá por sua própria mãe.

O que segue daí é uma enternecedora história de amadurecimento em meio a um dos maiores horror que a humanidade já enfrentou e que Waititi costura sempre que pode em todas as linhas de diálogo que escreveu com base no romance Caging Skies, de Christine Leunens. O texto não esconde a lavagem cerebral dos jovens, a hipocrisia nazista e o retrato absurdo que é pintado do povo judeu, com direito a ilustrações detalhadas de como essa “raça” funciona e porque ela é tão “perigosa”, mas a forma como o diretor enfoca sua obra a enquadra, de certa forma, como um conto-de-fadas. Sei que muitos estranharão essa minha correlação em um filme com essa temática, mas é que as cores fortes especialmente do quarto da irmã de Jojo, além dos figurinos do garoto que combinam com o de sua mãe, além de diversos outros elementos cênicos e o fato de que a cidade onde vive permanece intacta quase que por toda a projeção e isso sem contar com o filtro esmaecido da fotografia de Mihai Malaimare Jr. (O MestreO Ódio que Você Semeia) e com a bela trilha sonora de Michael Giacchino, que levou o Oscar na categoria por Up – Altas Aventuras, reiteram essa abordagem do diretor que, volto a repetir, arrisca-se ao fazer isso.

O risco vem do grau de “fofura” que a fita inegavelmente tem se por um momento conseguirmos nos abstrair de toda a ambientação. O pequeno Roman Griffin Davis é em grande parte responsável por isso, com uma atuação mirim que é no mínimo espetacular, mas que aperta em todos os botões corretos para que adoremos o garoto mesmo quando ele fala as maiores barbaridades possíveis. A questão é que alguns poderão concluir – e não estarão errados, adianto logo – que Waititi tenta fazer o espectador esquecer-se momentaneamente dos horrores nazistas ao trabalhar seu filme dessa maneira mais lúdica e diretamente cômica, incluindo um desenvolvimento para Klenzendorf que é inegavelmente hilário. No entanto, tenho para mim que o diretor e roteirista, mesmo marretando algumas situações aqui e ali e fazendo uso de algumas conveniências, mantém o controle e o equilíbrio sobre sua narrativa ao balancear o que ele apresenta na forma de fábula com o estilhaçamento do conto de fadas nos 15 ou 20 minutos finais, afastando a “mera” sátira e o humor negro e recrudescendo a crítica direta, retirando o espectador do conforto que porventura estivesse, algo que até mesmo seu personagem imaginário (por si só um Hitler satírico inesquecível como o de Preacher, ainda que bem diferente) acompanha tematicamente, tornando-se cada vez mais absurdo e histérico.

Há, também, muito coração em Jojo Rabbit. A relação do menino com sua mãe é belíssima e funciona para amplificar o abismo entre a lavagem cerebral nazista e a inocência infantil, com Rosie encarando o fanatismo de seu filho com tristeza, mas sem confrontamentos que poderiam ter o efeito contrário. O mesmo vale para o jogo de aproximação de Jojo e Elsa, com momentos daqueles de rachar o coração, algo com que Giacchino quase que maquiavelicamente joga com sua trilha. Até mesmo a relação de Jojo com o Capitão Klenzendorf – rude no começo – desenvolve-se com fluidez e lógica, com diversas piscadelas importantes para a vida privada do militar caolho.

Waititi pode não ter ainda uma carreira tão longa ou ser um cineasta tão bom quanto Chaplin e Brooks, mas sua ousada sátira de época ao nazismo contribui, de sua própria maneira, para que o assunto não seja esquecido, especialmente hoje em dia em que as pessoas tendem a tratar os assuntos – simples ou complexos, inconsequentes ou graves – sem qualquer tipo de cuidado ou serenidade. Ao trazer um humor humano e inteligente para essa delicada equação, os horrores históricos são enfatizados e não diminuídos, abrindo espaço para conversas sadias ou para reflexões sobre o tema.

Jojo Rabbit (Idem, EUA/República Tcheca/Nova Zelândia – 2019)
Diretor: Taika Waititi
Roteiro: Taika Waititi (baseado em romance de Christine Leunens)
Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson, Taika Waititi, Sam Rockwell, Rebel Wilson, Alfie Allen, Stephen Merchant, Archie Yates, Luke Brandon Field, Sam Haygarth, Stanislav Callas, Joe Weintraub, Brian Caspe, Gabriel Andrews
Duração: 108 min.

Crítica | Doctor Who – 12X04: Nikola Tesla’s Night of Terror

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Depois de Orphan 55, creio que a maioria de nós estava com os dois pés atrás em relação ao que poderia aparecer na série e ora… vejam só que coisa interessante veio a seguir! Um episódio histórico (e daí já é possível ficar nervoso só com a ideia, porque não é fácil fazer arcos históricos funcionarem bem) que coloca na tela um dos grandes gênios da História: Nikola Tesla. Segundo a própria sinopse da BBC, o episódio se passa em 1903, e embora a Doutora diga “1900” para a vilã, eu entendi como se ela estivesse se referindo à década (os anos 1900) e não a este ano em específico. A rigor, porém, isso não importa muito.

Um dos impasses que eu pessoalmente tenho quando vejo representações de duas personas históricas “rivais” na ficção (Mozart X Salieri é um dos casos mais famosos) é o fato de os roteiristas — no presente caso, Nina Metivier — caírem na armadilha dramática de gerar conflito não diante da simplicidade factual entre os indivíduos, mas diante de declarada criação de guerra e ódio por um, em oposição ao louvor do outro. Evidente que eu sei que se trata de uma ficção e não de um documentário, e também sei que Thomas Edison era relativamente parecido com o que o texto mostra aqui. Mas ele não era nada estúpido, e muitas vezes isso é praticamente esfregado na nossa cara durante o episódio. Sim, Tesla era um homem muitíssimo mais sagaz, inteligente, melhor cientista/inventor e até melhor pessoa que Edison, mas ainda assim retratar Edison do jeito que majoritariamente retrataram nesse episódio me pareceu um exagero bobo, que poderia ser evitado.

Essa posição mais pessoal, no entanto, não me impediu de aproveitar a história. Em primeiro lugar, é maravilhoso ver uma interação tão orgânica entre personalidade histórica e Doutora, o que valida de imediato a trama. Sendo Tesla e Edison inventores, homens da ciência, a presença de ambos com o tipo de ameaça que temos aqui parece algo esperado, compreensível que tenha acontecido, ainda mais quando falamos desse tipo de vilã, a Rainha dos Skithra (Anjli Mohindra, a Rani de Sarah Jane Adventures), povo aparentemente primo dos Racnoss, que nesse caso está recolhendo sucata e artefatos de diversas raças pelo Universo. Usando uma nave venusiana, armas silurianas, unidade de dobra klendoviana, ressonador dulliriano e um orbe de Thassor (alterado e enviado especialmente para encontrar Tesla), a Rainha dos Skithra se mostra uma sobrevivente a todo custo e sua presença na Terra é ao mesmo tempo um genial e acidental evento.

Alguns espectadores devem ter se perguntado se a brincadeira com Tesla receber sinais de Marte tinha algum fundo de verdade ou era apenas um elo de ligação com a parte puramente sci-fi do episódio. Pois bem, a resposta é sim, o verdadeiro Tesla de fato tentava se comunicar com Marte e deixou escapar isso em 1899 para um pequeno grupo de espectadores de suas invenções, o que gerou as risadas e zombarias que o presente texto retrata muito bem. Num primeiro momento eu não queria aceitar a presença desses vilões na Terra, mas a ligação dos pontos é realmente muito bem feita: o Tesla de Doctor Who recebe uma mensagem de rádio vinda de Marte e a responde. Daí acha que não vai dar em nada, mas na verdade atrai os Skithra para a Terra, que a mando da Rainha começam a procurar pelo homem que respondeu o sinal. É um plot simples, mas bem fechadinho, assim como o plano geral da Doutora e de Tesla para vencer o inimigo da vez. Em aventuras desse porte, normalmente o ponto final força demais barra, mas aqui a iniciativa funciona. Não é perfeita (especialmente pela presença da Rainha no laboratório), mas funciona.

A atuação de Goran Visnjic como Nikola Tesla é incrível. Gosto da delicadeza que ele imprime ao personagem em diversos momentos, o jeito que ele tem de conter a raiva e principalmente a representação de seu pensamento científico e visão de mundo. Aquele diálogo que ele tem com a Doutra sobre inventar coisas, sobre ser diferente, sobre pensar coisas que os outros não entendem é tocante e ao mesmo tempo muitíssimo condizente com mentalidades científicas à frente de seu tempo. Um dos momentos mais legais do episódio, onde a Doutora, mais uma vez, tem seu espaço para brilhar e os companions, mesmo não tendo tanta coisa para fazer, pelo menos são colocados em um bom ritmo de afazeres fora da tela, de modo que não parece que eles foram apenas esquecidos no churrasco.

Dos setores técnico, a melhor coisa desse episódio é definitivamente a trilha sonora. Tanto o acompanhamento simples como os temas específicos compostos para personagens são belíssimos, e meu maior destaque vai para aquele puro e sensacional ataque da orquestra que a gente ouve quando a câmera vai aumentando o alcance da lente e mostra a nave como um todo, revelando o perigo que Yas e Tesla estão correndo. A música nesse momento dá medo e engrandece imensamente a cena, me lembrando a mesma dinâmica que ouvimos em Demons of the Punjab, só que dessa vez mais intensa, mais sombria e com muito mais destaque na edição de som.

O pêndulo da qualidade da série agora parece que está novamente no campo das coisas interessantes. Que as ondas da corrente alternada nos tragam episódios nesta mesma seara até o fim da temporada. #amem

Doctor Who – 12X034: Nikola Tesla’s Night of Terror (Reino Unido, 19 de janeiro de 2020)
Direção: Nida Manzoor
Roteiro: Nina Metivier
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Robert Glenister, Goran Visnjic, Anjli Mohindra, Haley McGee, Paul Kasey, Robin Guiver, Erick Hayden, Russell Bentley, Brian Caspe, Shaun Mason
Duração: 45 min.