Bong Joon Ho

Crítica | Parasita (2019)

Parasite (2019 film) PLANO CRITICO FILME

Desde a sua estreia em longas-metragens, com o filme Cão Que Ladra Não Morde (2000), Bong Joon Ho apresentava características de crítica e sátira sociais aliadas a uma comédia de toques cruéis, cenas de violência e uma abordagem direta sobre como o meio social (em situações normais e extremas) influencia os indivíduos das mais diferentes maneiras. Em Parasita (2019), filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o cineasta reafirma esses elementos nucleares de sua assinatura (aqui, ele escreve o roteiro em parceria com Jin Won Han, que foi diretor de segunda unidade em Okja) e mostra uma grande maturidade ao dirigir um filme longo, relativamente parado — por  ser reflexivo na forma como o drama se constrói — e tremendamente engajante.

Duas famílias são o foco deste enredo. Os Kim, família pobre que vive de dobrar caixas de pizza e que mal possui dinheiro para comer; e os Park, família muito rica que acaba empregando, por indicação, o jovem Ki-woo (Woo-sik Choi), que se torna tutor de inglês da filha mais velha dos abastados, a insegura Da-hye (Ji-so Jung). Uma diferença de classes sociais é imediatamente exposta pelo roteiro, que primeiro ressalta um lado não muito conhecido ou mesmo escondido da Coreia do Sul — a pobreza, a periferia das enormes cidades — e depois usa dessa informação para criar um drama que, embora seja político e crítico, não pontifica sobre esse abismo social. O interesse do diretor é mostrar o meio marcando os indivíduos a ferro e fogo. E essa marca se dá aqui através do trabalho.

Ocorre que a família Kim é trapaceira, embora não sejam exatamente más pessoas. O tipo de crime cometido por eles é conduzido pelo roteiro como uma forma fácil de ganhar dinheiro e, possivelmente, de garantir ascensão social. O contraste entre os espaços físicos é visto no tamanho das casas e nas cores que desenho de produção e fotografia escolheram para cada um deles. Quando vemos os Kim em seu ambiente familiar, temos como destaque ambientes mais escuros, quando não noturnos, sempre com planos que indicam um local apertado, onde esses indivíduos são vistos como insetos, pragas, parasitas amontoados em seu habitat, que se entregam à fumigação de forma simbólica já no início do longa.

Quando passamos para a mansão dos Park, vemos um ambiente mais convidativo, entre marrom e bege no interior e com bastante iluminação, em diferentes tonalidades. Neste lugar, os indivíduos se perdem em meio aos grandes espaços, que de tão impessoal, possibilita a apreciação dos comportamentos fingidos que o roteiro irá desenvolver, quase como se assumisse a mansão como um museu de falsidades, o local onde os muito ricos “são bondosos e ingênuos demais porque têm muito” e onde os pobres veem a oportunidade de se esbaldar, de infestar o espaço de seus empregadores. Para isso há um inteligente, cômico e rápido plano de parasitação, ao longo do qual o roteiro se ergue, jamais deixando as marcas sombrias de lado, mas ainda não abraçando o thriller. Os diálogos afiados e deliciosamente orgânicos mais a atuação excepcional de todo o elenco torna essa jornada de pseudo-escalada da pirâmide social cativante desde o início, da qual a gente não consegue tirar os olhos (é fato que as 2h10 do filme passam que a gente nem vê).

Então há um baque. Seco. Cru. Em questão de segundos o diretor faz com que o nosso humor desça das alturas, e essa constante queda em direção ao inferno social e emocional será a tônica da reta final da obra. O texto nos prepara uma porção de surpresas que se apresentam através de diferentes personagens e motivações. De repente chocam-se núcleos de disputa de poder, sentimento de vingança (pela sensação de perda ou de se sentir discriminado) e pela marcação do domínio entre aquele que tem dinheiro, alguma arma, coragem e aqueles que, para oferecer, só tem mesmo a força de trabalho. As macro relações econômico-sociais são vistas aqui em um pequeno recorte que mescla humor ácido — que se dissipa rápido, dando lugar ao choque — e coloca na mesa outros aspectos da vida dessas pessoas: suas diferentes relações parentais, matrimoniais e de reação a uma situação extrema, tendo, nesse caso, a família como alvo de defesa e ataque.

De Parasita eu só não gosto do final. O distanciamento do olhar impiedoso do diretor para algo um pouco mais didático e de braços abertos para o verdadeiro tema do conflito do filme trai parcialmente as consequências que o texto reserva para esses personagens. De certa forma, há uma dupla via de interpretação para o que nós vemos no final. Ainda assim, a permissão desse “sonho/desejo” ou de um real “olhar para o futuro“, nessas cenas, interrompem uma jornada quase cínica de pertencimento e não-pertencimento a certas camadas sociais, frustrando um pouco certos caminhos do roteiro. O filme, no entanto, se mantém em altíssimo patamar. Uma imensa surpresa de Bong Joon Ho, que desafia um pouco a si mesmo e problematiza social e emocionalmente o status quo no mais amplo aspecto possível: afinal, quem, nos arranjos de nossa sociedade, é o parasita de quem?

Parasita (Parasite / Gisaengchung / 기생충) – Coreia do Sul, 2019
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho, Jin Won Han
Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park, Kang Echae, Jeong Esuz, Andreas Fronk, Hyun-jun Jung, Ik-han Jung, Ji-so Jung, Jeong-eun Lee, Ji-hye Lee, Joo-hyung Lee, Hyo-shin Pak, JaeWook Park, Keun-rok Park, Myeong-hoon Park, Seo-joon Park
Duração: 132 min.

Crítica | Okja

OKJA plano crítico filme bong joo ho

Juntamente com Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe, Okja começou sua jornada de exibição com muitas vaias no Festival Cannes, pois ambos traziam o selo da Netflix e… bem, Academias e Organizações ligadas ao cinema não são exatamente conhecidas por abrirem os braços para aquilo que é diferente, seja em temática, em tecnologia ou em pessoal envolvido na produção. Essas coisas levam tempo. Mas se a polêmica em torno das obras realizadas ou exclusivamente distribuídas por plataformas de streaming perdura até hoje (e pelo jeito que o mundo anda, perdurará ainda por muito tempo), a visão geral sobre o filme não ficou apenas na vaia ou na indiferença. Goste ou não do longa, ache ou não que ele seja “mais do mesmo” ao tratar o assunto que trata, a questão é que Bong Joon-ho conseguiu jogar muito bem com os clichês do gênero e verdadeiramente imprimiu sua marca na obra.

Roteirizada pelo próprio diretor, ao lado de Jon Ronson, a película recorta a questão da pegada ecológica humana somada a questões sociológicas, econômicas e corporativistas para o consumo de carne. O filme então começa com uma apresentação chateante e editada de forma confusa, com a CEO da Mirando Corporation (Tilda Swinton) apresentando o novo sonho da carne no mundo, a possibilidade de alimentar quem tem fome e, ainda assim, fazendo bem ao meio ambiente. Por 10 anos, porcos (com cara de peixe-boi) geneticamente modificados foram entregues a fazendeiros selecionados em diversos países. Ao final desse período, o inevitável: um concurso para escolher o “melhor porco”. O roteiro, portanto, foca em uma relação específica, a de Mija (An Seo Hyun) com a porca Okja. Os embates que comentei antes passam a acontecer no confronto entre o núcleo da amizade e o núcleo da exploração.

Após a introdução não tão interessante, o filme ganha um primeiro ato simplesmente maravilhoso. O diretor desloca a ação por inteiro para as montanhas da Coreia do Sul e nos mostra um idílio que mescla fantasia, humanidade e boas doses de sentimentalismo, o que em um primeiro momento é algo positivo para o filme, marcando a relação entre a porca, Mija e seu avô. O espectador não tira da mente por um só momento que um “conflito com a civilização” irá acontecer em breve, mas isso parece algo distante, como distante estão Okja e sua amiga, correndo, brincando e fazendo coisas impossíveis juntas. É apenas quando o afetado personagem de Jake Gyllenhaal entra em cena que a atmosfera muda. E aí sabemos que o momento de felicidade do filme — que tem até uma bela cena de Mija dormindo na barriga de Okja, referenciando Totoro — está para acabar. Aí começam os maiores problemas do filme.

Para atacar frontalmente esse momento de felicidade, o roteiro nos traz duas realidades: a dos anarcoveganos pertencentes à The Animal Liberation (associação que de fato existe) e toda a máquina da Mirando Corporation, cada uma com interesses diferentes para com Okja e sua amiga; e ambas com pensamentos de grandeza, acreditando que estão realmente fazendo o bem, mas com claras contradições em seus atos. Tudo muda daí para frente: a fotografia ganha tons mais cinzentos (e um pouco mais cheio de contraste e filtro na sequência do desfile para a apresentação de Okja ao povo) e a direção acompanha a torrente de acontecimentos, colocando ação via deslocamento dos personagens, movimentando o máximo a câmera em cenas de grande tensão e, aí sim, mergulhando na abordagem crítica central, chamando a atenção para os maus tratos aos animais.

O que me agradou bastante na base do enredo foi a não fofolização da nova CEO da empresa (também vivida por Tilda Swinton). Claro que toda a jornada parece exigir progressivamente da nossa suspensão da descrença, mas na base, não destoa do contexto geral do filme — nem o personagem chato de Gyllenhaal, para falar a verdade, mas esse é difícil de engolir mesmo, sob qualquer ponto de vista. Esse cenário meio cômico e bastante violento entra para o filme apenas como recorte de uma realidade. Ouvi inúmeros comentários ingênuos, ao longo dos anos, exigindo da fita uma intervenção ambiental/política e não apenas a demonstração do salvamento de animais ou denúncia dos horrores feitos com a produção de carne no modo industrial. O que os papas do engajamento político se esquecem é que Okja é uma ficção de aventura e ação com pitadas de fantasia e que olha para um problema real a fim de fazer o seu plot andar. Exigir que esse tipo de filme exponha um petardo analítico ou teórico sobre as lutas contra o sistema de produção e de consumo contemporâneos é produto de mente sandia.

O tratamento entre o misterioso e o redentor do grupo de salvadores de animais e a forma como ele costura uma possibilidade de luta e denúncia foi colocado na medida certa para fazer o conflito fluir. Para quem quer um caminho revolucionário de destruição e reconstrução de um sistema socioeconômico, saiba que a literatura, em diversas áreas do conhecimento, está abarrotada de exemplos. Okja não é um grito de liberdade anti-porcos-capitalistas (hehehe), mas um ótimo recorte de um problema que muitos de nós — eu inclusive — lutamos para ignorar. A chamada do roteiro para uma revisão de hábitos não é via pregação ou Manifesto. E nisso o longa tem um baita sucesso. Nem a linha de convencimento do tipo “olha, se mudar pequenos hábitos…” aparece como uma consolação de meio-caminho. O fato é exposto como parte de qualquer coisa ruim sobre a qual temos conhecimento: as implicações para as vítimas e os muitos lados em torno da causa e da busca pelo remédio ou extinção desse sofrimento. O que cada um vai fazer com isso, não é um drama como Okja que vai dizer. Pois aí está mais um motivo que faz a obra ser uma baita diversão, no fim de tudo: o diretor está apenas preocupado em contar uma boa história. A real discussão, sob qualquer ordem teórica, fica por nossa conta.

Okja (Coreia do Sul,  EUA, 2017)
Direção:
  Joon-ho Bong
Roteiro: Joon-ho Bong, Jon Ronson
Elenco: Tilda Swinton, Paul Dano, Seo-Hyun Ahn, Giancarlo Esposito, Jake Gyllenhaal, Je-mun Yun, Shirley Henderson, Steven Yeun, Daniel Henshall, Lily Collins, Devon Bostick
Duração: 118 min.

Crítica | Tokyo! (2008)

Tokyo! é um projeto cinematográfico que reúne três cineastas autorais não japoneses para contar três histórias diferentes, conectadas apenas pela exigência de se passarem em Tóquio, com filmagens em locação. O resultado é uma experiência cinematográfica irregular, como costumam ser as antologias, mas fascinante do começo ao fim. Como são três curtas muito díspares, abordei cada um deles separadamente abaixo, com notas em estrelas dedicadas. A avaliação em estrelas acima é para o conjunto da obra e não é necessariamente uma média.

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Interior Design

dir. Michel Gondry

Quem conhece Michel Gondry sabe o que esperar de suas obras: um olhar muito pessoal, mas com uma pegada surreal para as relações humanas. E é exatamente isso que ele entrega em Interior Design, o primeiro curta da antologia Tokyo! que o próprio cineasta escreveu com base na graphic novel Cecil and Jordan in New York, de Gabrielle Bell.

Na história, um jovem casal chega na megalópole para tentar a vida, morando em apertado apartamento de uma velha amiga deles que se sente obrigada a abrigá-los. A abordagem da metragem quadrada caríssima da cidade é um veículo para Gondry trabalhar a ansiedade do jovem tentando encontrar-se no mundo, em ter sua voz, em descobrir o caminho que pretende seguir, mas tendo as paredes fechando-se ao seu redor.

Um deles é cineasta amador, talvez uma versão jovem do próprio diretor, enquanto sua namorada não tem a menor ideia do que quer fazer. Existem as cobranças usuais de um em relação ao outro, assim como a pressão da sociedade, aqui representada pela amiga mal ou bem já assentada na capital, para que eles alcancem a verdadeira independência. Ou seja, mais paredes fechando-se ao redor deles, especialmente de Hiroko (Ayako Fujitani) que começa a separar-se de Akira (Ryo Kase) em uma sucessão de problemas que vão desde o reboque do carro dos dois até o vislumbre de uma carreira.

E então, quase que como uma rasteira cinematográfica, mas no bom sentido, vem Gondry com sua veia surrealista e… transforma Hiroko, efetivamente justificando o título escolhido e levando o curta para seu desfecho. Sem dúvida é algo surpreendente e muito bem executado tecnicamente, mas que talvez seja introduzido tardiamente e com uma certa dose de aleatoriedade que pode fazer o espectador coçar a cabeça.

Mesmo assim, Interior Design cumpre muito bem sua proposta de usar Tóquio como pano de fundo para uma história universal contada pelas lentes peculiares de um diretor que não tem problemas em fazer o inusitado parecer lógico. Sem dúvida um ótimo exemplar do Cinema de Gondry.

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Merde

dir. Léos Carax

Conheci o estranhíssimo ogro ruivo comedor de flores com um olho leitoso vivido por Denis Lavant em Holy Motors, mas foi assistindo Merde que descobri que ele foi criado por Léos Carax e pelo ator aqui nesse curta como uma alegoria dos ataques de monstro à Tóquio inaugurado por Godzilla nos anos 50, de quebra transformando Holy Motors em uma efetiva continuação (ou algo parecido) do curta. Além disso, Merde marcou a volta do cineasta à cadeira de diretor desde Pola X, de quase 10 anos antes.

No curta, o referido ogro sai dos esgotos de Tóquio para aterrorizar a população em tomadas realmente espetaculares de Carax trabalhando com steady cams e profundidade de campo para imediatamente trazer à mente do espectador aquela raiz de “filme de monstro” que a atmosfera evoca. Chega a ser impressionantes os planos sequência e o uso de efeitos práticos em determinado momento destrutivo, além de, claro, a atuação absolutamente cativante e ao mesmo tempo repugnante de Lavant. A obra é tensa e muito interessante até a captura da alcunhada Criatura dos Esgotos.

A partir daí, Carax, apesar de manter aberta a torneira da bizarrice surrealista, acaba se perdendo. Isso é particularmente visível com a introdução do advogado francês Voland (Jean-François Balmer), fisicamente parecido com o ogro e a única pessoa capaz de se comunicar com ele. A interação entre eles é longa e cansativa, assim como o “discurso traduzido” no tribunal que, mesmo carregado de comentários sociais sobre intolerância e preconceito, cambam demais para o didático e para o lento. É quase como se fosse possível notar que Carax estava apenas fazendo seu curta chegar ao tamanho padrão da antologia, algo como 40 minutos.

Mesmo inusitado e com Lavant magnífico em seu mais do que estranho papel, Merde fica aquém de seu potencial, algo que só realmente seria alcançado por Carax com esse personagem no sensacional Holy Motors. O curta, em retrospecto, parece um tubo de ensaio do longa de 2012.

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Shaking Tokyo

dir. Bong Joon Ho

Encerrando a visão de estrangeiros sobre a megalópole japonesa, o diretor sul-coreano Bong Joon Ho entrega uma obra que aborda, ao mesmo tempo, um fenômeno social e outro geológico que marcam aquele país: os hikikomori e os terremotos. O que são os primeiros e como eles se encaixam nos segundos, só realmente vendo a magia do cineasta em funcionamento.

Em poucas palavras, os hikikomori são pessoas extremamente reclusas que não fazem qualquer contato com outros e que vivem completamente – ou quase – isolados do mundo. Esse é o caso do jovem vivido por Teruyuki Kagawa, que há 10 anos sequer olha nos olhos dos entregadores de comida que ele chama.

Vivendo em uma casa organizada, com pilhas de livros, de rolos de papel higiênico e de caixas de pizza há 10 anos, o jovem ermitão acaba quebrando seu método ao olhar de soslaio para os olhos de uma entregadora de pizza depois que vê sua sexy cinta liga. Um terremoto se segue ao momento mágico e a moça, ato contínuo, desmaia. O que segue é a tentativa desesperada de fazer conexão, de viver, algo que coloca o protagonista em rota de colisão com sua própria vida.

Apesar de ser bem japonesa, essa síndrome de reclusão é sem dúvida universal, em maior ou menor grau, sendo perfeitamente possível qualquer um estabelecer conexão com a história sendo contada, ainda mais considerando o lirismo de Joon Ho ao fazer de tudo para mostrar que há saída disso, que lutar vale sim o esforço. É, reduzindo em miúdos, um manual de auto-ajuda em linguagem cinematográfica que engolfa o espectador imediatamente pelo drama que se coloca e pela maneira inteligente como Tóquio embrenha-se em cada fotograma do curta.

A atuação assustada e desesperada de Kagawa é o ponto alto desse enfoque, assim como a retratação quase (ou inteiramente) fetichista da entregadora de pizzas, outro elemento bem japonês. A busca da cara metade e a fuga da solidão ganham uma bela e esperançosa  roupagem aqui e Shaking Tokyo realmente consegue sacudir a antologia.

Tokyo! (Idem – Japão/França/Coréia do Sul/Alemanha, 2008)
Direção: Michel Gondry, Léos Carax, Bong Joon Ho
Roteiro: Michel Gondry (baseado em HQ de Gabrielle Bell), Leos Carax, Bong Joon Ho
Elenco: Ayako Fujitani, Ryō Kase, Ayumi Ito, Satoshi Tsumabuki, Denis Lavant, Jean-François Balmer, Julie Dreyfus, Andrée Damant, Teruyuki Kagawa, Yū Aoi, Naoto Takenaka
Duração: 112 min.

Crítica | Expresso do Amanhã

estrelas 5,0

Inspirado na graphic novel francesa Le Transperceneige (publicada no Brasil com o título literal O Perfuraneve), O Expresso do Amanhã é o primeiro filme em língua inglesa do diretor sul-coreano Bong Joon Ho, responsável pelos excelentes Memórias de um Assassino, O Hospedeiro e Mother – A Busca pela Verdade e também uma obra-prima esquecida. Mantendo um clima neo-noir em uma improvável situação pós-apocalíptica enclausurada em um relativamente pequeno ambiente, o diretor mostra seu controle de câmera, sua habilidade para fazer muito com pouco e sua mais absoluta criatividade em uma película imperdível e que já nasce com o status de cult.

Apesar de bem-sucedida na Coréia do Sul, a fita sofreu gigantescos atrasos na distribuição nos EUA e outros importantes territórios, cortesia de Harvey Weinstein, que exigiu um corte de 20 minutos na duração e inserção de narrações de abertura e encerramento, algo veementemente rejeitado pelo diretor. Com o impasse e depois de uma petição online idealizada e fomentada por Denise Heard-Bashur, conhecida “ativista cinematográfica”, a distribuição acabou caindo na mão de outra empresa de menor alcance, o que impediu que a película fosse laureada com um grande circuito.

Mas isso não impediu as críticas positivas oriundas de festivais pelo mundo que aplaudiram a originalidade e ousadia do filme. E, sem dúvida alguma, essa receptividade positiva é muito merecida, pois Expresso do Amanhã consegue, de uma só vez, reinventar o sub-gênero do drama pós-apocalíptico e estabelecer um altíssimo parâmetro para filmes de orçamento médio (a fita custou 40 milhões de dólares, troco se comparado com blockbusters do verão americano, algo que o filme de Joon Ho poderia facilmente ter sido).

Uma comparação imediata, justa e clara seria com Mad Max: Estrada da Fúria. George Miller fez um filme pós-apocalíptico que literalmente trafega única e exclusivamente em linha reta. É uma perseguição indo e outra voltando e, no processo, o diretor entregou uma inesquecível experiência cinematográfica. Arriscaria dizer que Expresso do Amanhã, que antecedeu o quarto Mad Max em dois anos, consegue ir ainda além, pois é também um filme pós-apocalíptico “em linha reta”, mas com subtextos e críticas sócio-econômicas bem mais interessantes. Exagero? Então me acompanhe.

Expresso do Amanhã exige, com toda certeza, um alto grau de suspensão da descrença. Temos que aceitar que, em futuro próximo, por erro humano, o mundo todo passa por uma fortíssima Era Glacial e os únicos sobreviventes da raça estão dentro de um trem – o Perfuraneve do título da graphic novel em francês e português e do filme em inglês – que trafega ao redor do mundo pela força de um moto-contínuo quase mágico. Temos que aceitar que o trem é auto-suficiente e praticamente eterno e que, ao longo de seus intermináveis vagões, os últimos sobreviventes de uma apocalipse gelado vivem divididos em classes sociais conforme as classes de um trem ou de um avião. Na frente, os mais abastados vivem em luxo absoluto, com restaurantes, bares, escolas, saunas, boates e tudo de “decadente” que a civilização pode oferecer. Atrás, os mais pobres, com trapos para vestir, camas amontoadas para dormir e cuja comida é, única e exclusivamente, uma nojenta gelatina proteica fabricada em vagões intermediários.

Mas o mais sensacional dessa estrutura é que Bong Joon Ho nos faz aceitá-la sem maiores problemas. É fácil detectar as impossibilidades, mas não ligamos e queremos explorar esse gigantescamente longo trem seguindo a revolução encabeçada relutantemente por Curtis Everett (o próprio Capitão América, Chris Evans) depois que o sequestro de duas crianças de seu grupo pelos habitantes da primeira classe acontece. A linha reta que mencionei é a longa luta de Curtis e companhia, vagão por vagão, com a ajuda de seu mentor Gilliam (o veterano e saudoso John Hurt), de seu amigo Edgar (Jamie Bell, o Tintim), Namgoong Minsu (Song Kang-ho, de quase toda a filmografia do diretor) e sua filha clarividente Yona (Ko Asung, a menina de O Hospedeiro). O objetivo é alcançar a locomotiva, lugar quase mítico onde viveria Wilford (Ed Harris), o criador do trem, originalmente para fins turísticos.

Ainda que se possa dizer que a separação em classes sócio-econômicas conforme as classes de um trem é uma forma óbvia demais para se fazer comentários e críticas às “castas”, o fato é que Expresso do Amanhã pode ser visto e apreciado em pelo menos três camadas. A mais superficial seria a da história pela história, em que o foco seria mesmo na aventura e em como ela se desenrola, com as respectivas atuações, fotografia, montagem e efeitos especiais. Nesses aspectos, o trabalho do direitor e equipe é impecável.   

Dentro de uma estrutura confinada, o cineasta se esmera na criatividade para colocar nas telonas sequências de ação originais e chocantes, sempre com um viés exagerado, absurdo, quase pantomímico. Essa escolha estilística não é aleatória, pois ela ajuda o espectador a aceitar o inusitado da premissa da fita e retira qualquer expectativa de “realismo” ou lógica física. “Estamos em um outro universo”, é basicamente esse o recado que ele quer passar. A fotografia de Kyung-pyo Hong, parceiro de Joon Ho em Mother – A Busca Pela Verdade, é quase um personagem da obra. Sem inventar, ele usa tons escuros de cinza e marrom para o “proletariado” e “branco e preto” asséptico para as classes “dominantes”, mas de uma forma orgânica, que casa com perfeição com os figurinos de Catherine George e a direção de arte de Stefan Kovacik. O preto “morte e pobreza” da casta inferior dá lugar ao preto “vida e sofisticação” alguns vagões a frente sem que haja choque de lógica ao espectador. Há uma estranha harmonia na extrema sujeira de um lado e na extrema limpeza de outro que é difícil realmente explicar, mas que permeia toda a película.

Essa sujeira x limpeza, de certa forma, também é caracterizada pela escolha de Chris Evans para encabeçar o elenco. A expectativa que temos – um jovem forte e belo – é pervertida com sua caracterização sofrida e que surpreende por mostrar que, à frente de lentes comandadas por diretor que sabe extrair o melhor de seu elenco, Evans realmente sabe atuar. Não é brilhante, mas cumpre sua função com louvor e, acima de tudo, credibilidade. Do outro lado da moeda, temos uma quase irreconhecível Tilda Swinton, como uma espécie de agente que faz a “junção” entre classes sociais e que é responsável pelo sequestro das crianças. Em uma caracterização afetada, carregada de maquiagem e que inevitavelmente (e não sem querer) lembra Margaret Thatcher, ela amplia a sensação de estranheza e de ação cartunesca que Bong procura imprimir em sua revolução férrea.

Mas isso tudo, caros leitores, é apenas a primeira camada. A camada facilmente apreciável e capturável por nossos sentidos. Há uma camada logo abaixo, de crítica sócio-econômica que, como disse, é mais do que óbvia se apenas observarmos a história por seu valor de face. É simples concluir que estamos assistindo à luta do proletariado contra o malvado e doentio capitalismo, mas essa estrutura formulaica é boba demais, simplista demais para parar por aí. Vamos além então, para a terceira camada.

Nela, percebemos que esse trem eternamente contornando um congelado planeta Terra não exige nada de ninguém. Não há trabalho, não há criação de riquezas. O proletariado dos vagões “pobres” não é realmente proletariado, pois não são trabalhadores. São apenas pessoas que vivem lá. O mesmo vale para os ricos da outra ponta. Eles não são apostadores em bolsas de valores. Apenas são ricos, pois estão nos vagões certos. Não existe, aqui, aquilo que vemos, por exemplo, no magistral e seminal Metrópolis, de Fritz Lang, filme aliás referenciado aqui e ali em Expresso do Amanhã.

Assim, o confronto da riqueza versus pobreza existe como um fim nele mesmo e não por ditames econômicos. Sim, existe uma função perniciosa no sequestro que catalisa a ação da fita, mas essa questão fica em segundo plano e não justifica exatamente a divisão em classes. Ela parece existir por uma razão ainda mais cruel, ainda mais inaceitável que uma mera alegoria anti-capitalista ou anti-comunista: por puro comodismo. Sim, comodismo. E de ambos os lados. A sociedade pré-trem era dividida em castas e a sociedade no trem, portanto, precisa ser dividida em castas. E o comodismo que é varrido para o lado quando a revolução começa, mas o espectador verá, na medida em que o filme se desenrola, que nem isso é tão simples assim e o final, com um corajoso discurso por parte de Curtis, dá o que pensar e discutir. É isso que grandes filmes devem sempre fazer e é isso que Expresso do Amanhã consegue com facilidade, mesmo depois de encantar os espectadores com a argúcia técnica de Bong Joon Ho e de sua equipe.

Expresso do Amanhã é um filme que provavelmente será lembrado muitos anos no futuro. E merecidamente. Pode ter sofrido na bilheteria por mandos e desmandos de um produtor que acha que sempre sabe o que é melhor para seu público, mas o resultado final é tão magnífico e de cair o queixo que fica difícil imaginar como essa obra de Bong Joon Ho não ganhou naturalmente mais destaque e aclamação mundial.

  • Crítica originalmente publicada em 27 de agosto de 2015.

Expresso do Amanhã (Snowpiercer, EUA/Coréia do Sul/República Tcheca/França – 2013)
Direção: Joon-Ho Bong
Roteiro: Joon-Ho Bong, Kelly Masterson (baseado em graphic novel de Jacques Lob, Benjamin Legrand, Jean-Marc Rochette)
Elenco: Chris Evans, Tilda Swinton, John Hurt, Ed Harris, Jamie Bell, Kang-Ho Song, Octavia Spencer, Ewen Bremner, Ah-Sung Ko, Alison Pill, Luke Pasqualino, Vlad Ivanov, Emma Levie, Steve Park
Duração: 126 min.

Crítica | Mother – A Busca Pela Verdade

Mother – A Busca Pela Verdade é um filme que caminha por um trajeto longo de angústias e autoavaliação. Ao longo dos 128 minutos de projeção, adentramos na vida de personagens com existências sofridas, tomados por sentimentos nada nobres, ocasionados por conta dos choques diários entre pessoas com desejos e vontades discrepantes, cada uma em busca de preenchimento e satisfação. O que podia ser uma trama policial repleta de mecanismos investigativos torna-se um imbricado jogo de espelhos onde a verdade parece refletida a todo instante, mas as surpresas insistem em nos sacolejar constantemente.

Nada é exatamente o que parece e a sensação ao sair da sessão é uma mescla de piedade, perplexidade e agonia. Dirigido por Bong Joon Ho, cineasta que teve como guia o próprio roteiro, escrito em parceria com Park Eun-Kyo,  Mother – A Busca Pela Verdade demonstra uma relação maternal de total entrega, haja vista a condição do filho da protagonista do título, uma mulher que sabe só ter ao filho, e o garoto, mesmo diante de suas dificuldades cognitivas, sabe que tem apenas a mãe num mundo cruel e segregacionista em relação aos que fazem parte de grupos desfavorecidos da famigerada regra padronizada da “normalidade”.

O ponto de partida para a história investe num clima tenebroso. A “mãe” precisa sair em busca de resolução para um caso que envolve o seu filho, jovem acusado de ter assassinado uma garota. Por meio de conflitos coesos diante de uma história bem amarrada dramaticamente, acompanhamos a saga de uma mãe dedicada rumo ao “inferno” para tentar compreender os acontecimentos trágicos que a colocou, juntamente com o seu filho, numa situação tão desoladora.

Levado a assinar a sua culpa diante de algo que talvez não tenha cometido, o jovem acusado de cometer um crime abominável permite que a sua mãe desfile pela narrativa sem se tornar um estereótipo. Enquanto personagem de um filme que aborda, dentre tantos temas, as relações dentro de uma família composta apenas por dois membros, num dos exemplos de maternidade e dedicação total, Mother – A Busca Pela Verdade toca em feridas que não queremos saber que existem, protegidas pelos bálsamos que forçamos na vida. Diante da situação exposta.

Narrada por uma direção de fotografia eficiente, assinada por Hong Kyung-Pyo, a produção constantemente nos apresenta ao personagem de Kim Hye-Ja  num quadro aberto, solitária e pequena diante de uma situação grandiosamente sufocante. Ao longo de sua caminhada em busca de respostas para o obscuro fato criminoso que envolve seu filho, a personagem ganha contornos ainda mais profundos com a condução musical de Byeong-Woo Lee. A produção acerta também ao trazer a chuva como elemento narrativo, responsável por preencher os enquadramentos de melancolia, sem soar clichê ou forçosamente lacrimejante.

Lançado em 2009, Mother – A Busca Pela Verdade é um drama que retrata a maternidade sem dialogar com os padrões narrativos comuns ao cinema hollywoodiano, ambos interessantes, mas apontados aqui numa comparação inevitável por conta da quantidade de acessos que temos entre um modelo de indústria e outro. Sem aderir aos esquemas massivos, o filme apresenta detalhes além do sofrimento e das lágrimas, articulando outros momentos da vida de duas pessoas que sabem ter apenas um ao outro. Triste, profundo e reflexivo.

  • Crítica originalmente publicada em 10 de maio de 2019.

Mother – A Busca Pela Verdade — (Madeo) Coreia do Sul, 2009.
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho, Park Eun-kyo
Elenco:  Jin Ku, Kim Hye-ja, Won Bin, Joon-ho Bong, Park Eun-kyo, Park Wun-kyo, Jae-Won Choi, Park Tae-joon, Woo-sik Seo
Duração: 128 min.

Crítica | O Hospedeiro

Quero dizer, ela morreu, mas ainda está viva.

Depois do sucesso de Memórias de um Assassino, um drama policial atmosférico e assombroso, Bong Joon Ho partiu para co-escrever e dirigir nada menos do que um filme de monstro na melhor tradição de seus vizinhos japoneses, mas com assinatura mais do que própria. Nascia, então, O Hospedeiro, que se tornou a maior bilheteria da época na Coréia do Sul e, de quebra, revelou o diretor de vez para o ocidente.

Há primeiro que se aplaudir um cineasta que não descansa em berço esplêndido e mantem-se apegado a um tema ou a um tipo de filme. O salto que Bong Joon Ho dá de sua obra anterior angustiante e intimista para sua abordagem no que essencialmente é a premissa de Spectreman – um monstro criado pelos efeitos da poluição! -, mas sem os elementos “espaciais” e com muita crítica social e ambiental, além de estocadas nada discretas nos EUA, foi obviamente muito arriscada, mas novamente muito bem-sucedida.

O maior risco de todos era a oposição do orçamento razoavelmente apertado (algo como 11 milhões de dólares) com a escolha deliberada do diretor de despudoradamente mostrar seu “peixe gigante terrestre carnívoro mutante acrobata” em extensas e explícitas tomadas em plena luz do dia logo de cara, sem fazer o menor suspense, algo que imediatamente já separa O Hospedeiro de praticamente todos os filmes do gênero. Convocando os trabalhos da WETA e da The Orphanage, porém, Bong Jooh Ho fez o máximo com o dinheiro que tinha e o CGI do peixão acabou impressionando mesmo os mais cínicos, especialmente considerando o tempo de exposição do bicharoco diante das câmeras e da interação com humanos, algo sempre difícil. Pode ser que muitos achem que ele não envelheceu bem e isso pode ser verdade, mas é mais verdade ainda que isso pouco importa para a apreciação da obra.

Assim como em todos os filmes de Bong Joon Ho, a premissa da superfície é apenas o estopim para comentários sociais ferinos que, aqui, claro, ganham uma embalagem ambiental poderosa e óbvia como por vezes precisa ser. O roteiro, que se inspirou em um artigo de jornal falando sobre um peixe mutante encontrado no rio Han e também em um incidente real – retratado na sequência de abertura da fita – em que um médico legista militar americano lotado na Coréia do Sul mandou derramar centenas de frascos de formaldeído no esgoto, é repleto de críticas fortes à incompetência e descaso do governo coreano e carrega ecos do processo democrático pelo qual o país passara 20 anos antes, incluindo ao próprio ativismo político quando o texto transforma Park Nam-il (Park Hae-il), irmão do protagonista, em um anacrônico “protestante profissional” sem eira nem beira. E é claro que os Estados Unidos, a “potência maléfica” preferida de todos, é alvo de toda sorte de espancamento audiovisual, notadamente o tal médico legista da abertura, depois o outro que adora uma lobotomia e chegando no nada discreto “agente laranja” e à surreal tentativa de enganar o mundo com a fake news do vírus. No entanto, engana-se quem interpreta o filme apenas como anti-americano, já que isso seria um reducionismo de primário e o diretor pode ser tudo, menos bobo desse jeito. A crítica, ao contrário, é geral, ampla e irrestrita.

Claro que o destaque da obra – além da quimera – fica mesmo com Park Gang-du (Song Kang-ho estrelando o segundo longa seguido do diretor), um vendedor simplório de cabelo pintado que tem sua filha Park Hyun-seo (Ko Asung) capturada pelo monstro. É essa conexão entre os dois, estabelecida de maneira muito eficiente em apenas poucos minutos de projeção, que sustenta o lado dramático do filme mesmo quando Gang-du é retratado de maneira comicamente exagerada e teatral pelo ator seguindo um roteiro que exige exatamente isso do personagem, com Hyun-seo sempre corajosa e inteligente em seu imundo cativeiro subterrâneo. Diria, da mesma forma, que toda a relação familiar dos Parks, que evolui muito claramente ao longo dos 120 minutos com os três irmãos, ao final, formando uma equipe heroica lindamente clichê, é um prazer de se acompanhar.

Muitos comparam O Hospedeiro com Tubarão, mas a única comparação que eu considero que realmente procede é a antitética: enquanto o filme de Steven Spielberg é de queima lenta, esconde seu monstro e o usa homeopaticamente, o de Bong Joon ho é o exato oposto. De similaridade fica mesmo só o ótimo uso das críticas sociais, ainda que de ordens bem diferentes e o sucesso de bilheteria que as obras tiveram. Seja como for, os dois filmes marcaram época e é possível que O Hospedeiro torne-se tão duradouro no imaginário popular quanto Tubarão, ainda que nem de longe tão revolucionário.

Sem contentar-se com mais do mesmo, Bong Joon Ho, em sua terceira produção, pegou o gênero de nicho de “filme de monstro” e o virou de cabeça para baixo, mostrando que é sempre possível renovar abordagens. Basta criatividade e esforço, algo que o cineasta parece ter para dar e vender.

O Hospedeiro (Gwoemul – Coréia do Sul, 2006)
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho, Won-jun Ha, Chul-hyun Baek
Elenco: Kang-ho Song, Hee-Bong Byun, Hae-il Park, Doona Bae, Ko Asung, Dal-su Oh, Jae-eung Lee, Dong-ho Lee, Je-mun Yun, David Anselmo, Martin Lord Cayce, Scott Wilson, Brian Rhee
Duração: 120 min.

Crítica | Memórias de um Assassino

Há uma razão por que as pessoas dizem que eu tenho olhos de xamã.

O amadurecimento cinematográfico de Bong Joon Ho foi meteórico. Iniciando seu trabalho de direção de longas com o já muito bom Cão Que Ladra Não Morde, o cineasta alcançou impressionante nível de excelência apenas três anos depois, com seu trabalho seguinte, um drama policial perturbador que romanceia o caso real de um estuprador e assassino em série da segunda metade dos anos 80 na Coréia do Sul a partir da peça teatral homônima escrita por Kwang-rim Kim. Se seu primeiro filme tinha um tom abertamente cômico, apesar da premissa exótica e que exige mais do espectador do que apenas passividade, em Memórias de um Assassino (não sei como ficaria a tradução do título original coreano, mas o americano – “Memórias de Assassinato” – é bem mais elegante) o diretor muda completamente o tom e trabalha uma questão séria e pesada.

Bong Joon Ho, porém, não perde a veia cômica, ainda que, aqui, ela seja discreta diante da solenidade do assunto e basicamente utilizada para demonstrar a barbaridade dos “métodos investigativos” dos detetives Park Doo-man (Song Kang-ho) e Cho Yong-koo (Kim Roe-ha) que basicamente se resumem a bolar as teorias mais idiotas possíveis que são alimentadas aos suspeitos na base de violência policial para arrancar confissões. E o tipo de comicidade é o mesmo de sua obra anterior, inquieta, incômoda, que envergonha o espectador por achar graça daquilo, especialmente quando o suspeito é Baek Kwang-ho (Park No-shik), um rapaz com problemas mentais. E tudo só fica pior quando, logo no começo da fita, o chefe de polícia comemora a chegada do detetive Seo Tae-yoon (Kim Sang-kyung), vindo especialmente de Seul para ajudar nas investigações e que não só tem uma postura sisuda de “policial da capital”, como também se utiliza de métodos investigativos que pelo menos inicialmente parecem seguir o manual de instruções. A oposição do recém-chegado aos dois detetives provincianos cria uma chaga procedimental enorme que o roteiro co-escrito pelo diretor com Sung-bo Shim mantém aberta ao dividir a narrativa nos dois enfoques, de certa forma criando uma atmosfera competitiva.

Falando em atmosfera, a fotografia de Kim Hyung-ku é um dos grandes triunfos da obra, com um trabalha minucioso de captura de imagens em escuridão quase total e chuva, que Bong Joon Ho, também com a ajuda da perfeitamente sincronizada trilha sonora do compositor japonês Tarô Iwashiro, usa com enorme esmero para criar um ambiente de opressão, de completa ausência de saída, com especial destaque para os angustiantes minutos finais. Muitos equalizam essa abordagem com os filmes noir de outrora, classificando Memórias de um Assassino com neo-noir, mas não sei se a obra realmente se encaixa no conceito para além do policial durão que chega de cidade grande para solucionar terríveis crimes. Há uma qualidade muito própria no resultado final que, diria, se assemelha muito mais a Seven: Os Sete Pecados Capitais (curiosamente o segundo longa de outro grande cineasta que amadureceu muito rapidamente) do que, por exemplo, Relíquia Macabra ou Blade Runner. Mesmo assim, as comparações com Seven talvez também não sejam as melhores, pois o citado ar cômico que toma principalmente o primeiro terço da projeção e que conta com uma paleta de cores viva e muito diferente, afasta o filme do espetacular thriller de David Fincher.

Mas Memórias de um Assassino é ainda mais interessante se pararmos para pensar em seu subtexto sócio-político. Assim como no Brasil, a Coréia do Sul, em 1986, passava por um processo de fim de ditadura militar e de democratização de suas instituições, algo que em uma análise perfunctória pode parecer não se conectar à trama detetivesca. No entanto, a inquietude da população civil é um importante pano de fundo para a narrativa, mas que fica somente ali, como comentário indireto ao que acontece em primeiro plano. O espectador mais atento notará justificativas dentro do roteiro para a ausência de uma forma policial maior no local dos assassinatos que se conectam diretamente com protestos pela nação e certamente estabelecerá uma ponte direta da violência que é a mera existência de uma ditadura com a violência policial representada pelos detetives provincianos. Mas como em basicamente toda sua filmografia, Bong Joon Ho não é um cineasta de maniqueísmos óbvios e o desenvolvimento narrativo de Seo Tae-yoon, o detetive citadino que pode ser visto como a “chegada da civilização”, derruba essa nossa impressão inicial.

A duração teoricamente avantajada para uma trama detetivesca que não carrega tanta complexidade é apenas uma possível impressão inicial sem a conferência do filme, pois a narrativa, apesar de longe – bem longe! – de ser composta de sequências de ação prende a atenção do começo ao fim, fazendo a minutagem correr vertiginosamente sem que percebamos. Isso é particularmente interessante, pois a atmosfera leve (dentro do possível) que marca o começo do filme, vai sendo substituída por uma pegada sombria crescente, mas que é tão natural e tão bem costurada que se torna imperceptível. Além disso, para criar uma atmosfera capaz de visualmente estabelecer claustrofobia apesar de diversas tomadas em plano aberto, é necessário tempo e é necessário cadência narrativa. E o filme tem isso de sobra, algo que o elenco encabeçado pelo excelente Song Kang-ho tira o máximo proveito.

Memórias de um Assassino é, sem ficar pisando em ovos, uma obra-prima, algo que poucos cineastas de começo de carreira podem dizer que têm, colocando Bong Joon Ho em companhia de grandes nomes da Sétima Arte como o próprio Fincher, Jean-Luc Godard e Orson Welles nesse quesito. Nada mal para para alguém com apenas 34 anos à época em um país de cultura cinematográfica então ainda razoavelmente insipiente.  

Memórias de um Assassino (Salinui Chueok – Coréia do Sul, 2003)
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho, Sung-bo Shim (baseado em peça de Kwang-rim Kim, por sua vez baseada em fatos reais)
Elenco: Kang-ho Song, Sang-kyung Kim, Roe-ha Kim, Jae-ho Song, Hee-Bong Byun, Seo-hie Ko, Tae-ho Ryu, No-shik Park, Hae-il Park, Mi-seon Jeon, Young-hwa Seo, Woo Go-na, Ok-joo Lee, Jong-ryol Choi
Duração: 131 min.

Crítica | Cão Que Ladra Não Morde (2000)

O cineasta sul-coreano Bong Joon Ho começou sua carreira cinematográfica em 1994 em diversas cadeiras diferentes, de técnico de iluminação, passando por diretor de fotografia, mas também dirigindo três curtas, dois deles escrito por ele. Em 1997 e 1999, ele co-escreveu dois roteiros de longas-metragens (respectivamente Motel Seonninjang ou Motel Cactus e Yuryeong ou Phantom: The Submarine) e, finalmente, em 2000, conseguiu lançar Cão Que Ladra Não Morde, seu primeiro longa na direção (e também no roteiro, que co-escreveu com outros dois colegas). Já mostrando uma pegada peculiar e ousada, Bong Joon Ho não se faz de rogado e começa exigindo que o espectador ultrapasse barreiras para apreciar sua criação.

Afinal, a primeira informação que temos sobre o filme salta imediatamente na tela em letras garrafais sobre fundo preto: “nenhum animal foi machucado na produção deste filme”. Sim, é comum vermos isso nos créditos, mas apenas nos que sucedem uma produção, não em seu começo e especialmente não como o elemento que abre a película. O estranhamento imediato é seguido pela efetiva justificativa para a frase: um rapaz, morador de um conjunto habitacional, irrita-se com o latido de um cachorrinho e trata de eliminá-lo. Mesmo quem não gosta de animais de estimação provavelmente virará o rosto quase que automaticamente, especialmente porque Cão Que Ladra Não Morde é vendido como uma comédia, o que efetivamente é, ainda que mais para o lado satírico. Confesso que não sei como Bong Joon Ho cumpriu a promessa de que ele não machucou animais, mas prefiro não pensar muito nisso…

Seja como for, esse ponto de partida cruel e realmente complicado de deixar para trás ao mesmo tempo cria asco e atiça a curiosidade do espectador, além de já revelar que Bong (posso chamá-lo assim?) não está muito preocupado em respeitar convenções ou em deixar de ferir suscetibilidades. Mas filmes que prezam o celuloide (ok, os bits e bytes) tendem a justamente desafiar e não somente confortar que os assiste e é exatamente o que Cão Que Ladra Não Morde faz, até porque a premissa central e que impulsiona a narrativa – e que trabalha muito bem a percepção e a crítica da cultura oriental – não é um fim em si mesma. Ao contrário, ela existe em uma camada sensorial muito particular ao próprio diretor e co-roteirista, muito provavelmente como ferramente de estudo das interações humanas.

Sem entrar em detalhes desnecessários (para a crítica) sobre a trama, basta dizer que temos, de um lado, Ko Yun-ju (Sung-Jae Lee) o tal jovem que desgosta de cachorros e que vive contando centavos em um apartamento minúsculo com sua esposa grávida e um possível emprego de professor e, de outro, Park Hyun-nam (Doona Bae, a Sun de Sense8), uma contadora relapsa em seu emprego que passa mais tempo com sua amiga balconista de uma loja de brinquedos. Os caminhos aparentemente separados dos dois, evidentemente, acabam não só tangenciando, como indo além, com o roteiro, porém, não demonstrando muita preocupação em acelerar essa amarração mesmo pecando em estender a obra por mais tempo do que realmente necessários, por vezes repetindo temas e situações. De toda forma, o ponto, aqui, parece ser mostrar uma juventude sonhadora, que está inquieta com o futuro incerto, mas, por outro lado, talvez não compreendam exatamente o que querem. Yun-ju parece desejar ser professor a todo custo e Hyn-nam diz querer fazer hiking nas montanhas. Mas será que é isso mesmo ou será que eles apenas estão seguindo caprichos ou determinismos estabelecidos pela sociedade?

A própria vida de casado de Yun-ju é posta à prova. Não há qualquer contextualização pregressa que nos permita concluir isso ou aquilo sobre os dois, mas é perfeitamente visível a separação que existe ali, mesmo com o bebê chegando. Há uma certa frieza, mas não exatamente negativa e sim no estilo “vida como ela é” que rege o relacionamento dos dois, com o roteiro salpicando bons momentos de humor, muitos deles girando ao redor de nozes. O mesmo vale para Hyn-nam, quase que 100% do tempo com um olhar aéreo e perdido, que vive a vida profissional (se é que essa classificação é correta aqui) completamente no automático, só encontrando alguma força de vontade quando está com sua amiga. Seria um retrato da juventude sul-coreana apenas, ou talvez mundial?

E, perpassando tudo isso, há o tipo de crítica social relacionada ao conflito de classes que Bong Joon Ho exploraria mais diretamente primeiro em Expresso do Amanhã e, depois, mais com os pés no chão, em Parasita. Isso se dá não só na (des)esperança dos jovens diante de um mundo sufocante – a simples fotografia amarelada que captura o gigantesco prédio de apartamentos como um estrutura sufocante é de se tirar o chapéu -, como também e mais diretamente com o zelador do referido prédio, que gosta de fazer… hummm… refogados no subsolo, como também o mendigo (não estou muito preocupado se esse termo não é mais politicamente correto…) que vive por ali, algo que, aliás, parece ser a semente estrutural longínqua do que o mundo veria no premiado Parasita.

Cão Que Ladra Não Morde é um excelente começo de carreira (em longas) para Bong Joon Ho que já destaca sua abordagem personalíssima e peculiar de temas universais. Há que se ter estômago para conseguir quebrar a barreira da ojeriza inicial causada pela premissa, mas o filme paga generosos dividendos, mesmo que não saiba ser econômico quando precisa.

Cão Que Ladra Não Morde (Flandersui Gae, Coréia do Sul – 2000)
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho, Ji-ho Song, Derek Son Tae-woong
Elenco: Sung-Jae Lee, Doona Bae, Ho-jung Kim, Hee-Bong Byun, Su-hee Go, Roe-ha Kim, Gin-goo Kim, Sang-soo Im, Jeong-seon Seong
Duração: 110 min.