Bill Reinhold

Crítica | Terra X

É muito interessante ter tido a experiência da leitura de Terra X quando de seu lançamento entre 1999 e 2000 e da releitura, agora, para a elaboração da presente crítica. E a razão é muito simples: a criação de Alex Ross (em uma entrevista para a Wizard que esgotou-se rapidamente) que foi desenvolvida por Jim Krueger, com arte de John Paul Leon pode ser vista, em retrospecto, como um grande repositório de ideias que seriam garimpadas e aproveitadas pela Marvel Comics nos 20 anos seguintes, quase que literalmente servindo de base para toda a origem reimaginada de seu universo em quadrinhos.

Mas não se enganem, pois Terra X, assim como suas continuações Universo X (2000 e 2001) e Paraíso X (2002 e 2003), além do prelúdio Marvels X, de 2020, não se passa no universo principal da editora, o dito Terra-616, mas sim no alternativo Terra-9997, ainda que o leitor moderno verá que muita coisa – mas muita coisa mesmo – foi aproveitada no universo principal, do casamento do rei T’Challa com Ororo Munroe, passando pelo Vigia cego, pela Névoa Terrígena sendo espalhada sobre o planeta e pelo Thor mulher, e chegando até a semente Celestial que é base para a narrativa e que explica a grande quantidade de seres poderosos que existem por aqui, o que automaticamente deixa evidente a importância dessa maxissérie em 15 edições para as engrenagens marvelianas. É como se Ross e Krueger tivessem criado um baú do tesouro (seria o X uma indicação sub-reptícia disso?) para ser escavado e suas riquezas usadas como alimento narrativo por décadas a fio, algo raro de se ver por aí mesmo em editoras mainstream.

Mas Terra X, apesar de inestimável, não é sem problemas e o maior deles, inseparável dos comentários críticos como um todo, é ter uma história que, apesar de extremamente ambiciosa, talvez se mostre “simples” demais para justificar mais de 400 páginas para ser desenvolvida. Notem, por favor, as aspas, pois simples talvez não seja o adjetivo correto. A questão é que o leitor moderno, justamente por já ter acompanhado o desenvolvimento do Universo Marvel nas últimas duas décadas, terá uma enorme facilidade em capturar os conceitos trazidos pela série que bebem de maneira generosa de Os Eternos, de Jack Kirby, série mensal que só teve 19 números entre 1977 e 1978, mas que também trouxe uma vastidão de ideias interessantes, mas mal utilizadas por lá.

Nesse futuro distópico de Terra X, Aaron Stack, o Homem-Máquina (não coincidentemente criado por Kirby na mensal spin-off de sua adaptação de 2001 – Uma Odisseia no Espaço), é teletransportado até a área azul da Lua por Uatu, o Vigia de nosso planeta (também uma co-criação de Kirby) que, como descobrimos, foi cegado por um alguém misterioso há 20 anos e que por todo esse tempo não consegue mais observar a Terra. Estripado de todos os traços físicos de sua humanidade, Stack é, então, transformado por Uatu no novo Vigia e, a partir de suas observações e diálogos com Uatu, o leitor começa a também observar o planeta e a entender o que aconteceu nesse tempo em que não só os heróis, mas toda a população passou a ter super-poderes.

Esse ponto-de-vista narrativo é o grande achado de Krueger, pois permite que diversas linhas narrativas convergentes sejam analisadas quase que simultaneamente, trabalhando não só personagens bem estabelecidos no cânone da editora – notadamente o Capitão América, Reed Richards e Tony Stark – como introduzindo uma pletora de outros, como a nova versão imortal do Demolidor (ou seria o Deadpool?), uma fusão de May Parker com Venom, os Vingadores de Ferro e um poderosíssimo jovem telepata que se autodenomina Caveira e usa como símbolo uma caveira vermelha, automaticamente transformando-o no grande vilão “mundano” da narrativa, em oposição direta a Steve Rogers, claro. E isso sem contar com as diversas versões alteradas dos heróis que conhecemos, com o Pantera Negra com cabeça de pantera, Namor com metade do corpo em eterna incandescência e assim por diante, tudo com as devidas explicações.

No entanto, são essas “devidas explicações”, normalmente fruto das conclusões de Aaron Stack ao tornar-se o novo Vigia, que pecam pelo didatismo extremo. O que começa como um mistério trancafiado a sete chaves vai sendo lentamente aberto e, quando as portas são escancaradas lá pela metade da história, o leitor acaba sendo tragado para um esmiuçamento detalhado demais e, talvez, redundante demais de tudo o que foi visto antes, em um eterno movimento de cachorro correndo atrás do rabo que cansa um pouco. Sim, Krueger faz de tudo para “renovar” a história, alterando as pessoas com quem Stack conversa e incluindo personagens B como John Jonah III, filho de JJJ, astronauta e lobisomem e figurões como Reed Richards, agora usando a armadura do Doutor Destino e culpando-se por todos os males do mundo, mas esse esforço, apesar de ter grande mérito, não altera o fato de que o roteiro dá voltas demais para chegar a um ponto que fica muito claro já na metade do caminho. De toda forma, é importante ler os “apêndices” de cada edição, já que neles muitas revelações são feitas, além de alguns resumos interessantes para quem porventura sentir-se perdido.

O lápis de John Paul Leon, casado com a arte-final de Bill Reinhold e as cores de Matt Hollingsworth emprestam um ar sóbrio e sombrio à narrativa, algo que combina sobremaneira com a pegada quase niilista da história que vai sendo desenvolvida na medida em que Stack passa a entender o jogo cósmico em que a Terra está envolvida. É alvissareiro notar que a equipe artística não caminhou pela estrada mais fácil de visuais coloridos e vistosos somente para chamar atenção e sim trafegou por um lado que muitas vezes chega a ser até desagradável, como  é a própria versão “transparente” do Homem-Máquina ou a forma como o Vigia é abordado. Por outro lado, Leon, com seus traços simples, mas fortes, soube reimaginar todos os grandes heróis clássicos da editora, trazendo novas versões interessantíssimas, especialmente nos casos de Steve Rogers, Reed Richards, Tony Stark e Peter Parker. Minha única ressalva é um pouco da preguiça em simplesmente transformar alguns personagens em seus avatares animais, como é o caso de T’Challa ser agora uma pantera ou JJJ ser um cavalo (he, he, he…), mas não é nada grave.

Terra X é como a Teoria de Tudo materializada nos quadrinhos: consegue, em um esforço hercúleo, recontar e unificar o Universo Marvel em uma história coesa que explica tudo, mas que, porém, peca por mastigar demais seus conceitos. É, sem dúvida alguma, um tesouro marveliano que merece ser revisitado de tempos em tempos, mesmo que seu tamanho seja assustador e mesmo que todas as suas grandes ideias já tenham sido aproveitadas pelo Universo Marvel ao longo de todo esse tempo.

Terra X (Earth X, EUA – 1999/2000)
Contendo:
Earth X #0 a 12, Earth X #X e Earth X #1/2
Roteiro: Jim Krueger (baseado em criação de Alex Ross)
Arte: John Paul Leon
Arte-final: Bill Reinhold
Cores: Matt Hollingsworth
Letras: Todd Klein
Capas: Alex Ross
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: março de 1999 a junho de 2000
Editora no Brasil: Panini Comics
Datas de publicação no Brasil: outubro de 2009 e agosto de 2017
Páginas: 403