Betty Gilpin

Crítica | Coffee & Kareem

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Comédia é um gênero complicado. Mais do que qualquer outro gênero ou tipo específico de filme — incluindo aqui aqueles terrores que desafiam a cada segundo a nossa suspensão da descrença; os dramas com 9 mil símbolos a cada segundo e até aqueles pseudo-políticos de finais abertos que trazem à toda todas a viagens de ácido do público afetado por esse tipo de produção –, as comédias dependem de um conjunto maior de elementos para funcionar e, por mais intensa, dura e agressiva que seja, se não tiver a delicadeza de saber onde aparecer, o que ocultar e que botões apertar, a obra se tornará uma tentativa desesperada pelo riso, o que torna o produto patético. Coffee & Kareem (2020) pende para esse lado da corda.

O diretor Michael Dowse dirigiu um filme bastante similar na safra anterior, Stuber: A Corrida Maluca (2019), cuja fórmula é trocada aqui para uma dinâmica que quase todo mundo gosta: um adulto (normalmente um homem) tentando estreitar laços e convencer uma criança ou adolescente a fazer alguma coisa, na maioria das vezes… apenas conviver civilizadamente. A temática é antiga e faz o público rir disso no cinema pelo menos desde Shirley Temple! Assim, a primeira coisa a se considerar no longa é o fato de que estamos em um território onde pelo menos alguma coisa, nem que seja isoladamente, terá um bom princípio narrativo.

Um policial branco chamado — wait for it… — Coffee (Ed Helms, que continua sem graça) está namorando uma mulher negra chamada Vanessa (Taraji P. Henson) e é com o filho dessa mulher, Kareem (Terrence Little Gardenhigh), que o roteiro fixa a briga que sustenta o filme, numa relação “pai-e-filho” dentro de uma comédia de ação, tendo o mundo dos policiais corruptos como agravador do problema. Como comentei antes, ao menos a premissa dessa relação funciona, e em parte o comportamento dos personagens é ao menos capaz de ensaiar ou gerar algumas risadas na primeira parte do filme. Com piadas que vão do exagero puro e simples do comportamento de uma criança negra da periferia até curiosas incursões no politicamente incorreto, o texto logra um bom empurrão inicial para a ação, somando aí a apresentação soberba da Detetive Watts (Betty Gilpin), disparadamente a melhor personagem do filme, exceto pelo final, onde nada é bom.

O problema é que o mesmo texto que começa a construir algo cheio de possibilidades simplesmente se perde naquilo que ele quer retratar. De repente, o filme não é mais sobre a relação “pai-e-filho” e nem sobre a postura molenga de Coffee na Corporação. Passamos para um plot mais intricado, onde uma porção de esquetes sobre o tráfico e depois sobre policiais corruptos e depois ainda voltando para o relacionamento de Coffee e Vanessa acabam ganhando destaque. Nessa abertura enorme de janelas, os personagens vão perdendo suas melhores características e, como é de praxe em comédias onde isso ocorre, se tornam forçados e completamente desagradáveis. O enxugamento da qualidade dos personagens é tamanho, que até a Detetive Watts termina o filme com uma representação ridícula de seu comportamento,  o que acaba não fazendo nenhum sentido para a personagem, que foi construída como uma mulher muito inteligente.

Perdido o foco e esvaziadas as personagens, pouco sobra de verdadeiramente chamativo na fita. O que temos, no todo, é uma boa promessa, uma boa condução da direção nas cenas mais ágeis, uma presença aplaudível de Betty Gilpin e algumas poucas cenas boas antes da reta final. Não é um filme absolutamente dispensável, mas para ser sincero não é um filme que eu indicaria. Para quem quer algo engraçado e ligado ao mundo do crime, tem produção recente e de qualidade sobre isso acessível a todos (alô alô Magnatas do Crime!). Pensando pelo lado positivo, é até bom que seja assim, porque aí já evita que isso vire mais uma franquia ligada ao mundo de policiais unidos a um civil fora da curva. Mas não dá realmente pra duvidar que tentem fazer. Coitados de nós.

Coffee & Kareem (EUA, 2020)
Direção: Michael Dowse
Roteiro: Shane Mack
Elenco: Ed Helms, Taraji P. Henson, Terrence Little Gardenhigh, Betty Gilpin, RonReaco Lee, David Alan Grier, Andrew Bachelor, William ‘Big Sleeps’ Stewart, Serge Houde, Eduard Witzke, Chance Hurstfield, Diana Bang, Erik McNamee, Samantha Cole, Terry Chen
Duração: 88 min.

Crítica | The Hunt (2020)

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Atenção atenção lacradores de todo o mundo! Denunciadores de lacadores de todo o mundo! Direitistas e esquerdistas! Politicamente corretos e incorretos! Que tal caírem na porrada, empunharem armas e… vence quem conseguir sair vivo no final?“. Pois esta deveria ser a sinopse oficial de The Hunt (2020), filme de Craig Zobel, escrito por Nick Cuse e Damon Lindelof (recém-saídos de Watchmen) e que dentre muitas outras coisas, coloca representantes de espectros de pensamento político e de práticas sociais distintas para literalmente lutarem por suas vidas.

A trama significa várias coisas, mas não há absolutamente nada de profundo no enredo, de modo que levar muito a sério a chacota que os roteiristas claramente estão fazendo com toda a gente é produto de mente sandia. Ao mesclar uma porção de ingredientes do horror à dinâmica básica dos filmes de ação, os responsáveis pela obra nos colocam em uma “luta pela vida” que passa a ter um outro significado quando aparece um casal casal no posto de gasolina e joga na cara do espectador uma coleção de frases feitas, defesas de causas e contrariedades em opiniões polêmicas, tudo para efeito simples de ser louco e pseudo-engajado num filme que só quer rir da cara de extremistas e chatos-teóricos-de-todas-as-coisas.

Esse é o tipo de obra que consegue enganar os briguentos por causas nulas. “Ah, mas porque a mensagem…“. Calma aí, que mensagem? Comédias cínicas — especialmente as que brincam com realidade política — tendem a expor um caldeirão de ideias e, em torno delas, colocar os personagens agindo, não necessariamente defendendo algo. Se vocês prestarem bem atenção no final do filme, entenderão que, para começo de conversa, o grande evento da caçada sequer poderia ter existido e a casca supostamente “democrata” dele é o escracho hilário em torno de situações absolutamente reais, mas não colocadas dentro dos contextos corretos. Pegaram a ironia? Pode-se encontrar aí crítica ao “exagero ideológico“, crítica à “postura beligerante” de certos grupos ou “crítica aos extremismos“, mas na real, o filme só está se divertindo em cima da insanidade de algumas pessoas: aqueles que querem levar às últimas consequências as coisas mais banais possíveis… ou aqueles que querem inventar um problema humanitário diferente para cada nova ação daquele que está ao lado.

No todo, The Hunt é uma divertida caçada de gente podre que se acha “gente boa” a um bando de gente podre que se acha “gente boa“. É no exagero, nas piscadelas militarizantes das hilárias e rápidas mortes que vemos no início (Emma Roberts e Justin Hartley foram os melhores!) que o texto constrói a sua zombaria a tudo e a todos, não necessariamente às ideias desses indivíduos, mas à contradição dessas ideias com o mundo à sua volta e à própria hipocrisia dessas pessoas quando confrontadas com situações de crise. A trilha sonora também faz parte da brincadeira, porque cria uma atmosfera clássica e ponderada para uma moderna luta mortal que começa sem motivo e termina com um erro cometido por ego ferido e uma vontade patológica de vingança. Em suma, é uma metáfora empírica para qualquer briga de internet que já vimos ou já tivemos.

Embora engaje de forma inteligente o público, The Hunt peca porque fica apenas na casca mesmo, até na maneira como dá sentido às duas mulheres mais poderosas da obra, maravilhosamente interpretadas por Betty Gilpin (minha favorita) e Hilary Swank. É até possível aceitar o desenvolvimento do filme mantido à base de tiro, porrada e bomba, desde que o destino final da narrativa quisesse chegar em algum lugar tão prático quanto caçada que representou, não apenas na sugestão ou interpretação que joga para o público. Se unirmos o escrupuloso início do filme (um dos meus momentos favoritos da direção de fotografia, junto com a cena do bunker e a da cozinha) com o flashback, entendemos que existe sim um “sentido geral” pretendido pelos roteiristas, mas esse sentido é enfraquecido ao máximo no final. Nem os diálogos rasos e a frequente estupidez de alguns personagens (escolhas propositais, mas cuja repetição enerva um pouco) conseguem frustrar tanto.

A esse despeito, porém, a vitória da Bola de Neve é uma última excelente sacada dos autores. Agora só falta alguém vir aqui comentar que o roteiro é pró-Sanders por causa disso. E claro, dizer que o filme, seus criadores e o crítico que deu 3,5 para a obra são “lacradores” (viu, Laklasteh?). É como eu sempre digo (e como The Hunt deixa bem claro para quem quiser ver): ninguém tem o monopólio da babaquice.

The Hunt (2020) — EUA, 2020
Direção: Craig Zobel
Roteiro: Nick Cuse, Damon Lindelof
Elenco: Betty Gilpin, Hilary Swank, Ike Barinholtz, Wayne Duvall, Ethan Suplee, Emma Roberts, Christopher Berry, Sturgill Simpson, Kate Nowlin, Amy Madigan, Reed Birney, Glenn Howerton, Steve Coulter, Dean J. West, Vince Pisani, Teri Wyble, Steve Mokate, Sylvia Grace Crim, Jason Kirkpatrick, Macon Blair, J.C. MacKenzie, Justin Hartley
Duração: 90 min.

Crítica | O Grito (2020)

Envolto em especulações e tratado como “o reboot que ninguém pediu”, O Grito é a nova versão da maldição japonesa transformada em narrativa estadunidense. Ao organizar a agenda para conferir a produção, um dos mecanismos mais comuns do crítico de cinema diante deste tipo de abordagem renovadora da indústria cultural é acionar o sensor “viu que eu disse?”, isto é, “aquele” botão que reafirma a nossa convicção acerca do fracasso retumbante diante de algo que não acreditamos que seja possível dar certo. A atmosfera amaldiçoada de O Grito nos permite isso. A primeira refilmagem chegou em 2004 e ganhou duas continuações. O seu “impacto” cultural é relativamente recente e com ampla possibilidade de alcance para as gerações mais recentes. O universo de Samara Morgan, em 2017, ganhou continuação e fracassou grandiosamente, sem conseguir captar o clima tecnológico mais contemporâneo.

Diante de tantas possibilidades para dar errado, por qual motivo Sam Raimi se interessou em reiniciar a história que contou há menos de 20 anos? Será que o filme vai se apresentar como uma história sem razão de existir, enfraquecida por causa de tantos investimentos dentro de uma mitologia considera já esgotada? São muitas as perguntas, mas todas com a sua devida resposta. Primeiro, preciso reforçar que diferente do esperado pelo tal sensor crítico, O Grito não é um filme descartável, nulo, sem sentido. Ao contrário, a versão mais atual acrescenta alguns elementos não trabalhados na versão de 2004 e brinca com as expectativas do cinéfilo que vai para a sessão em busca dos problemas para reiterar a ineficácia esperada diante da produção, principalmente em sua falsa caminhada para o hollywoodiano final feliz esperado depois que uma maldição é supostamente aniquilada.

Com subtexto ainda voltado ao esfacelamento da família pós-moderna, o que podemos observar e nos responder diante dos questionamentos sobre o retorno de Sam Raimi como produtor desta versão em 2020 é a rentabilidade deste tipo de história, voltada para a transformação de nossos medos mais profundos em entretenimento recheado de sustos, gritos, desespero e assombrações que nos ajudam a expurgar, durante a sessão, os medos externos, gravitacionais na vida real, mais tenebrosos que qualquer representação ficcional. A mitologia, por sinal, não foi apenas esgotada pelos realizadores estadunidenses e suas continuações, mas também demasiadamente exposta pelo próprio criador japonês, Takashi Shimizu, realizador de numerosas versões da maldição. Por sinal, ao passo que o filme avança e os créditos finais se estabelecem diante do público, somos obrigados a ficar reticentes diante da ideia de um reboot.

Diferente do que geralmente se faz dentro da proposta de reinicialização, aqui temos uma nova refilmagem da história de Shimizu, cineasta responsável pelo “original”, além de ter sido importado para os Estados Unidos, tendo em vista assumir o remake de seu próprio filme, em 2004. Desta vez, Nicolas Pesce toma conta do posto de diretor, dando para a narrativa um clima ainda mais claustrofóbico. Ainda assim, aposto na ideia de remake, apesar das fronteiras tênues com a ideia de reboot. Os realizadores apostam na concentração da história nos Estados Unidos, com desdobramentos trágicos para todas as pessoas que infelizmente se debatem com a maldição. O fogo, mais uma vez, surge como elemento escolhido para o cancelamento do rastro de horror, com personagens envolvidos numa assombração oriunda de um momento tomado por profundo ódio e rancor. As idas e vindas entre passado e presente são constantes, com ligações mais explicativas que a versão de 2004, um pouco mais ousada neste aspecto.

Esclarecido tais aspectos, volto ao questionamento do sensor. Somos obrigados, por conta das experiências com outros universos narrativas, a acreditar que O Grito será um filme catastrófico, mas o resultado não é bem esse, apesar das críticas negativas e das opiniões de muitos cinéfilos e consumidores de entretenimento. O protagonismo desta vez não é charmoso como na trama de 2004, a edição didática próximo ao desfecho colabora com a nossa descrença num cinema que permita ao público agir mais ativamente diante das história que consome e o uso de jumpscare, em alguns momentos, atrapalha a fruição de uma sensação de medo mais orgânica, algo que no entanto pode ser considerado mínimo se comparado ao que é feito no cinema contemporâneo de terror. Nem por isso, podemos considerar a experiência descartável. É na verdade um filme que não se justifica enquanto “novidade”, mas que funciona dentro de sua própria proposta consciente da retomada de uma abordagem já conhecida por boa parte de seu público-alvo.

Vamos, assim, para a história. Adiante retomamos as questões estéticas e contextuais da produção. Com direção do já citado Nicolas Pesce, cineasta guiado pelo roteiro escrito numa parceria com o argumento proposto por Jeff Buhler, O Grito nos apresenta as histórias cruzadas de pessoas envolvidas na maldição que envolve uma casa na rua Campos, 44. Em tempos como o nosso, com vírus viajantes diante de nossa perspectiva global, a maldição alegoriza um contágio, mas numa perspectiva sobrenatural. O acometido não precisa necessariamente ter feito nada de errado, como na cartilha moralista slasher, que dizima os jovens que fazem sexo e usam drogas, ou então, em filmes de possessão, tramas com pessoas tomadas por espíritos malignos depois de brincar erroneamente com algum tabuleiro ouija. Sem poupar qualquer um que tenha se envolvido na maldição, direta ou indiretamente, a assombração da trama é agressiva e não abre espaço para talismãs, rezas e escapatória.

É a própria representação do horror diante do que é inevitável. São vidas com destino já selado, tal como as curvas dramáticas da tragédia clássica. É nessa perspectiva que acompanhamos a Detetive Muldoon (Andrea Riseborough), mãe e esposa em luto, pois o marido morreu por causa de um câncer, há pouco tempo, algo em torno dos três meses. Ela retorna ao trabalho e logo em sua primeira semana participa da investigação de um caso que parece conectado com outra história predecessora, interpretada pelo Detetive Goodman (Démian Bichir), um homem fechado em torno de si, grosseiro, pouco compreensivo e que parece temer qualquer assunto que tenha a ver com a tal investigação do passado recente, algo que levou o seu parceiro para uma trajetória de loucura e horror que depois saberemos ser fruto da maldição em questão, ceifadora do destino de todos. Intrigada, principalmente pelo fato de necessitar de algum sentido adicional em sua vida sofrida, Muldoon se envolve cada vez mais com os acontecimentos em torno da tal casa, ponto catalisador de todo o mal que toma o filme.

O seu mergulho profundo nos impede de acreditar que haverá escapatória. Em sua pesquisa insistente, Muldoon descobre a tragédia que aconteceu no passado de um casal à espera de um filho, conectado pela casa, com a história de Fiona Landers (Tara Westwood), aparentemente a “paciente zero” estadunidense, pois o filme nos leva a crer que ela tenha sido a contagiada que ao chegar de Tóquio, trouxe consigo a maldição “Ju-On”, explicada de maneira muito breve lá pelo meio da narrativa. Sem a presença do pálido Toshio, desta vez, temos a pequena Melinda (Zoe Fish), garota porta-voz da assombração que vem acompanhada de sua falecida mãe. Além de Fiona Landers, o casal Spencer (interpretado por John Cho e Betty Gilpin) e dos policiais que centralizam a história, ainda temos Faith Matheson (Lin Shaye) e William Matheson (Frank Faison), casal atendido por Lorna Moody (Jacki Weaver), especialista em suicídio assistido, chamada para intervir na vida da Sra. Matheson, doente e em fase terminal. Conectados entre si, os personagens têm em comum a tal maldição, adquirida pelo contato com a casa.

Com essa proposta, O Grito nos entrega uma narrativa que segue de maneira eficiente todos os trâmites burocráticos exigidos num filme de terror contemporâneo, esquematizado dentro do sistema industrial com financiamentos que não permitem falhas de ordem estética. Na direção de fotografia, Zack Galler consegue dialogar bem com o design de produção repleto de sépia e tons claros, assinado por Jean-Andre Carriere. Há bastante contraste com os ambientes escuros, em simbiose com o emprego de “alguma” profundidade de campo, responsável por representar as ameaças constantes. Os movimentos são sempre em prol da promoção de sustos, alguns baratos, outros mais sofisticados, elaborados numa parceria também eficiente entre o design de som e os efeitos visuais, ambos assinados por Bryan Parker e Matt Hansen, respectivamente. Não podemos deixar de destacar a maquiagem da equipe de Brenda Magalas, um dos pontos altos neste tipo de filme, setor geralmente desconsiderado diante das nossas preocupações de ordem dramática. Os figurinos de Patricia J. Henderson cumprem a missão de revestir os personagens em seus perfis físicos, sociais e psicológicos, a circular pelos cenários de adornados pela direção de arte assinada por Bruce Cook, igualmente eficiente.

A trilha sonora é assinada pela dupla The Newton Brothers, num trabalho de composição também dedicado, diferente do que se tem feito no campo do terror atualmente. Eles conseguem climatizar a narrativa com alguns toques entre materiais orgânicos e produção eletrônica. Ademais, num retorno ao que foi dito sobre a ideia de reboot, não de remake, cabe ressaltar que O Grito dedica os seus créditos a Nicolas Pesce e Jeff Buhler, inspirados por Takashi Shimizu. Se esse for o caso, o nome de Stephen Susco, roteirista da refilmagem de 2004, deveria estar no filme, não é mesmo? Desta forma, a produção não reinicia o universo dos três filmes, mas recria o japonês Ju-On – O Grito, de Shimizu, numa segunda reprodução, após 16 anos da primeira iniciativa. E, em seu processo criativo, os realizadores continuam no investimento acerca dos problemas que gravitam em torno das famílias contemporâneas, orientais ou ocidentais, tomadas pelos novos modelos sociais, pela violência masculina representada no assassinato da figura de uma matriarca, história transformada em conto folclórico e que serve de alegoria para nos fazer refletir o lugar da mulher dentro do cenário político e social atual. O filme pode até não agradar unanimemente, mas o subtexto em questão é inegável e está lá, basta observar atentamente.

O Grito (The Grudge) — Estados Unidos, 2020
Direção: Nicolas Pesce
Roteiro: Jeff Buhler, Nicolas Pesce, Takashi Shimizu
Elenco: Andrea Riseborough, Betty Gilpin, Bradley Sawatzky, David Lawrence Brown, Demián Bichir, Ernesto Griffith, Frankie Faison, Jacki Weaver, Jim Kirby, Joel Marsh Garland, John Cho, Lin Shaye, Nancy Sorel, Robert Kostyra, Robin Ruel, Stefanie Sherk, Stephanie Sy, Tara Westwood, William Sadler, Zoe Fish
Duração: 94 min.