Batman

Crítica | Superman: Red Son (Entre a Foice e o Martelo)

Bem… esta animação não é exatamente uma adaptação. É uma versão aproximada da excelente minissérie Entre a Foice e o Martelo (2003), um elseworld da DC que gerou muita expectativa quando foi anunciada a sua transposição para as telas, mas que nos trouxe, como base narrativa, a recriação da birra política típica do início da Guerra Fria. E pra começar, vai a pergunta nevrálgica de tudo isso: por que diabos os produtores convidaram J.M. DeMatteis para escrever o roteiro de uma animação com esse tema?

A linha central do texto, claro, apega-se ao original, embora sem muitos detalhes de origem. A cápsula de Krypton cai na União Soviética e é lá que cresce Somishka, o garoto que se tornaria o Superman. Acompanhamos a trama a partir de 1946, numa cena que em moral e sentimento, serve para introduzir alguns conceitos curiosos para o protagonista, ideias retomadas pelo roteirista na parte final da história, quando ele é confrontado com seus métodos políticos dentro do espectro ditatorial.

Sim, a abordagem de DeMatteis é cultural e politicamente esperada, mas é curioso o quanto ele ensaia algumas saídas da dicotomia comunismo X capitalismo, o quanto reflete alguns interessantes problemas atuais na forma como explora certos momentos (a construção do Muro de Berlim, a revelação de Diana sobre sua sexualidade e toda a ideia de “alien”, claramente refletindo sobre a xenofobia), mas a essência do roteiro nega muita coisa do original — que também tem suas falhas, mas funciona muito bem no todo –, especialmente na forma de amarrar as questões políticas com as questões super-heroicas. E é aí que o negócio de “mocinhos individualistas e bandidos coletivistas” termina por minar a força da história, reduzindo-a à um briguinha anacrônica dos tempos pré-1991.

O ato que tem uma melhor exposição dos temas políticos aliado ao desenvolvimento dos personagens (Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Luthor, Lanternas Verdades) é o que mostra a estabilização das grandes conquistas do Império Soviético nessa realidade alternativa e a discussão sobre os métodos que o Super-Comunista utilizou para chegar aí. Como discute-se posteriormente, seu caminho é diferente do de Stálin, mas o peso de sua mão e a forma como lida com as dissidências políticas termina no mesmo balaio, só que com um resultado não letal — o que acaba sendo relativo, já que lavagem cerebral é também um tipo de morte, visto que se tira a liberdade de escolha, pensamento e ação livre do indivíduo. Vejam o tanto de premissa interessante para o roteiro fincar os pés e criar um poderoso conflito, não só político, mas também heroico, com o aproveitamento máximo dos principais personagens em cena. Infelizmente, isso acontece bem pouco na história.

O confronto com o Batman foi o mais frustrante de todos. Os diálogos, a luta, o caminho para o desfecho, tudo isso é ruim nessa sequência. Para não dizer que não sobra nada, salvam-se o uso de cores para o covil (o que não é lá um grande elogio, já que tudo é mergulhado em vermelho e a arte ali precisava ser simples, porque estamos falando de um esconderijo) e a dublagem, que é decente em toda animação, especialmente de Jason Isaacs, como Superman, mas ainda assim não há nada memorável. A mesma coisa se repete no derradeiro bloco, com um pouquinho mais de ânimo da direção (é, Sam Liu…) na oposição entre Brainiac, Super e Luthor, mas no fim parece que falta alguma coisa. O espectador espera uma continuação mais fluída para a batalha, um complemento mais impactante de uma sequência de diálogos ou mesmo uma ponte interessante (até emotiva, por que não?) entre o momento de crise e a partida do Superman com a nave do Coluano, mas não temos nada disso. O diretor nos dá de “presente” uma memória afetiva narrada em off, fazendo o Super-Vermelho lembrar-se de seus valores… Mais anticlimático impossível.

Argumentos de que adaptar obras de cunho político é difícil, especialmente nesse mundo dos super-heróis, são válidos, mas isso não significa que o roteiro não poderia ser bom, não poderia criar o conflito com uma base forte de desenvolvimento nos dois lados da moeda em vez de reafirmar o velho ping pong da Grande América, mãe da liberdade, justiça e da glória financeiras. Especialmente porque isso fica parecendo discussão de samambaia em rede social, transportada para a tela, começando no fanboyzismo e não chegando a lugar nenhum além de sua própria ideia. É o tipo de exposição narcísica de uma temática que torna tudo chato, já que o espectador se dá conta de que até os conflitos que pareciam legais no começo servem à logica nós X eles e não à lógica do “isso vai ser usado para contar uma boa história de oposição de forças“…

Bem, é o que temos para hoje, infelizmente. E para os que gostam de dizer isso, já podem acrescentar mais uma chacotinha em sua lista pessoal: “o comunismo não funcionou nem na animação do Superman!“.

Superman: Red Son (EUA, 25 de fevereiro de 2020)
Direção: Sam Liu
Roteiro: J.M. DeMatteis (baseado na obra de Mark Millar, Dave Johnson e Kilian Plunkett)
Elenco: Jason Isaacs, Amy Acker, Diedrich Bader, Vanessa Marshall, Phil Morris, Paul Williams, Greg Chun, Phil LaMarr, Jim Meskimen, Sasha Roiz, William Salyers, Roger Craig Smith, Jason Spisak, Tara Strong, Anna Vocino, Jim Ward, Travis Willingham, Winter Ave Zoli
Duração: 84 min.

Crítica | Liga da Justiça da América #42 a 50 (1966)

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Este compilado de críticas traz abordagens para as edições #42 a 50 da revista Justice League of America Vol.1, publicadas entre fevereiro e dezembro de 1966. Você também pode conferir as críticas para as edições dos anos anteriores da equipe, como indicado na lista abaixo.

  • O Bravo e o Audaz #28 a 30 + LJA #1 (1960), LJA #2 a 8 (1961), LJA #9 a 16 (1962), LJA #17 a 24 (1963), LJA #25 a 32 (1964) e LJA #33 a 41 (1965).

NOTA: Os títulos traduzidos das edições são os mesmos utilizados pela Ebal, na revista Os Justiceiros, que a partir da edição #5 (janeiro de 1968) passou a publicar as aventuras desta fase da Liga, em forma descontinuada, como se pode perceber. Também são utilizados os títulos da revista Crise Nas Múltiplas Terras n°1 (Panini, 2008).

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LJA #42: Metamorfo Diz… Não!

Metamorpho Says — NO! — (Fevereiro de 1966)

Mais um GADO DEMAIS para a nossa coleção de “personagens gado da DC”, da qual nem o coelhinho da Família Marvel escapa… Oh, céus. Pois bem, aqui temos o Metamorpho (Rex Mason) que está indo a um encontro marcado com sua amada Sapphire Stagg e que, no meio do caminho, recebe o convite de alistamento da Liga da Justiça. E claro que a primeira desculpa que o homem elemental dá é a de que ele “não iria porque tinha um encontro marcado com o seu broto”. Durmam com essa.

O roteiro de Gardner Fox até tenta dar uma disfarçada, contornando a situação para um outro tipo de problemática, com Metamorpho dizendo que não aceitaria de verdade o convite da Liga porque não queria ficar daquele jeito para sempre e que, se ele aceitasse, estaria assumindo definitivamente sua condição atual… ou seja, bobagem pura e simples. Nem uma das duas desculpas aqui realmente funciona, e o resultado é um verdadeiro doce do herói para, no final, dizer que “seria apenas um membro eventual” do grupo. Claro, até porque a condição causada por um banho de luzes de um meteoro dentro de uma pirâmide egípcia vai passar logo logo, pode esperar sim, Sr. Metamorpho…

Nessa trama temos a primeira aparição do vilão Inimaginável, um Ser solitário que procura entrar para a Liga e fica bravo quando é rejeitado. Em certa medida, me pareceu até a história de um dos jovens malucos que se candidatavam para entrar na Legião dos Super-Heróis, com a diferença de que, mesmo com o doce do Metamorpho a trama realmente funciona bem, com boas resoluções da arte de Mike Sekowsky na forma de mostrar os ataques do Unimaginable, na diagramação das páginas e no uso visual do Metamorpho em todas as batalhas. Uma introdução não muito introdutória de mais um membro (?) da Liga da Justiça nos anos 60.

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LJA #43: As Cartas do Crime da Gangue de Espadas

The Card Crimes of the Royal Flush Gang! — (Março de 1966)

Tendo inventado um dispositivo chamado Stellaration — máquina que usa o poder astrológico das estrelas para carregar objetos com “poder estelar” e causar efeitos diferentes nas pessoas — Amos Fortune reúne seus velhos amigos de infância e cria a risível, mas inicialmente poderosa Royal Flush Gang. Assumindo o disfarce do Ás, Fortune atribui diferentes tipos de cartas aos seus companheiros e com essas cartas de baralho carregadas da tal energia Stellaration, os membros da Royal Flush Gang são capazes de desencadear inúmeros crimes e derrotar Gavião Negro, Mulher-Gavião, Flash e Mulher-Maravilha sozinhos, isso só na primeira parte da história!

Por se tratar de um personagem que a gente já conhece de outras aventuras, a saber, de A Roda do InfortúnioA Ameaça da Bomba Eléktron, a trama ganha um pouco mais de valor geral na jornada da Liga, mas só pela premissa dessa história já dá para ver que ela não se enquadra no tipo de “Tramas A” do grupo. E só o fato de Snapper ter um papel importante já diz muito sobre a qualidade do roteiro, não é mesmo? (só esperando a edição em que eu vou pagar a língua, mas tudo bem…). A ideia mística de colocar valores emocionais/comportamentais nas cartas é bem legal, mas o texto não vai verdadeiramente por esse lado, em vez disso, tenta misturar o conceito com ciência e aí embola tudo, gerando aquele tipo de revista que a gente pode até gostar de uma parte ou outra, mas no todo, é só uma trama medíocre mesmo.

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LJA #44: A Praga que Atingiu a Liga da Justiça

The Plague That Struck the Justice League! — (Maio de 1966)

A ameaça dessa história já começa de forma interessante, com Batman, Flash, Lanterna Verde e Eléktron em tamanho gigantesco, com uma tal “praga” que pode colocar todos no caminho da morte. Em dado momento eles são contatados por um alienígena chamado Dr. Benderoin, que lhes diz que foram infectados por um vírus que mata em 10 horas e que qualquer pessoa eles tiveram contato também foram infectados. Benderoin diz aos heróis que é devido à sua exposição ao Inimaginável. A Liga até pede ajuda ao Metamorpho (numa cena curta, que começa no nada e termina em lugar nenhum), mas Benderoin insiste que ele não pode curar os outros heróis dessa vez, pois seus átomos exauriram o valor terapêutico quando curaram o próprio Metamorpho.

O plano geral do vilão aqui é o que de melhor essa revista tem. Claro que o leitor está diante de uma linha de eventos que pode ser chatinha no começo, mas à medida que o enredo avança, começamos a ficar mais interessados pelo que acontece, e o texto sabe aproveitar bem dois grupos diferentes de heróis agindo com diferentes intenções sem saber que estão sendo manipulados. Uma das “histórias de subterfúgio” que cresce bastante em valor na parte final. Mas uma coisa precisa ser dita: eu dei a maior gargalhada quando o alien diz que todos os membros da Liga infectados vão causar a morte de quem eles tocaram, e todo mundo se lembra de seu par romântico e o Batman lembra do Robin… É realmente engraçado. O que não é tão engraçado assim é que pela segunda edição seguida, a Mulher-Maravilha é colocada para costurar e literalmente fazer roupa…

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LJA #45: A Grande Luta Contra Shaggy Man

The Super-Struggle Against Shaggy Man! — (Junho de 1966)

O ponto de partida dessa história já é torto, com diversas cartas endereçadas à Liga da Justiça e que foram perdidas após um acidente de avião. Aqui vemos essas missivas serem entregues — estavam numa caixa resistente! — a Snapper, que as leva aos os membros da JLA (Batman, Flash, Mulher Maravilha, Arqueiro Verde, Eléktron e Gavião Negro). O tema de duas cartas serve como ponto de partida para o drama da edição, que coloca os heróis investigando (depois de dois anos!) os pedidos de ajuda. Pois é. Eu disse que começava torto… O pior de tudo é a absurda conveniência das duas cartas abertas serem para “emergências” que os envolvidos são homens da ciência e que, ora ora ora, conseguiram lidar, a seu modo, com o problema em questão. Tendo essa situação desde o início, fica difícil se apegar à história a partir daí.

A Liga se divide em dois times (Lanterna e Superman estão em missões fora) e pelo menos nessa dinâmica o roteiro consegue um bom resultado, especialmente com o Flash indo de um lado para o outro e buscando interessantes soluções para o problema dos dois times. Bom… ao menos em teoria. Porque essa resolução termina com o tal Shaggy Man (que nome horrível, meu Deus) lutando contra um bicho que seria parte de uma “segunda Lua da Terra“. Uma pequena confusão que não é impossível de se entender a lógica, mas seria melhor se o problema de fato se resolvesse. E não é o que ocorre aqui. A “solução” que a Liga encontra abre as portas para os vilões saírem de sua prisão na ocorrência de qualquer coisinha um pouco fora do comum, como sempre acontece nesse Universo…

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LJA #46 e 47: Crise entre a Terra-1 e a Terra-2 / Ponte Entre as Duas Terras

Crisis Between Earth-One and Earth-Two / The Bridge Between Earths — (Agosto/Setembro)

Tem histórias em que realmente não dá para entender a cabeça de Gardner Fox. Neste arco que traz o já tradicional encontro anual entre os heróis da Liga da Justiça e da Sociedade da Justiça (ou seja, o crossover entre Terra-1 e Terra-2), temos um começo de história fantástico, cheio de bos acontecimentos — até as bizarrices que o autor coloca são charmosas, fazem parte daquilo que esperamos de uma história da Liga nos anos 60. É estabelecido que uma força estranha está fazendo com que pessoas na Terra-1 e Terra-2 troquem de lugar. Enquanto Dr. Meia-Noite e Canário Negro são transportados para a Terra-1, Batman se vê transportado para a Terra-2. Para piorar a situação, o Espectro é atraído pelo Homem de Anti-Matéria, responsável por um dos grandes perigos da trama, e Solomon Grundy é libertado de sua prisão mística e transportado para a Terra-1… enquanto Arrasa-Quarteirão se liberta da Fundação Alfred e se vê transportado para a Terra-2. É definitivamente muita coisa acontecendo. Mas a história no começo é divertida e vale a pena essa grande quantidade de acontecimentos ao mesmo tempo.

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Ao longo de toda a primeira edição estamos realmente diante de um drama de investigação e porradaria entre heróis e vilões. Mesmo com diversos outros perigos cercando os heróis, a ideia de pessoas indo de uma Terra para outra é bem executada, tanto pela arte quanto pelo roteiro, que nos apresenta bons momentos de passagem dimensional. O problema é que talvez na ânsia de colocar mais e mais coisas relacionadas à ciência, Fox começa a piorar o roteiro, que decai imensamente quando dá atenção demais para os brutamontes (Grundy e Blockbuster).

Depois de um tempo impossibilitado de “ver além dos olhos”, o Senhor Destino acaba sendo avisado de que tem algo errado acontecendo (o alien de antimatéria) e transporta os membros da JLA e da JSA para o espaço entre dois mundos, onde a principal e mais absurda batalha do arco acontece. Tem resoluções nessa sequência que simplesmente não dá para aceitar. E enquanto a gente vê a Canário Negro enrolando seus cabelos (que cresceram assustadoramente) nas pernas do alien — e isso feito como se fosse uma resolução imensamente inteligente, acreditem — Eléktron entra na jogada de fato, recobrando seus poderes e vendo que o dispositivo de varredura cósmica de seu laboratório foi o catalisador que levou o Homem Anti-Matéria a tentar viajar para o Universo da matéria positiva — basicamente a semente de Crise nas Infinitas Terras. Até aqui eu ainda tinha alguma esperança de que as porradas fossem o foco e decisões divertidas fizessem parte do plano dos heróis, mas… não é isso que acontece (mais uma vez).

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Viajando para a fenda cósmica, Eléktron usa de seu conhecimento científico em conjunto com a magia do Espectro para romper a dobra do espaço, desviando o Homem Anti-Matéria de volta ao seu próprio Universo e restaurando a ordem nos dois da Terra. Só que nada disso é feito totalmente sem tropeços. A cada dois quadros com diálogos e narrações bem legais, temos seis com coisas absurdas e inaceitáveis, tornando a história extremamente irritante no final, uma diferença bem grande pra o que percebemos dela no divertido começo. Já no encerramento, o Lanterna Verde transporta Solomon Grundy e Blockbuster para a mesma Terra, onde eles ficam lutando entre si. E então o grupo de heróis chega a tempo de ver os dois pararem de brigar e se tornarem amigos (pois é…), decidindo retornar pacificamente à sua própria Terra e à custódia. A única coisa que a gente precisava aqui era do alien de antimatéria trazendo preocupações, mas como adição tivemos dois vilões que, no cômputo geral, só serviram mesmo para atrapalhar a história.

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Sobre a Edição #48

A edição #48 deste título, com data de capa de outubro de 1966, não foi uma história inédita e sim um compilado de três revistas anteriores da Liga, a saber, The Brave and the Bold #29, Justice League of America #2 e Justice League of America #3. A próxima história inédita da equipe viria na edição #49, intitulada A Ameaça do Verdadeiro ou Falso Bruxo.

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LJA #49: A Ameaça do Verdadeiro ou Falso Bruxo

Threat of the True-Or-False Sorcerer! — (Novembro de 1966)

Quem é vivo sempre aparece, não é não? Lançando um feitiço para tentar se libertar na prisão, Félix Fausto (que a Liga conhece desde Os Dedos Fantásticos de Félix Fausto) consegue algo, mas não exatamente o que queria. Em vez de uma saída para se libertar da prisão, ele cria duas duplicatas de si mesmo. E quando nenhum dos dois pode concordar com quem é o verdadeiro Fausto (nenhum dos dois é!), conjuram um demônio que revela que, se não determinarem qual é o falso mago, quando o falso Fausto desaparecer, sua destruição também destruirá o Universo.

Esse é o tipo de trama que se você comprar a premissa e a apresentação dela, tudo funciona depois, pois o roteiro não fica andando em círculos, colocando justificativas intricadas ou personagens que mais atrapalham do que ajudam a história a crescer, como ocorreu na aventura com a SJA no arco anterior. Além disso, é até engraçado ver como a parceria do vilão com os heróis ocorre e como eles lidam com os problemas que aparecem pelo caminho. A dupla Flash-Superman é a minha favorita na investigação que se segue, tanto no plano de ataque quanto em relação ao tipo de problema que têm para vencer.

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LJA #50: O Senhor do Tempo Ataca o século XX

The Lord of Time Attacks the 20th Century! — (Dezembro de 1966)

Após uma passagem pelo Vietnã, o soldado Eddie Brent está voltando para casa (para Gotham City) como um herói, com um evento de condecoração pública o esperando e tudo. No entanto, quando ele enlouquece e pula do trem, sua atividade suspeita leva Bruce Wayne e Dick Grayson a investigá-lo como Batman e Robin. Seguindo Brent, eles descobrem que ele foi munido com super-armas que facilmente dominam a dupla dinâmica. Começa então uma linha de investigação que traz de volta o Lord of Time, lá de A Hora Final.

Como foi comum nas histórias desse ano, a boa arte de Mike Sekowsky e o bom trabalho de finalização de diversos artistas prendem a nossa atenção na sequência de lutas, no trabalho de movimentação dos heróis e na criação dos lugares visitados. Poucos são os momentos em que temos reais problemas com a arte nessas edições. A questão mesmo é o roteiro, que faz uma trajetória bem chatinha. É até paradoxal termos tantas boas passagens de ação embaladas em uma justificativa ou diálogos que dão vergonha. E aqui o incômodo é mais na relação entre plano do vilão com a reação dos heróis da Liga. A propósito, temos enfim uma participação efetiva do Aquaman no ano! Não é uma história ruim, mas vocês sabem, isso não significa muita coisa em termos de qualidade, não é?

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Justice League of America Vol.1 #42 a 50 (EUA, 1966)
Roteiro: Gardner Fox
Arte: Mike Sekowsky
Arte-final: Bernard Sachs, Frank Giacoia, Joe Giella, Sid Greene
Letras: Joe Letterese, Gaspar Saladino
Capas: Mike Sekowsky, Murphy Anderson, Joe Giella
Editoria: Julius Schwartz
24 a 26 páginas (cada edição)

Crítica | Mulher-Maravilha, Batman e Superman: Trindade

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Muita gente morre de amores por esta minissérie escrita e desenhada por Matt Wagner em 2003, mostrando os primeiros encontros de Batman, Mulher-Maravilha e Superman na DC da Era Moderna; mas para mim, a saga não tem assim tantas gloriosas passagens não, apesar de ser divertida de se ler — que me desculpem os que a amam muito.

É claro que não dá para ignorar essa premissa que traz algo que sempre chama a atenção de qualquer um que gosta de quadrinhos: personagens importantes vistos num ponto inicial de suas carreiras ou, nesse caso, no ponto inicial da convivência entre eles mesmos. Este, na verdade, é um trampolim capaz de vender qualquer plot para leitores de quadrinhos e que promete um bom divertimento durante a leitura, o que de fato acontece aqui. Cronologicamente estamos após Ano Um (para o Morcego), Deuses e Mortais (para a Amazona) e Homem de Aço (para… o Homem de Aço), de modo que o roteiro não precisa, por coerência, alçar voos absurdos, apenas focar no relacionamento entre os protagonistas e colocá-los para enfrentar juntos, pela primeira vez, um grande inimigo. E eis aí o meu problema com essa Trindade.

Não, não me refiro ao encontro dos medalhões, isso é fantástico (como fantástico também é o cameo do Aquaman). Estou falando do tal inimigo. E vejam, mesmo que eu tenha pequenos problemas com a forma como Matt Wagner reforçou as picuinhas entre Bruce e Diana,  o que não desce de verdade nessa história é o fato de precisar dos três para vencer Ra’s Al Ghul, que consegue descongelar Bizarro e colocá-lo na jogada também. E com isso não quero subestimar o vilão. Mas é que o tempo inteiro a aventura me soa como algo mais ligado ao Batman, depois mais ligado ao Superman e daí tem a Mulher-Maravilha. Apesar da ação direta e importante dela na trama, não há de fato uma boa conexão com esse elemento vilanesco. Nem Ártemis ou a Ilha Paraíso (que é apenas uma consequência do plano e que aparece só na terceira edição) funcionam como ponte, de modo que a Amazona sobra em alguns momentos. Daí vocês já tiram a minha visão geral da obra. Apesar de gostar do todo, sempre tenho um pé atrás porque não gosto do vilão envolvido e nem do plano que une a Trindade em sua primeira luta.

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Já sobre a arte, devo dizer que gosto do trabalho de Matt Wagner e principalmente das cores de Dave Stewart para toda a aventura. O estilo do artista combina bastante com esse olhar para o passado, o que nos ajuda a comprar melhor o que está sendo narrado. E existem momentos muito bons aqui, especialmente os do Superman — tanto agindo em cenas de exercício de força, quanto de babá para Diana e Bruce não se pegarem (e não de um jeito legal). Dos três, inclusive, o que o roteiro melhor captura a essência de início de carreira é o Superman, seguido pelo Batman. Já a visão de Wagner para a MM não me agradou muito, com exceção de alguns poucos quadros e das cenas em Themyscira.

Trindade é uma história gostosa de se ler e uma forma interessante de se olhar para a relação dos três grandes da DC Comics num encontro onde ainda não sabiam muito bem o que esperar um do outro. Traz à memória um tempo diferente da editora e dos próprios personagens. Mas não é uma aventura perfeita. Se você ainda não leu, que fique preparado, então.

Batman/Superman/Wonder Woman: Trinity (EUA, agosto a outubro de 2003)
No Brasil:
Panini (2004), Eaglemoss (2016)
Roteiro: Matt Wagner
Arte: Matt Wagner
Cores: Dave Stewart
Letras: Sean Konot
Capas: Matt Wagner, Dave Stewart
Editoria: Bob Schreck, Michael Wright
228 páginas (encadernado Eaglemoss)

Crítica | Cavaleiro das Trevas: The Golden Child

Nesse seu final de carreira, Frank Miller resolveu apostar quase todas as suas fichas em continuações e spin-offs de Batman – O Cavaleiro das Trevas, sem dúvidas uma das mais importantes obras dos quadrinhos mainstream modernos. Depois da normalmente mal-vista continuação de 2001/02, foram necessários mais 13 anos para o autor empolgar-se novamente, trazendo A Raça Superior entre 2015 e 2017, com direito ao one-shot prelúdio A Última Cruzada em 2016, para ajudar a “compensar” pelo atraso na terceira minissérie do Batman mais velho. Em 2019, seu Millerverso de Batman ganhou também um spin-off contando sobre o Ano Um do Superman, já sob o selo DC Black Label, e, no apagar das luzes do ano, eis que chega mais um one-shot, desta vez focados na geração jovem dos icônicos personagens da editora que ele vem abordando há anos.

Apesar do título em inglês conter menção ao Cavaleiro das Trevas, isso só foi feito para indicar aos leitores que a publicação de pouco mais de 50 páginas faz parte desse universo específico criado por Frank Miller, já que nem Batman, nem Superman (ok, esse dá as caras em três pequenos quadros na primeira página) e nem a Mulher-Maravilha aparecem em The Golden Child. A abordagem se dá unicamente a partir dos pontos-de-vista de Carry Kelley, ex-Robin, ex-Batgirl e agora Batwoman e de Lara e Jonathan Kent, filhos super-poderosos de Kal-El e Diana Prince, com Jonathan sendo a “Criança Dourada” do subtítulo original. É importante ter isso em mente e aceitar que os heróis veteranos não aparecem na narrativa apesar do grau de destruição que vemos no one-shot e dos vilões envolvidos, ninguém menos do que o novo Coringa e Darkseid, ambos trabalhando em conluio. Se isso não for aceito como premissa, é possível que o leitor só se desaponte já a partir da página 14, quando a efetiva pancadaria começa.

Ultrapassada essa questão, Frank Miller continua sua pegada razoavelmente pouco inspirada que infelizmente marca essa fase de sua brilhante carreira. No lugar de contar uma história fluida, que estabeleça causas e consequências de maneira lógica e minimamente encadeada, ele cria “momentos” razoavelmente soltos que se conectam sob uma premissa genérica de “vilões sendo vilões”. Para constatar esse fato, basta notar como ele começa discutindo questão central de A Raça Superior: como Lara e Jonathan são diferentes dos humanos e como eles nos enxergam como seres fracos que vivem “se quebrando” e se curando em um círculo vicioso de poucas virtudes. Superman sempre teve essa dicotomia entre divindade e humanidade muito bem discutida em suas histórias mais célebres e Miller tem mérito ao voltar a ela aqui tendo seus filhos como pivôs, especialmente em um mundo em que a juventude tende a ser mais imediatista e a tirar conclusões com base em manchetes de notícias.

Mas Miller não sabe explorar a questão realmente a fundo e logo abre espaço para Carrie mostra que é a verdadeira herdeira do Batman hiper-violento desse futuro semi-distópico, com táticas de guerra para destroçar um grupo comandando pelo Coringa para dispersar uma passeata anti-Trump, que quer se reeleger como prefeito de Gotham. E, com isso, entra o lado político da HQ que ganha até mesmo uma paródia de Jair Bolsonaro já que o artista é Rafael Grampá, retornando aos quadrinhos depois de vários anos e estabelecendo a primeira parceria com Miller.

Esse subtexto político parece solto e desestruturado, mais como uma birra contra os dois presidentes do que como um comentário que tenha estrutura dentro da narrativa. Mas a verdade é que, na medida em que a história se desenvolve, com Darkseid enlouquecido enfrentando os jovens Kents e com o quadrinho final que tem uma boa fala de Kelley, tudo acaba podendo ser visto como uma alegoria política contra a opressão de pessoas que tendem a tomar o poder e a esquecer o povo (Trump e Bolsonaro são usados como exemplos “da moda”, mas o mundo – e também o Brasil – é cheio de outros nos dois espectros políticos) e o poder que protestos organizados têm. Miller é normalmente xingado como fascista por muitos, pelo que será interessante ver como esses muitos reagirão a seu texto aqui.

Seja como for, estruturalmente, a HQ é uma montanha-russa de comentários diversos que acaba se tornando episódica, por vezes só focando em Kelley e, por outras, só nos Kents. Além disso, tudo bem que é perfeitamente possível imaginar um supervilão interessando na manipulação de eleições, mas logo Darkseid? Será que ele não está muito acima disso para preocupar-se com algo tão micro assim? E a resposta está na própria HQ, com o vilão revelando um plano muito maior que efetivamente não combina com a reeleição de um prefeito de uma cidade americana (não estamos nem falando do país!).

Com isso, a história vive de espasmos narrativos, com algumas belas sequências de ação e a revelação de um conjunto de poderes para a tal Criança Dourada que consegue torná-la ainda mais poderosa do que os já super-poderosos Superman e Lara Kent. Se já é difícil escrever o Superman em razão de seu overpower, Jonathan Kent será um desafio ainda maior em eventual continuação. Gostaria muito que Miller tivesse focado em um assunto apenas e o desenvolvido de maneira compassada e não jogado tudo de qualquer jeito nessa edição única.

A arte do brasileiro Grampá pode ser polêmica pelas liberdades anatômicas que ele toma, mas ele foi o primeiro artista a acertar o uniforme de Kelley depois que ela abandonou a persona de Robin. A capa dupla de forro amarelo e a textura “orgânica” do tecido que ela usa funcionam muito bem, assim como todo seu atleticismo exagerado. Lara e Jonathan não apresentam maiores dificuldades ou novidades, por outro lado, com o desenhista mantendo Lara como a vimos antes e Jonathan apenas com um figurino civil. Mas o que realmente chama a atenção é o detalhismo de Grampá e como ele desenha bem as sequências de ação de alta octanagem. O combate final contra Darkseid não é lá muito inspirado, mas isso é mais culpa de Miller não saber muito bem como acabar a história do que da arte em si.

The Golden Child é uma HQ desconjuntada, mas boa, talvez a melhor de Miller dentro de seu Millerverso de Batman desde a graphic novel original (diria que empatado com A Última Cruzada). Não é nem de longe um retorno à sua forma de outrora, mas há, sem dúvida alguma, a semente de uma potencialmente interessante nova forma de lidar com sua muito particular visão sobre o Batman e o Superman.

Cavaleiro das Trevas: The Golden Child (Dark Knight Returns: The Golden Child, EUA – 2019)
Roteiro: Frank Miller
Arte: Rafael Grampá
Cores: Jordie Bellaire
Letras: John Workman, Deron Bennett
Capa: Rafael Grampá, Pedro Cobiaco
Editoria: Mark Doyle, Amedeo Turturro
Editora original: DC Comics (DC Black Label)
Data original de publicação: 11 de dezembro de 2019
Páginas: 52