Arthur Kennedy

Crítica | Um Certo Capitão Lockhart

estrelas 4,5

Um Certo Capitão Lockhart foi o último western da dupla Anthony Mann & James Stewart, uma parceria interrompida devido a desentendimentos envolvendo a produção (especialmente a cadeira de direção) do filme A Passagem da Noite (1957).

A característica principal dos filmes de Mann com Stewart no elenco era a forte exploração da psicologia do protagonista, que aparecia em grande conflito interno e externo, lutando para encontrar-se no mundo e/ou para vingar-se de alguém que tenha marcado negativamente sua vida. Esse modelo de “jornada de expiação” já é perceptível na trama de Winchester ’73 – o primeiro da pentalogia – e segue sob outras camadas em E O Sangue Semeou a Terra, O Preço de um Homem e Região do Ódio.

A base para Um Certo Capitão Lockhart foi a história de Thomas T. Flynn, que trazia o drama denso de Rei Lear para um rancho de Coronado, no Novo México. Num primeiro momento, temos apenas a indicação de que o Capitão Will Lockhart possui intenções além daquela de simplesmente levar algumas carroças cheias de mantimentos da cidade de Laramie até Coronado. Conforme os minutos avançam, vemos que existe uma questão familiar em jogo e a promessa de vingança feita a si mesmo. Lockhart almeja encontrar o homem que vendera rifles de repetição para os índios apaches que massacraram uma divisão da cavalaria americana, na qual se encontrava seu irmão caçula.

Mas Mann nos esconde por um bom tempo a maioria das coisas que veríamos durante o longa. Sua direção cria um ambiente bem próximo ao suspense, ao menos na fixação de uma atmosfera que indica uma tragédia vindoura, mas que demora chegar. Nessa edificação, o diretor faz bom uso da música de George Duning e vemos o interessante equilíbrio que William A. Lyon dá à montagem, alternando de maneira suave a duração de determinados planos e trabalhando de forma muito competente as transições de cena.

Os toques shakespearianos do roteiro começam a aparecer quando a tragédia anunciada no início do longa dá as caras. E então estamos diante do western mais violento de Anthony Mann, que passa a analisar a maldade como elemento orgânico das relações humanas, assim como sua outra parte, reprimida ou acossada durante um longo tempo.

Nesse ponto já estamos nos domínios da família Waggoman e a questão da herança e do mal caráter aparecem de mãos dadas, focalizando três homens como protagonistas de um conflito que se afunilará para a vingança pretendida por Lockhart desde o início. E diferente dos outros westerns de Mann, este filme não amplia tanto as paisagens e não investe uma linha narrativa de caminhada pelas pradarias, rebanhos e quilômetros e quilômetros de terra. É verdade que a câmera faz belas panorâmicas sobre os domínios de Alec Waggoman (interpretado de maneira imponente e amargurada por Donald Crisp), mas estes takes são apenas para um contexto geográfico, sem muita exploração dramática exceto a bem construída sensação de claustrofobia.

A resolução dos problemas apresentados na fita dá um salto em certo momento da reta final, mas o choque é benéfico se consideramos o todo. A descoberta do culpado, a vingança e o triunfo do bem não dão à obra uma camada simplista ou clichê, antes, exploram cada um desses pontos dentro da mitologia do western e fecham um ciclo de obras notáveis de Anthony Mann sobre homens cujo passado são verdadeiros grilhões que precisam ser quebrados no presente. Este é o maior triunfo do diretor e de James Stewart – que aqui dá mais um show de interpretação – o de mostrar que o intocável herói do oeste podia ser tão humano, falível, patético e heroico como qualquer outro homem.

Um Certo Capitão Lockhart (The Man from Laramie) – EUA, 1955
Direção:
Anthony Mann
Roteiro: Philip Yordan, Frank Burt (baseado em história de Thomas T. Flynn)
Elenco: James Stewart, Arthur Kennedy, Donald Crisp, Cathy O’Donnell, Alex Nicol, Aline MacMahon, Wallace Ford, Jack Elam, John War Eagle, James Millican, Gregg Barton
Duração: 104 min.

Crítica | E o Sangue Semeou a Terra

estrelas 4

Glyn McLyntock está fugindo de um homem chamado Glyn McLyntock. A “sina da fuga”, elemento marcante da pentalogia de westerns feitos por Anthony Mann com James Stewart no elenco, mostra-se aqui revestida de um discurso de remissão do passado manchado de um homem, não sem antes haver uma jornada dolorosa para isso — e sem apelar para o perdão compensatório. McLyntock, vez ou outra, é assombrado por seu eu do passado e precisa de um grande controle para não deixá-lo vir à tona todas as vezes. A luta de um homem contra si mesmo e a jornada como ritual de mudança são os carros-chefe da psicologia do protagonista.

A história se passa em 1866 e nos mostra uma caravana de rancheiros com alguma economia a caminho do Oregon, onde pretendem comprar terras e começar uma nova vida. Guiados por Glyn McLyntock, eles chegam são e salvos à fazenda comprada, mas acabam sendo enganados posteriormente, não recebendo os mantimentos prometidos por Hendricks (Howard Petrie). É aí que a verdadeira história começa. O roteiro de Borden Chase (Winchester ’73) trabalha o início como uma introdução pacífica perto do que será a ‘segunda parte’ do filme, equalizando de maneira muito eficaz os elementos literários do livro de William Gulick, no qual se baseou.

A dinâmica para o crescimento de Portland segue a linha de qualquer cidade nascente que vemos em westerns, northerns e derivados. Um lugar relativamente pacífico vê sua população aumentar e também a chegada de pessoas interessadas em lucrar de maneira criminosa, estabelecendo o tráfico e usando de grande violência para firmar-se como controlador do local, elementos observados em obras como Uma Cidade que Surge ou mesmo Região do Ódio, além de tantos outros filmes.

Como Mann não nos mostra um xerife honesto e nem uma ação incisiva da lei para impedir tais crimes, a nossa impressão é que o diretor intentava dialogar com o lado moral de seu protagonista. Não sendo vigiado pela lei, o que um (ex)assaltante da fronteira poderia fazer? Há um momento icônico quando Red, um dos empregados temporários e futuro bandido, pergunta a McLyntock o que ele faria quando a lei os alcançasse. Ao que o seu interlocutor responde: “Que lei?”. Essa ausência de poder oficial, no entanto, não impede de McLyntock seguir o caminho honesto que escolhera para si nessa fase da vida. No outro extremo, tal situação permite a proliferação de bandidos e abre caminhos fácies para os mais diversos tipos de atividades criminosas.

O resultado final da obra é bastante positivo, mesmo que se perca um pouco na construção das histórias paralelas e fique devendo certo complemento ao enredo, desenvolvendo bem apenas algumas linhas dramáticas e apenas citando outras. Outro elemento que infelizmente se perde é a trilha sonora de Hans J. Salter (Almas Perversas), bastante propícia na abertura do filme mas que aos poucos vai assumindo um caráter demasiadamente narrativo, acompanhando de maneira incisiva cada cena relativamente importante ou qualquer espaço de jornada, diminuindo o importantíssimo papel do silêncio.

Anthony Mann mais uma vez mostra que sabe filmar paisagens a serviço da trama, explorando a jornada pelas montanhas, a travessia de rios com barco e cavalos e a localização de uma cidade num espaço entre minas e fazendas. O fato de ser um northern também ajuda na beleza acolhedora mas ameaçadora da fotografia, com os picos dos montes cobertos de neve, florestas verdejantes e águas que em pouco tempo estariam congeladas. Esse ambiente selvagem é uma espécie de componente essencial da mudança dos personagens (em comportamento e em opinião sobre os outros), um contraste com o cenário familiar que o filme alcança na cena final, com a chegada das diligências cheias de suprimentos no novo rancho e a felicidade que trazem à população local. Não havia melhor momento para o the end.

E o Sangue Semeou a Terra (Bend of the River) – EUA, 1952
Direção:
Anthony Mann
Roteiro: Borden Chase (baseado na obra de William Gulick).
Elenco: James Stewart, Arthur Kennedy, Rock Hudson, Jay C. Flippen, Julie Adams, Lori Nelson, Chubby Johnson, Stepin Fetchit, Harry Morgan, Howard Petrie, Frances Bavier, Jack Lambert, Royal Dano
Duração: 91 min.