Arrowverse

Crítica | Arrow – 8X10: Fadeout

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E, depois de oito anos, Arrow, que marcou o pontapé inicial do Arrowverse, hoje populado das mais variadas séries, chega a seu fim. Com uma temporada final reduzida, mas completamente escrava do crossover Crise nas Infinitas Terras e que, no episódio anterior, também serviu de pontapé inicial para o spin-off Green Arrow & the Canaries, Fadeout vem para mais uma vez homenagear Oliver Queen e para preparar o terreno para o que está por vir, agora que o herói morreu e tornou-se o Espectro, figura que, tenho certeza, aparecerá vez ou outra nas séries do canal.

O mote é o enterro de Oliver, que abre oportunidade para afirmar que, em sua segunda morte, que também recriou o multiverso, o herói ressuscitou sua mãe Moira Queen, seu melhor amigo Tommy Merlyn e seu mentor Quentin Lance, além de ter eliminado o crime em Star City. Tentar entender o porquê de ele não ter ressuscitado mais gente, especialmente a Laurel Lance original, mesmo que o episódio tente oferecer explicações mequetrefes, é um exercício em futilidade, até porque a conclusão de que ele foi egoísta ao não ter eliminado o crime no mínimo nas cidades de seus amigos super-heróis, é inafastável, pelo que é melhor nem pensar nisso. Voltando ao enterro, ele é o ponto focal e a razão pela qual boa parte do elenco da série retorna – inclusive o sumido Rory Regan (ou Retalho), a Mia Smoak do futuro e, claro, Felicity -, mas os showrunners da série e que também escreveram o episódio, acharam pouco e tiveram que inserir ação, pois seria impensável fazer algo mais contemplativo ou reflexivo.

Com isso, eles inventam o sequestro (de novo!) de William, filho de Oliver. Sua versão adulta acabara de ser sequestrada em 2040 e, pelo visto, o William garoto ficou com ciúmes e quis o mesmo, em uma construção completamente artificial com uma resolução mais artificial ainda que coloca Mia nos holofotes como a grande herdeira do legado do Arqueiro Verde (uau, que surpresa…). Mas nem tudo é ruim nessa tentativa de se marretar ação no episódio, já que os flashbacks para 2012, em um momento importante na vida de Oliver em que, influenciado por John Diggle, ele deixa de matar bandidos (foi o mesmo momento em que a coragem dos showrunners em fazer algo diferente foi para o ralo). E digo que nem tudo é ruim não por esse momento em seu passado em si, pois ele é tão artificial quanto o sequestro de seu filho no presente e, claro, a conexão entre as duas coisas, mas sim porque a execução das sequências de ação é muito boa, completamente fora da curva em relação ao que vinha sendo apresentado ao longo dessa temporada e também da temporada anterior.

James Banford, que foi o responsável pelo tenebroso Purgatory e pelo fraco Starling City, tem talvez seu melhor trabalho com diretor aqui, especificamente nos dois planos-sequências do Arqueiro, no passado, liquidando capangas de um vilão que trafica humanos. Não só a coreografia é muito boa, como o dinamismo das duas cenas é impressionante, algo que há muito não se via em qualquer série da DC da CW. Claro que não há nem de longe o finesse dos incríveis planos-sequência de Demolidor, por exemplo, mas a pancadaria que vemos aqui é exatamente o tipo de despedida digna que eu esperaria para o super-herói, por mais que ele nunca tenha sido mais do que mediano para mim. Além disso, o foco em John Diggle tanto no passado quanto no presente dignifica o sidekick de Oliver e efetivamente o coloca como o herdeiro do herói, já que, convenhamos, é duro de engolir a tal Mia Smoak como super-heroína.

Tudo bem que a confirmação de que John Diggle tornar-se-á o Lanterna Verde da Terra Prime (presumivelmente aparecendo primeiro na série Superman & Lois, já que ele se muda para Metrópolis e já que a série dos Lanternas Verdes se passará em outra Terra) é feita da maneira mais marretada e boba possível, um daqueles fan services escritos em papel higiênico pelo entregador de cafezinho do estagiário do secretário do assistente de roteirista da série, mas o mero fato de o personagem ter um fim nessa linha, colocando-o não como um coadjuvante largado, mas sim como alguém que carrega efetivamente o legado do Arqueiro Verde de alguma forma, é algo que merece aplausos. Mas não muito efusivos, claro, pois meteoro caindo no jardim de sua casa, ele metendo a mão na cratera logo em seguida e tirando uma “caixa de óculos” com provavelmente o anel da Tropa dos Lanternas foi de fazer as retinas sangrarem…

E, com isso, mesmo com todo o chororô que marca a despedida, mesmo com a reformação do casal vai-não-vai Thea Queen e Roy Harper (aquele braço mecânico paraguaio dele foi comprado no camelô, só pode…), mesmo com a ressuscitação de personagens que muito provavelmente deveriam ter permanecidos mortos, mesmo que tenhamos que ter aturado Felicity de novo e mesmo que Star City tenha sido magicamente libertada dos crimes, no final das contas o adeus para Oliver Queen até que conseguiu ficar acima da linha do meramente mediano. Por outro lado, é triste notar que isso é o máximo que a CW consegue fazer para o personagem fundador de seu multiverso.

Arrow – 8X10: Fadeout (EUA, 28 de janeiro de 2020)
Showrunners: Marc Guggenheim, Beth Schwartz
Direção: James Bamford
Roteiro: Marc Guggenheim, Beth Schwartz
Elenco: Stephen Amell, David Ramsey, Katie Cassidy, Katherine McNamara, Colin Donnell, Willa Holland, Susanna Thompson, Paul Blackthorne, Emily Bett Rickards, Colton Haynes, Echo Kellum, Rick Gonzalez, Juliana Harkavy, Sea Shimooka, David Nykl, Katrina Law, Caity Lotz, Joe Dinicol, Jack Moore
Duração: 42 min.

Crítica | Arrow – 8X09: Green Arrow & The Canaries

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Certamente abordarei isso com mais detalhes na minha análise mais abrangente da temporada final de Arrow, mas é um tanto desapontador que esse último ano de Oliver Queen como Arqueiro Verde (pois acho que ele voltará como Espectro algumas vezes) seja brindado com episódios que primeiro serviram de armação para o crossover Crise nas Infinitas Terras e, agora, como backdoor pilot para o spin-off que terá sua filha, Mia Smoak (ou Queen), adotando seu manto. A impressão que fica é que pouco se deu atenção ao protagonista e que tudo é apenas parte de uma engrenagem para estabelecer o que virá.

Mas tudo bem. Esse Oliver Queen de Stephen Amell também não é tão importante assim – fora ser o primeiro super-herói do Arrowverse – para que eu fique reclamando muito dessa questão (e ele ganhou lá o foguinho dele no Salão de Justiça dos Superamigos, claro). Apenas estou achando tudo muito disperso e repetitivo, algo que Green Arrow & The Canaries só vem para reiterar. Afinal, como mencionado, esse episódio arma as premissas para o vindouro spin-off que focará primordialmente nas personagens de Katherine McNamara, Katie Cassidy e Juliana Harkavy ao que tudo indica no futuro da Terra Prime pós-Crise, dando algum significado maior para os insuportáveis flashforwards para 2040 que ajudaram a destruir a 7ª temporada da série. Mas essa Star City, aproveitando as mexidas trazidas pela Crise, não é a terra de ninguém originalmente apresentada, mas sim um paraíso que não vê violência há décadas. É, finalmente, o grande legado de Papai Arqueiro.

Lógico que nada é tão simples assim e o episódio não perde tempo em introduzir Laurel Lance, a Sereia Negra (Black Siren) da ex-Terra-2, que viajou para esse futuro para impedir o sequestro e assassinato de Bianca Bertinelli (Raigan Harris), eventos que, de acordo com ela, levariam Star City ao caos. Recrutando Dinah Drake que misteriosamente “acordou” nesse futuro e tornou-se dona de um bar, Laurel parte em seguida para reativar as memórias pré-Crise da Mia Smoak desse futuro usando um dispositivo que conveniente emula os poderes do Caçador de Marte. Isso, claro, gera todo tipo de conflito já que Mia é uma socialite que, nesse futuro, nunca foi treinada em nada e que está noivando com ninguém menos do que J.J., o líder da gangue do Exterminador na realidade pré-Crise.

O estabelecimento do novo status quo, porém, é corrido demais e não se fixa para o espectador, sendo alterado imediatamente pela chegada disruptiva de Laurel. É, basicamente, um incessante derramamento de linhas expositivas de diálogo sem cuidado para efetivamente contextualizar e trabalhar os acontecimentos. Em um minuto temos Mia brigando com Laurel porque ela foi deixada sozinha e poderia não se lembrar com lutar e, logo em seguida, ela vestindo o uniforme de Arqueira e lutando contra uma penca de bandidos e atirando flechas para sair na base da tirolesa do teto de um prédio como se fosse apenas mais um dia na vida dela. Ah, mas isso é detalhe, alguns dirão. Exato. É detalhe. Mas detalhes ajudam a “construir mundos” e o roteiro escrito pelos showrunners e outros dois roteiristas (quatro pessoas para escrever isso é hilário) é inábil em desenvolver de maneira concatenada a premissa da história.

Mas, pior do que isso é notar que a equipe criativa perdeu a oportunidade de fazer algo diferente, de realmente tentar dar o pontapé inicial para uma série que se diferenciasse de Arrow para além do protagonismo da sempre péssima McNamara. Estar no futuro não significa absolutamente nada se esse futuro é, basicamente, a mesma coisa que o passado agora que todo mundo que vivia no 2040 pré-Crise será acordado pelo dispositivo criado por Cisco e, mais irritantemente ainda, com o objetivo de mais uma vez salvar a cidade. A pegada sem graça de “Batman dos pobres” que sempre marcou Arrow continua firme e forte aqui. Digam o que quiserem das demais séries da CW, mas cada uma tem sua assinatura própria e não custava muito deixar Arrow para trás de verdade e estabelecer uma nova forma de contar a história de Mia Smoak e equipe. Afinal, não é possível que a população de Star City seja tão tapada a ponto de não acertar de cara quem é o “misterioso Arqueiro Verde mascarado – mas de silhueta feminina e com longos cabelos loiros – que repareceu na cidade depois de tantos anos”.

Aliás, nem sei se eles realmente perderam a oportunidade, pois isso seria imaginar que eles fizeram “sem querer”. Os showrunners estão simplesmente jogando seguro mais uma vez e aplicando a eterna regra que diz que não se mexe em time que está ganhando. E tenho certeza que muito fã de Arrow ficou como pinto no lixo ao ver que Green Arrow & The Canaries potencialmente será só mais do mesmo, perenizando uma estrutura cansada e ruim que não fica magicamente boa só porque a série “tem audiência significativa”. É a mediocridade pela mediocridade coroada pelo números, já que tentar caminhos novos arrisca a alienação do público cativo.

O episódio piloto da futura nova série, no final das contas, mesmo considerando seus problemas sérios, faz o básico do básico: apresenta a situação e deixa todos os ganchos possíveis para serem trabalhados em intermináveis temporadas. Como parte orgânica da última temporada de Arrow, porém, ele não funciona nem um pouco. No entanto, se o objetivo era perpetuar a mediocridade, então os showrunners estão de parabéns!

Arrow – 8X09: Green Arrow & The Canaries (EUA, 21 de janeiro de 2020)
Showrunners: Marc Guggenheim, Beth Schwartz
Direção: Tara Miele
Roteiro: Beth Schwartz, Marc Guggenheim, Jill Blankenship, Oscar Balderrama
Elenco: Katherine McNamara, Katie Cassidy, Juliana Harkavy, Ben Lewis, Joseph David-Jones, Charlie Barnett, Andrea Sixtos, Raigan Harris, Chad Duell
Duração: 42 min.

Crítica | Arrow – 8X08: Crisis on Infinite Earths, Parte Quatro

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Depois de um desnecessário hiato em seu ambicioso crossover, a CW volta para Crise nas Infinitas Terras com um episódio que por diversas vezes arrisca ser um pouquinho mais do que apenas medíocre, mas jamais consegue realizar seu verdadeiro potencial. Sim, tenho plena consciência que, para muitos fãs, basta o chamado fan service a todo custo e não há nada de intrinsecamente errado nisso se algum senso crítico for mantido, aquele alarme que, pelo menos bem lá no fundo, avise-o de que está vendo algo pálido como o Espectro.

Porque é bem isso que essa quarta parte da tão alardeada Crise é: uma colagem que tenta dar algum sentido ao anunciado sacrifício de Oliver Queen, levando os heróis à supostamente grandiosa batalha final contra o Anti-Monitor. O problema é que as séries do Arrowverse não sabem muito bem o sentido da palavra drama e os roteiros descambam dolorosamente para um pieguice sem fim em que sentimentos nunca são efetivamente vistos, mas sim explicados e verbalizados não uma, não duas, mas diversas vezes ao longo dos breves 40 e poucos minutos de duração de seus episódios. É como se a câmera parasse diante de um narrador que, olhando para o espectador, diz algo como “agora é o momento de ficar triste pela morte desse personagem” ou “essa é a sequência que revela todo o heroísmo desse outro personagem, portanto, aplauda e abra um sorriso” e assim por diante, como se o espectador não tivesse capacidade de processar o que está acontecendo.

Vejam a transformação de Oliver no Espectro. Ela simplesmente acontece depois que um completamente aleatório Jim Corrigan (Stephen Lobo) faz seu vudu lá em Purgatório, empalidecendo o Arqueiro, alterando sua voz (oba!) e emprestando-lhe um manto. Zero de drama. Zero de lógica interna. Mas, como se isso não bastasse, Oliver-Espectro já nasce pronto e 100% no comando de seus novos poderes, e, como um passe de mágica, resgata os Paragons lá do meio do nada com coisa nenhuma e os coloca em uma busca aleatória que só serve para passear pelos recônditos nostálgicos das variadas séries desse multiverso dentro da Força da Aceleração, o que, ironicamente, desacelera o episódio e o transforma em uma sucessão cansativa de diálogos modorrentos e olhares perdidos especialmente de Barry, Kara e Sara.

Em seguida, vejam a batalha do Espectro contra o Anti-Monitor e dos demais heróis contra os dementadores magricelas que morrem com socos e chutes. Não só o que acontece nos dois embates é completamente aleatório do tipo “raio sai dos olhos do personagem” e “todos se juntam para um olhar mortal depois que alguém pega uma página do livro do Monitor”, como não é possível perceber uma gota sequer de perigo ou de urgência. Claro que eu sei que esse tipo de sensação é complicado de se obter em séries e filmes de super-heróis, pois esse pessoal colorido tende a nunca morrer e, quando morrem, logo voltam à vida, mas um bom roteiro e uma direção minimamente consistente conseguem circunavegar o problema e entregar algo no mínimo excitante.

Mas não. O que vemos é um monte de personagem fantasiado em uma pedreira fazendo coreografias tão inspiradas quanto a segunda morte de Oliver Queen. Eu já disse isso uma vez e repetirei aqui: até mesmo eu, que nunca consegui gostar de Arrow, acho que o protagonista da primeira série de super-heróis da CW merecia um destino mais marcante do que esse. Ah, ok, ele “salvou o multiverso” e “criou a Terra Prime” e isso é mais do que o suficiente para justificar o foguinho lá no final do episódio seguinte (sim, estou me adiantando!), mas meu ponto não é esse e sim o sentimento que temos no momento da morte. Se conseguirmos nos afastar um momento de nosso lado fanboy, notaremos com muita clareza que não há qualquer traço de drama ali e sim, apenas, um péssimo ator se fingindo de morto com base em um roteiro escrito na base de emojis e pontos de exclamação.

Não é que a quarta parte da Crise seja tão imprestável quanto o tenebroso primeiro capítulo, mas ela não consegue nem chegar perto da excelente Parte Dois ou mesmo continuar no elã da razoável Parte Três. A solução dada para Oliver não só parece preguiçosa, como tudo o que acontece para encerrar – para fins do episódio – toda a crise, aí incluído o flashback para Mar Novu fazendo besteira ao tentar viajar para o começo dos tempos, parece simplista e barato, algo jogado de qualquer jeito nas telas sem um encadeamento lógico que sustente a narrativa. É ao mesmo tempo levemente divertido pela própria bobagem da coisa toda e tremendamente frustrante por mostrar em breves sequências, como os bons momentos cômicos com Lex Luthor (e olha que eu não suporto essa versão do vilão de Jon Cryer), tudo o que o crossover poderia ter sido.

P.s. Para que serviu mesmo o personagem de Osric Chau?

Arrow – 8X08: Crisis on Infinite Earths, Parte Quatro (EUA, 14 de janeiro de 2020)
Showrunners: Marc Guggenheim, Beth Schwartz
Direção: Glen Winter
Roteiro: Marv Wolfman, Marc Guggenheim
Elenco: Stephen Amell, Grant Gustin, Caity Lotz, Melissa Benoist, David Harewood, Jon Cryer, Osric Chau, LaMonica Garrett
Duração: 42 min.