Anya Taylor-Joy

Crítica | Emma (2020)

emma2020filme plano crítico (1)

Ela sempre declara que nunca se casará.

É estranha a sensação de ser responsável por um texto de uma adaptação de um clássico que nem conhecia. Entrei em Emma sem ter quaisquer informações sobre a narrativa, mas chamado pela ilustre presença de uma das atrizes mais promissoras surgidas nesta década, Anya Taylor-Joy. Portanto, acreditando não ser exatamente meu lugar de fala, ei de criticar o filme com base nele próprio e nos particulares repertórios que tinha antes de assisti-lo. Começando então pelo paralelo principal imediatamente estabelecido com Adoráveis Mulheres, no sentido de vir de uma obra literária de época e precursora de um discurso feminista em tempos em que isso não era nem mesmo debatido, sendo transfigurada para um tempo em que felizmente a temática passou a ter a relevância que merecia. Portanto, assumindo um discurso mais explícito sem deixar de respeitar a linguagem original da escritora Jane Austen e os desdobramentos em que ela pensou primeiramente.

Nesse sentido, acarreta-se o primeiro problema promíscuo da proposta, que justamente não permite esse tipo de equilíbrio sem deixar escapar algumas contradições. As amostras de relutância da protagonista de não querer fazer parte daquele universo cobrador de destinos matrimonias parece somente uma enrolação, já que pensando nos termos de fidelidade, a construção narrativa de uma forma ou de outra irá desenhar esses mesmos caminhos clichês, típicos de uma obra de época focada em um mundinho fechado e elistista. Ou seja, a tentativa de modernização somente artificializa o texto ao invés de colocá-lo com mais desdém na discussão temática, fora que ela em si carece de outro problema relacionado à especificidade do humor britânico, que por vezes é tão físico que deixa ainda mais caricatos aqueles “riquinhos”, pouquíssimo relacionáveis para a simplicidade teoricamente humanizada da história. 

A comédia até tem ciência das disparidades sociais indicadas na premissa, porém tem pouquíssima habilidade textual em articulá-las com elegância nos diálogos. Talvez isso venha de um certo amadorismo das estreantes Eleanor Catton, roteirista, e Autumn de Wilde, cineasta, que fica indecisa entre seguir um estilo Wes Anderson (que por sinal combina bastante com a excentricidade da protagonista) e a basicalidade novelesca de plano e contra-plano. Especificando: ela aposta em planos abertos simétricos para valorizar os cenários e a observação dos lindos figurinos e design de reconstrução de época, por outro lado, dentro dessa abertura de enquadramento, as conversas são conduzidas pelas tradicionais trocas de plano, gerando uma estética irregular ao projeto. Faltou à diretora um olhar mais seguro e decidido sobre qual abordagem visual adotar, o mesmo vale para o texto, originalmente rebuscado demais para seguir tamanha linearidade ininterrupta e consequentemente cansativa.

A montagem não estipula uma coerência rítmica organizada ao tom do filme, faltando dosar os momentos mais cômicos aos princípios dramáticos dos personagens, que parecem quase nulos pela falta de eficiência na tentativa de proximidade com eles. De modo que o egoísmo, o mimo, a arrogância e o orgulho exagerado da protagonista, que deveria ser o mote desconstrutor das raízes sociais masculinas, acabam se tornando mais uma arma de distanciamento da história. Ao menos a escolha de Taylor-Joy para o papel é perfeita, e a atriz, dentro das limitações textuais, justifica bem o casting ao entregar sem exageros as reações necessárias para o detalhamento dos comentários sociais que ela representa, seus olhares cínicos dizem bastante e a postura firme nos discursos manipulativos e autossuficientes é convincente visto a construção geral do filme.

Contudo, mesmo demonstrando carisma, a intérprete não contorna a antipatia da personagem, que não exatamente passará por uma jornada de amadurecimento ou transformação, e sim de mais reconhecimento errôneo de sua personalidade “introsona”, que prejudicava as pessoas ao seu redor e principalmente a si mesma. Desse modo, a história não possibilita tantas mudanças do olhar do público em sua persona, quem a achou insuportável continuará torcendo o olhar até o final. Os demais personagens também não ficam atrás dessa falta de carisma, com o adendo de serem acompanhados por um elenco secundário, no mínimo, limitado. Assim, até a despretensão do clichê, assumido mais pra frente, dos triângulos amorosos joviais fica prejudicada, pois nenhum personagem foi minimamente bem apresentado para que possa ser divertido acompanhar os previsíveis romances. 

Há, lógico, quem goste desse princípio do empoderamento anti-heroico, inclusive não me desagrada em todo caso, principalmente quando se tenta complexar um estudo por trás de tais comportamentos errôneos. Enxergando por esse olhar, Emma se sai levemente bem, pois é possível através de uma bagagem de contexto compreender a origem das motivações comportamentais, contudo isso não é aprofundado devidamente, pela escolha do recorte, e acaba sendo justificável mais num campo extra filme do que dentro dos elementos apresentados. Possivelmente a escolha foi proposital, o que não necessariamente a torna inquestionável ou bem executada. Reforçando, nem li o livro nem vi quaisquer outras adaptações para estabelecer parâmetros comparativos com propriedade, mas diante do que foi visto, esta nova versão calibra pelo menos um “fato” subjetivo concreto: não é a melhor forma de conhecer a obra de título fonte.

Emma (Emma, Reino Unido – 2020)
Direção: Autumn de Wilde
Roteiro: Eleanor Catton
Elenco: Anya Taylor-Joy, Johnny Flynn, Josh O’Connor, Rupert Graves, Bill Nighy, Amber Anderson, Gemma Whelan, Mia Goth, Callum Turner, Tanya Reynolds, Miranda Hart
Duração: 120min.

Crítica | Playmobil – O Filme

PlaymobilMovie plano crítico o filme

A popular linha de bonecos e cenários Playmobil foi criada na Alemanha em 1974, de modo que este longa de 2019, dirigido pelo estreante Lino DiSalvo, veio como uma comemoração em grande estilo para os 45 anos de existência da marca. Vindo dez anos depois da primeira incursão dos bonecos em um longa de animação (Playmobil: The Secret of Pirate Island, 2009) o presente filme até que consegue capturar o espírito da brincadeira e ao menos na parte visual consegue sustentar alguns bons momentos. Mas tudo isso é impiedosamente pisoteado pelo tenebroso roteiro da fita.

Filmes com bonecos ou baseados em um tipo/marca de brinquedos específica tem dois principais ingredientes em sua construção narrativa: a base familiar e a aventura. Na maioria das vezes, esta última apresenta uma situação bonita no início, seguida de uma divergência, uma separação, uma adaptação da jornada do herói e um final parcialmente moral, majoritariamente feliz e com um gancho para uma possível continuação. Até aí, nada de novo no front. Fórmulas e clichês em qualquer arte não as melhores coisas que a gente pode ter, mas certamente podem garantir um excelente produto final se forem bem utilizadas pelo roteiro (no caso do cinema) e aplicadas de modo coerente através de todas as camadas da forma. Spoilers: não é isso o que acontece aqui.

O texto se desenvolve em torno dos irmãos Marla (Anya Taylor-Joy) e Charlie (Ryan S. Hill, aos 6 anos e Gabriel Bateman, aos 10 anos), que após uma tragédia familiar, entram em conflito porque… bem… porque o irmão mais novo quer se divertir e a irmã mais velha precisa tomar conta da casa e criar o menino. Absolutamente tudo no início de Playmobil: The Movie está errado, a começar pelo estranho princípio visual que o diretor usa, misturando live-action e animação sem ter um verdadeiro bom motivo para isso. Mesmo que o roteiro faça a ligação entre o desejo de Marla por explorar o mundo, o caminho de passagem entre um estilo e outro começa frágil e piora continuamente. Em pouco tempo, o espectador entende a intenção principal disso — criar o laço fraterno no mundo real para fortalecer o impacto moral e puxar uma possível sequência em um mundo que evolui com a idade dos protagonistas –, mas as duas pontas da obra não deixam de ser desengonçadas por isso.

Como se não bastasse, Ryan S. Hill, o Charlie de 6 anos, tem algumas das piores cenas do filme (e olhem que ele aparece pouco!). Eu não sei se não havia dinheiro para repetir cenas ou se essas reveladas foram as melhores que o diretor conseguiu extrair do garoto, mas o pequeno ator está absolutamente terrível em praticamente cada momento, com caras e bocas risíveis e completamente perdido no meio de um musical que brota aleatoriamente no meio da introdução, fazendo toda a sequência entortar ainda mais e gastando muito cedo um elemento básico de incremento da fantasia: o musical. Pode-se argumentar que o público-alvo do filme é o menor possível e que o ambiente inicial já é fantasioso, mas pelo menos em relação à segunda afirmação, isso não é verdade. O roteiro deixa bem claro justamente o oposto: a realidade é a mais comum, cruel e crua possível, enquanto o mundo para o qual os dois irmãos viajam é o lugar das referências aos filmes (007, Star Wars, Os Caça-Fantasmas, etc.) e gêneros cinematográficos (faroeste, máfia, épico, pirata); o local da diversão e dos perigos legais de se enfrentar. A questão é que o roteiro, mais uma vez, se perde em suas intenções e não consegue passar uma visão sólida de cada uma dessas fases.

Existem cenas na obra que são visualmente muito boas e toda a equipe de produção faz um excelente trabalho na construção de mundos e gêneros específicos. Os personagens passam de um cenário para outro rapidamente, como se estivessem sendo manipulados por uma criança, durante uma brincadeira, o que é bem interessante de se ver. Mas falta à obra uma unidade. Por mais que a gente se una aos irmãos pelo laço que o texto conseguiu sugerir no início, e posteriormente tenhamos um robozinho muito simpático e o interessante Del (Jim Gaffigan), tudo termina isolado. As cenas não parecem servir à narração de uma história e só em alguns momentos finais é que o texto parece se encontrar, até descambar de novo para escolhas aleatórias e, mesmo no Universo de Playmobil, sem sentido.

Por ser bem colorido e ter muitos cenários, eu indicaria o filme para crianças muito pequenas, até uns 3 ou 4 anos, mas não mais do que isso. Não foi dessa vez, não é, Playmobil? Importante lembrar que só o nome e o estilo dos bonequinhos não garantem a qualidade da obra. É preciso que a história a ser contada faça sentido e consiga entreter um público para além da primeira infância, caso contrário, é passaporte direto para a lista de piores filmes do ano.

Em tempo: Adam Lambert tem uma cena musical bem legal e seu personagem é todo cheio de nuances malignas e exageradas que eu gostei demais! Já Daniel Radcliffe não teve a mesma sorte e pegou um personagem que em si só é interessante — pelos truques de espião e tudo mais –, mas tem no texto piadas sem graça, atitudes sem graça, tentativas de fazer comédia física sem graça e repetição de um jargão (com backing vocals!) absolutamente sem graça.

Playmobil – O Filme (Playmobil: The Movie) — EUA, França, 2019
Direção: Lino DiSalvo
Roteiro: Lino DiSalvo, Blaise Hemingway, Greg Erb, Jason Oremland
Elenco: Anya Taylor-Joy, Gabriel Bateman, Jim Gaffigan, Daniel Radcliffe, Meghan Trainor, Adam Lambert, Kenan Thompson, Kirk Thornton, Dan Navarro, Maddie Taylor, Cindy Robinson, Mariah Inger, Ian James Corlett, Christopher Corey Smith, Karen Strassman
Duração: 99 min.