Annalise Bissa

Crítica | Excalibur (2019) #1: A Acolada de Betsy Braddock

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de House of X e Powers X, prelúdios dessa nova fase dos mutantes.

Depois de House of X, Powers of X, X-Men #1 e Carrascos #1, publicações que tradicionalmente têm uma pegada de ficção científica e que Jonathan Hickman, mais conhecido como o coordenador dessa nova era, nem de longe quer esconder (e nem deveria), eis que vem Excalibur para permitir que um pouco de magia invada essa nova ordem mundial dos mutantes. E essa primeira edição, escrita por Tini Howard, sacode um pouco o status quo por ser basicamente uma história de origem, mas uma origem de uma troca de gênero que já aconteceu antes: a transformação de Betsy Braddock, ex-Psylocke, na Capitã Britânia (confesso que prefiro Bretanha, pois Britânia é marca de eletrodoméstico…).

Começando a ação em Camelot, Howard logo estabelece que o castelo está sendo atacado por forças invasoras ainda não completamente reveladas e que Morgana Le Fay, na ausência de Arthur Pendragon, cuida da defesa. No entanto, há algo de estranho acontecendo com seu espelho d’água que é a origem da magia na região, já que um portal de origem vegetal foi misteriosamente aberto, drenando o poder. A conexão com Krakoa é evidente, mas a diferença é que esse portal é de Camelot para a ilha viva e não o contrário, pelo que Krakoa em si não parece ter nada a ver com ele.

Do lado de cá, Apocalipse, agora um amor de mutante, percebe esse fenômeno e, aos poucos, reúne um grupo para investigar o ocorrido: Vampira, que pode neutralizar a magia de Morgana que impede a abertura do portal por Krakoa; Gambit, que basicamente fica grudado em Vampira; Jubileu, que foi a última pessoa a falar com Betsy quando ela brevemente visita a ilha e Trinária, sua assistente. Tudo acontece com uma certa lentidão e sem maiores explicações, com uma narrativa paralela lá na Academia Braddock que serve para estabelecer novamente o relacionamento entre os gêmeos Brian e Betsy, com os dois, respondendo a um chamado de Camelot, teletransportando-se para Otherworld.

A dinâmica desse primeiro número é um pouco engessada e os eventos que levam à transformação de Besty em Capitã Britânia um pouco corridos demais, isso sem contar que são levemente confusos e misteriosos demais, algo que eu sei que é natural para uma primeira edição, mas que poderia ter sido melhor conduzido pelo roteiro de Howard se ela não tivesse perdido tanto tempo com as divertidas farpas trocadas entre Gambit e Apocalipse, dentre outros desvios. Ou isso ou, melhor ainda, ela talvez devesse ter esperado pelo menos mais uma edição para efetivar a transformação, dando mais tempo para o leitor absorver a história.

Mesmo assim, há um sabor especial nessa história que está no fato de ela, apesar de conectada com toda a chamada Aurora de X, ou Dawn of X, não mostra, pelo menos aqui, ter uma ligação tão umbilical assim, nada que, por exemplo, decorra diretamente do que vimos nas duas minisséries que antecederam a nova linha editorial dos mutantes, como é o caso de Carrascos. Claro que a questão do portal em si é a conexão direta com tudo o que Hickman apresentara, mas Excalibur parece oferecer, com sua magia, com seu outro mundo, um refresco conducente a uma história razoavelmente independente especialmente em razão de toda a ação em Camelot, que também afeta diretamente o Capitão Britânia original e sua relação com Morgana.

Além disso, apesar de Howard carregar na exposição e no leve tom cômico em relação a Apocalipse e seu nome impronunciável, a autora tem o perfeito controle das personalidades que trabalha. É por isso que o antagonismo de Gambit com En Sabah Nur funciona bem, assim como o lado romântico do cajun com Vampira que envolve até mesmo uma linha de diálogo sobre ter filhos. Betsy e Brian Braddock também são bem explorados, ainda que eu sempre vá preferir a personalidade mais arisca e silenciosa da “outra” Betsy.

A arte de Marcus To, com cores de Erick Arciniega, captura o espírito do que Jonathan Hickman quis imprimir à sua nova era perante os mutantes, estabelecendo uma boa identidade visual, mas a dupla nunca se esquiva de construir em cima e de soltar-se no lado de “conto de fadas sombrio” da história, inclusive escurecendo as tonalidades e marcando mais os traços físicos dos personagens em Camelot, algo que contrasta fortemente com, por exemplo, a relação dos gêmeos na Academia Braddock ou mesmo quando o gigantesco Apocalipse entra em cena em Krakoa.

O novo e bem diferente Excalibur promete muita diversão com essa primeira edição, reunindo tecnologia com magia de maneira orgânica, além de reunir um grupo potencialmente muito interessante. Será particularmente rico ver como a narrativa mágica de Camelot será costurada à da nova nação mutante na Terra, já que são literalmente dois mundos bem diferentes. Tenho certeza, porém, que há um plano master em movimentação para que isso aconteça, ainda que não fosse fazer mal se as histórias permanecessem razoavelmente separadas por mais algum tempo.

  • Obs: Voltarei a Excalibur quando o primeiro arco for finalizado.

Excalibur #1: A Acolada de Betsy Braddock (Excalibur #1: The Accolade of Betsy Braddock, EUA – 2019)
Roteiro: Tini Howard
Arte: Marcus To
Cores: Erick Arciniega
Letras: Cory Petit
Design: Tom Muller
Editoria: Annalise Bissa, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 30 de outubro de 2019
Páginas: 38

Critica | Novos Mutantes (2019) #1: O Sextante

  • Há spoilers. Leiam, cá, as críticas de House of X e Powers X, prelúdios dessa novidade tempo dos mutantes.

Criados por Chris Claremont e Bob McLeod em 1982, é um tanto estranho continuar chamando os Novos Mutantes de Novos Mutantes. E isso é mormente complicado quando a formação fundamental do grupo continua quase a mesma: Lupina, Mancha Solar, Miragem, Karma e Míssil (ainda que esse ainda não apareça). Sei que é uma bobagem insignificante reclamar disso, mas, considerando a evolução dos mutantes da Marvel Comics ao longo de todas essa décadas, teria sido também proveniente a modificação do nome do grupo.

Seja uma vez que for, a primeira coisa que labareda atenção em Novos Mutantes #1, escrita por Ed Brisson com Jonathan Hickman é a belíssima arte pintada do brasílio Rod Reis que, contrastando com o também magnífico trabalho de Joshua Cassara em X-Force #1, publicada na mesma semana, apresenta uma Krakoa paradisíaca capaz de aquecer o espírito de quem quer que leia a HQ e que já estabelece o tom mais ligeiro de amizade de longa data entre os jovens da equipe mutante, cá também composta por Magia, Zero, outros dois Novos Mutantes tradicionais, além de Câmara (confesso que nunca gostei da forma uma vez que os poderes dele se manifestam) e Mondo. Os personagens são todos recriados com um pé firme na tradição de cada um deles, o que empresta intimidade imediata, com os panos de fundo tanto na ilhéu viva quanto depois, na nave de Pirata e equipe sendo, sozinhos, razões suficientes para se respeitar o título e que remete o leitor ao estilo de Bill Sienkiewicz que trabalhou nos Novos Mutantes nos anos 80.

O gatilho narrativo usado pela dupla de roteiristas é muito simples, até puro: o libido dos jovens em rever seu colega Sam Guthrie, o Míssil. Uma vez que ele está em espaço Shi’ar com sua família, os Novos Mutantes usam o portal vegetal para pegarem carona com Pirata e, a partir daí, vemos a interação deles com os piratas espaciais que estão a caminho da estação espacial Condescendência. Para expressar a verdade, muito pouco em termos de ação acontece na edição, um tanto que imediatamente me lembrou de X-Men #1, de Hickman, o principal título da Aurora de X (Dawn of X). Lá, uma vez que cá, o importante é a interação entre os personagens, o restabelecimento da conexão entre eles em um primeiro passo para o que pode ser pelo menos um primeiro círculo que se passa no espaço, com os mutantes abandonados sem pestanejar por um Pirata talvez indiferente e distante demais para o meu paladar.

Essa primeira edição, portanto, parece demais com um {aperitivo}, uma vez que uma indicação do que está por vir, o que poderá – mas não deveria – alongar os que esperavam mais ação. Por fim, além da arte, o texto de Brisson e Hickman é muito muito trabalhado, com uma qualidade até poética, mormente no início em Krakoa, que consegue tomar muito a voz dos personagens nesse novo e inédito envolvente comunal, começando pela ressuscitação de Lupina até a chegada deles em seu novo lar, com uma divertida discussão em torno de moca, com uma Magia particularmente possessiva. Com isso, os autores conseguem também trazer um pouco da complicada história desses mutantes e deixar muito clara a conexão que eles carregam em razão de tudo que passaram sem se olvidar de também pincelar um pouco do status quo atual, com informações de que hoje estamos na sexta geração de mutantes e que os portais de Krakoa aparentemente se comunicam.

Em termos de primeiras edições dessa novidade tempo, Novos Mutantes #1 foi a mais ligeiro e simpática delas, uma vez que uma reunião de bons e velhos amigos que há muito não se viam, mas que têm muito em geral. Quando a história acaba, apesar de pouco ter realizado, o que fica é a sensação exata de que essa é a mesma velha equipe dos “Novos” Mutantes que conhecemos e apreciamos e que o horizonte de aventuras que eles prometem parece ser o primeiro passo para a expansão da Aurora de X para o espaço profundo.

  • Obs: Voltarei a Novos Mutantes quando o primeiro círculo for finalizado.

Novos Mutantes #1: O Sextante  (New Mutants #1: The Sextant, EUA – 2019)
Roteiro: Ed Brisson, Jonathan Hickman
Arte: Rod Reis
Letras: Travis Lanham
Design: Tom Muller
Editoria: Annalise Bissa, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 06 de novembro de 2019
Páginas: 38