Aniello Arena

Crítica | Ultras (2020)

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É difícil não associar Ultras ao longa britânico de mesmo tema, Hooligans, protagonizado por Elijah Wood e Charlie Hunnam. Em um simples reducionismo, poderia-se afirmar que este é uma cópia genérica do outro. Contudo, as duas obras vão para caminhos divergentes. Por um lado, o filme de 2005 assumia ser uma visão de fora para dentro daquele mundo, uma vez que seu protagonista era um jornalista americano tendo contato pela primeira vez com os hooligans ingleses do West Ham. Já neste novo lançamento da Netflix, logo na primeira cena, a câmera segue Sandro “Moicano” (Annielo Arena), o líder dos Apache — torcedores do Napoli — indicando que ele é a nossa referência. Se no primeiro existia um certo deslumbramento com aquele way of life, este, em teoria, deveria mostrar a visão de alguém que já está saturado dele.

Na primeira cena, Sandro está chegando a um casamento de um dos Apaches, no qual todos os integrantes estão presentes e cantarolando as músicas do time. Desde já, se estabelece que não há separação entre a vida privada daqueles homens e suas atividades. Ainda que este início faça parecer que o grupo vive em harmonia, rapidamente vemos que há três subdivisões. Temos os membros-fundadores na faixa dos 50 anos, inclusive o Moicano, que adotam uma postura mais moderada. Opostamente, os skinheads tatuados na faixa dos 30 são mais agressivos e querem fazer a torcida recuperar prestígio. Enquanto isso, entre os dois lados, temos os jovens millennials recém-integrantes que fazem de tudo para conseguir respeito na torcida. 

Pensando o filme dentro das correntes marxistas, é possível ver a antiga geração como os stalinistas, que querem apenas ficar em território napolitano e se mostram contrários à expansão da franquia, além de rejeitarem qualquer contato com o mundo exterior, como na cena em que são hostis a um casal turistas. Por outro lado, a geração mais nova insiste que eles devem rumar para a capital, Roma, e conquistá-la. Logo, o ponto principal que move a história acaba sendo justamente essa divergência de correntes diferentes dentro de um mesmo movimento, que em Ultras acaba sendo representado através deste choque geracional.

No entanto, um dos principais problemas em Ultras é que ele parece estar muito em cima do muro quanto a sua posição sobre o hooliganismo. Isso é algo que se reflete principalmente na direção de Francesco Lettieri e na montagem. Tanto na sequência em que a ala jovem joga bomba na torcida adversária e no momento derradeiro do confronto final, um corte impede que a verdadeira violência seja mostrada. Para um filme que quer falar sobre a brutalidade deste estilo de vida de forma pejorativa, curioso que o mesmo tenha tanto medo em retratar a mesma. Seria justamente através de seu excesso, que veríamos a ignorância despropositada de tudo aquilo, como acontece no terceiro ato de  Hooligans

Claro, a produção italiana também não comete o erro de reduzir os membros das torcidas organizadas em brutamontes que só querem brigar. O roteiro de Lettieri dá espaço para que se mostre um senso de camaradagem entre aqueles homens e que, através do grupo, eles puderam se sentir abraços por alguém. Neste sentido, os melhores diálogos autocríticos acabam sendo entre Sandro e o jovem Angelo (Ciro Nacca), que ele tornou seu protegido após a morte do irmão em uma briga de torcidas. Entretanto, cada tomada de decisão de Ultras nunca parece levar para frente qualquer questão que se proponha a investigar a situação mais profundamente. Ao invés disso, prefere gastar tempo em situações repetidas que evidenciam a solidão de Moicano ou que mostram a ala jovem se perdendo em festas e drogas. Certamente, há aqui uma visão pessimista que é reforçada pela fotografia escura, mas este lado parece nunca gerar um aprendizado para seus personagens. 

No fim, é significante que a última cena seja exatamente como na inicial, indicando uma sensação cíclica de que tudo irá se repetir. Um casamento repentinamente pode virar um funeral. Se há a incerteza neste estilo de vida, há uma certeza: o amor em ser Ultra. Ainda que isso tenha um custo.

Ultras – Itália, 2020
Direção: Francesco Lettieri
Roteiro: Francesco LettieriFrancesco Lettieri
Elenco: Aniello Arena, Ciro Nacca, Simone Borrelli, Daniele Vicorito, Salvatore Pelliccia, Antonia Truppo
Duração: 118 mins

Crítica | Martin Eden

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Enquanto o homem tiver poder sobre suas palavras, ele terá controle sobre si mesmo e, consequentemente, esta será sua única resistência contra as forças do mundo sobre ele. É isto que acredita Martin Eden (Luca Marinelli), um marinheiro sedutor que é aspirante a poeta (apesar de ter largado a escola) e sempre carrega um livro consigo. Da classe trabalhadora e com dificuldades de pagar o aluguel oferecido por seu cunhado, o protagonista passa a se aventurar em uma família burguesa ao se relacionar com Elena Orsini (Jessica Cressy), ao passo que toma palanque em reuniões socialistas.

A primeira coisa que chama atenção no longa de Pietro Marcello é o modo como ele insere na narrativa curtas sequências documentais tiradas do passado. Apesar de ser um filme sobre um homem em sua primeira camada, Martin Eden também é sobre o povo. Como um sonho delirante em que realidade e sonho se confundem, a experimentação de Marcello nos coloca na cabeça deste artista que passeia entre dois mundos: o da classe operária e da burguesia; da arte e da política. Basicamente, é quase como se estivéssemos diante de uma obra anacrônica, que com pitadas de neorrealismo, mas colorida em technicolor.

Em uma certa cena, Martin vai ao cinema com Elena e, enquanto a moça afirma ter adorado aquela história amável e esperançosa, o escritor não se impressiona, afirmando que já vira muitos contos como aquele e que há muitas outras coisas para se contar. Isso se desencadeia em uma discussão na qual Elena fala que a escrita de seu namorado é crua, sendo marcada pela tragédia e morte. Logo em seguida, ele retruca que para quem está de barriga cheia, é fácil dizer que não acredita na fome. Acho necessário transcrever todo este texto, pois ele é toda a essência de Martin Eden. Um filme que vive do conflito, tanto de classes mas também, principalmente, interno.

Neste sentido, é interessante ver como o roteiro de Marcello e Brauci trabalha principalmente o sentimento de não pertencimento por parte de seu protagonista, que cada vez vai se seduzindo pelos charmes da burguesia e pelos olhos azuis chamativos de Elena, mas, ao mesmo tempo, mantém ainda um flerte com suas origens, o que é metaforicamente representado pelo seu romance com a garçonete e a câmera sempre. 

Seguindo esta linha conflitante, ao discursar em um palanque operário, Martin fala que é a lei natural dos homens serem governados uns pelos outros e que, quando os revolucionários se organizarem em um Estado, a escravidão voltará. Similarmente, quando discute com aristocratas em um jantar, aponta que eles se autointitulam liberais, mas adotam medidas socialistas. Como um operário-artista que sempre seguiu seu próprio caminho e caiu de paraquedas na vida política, ele vai percebendo que nenhum dos dois grupos se preocupa com o indivíduo, algo que desperta uma raiva muito bem evocada por Luca Marinelli.

Por isso, pode até se dizer que Martin Eden é um filme um tanto quanto paradoxal e este que vos escreve talvez nem chegue a alguma conclusão alguma, já que sua própria ideia central é essa combinação de um romance de verão e um drama político dentro da mente de um artista indeciso sobre o seu próprio lugar no mundo. No fim, ao anúncio de que a guerra começara, Martin se encontra no meio da praia, estando à sua direita um grupo de imigrantes da classe trabalhadora e militares à esquerda. Recusando lados, o artista vai em frente, para o mar, rumo ao horizonte inalcançável. Uma desistência da sociedade, um reconhecimento de que nada daquilo valeu a pena? Ou a liberdade que sempre almejara para seu indivíduo?

Martin Eden  – Itália, Alemanha, França, 2019
Direção: Pietro Marcello
Roteiro: Pietro Marcello, Maurizio Braucci
Elenco: Luca Marinelli, Marco Leonardi, Vincenzo Nemolato, Rinat Khismatouline, Pietro Ragusa, Aniello Arena, Lana Vlady, Jessica Cressy
Duração: 125 min.