Andy Serkis

Crítica | Star Wars: A Ascensão Skywalker (Sem Spoilers)

Encerrar uma trilogia não é fácil, vide as diversas por aí que acabaram bem mal. Mas encerrar uma terceira trilogia e toda a dita Saga Skywalker depois de 42 anos de uma das mais amadas franquias cinematográficas é uma tarefa praticamente impossível. Mesmo compreendendo essa dificuldade inata, A Ascensão Skywalker consegue desapontar tremendamente e a razão fundamental, que pode ser desmembrada em várias outras, é a aparente falta de planejamento ao longo da Trilogia Sequência.

Na verdade, minto. Não foi falta de planejamento, mas sim o medo de seguir por um caminho pré-determinado em razão de, dentre outros fatores, a recepção dos filmes anteriores, com O Despertar da Força não agradando completamente por ser cópia de Uma Nova Esperança e Os Últimos Jedi não agradando completamente por ser diferente demais. Ou seja, possivelmente ao tentar agradar a gregos e troianos no último capítulo, a Lucasfilm entregou um filme que não só quase que recomeça a história de Rey, Poe e Finn, como em grande parte desconsidera os dois imediatamente anteriores, além de acabar sendo uma colcha de retalhos nostálgica da Trilogia Original. Em outras palavras, um simpática mixórdia cheia de sabres de luz.

Estruturalmente, dois terços do filme são uma gincana parecida com a da célebre comédia oitentista Três Amigos, mas sem o mesmo frescor: o trio de amigos pistoleiros precisa localizar o arbusto cantante para achar o espadachim invisível e, com isso, localizar o esconderijo de El Guapo. Basta trocar os três amigos por cinco (dois deles androides), o arbusto por uma adaga, o espadachim por um mapa piramidal e El Guapo pelo Imperador (Ian McDiarmid de volta) e voilà, eis toda a busca de nossos heróis pela galáxia que, no final das contas, se espremermos, concluiremos que, diferente da de Lucky, Dusty e Ned, não leva a lugar algum de verdade, não passando de uma sucessão de McGuffins mal ajambrados.

Uma coisa, porém, essa longa missão espacial faz bem. Pela primeira vez na nova trilogia, Rey (Daisy Ridley), Poe Dameron (Oscar Isaac) e Finn (John Boyega) são vistos como uma trinca e os jovens atores funcionam bem reunidos dessa forma, imediatamente esbanjando química. No entanto, a própria reunião deles atrás do planeta secreto dos Sith é forçada, como se o roteiro, marotamente, quisesse nos fazer engolir que eles sempre foram amigões desse jeito e que houve, de fato, um desenvolvimento narrativo para os personagens do mesmo jeito que Luke, Leia e Han Solo tiveram na Trilogia Original. Mas só que ninguém é bobo e essa tentativa fica só assim mesmo, na tentativa.

Aliás, falando em planeta secreto dos Sith, a reintrodução do Imperador, o que acontece não nos segundos iniciais de projeção, mas sim antes ainda, nos créditos rolantes de abertura, é a prova cabal de que a Lucasfilm/Disney resolveu fazer um soft reboot em sua trilogia. O Sith malvadão é marretado na história com direito a toda uma gigantesca frota nova de destróieres imperais (como se a Primeira Ordem precisasse disso para derrotar meia dúzia de rebeldes em naves enferrujadas) e uma nova missão para Kylo Ren (Adam Driver), que continua sendo o mesmo personagem cheio de dúvidas de antes, sem tirar nem por, mas agora cercado de seus completamente aleatórios Cavaleiros de Ren que não significam absolutamente nada dentro da trama a não ser possíveis novos bonequinhos para serem comprados por ávidos fãs.

Não bastando a gincana e a volta do Imperador, A Ascensão Skywalker é uma impressionante (no mal sentido) coleção de reviravoltas e revelações que fazem o filme andar na base de solavancos. E, pior ainda do que isso, nenhum desses twists é contado com o finesse de Vader revelando a Luke que é seu pai ou Yoda dando a entender que há mais um Jedi ou a revelação de que esse Jedi é Leia. É tudo sem graça, como canja de galinha pré-pronta, e refaz e redireciona tudo – absolutamente tudo – o que foi estabelecido antes e até mesmo desfaz muito facilmente situações e eventos interessantes que são introduzidos no próprio filme (não darei exemplos para evitar spoilers).

Ok, ok. Não tudo. A conexão entre Kylo Ren e Rey na Força, uma excelente concepção de Os Últimos Jedi, é bem desenvolvida aqui e, se esquecermos tudo o que há ao redor, funciona muito bem, contando com um ótimo fio narrativo que tem sua própria lógica e verossimilhança, além de render os melhores momentos dramáticos da fita, ainda que Adam Driver e Daisy Ridley não estejam exatamente brilhantes aqui. Além disso, há uma boa elipse entre um filme e outro que permite que aceitemos mais suavemente que Rey vem treinando sob os auspícios de Leia (Carrie Fisher aparecendo econômica, mas dignamente) por um tempo e, com isso, melhorando exponencialmente seu controle da Força. Provavelmente muita gente reclamará de algumas novas habilidades, mas isso vem no pacote e não me incomodou nem um pouco já que esse aspecto tão importante da saga nunca foi explorado profundamente nos filmes e há muito espaço para manobra.

No entanto, a fotografia escura do terço final da obra incomodou-me muito. Em uma escolha paupérrima de J.J. Abrams e do diretor de fotografia Dan Mindel (Star Trek, John Carter), os conflitos finais na superfície e nos céus do planeta Sith (não é spoiler dizer que ele é encontrado não é mesmo, até porque ele aparece no primeiro minuto de projeção) são quase que completamente no escuro. Se por um lado é interessante usar as sombras para amplificar a sensação de ameaça (a frota imperial na “neblina londrina” ficou indubitavelmente bonita), por outro a ação perde em intensidade. Na superfície então, chega a cansar, especialmente em 3D que contribui para escurecer ainda mais a experiência e fazer o Imperador parecer o Mancha Negra, só que todo carcomido.

Pelo menos Abrams e Mindel capricharam em outras sequências, especialmente nas que se passam nos destroços da segunda Estrela da Morte e no planeta desértico em que Rey enfrenta Kylo Ren em seu Tie Fighter. É uma pena que o roteiro – que passou por uma penca de escritores – seja tão episódico e tão dependente de idas e vindas, pois era perfeitamente possível engatar a história diretamente a partir dos eventos finais de Os Últimos Jedi sem precisar tirar o Imperador da cartola ou retornar ao assunto irritante do parentesco de Rey ou mesmo forçar a inserção constante de todos os elementos nostálgicos possíveis, a começar da volta narrativamente inútil de Lando Calrissian (Billy Dee Williams) e passando até pela trilha sonora de John Williams que caprichou nos leit motifs clássicos, mas sacrificando a novidade no processo.

A Ascensão Skywalker é uma colcha de retalhos que parece refletir enorme hesitação por parte da produtora em seguir um caminho pré-estabelecido por receio de melindrar fãs vocais que normalmente pouco sabem o que querem. Havia um belo filme a partir de Os Últimos Jedi e ele até aparece algumas vezes debaixo dos escombros do que acabou chegando nas telonas, mas é pouco demais para tudo o que podia ser feito. Nostalgia é bom, não tenham dúvida, mas não quando ela vira bengala narrativa para tentar agradar todo mundo.

Star Wars: A Ascensão Skywalker (Star Wars: The Rise of Skywalker, EUA – 2019)
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: Chris Terrio, J.J. Abrams (baseado em história de Derek Connolly, Colin Trevorrow, Chris Terrio e J.J. Abrams e personagens de George Lucas)
Elenco: Adam Driver, Daisy Ridley, Billie Lourd, Keri Russell, Carrie Fisher, Mark Hamill, Ian McDiarmid, Kelly Marie Tran, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Oscar Isaac, Domhnall Gleeson, John Boyega, Billy Dee Williams, Joonas Suotamo, Dominic Monaghan, Richard E. Grant, Anthony Daniels, Naomi Ackie, Greg Grunberg, Jimmy Vee, Amir El-Masry, Dave Chapman, Brian Herring
Duração: 141 min.

Crítica | Operação Presente

O que esperar de um filme natalino intitulado Operação Presente? No mínimo, uma ode ao verbo que está entre os cinco mais conjugados do período: “presentear”, claro, haja vista o nome da produção que guia a reflexão em questão. Dirigida por Sarah Smith e por Barry Cox, dupla que também assumiu o roteiro, em parceria com Peter Baynham, a animação versa sobre o processo de organização e entrega dos presentes natalinos pelo Papai Noel e sua equipe de colaboradores, comandada sob um grupo de líderes bem organizados diante da missão mais importante do ano no contexto de suas histórias.

Lançado em 2011, Operação Presente é uma produção que descortina a história de Arthur (voz de James McAvoy), filho de Papai Noel, o vigésimo de sua linhagem. Ele é quem veste a camisa das tarefas familiares e se encanta diante da felicidade de cada criança a receber o seu presente. Há beleza e virtude na ação e por ser desajeitado, o jovem não é a primeira opção de seus pais no comando da atividade num futuro próximo. Como desafio, há o aumento populacional que impede a tarefa de ser algo simples, ao contrário, é repleta de obstáculos desafiadores.

Com seu tamanho gigantesco, a nave S1 é o meio de transporte para a entrega dos presentes, sem renas e trenós, elementos considerados como coisa do passado. Assim, o filme entrega uma de suas discussões, focada em tecnologia, ao refletir como o Papai Noel consegue entregar tantos presentes em apenas uma noite? Debate da contemporaneidade, era dos aplicativos e da democratização em larga escala da cibercultura, com o ofício herdado por gerações comandado por meio de monitoramentos, computadores e outros itens de alta tecnologia.

O Papai Noel (voz de Jim Broadbent) já prepara os jovens para assumir missões no futuro, tal como o Vovô Noel (voz de Bill Nighy) fez quando necessário. Steve (Hugh Laurie), inicialmente colocado para ser o sucessor, recebe um cargo administrativo no processo de organização da entrega de presentes, haja vista a sua praticidade na atividade, sem deixar espaço para sentimentalismo ou distrações que o atrapalhe no exercício de sua função, afinal, a divulgação do filme delineia no cartaz: “já pensou como dois bilhões de presentes são entregues numa só noite?”.

Diante dos conflitos mais básicos, algo toma a preocupação dos envolvidos de maneira mais urgente. Após todas as entregas, descobre-se que uma garota do sudoeste da Inglaterra não recebeu o seu presente. Assim, torna-se possível que a garota perca relativamente a sua crença na magia natalina. É a chance de Arthur mostrar serviço e comprovar que por detrás de seu jeito desengonçado, há força para assumir tarefas complexas como as exercidas por seu pai. É algo desafiador e novo. A dúvida é saber se ela conseguirá ou não dar conta da incumbência.

Assim, em seu processo narrativo, Operação Presente conta com imagens deslumbrantes, produzidas com apoio da equipe de efeitos visuais comandada por Doug Keller, profissional que teve como apoio, a condução musical leve de Harry Gregson-Williams. São imagens que guiam um roteiro acima da média, diferente do que geralmente se faz no campo da animação, isto é, a excessiva facilitação narrativa para atingir o público infantil, majoritário diante deste tipo de filme. Produzido pelos estúdios Aardman, teve distribuição da Sony Pictures e foi um relativo sucesso de público.

E, por fim, a reflexão adicional sobre o natal, época em que o amor é a questão moral que mais importa. Alguns colocam o seguinte ponto: o que seria uma prova de amor mais contundente que o ato de presentear? Desculpa de consumista ou atitude exclusivamente nobre? Na ótica da animação, despreocupada com esse tipo de preocupação, afinal, não é parte de seu foco narrativo, presentear é algo basicamente industrial, mecânico, necessário para se estabelecer a ordem das tradições vigentes. É uma operação de caráter militar.

Operação Presente (Arthur Christmas/Estados Unidos, 2011)
Direção: Sarah Smith
Roteiro: Peter Baynham, Sarah Smith
Elenco: Adam Tandy, Alan Short, Alistair McGowan, Andy Serkis, Ashley Jensen, Bill Nighy, Bronagh Gallagher, Clint Dyer, Cody Cameron, DannyJohn-Jules, David Schneider, Deborah Findlay, Dominic West, Donnie Long, Emma Kennedy, Eva Longoria, Finlay Duff, Hugh Laurie, Iain McKee, Ian Ashpitel, Imelda Staunton, James McAvoy, Jane Horrocks
Duração:  97 min

Crítica | Star Wars: A Ascensão Skywalker (Com Spoilers)

  • Contém spoilers! Leia a crítica sem spoilers aqui, e confira aqui nossa coleção de textos sobre Star Wars, em constante expansão.  

Será que eles fazem isso de propósito? Só pode ser isso. Tem que ser isso. Só pode ser de propósito…

Ame o produto, odeie o produto, consuma o produto

Certa vez alguém me disse: “você só se torna um legítimo fã de Star Wars a partir do momento em que odeia [alguma coisa de] Star Wars”. Pode parecer apenas um comentário irônico a respeito dos desprazeres do fandom, mas por outro lado faz até sentido: dá para odiar aquilo que diz respeito a algo que simplesmente não te importa?

Dada a multiplicidade de obras explorando o universo criado por George Lucas, a chance é altíssima de que alguma coisa no meio do caminho entre Uma Nova Esperança e o que quer que tenha tentado sucedê-lo simplesmente não caia bem. Não caia nada bem. E então vem o ressentimento, a irritação, a rejeição completa e total dessa nova peça , tão detestada justamente por não encaixar direito no quebra-cabeças tão querido que você trazia no coração. Para alguns, um quebra-cabeças de apenas duas ou três peças, para outros podem ser centenas  —  não importa.

O ponto é que o ódio vem porque a nova peça destoa, incomoda e arruina aquele todo impecável e livre de falhas que era a galáxia muito, muito distante até então. “Tudo era tão perfeito até “X” acontecer e agora veja só, todas essas memórias, toda essa magia, toda a minha infância/adolescência/juventude/vida adulta estão destruídas. Muito obrigado pela punhalada nas costas, George Lucas/J. J. Abrams/Rian Johnson/Jar Jar Binks!”

Esse poder místico da série, embora encontre paralelos em outras franquias, provavelmente deve-se à genialidade sui generis da Trilogia Original, um cinema que, por mais que pudesse ter objetivamente suas limitações, resultou em um conjunto muito superior à soma de suas partes nos mais diversos níveis imagináveis. O time criativo capitaneado pelo jovem George Lucas não apenas “engarrafou relâmpago”: ele engarrafou Hefesto inteiro e saiu vendendo trovões nas salas de projeção e pequenos raiozinhos de polietileno em embalagens da Kenner.

Quase meio século depois, seguimos amando e odiando Star Wars, e a franquia segue sendo comentada nesse misto de sentimentos verdadeiros com as tentativas vãs de contê-los: o cinismo cool, o tecnicismo dos críticos, os boicotes cultistas, os artigos em busca do clickbait perfeito. Tentativas de tampar com a peneira o poder ainda avassalador do relâmpago de um filme barato de 1977. E isso tudo, claro, refletindo nas tentativas da titânica Casa do Camundongo em manter o seu Hefesto de 4 bilhões de dólares bem engarrafadinho e devidamente produtivo.

Aproveitando o momento para um breve corolário. Eu creio ter consciência do meu status: eu amo (o meu quebra-cabeças pessoal de) Star Wars. Não é algo universal. Para quem não foi acometido por essa condição, a dinâmica deve ser simplesmente outra. Também deve haver conversa interessante para se ter nesse meio. Mas eu só posso falar desse lugar. Eu leio (e releio) os livros e quadrinhos em detrimento de coisas potencialmente melhores, idem para os jogos —  putz, minha maior expectativa em relação a A Vingança dos Sith era saber se o Quinlan Vos tinha alguma chance de aparecer! Ou seja, nesse momento, vos escreve um crítico 100% comprometido e parcializado sob essa condição, para bem e para mal… Eu me diverti com o filme, gostei de várias cenas que considero objetivamente boas e até mesmo com outras nem tanto. Ao invés de ressaltar por várias vezes o que funcionou para mim, que foram dois componentes bem básicos: a caracterização do elenco principal (até certo ponto do filme) e o aspecto de aventura, quero tentar passar por eles mas me ater nos “porquês” a respeito do que não funcionou.

Dr. John Watson vs. Sir Arthur Conan Doyle

Dentre todas as trapalhadas da Disney em lidar com essa Trilogia Sequência que agora se encerra, é possível que a que inicialmente tome corpo no imaginário do público seja a suposta grande “richa” de bastidores: J. J. Abrams vs. Rian Johnson. Porém, por mais que essa briga se reproduza entre os fãs na forma dos defensores ferrenhos de duas abordagens igualmente cheias de elementos indefensáveis, acredito que a verdadeira disputa aqui seja entre duas figuras mais inusitadas: o fictício Dr. John Watson e seu criador em carne e osso, Sir Arthur Conan Doyle. Me refiro às perspectivas intra-narrativa (watsoniana) e extra-narrativa (doylista) com que se pode observar o universo diegético desses novos lançamentos.

A primeira, “watsoniana”, nos faz coincidir com o ponto de vista interno da narrativa  —  o “John Watson de Star Wars”, o misterioso autor que, in loco, cordialmente nos escreve “A long time ago, in a galaxy far, far away…” sem assinar nada embaixo, e segue nos relatando os eventos a partir de seu ponto de vista tácito.

Esse pobre coitado frequentemente parece ser esquecido em prol do segundo ponto de vista, “doylista”, que permeia a experiência de interpretação dos fãs ao jogar frequentemente para um locus externo o ponto de apoio da narrativa. Nós sabemos muito bem quem escreveu aquela frase, e também que o texto introdutório, ao invés de miraculosamente traduzido do basic para o inglês/português e transmitido por vários anos-luz até chegar aqui, foi meticulosamente escrito com base em intenções de marketing, expectativas de retorno e reações de grupos focais. E não abrimos mão de nos lembrar disso na hora de tentar apontar os motivos pelos quais um dos filmes nos desapontou.

Esse deslize em direção ao doylismo torna toda a discussão em torno das obras mais pantanosa e nebulosa do que o necessário: de repente, ao invés de nos ocuparmos dos autênticos elementos dramáticos que, afinal de contas, foram o que inicialmente nos fisgaram e nos mantiveram motivados ao ponto de ir ao cinema de madrugada em pleno meio da semana, estamos vociferando maldições em direção às grandes corporações, nos desgastando em meio ao fogo cruzado do tedioso review-bombing e dos absurdos tomatômetros e fantasiando disputas fúteis entre diretores na busca por encontrar a origem de tamanha vilania do mundo real.

Não que o jovem George Lucas não possa ter tido, obviamente, suas inspirações e motivações mundanas, sejam elas quais foram. É que, originalmente afastada de todo esse contexto extra-narrativo massivo, sua película seminal conseguiu disfarçar muito bem esse fato inconveniente. Se eu tivesse que resumir o mais brevemente possível o porque eu acho que o primeiro “Guerra nas Estrelas” é um filme tão bom, eu diria que é porque ele te transporta com uma facilidade inacreditável direto para o coração de um universo diegético único. Faz até parecer que é fácil!

De forma absolutamente improvável, apoiado em um contexto favorável onde Lucas ainda não tinha tomado para si o controle total de suas produções (e, com isso, descartado o senso crítico pela janela tal qual Darth Sidious fez com Mace Windu), O Império Contra-Ataca nos trucou em cima desse feito inicial de forma brilhante, adicionando novas camadas de dramaticidade e recheando a narrativa com elementos riquíssimos de toda boa jornada heroica que garantiram que Luke, Leia e Han se tornassem o que se tornaram no imaginário pop.

A partir de então, a marca penou para reencontrar e repetir a essência por trás dessa dobradinha miraculosa. Sim, convenhamos, sem cinismo e com todo o amor que a franquia merece: desde O Retorno de Jedi, Star Wars no cinema tem sido, em medidas variáveis, um show de derivativismo, auto-indulgência e comentários “meta” a respeito da própria grandeza e importância. Em uma era em que a discussão dos filmes transcende de longe os limites da experiência da sala de cinema, se antecipando por meses antes e se alongando por anos depois com uma intensidade sem paralelos, esse efeito “meta” só foi sendo cada vez mais potencializado, mudando o que o “evento” de lançamento de um filme significa efetivamente — e em nenhuma franquia no mesmo nível do que nessa.

A Ascensão Skywalker é apenas o climax explosivo dessa tensão crescente entre expectativas impossíveis e auto-referencialidade sem limites, mais de trinta anos cozinhando pelos cantos de cada produção que levou a marca. É onde essas forças se chocaram com tamanha potência que fizeram explodir as fronteiras do universo diegético da Galáxia rumo às Regiões Desconhecidas da sala de cinema. Nem precisamos comprar a sessão em 3D para sentir os escombros voando diretamente da tela em nossa direção!

Eu estava determinado a não ser doylista demais neste texto, queria criticar o filme sob uma perspectiva protegida de todo “ruído externo”. Mas me parece um feito impossível: o próprio filme rompe qualquer barreira que houvesse antes entre os dois pontos de vista, fazendo Doyle descer uma bicuda na cara de um incauto Watson logo na introdução, e prosseguindo com seu implacável espancamento até que o pobre doutor tivesse saudades de seus tempos de guerra.

Com a sutileza imagética de literalmente milhares de cruzadores imperiais levantando da tumba e poluindo o céu em uma completa agressão aos sentidos, à credibilidade e ao bom senso, a narrativa da trilogia que se iniciou com cuidado recalcitrante termina no estouro ridiculamente cartunesco de um Imperador morto-vivo fritando uma frota inteira de batalha espacial com os improváveis relâmpagos de um roteirismo que soaria rasteiro até mesmo em uma fanfic de iniciante.

Como foi que chegamos aqui, mesmo?

Os póstumos Jedi

Entre as duas produções mornas dessa nova trilogia até então, eu fui pego mais fácil pelo divertido e empolgante show de ilusionismo de O Despertar da Força. Apesar de contar com momentos geniais, tomado em seu todo eu não gostei de Os Últimos Jedi (“Ohhhh, então esse aí é um desses!”). Para mim, ele briga (e possivelmente perde) com Ataque dos Clones como filme da saga que eu menos gosto  —  e sem a vantagem do vínculo de nostalgia que eu possuo em relação à Trilogia Prelúdio (nós existimos e ainda seremos a maioria!). Consigo entender, respeitar e até concordar com alguns dos pontos que os espectadores de opinião mais favorável apontaram sobre a película, mas ainda assim ela jamais me desceu como algo além de um grande (ainda que belíssimo) balde de água fria sobre as promessas do antecessor, pobre e preguiçosamente pretensioso em termos de desenvolvimento de seus personagens e temas centrais.

Raramente, no entanto, eu me senti compreendido em termos do que exatamente me desagradou naquele filme: ao invés de pensar na inconsistência interna e má execução de toda a subtrama de Canto Bight (para mim, a sequência mais medíocre de eventos de toda a saga nos cinemas) ou na forma desnecessariamente vaga e lenta com que a narrativa explora seus momentos de inegável brilhantismo, por exemplo, a discussão frequentemente degradou na polarização entre os que vêem os trajes invisíveis do Imperador Rian Johnson (um roupãozinho todo trabalhado em ouro muito maneiro, ouvi dizer!) e os que não conseguem enxergá-los por “n” motivos externos. “Subversão de expectativas” vs. “jogar seguro na nostalgia”  —  como se as infinitas possibilidades de Star Wars se resumissem a essa escolha binária simples!

Sob uma perspectiva watsoniana, não se resumem. Os livros, HQs, games e tudo o mais estão aí para provar: a riqueza desse universo compartilhado é imensa, e ele foi capaz de gerar muitos frutos dignos de elogio e credibilidade para além dos seus sucessos (e fracassos) cinematográficos. Infelizmente, no mundo dos filmes e sob uma perspectiva doylista, parece que o prognóstico não foi favorável, ao menos sob os olhos de nosso Imperador Camundongo. E a “recepção mista/dividida” do filme anterior aparentemente foi o suficiente para gerar impacto no já fragilizado processo criativo do capítulo final. Lado a lado ao (ao invés do?) trabalho narrativo, a recepção do público e o blábláblá hiperbólico das mídias sociais, revestido de uma importância até então inédita.

Já sofrendo absurda e obviamente da total ausência de planejamento prévio e coordenação mínima de esforços nas salas de roteiro, a Trilogia Sequência acabou se revelando ironicamente ainda menos do que a Trilogia Prelúdio na medida em que abandonou qualquer intento cinematográfico autêntico e aceitou de vez seu destino como mero produto. Eu sei, é um criticismo clichê, genérico e previsível  —  mas, ainda sim, é a descrição mais acurada a que eu consigo chegar. Isso é tão explícito que me faz pensar que talvez J. J. (ou talvez a presença etérea na Força de todos os diretores que o precederam) esteja nos passando uma mensagem de propósito nos momentos mais absurdos da película. “Olha o que vocês fizeram, com sua nostalgia cega e seu desejo rábico por baldes de pipoca em forma de capacete de stormtrooper!”.

Desculpa, seu Abrams, mas essa culpa eu não carrego. Se o trabalho (nada inevejável) dos times de marketing é mapear o frisson dos fãs ensandecidos em busca de diretrizes para garantir retornos futuros da marca, acredito que o compromisso de um time criativo sério, em um mundo ideal, deveria ser o de ignorar esses babacas nem que custe os empregos deles jamais assinar embaixo de uma peça publicitária como se tivesse entregado um filme. É preguiçoso, é tacanho, chega a ser desrespeitoso pelo fato de ser muito menos do que a série, como patrimônio cultural coletivo, merecia. Cada pequena “pontada” desferida contra Os Últimos Jedi ao longo dessa ego-trip insana de J.J. Abrams me confirmava a impressão de que esse elemento é imprescindível para termos uma compreensão mais completa do que se passa aqui. É o primeiro filme da saga que exige, nesse nível, uma contextualização externa para tentar fazer algum sentido sobre suas escolhas. E isso é significativo, não?

Querida, revivi o Palpatine

Desde a icônica introdução textual fica já evidente o nível danoso de auto-consciência do filme a respeito de sua natureza. Você, que achava que tinha vindo assistir ao terceiro capítulo de uma trilogia, logo percebe que não se trata disso. Se trata sobretudo de uma formalidade, um cumprimento de obrigação contratual. Após investir em dois longas inteiros inexplicavelmente dedicados à construção de momentum com bem pouco payoff, chegamos aqui absolutamente a lugar nenhum, em termos narrativos. “Palpatine está de volta, e agora mais poderoso do que nunca! Poderão nossos heróis se juntarem para vencê-lo com o poder da amizade?”.

Nem mesmo na edição de conclusão do arco mais descartável do gibi mais sem vergonha de Star Wars eu acho que já vi uma martelada de enredo com tamanha cara de pau quanto essa passagem realizada entre os Episódios VIII e IX. Algum tipo de esclarecimento sobre a premissa de que a Resistência precisaria se reerguer das cinzas, sobre qual é seu atual status agora e tudo mais? Tensão política e social entre a Primeira Ordem e a Resistência? Efeitos das jornadas pessoais de Rey (Daisy Ridley), Finn (John Boyega), Poe (Oscar Isaac), Rose (Kelly Marie Tran), Chewie (Joonas Suotamo), Leia (Carrie Fisher) e quem mais quer que estivesse presente na escapada final da Millenium Falcon após a Batalha de Crait? Desenvolvimentos de qualquer tipo a respeito das consequências dos eventos significativos dos dois últimos filmes?

Nada disso. Palpatine (Ian McDiarmid) está de volta porque sim, e é hora de nossos heróis começarem a caça ao tesouro do titio J.J. logo, porque se demorar demais é capaz dele criar novas “caixas do mistério” sem futuro algum! Aparentemente, essa é a melhor forma que a equipe criativa e um orçamento tendendo ao infinito encontrou para encerrar, tecnicamente, três trilogias. O que não era para ser um problema até então: mesmo com o time de marketing tagerelando sobre ser esse o final da “Saga Skywalker” (e o fato de que os episódios numerados tradicionalmente se restringiam a ela), narrativamente até então a Trilogia Sequência se encontrava bem posicionada para se resolver bem assim que amarrase os arcos pessoais de seus personagens. Ao reviver o grande vilão dos seis filmes anteriores, no entanto, o que se conseguiu foi colocar uma nova camada de pressão sobre a produção: além de ter que servir aos caprichos do “vai-não-vai” advindo do dramalhão que circundou o filme anterior, agora essa película também se torna responsável por encerrar não uma narrativa de três, mas sim de nove filmes. Diga-se o que quiser sobre as infames prequels de Lucas, mas narrativamente O Retorno de Jedi continuou a servir como encerramento perfeito e redondinho de uma trama transgeracional em seis capítulos.

Que fique claro: óbvio que é parte do estilo (e charme) de Star Wars adotar, sempre que possível, a estratégia in medias res  —  ou seja, criar narrativas que nos jogam de cara no meio de situações complexas dispensando a exposição de elementos-chave que nos levaram até ali. Não é por menos que a franquia se iniciou no quarto episódio e tudo mais, certo? Na verdade, a única transição que dispensou o recurso foi aquela entre os dois Episódios anteriores a esse. Porém há uma enorme diferença entre um time skip, por mais preguiçoso que seja, e um completo giro de 180 graus em direção a um outro filme surgido do nada e completamente incompatível com as linhas narrativas dispostas até ali. Ainda que teoricamente fosse possível inserir um retorno-surpresa do Imperador a essa altura do campeonato, certamente que um cuidado maior do que essa deturpação do crawl text era necessário para a coisa funcionar em qualquer nível não-caricato.

A partir desse novo foco, eleito não a partir dos ganchos narrativos disponíveis, mas do éter da genialidade de Abrams, a única coisa que conecta os conflitos, temas e elementos centrais de Os Últimos Jedi com A Ascensão Skywalker (e, por tabela, inclusive com O Despertar da Força) são os arquétipos de nosso trio principal, alguns elementos do lore da série tomados de forma o mais geral possível e um esboço de arco tumultuosamente realizado entre Rey e Kylo Ren/Ben (Adam Driver)  —  o único fio condutor que não acaba completamente em curto-circuito ao final do kamehameha Sith do Imperador zumbi.

A Resistência e a Primeira Ordem são duas entidades que, na passagem do primeiro para o segundo ato do filme, simplesmente cedem lugar a “pessoal do bem” versus “exército do mal”, respectivamente. Cada movimento do (desajeitadamente acelerado) primeiro ato do filme mal consegue disfarçar seu caráter burocrático, telegrafando necessidades pouco otimizadas do roteiro preguiçoso em tentar nos convencer que, de alguma forma, os ganchos narrativos oferecidos até então poderiam desembocar organicamente em uma investida da Resistência contra uma frota Sith que brotou ex nihilo nas Regiões Desconhecidas da Galáxia. Qual era a necessidade de que fosse assim? Era a única saída para se obter um espetáculo visual tão hiperbólico e vazio que deverá causar pesadelos terríveis para Michael Bay para todo o resto de sua vida, se é que isso era inevitável em temos marketeiros? Não dava para chegar nesse mesmo final inevitável de alguma forma minimamente elegante ou, quem sabe, racional?

A ascensão MacGuffin

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Ironicamente, o corre-corre inicial dá origem a algumas das sequências que mais me agradaram em todo o filme. Mesmo inseridos em mais uma gincana de caixa do mistério, nosso grupo de heróis funciona muito bem em todos os níveis. A busca pelo rastreador Sith me fez lembrar alguns dos meus elementos favoritos de Star Wars, justamente aqueles até então esquecidos no desfile de auto-homenagens que foi essa nova trilogia.

Falo do senso de aventura espacial imprevisível e despreocupada, repleta de elementos misteriosos a cada virada do roteiro e embalada pela interação de um elenco carismático formado por um conjunto de arquétipos muito interessantes. O tipo de tonalidade vista nas sequências iniciais de O Retorno de Jedi, ou então, indo mais longe na coisa, que pontuava as aventuras lá do início do antigo Universo Expandido, como os quadrinhos originais da Marvel e o livro Splinter of The Mind’s Eye, nas quais as regras e o lore ainda não eram bem estabelecidos o suficiente, reinando assim a imaginação selvagem dos roteiristas inspirados pela obra-prima audiovisual original e nada mais.

E isso tudo com o mérito de uma tão bem-vinda originalidade: nosso grupo de heróis lembra suficientemente a tripulação clássica da Millenium Falcon, sem correspondê-la ponto-a-ponto o suficiente para tornar a coisa um exercício em futilidade — um mérito, em se tratando do Star Wars de J. J. Abrams. As relações internas no grupo convencem bastante, nos fazendo lamentar que “não tenhamos tido tempo” para explorar essa dinâmica antes (claro, mais importante foi o desfile de clichês pretensiosos da inexplicável digressão a Canto Bight!), o que também não desculpa Abrams da forma preguiçosa com que ele tenta nos convencer de que ele faz outra coisa aqui que não recortar situações sem grande sustentação narrativa para além do imediato.

A tensão entre Finn e Poe, a exploração de habilidades inéditas na Força através da misteriosa ligação entre Rey e Ben, a ideia da adaga Sith com a mensagem intradutível e a subsequente missão para hackear C3-PO (Anthony Daniels)  —  tudo isso recheia o ato inicial com ares de um divertido swashbuckler espacial, nos fazendo lembrar que, afinal de contas, essa doideira toda nasceu de um pastiche de Flash Gordon. Adorei e me diverti por cada segundo disso tudo, mesmo por entre o peso do ritmo caricaturalmente acelerado.

Anthony Daniels realiza sua volta da vitória com o C3-PO mais engraçado desde Uma Nova Esperança, Daisy Ridley ecoa algumas da melhores performances de cavaleiros Jedi do passado, com seu próprio twist pessoal, e o restante do elenco de heróis entrega performances no mínimo à altura de seus melhores momentos na série até então. No geral, senti que especialmente nessa sequência inicial de caçada aos MacGuffins o filme trouxe uma pegada mais fiel à caracterização dos personagens cuidadosa e demoradamente feita na abertura dessa trilogia, algo que faltou ao Episódio anterior e que infelizmente torna a desaparecer a partir do segundo ato do filme.

A variedade vertiginosa de paisagens e mundos mostrados remedia um pouco do senso claustrofóbico do filme anterior  —  quero crer que não exatamente por esse motivo, já que a insistência babaquíssima do filme em desfilar “indiretas” para supostamente agradar os espectadores que não curtiram a entrada anterior é talvez o signo mais podre do corporativismo que, infelizmente, exala pelos cantos desse filme.

Não que essas qualidades todas anulem os problemas relativos à caçada pelo artefato Sith que, no final das contas, é a textual definição do MacGuffin. Embora o termo possa ser usado de forma ampla para designar o papel que esse tipo de dispositivo tem na construção de roteiros, esse caso particular é praticamente a definição textual da ideia em seu pior sentido. O que define o MacGuffin é que ele é vazio e possui uma relação cíclica com a narrativa. Ele é necessário porque a narrativa precisa que ele seja  —  e o caso aqui é que se tratam literalmente das coordenadas mágicas para o terceiro ato do filme. E é nesse sentido que, por mais divertida que essa aventura inicial seja, a coisa toda começa a se desmontar…

O adormecer da Força

Logo abaixo dessa caçada pelo artefato Sith, que se encerra já passada a metade do filme encontramos… nada! As reais e inegáveis limitações do enredo começam a pipocar na medida em que percebemos que as facções em conflito já abandonaram o roteiro. General Hux (Domhnall Gleeson) se torna finalmente um personagem gostável por cerca de três minutos antes de ser sumariamente executado por uma cópia do Tarkin mais uma das criações originais de Abrams, o General Pryde (Richard E. Grant). Uma linha de diálogo tenta semear algum mistério em torno do figura — jura, mesmo? A essas alturas? Após essa fuga, não resta mais qualquer vínculo narrativo entre os personagens principais e a facção que foi construída ao longo de dois filmes.

Na verdade o que ocorre é apenas a explicitação disso: a Primeira Ordem se torna um conceito totalmente obsoleto literalmente nas primeiras cenas do filme, a partir do momento em que Kylo Ren já não se foca mais nos ideais da facção, mas sim em sua relação na Força com seu novo e aleatório mentor que conjurou do éter um poder destrutivo que torna todas as três guerras retratadas pela saga um exercício de redundância sem sentido. Já a Resistência, pouquíssimo trabalhada após um filme que tanto se debruçou a respeito de seu significado, se mantém um elenco de apoio sem face ou peso narrativo algum, aguardando o momento para ser convocada para a batalha final. Fora os gatos-pingados que são capitaneados por Poe na investida final, o que realmente parece reforçar o exército contra os cruzadores inexplicavelmente tripulados de Palpatine são os reforços milagrosamente convocados por Lando (Billy Dee Williams, sacado da manga sem muito compromisso toda vez que o roteiro parece poder se servir de um fanservice rápido e teoricamente eficiente) antes da batalha final. “São apenas… pessoas!”. Misericórdia…

Finn e Poe recebem o que parecem as versões resumidas de algumas das subtramas imaginadas para os personagens sob um contexto completamente diferente. O bando de stormtroopers desertores de Jannah é um conceito visualmente e narrativamente bem bacana, com potencial para expandir o personagem de Finn. Ou seja, várias qualidades que ressoariam muito bem em um outro momento que não o iminente desfecho total de uma saga de nove filmes a ocorrer dentro da próxima hora. Fora isso, a coisa toda acaba sendo construída mais como forma de tirar o ex-stormtrooper do caminho de Rey (irônico, vindo de quem se mantém em tamanha vantagem em relação aos erros do filme anterior), livrando-a para prosseguir com a última linha narrativa ainda de pé nessa bagunça toda: sua ligação na Força com Kylo e a jornada deste rumo ou à danação eterna e potencial destruição da Galáxia, ou à redenção.

A exploração dass habilidades de ambos nos garante não apenas momentos incríveis de ação como verdadeiros espetáculos visuais e — por que não? — dramáticos ao longo de toda a película. Mesmo depois que o restante do filme entra em stand-by, a maioria das cenas com Ridley e Driver na tela não deixa nunca de empolgar e entreter. A batalha no deserto é um belíssimo espetáculo visual de ação, enquanto a jornada pelos escombros da Estrela da Morte cumpre bem revisitar o local sob uma atmosfera especialmente tensa e clautrofóbica. A batalha climática não decepciona, encaixando o inevitável sacrifício de Leia em uma montagem bem feita e muito eficiente. Por sua vez, a aparição de Han Solo (Harrison Ford) e a subsequente cena de redenção de Ben, ecoando a cena já icônica de O Despertar da Força, completa uma conclusão emocionalmente ressoante para a trama pessoal do último Skywalker — o que, no contexto atual, é um luxo do qual praticamente nenhum outro personagem desfruta. Definitivamente um dos pontos altos de fanservice filme, ganhando do ótimo reencontro de Rey com Luke (Mark Hamill), que sofre de um ritmo exageradamente acelerado.

Infelizmente, mesmo esses acertos se dão contra o pano de fundo da revelação, também inevitável, a respeito da real ascendência de Rey. A pobreza de espírito e secura criativa da decisão em “revelar” Palpatine como o avô de Rey não advém tanto da teimosia em negar Os Últimos Jedi (embora talvez a Disney devesse ter considerado responder ao patético abaixo-assinado requisitando o cancelamento imediato do filme, se era para lidar com a coisa desse jeito) — a série tem toda uma tradição em retconnar as relações de parentesco de seus protagonistas, Obi-Wan Kenobi já saberia muito bem. A argumentação infame do mestre de Anakin é revivida aqui na total cara de pau (“It was the truth, from a certain point of view…“) e, teoricamente, o crime não é tão diferente quanto fazer de Vader o pai de Luke após o filme inicial declarar que isso definitivamente não era o caso.

O único detalhe é que, enquanto revelar que Vader é o pai de Luke adicionou tensão e construiu uma camada de complexidade sobre uma narrativa que, para todos os efeitos, já se encontrava em seu ápice, a revelação chocha a respeito de Rey não apenas é mal e porcamente executada na tela, mas ainda por cima consegue a façanha de amarrar o destino de nossa protagonista, ponto central e principal da identidade de toda essa trilogia, com o elemento absolutamente mais frágil e sem sentido do filme, leia-se o revivido Palpatine. Não bastasse literalmente exumar o Imperador e colocá-lo suspenso como um fantoche na ponta de uma estrutura para ser morto por nossos heróis e, enquanto finalmente morre novamente, declarar que estamos todos nós livres dessa agonia (como 3pO exclamou desejar na areia movediça), o roteiro consegue se “saladizar” ainda mais ao tentar conjurar algum tipo de vínculo emocional não entre Rey e Palpatine-zumbi aleatório. Veja bem, não é entre Rey e uma das figuras vilanescas mais icônicas da franquia (ausente nesse filme), mas sim entre Rey e um plot-device desprovido de qualquer lastro narrativo.

Algo semelhante poderia ser dito a respeito da revelação, também forçada na época, de que Leia era irmã gêmea de Luke. Esse tipo de obsessão genealógica só escapa da total ridiculeza e se justifica para além do fanservice se esse tipo de coisa trouxer algum potencial para a trama. O que é que foi ganho ao declarar Rey uma Palpatine aos 45 do segundo tempo? Sacrificando uma exploração temática conquistada pelo filme anterior em uma de suas melhores partes, a opção acaba por ser o derradeiro desastre do conjunto todo, relegando Ben a um papel secundário na batalha final e, no desenrolar definitivo das coisas, fazendo com que o sacrifício final de Anakin, que amarrava perfeitamente o conjunto inconstante dos seis primeiros filmes (trazendo o profetizado equilíbrio para a Força), seja substituído por uma virada roteirística de Rey sobre Palpatine, encerrando “em família” a ameaça revivida e tornando os Skywalker elementos secundários no grande esquema das coisas.

“Like my father before me!”

“Ah, mas no final de tudo ela adota o nome da família que, na prática, a adotou!” Muito bacana (ainda que clichê e previsibilíssimo), mas isso perde totalmente o ponto a respeito do peso narrativo de se falar em uma “Saga Skywalker”. É o mesmo motivo pelo qual a conversa fiada do filme anterior sobre “Esqueça o passado e os mitos, todo mundo pode ser um mito!” desceu mal para tanta gente. Não, não me refiro ao apego sentimentalista e infantil às maravilhas do passado idealizado: embora esse também exista, é bem menos universal e poderosa do que muitos parecem pensar quando convém. O que interessa em uma história de linhagem e legado, mesmo em uma perspectiva intra-narrativa, são as ideias de continuidade da jornada heroica.

O herói é o ponto de vista narrativo, a figura de identificação do espectador dentro do universo retratado. Elementos de linhagem e herança envolvem e funcionam ao fazer com que a jornada heroica ultrapasse a finitude do mortal que atualmente ocupa o posto de protagonista, unificando jornadas parciais em torno de um mesmo destino. Por isso dizer “Esqueça o passado, olha como tudo pode começar de novo a qualquer momento e é mais interessante ainda!” tem como efeito abalar esse processo identificatório, dividindo as percepções do público de acordo com a forma como cada um se orienta a partir dessa recomendação. Não tem a ver com a real descendência do personagem ou no quanto ela foi indiciada anteriormente seja por Watson, seja por Doyle.

Ironicamente, essa sequência final remexe e enfatiza de forma ainda mais grosseira o erro do predecessor, trocando a jornada pessoal de Rey por um adendo de última hora, tentando artificialmente fazê-lo passar por um desenvolvimento pessoal do seu arco e praticamente reservando ao epílogo a nomeação da personagem como herdeira de Skywalker. Não há atalhos para esse tipo de coisa — ou, se há, é preciso saber pelo menos qual é o caminho que se está tentanto percorrer.

É embalada por esse vazio temático que a batalha final acaba por não ser mais entre a Resistência e a Primeira Ordem, polos fundadores do conflito dramático dessa trilogia, mas sim entre genéricos “bem” e “mal”. Não importa mais quem faz parte ou não da Resistência ou o quanto essa força de ataque se encontra totalmente superada pelo poder ridiculamente sem limites do Imperador. Não importa quem é que tripula todos aqueles cruzadores imperiais que literalmente brotaram da lama (minha teoria é de que é um exército de clones de Snoke). Não importa que nada disso tenha ligação com a situação política da Galáxia.

Veja bem o quanto isso tudo não importa: a batalha final literalmente teve que se deslocar para fora dos limites da Galáxia conhecida, já que esse espaço já não sustentava ligação alguma com o plot. O vilão principal não tem nenhuma ligação com os eventos mostrados até então, exceto uma única troca de diálogo ao início do filme, e agora está muito ocupado quebrando toda a credibilidade da Força para se importar. Por fim, com Rey sem ter muita ideia para trocar com seu avô (já que eles são tão estranhos quanto Luke e Vader eram na primeira vez em que cruzaram olhares) e vice-versa, a única saída é essa: “Eu sou todos os Sith!” / “Ah é? Então eu sou todos os Jedi!”. Escopo e escala ampliados ao ponto de perder-se totalmente o foco e o lastro dramático, e ao fim de tudo esse combate desprovido de ponto de vista não é nada: muito menos do que a intentada “referência” ao combate final de O Retorno de Jedi, trata-se apenas de uma pontuação meta-narrativa sobre o fim da saga.

“Todos contra todos, o bem vence o mal, voltemos para casa pra uma última rodada de auto-homenagens!”

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Assim é que a Trilogia Sequência, na verdade, acabou não sendo sequer uma trilogia a rigor: são apenas três filmes justapostos. Um conjunto que conta com sua cota de momentos brilhantes mas cujo todo, no entanto, é menor do que a soma de suas partes. Três filmes que agradam tanto pela nostalgia quanto além dela, mas pecam sobretudo no apego desinspirado ao passado: seja para produzir imitações óbvias, seja para supostamente negá-lo em nome de imitações menos óbvias. Perdendo tempo com “correções de curso” tacanhas, ironicamente este capítulo final consegue obter resultados negativos por vias totalmente diversas, quando não insiste (sem querer?) no que estava por trás do que não funcionou naquele caso para muita gente.

Ainda que inegavelmente divirta e empolgue por entre espetáculos visuais, apelos nostálgicos, personagens carismáticos e sequências muito bacanas de ação, A Ascensão Skywalker sofre de problemas profundos de roteiro que se fazem sentir especialmente no contexto em que o filme se encontra: não apenas fechando uma trilogia desconcertada e mal-planejada, mas tentando se passar por fechamento de um conjunto narrativo muito maior e mais rico do que a produção consegue alcançar em qualquer momento. Não seria uma tarefa fácil para o time criativo, nem que dentre esses filmes que o antecedem não estivessem alguns dos maiores fenômenos da cultura pop até hoje. Que esse seja o caso acabou sendo um agravante ainda maior para o grande deslize da produção que, nos melhores momentos, pelo menos consegue divertir em meio à tanta tensão interna. Mas seria isso o suficiente para ficar à altura da conclusão de toda a saga? Para ficar à altura de Star Wars?

Ou será que eles fazem isso de propósito, para “manter o balanço” necessário da Força da franquia que depende tanto da frustração quanto da apreciação de seus espectadores? Uma coisa é certa: essa trilogia dará origem a diversos fãs legítimos de Star Wars!

Star Wars: A Ascensão Skywalker (Star Wars: The Rise of Skywalker, EUA – 2019)
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: Chris Terrio, J.J. Abrams (baseado em história de Derek Connolly, Colin Trevorrow, Chris Terrio e J.J. Abrams e personagens de George Lucas)
Elenco: Adam Driver, Daisy Ridley, Billie Lourd, Keri Russell, Carrie Fisher, Mark Hamill, Ian McDiarmid, Kelly Marie Tran, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Oscar Isaac, Domhnall Gleeson, John Boyega, Billy Dee Williams, Joonas Suotamo, Dominic Monaghan, Richard E. Grant, Anthony Daniels, Naomi Ackie, Greg Grunberg, Jimmy Vee, Amir El-Masry, Dave Chapman, Brian Herring
Duração: 141 min.