Andrew Scott

Crítica | Victor Frankenstein

Victor-Frankentein_plano critico cinema

Excetuando talvez a história do vampiresco Conde Drácula, nenhuma outra história de terror foi tão contada e recontada nas mais diferentes mídias do que a do Dr. Frankenstein, cientista criado por Mary Shelley, que ao tentar vencer a morte gerando o seu próprio ser através da ciência, cria um monstro feito com partes de cadáveres. A ideia de renovar essa trama tão conhecida ao contá-la do ponto de vista do assistente corcunda de Victor Frankenstein, Igor, (que não existe no romance original de  Shelley, tendo sido criado para os filmes da Universal) tinha os seus atrativos. Afinal, em muitas versões, o Corcunda Igor vê o cientista como uma espécie de deus e a jornada da perda da fé do assistente na figura de seu mentor poderia ter rendido um filme bem interessante. Infelizmente, o longa-metragem de Paul McGuigan nunca consegue arranhar qualquer potencial que a premissa poderia ter.

Na trama, um corcunda  autodidata (Daniel Radcliffe), é resgatado pelo cientista Victor Frankenstein (James McAvoy) do circo onde trabalhava sob maus tratos, após Frankenstein testemunhar o corcunda utilizar os conhecimentos anatômicos que aprendeu lendo livros roubados para socorrer uma aerialista acidentada. Victor cura a deformidade do corcunda, e o rebatizando de Igor, torna-o seu assistente. Entretanto, à medida em que vai tomando conhecimento da natureza dos experimentos de reanimação de matéria morta realizados por seu salvador, Igor começa a se perguntar até onde está disposto a ir por fidelidade a Frankenstein. Ao mesmo tempo em que a dupla é caçada por Roderick Turpin (Andrew Scott) — um obcecado inspetor de polícia que os acusa de roubar cadáveres –; Finnegan (Freddie Fox), um inescrupuloso milionário, decide financiar o projeto de Frankenstein de criar um Prometeu Moderno visando possuir um Exército particular.

Parte da proposta inicial do roteiro de Max Landis vai pela janela logo nos primeiros minutos de filme, quando sem grande dificuldade, Frankenstein cura a corcunda de Igor, resolvendo tudo com uma extração de fluídos e um colete ortopédico; tirando do personagem o símbolo do ícone que deveria representar. Ainda assim, o longa poderia ter rendido algo minimamente palatável se soubesse exatamente que história queria contar, o que claramente não é o caso. Victor Frankenstein transita de forma esquizofrênica entre o horror de ação, o thriller vitoriano e uma ação assumidamente mais aventuresca, com direito a um vilão “estilo James Bond” na figura de Finnegan. As escolhas narrativas e estéticas de Victor Frankenstein fazem do filme uma mistura indigesta do Sherlock da BBC (que teve vários episódios comandados pelo diretor deste filme), o Sherlock Holmes de Guy Ritchie, e o pavoroso Van Helsing de Stephen Sommers que nunca consegue dar a esta mistura de referências uma unidade coesa.

O filme, em boa parte do tempo, parece querer se apresentar como uma aventura quase satírica, o que pode ser percebido especialmente pela atuação de James McAvoy, que vive o cientista do título de forma deliciosamente efusiva e excêntrica. O Frankenstei de McAvoy um maníaco com uma persona quase infantil, e que claramente não tem a dimensão (e se tivesse, não se importaria) de suas ações. Nesses momentos, percebemos que o projeto de Paul McGuigan poderia ter funcionado como uma comédia gótica de ação, que inclusive cresce quando se permite tirar sarro dos signos ligados ao personagem, como a tempestade e a icônica frase “Está Vivo”.

Mas supostamente este deveria ser um filme contado pela perspectiva de Igor, na prática o nosso protagonista (apesar do título), e é ao tentar abordar as dúvidas e conflitos morais do (ex)corcunda de forma articulada com a maluquice quase paródica em torno de Frankenstein, que a obra se perde. O roteiro parece crer que o romance de Igor com a jovem acrobata Lorelei (Jessica Brown Findlay) será capaz de abrir os olhos do jovem para os erros de seu “benfeitor”, mas a relação nunca convence. A crise de confiança dos dois amigos que surge da revelação de segredos horríveis de Frankenstein não transita bem entre os aspectos cômicos e dramáticos da narrativa, nunca permitindo portanto, que nos envolvamos emocionalmente com os personagens, já que os atores parecem estar atuando em projetos diferentes.

O filme possui um trabalho de direção de arte interessante; retratando uma Londres suja, sombria e caótica. As sequências de ação por sua vez surgem burocráticas e pouco criativas. As criaturas criadas por Frankenstein ao longo do filme são  visualmente pobres, infelizmente, seja aquelas criadas por um CGI pouco convincente (que são a maioria), ou por um trabalho de maquiagem derivativo e pouco inspirado.

Entre tantas aparições do Dr. Franknestein e de seu monstro nos cinemas e na TV, é pouco provável que esta produção seja lembrada como uma adaptação digna da obra de Mary Shelley. A falta de um foco para o filme sobre como explorar os seus protagonistas, que nunca parece se decidir entre uma abordagem mais satírica e uma abordagem mais contida, somada a uma direção trôpega; fazem desta produção uma bomba, que nem mesmo a ciência de Frankenstein conseguiu trazer à vida.

Victor Frankenstein- Estados Unidos, 2015
Direção: Paul McGuigan
Roteiro: Max Landis (Baseado nos personagens de Mary Shelley)
Elenco: James McAvoy,Daniel Radcliffe, Jessica Brown Findlay, Andrew Scott, Freddie Fox, Charles Dance, Callum Turner, Daniel Mays, Bronson Webb, Alistair Petrie, Mark Gatiss, Louise Brealey, Guillaume Delaunay, Adrian Schiller, Valene Kane
Duração: 109 minutos.

Crítica | 1917 (2019)

1917 plano crítico 2019

Há uma semana, em minha crítica de Ameaça Profunda, eu falava sobre o conceito de filme gameficado, ou seja, com aparência de video game. Não queria soar repetitivo, mas é um pouco difícil fugir desse pensamento ao refletir sobre 1917 — o que pode ser um indicativo de uma tendência na indústria cinematográfica atual. Todavia, dentro dessa lógica, não é como se estivéssemos jogando com um controle na mão. O novo longa de Sam Mendes está mais para um simulador ou como se colocássemos um capacete de realidade virtual que nos transporta diretamente para uma tour voyeurística na Primeira Guerra Mundial filmada por Roger Deakins (Blade Runner 2049).

Na narrativa, seguimos dois cabos britânicos, Schofield (George MacKay) e Blake (Dean Charles Chapman). A tarefa dos dois consiste em atravessar as linhas inimigas, devendo entregar uma mensagem para uma outra divisão do exército inglês. Esta se mostra de caráter urgente, pois eles devem cancelar uma ofensiva prestes a ser realizada. Afinal, eles haviam descoberto que tal ataque iria levar mais de mil soldados para uma armadilha alemã — inclusive o irmão de um dos dois protagonistas, o tenente Blake (Richard Madden).

De fato, não há nenhum roteiro muito elaborado por trás de 1917. O que de forma alguma se mostra um problema, já que sua força reside muito mais na maneira como aquela experiência é encenada. Se tirarmos todos os artifícios do filme, deixando apenas seu esqueleto, trata-se de apenas dois homens indo do ponto A ao B. Enquanto isso, complicações surgem no meio do caminho e aliados (vividos por atores famosos como Colin Firth, Andrew Scott, Mark Strong e Benedict Cumberbatch) surgem aleatoriamente para avançar a trama, basicamente como NPCs (personagens não jogáveis) de um video game que te dão uma missão ou auxiliam em seu progresso, sem um desenvolvimento próprio.

Curioso que, ao seguirmos esta perspectiva de jogo, o longa pode ser comparado com o polêmico lançamento Death Stranding, acusado (injustamente) por muitos de ser um walking simulator — já que o seu protagonista, basicamente, só anda. Da mesma maneira, é um pouco isso que acontece aqui. Schofield e Blake atravessam trincheiras apertadas, esbarram em soldados, pisam em corpos mortos, se jogam na lama com ratos e, em raros momentos, conversam sobre assuntos cotidianos, como quando tentam lembrar a origem do apelido de um colega. Portanto, a preocupação de Mendes não reside na realização de um grande filme de ação, mas justamente nesta experiência de um passeio pelo inferno no qual ele vai guiando nosso olhar por aquele terror nos momentos antes e depois dos conflitos.

Aliás, eu diria que a câmera funciona praticamente como um terceiro homem invisível nesta jornada — o espectador. O próprio fato de sua movimentação ter que fazer um malabarismo muito visível para desviar dos protagonistas e, por muitas vezes, direcionar o olhar para elementos de interesse, tirando os personagens do plano, me faz pensar sobre sua existência autônoma. Certamente, muito será discutido sobre a função do plano-sequência em 1917 (assim como em Birdman), com alguns afirmando que se trata de uma escolha estética exibicionista de Mendes ou outros falando que ele age em prol de uma aproximação do filme com a verossimilhança. Nem um e nem outro, pois penso que ele revela toda a artificialidade do filme como um simulador controlado. Estamos perto demais dos personagens para sentirmos aquela imersão, mas não o suficiente para nos machucarmos.

Com toda sua primazia técnica escancarada, gosto de pensar em 1917 fazendo um contraste com os documentários feitos durante a Segunda Guerra Mundial. No passado, grandes diretores como Frank Capra se arriscaram verdadeiramente fazendo imagens das do terror da guerra como um registro histórico para o cidadão que havia ficado em casa. Logo, o cinema era apenas um meio para um grande maquinário propagandista, mas que você sabia que aquelas imagens eram reais. Hoje, você sabe que aquelas imagens não são reais, mas com as tecnologias disponíveis na mão de grandes estúdios, a emulação de eventos passados se tornou tão obsessiva, que diríamos que chegamos ao nível do ultra realismo autodestrutivo.

Isto é, o nível de meticulosidade na recriação do real se torna tanto, que ele parece ultrapassar essas barreiras e revela sua própria artificialidade. A preocupação é tanta em esconder os cortes que te induz a procurá-los. De mesmo modo, isso é algo que fica evidente principalmente se pensarmos nos trabalhos de Deakins (fotografia) e de Thomas Newman (trilha sonora), que elevam o filme para um tom mais épico do que qualquer narrativa realista poderia se propor.

Não me cabe estudar aqui a psique humana, até porque não tenho propriedade no assunto, mas me soa muito curioso como nós, espectadores, ficamos fascinados cada vez mais em experiências realistas que nos façam sentir, ainda que momentaneamente, a adrenalina de um evento passado. Por outro lado, os homens que verdadeiramente vivenciaram aquele terror fariam de tudo para fugir dele. Nesse sentido, 1917 me parece um filme que perfeitamente atende tal demanda atual de mercado. Um tremendo deleite para os olhos e catártico para aqueles que estão satisfeitos em experimentar um terror controlado, mas que constantemente te relembrar que nada daquilo é real — justamente por ser real demais.

1917 (1917) – EUA, Reino Unido, 2019
Direção: Sam Mendes
Roteiro: Sam Mendes, Krysty Wilson-Cairns
Elenco: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Mark Strong, Andrew Scott, Richard Madden, Claire Duburcq, Colin Firth, Benedict Cumberbatch, Daniel Mays, Adrian Scarborough
Duração: 119 min.

Crítica | His Dark Materials (Fronteiras do Universo) – 1X07: The Fight to the Death

plano crítico The Fight to the Death his dark materials

  • Há SPOILERS! Confira a crítica para os outros episódios da série aqui.

Mesmo com uma estranha correria para a ocorrência da grande batalha no Norte e, neste episódio, a migração do pessoal do Magisterium para a região boreal, eu tenho gostado dos rumos que Fronteiras do Universo tem tomado nesta reta final da temporada. Tirando a estranha elipse e nenhuma colocação mais sólida sobre Layra & Cia. terem sobrevivido à queda do balão, todo o episódio se desenvolve de maneira muitíssimo interessante, com cenas até bem pesadas para um show aparentemente tão “bonitinho e inofensivo” como este.

Basicamente o que tivemos foi a resolução de alguns casos deixados em aberto antes (especialmente o dilema de rei envolvendo Iorek Byrnison) e o afunilamento dos personagens ligados a Lyra, Sra. Coulter e o Magisterium, dando-nos a impressão de que um evento muito importante está para acontecer, mas que existe bastante receio sobre quem deve dar o primeiro passo. É bem curioso o que vou dizer agora, mas confesso que sinto falta dos gípcios nessa jornada. Este povo esteve em metade da temporada e conseguiu formar um laço tão forte com o público que acaba fazendo falta, especialmente porque não foram substituídos e, pelo menos para mim, não há nenhum núcleo de personagens do qual eu consiga me aproximar tanto quanto o deles.

A direção de Jamie Childs (que começou a fazer um bom nome na TV a partir dos episódios que dirigiu para a 11ª Temporada de Doctor Who) faz um uso belíssimo das paisagens nevadas e usa tomadas de grande impacto como panorâmicas e planos gerais para mostrar a grandeza de determinadas empreitadas, os desafios de espaço geográfico ou uns ambientes macabros para se enfrentar, como a caverna/palácio cheio de sangue já na entrada, o reino de terror do golpista Iofur Raknison. A fotografia trabalha com bastante contraste em todo esse segmento e a direção entrega uma baita luta entre os ursos, com direito a momento que chegamos a estreitar os olhos. Lyra se mostra aqui uma boa manipuladora e ao mesmo tempo alguém que consegue pensar nos caminhos mais improváveis para se sair de uma situação difícil, o que é bem legal de se ver, pois a personagem não fica refém apenas de reagir a coisas que a afetam fisicamente. Ela pensa, e pensa de maneira bem intricada.

Diferente do episódio passado, as cenas no nosso mundo estão bem colocadas no episódio e mesmo que não possua uma ligação direta ou imediata com o Universo de Lyra, carrega um bom peso de ação, o bastante para nos entreter e para equilibrar melhor a balança de ritmo no episódio. Eu só acho muito estranho que em um Universo a gente perceba o roteiro correndo para aglutinar o máximo de coisas possíveis em um único Finale (vocês que leram o livro veem uma explicação plausível para isso?) e no outro as coisas andem em ritmo lento demais — embora não a ponto de estragar a nossa experiência ou atrapalhar o episódio, vale-se dizer. E a propósito: dois episódios seguidos repetindo o mesmo trecho de gravação com Andrew Scott? Faltou dinheiro para fazer mais cenas de contexto?

Se as linhas gerais do que entendemos como “motivos para todo mundo ir para o Norte” estiverem corretas, eu fico imaginando o que pode sobrar de realmente excitante para a próxima temporada que já foi confirmada há tempos. E olhem que nunca subestimo o poder de um bom roteiro, mas mesmo eu que não li uma única página do livro consigo perceber que estão gastando uma boa quantidade de munição aqui. De toda forma, falta apenas uma semana para a gente descobrir as consequências disso tudo, ou seja, onde é que o roteiro irá nos deixar. Espero que pelo menos o núcleo de Will Parry avance consideravelmente. Já o restante… confesso que não tenho ideia do que querer ou esperar a respeito.

His Dark Materials (Fronteiras do Universo) – 1X07: The Fight to the Death — Reino Unido, 15 de dezembro de 2019
Direção: Jamie Childs
Roteiro: Jack Thorne (baseado na obra de Philip Pullman)
Elenco: Dafne Keen, Ruth Wilson, Ruta Gedmintas, Ariyon Bakare, Amir Wilson, Nina Sosanya, Gary Lewis, Lewin Lloyd, Lin-Manuel Miranda, Morfydd Clark, Asheq Akhtar, Kit Connor, Robert Emms, Joi Johannsson, James McAvoy, Joe Tandberg
Duração: 55 min.