Amanda Magalhães

Crítica | 3% – 3ª Temporada

3% plano crítico netflix temporada 3

Vou pra rua e bebo a tempestade.

É difícil discutir uma obra que retoma questões marcantes e sequências inspirativas, que outrora deu certo. No caso de 3%, a 3ª Temporada é uma releitura direta da primeira, levantando os mesmos assuntos discutidos sob uma mesma filosofia e ambiente. Esse artifício funciona: relembra o teor chocante da 1ª Temporada, que conseguiu atrair muitas críticas positivas. Por outro lado, realça a questão: repetir assuntos já vistos é uma artimanha eficiente para manter a audiência fiel conquistada anteriormente ou é o reflexo da covardia dos produtores?

De fato, a 1ª Temporada dividiu muito as críticas. O fato, é que indiscutivelmente, 3% surge como uma categoria pouco vista por aqui: a crítica como elemento secundário e imaginário. E talvez esse seja o maior fator para a explosão de audiência que a temporada levou. Uma história que discute meritocracia e desigualdade social sem o semblante que narrativas do gênero carregam, especialmente no Brasil — que tende sempre a lembrar o espectador de que ele “está assistindo a um projeto que quer alfinetar alguém ou alguma coisa” — , era algo um tanto inovador. E isso já foi bastante para projetar 3% tanto nacionalmente quanto internacionalmente. No entanto, apesar da 2ª Temporada turbulenta que desenvolveu aspectos importantes, a série perdeu grande parte do público. A decisão dos produtores não foi diferente de: “então vamos retomar para a primeira temporada?

Claramente retornar com a questão do processo para o Maralto, assunto já discutido antes, seria o mesmo que tratar o espectador como um acéfalo. Felizmente – ou infelizmente -, os roteiristas construíram uma nova maneira de recontar a história. A Concha, fundada por Michele (Bianca Comparato) não é nada mais do que a reconstrução ideológica da estrutura do processo. Tanto que não é um acontecimento mirabolante para que ela propusesse um processo dentro da Concha: bastou uma tempestade de areia aleatória que surgiu literalmente do nada. Se analisarmos a circunstância que desencadeou a história, não está longe de questionarmos o seguinte: “é sério que ergueram uma super construção no meio do deserto mas não tinham um plano de defesa contra tempestades de areia?” De novo, não indo muito distante, percebemos que foi só uma desculpa mal pensada pelos produtores para o início da história. O problema é que os roteiristas tratam, nesse momento, os protagonistas como burros – até porque eles tinham sistema de monitoramento 24 horas, e só perceberam a tempestade quando ela já havia chegado – e, inevitavelmente, tentam brincar com a falta de inteligência dos espectadores.  Não é preciso dizer que isso não dá certo, além de nos deixar extremamente incomodados com tamanha cara de pau, certo?

Depois deste catastrófico primeiro episódio, a série enfim reforça seus pontos positivos. As provas desenvolvidas por Michele são criativas e instigantes; os personagens tem personalidade e boas atuações; as ambientações são incríveis e, pelo menos um elemento diferente da 1ª Temporada: não conseguimos definir para qual lado torcer, se para os eliminados do processo da Concha ou para a Concha. Além disso, destaco a belíssima sequência de Bom Conselho, interpretada por Johnny Hooker, com uma fotografia literalmente impecável, fazendo qualquer um terminar em lágrimas. Pena que, ironicamente, essa sequência é bem parecida com Preciso Me Encontrar, cantada na temporada anterior – está complicado encontrar algo diferente aqui.

Porém, não é difícil percebermos que a Concha é uma reprodução do Maralto, que Michele tem a mesma função que Marcela (Laila Garin) e Ezequiel (João Miguel), que Xavier (Fernando Rubro) repete a personalidade e tem o mesmo papel de Fernando (Michel Gomes), que Glória (Cynthia Senek) tenta substituir o papel de Joana (Vaneza Oliveira), que, por sua vez, se torna a releitura de Ivana (Roberta Calza), entre outros. Isso até funciona e prende o espectador durante todos os episódios. É, de fato, uma “fórmula de sucesso”. Mas até quando os produtores se esconderão no manto da primeira temporada, sem desenvolver a história? Note que literalmente não acontece nada de muito marcante nesta temporada, bastava uma citada em um único episódio para resumir tudo que aconteceu aqui. Sem dúvidas, isso é consequência da releitura do primeiro ano, pois se estamos vendo o que já aconteceu, não há nada de novo. É, resumidamente, um passatempo para enrolar a vivência da série. Pelo menos o final levanta um clima positivo. Poderemos esperar uma 4ª Temporada bem badalada, com um hype maior do que a 2ª. Se essa esperança de recuperar as expectativas foi o objetivo dos produtores, eles conseguiram.

A 3ª Temporada de 3% é interessante de se assistir. Pena que é a repetição de tudo que já vimos antes, em especial a estreia, tornando-se uma temporada inútil do ponto de vista execução da história, mas cativante nas sequências. O que podemos esperar é uma maior ousadia dos produtores (que mostraram interesse em ter, visto o final do presente ano) e assim, uma próxima temporada tão boa e interessante quanto a iniciais. De mais, 3% ainda pode ser considerada uma grande produção brasileira.

3% – 3 Temporada (Brasil, 2019)
Direção: Jotagá Crema, Daina Giannecchini, Dani Libardi, Philippe Barcinski, César Charlone
Roteiro: Pedro Aguilera, Ivan Nakamura, Denis Nielsen, Guilherme Freitas, Teodoro Poppovic, Juliana Rojas, André Sirangelo, Jotagá Crema, Cássio Koshikumo, Andrea Midori, Marcelo Montenegro, Carol Rodrigues
Elenco: Bianca Comparato, Vaneza Oliveira, Rodolfo Valente, Zezé Motta, Fátima Porphirio, Rafael Lozano, João Miguel, Michel Gomes, Cynthia Senek, Bruno Fagundes, Laila Garin, Thais Lago, Fernanda Vasconcellos, Silvio Guindane, Celso Frateschi, Mel Fronckowiak, Luciana Paes, Amanda Magalhães
Duração: 8 episódios com cerca de 45 min.

Crítica | Querida Mamãe

Cenas de engarrafamento em uma breve passagem e um personagem central a dizer para outro: “presta mais atenção no trânsito da próxima vez”. Um filme sobre o trânsito em São Paulo, considerado um dos pontos mais caóticos da mobilidade urbana contemporânea? Uma narrativa sobre os impactos dos acidentes de trânsito no bojo das relações familiares? Ou então, será um filme sobre como uma situação de mobilidade ocasionou o encontro entre pessoas de necessidades distintas, com desdobramentos que envolvem todos os personagens que gravitam em torno da história? Essas são algumas perguntas que podem surgir diante da premissa de Querida Mamãe, drama inspirado na peça teatral de Maria Adelaide Amaral. Em resposta ao primeiro questionamento, não, a trama não é sobre mobilidade urbana, tampouco, em resposta ao segundo questionamento, é uma narrativa sobre os impactos dos acidentes no seio familiar.

A terceira questão é a mais próxima do filme, nó instalado para ser desatado pelos personagens ao longo dos desdobramentos dramáticos. Sob a direção de Jeremias Moreira Filho, a produção lançada em 2007 retrata, ao longo de seus 95 minutos, o cotidiano nada agradável de Heloísa (Letícia Sabatella), uma médica que vive um casamento tedioso com Sérgio (Morat Descartes), publicitário que vive num mundo de inovações, mas se apresenta constantemente com postura machista extraída de narrativas dos anos 1950. Para piorar, a profissional precisa lidar com Priscila (Bruna Carvalho), a sua filha problemática, tal como toda adolescente chata que se preze. O leitor pode se perguntar: fica pior? Sim, ela ainda odeia profundamente a doméstica que trabalha em sua casa há décadas e possui conflitos não resolvidos com a sua mãe, Ruth (Selma Egrei). É a presença do caos em todas as instâncias da vida desta protagonista.

Em suma, Heloísa é uma mulher tremendamente amarga. Vive também uma crise na profissão e seus dias se tornam mais coloridos quando atende Leda (Cláudia Missura), uma artista plástica que provoca em seu interior uma erupção de sentimentos nunca antes expressados. Como é constantemente divulgado, ocorrências na seara do trânsito ocasionam danos de ordem física, psicológica, além de custos na economia. Considerado como uma das principais causas de morte no mundo inteiro, as sequelas físicas e psicossociais tornam tais acidentes um problema de saúde pública, tratado no roteiro de Querida Mamãe como uma breve, mas pontual motivação para colocar personagens diante de seus dilemas e necessidades dramáticas. Será na paixão súbita pela paciente que a médica mudará bruscamente a sua vida, numa instalação de rebeldia bastante estrondosa para a vida de todos: sua mãe, marido e filha.

Após onze anos de espera pela versão cinematográfica, o público que conhecia o texto teatral teve a oportunidade de conhecer a tradução intersemiótica de Querida Mamãe e o resultado artístico não foi satisfatório. Como dito na abertura, não estamos diante de um filme sobre trânsito, mas de alguma forma retrata as suas consequências, pois foi por meio de um acidente que Heloísa conheceu a mulher que mudou à sua maneira de ver as coisas, sempre nubladas, cinzentas e sem perspectiva. A trama nos faz refletir sobre danos que ultrapassam as questões físicas. Há, na família de Heloísa, cicatrizes psicológicas aparentemente irreparáveis, num feixe de mágoas circular e danoso. Todos estão muito agressivos, bruscos, teatrais, o que nos mostra que mais uma vez, um filme brasileiro não consegui compreender que o desempenho dramático em cinema segue outro viés, diferente dos palcos, algo que a direção não soube guiar e por isso, transformou a narrativa numa composição de diálogos e entonações tediosas que não dialogam com elementos substanciais da linguagem audiovisual.

Diante do exposto, nem para novela Querida Mamãe se adequa. A trilha sonora de Marcos Levy não é lá muito intrusiva. Não traz nada de memorável, mas também não ajuda na decomposição do filme, algo que é problema exclusivo de sua adaptação entre suportes e falha por conta de quem assumiu o comando da história. Os conflitos, como é de se esperar, não avançam. Os personagens tentam, por meio de seus desempenhos histriônicos, se movimentar, mas o texto impede qualquer evolução. Sem progressão, o tédio se estabelece com total força, espalhado pelos espaços concebidos por Antonio de Freitas e sua direção de arte pálida, sem vida, tal como os personagens e o próprio filme. A reflexão sobre a falta de comunicabilidade e forte preconceito dentro de uma família em forte crise interna é perceptível, mas faltou uma condução melhor por parte da realização, tão desgovernada quanto o acidente que quase ceifou a vida de um dos personagens e deu pontapé para os conflitos da história desta trama falha.

Querida Mamãe — (Brasil, 2017)
Direção: Dani Carneiro, Jeremias Moreira Filho
Roteiro:Dani Carneiro, Jeremias Moreira Filho
Elenco: Adolfo Moura, Amanda Magalhães, Anderson Mr. Guache, Bruna Carvalho, Calú Araripe, Carla Masumoto, Claudia Missura, Fernanda Viacava, Genésio de Barros, Graça Andrade, Leandro Mazzini, Lena Roque, Letícia Sabatella, Lucas Branco, Manuela Freire, Marat Descartes, Marcos Reis, Mateus Sousa, Selma Egrei
Duração: 95 min.