Alison Pill

Crítica | Star Trek: Picard – 1X05: Stardust City Rag

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Quando Stardust City Rag acabou, minhas reações foram de felicidade pelo retorno efetivo de Sete de Nove e de dúvida sobre o que eu realmente havia achado do episódio como um todo. Ver Jeri Ryan novamente em ação como a ex-Borg de Voyager em um capítulo que faz pela personagem o que a série tem feito por Jean-Luc, ou seja, preencher o espaço de tempo entre o fim de sua série e o momento atual foi um grande presente, mas, por outro lado, o capítulo é — mais uma vez — entulhado de informações que atravancam seu desenvolvimento.

Mas, considerando as estrelas que abrem a presente crítica, não é mistério algum o que, depois de muito processar, achei de Stardust City Rag, ou seja, nada menos do que o melhor episódio da temporada até agora, ainda que essa minha conclusão não tenha sido se dado sem muita relutância. O ponto mais relevante para chegar onde cheguei foi que a aventura passada em Freecloud, uma Las Vegas espacial, é puro Star Trek old school, cheia de conveniências e momentos exagerados que não são feitos para serem levados a sério (Picard todo afetado de boina e tapa-olho? SIM!!!) mas com uma boa dose de desenvolvimento narrativo e sem sequências no Cubo Borg, o que sempre ajuda. Além disso, o capítulo quebra o molde estrutural da série, algo que vem no momento certo.

No entanto, vamos começar pelo que não gostei — e talvez tenha desgostado o suficiente para chegar a uma avaliação mais baixa, só que acabei relevando pela brincadeira da coisa toda –, que pode ser resumido no “bonde de Freecloud”. Entendo perfeitamente todos terem suas razões para irem até lá: Picard quer achar Bruce Maddox, Raffi quer reconciliar-se com seu filho (mais clichê que isso, impossível) e Sete quer a boa e velha vingança na base do “doa a quem doer”. Maravilha. O problema é que essa convergência toda como uma conjunção astral de horóscopo mequetrefe é preguiça pura de roteiro, quase como um retorno à forma oitentista de se escrever séries de TV. Peguem Sete de Nove e se perguntem: o que raios a levou a salvar Picard ao final de Absolute Candor? As coincidências se amontoam de forma incômoda sem que o texto já lotado de tecno-baboseiras e referências ao passado para os fãs da séries, se preocupe em oferecer uma nesga de explicação que permita que o espectador retire “intervenção divina” da lista de possibilidades.

Acontece que parte do problema foi também parte da solução. O roteiro bobinho de Kirsten Beyer exala Star Trekdas antigas”, especialmente aqueles episódios de aventura pura cheio de momentos completamente absurdos, mas sempre muito divertidos. Além disso, a manutenção do foco em Sete de Nove torna o passo dinâmico mesmo quando ele entra na perigosa trilha do “senta aí para eu te contar uma historinha”, com Ryan voltando à sua personagem como se nunca tivesse saído dela. 

Aliás, diria que foi um toque de gênio trazer Icheb (aqui vivido por Casey King) de volta nem que tenha sido para matá-lo da maneira mais dramática possível. Funcionou bem como flashback de abertura tanto para justificar a fúria de Sete quanto para afagar os fãs de Voyager. Além disso, a montagem clássica de “preparação/execução” de plano esdrúxulo tendo Raffi como mentora na La Sirena e o restante de tripulação no planeta foi de abrir sorrisos de satisfação desde o já citado Picard de boina e tapa-olho, passando pelo hilário grandalhão Sr. Vup (Dominic Burgess) e chegando no capitão Ríos, que finalmente mostra alguma personalidade que não seja uma réplica latina e com folículos capilares de Picard. 

O drama sério foi também bem sublinhado no episódio. Não falo do reencontro brega e totalmente fora de contexto de Raffi com seu filho e nora, pois isso foi completamente descartável, mas sim de basicamente tudo envolvendo Sete de Nove. Sua história com o grupo de foras-da-lei, sua busca de vingança, sua manipulação dupla de Picard e sua inclemência foram os pontos altos do episódio ao ponto de eu ter ficado triste por ela não ter se juntado (ainda) em definitivo ao grupo e por eu secretamente desejar uma minissérie spin-off só dela chutando bundas por aí. 

Do lado da evolução da narrativa, a revelação do paradeiro de Soji por Bruce Maddox e, depois, seu assassinato pela Dra. Agnes Jurati (que confirma suspeita de um leitor sobre sua conversão ou lavagem cerebral), pareceram meio que marretados no episódio, como se a roteirista tivesse escrito essa cena depois, mas, no final das contas, combinou com o estilo conveniente da história anterior em que os buracos de roteiro são fechados na base do “vamos que vamos e paciência”. Tem vezes que isso é aceitável e, para mim, foi o caso aqui.

Ou seja, no final das contas, Stardust City Rag carrega os mesmos problemas que a série já vinha mostrando, quase todos eles conectados com a dificuldade em aliar a história do presente com o passado de seus personagens. Mas, assim como o figurino de cafetão espacial que Ríos é obrigado a usar, o episódio dá uma roupagem tão absurda à narrativa que ela sem querer acabou funcionando. Bem, pelo menos funcionou para mim. E não sem relutância.

Star Trek: Picard – 1X05: Stardust City Rag (EUA, 20 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Kirsten Beyer
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Jeri Ryan, Dominic Burgess, Necar Zadegan, John Ales, Mason Gooding, Landry Allbright, Kay Bess, Ayushi Chhabra, Casey Childs, Casey King
Duração: 45 min.

Crítica | Expresso do Amanhã

estrelas 5,0

Inspirado na graphic novel francesa Le Transperceneige (publicada no Brasil com o título literal O Perfuraneve), O Expresso do Amanhã é o primeiro filme em língua inglesa do diretor sul-coreano Bong Joon Ho, responsável pelos excelentes Memórias de um Assassino, O Hospedeiro e Mother – A Busca pela Verdade e também uma obra-prima esquecida. Mantendo um clima neo-noir em uma improvável situação pós-apocalíptica enclausurada em um relativamente pequeno ambiente, o diretor mostra seu controle de câmera, sua habilidade para fazer muito com pouco e sua mais absoluta criatividade em uma película imperdível e que já nasce com o status de cult.

Apesar de bem-sucedida na Coréia do Sul, a fita sofreu gigantescos atrasos na distribuição nos EUA e outros importantes territórios, cortesia de Harvey Weinstein, que exigiu um corte de 20 minutos na duração e inserção de narrações de abertura e encerramento, algo veementemente rejeitado pelo diretor. Com o impasse e depois de uma petição online idealizada e fomentada por Denise Heard-Bashur, conhecida “ativista cinematográfica”, a distribuição acabou caindo na mão de outra empresa de menor alcance, o que impediu que a película fosse laureada com um grande circuito.

Mas isso não impediu as críticas positivas oriundas de festivais pelo mundo que aplaudiram a originalidade e ousadia do filme. E, sem dúvida alguma, essa receptividade positiva é muito merecida, pois Expresso do Amanhã consegue, de uma só vez, reinventar o sub-gênero do drama pós-apocalíptico e estabelecer um altíssimo parâmetro para filmes de orçamento médio (a fita custou 40 milhões de dólares, troco se comparado com blockbusters do verão americano, algo que o filme de Joon Ho poderia facilmente ter sido).

Uma comparação imediata, justa e clara seria com Mad Max: Estrada da Fúria. George Miller fez um filme pós-apocalíptico que literalmente trafega única e exclusivamente em linha reta. É uma perseguição indo e outra voltando e, no processo, o diretor entregou uma inesquecível experiência cinematográfica. Arriscaria dizer que Expresso do Amanhã, que antecedeu o quarto Mad Max em dois anos, consegue ir ainda além, pois é também um filme pós-apocalíptico “em linha reta”, mas com subtextos e críticas sócio-econômicas bem mais interessantes. Exagero? Então me acompanhe.

Expresso do Amanhã exige, com toda certeza, um alto grau de suspensão da descrença. Temos que aceitar que, em futuro próximo, por erro humano, o mundo todo passa por uma fortíssima Era Glacial e os únicos sobreviventes da raça estão dentro de um trem – o Perfuraneve do título da graphic novel em francês e português e do filme em inglês – que trafega ao redor do mundo pela força de um moto-contínuo quase mágico. Temos que aceitar que o trem é auto-suficiente e praticamente eterno e que, ao longo de seus intermináveis vagões, os últimos sobreviventes de uma apocalipse gelado vivem divididos em classes sociais conforme as classes de um trem ou de um avião. Na frente, os mais abastados vivem em luxo absoluto, com restaurantes, bares, escolas, saunas, boates e tudo de “decadente” que a civilização pode oferecer. Atrás, os mais pobres, com trapos para vestir, camas amontoadas para dormir e cuja comida é, única e exclusivamente, uma nojenta gelatina proteica fabricada em vagões intermediários.

Mas o mais sensacional dessa estrutura é que Bong Joon Ho nos faz aceitá-la sem maiores problemas. É fácil detectar as impossibilidades, mas não ligamos e queremos explorar esse gigantescamente longo trem seguindo a revolução encabeçada relutantemente por Curtis Everett (o próprio Capitão América, Chris Evans) depois que o sequestro de duas crianças de seu grupo pelos habitantes da primeira classe acontece. A linha reta que mencionei é a longa luta de Curtis e companhia, vagão por vagão, com a ajuda de seu mentor Gilliam (o veterano e saudoso John Hurt), de seu amigo Edgar (Jamie Bell, o Tintim), Namgoong Minsu (Song Kang-ho, de quase toda a filmografia do diretor) e sua filha clarividente Yona (Ko Asung, a menina de O Hospedeiro). O objetivo é alcançar a locomotiva, lugar quase mítico onde viveria Wilford (Ed Harris), o criador do trem, originalmente para fins turísticos.

Ainda que se possa dizer que a separação em classes sócio-econômicas conforme as classes de um trem é uma forma óbvia demais para se fazer comentários e críticas às “castas”, o fato é que Expresso do Amanhã pode ser visto e apreciado em pelo menos três camadas. A mais superficial seria a da história pela história, em que o foco seria mesmo na aventura e em como ela se desenrola, com as respectivas atuações, fotografia, montagem e efeitos especiais. Nesses aspectos, o trabalho do direitor e equipe é impecável.   

Dentro de uma estrutura confinada, o cineasta se esmera na criatividade para colocar nas telonas sequências de ação originais e chocantes, sempre com um viés exagerado, absurdo, quase pantomímico. Essa escolha estilística não é aleatória, pois ela ajuda o espectador a aceitar o inusitado da premissa da fita e retira qualquer expectativa de “realismo” ou lógica física. “Estamos em um outro universo”, é basicamente esse o recado que ele quer passar. A fotografia de Kyung-pyo Hong, parceiro de Joon Ho em Mother – A Busca Pela Verdade, é quase um personagem da obra. Sem inventar, ele usa tons escuros de cinza e marrom para o “proletariado” e “branco e preto” asséptico para as classes “dominantes”, mas de uma forma orgânica, que casa com perfeição com os figurinos de Catherine George e a direção de arte de Stefan Kovacik. O preto “morte e pobreza” da casta inferior dá lugar ao preto “vida e sofisticação” alguns vagões a frente sem que haja choque de lógica ao espectador. Há uma estranha harmonia na extrema sujeira de um lado e na extrema limpeza de outro que é difícil realmente explicar, mas que permeia toda a película.

Essa sujeira x limpeza, de certa forma, também é caracterizada pela escolha de Chris Evans para encabeçar o elenco. A expectativa que temos – um jovem forte e belo – é pervertida com sua caracterização sofrida e que surpreende por mostrar que, à frente de lentes comandadas por diretor que sabe extrair o melhor de seu elenco, Evans realmente sabe atuar. Não é brilhante, mas cumpre sua função com louvor e, acima de tudo, credibilidade. Do outro lado da moeda, temos uma quase irreconhecível Tilda Swinton, como uma espécie de agente que faz a “junção” entre classes sociais e que é responsável pelo sequestro das crianças. Em uma caracterização afetada, carregada de maquiagem e que inevitavelmente (e não sem querer) lembra Margaret Thatcher, ela amplia a sensação de estranheza e de ação cartunesca que Bong procura imprimir em sua revolução férrea.

Mas isso tudo, caros leitores, é apenas a primeira camada. A camada facilmente apreciável e capturável por nossos sentidos. Há uma camada logo abaixo, de crítica sócio-econômica que, como disse, é mais do que óbvia se apenas observarmos a história por seu valor de face. É simples concluir que estamos assistindo à luta do proletariado contra o malvado e doentio capitalismo, mas essa estrutura formulaica é boba demais, simplista demais para parar por aí. Vamos além então, para a terceira camada.

Nela, percebemos que esse trem eternamente contornando um congelado planeta Terra não exige nada de ninguém. Não há trabalho, não há criação de riquezas. O proletariado dos vagões “pobres” não é realmente proletariado, pois não são trabalhadores. São apenas pessoas que vivem lá. O mesmo vale para os ricos da outra ponta. Eles não são apostadores em bolsas de valores. Apenas são ricos, pois estão nos vagões certos. Não existe, aqui, aquilo que vemos, por exemplo, no magistral e seminal Metrópolis, de Fritz Lang, filme aliás referenciado aqui e ali em Expresso do Amanhã.

Assim, o confronto da riqueza versus pobreza existe como um fim nele mesmo e não por ditames econômicos. Sim, existe uma função perniciosa no sequestro que catalisa a ação da fita, mas essa questão fica em segundo plano e não justifica exatamente a divisão em classes. Ela parece existir por uma razão ainda mais cruel, ainda mais inaceitável que uma mera alegoria anti-capitalista ou anti-comunista: por puro comodismo. Sim, comodismo. E de ambos os lados. A sociedade pré-trem era dividida em castas e a sociedade no trem, portanto, precisa ser dividida em castas. E o comodismo que é varrido para o lado quando a revolução começa, mas o espectador verá, na medida em que o filme se desenrola, que nem isso é tão simples assim e o final, com um corajoso discurso por parte de Curtis, dá o que pensar e discutir. É isso que grandes filmes devem sempre fazer e é isso que Expresso do Amanhã consegue com facilidade, mesmo depois de encantar os espectadores com a argúcia técnica de Bong Joon Ho e de sua equipe.

Expresso do Amanhã é um filme que provavelmente será lembrado muitos anos no futuro. E merecidamente. Pode ter sofrido na bilheteria por mandos e desmandos de um produtor que acha que sempre sabe o que é melhor para seu público, mas o resultado final é tão magnífico e de cair o queixo que fica difícil imaginar como essa obra de Bong Joon Ho não ganhou naturalmente mais destaque e aclamação mundial.

  • Crítica originalmente publicada em 27 de agosto de 2015.

Expresso do Amanhã (Snowpiercer, EUA/Coréia do Sul/República Tcheca/França – 2013)
Direção: Joon-Ho Bong
Roteiro: Joon-Ho Bong, Kelly Masterson (baseado em graphic novel de Jacques Lob, Benjamin Legrand, Jean-Marc Rochette)
Elenco: Chris Evans, Tilda Swinton, John Hurt, Ed Harris, Jamie Bell, Kang-Ho Song, Octavia Spencer, Ewen Bremner, Ah-Sung Ko, Alison Pill, Luke Pasqualino, Vlad Ivanov, Emma Levie, Steve Park
Duração: 126 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor

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Conforme aprendemos nesse episódio e que inclusive está em seu título, a ordem de freiras romulanas Qowat Milat tem como princípio basilar o “caminho da absoluta franqueza” e, inspirado nele, tenho que ser direto: Star Trek: Picard até que não é ruim, mas a série precisa urgentemente ser mais do que a infinita reunião de uma nova equipe para o ex-almirante Jean-Luc Picard e, por mais, eu quero dizer que toda aquela trama envolvendo Soji no cubo Borg também não está funcionando a contento. Pronto, tendo tirado isso da frente, deixe-me começar a análise de Absolute Candor.

Depois de introduzir Laris e Zhaban, romulanos da ordem Tal Shiar que Picard salvou e que, agora, trabalham em seu vinhedo e a doutora Agnes Jurati, especialista em androides e de apresentar Raffi, a ex-imediata do almirante, que, por sua vez, introduz o comandante Rios (e seus mais do que convenientes hologramas-paus-para-toda-obra), é chegada a hora de apresentar mais gente do passado de Picard. Não só a ordem das freiras guerreiras Qowat Milat é tirada da cartola como parte do drama de Picard sobre o fim da evacuação dos romulanos depois do ataque em Marte, como os showrunners aparentemente precisavam criar uma espécie de filho postiço para o protagonista que, claro, hoje em dia, é um ninja romulano mortal que faria inveja a Snake Eyes e Storm Shadow juntos.

Todo aquele flashback fofinho de Picard de chapéu panamá e roupa de linho branco (brega mandou lembranças) em Vashti foi uma sucessão interminável de “rolação de olhos” para mim. E a coisa fica ainda mais estranha se considerarmos que Picard levou Laris e Zhaban para casa, mas não voltou para resgatar o então jovem Elnor com quem ele estabeleceu profunda conexão e que as freiras deixaram claro que ele não tinha lugar ali. É muita vontade de criar um sidekick para Picard brincar de ser pai…

E, claro, toda aquela ação no presente em Vashti também não ajudou muito, pois foi uma sucessão de clichês mal ajambrados de estranho em terra estranha, de reconexão com o antigo protegido (agora vivido por Evan Evagora)  e, pior, de uma ameaça completamente aleatória em órbita que dá espaço para a chegada ainda mais aleatória de Sete de Nove (Jeri Ryan). O roteiro de Michael Chabon não consegue nem mesmo consertar a situação confusa no cubo Borg que só fica mais enevoada e desinteressante a cada capítulo.

Mas calma, não é o fim do mundo. Eu nem mesmo detestei o episódio. Ele ficou ali um pouquinho acima da linha média porque, convenhamos, Patrick Stewart é Patrick Stewart e, ainda por cima, o episódio é dirigido por ninguém menos do que Jonathan Frakes, o próprio Número Um e que foi responsável por três filmes da franquia Star Trek, dentre eles Nêmesis, que considero o melhor, e que tem se provado um excelente diretor de TV. É ele que consegue fazer uma limonada diretorial do limão roteirístico de Chabon, trabalhando boas sequências tanto na ponte da La Sirena (Picard não resistindo o comando foram excelentes momentos cômicos e ao mesmo tempo enervantes) quanto na superfície do planeta, especialmente a sequência de ação no bar romulano que culminou com uma cabeça decepada por Elnor.

No entanto, voltando ao começo de meus comentários, chega. Não dá mais para a 1ª temporada de Star Trek: Picard girar em torno da construção de uma nova tripulação para o resgate de Soji. O artifício não só já deu o que tinha que dar, como cansa pela introdução mais do que conveniente de gente perfeita para as funções necessárias. Além disso, a trama no cubo Borg simplesmente precisa tomar tenência e rumo, pois, até agora, ela não passa de uma bobagem cheio de invencionices que serve de desculpa para o romance do romulano com a androide. Afinal, há um potencial enorme nesse revival de A Nova Geração que seria um crime se fosse desperdiçado!

Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor (EUA, 13 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco, Jeri Ryan, Evan Evagora
Duração: 45 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning

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Remembrance teve a difícil, mas vitoriosa tarefa de reintroduzir Jean-Luc Picard para a audiência moderna, dando conta de uma trama completamente nova e ao mesmo tempo profundamente enraizada na mitologia do adorado personagem de Patrick Stewart. Maps and Legends, por seu turno, carregou no texto expositivo para correr com a contextualização, muitas vezes se socorrendo de conveniências e esquecendo de fazer pleno uso do meio audiovisual. The End is the Beginning, o terceiro episódio seguido dirigido por Hanelle Culpepper, parece fechar a “trilogia introdutória” da 1ª temporada de Star Trek: Picard, introduzindo três novos personagens (na série), desenvolvendo o lado de Soji no cubo Borg e, claro, finalmente colocando o ex-almirante novamente no espaço.

É muita coisa para abordar em tão pouco tempo, sem dúvida, mas o roteiro de Michael Chabon e James Duff consegue equilibrar melhor exposição com ação, entregando um episódio mais redondo que o anterior que, porém, continua com problemas, mais notavelmente o “paraquedismo” de personagens e de saídas fáceis para questões complexas. Mesmo assim, considerando as quase duas décadas que separam a última aparição de Picard em qualquer tela e a retirada do personagem de sua aposentadoria bucólica em seu vinhedo francês, The End if the Beginning, quando visto em conjunto com os capítulos anteriores, estabelece muito bem a premissa da temporada, engajando o espectador nessa nova aventura e prometendo muito para o que vem por aí.

Iniciando com um flashback que marca o fim da carreira do protagonista na Frota Estelar e que estabelece a razão do relacionamento mais do que estremecido dele com a comandante Raffi Musiker, sua segunda em comando (como é visto em mais detalhes no prelúdio em quadrinhos Star Trek: Picard – Contagem Regressiva), que o culpa por abandonar seu posto e basicamente condená-la ao ostracismo, algo que é reiterado pelo doloroso diálogo dos dois no presente, no trailer de Musiker – vivida por Michelle Hurd – no meio de nada com lugar nenhum. O fascinante nesse aspecto é o esforço que a série faz para desconstruir a imagem perfeita que temos de Jean-Luc Picard. O comandante altivo de A Nova Geração dá lugar a um homem extremamente orgulhoso, que não é capaz de enxergar sua própria arrogância. Musiker coloca mais uma pá nessa cova do “Super Picard” quando joga na cara do ex-almirante sua incapacidade de procurá-la depois de tanto tempo, só fazendo quando precisa de um favor particularmente complicado. E quem achar que isso é um desrespeito ao personagem, pensem novamente, pois isso é, na verdade, uma grande homenagem a ele. Perfeição não tem espaço em uma série de valor e essa humanização de Picard é absolutamente essencial para seu personagem funcionar de verdade em tempos modernos, isso sem falar que a exposição dessas suas características negativas está em consonância com o que ele sempre demonstrou ser, mas que as lentes bondosas anteriores apenas procuravam focar nos aspectos positivos.

A introdução de Cristóbal “Chris” Rios (Santiago Cabrera) e de seu divertido holograma de emergência, que é uma versão menos desgrenhada de si mesmo, carece de qualquer sutileza. Depois de uma sugestão da rabugenta Musiker, Picard simplesmente aparece na impecável ponte da nave do piloto que, ato contínuo, ganha alguns minutos contextualizadores – com e sem Picard – que é mais uma amostragem de um roteiro que precisa correr para firmar sua história. A questão é que isso poderia ser evitado se essa trilogia inicial tivesse balanceado a aparição de seus personagens, talvez trazendo Musiker mais para o começo, o que permitiria que Rio entrasse mais cedo, sem que fosse necessário recorrer a diálogos que didaticamente estabelecem quem ele é e o que ele pensa da Frota Estelar em geral e de Picard em particular. Ou isso ou esses elementos poderiam simplesmente ser introduzidos mais vagarosamente nos próximos capítulos. Seja como for, o personagem em si parece ser interessante e Cabrera parece muito à vontade no papel.

A ação no Château Picard, com os romulanos assassinos chegando para eliminá-lo, por seu turno, foi um ótimo momento de ação pura, com excelentes coreografias que, muito acertadamente, mantiveram Picard comendo pelas beiradas, só se aproveitando dos estragos causados pelos mais do que eficientes Laris e Zhaban. Isso é essencial para a verossimilhança da série, que não pode simplesmente jogar um octogenário no meio da pancadaria sem tornar tudo ridículo. Tudo bem que a entrada providencial da doutora Agnes Jurati foi o típico momento clichê para fazer olhos rolarem, mas esse é um pecado menor no contexto geral.

Lá no cubo Borg, que tem a ação paralelizada – em seu fim – com o que acontece na residência de Picard, vemos Soji começar a despertar para o que realmente é: uma androide. A forma como isso é executado, porém, pareceu-me desnecessariamente confusa, a começar pela (re)introdução de Hugh, o ex-drone Borg vivido mais uma vez por Jonathan Del Arco, que deu vida ao personagem em três episódios de A Nova Geração. Agora diretor do Artefato, ele mostra sua admiração por Soji, permitindo-a que entreviste uma romulana que também fora drone Borg. Tudo bem que o objetivo era reiterar a importância de Soji para a temporada, inclusive apelidando-a de “A Destruidora”, mas a trama, aqui, pareceu-me cheia de idas, vindas, explicações estranhas e invencionices que atrapalharam a fluidez da narrativa, algo que nem mesmo a direção firme de Culpepper conseguiu corrigir com eficiência. De certa forma, pareceu um enorme derramamento de mitologia em questão de pouquíssimos minutos que acabou quebrando a tensão do momento.

Seja como for, agora a equipe de Picard parece estar formada, com um objetivo mais ou menos estabelecido (conveniente pacas deixar Musiker achar Bruce Maddox offscreen, não?), a série pode finalmente começar de verdade, sem precisar enxertar mais história pregressa ou salpicar a trama de elementos complicadores só pela vontade de complicar. Por vezes, a simplicidade é o melhor caminho e JL, com toda sua calma e empáfia, parece saber bem disso.

Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning (EUA, 06 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Michael Chabon, James Duff
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco
Duração: 43 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends

star-trek_picard Maps and Legends plano crítico episódio

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Em seu segundo episódio, Star Trek: Picard compreensivelmente continua tentando estabelecer as bases da história sendo contada e a relevância de Jean-Luc Picard em todo esse jogo de mistério e espionagem. No entanto, ao afastar completamente a ação do capítulo, Maps and Legends tem um roteiro carregado de textos expositivos que, diferente de Remembrance, fazem a narrativa andar de maneira claudicante, muito mais de lado do que efetivamente em frente.

Tenho plena consciência que as séries clássicas da franquia Star Trek e A Nova Geração em particular prezavam muito mais o diálogo do que a ação, muito mais o verbo do que os punhos ou os phasers, mas, mesmo tendo angariado um status cult, isso não quer dizer automaticamente que essa é a melhor maneira de se contar uma história no audiovisual. Falar no lugar de mostrar no cinema ou na TV é, na maioria das vezes, cacoete narrativo ou, simplesmente, atalho para pular etapa e chegar mais rapidamente a determinado destino. 

Maps and Legends usa esse expediente diversas vezes ao longo de sua duração, tornando o episódio cansativo e didático demais, com doses cavalares de tecno-bobagens para rechear conversas relativamente vazias, como se Michael Chabon e Akiva Goldsman tivessem decidido regurgitar todo o palavreado supostamente técnico para substituir desenvolvimento narrativo. Basta ver a investigação interminável de Picard e Laris no apartamento de Dahj em Boston, que tem como única função verdadeira revelar a existência da Zhat Vash, uma organização romulana ainda mais secreta que a Tal Shiar e que tem como base uma forte política anti-sintéticos. O resto é firula para ocupar tempo de tela, o que nem seria um problema muito sério se algo semelhante não acontecesse novamente na interação de Picard com Agnes Jurati e também entre Soji e Narek no Cubo Borg que, separado da mente cibernética coletiva, ganhou o nome de Artefato.

Falando no Artefato, é muito interessante como a série reapresenta os Borgs, agora não mais como uma ameaça – pelo menos não no momento -, mas sim como fonte de tecnologia para os romulanos que, no processo, libertam os que foram assimilados da prisão cibernética, deixando-os por aí como “restos” de uma operação aparentemente muito lucrativa. Há um potencial enorme nessa linha narrativa que espero fortemente que germine ao longo da temporada.

Outro momento muito interessante, desta vez tendo Picard nos holofotes, foi a chegada do almirante aposentado no QG da Frota Estelar. Não só ele fica indignado por não ser reconhecido na recepção por um jovem, como sua conversa com a Almirante Kirsten Clancy (Ann Magnuson) dá muito errado, revelando de fato o quanto seu orgulho e vaidade o impedem de enxergar o óbvio: por mais que Picard tenha tido seu valor, ele não pode viver de seus méritos passados para fazer o que quiser sem maiores explicações. Por mais que torçamos por Picard, temos que reconhecer que ele não só largou a Frota Estelar há uma década e meia, como também acabou de desancar sua organização em TV ao vivo. Sua frustração é visível, mas, sob vários aspectos, absolutamente devida.

Por outro lado, o preâmbulo que reconstrói a revolta dos sintéticos em Marte pareceu-me gratuita e desnecessária nesse momento da série, a não ser que, nos próximos episódios, continuemos a ser brindados com os detalhes do que ocorreu. Igualmente, a revelação de que o protagonista sofre de alguma doença terminal – e, pior, que ela teria sido responsável por sua explosão durante a entrevista – soou-me como artifício dramático desesperado para criar urgência em uma história que não parece precisar de mais esse elemento complicador. 

É claro que a confirmação da existência de um complô profundo que envolve a Federação e os romulanos (mais um alienígena fisicamente alterado para se passar por humano como em Discovery!) funciona como o grande chamariz do episódio, mas mesmo isso vem talvez rapidamente demais, sem que haja tempo algum para que o espectador mature o bombardeio de informações em sua cabeça. Seja como for, por mais batida que essa escolha possa parecer, há, assim como no caso dos Borg, um bom potencial a ser explorado aí.

Agora é esperar que o próximo episódio termine de vez com a armação da história da temporada, abrindo espaço para que o nível de didatismo seja reduzido, equilibrando-o com ação, mas não ação na base da pancadaria incessante, pois disso já temos demais por aí, e sim ação digna de um capitão octogenário saindo de sua aposentadoria. Star Trek: Picard tem tudo para ser memorável, mas, para isso, precisa saber deixar sua história fluir de verdade.

Star Trek: Picard – 1X02: Maps and Legends (EUA, 30 de janeiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Akiva Goldsman
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis
Duração: 44 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X01: Remembrance

A nova Era de Ouro das séries de TV, turbinada pela entrada pesada de um sem-número de concorrentes que, seguindo o modelo do Netflix, querem oferecer conteúdo próprio via streaming, tem provocado uma garimpagem sem paralelo por material para ser adaptado, o que é sempre uma boa notícia, já que potencializa a existência de obras que de outra maneira permaneceriam esquecidas. O outro lado da moeda é que a estratégia tipicamente hollywoodiana de se reciclar e ressuscitar propriedades que já carregam um público cativo embutido e que, portanto, reduzem o risco, vem sendo também empregada com força.

A CBS, proprietária da franquia televisiva Star Trek, usou Star Trek: Discovery como o principal veículo de divulgação de seu serviço de streaming CBS All Access e, navegando nesse sucesso, agora expande ainda mais seus produtos baseados na imortal criação de Gene Roddenberry com Star Trek: Picard, tirando da aposentadoria o almirante Jean-Luc Picard, capitão da Enterprise na sensacional e longeva Star Trek: A Nova Geração, que foi ao ar entre 1987 e 1994 e também em quatro longas. Muito diferente de Discovery, que partia de material substancialmente inédito dentro desse universo, a nova série tinha o desafio de equilibrar o legado de Picard, o que significa, claro, uma cuidadosa contextualização e a apresentação de uma nova história que efetivamente justificasse sua existência, algo tão esquecido em obras que são trazidas à vida depois de tanto tempo no limbo.

De certa maneira, o roteiro de Akiva Goldsman e James Duff para Remembrance, que partiu de história dos dois e também de Michael Chabon e Alex Kurtzman, mostra um pouco de sofreguidão em ter certeza de que os desafios que mencionei acima seriam ultrapassados com sucesso, o que acaba deixando o episódio razoavelmente tumultuado e carregado tanto de informações pregressas para trabalhar o espaço temporal entre praticamente o final de Nêmesis e o começo da temporada quanto de informações que servem para armar a estrutura do que está por vir. É decididamente algo difícil de se fazer, especialmente quando lembramos que os roteiristas precisaram dar conta de 18 anos de Jean-Luc Picard longe das telas, período que inclusive introduziu a chamada linha temporal Kelvin, inaugurada pelo filme de 2009.

Tenho para mim, porém, que Goldsman e Duff mais acertaram do que erraram e isso fundamentalmente porque eles se mantiveram firmes em uma linha mestra que está muito clara no título escolhido para a série: Picard. No lugar de inventarem uma história exógena ao personagem, a dupla de roteiristas criaram algo que efetivamente parte do amado personagem vivido por Patrick Stewart. Não que a história comece em razão de Picard, mas sim porque toda a narrativa parece estar profundamente amarrada na mitologia do personagem. Não só o androide Data (Brent Spiner), que se sacrificou por seu capitão em Nêmesis é fundamental para esse pontapé inicial – e, suspeito, para muito mais do que apenas isso – como toda a conexão de Picard com seres cibernéticos, inclusive sua “possessão” pelos Borgs, é premissa narrativa para o que se desenvolve aqui.

No entanto, o espectador que não conhece a história de Picard não é esquecido e essa é uma das razões pelas quais há uma fatia razoável de tempo dedicado a contextualizações, o que inevitavelmente leva a textos expositivos, inclusive com o uso do artifício de uma entrevista com o almirante aposentado em sua vinícola na França que funciona tanto para afirmar sua importância, como para apresentar os grandes eventos nesse intervalo temporal: Romulus, planeta natal dos romulanos, foi destruído (esse evento é o que “cria” a linha temporal Kelvin e que ejeta o Spock Prime para o outro universo) e Picard largou o comando da Enterprise para ajudar nos esforços de evacuação, somente para que sintéticos sabotassem os esforços, transformando Marte – planeta que estava recebendo os romulanos – em um inferno e levando a duas decisões da Frota Estelar, a proibição da criação de androides e o fim das missões de resgate. Picard, discordando das decisões, aposentou-se.

Esse é o contexto. A história em si da nova série envolve a misteriosa chegada da jovem Dahj (Isa Briones) que, depois de um atentado a sua vida que revela que ela é muito mais do que aparenta ser, procura a ajuda de Picard, rosto que ela vê em sua mente e com quem sente uma conexão imediata, o mesmo acontecendo do lado do aposentado octogenário. O compasso de conexões com o passado se intensifica com Picard, conscientizando-se de que relaxar em um vinhedo não é a vida que ele realmente quer mesmo nesse estágio avançado de sua carreira, partindo para tentar descobrir quem exatamente é Dahj. Nesse processo, muita coisa acontece – ainda que a ação em si não seja constante, ainda bem – e a construção de universo que o roteiro faz ganha corpo exponencialmente e amarra passado, presente e futuro por meio de pesadelos, artefatos e revelações bombásticas.

Patrick Stewart continua mostrando vigor mesmo na terceira idade e a direção de Hanelle Culpepper não poupa o ator de close-ups, demonstrando que não há vergonha alguma em deixar evidente a passagem de tempo. Até mesmo Brent Spinner como Data não tem sua idade apagada como em tese deveria ter por razões óbvias, ganhando breves, mas significativas participações que respeitam seu personagem, mas não se preocupam em mascarar o que não precisa ser mascarado com CGI ou mesmo maquiagem mais pesada ainda. E, melhor ainda, o roteiro não transforma Picard em um super-herói atlético, o que parece ter sido a razão principal para os poucos momentos de ação pura, com o cuidado de mostrar o almirante aposentado mal conseguindo subir escadas. Se é para trazer de volta personagens que deveriam ter 80 ou 90 anos, nada de fingir que eles têm 60 ou 50. Além disso, Star Trek nunca foi necessariamente afeita à pancadaria incessante – Discovery e a linha Kelvin são exceções bem-vindas, mas que deveriam permanecer como exceções – e Picard, nesse aspecto, é mais old school.

Mas o CGI existente, basicamente focado em dar vida às cidades – é particularmente bacana ver Paris – é muito eficiente e cumpre sua função. Não chega a ser espetacular principalmente porque a série ainda não exigiu isso da equipe criativa, mas há potencial para que ele seja do excelente nível de Discovery assim que a ação for levada ao espaço.

Claro que as referências estão em todos os lugares, da música de abertura, passando pelo chá earl grey, até o nome de seu cachorro, mas, diferente de fan services vazios que são a praga de muitas produções atuais, aqui eles carregam significado e lógica. Claro que há exageros aqui e ali, mas não é nada que interfira na narrativa ou que pareça ter sido construído para que determinada referência exista, isso se o espectador aceitar que a narrativa que parte das características pessoais de Picard, como mencionei acima, não são fan services, pelo menos não da forma como eles são usualmente utilizados.

A 8ª série da franquia Star Trek definitivamente começa com o pé direito e, mesmo que não necessariamente vá para onde nenhuma outra série jamais esteve, pelo menos mostra que esse vasto universo tem ainda muitas boas histórias para serem contadas. E se isso significa que relíquias do passado precisam ser reviradas e reaproveitadas na febre de se conseguir material para ser adaptado, então que assim seja.

Star Trek: Picard – 1X01: Remembrance (EUA, 23 de janeiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Akiva Goldsman, James Duff (baseado em história de Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman e James Duff)
Elenco: Patrick Stewart, Isa Briones, Alison Pill, Brent Spiner, Orla Brady, Jamie McShane, De Niro
Duração: 44 min.