Alfred Hitchcock: Filmes

Crítica | Quando Fala o Coração

Spellbound-1945 quando fala o coração plano crítico

Um dos primeiros filmes em Hollywood a trabalhar abertamente com a psicanálise em seu enredo, Quando Fala o Coração (Spellbound, no original) teve uma produção fortemente marcada por divergências entre o diretor Alfred Hitchcock e o produtor David O. Selznick, indo do tratamento do tema psicológico que o britânico não levava muito a sério e para o qual o seu chefe queria uma abordagem com flertes quase documentais… até a contratação dos atores principais e o uso da famosa “cena do sonho” no filme, que dos cerca de vinte minutos filmados acabaram entrando apenas dois no corte final.

O roteiro de Ben Hecht e Angus MacPhail se baseia no livro The House of Dr. Edwardes, escrito por Francis Beeding (pseudônimo de Hilary A. Saunders e John Palmer) em 1937, obra para a qual Hitchcock havia pedido a Selznick que obtivesse os direitos. No texto para o cinema, o dilema ficou centrado no relacionamento entre a Doutora Constance Petersen (Ingrid Bergman) e John Ballantyne (Gregory Peck). Ela, uma psiquiatra de boa formação e construindo uma boa carreira. Ele, um homem com amnésia e envolvido em um crime sobre o qual ninguém tem muitas informações, ou seja, um prato cheio para o diretor trabalhar narrativas de culpa, de caça ao inocente e de corrupção de uma boa realidade (ou personalidade) por alguém ou algo essencialmente ruim, contaminador.

O problema é que o roteiro não consegue se desvencilhar do romance. Desde que é estabelecido, esse aspecto do texto interfere na construção óbvia (mas chamativa) de uma questão identitária somada a um dilema moral e um problema jurídico a ser considerado, tudo isso pelos olhos da psicanálise. Em suma, conteúdo relevante é o que não faltava para ser trabalhado aqui, e em partes da obra até conseguimos ver o impacto desse tipo de abordagem, trazendo o melhor dos atores, os pontos mais impactantes da oscarizada trilha sonora de Miklós Rózsa e do verdadeiro suspense que o enredo se propõe dissecar.

A dúvida sobre a identidade de John abre caminhos para que questionamos se ele é perigoso ou não, se ele de fato cometeu o crime e se ele conseguirá provar a sua possível inocência. Em certa medida, o amor entre ele e a personagem de Ingrid Bergman consegue funcionar como aditivo dramático (veja, por exemplo, a tensão nas cenas da estação de trem e na chegada à casa do Dr. Alexander Brulov — personagem de Michael Chekhov, em excelente atuação), mas as declarações açucaradas e deslocadas estragam praticamente tudo, assim como as atitudes irresponsáveis vindas da Doutora Constance, que só poderiam ser aceitáveis se estivéssemos num melodrama de Douglas Sirk, o que não é caso.

O lado psicológico pode parecer um capricho no desenvolvimento da obra, mas paga muito bem a nossa espera quando as respostas são dadas, no excelente clímax. Criando maior suporte aos símbolos e a diversas interpretações possíveis para o que o foragido está passando, temos a icônica e sensacional sequência do sonho que foi desenhada por Salvador Dalí e dirigida por William Cameron Menzies (Hitchcock queria que Josef Von Sternberg dirigisse esse bloco, mas não foi possível). Toda a sequência recebe um aplaudível tratamento de “interpretação e resposta” na parte final, com um serviço inteligente de pegar informações do subconsciente e transformá-las em eventos em torno do misterioso assassinato, levando-nos ainda para um baita desfecho satisfatório. É uma pena que a obra dê atenção demais ao seu lado romântico e não foque exclusivamente no suspense e no olhar psicanalítico, aquilo que ela tem de melhor, mas também não é um filme que nos faz terminar a sessão plenamente insatisfeitos com o que vimos.

Quando Fala o Coração (Spellbound) — EUA, 1945
Direção: Alfred Hitchcock, William Cameron Menzies (apenas sequência do sonho)
Roteiro: Ben Hecht, Angus MacPhail
Elenco: Ingrid Bergman, Gregory Peck, Michael Chekhov, Leo G. Carroll, Rhonda Fleming, John Emery, Norman Lloyd, Bill Goodwin, Steven Geray, Donald Curtis, Wallace Ford, Art Baker, Regis Toomey, Paul Harvey, Jean Acker, Irving Bacon, Edward Fielding, Jacqueline deWit, Erskine Sanford
Duração: 111 min.

Crítica | Um Barco e Nove Destinos

estrelas 4,5

Um Barco e Nove Destinos é um filme extremamente rigoroso no quesito técnico e muito importante nas discussões históricas, éticas e morais que propõe em pouco mais de uma 1h30 de duração. Lançado durante a Segunda Guerra Mundial, a obra não recebeu boas críticas e nem se sagrou um sucesso de bilheteria, mas foi redescoberta com o passar dos anos e apreciada (tardiamente) pelo seu altíssimo valor cinematográfico.

O Mestre do Suspense vinha de um lançamento bastante popular no ano anterior (A Sombra de uma Dúvida), e neste novo projeto queria desafiar-se, tentar algo novo no sentido narrativo e estético. Sua decisão foi voltar a trabalhar com um tipo de “engajamento político” que ele já havia impresso em algumas obras anteriores, inclusive nos Estados Unidos, como Correspondente Estrangeiro e Sabotador. Mesmo que não fizesse um “cinema político”, Hitchcock se permitia-se olhar, volta e meia, para os acontecimentos à sua volta, e então criava uma pequena armadilha para o seu público e para os seus personagens, tendo como plano de fundo um evento histórico marcante.

Um Barco e Nove Destinos já se inicia com o desastre. Um navio afunda e, nos primeiros minutos de projeção, vemos uma grande quantidade de objetos boiando no oceano. Um corpo também passa pela câmera. O espectador não consegue ver com extrema clareza todo o entorno porque há uma incômoda neblina. O ritmo é sutilmente acelerado a partir daí, e então, chegamos ao bote salva-vidas que servirá de único cenário para todo o filme a partir desse momento. Não demora muito e descobrimos que o navio afundado foi torpedado pelos nazistas. Por ironia (leia-se: pelo desejo de Hitchcock em discutir alguns elementos ideológicos da Grande Guerra) um náufrago alemão chega ao bote salva-vidas e é resgatado pelos náufragos aliados. O que se segue é uma notável readequação de visões de mundo por parte dos personagens… ou de tentativas e conflitos causados por essas mudanças — de uma forma estrutural, me lembrou a jornada psicológica percorrida pelos jurados de 12 Homens e uma Sentença.

Afinal, o que fazer com a vida de um “prisioneiro de guerra“? De um inimigo do mundo? E se aquele alemão não fosse nazista? Ele tinha “culpa” de ter nascido alemão? Os aliados, pregadores de uma ideologia democrática, cometeriam um crime semelhante ao inimigo que os seus soldados combatiam no front? As perguntas feitas pelos próprios personagens atingem o espectador em cheio. A semente de um pensamento crítico e de uma discussão ideológica de peso está lançada. Hitchcock  então se sente à vontade para “começar” o filme.

A narrativa se torna cada vez mais intricada. Percebe-se que o alemão tem grande conhecimento de navegação e sabe liderar bem um grupo. O roteiro de John Steinbeck e Jo Swerling navega por águas morais e éticas até o momento em que as atitudes ganham espaço. O alemão é linchado pelo grupo do barco — e a câmera de Hitchcock se afasta um pouco, mostrando-os de costas, como uma matilha de cães atacando alguém. O diretor parece brincar com o limite do aceitável e do condenável, pautando suas provocações com fortes questões ideológicas, o que não deixa o contexto mais simples.

Como não há uma única nota musical de trilha sonora (a música do filme limita-se a algumas canções que o alemão cantarola ou melodias tiradas em uma velha flauta), a montagem de Dorothy Spencer e a direção de Hitchcock precisaram lidar com o peso do drama em cada bloco de ação, e também uma forma de interligar ações ao longo do filme sem fazer com que o espectador se cansasse do cenário ou se esquecesse que Um Barco e Nove Destinos é uma história de sobrevivência em meio à guerra. E quando o público pensa que os conflitos se resolveram – exceto a questão da consciência dos personagens, que em nenhum momento é julgada como pesada ou leve em relação ao que fizeram -, um novo impasse moral se apresenta, na forma de um outro náufrago nazista. O problema é que agora todos do bote salva-vidas já têm uma experiência nada elogiável no trato com esse tipo de indivíduo.

O que fazer quando se encontra o motivo de outra crise logo após sair de uma? É a tortura antropológica que faz o final de Um Barco e Nove Destinos girar em um ciclo vicioso de escolhas e compreensão, de responsabilidade e julgamento. Hitchcock realiza uma obra coerente com as atitudes de qualquer pessoa em momento de escolhas de peso. O resultado é um notável scanner do comportamento humano quando confrontado com seus piores temores ideológicos. Um filme cada vez mais atual.

  • Crítica originalmente publicada em 18 de março de 2014. Revisada para republicação em 06/03/2020, em comemoração aos 120 anos de nascimento do Mestre do Suspense e da elaboração da versão definitiva do Especial do diretor aqui no Plano Crítico.

Um Barco e Nove Destinos (Lifeboat) – EUA, 1944
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: John Steinbeck, Jo Swerling (baseado em uma ideia de Alfred Hitchcock).
Elenco:  Tallulah Bankhead, William Bendix, Walter Slezak, Mary Anderson, John Hodiak, Henry Hull, Heather Angel, Hume Cronyn, Canada Lee
Duração: 97 min.

Crítica | A Sombra de Uma Dúvida

plano crítico A Sombra de uma Dúvida (1943) Shadow of a Doubt

Quando o trem que traz o tio Charlie (Joseph Cotten) para a pequena cidade onde mora a irmã, o cunhado e os sobrinhos se aproxima da plataforma, nós vemos uma exagerada quantidade de fumaça saindo da máquina, um símbolo — dito pelo próprio Alfred Hitchcock como proposital — da sombra, da maldade que chegava àquele lugar. Baseado em uma história de Gordon McDonell, o roteiro quase fantasia uma pequena localidade “pura”, intocada pelo mal, que passa a ter como visitante alguém que se esconde da polícia, suspeito de cometer crimes atrozes contra mulheres viúvas.

A Sombra de Uma Dúvida é um noir que Hitchcock afirmou várias vezes tratar-se de seu filme favorito, dentre os que dirigiu. Nele, o personagem de Joseph Cotten — em uma atuação muito bem dosada entre momentos de ameaça, ira e desfaçatez psicótica — faz a alegria da irmã e principalmente da sobrinha Charlie (Teresa Wright, no início da carreira) quando chega para passar uns tempos na casa. O roteiro explora o cotidiano dessa família dando destaque para a diferença de percepção de mundo que cada um ali tem, o que às vezes nos traz cenas cômicas vindo das crianças e cenas que apontam para a rotina de todos os dias, vindo dos maiores: o trabalho, os afazeres de casa, os pequenos interesses pessoais, a família. Mesmo “fazer algo diferente”, nesse cidade, não é o bastante. É preciso alguém de fora para descortinar o olhar dos residentes frente a diversas coisas: o dinheiro, a pomposa apresentação social, as memórias de infância, o amor. Mas o mesmo catalisador desse novo olhar para as novidades também traz a morte consigo.

A relação entre os personagens aqui pode ter diversas interpretações, indo do mais simples aproveitamento uns dos outros até as muitas interpretações simbólicas possíveis. O próprio filme brinca com essa visão de aproveitamento (em distintos valores morais, claro) entre os personagens, fazendo uma série de referências vampíricas nos diálogos, desde uma literal frase de Drácula (1931), “o mesmo sangue corre pelas nossas veias“, até aproximações bem inseridas no decorrer das cenas, como a comunicação por telepatia entre tio e sobrinha ou a própria forma que o protagonista nos é apresentado na cena inicial do filme. A ameaça que chega à pequena cidade, portanto, ganha um significado ainda maior, mas isso não se torna o cerne da obra, apenas a atmosfera dela. E é em torno disso que o drama de investigação e relações humanas passa a se desenrolar, seguindo a linha básica esperada dos filmes noir, embora haja aqui uma refiguração de quem é o fatale da história.

Hitchcock consegue aproveitar muito bem o mistério e usa alguns motivos visuais para nos indicar o afastamento de ideias e de sentimentos entre tio e sobrinhos (especialmente com as duas meninas), mas mantém a proximidade, no convívio dentro da casa, entre o visitante e os outros membros da família. Essa dicotomia nas relações interpessoais vai mudando um pouco o ritmo da montagem no segundo ato, tendo como consequência um bom encaixe inicial com o bloco dos detetives, mas infelizmente uma má resolução (ou temporário afastamento) desse núcleo. Em compensação, o texto mantém a investigação via as suspeitas da jovem Charlie, enquanto a câmera passa a mostrar o tio em ângulos diagonais, destacando uma clara perturbação psicológica, o medo de ser descoberto. Daí para frente, no caminho da resolução do caso, vota à tona aquela ideia de “aproveitamento” no meio dessa relação, ou seja, a publicidade do caso, na cidade, poderia ser ruim para a família Newton tanto quanto para o criminoso Charlie Oakley. Um verdadeiro dilema em torno da punição de um culpado que acaba por punir também os inocentes.

E é justamente nessa punição definitiva que reside o ponto que eu não gosto no filme, nem no texto, nem na execução. Por outro lado, é um problema isolado, que mesmo na cena anterior e nas poucas cenas posteriores consegue trazer um pouco mais de equilíbrio (com amarga ironia no roteiro) para o problema. Um suspense sobre as “famílias ordinárias”, seus pequenos e grandes problemas, seu amadurecimento, dores, memórias e modos de enfrentar os problemas da vida. Das pequenas fugas através da leitura, da diversão pensando em métodos funcionais de como cometer um assassinato ou divertindo-se conversando sobre os velhos tempos ou participando de eventos locais, é essa vida comum, ordinária e maravilhosa que Hitchcock encobre, ao menos temporariamente, em uma grande sombra.

A Sombra de Uma Dúvida (Shadow of a Doubt) — EUA, 1943
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Thornton Wilder, Sally Benson, Alma Reville (baseado em uma história de Gordon McDonell)
Elenco: Teresa Wright, Joseph Cotten, Macdonald Carey, Henry Travers, Patricia Collinge, Hume Cronyn, Wallace Ford, Edna May Wonacott, Charles Bates, Irving Bacon, Clarence Muse, Janet Shaw, Estelle Jewell, Bill Bates, Virginia Brissac, Frances Carson
Duração: 108 min.

Crítica | Correspondente Estrangeiro

estrelas 4

Quando filmou Correspondente Estrangeiro, seu segundo filme em Hollywood, Hitchcock já tinha experiência em dirigir dramas de espionagem e de cunho político das mais diversas motivações, como podemos comprovar em algumas de suas películas britânicas como O Homem Que Sabia Demais (1934), Sabotagem (1936), Agente Secreto (1936) e A Dama Oculta (1938).

Depois de tentar contratar Gary Cooper para o papel principal e receber um “não” do ator (que se arrependeria disso anos depois), Hitchcock precisou se conformar com um elenco que não o conquistara totalmente, mas do qual conseguiu boas atuações e com o qual conseguiu fazer um filme ágil e instigante, dentro de um contexto dramático do século XX: o início da II Guerra Mundial.

Além do tema, prendem o espectador as locações do filme e o modo como o diretor usou do espaço para tornar a caçada e a descoberta um tanto exóticas. Incluímos aí também o público que geralmente se incomoda com questões de verossimilhança, mesmo que levemos em consideração que Hitchcock tinha como meta desprezar esse tipo de recurso toda vez que fosse possível, a fim de dar maior voz à fantasia. Eu já abordei esse tema outras vezes em críticas dos filmes britânicos do cineasta e volto a dizer que, em sua fase americana, o diretor foi mais criterioso em “desprezar a verossimilhança“, fazendo isso de modo bastante aceitável dentro de sua proposta e dentro de um determinado contexto fílmico, uma atitude que infelizmente não podemos dizer exatamente de todas as suas obras anteriores a Rebecca.

A ação do roteiro se passa no início de 1939, quando um jornalista americano é enviado para a Europa a fim de fazer a cobertura dos eventos que poderiam ou não causar uma guerra. A escolha de Jones (Joel McCrea), o jornalista em questão, é posta no roteiro com um forte tom de cinismo, onde vemos claramente a mão de Hitchcock no texto, mesmo que ele não receba os créditos por isso. Sem nenhuma motivação política e total ignorância em relação aos acontecimentos do Velho Continente, Jones era a “pessoa ideal” para farejar notícias que venderiam jornais e que seriam diferentes de tudo o que o editor geral recebia naquele momento. E… bem, por mais irônico que seja, Jones acaba encontrando uma grande reportagem. Simplesmente por acaso.

Perceba que o engajamento do personagem principal se dá por motivos bem diferentes de uma causa política. Se precisasse classificar, diria que é a intenção de um furo jornalístico instigante e a paixão por uma garota que o faz entrar num covil de nazistas disfarçados e que tem no renomado presidente da associação pacifista um de seus líderes.

O jogo de intenções pessoais, patrióticas e ético-morais dá ao roteiro algo além da descoberta de um espião nazista ou de um grupo que quer matar um político holandês para desencadear a guerra. Talvez pelo disfarce dramático do texto, cujo foco principal é a ação de Jones, a atenção de grande parte dos espectadores centre-se nessa linha de eventos mas há também posições ideológicas nas entrelinhas que, de maneira muito sutil, vêm à tona no embate entre os personagens, cujo comportamento e o que fazem para defender seu país ou a paz mundial diz mais do que suas palavras, discursos, títulos e funções oficiais.

Correspondente Estrangeiro é um dos mais esteticamente virtuosos filmes em preto e branco de Hitchcock. Desde as tomadas ainda nos Estados Unidos, dentro da redação do jornal, até as belíssimas cenas no moinho de vento ou no centro de Amsterdã, temos o cerco de um ambiente quase idílico, um lugar onde não concebemos haver pessoas que querem iniciar um conflito bélico de grandes proporções. Porém, mais uma vez, o diretor nos faz entender que as aparências enganam e que nem a História nem o crime perdoam ou poupam inocentes, alienados, politicamente engajados e isentos. Em algum momento, todos se tornarão vítimas.

  • Crítica originalmente publicada em 24 de março de 2014. Revisada para republicação em 28/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent) – EUA, 1940
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Joan Harrison, James Hilton, Robert Benchley
Elenco: Joel McCrea, Laraine Day, Herbert Marshall, George Sanders, Albert Bassermann, Robert Benchley, Edmund Gwenn, Eduardo Ciannelli, Harry Davenport, Martin Kosleck, Frances Carson
Duração: 120 min.

Crítica | Rebecca, A Mulher Inesquecível

estrelas 4,5

François Truffaut: Está satisfeito com Rebecca?

Alfred Hitchcock: Não é um filme de Hitchcock. É uma espécie de conto e a própria história data do fim do século XIX. Era uma história bem velhinha, bem fora de moda. Naquela época havia muitas escritoras: não tenho nada contra, mas Rebecca é uma história sem nenhum humor.

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Alfred Hitchcock mudou-se para os Estados Unidos no final de 1939, a convite do badalado produtor David O. Selznick, que tinha acabado de lançar …E O Vento Levou. A princípio, o diretor britânico estrearia em Hollywood com uma adaptação de Titanic, mas Selznick mudou de ideia sobre o projeto e, aproveitando a simpatia de Hitchcock para com a obra de Daphne Du Maurier (de quem já adaptara para o cinema A Estalagem Maldita e futuramente viria adaptar Os Pássaros), comprou os diretos do romance Rebecca e se propôs a produzir o filme, com Hitchcock na direção.

Apesar de Rebecca marcar a estreia do Mestre do Suspense nos Estados Unidos, trata-se na verdade de um filme tipicamente britânico, com a maior parte do elenco principal composto por britânicos. Assim, Hitchcock se sentiu em casa no quesito “equipe de trabalho” e, mesmo que tivesse Selznick dando ordens e interferindo nas filmagens com frequência, a produção não foi difícil, apenas não foi prazerosa para o diretor, que além do produtor rigoroso, tinha que lidar com um romance de época num momento de sua carreira em que o suspense já se alvorava no topo de suas ambições de filmagem.

A história é dividida em duas partes dramáticas. Na primeira, temos Maxim de Winter (Laurence Olivier) e a futura segunda Sra. de Winter (Joan Fontaine), personagem que nunca é chamada pelo nome… um mistério que o diretor segura até o fim da obra, sem nos revelar. Essa primeira observação é interessante porque mostra muita coisa da personalidade dependente e subserviente dessa jovem senhora que se casa com um homem cuja esposa falecida é adorada e lembrada por todos à sua volta.

Já a segunda parte do filme acompanha o longo caminho percorrido pela personagem de Joan Fontaine para se adaptar à casa e conquistar o seu lugar num mundo que parece só haver espaço para Rebecca, a mulher inesquecível.

A despeito da indiferença de Hitchcock para com o filme, trata-se de uma obra verdadeiramente notável, um início esplêndido do cineasta em Hollywood. O suspense não é o verdadeiro gênero da película, mas o drama psicológico que se desenrola na tela tem uma forte presença de elementos caros ao diretor, algo que foi ressaltado a contento no roteiro e também na concepção estética, partindo da música marcante de Franz Waxman e da excelente direção de arte de Lyle R. Wheeler, que tinha acabado de receber um Oscar por seu trabalho em …E O Vento Levou.

Hitchcock guia a história por um caminho que não só engana e prende o espectador como também o faz perceber a mudança visual de um ponto a outro da fita. Enquanto o casal protagonista está em Monte Carlo, percebemos um maior número de cenas em externas, fotografia mais clara e ambientes menores e bastante preenchidos, deixando claro uma aparência de verão feliz e amor nascente. Todavia, quando a jovem Sra. de Winter chega à nova casa, vemos aumentar drasticamente o número de cenas em internas, presença de cenas noturnas, prenúncio de tempestade, névoa e cômodos sempre muito grandes, deixando a personagem de Joan Fontaine pequena e perdida em meio a tanta pompa e na overdose de objetos e hábitos da falecida Rebecca. E quando a verdade vem à tona, de uma maneira orgânica e num acertado ritmo dramático, o espectador fica sem chão.

Durante o filme, tem-se a oportunidade de presenciar todo tipo de comportamento, desde ameaças e medo até demonstrações de amor, uma avalanche de sentimentos que desembocam no final com a medonha Sra. Danvers defendendo o santuário de sua amada e antiga patroa e a teia que a todos prendia se desfazendo, mesmo que o ambiente que lhe sustentara ainda pairasse na cena final.

Rebecca, a Mulher Inesquecível é um grande filme de Alfred Hitchcock, um drama de característica misteriosa com direito a dominação psicológica, tormentos e acusações a uma jovem frágil e sem grande poder de ação para mudar um mundo que parece querer afastá-la a todo custo. Poucos diretores conseguiram trabalhar tão bem pela primeira vez fora de casa, realizando um filme que não tinha lá muito appeal e um produtor ao estilo da personagem da Sra. Danvers. Isso só mostra o quão afiado Hitchcock estava a essa altura de sua carreira, depois de passar anos treinando e aprendendo em sua terra natal. Agora, com maior orçamento, mais experiência e melhor equipe de produção, ele estava pronto para mostrar que sabia fazer grandes filmes e Rebecca é o primeiro passo desse notável momento.

  • Crítica originalmente publicada em 18 de março de 2014. Revisada para republicação em 25/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Rebecca, a Mulher Inesquecível (Rebecca) – EUA, 1940
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Robert E. Sherwood, Joan Harrison, Philip MacDonald, Michael Hogan (baseado na obra de Daphne Du Maurier).
Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Nigel Bruce, Reginald Denny, C. Aubrey Smith, Gladys Cooper, Florence Bates, Melville Cooper.
Duração: 130 min.

Crítica | A Estalagem Maldita

estrelas 3

A Estalagem Maldita foi o último filme de Alfred Hitchcock no Reino Unido, de onde partiria para morar e trabalhar nos Estados Unidos, a convite de David O. Selznick, já no ano seguinte.

O diretor britânico recebeu o convite quando ainda filmava A Dama Oculta, e chegou a fazer uma “visita de reconhecimento” à terra do Tio Sam em agosto de 1938, onde acertou com Selznick a proposta de filmar Titanic, acordo que foi modificado posteriormente. Em vez da famosa tragédia do transatlântico, o cineasta ficou encarregado de filmar Rebecca, A Mulher Inesquecível (1940), sua estreia em Hollywood que seria a sensação do Oscar, vencendo nas categorias de Melhor Filme e Melhor Fotografia em Preto e Branco, além de receber outras 9 indicações, incluindo a de Melhor Diretor.

Talvez seja em comparação a essa grande diferença de qualidade e recepção das obras que os cinéfilos normalmente tendem a desprezar por completo A Estalagem Maldita. É verdade que se trata de um filme menor de Hitchcock, mas é uma história até certo ponto divertida, mesmo que sua produção não tenha sido de completo agrado do diretor e ele não gostasse do filme de modo algum, a despeito do inesperado sucesso de bilheteria que a obra acabou fazendo.

O drama se passa na Cornualha, no início do século XIX (ou final do século XVIII). Uma jovem irlandesa chega à estalagem maldita do título à procura de sua tia, dona do local. Ela pretende fixar residência ali, já que acabara de se tornar órfã e, sozinha, não podia permanecer na Irlanda. O que a jovem não sabe é que a estalagem é uma faxada para reunião de piratas.

As primeiras sequências do filme marcam muito melhor o ritmo e o tom da obra do que o seu próprio desenvolvimento. Um clima de horror e medo se instala, não só pela bestialidade dos piratas que pilham os navios naufragados nos arrecifes próximos, atraídos por uma falsa luz de farol; mas também pela sinistra chegada de Mary (Maureen O’Hara, em início de carreira) à estalagem, um local de quem todo mundo tem medo, basta vermos as feições horrorizadas das pessoas na carruagem que levava Mary até o lugar.

Esse tom de medo será mantido em quase todo o filme, mas de maneira decrescente, uma vez que a personagem de Charles Laughton, o Juiz de Paz da cidade e pedra angular da história, aparece por tempo demais, fala demais e tem importância dramática demais numa trama que só funcionaria verdadeiramente bem se ele, o mestre por trás das pilhagens, aparecesse apenas no desfecho da fita. Sua personagem, de certo modo, estraga a surpresa e diminui um pouco o poder da revelação que porventura teríamos bem mais para frente.

De alguma forma, o roteiro guia o suspense para outras personagens e ações, como as fugas de Mary e do Oficial de Justiça disfarçado, o destino de sua tia e seu tio, o que acontecerá com os piratas e, principalmente, o que será do Juiz Humphrey Pengallan. Esses pontos de interrogação conjugados acabam por criar uma atmosfera excitante no decorrer da obra, o que prende melhor a atenção do público, mas como o tema do filme não é assim tão interessante ou esses mesmos pontos não sejam de caráter tão inquietantes, é possível que num momento ou outro a gente se distraia ou perca um pouco de interesse pela história. É um paradoxo, mas ele está no filme, não há o que se fazer.

A Estalagem Maldita fecha de forma mediana a fase britânica de Hitchcock. Talvez se Charles Laughton, que também era um dos produtores da obra, aquietasse mais o seu ego e não exigisse diálogos adicionais para seu personagem, Hitchcock conseguisse criar um outro tipo de tensão e fazer desse filme algo mais próximo de uma característica bem sua. De qualquer forma, este não é um filme ruim e certamente deve ser visto por ser um marco importante na carreira de Hitchcock. A partir desse ponto, na fase americana do Mestre, os espectadores poderiam ver de forma mais intensa tudo aquilo que ele acreditava ser cinema e entretenimento, aplicando e aprimorando suas ideias estéticas e narrativas estruturadas em sua terra natal. A Estalagem Maldita é apenas o último capítulo antes desse novo momento e, mesmo que não conste entre os melhores já realizados pelo diretor, tem um quê de especial que só quem o viu saberá definir bem.

  • Crítica originalmente publicada em 11 de março de 2014. Revisada para republicação em 22/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

A Estalagem Maldita (Jamaica Inn) – Reino Unido, 1939
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Sidney Gilliat, Joan Harrison, Alma Reville, J.B. Priestley (baseado na obra de Daphne Du Maurier).
Elenco: Charles Laughton, Horace Hodges, Maureen O’Hara, Hay Petrie, Frederick Piper, Emlyn Williams, Herbert Lomas, Leslie Banks, Clare Greet, William Devlin, Jeanne De Casalis, Mabel Terry-Lewis, A. Bromley Davenport
Duração: 108 min.

Crítica | A Dama Oculta (1938)

hitchcock the-lady-vanishes-1938-a dama oculta plano crítico

A história da produção de A Dama Oculta foi bastante agitada. Em 1937, o diretor Roy William Neill foi contratado para guiar uma obra chamada The Lost Lady. Ele e uma parte da equipe viajaram para a (antiga) Iugoslávia para dirigir as cenas de ligação e ambientação da obra (que cobrem o primeiro ato do longa), mas foram expulsos do país assim que as autoridades locais descobriram que a nação não era representada positivamente pelo enredo. A dificuldade de continuar com o projeto a partir dali fez com que a primeira fase de produção fosse engavetada. E assim morreu The Lost Lady.

Um ano depois, o roteiro foi cair no colo de Alfred Hitchcock, que com um orçamento menor, começou a trabalhar com os roteiristas Sidney Gilliat (A Estalagem Maldita) e Frank Launder para alterar detalhes estruturais do início e fim do texto original, mudando também muita coisa do que se tinha adaptado da obra The Wheel Spins, escrita por Ethel Lina White (Silêncio nas Trevas), especialmente em relação à Srta. Froy. No todo, o filme traz para a ficção o complexo e incômodo cenário político pelo qual a Europa passava naquele final de anos 1930, pouco mais de um ano antes do início da Segunda Guerra Mundial.

Embora tenha sido filmado em diversos estúdios, linhas férreas e campos militares do Reino Unido, o filme manteve uma identidade visual “exótica” muitíssimo interessante graças ao olhar acurado do diretor para o que deveria ou não colocar na tela, e principalmente à maravilhosa direção de arte e aos figurinos nas dependências do hotel — que fica “em algum lugar da Europa Central”, onde praticamente todo o primeiro ato se passa (o restante é na estação da pequena cidade). Nesses primeiros minutos de projeção, temos a impressão que estamos assistindo a uma comédia despreocupada, com toques culturais e um pouquinho de crítica aos costumes da sociedade da época, com destaque para o papel da mulher. É um início lento (em termos de impacto causado pelas coisas que vemos), mas bem divertido e com pistas que são retomadas com muita inteligência na parte final da película.

O texto cria uma situação leve e incômoda (abrindo as portas para a comédia) colocando passageiros de diferentes nacionalidades esperando o desbloqueio dos trilhos após uma forte nevasca. Parece um filme dos irmãos Marx, para falar a verdade. E é aí que conhecemos a Srta. Froy (May Whitty), Iris (Margaret Lockwood) e o musicólogo Gilbert (Michael Redgrave), personagens que protagonizariam isoladamente o segundo ato do filme. Eu acho a sequência de ligação entre o “acidente” de Iris, ainda na plataforma, e tudo o que acontece depois, dentro do tem, uma excelente sacada do roteiro. Hitchcock, já um Mestre em distrair a atenção do público e fazer joguinhos de suspense em camadas diferentes, brinca com ideias de conspiração e dubiedade em relação à percepção e memórias da jovem protagonista, que é o que verdadeiramente chama a atenção no enredo, muito mais do que a revelação de todo o plano e do que o lado político, ainda bom, mas um tantinho destoante no final.

Um mistério com uma mescla de humor, distração do público e personagens que enfrentam um interessante teste (como se fosse um processo de amadurecimento que afeta até a vida amorosa dos mais jovens), A Dama Oculta é um dos trabalhos da fase britânica de Hitchcock que mais demonstram a essência da filmografia do diretor. E ainda tem o benefício de poder ser lido por um outro viés, como um filme de espionagem bastante peculiar, não só pela escolha do espião da vez, mas pelo drama intricado (e devo ressaltar mais uma vez, divertido) que o envolve. Embora haja algum exagero no tratamento das cenas dos passageiros isentões que só estavam preocupados com críquete e do advogado com sua querela matrimonial, o filme se mantem solidamente no alto e garante uma baita sessão.

  • Crítica originalmente publicada em 04 de março de 2014. Revisada para republicação em 20/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

A Dama Oculta (The Lady Vanishes) — Reino Unido, 1938
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Sidney Gilliat, Frank Launder (baseado na obra de Ethel Lina White)
Elenco: Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Paul Lukas, May Whitty, Cecil Parker, Linden Travers, Naunton Wayne, Basil Radford, Mary Clare, Emile Boreo, Googie Withers, Sally Stewart, Philip Leaver, Selma Vaz Dias, Catherine Lacey
Duração: 96 min.

Crítica | Jovem e Inocente

estrelas 4

Dos filmes de Alfred Hitchcock, Jovem e Inocente talvez seja aquele que tem o elenco mais jovem de todos. Não só os protagonistas são muito jovens como também aparecem algumas crianças e adolescentes com participações de certa importância no filme, não apenas como figurantes. E é interessante ver um suspense do Mestre com personagens de pouca idade. A atmosfera da história é outra, pautada pela pouca experiência de vida dos envolvidos e por atitudes mais impulsivas. Nada muito complexo, nenhuma questão pessoal de grande mota, apenas jovens envolvidos numa trama de assassinato e que acabam se apaixonando um pelo outro, um contexto final que às vezes pode atingir negativamente a história, mas no caso de Jovem e Inocente, funciona muito bem.

A construção inicial do filme é muito mais eficiente que a observada em Sabotagem. Aqui, temos uma discussão inicial entre marido e mulher, cortando para o dia seguinte, onde vemos um corpo morto na praia e em seguida descoberto duas vezes, uma por Robert, que será injustamente acusado de ter cometido o crime e outra por duas jovens banhistas que interpretam errado a correria de Robert do local do crime. Os 15 minutos iniciais da fita são marcados por uma cadência episódica de eventos muito bem interligados, algo que tem um impacto bastante positivo no espectador. Mais do que em qualquer outro filme que dirigira até então, Hitchcock conseguiu um resultado maduro e livre de problemas de concepção, seja no fato gerador de determinadas cenas, seja em sua execução. Tomemos por exemplo a criação do suspense através de cenas de ação e perseguição.

Ora, o exercício do diretor em O Mistério do Número 17 ou Os 39 Degraus é interessante, mas se comparado ao que ele fez em Jovem em Inocente, perde força. A partir desse ponto, Hitchcock passou a aplicar os elementos de linguagem cinematográfica que experimentara nos longas anteriores, diminuindo a sua carga de testes e ampliando o seu fazer artístico, uma postura que melhorará a cada nova obra e já poderá ser vista em plena forma no seu filme seguinte, A Dama Oculta (1938).

A famosa cena do travelling através do salão de dança do Grande Hotel é um dos exemplos mais instigantes dessa criação de uma linguagem própria de suspense. Partindo de um grande campo (a câmera está no teto do salão), onde vemos pessoas dançando e uma banda ao fundo da tela, a câmera faz o seu trajeto, diminuindo o campo de visão e detalhando melhor os rostos dos dançantes. Em seguida, a lente foca nos músicos, e por fim, no baterista, que em um primeiro plano, quase como uma confissão para o espectador, revela o seu tique, o mesmo que havia apresentado desde a primeiríssima cena.

O que me incomoda em Jovem e Inocente é o colapso nervoso do qual o verdeiro criminoso padece, quando se descobre cercado. Não vejo uma justificativa psicológica ou motivacional para que alguém que tivesse cometido o crime que cometeu se revelasse tão fraco diante de algo do qual poderia escapar com relativa facilidade. E isso também vale para a pista deixada gratuitamente por ele, o que acaba colocando Roger em seu encalço. Vale também citar a estranha e improvável postura da polícia, tão sem utilidade quanto as de outros filmes do diretor, mas que, devido a complexidade da história aqui narrada, parece ter sério déficit de inteligência.

Diante dessas falhas de concepção em alguns pontos, é de se perguntar: Jovem e Inocente é mesmo um filme tão bom? A resposta é simples: sim, é! As tais falhas se destacam principalmente porque todo o restante é muitíssimo bem realizado e, justamente por isso, consegue encobrir as consequências dessas fases menores, resultando em um produto final instigante e divertido, fazendo de Jovem e Inocente um dos filmes memoráveis da fase britânica de Alfred Hitchcock.

  • Crítica originalmente publicada em 24 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 07/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Jovem e Inocente (Young and Innocent) – UK, 1937
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Edwin Greenwood, Anthony Armstrong, Gerald Savory, Alma Reville (baseado na obra A Shilling For Candles, de Josephine Tey).
Elenco: Nova Pilbeam, Derrick De Marney, Percy Marmont, Edward Rigby, Mary Clare, John Longden, George Curzon, Basil Radford, Pamela Carme, George Merritt, J.H. Roberts
Duração: 80min.

Crítica | Sabotagem (O Marido Era o Culpado)

estrelas 3

SPOILERS!

Sabotagem, filme de Alfred Hitchcock que foi lançado originalmente no Brasil com o título estúpido e mega spoiler de O Marido Era o Culpado, tem uma fama em geral tão boa, que o espectador se aventura em sua sessão achando que vai estar diante de uma película grandiosa do Mestre do Suspense. Mas não é exatamente isso que acontece.

Chamado de “cambaleante” pelo próprio diretor nas entrevistas que deu a François Truffaut, Sabotagem apresenta uma história de suspense centrada na expectativa do público sobre o que vai acontecer ao sabotador (Sr. Verloc, interpretado por Oskar Homolka) e qual é a motivação de seu ato. Já nas primeiras cenas, descobrimos que o Sr. Verloc colocou areia em uma das máquinas da central de eletricidade em Londres, causando um blecaute. Essa abertura apresenta de forma competente o motivo dramático da obra, com direito a uma série de pequenas indicações humorísticas do diretor, como os “fósforos Lúcifer” do vendedor ambulante, as freiras que passam na rua, uma risada maléfica, e por fim, a chegada do Sr. Verloc em casa, indo lavar as mãos sujas de areia numa pia.

Partindo de um início cercado de referências metafóricas ao sabotador, caminhamos para uma apresentação mais detalhada de seu meio cotidiano. O Sr. Verloc é, na verdade, dono do Cinema Bijou, que administra juntamente com sua jovem esposa e é ajudado pelo pequeno cunhado, um garotinho que se tornará peça importante do filme, naquela que é a sua melhor parte.

O roteiro procura mostrar o engajamento canhestro do Sr. Verloc, mas a explicação para o seu envolvimento com o grupo de sabotadores (estrangeiros, é claro), não serve de muita coisa porque é vago demais. Mas a essa altura o público já comprou a história, que também mostra um outro lado, a visão dos fatos a partir da jovem Sra. Verloc e do detetive disfarçado da Scotland Yard. O flerte do detetive e o progressivo envolvimento entre ele e a Sra. Verloc constituem um desvio nocivo para o longa e é em torno disso que as coisas cambaleiam, um passo em falso que acaba tendo consequências em toda a película, já que a “relação” entre esses dois personagens é apresentada falha desde o início.

Hitchcock pode não ter conseguido o tal “grande filme” a que muitos críticos e espectadores intitulam Sabotagem, mas certamente conseguiu uma obra interessante e um bom resultado na esfera técnica. Já foi citado aqui o uso dramático e metafórico de elementos do espaço geográfico (a rua, a cidade) que o diretor explorou no início, algo que pode ser visto em todo o restante do filme e provar a nossa visão de apuro na composição de imagem feita pelo Mestre.

Tendo isso como base, podemos destacar facilmente a cena do zoológico, onde o Sr. Verloc tem uma alucinação através de um grande aquário, onde imagina ver uma parte da cidade de Londres, e, no momento seguinte, a cidade indo abaixo, como se estivesse derretendo ou caindo devido a uma grande explosão, o que era o caso; ou a cena do almoço após o que acontece com Stevie, onde o Sr. Verloc se dá conta do que a esposa queria fazer com a faca e acaba se entregando facilmente para que ela fizesse o que estava pensando (François Truffaut chegou a dizer que via nessa cena mais um suicídio que um assassinato, opinião da qual também compartilho). O próprio Verloc faz de tudo para ser odioso e odiado depois da morte de Stevie, provocando a esposa com falas que incomodam bastante o espectador.

Hitchcock nunca fez segredo de que não gostava da cena da bomba no ônibus, algo que ele sempre chamava de “um erro terrível”. É claro que a cena é bastante forte e chacoalha o espectador na cadeira, mas não há dúvidas de que ela faz parte da melhor sequência de eventos do filme, por mais trágica que seja. Desde a saída de Stevie do Cinema Bijou até a explosão da bomba-relógio no ônibus, há uma criação de tensão sem igual no filme e, de certa forma, toda a obra só faz sentido porque existe esse sacrifício, algo a que o diretor chega em seu raciocínio final e é prontamente compreendido pelo público. É uma pena que o romance e a conveniente explosão do cinema ao final de Sabotagem manchem a sua qualidade geral – afinal, não há quem segure romance desnecessário e Deus ex Machina como ingredientes marcantes de um filme.

Não se trata, todavia, de uma obra ruim. Há muitos elementos tipicamente hitchcockianos na fita que lhe dão um charme e uma atmosfera toda especial, contando até com uma contrastante cena do desenho A Flecha do Amor (1935), de David Hand, produzido pelos estúdios Walt Disney. Essa cena, apesar de aparentemente alegre, dá um significado ainda mais pesado à morte de Stevie e deixa claro o estado de choque em que a Sra. Verloc se encontrava após receber da notícia. Num primeiro momento, ela tenta “fugir” ou esquecer a situação através do cinema, mas o que está na tela remete não só ao personagem mas também o público à tragédia que acabara de acontecer… Sabotagem é uma daquelas produções em que temos as melhores características de um diretor em um filme cuja história se auto-boicota.

  • Crítica originalmente publicada em 17 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 03/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Sabotagem / O Marido Era o Culpado (Sabotage) – UK, 1936
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Ian Hay, Helen Simpson, Alma Reville, E.V.H. Emmett (baseado na obra de Joseph Conrad).
Elenco: Sylvia Sidney, Oskar Homolka, Desmond Tester, John Loder, Joyce Barbour, Matthew Boulton, S.J. Warmington, William Dewhurst
Duração: 76 min.

Crítica | Agente Secreto

estrelas 2,5

Em um resumo de leitura simples: Agente Secreto (1936) é um filme vago de motivação dramática e absurdamente insistente em situações que não ajudam a desenvolver a história, apenas desviam o espectador para coisas que o vão chateando cada vez mais, resultando em um produto final que tem momentos isolados de brilhantismo técnico de Alfred Hitchcock na direção e muita coisa que deveria ter sido cortada durante a edição.

A história que vemos na tela é adaptada de duas fontes literárias; a primeira, dos romances muito populares escritos por W. Somerset Maugham, tendo o personagem Ashenden como protagonista. A segunda, da peça escrita por Campbell Dixon, de onde saiu o ponto romântico da película. A junção entre literatura, teatro e cinema não poderia passar incólume a estranhezas narrativas, e este é o ponto que temos de sobra em Agente Secreto.

Um soldado tem a sua morte forjada e é enviado à Suíça pelo alto escalão do Exército para matar um espião alemão. Já em seu destino, ele se encontra com uma esposa arranjada — também espiã — e um parceiro, o curioso General Pompellio Montezuma De La Vilia De Conde De La Rue (que nome fantástico, não?), um alívio cômico interpretado maravilhosamente por Peter Lorre. A trama se passa durante a I Guerra Mundial e ressalta a forte inimizade entre britânicos e germânicos neste momento da História, uma situação que voltaria a se repetir em pouco mais de duas décadas, e de forma bem mais bruta.

Já no início do filme, ficamos às voltas com os motivos escolhidos pelos roteiristas para a criação do pseudo-suspense. Temos uma introdução que nos dá a atender uma rede notadamente intricada de espionagem militar, todavia, o restante da trama é conduzido como sendo o trabalho de um homem só — ou de um homem com dois parceiros — voltando à conexão com o QG apenas no desfecho da obra, cenário que reafirma a questionável ligação amorosa entre os “Ashenden”, piorando ainda mais o problema de foco e sentido do filme.

Depois, não entendemos muito bem o critério de escolha do Exército e que planos tão importantes eram esses. Uma pequena sequência de sobreposições geográficas e jornalísticas é usada por Hitchcock para contornar o problema e adicionar um pouco de contexto à Guerra e ao plano em si, mas isso se perde completamente se levarmos em consideração todo o restante da película. O mais curioso é que no caso da espiã Elsa Carrington (numa interpretação bipolar de Madeleine Carroll), temos uma pessoa completamente desequilibrada, que dá espetáculos sentimentais e surtos nervosos quando se vê próxima a uma situação que envolve assassinato. Que tipo de espiã é essa?

As coisas pioram, quando vemos que um personagem tão duro e apático como Richard Ashenden (um John Gielgud bastante sério e com cara de quem não se importa, mas mesmo assim, ótimo) se enamorar dessa espiã sem preparo psicológico e levar adiante o romance, pondo em riso o próprio objeto de sua missão. O próprio Ashenden tem dúvidas sobre seu papel em toda a história e não quer cometer o tal assassinato, mostrando ele mesmo um grande despreparo. O único relativamente convincente, em especial porque nunca se leva a sério, é o Genal Pompellio. Peter Lorre não deixa escapar o momento de seus olhares sérios, olhos esbugalhados ou revirados, mas também deixa espaço para falas e atitudes bastante irônicas e cínicas, o que gera uma ótima construção geral de sua persona no filme.

A linha de investigação, a rigor, nunca é deixada de lado, mas é interrompida ou pouco trabalhada em detrimento de pequenos caprichos inúteis para o enredo, como o já citado romance, as cenas do cachorro que sente a morte do dono, a festa folclórica suíça, a fábrica de chocolates e por aí vai. Fica claro para o espectador que Hitchcock quis trazer o máximo de elementos tipicamente suíços para o filme, mas acabou exagerando na dose e se perdendo nas entrelinhas que todos esses elementos criaram, numa sequência de ações contendo começo, meio e fim errôneos.

Em meio a tudo isso, salvam-se as pontuais e fantásticas experimentações imagéticas do diretor, com direito a efeitos Kuleshov, contrapontos sonoros e metáforas entre paisagens, objetos, animais e pessoas, uma admirável concepção dramática e estética para um filme com tantos problemas de concepção de enredo.

Agente Secreto não é uma obra memorável de Hitchcock, apesar de já trazer características muito próprias de sua fase maestra dos anos posteriores. Trata-se de uma obra menor, mediana, mas que num momento ou outro garante uma animada erguida de sobrancelha para closes e cenas realmente muito boas, os únicos momentos que irão garantir a validade da sessão.

  • Crítica originalmente publicada em 10 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 29/12/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Agente Secreto (Secret Agent) – UK, 1936
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Ian Hay, Alma Reville, Jesse Lasky Jr. (baseado na peça de Campbell Dixon e no romance de W. Somerset Maugham).
Elenco: John Gielgud, Peter Lorre, Madeleine Carroll, Robert Young, Percy Marmont, Florence Kahn, Charles Carson, Lilli Palmer
Duração: 86 min.

Crítica | O Homem que Sabia Demais (1934)

estrelas 3

É muito estranho ver e criticar a versão de 1934 de O Homem que Sabia Demais. Afinal de contas, a versão de 1956, com James Stewart e dirigida pelo próprio Alfred Hitchcock (que já refilmara Assassinato!, de 1930, como Mary, de 1931) é muito mais conhecida do que a primeira. É como entrar em um túnel do tempo e ver a versão preliminar de um filme que você já conhece.

Até mesmo Hitchcock, de certa forma, concorda com esse raciocínio, pois, em entrevista a François Truffaut, capturada em livro e filme, ele afirmara que alguns aspectos da refilmagem eram muito superiores ao original, sem qualquer traço de modéstia e bem a seu estilo: “Vamos apenas dizer que a primeira versão é o trabalho de um talentoso amador e a segunda foi feita por um profissional”. E, de fato, é o que parece. O Homem que Sabia Demais, de 1934, é um filme que tinha potencial, mas sua execução deixa muito a desejar. A história, claro, é fascinante: um casal em férias acaba tomando conhecimento de um segredo e sua filha é sequestrada para garantir que eles não contem para as autoridades. É, basicamente, o primeiro verdadeiro thriller do Mestre do Suspense.

Sem os visuais elaborados e exóticos que o orçamento mais generoso da Paramount permitiria 22 anos depois, Hitchcock localiza a ação brevemente em St. Moritz, na Suíça (no lugar do Marrocos, na refilmagem) e logo parte para Londres, mas sempre filmando em estúdio na grande maioria das sequências. Em virtude do orçamento mais apertado, suas tentativas de trabalhar efeitos especiais, como na cena de abertura envolvendo um quase acidente de esqui, são embaraçosas. Além disso, com exceção talvez de Peter Lorre (no papel do vilanesco Abbott – mais sobre ele depois), os demais atores, todos ilustres desconhecidos, exageram na teatralidade, criando inadvertidos momentos cômicos na fita.

Uma coisa que me incomodou profundamente foi a forma de retratar pessoas sendo alvejadas por balas. Absolutamente todas as cenas desse tipo – são várias – lembram crianças brincando de “bangue bangue” e fingindo serem atingidas da maneira mais dramática possível, normalmente com uma queda “em câmera lenta”. Podemos – e devemos – aceitar esse exagero quando isso acontece na primeira vez, com o assassinato do espião Louis Bernard (Pierre Fresnay), já que isso é essencial para a trama, mas quando o mesmo tipo de teatralidade acontece repetidas vezes, não temos como não revirar os olhos. Claro, o filme é de 1934 e carrega consigo o estilo de uma época, mas filmes da década de 20 e até anteriores conseguiam retratar mortes de maneira menos artificiais e risíveis.

Mesmo assim, em econômicos 75 minutos, Hitchcock mostra, já nessa fase inicial de sua impressionante carreira, seu potencial para construir suspense (o tal “talentoso amador” estava bem presente!). Ao dividir a ação entre o pai, Lawrence (Leslie Banks), que investiga o paradeiro da filha e a mãe, Jill (Edna Best), que tenta evitar um assassinato no Royal Albert Hall, o diretor trabalha duas narrativas paralelas que conseguem se sustentar muito bem, prendendo a atenção do espectador com uma cadência excelente.

No terceiro ato, que é completamente diferente da refilmagem e foi inspirado em eventos verdadeiros no East End de Londres, onde Hitchcock havia crescido, há uma completa mudança de ritmo. Sai o suspense e entra um filme policial com muito tiroteio e mortes. Ainda que a alteração no compasso do filme funcione pelos primeiros minutos, a extensão e exagero da ação, com literalmente um exército de policiais cercando o local onde estão escondidos os sequestradores e assassinos, acabam diluindo seu impacto inicial.

Mas, se Hitchcock erra a mão em seu trabalho final, ele certamente não errou ao escalar Peter Lorre no papel do vilão principal. Muito mais memorável que o vilão da refilmagem (é difícil barrar Lorre em suas retratações de personagens assim), o ator dá um show de construção de personagem, mesmo sem saber falar uma palavra de inglês à época. Todo o diálogo foi memorizado foneticamente por ele e Lorre, com uma enorme cicatriz no rosto e uma mecha branca na cabeça, toma conta do cenário toda vez que aparece.

Os problemas de sua primeira versão de O Homem que Sabia Demais, porém, não impediram que seu trabalho fosse um dos maiores sucessos financeiros da fase britânica de Hitchcock. E, de fato, é fácil ver o potencial que estava por explodir (Os 39 Degraus seria seu filme seguinte e um dos mais importantes filmes britânicos do século XX) e o início do mais do que merecido título de Mestre do Suspense.

  • Crítica originalmente publicada em 22 de janeiro de 2014. Revisada para republicação em 03/12/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

O Homem que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much, Reino Unido – 1934)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, D.B.Wyndham Lewis
Elenco: Leslie Banks, Edna Best, Peter Lorre, Frank Vosper, Hugh Wakefield, Nova Pilbeam, Pierre Fresnay, Cicely Oates, D.A. Clarke-Smith, George Curzon
Duração: 75 min.