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Crítica | The Mandalorian – Chapter 3: The Sin

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“Esse é o caminho” descreve de diversas maneiras o terceiro episódio de The Mandalorian. Não só essa é a versão mandalorina do Bushido, o caminho do guerreiro e código de honra dos samurais, reforçando o paralelo clássico do Universo Star Wars com os guerreiros do Japão feudal, como ele é mote que encapsula tudo o que precisamos saber sobre os misteriosos guerreiros sem nome e sem rosto que, conforme descobrimos, vivem semi-escondidos em um quartel-general temporário depois do expurgo de Mandalore pelo Império. Como se isso não bastasse, em uma espécie de comentário metalinguístico, a expressão estabelece de uma vez por todas o rumo que a série carro-chefe do Disney+ precisa seguir para firmar-se como o tipo de obra que vai além de belas sequências de ação com novos personagens de uma galáxia muito, muito distante. Afinal, é em The Sin que todo o potencial da obra capitaneada por Jon Favreau finalmente é destravado, com o verdadeiro começo da aventura que, muito provavelmente, transformará o caçador em caça até o final da curta temporada inaugural.

Em um retorno ao cenário do primeiro capítulo, Mando entrega “a criança” para o misterioso personagem vivido por Werner Herzog e recebe aço Beskar suficiente para fazer uma nova e brilhante armadura em mais um upgrade que lembra a progressão de videogame, ganhar o respeito de seus colegas mandalorianos e de Greef Carga e, claro, a inveja dos demais caçadores de recompensa. Mas, como poderia ser surpresa para ninguém, já que a temporada segue um padrão narrativo arquetípico de filmes de anti-heróis que reveem sua postura durona e inacessível, demonstrando o bom coração que na verdade têm, o protagonista volta atrás e decide salvar o bebê Yoda (eu poderia escrever “bebê da mesma espécie de Yoda”, mas estou com preguiça), o que leva o espectador para duas excelentes sequências de ação que são, não tenho dúvida de afirmar mesmo diante da competição forte, as melhores da série até agora.

Na primeira, em ambiente fechado, tumultuado e escurecido (mas não sombrio e isso faz diferença), Mando enfrenta os Stormtroopers em armaduras em péssimo estado de conservação que servem de guarda pessoal do “Cliente” (até o momento é o nome que o personagem de Herzog tem nos créditos) e que, na vida real, são membros da famosa 501ª Legião, que congrega fãs de carteirinha da franquia. De um lado, temos o protagonista no completo comando de suas habilidades com todo tipo de arma a seu dispor dizimando os soldados que, como de costume, são extremamente incompetentes. A direção de Deborah Chow imediatamente chama a atenção na forma como ela comanda a ação com posicionamentos precisos de câmera e uma decupagem digna dos mais clássicos faroestes do cinema se os pistoleiros daquela época tivessem armaduras, lança-chamas e mísseis teleguiados, estes últimos convenientemente instalados 10 minutos antes em um exagero perdoável do uso de clichê bobo. A qualidade que a diretora mostra aqui é uma notícia particularmente boa, pois é ela quem comandará a direção de todos os episódios da série live-action de Obi-Wan Kenobi.

Mas, voltando à The Mandalorian, quando achamos que o clímax chegou adiantado, eis que Mando precisa enfrentar, agora levando o bebê Yoda a tira-colo, todos os caçadores de recompensa de Mos Eis…, digo, do covil mais cheio de escória e vilania da vez, incluindo o próprio Carga, com direito ao momento que venderá mais brinquedos do que qualquer outra coisa (eu sei, pois já estou economizando os créditos necessários): a chegada triunfal de todos os mandalorianos que vimos no começo do episódio. O embate, desta vez em espaço aberto, com direito a planos amplos e muito bem coreografados de Chow e com o design de produção caprichando nos diversos modelos de armaduras, armas e apetrechos, é tudo aquilo que nunca soubemos que queríamos de Star Wars, valendo especial destaque para a versão mandaloriana de Blain Cooper, o personagem de Jesse Ventura em O Predador.

The Sin reúne as doses exatas de desenvolvimento de personagem e de mitologia com sequências de ação de se tirar o capacete que, claro, exagera aqui e ali no uso de clichês, mas sem jamais recorrer a artifícios baratos ou recursos que mexeriam com o que foi estabelecido, como humanizar demais o protagonista (mostrando o rosto ou revelando seu nome, por exemplo). Jon Favreau definitivamente estabelece seu The Mandalorian como o futuro da exploração audiovisual da saga e expande a temporada sem nem mesmo introduzir diversos personagens prometidos desde o início que só tendem a aprofundar a narrativa. Sem dúvida, é esse o caminho.

The Mandalorian – Chapter 3: The Sin (EUA, 22 de novembro de 2019)
Showrunner: Jon Favreau
Direção: Deborah Chow
Roteiro: Jon Favreau
Elenco: Pedro Pascal, Carl Weathers, Emily Swallow, Werner Herzog, Omid Abtahi, 501st Legion
Duração: 38 min.

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