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Crítica | Os Irmãos Sisters (2018)

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Co-produção francesa e adaptação de um dos mais famosos romances de faroeste da década, Os Irmãos Sisters (2018) conta a história de Eli (John C. Reilly) e Charlie Sisters (Joaquin Phoenix), contratados por um homem conhecido como Comodoro para matar um indivíduo que, aparentemente, o havia roubado. Como matadores de aluguel, em pleno Oregon de 1850, os Sisters são homens temidos, deixando um rastro de sangue por onde andam e cumprindo à risca os serviços para os quais são contratados. Nesta história, porém, conhecemos um ponto de virada em suas vidas, o momento onde ações e pensamentos são colocados contra a parede e exigem uma mudança de atitudes.

No livro, Patrick DeWitt foca bastante na relação entre os dois irmãos e essa linha fraterna ganha destaque na adaptação de Jacques Audiard, dando um tempero diferente para aquilo que normalmente esperamos encontrar em um western. Desse modo, é parcialmente compreensível que o texto opte por saltos e cortes dramáticos abruptos, já que a história de cavalgada dos irmãos até o homem que eles precisam matar (Hermann Kermit Warm, maravilhosamente interpretado por Riz Ahmed) não é assim tão importante. O que importa mesmo é como eles reagem à violência que os cercam e que coisas os fazem reagir de forma violenta ou, inesperadamente, de forma gentil.

Entre eles, a relação é típica relação entre irmãos que passam muito tempo juntos: brigas aqui, carinhos acolá, brincadeiras aqui, grosserias acolá. John C. Reilly e Joaquin Phoenix não só encarnam muito bem essa troca de “tapas e beijos” como exprimem um pouco do lado rude e do lado terno de cada um dos matadores, isso sem descaracterizá-los, já que um é majoritariamente violento e o outro não parece assim tão fã do serviço que faz e procura a oportunidade mais próxima para se ver livre das ordens do Comodoro. Eli é o mais gentil da dupla, enquanto Charlie veste a carranca de homem mau com o maior orgulho, mas o desenvolvimento desses personagens também nos permite ver cada um agindo à margem de seus sentimentos basilares.

Quem assina a fotografia do filme é Benoît Debie, que tem como trabalhos mais conhecidos suas parcerias com Gaspar Noé em Love (2015) e Clímax (2018), só para citar produções dessa mesma década. Grande entusiasta de criar ambientações claustrofóbicas, seja pelo enquadramento seja pela iluminação, ele entrega um trabalho muito bonito e muito amplo neste longa, abraçando bem a cartilha do western, algo que infelizmente a montagem não deixa que o espectador aproveite por muito tempo. Eu comentei mais acima que era parcialmente compreensível que o roteiro optasse por saltos e cortes dramáticos abruptos tendo os irmãos como ponto de vista, já que a proposta aqui é explorar cenas de uma jornada, não ela completa, em todos os detalhes. Isso, porém, tem um peso bastante negativo para o filme.

Olhemos a inserção desses personagens no espaço. Como se sabe, a exploração da paisagem é um dos ingredientes estéticos mais importantes do faroeste, e embora nós tenhamos isso por aqui, o tempo dessas cenas em tela é diminuto e bruscamente interrompido ou fundido a outras coisas. Endente-se a proposta, mas é impossível não ver os impasses desse tipo de execução nas cenas de contexto e de ligação dos indivíduos com a natureza, o que também faz com que a história pareça corrida e cenas inteiras percam muito de seu significado a médio prazo. Até mesmo a indicação de um sentimento maior que a camaradagem entre Hermann  e John Morris (Jake Gyllenhaal) se enfraquece no final, tornando as mortes aquém daquilo que o próprio roteiro havia pretendido.

Os Irmãos Sisters é um longa sobre amadurecimento de dois homens que, por muito tempo, fizeram da morte o seu trabalho. A redenção vem com um preço na alma e no corpo, acompanhada de experiências que tornam os protagonistas amargos e traumatizados, mas ainda assim, capazes de recomeçar. E por isso voltam para o lugar que a gente sempre volta quando quer um porto seguro. Para casa.

Os Irmãos Sisters (Les frères Sisters) — França, Espanha, Romênia, Bélgica, EUA, 2018
Direção: Jacques Audiard
Roteiro: Jacques Audiard, Thomas Bidegain (baseado na obra de Patrick DeWitt)
Elenco: John C. Reilly, Joaquin Phoenix, Jake Gyllenhaal, Riz Ahmed, Rebecca Root, Allison Tolman, Rutger Hauer, Carol Kane, Patrice Cossonneau, Zac Abbott, David Gasman, Philip Rosch, Creed Bratton, Lenuta Bala, Jochen Hägele
Duração: 122 min.