Crítica | O Grito

Na esteira do sucesso de Samara e O Chamado, interpretações ocidentais para histórias de espíritos vingativos começaram a adentrar na agenda de realizações estadunidenses, segmento industrial que se interessa bastante em reformular materiais pré-estabelecidos em outras culturas. Com O Grito, o cineasta Takashi Shimizu trouxe para os Estados Unidos alguns elementos do horror japonês, para depois leva-los de volta ao ambiente nipônico. Explico: uma das questões colocadas pelo cineasta durante a realização do filme foi a ambientação da história, com personagens estadunidenses, mas com desenvolvimento dramático no Japão, estratégia para manter as suas conexões com a sua cultura, afinal, Shimizu sequer falava inglês na época e uma interprete acompanhou todo o processo no estúdio.

Escrito em parceria com Stephen Susco, colaborador no desenvolvimento da história para as plateias ocidentais, O Grito acompanha a trajetória de Karen Davis (Sarah Michelle Gellar), assistente social que decide seguir o namorado Doug (Jason Behr) em Tóquio. No local, a sua primeira missão profissional trará, de imediato, grandes problemas. Ela tem a tarefa de tomar conta de uma idosa que em determinado momento, entra em choque e é morta por uma entidade espiritual bem aterrorizante. As circunstancias não são favoráveis para Karen, pois a cuidadora anterior sumiu de maneira misteriosa, sem deixar vestígios. A curiosidade da moça ao vasculhar a casa e encontrar uma porta selada com fita também ajuda na disseminação do que virá adiante.

Como sabemos, na mitologia de O Grito, quando alguém morre numa situação que envolva ódio, uma maldição logo se estabelece. Neste caso, é a casa onde habita os envolvidos na história que serviu de base para todo o mal do enredo, isto é, o assassinato de Kayako (Takako Fuji) e Toshio (Yuza Ozeki), entidades que aparecem constantemente para ceifar as vidas daqueles que atravessam os seus respectivos caminhos. Da sua descoberta ao processo que se segue, a narrativa dá idas e vindas, apresenta algumas fragmentações, mata uma série de pessoas pelo caminho e encerra a sua caminhada de horror com os finais infelizes, típicos das produções orientais, histórias que em suas traduções para o público ocidental, ganham roupagens mais explicativas, tendo em vista atender às demandas dos espectadores do “lado de cá” do planeta.

Diante do exposto, ao longo de seus 91 minutos, O Grito é uma história bastante atmosférica, instigante e com bons momentos de horror, tais como a cena do chuveiro, a assustadora abordagem no elevador e a parte que envolve uma escadaria, além de seus trunfos técnicos, com o “Japão” de estúdio bem construído pela equipe técnica da produção. O que deixa o filme com menos impacto é a aleatoriedade de seu enredo, pois todas as versões de Kayako, sejam as japonesas ou estadunidenses, apresentam o mesmo esquema narrativo. Não há maior desenvolvimento de personagens, as necessidades dramáticas de todos são muito fugazes e a impressão que se tem é a de que somos espectadores de um panorama repleto de colagem de sustos, nada além disso. E a história continua a se repetir até os dias atuais, haja vista o retorno dos personagens em nova roupagem, para a geração de 2020. Será que vai funcionar?

O Grito (The Grudge) — Estados Unidos/Japão, 2004
Direção: Takashi Shimizu
Roteiro: Stephen Susco, Takashi Shimizu
Elenco: Bill Pullman, Clea DuVall, Jason Behr, KaDee Strickland, Sarah Michelle Gellar, William Mapother
Duração: 92 min.