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Crítica | O Grito 2

Quando O Grito 2 foi lançado, em 2006, a massificação das histórias de terror orientais na indústria hollywoodiana estava ainda mais densa que o contexto do filme anterior, pois além de Sadako e Kayako, outras manifestações malignas do outro lado do mundo ganharam ou já estavam com os seus projetos em andamento, vide Água Negra, O Olho do Mal, Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado, etc. Em sua continuação, as presenças espirituais negativas continuam as suas perseguições, num circuito de amaldiçoados que parece ser um ciclo sem fim de horror. Como é de se esperar, a abertura traz uma breve recapitulação do que aconteceu anteriormente, reforçando que “quando alguém morre num momento de raiva, seu espírito rancoroso retorna para aterrorizar as pessoas vivas”.

Sob a direção de Takashi Shimizu, o filme possui uma série de inconsistências, mas ainda assim se mostra um exercício bem elaborado da linguagem cinematográfica. Orientado pelo roteiro que assinou em parceria com Stephen Susco, o cineasta mantém muito das bases orientais no desenvolvimento de sua história. Ao longo de seus 102 minutos, acompanhamos o estabelecimento de uma nova investigação me torno da maldição que destruí as vidas dos azarados da produção anterior. A protagonista interpretada por Sarah Michelle Gellar, inclusive, retorna numa breve participação, tendo seu destino já exposto no trailer da divulgação.

Como sabemos, Karen Davis quase morreu no final de O Grito. Ela colocou fogo na casa, acabou por matar o namorado, mas a maldição ainda continuou vigente. Seus familiares ficam sabendo brevemente da história e é assim que a irmã mais nova, Aubrey (Amber Tamblyn), afastada depois de um desentendimento, é praticamente obrigada pela mãe a ir em busca da irmã. Reticente, a garota segue uma trilha que jamais imaginaria para a sua vida, num envolvimento macabro que pode também resultar num desfecho trágico, tal como o de Karen no hospital, perseguida por Kayako até cair do último andar e morrer.

Chocada, Aubrey não sabe se de fato foi um suicídio, algo colocado como a motivação dos céticos. Parece haver algo mais e ela não sossegará enquanto não descobrir. Será no contato com a casa que envolveu a sua irmã na maldição que o destino da garota ganhará contornos obscuros. Em paralelo ao desenvolvimento deste segmento narrativo, temos também as três colegiais que decidem fazer tolices típicas de adolescentes desocupadas: visitar a tal casa amaldiçoada, atividade que já demarca as suas respectivas mortes logo adiante, apenas uma questão de tempo, afinal, pelo que consta na mitologia criada por Shimizu, não há antídoto para a ira dos espíritos vingativos desta casa tomada por forças malignas.

Diante do exposto, a maldição se alastra, atingindo inclusive a família de Trish (Jennifer Beals), uma mulher com casamento fracassado, tomada pelo desânimo e outras sensações típicas das fraquezas psicológicas da vida urbana contemporânea. As conexões, por sinal, ganham melhor relação com o espectador por não precisar da “cola” do narrador explicando tudo. As cenas são expostas e cabe ao público acompanhar de forma participativa da “colagem”. Ademais, em O Grito 2, a assombração continua a sua missão de tomar o corpo de quem decide entrar em contato, ou então, carregar consigo quem teve a má sorte de estar pelo caminho. Takako Fuji, atriz que havia interpretado Kayako nas outras incursões do universo de Shimizu, retorna para esta continuação e faz bem o seu trabalho, em paralelo aos efeitos visuais da equipe de Kory Jones, bem eficientes no que diz respeito aos elementos técnicos da produção.

Por falar em visualidade, esteticamente, O Grito 2 não é um filme que enfrenta problemas. A trilha sonora de Christopher Young continua atmosférica, bem adequada no acompanhamento das imagens desenvolvidas pela direção de fotografia de Katsumi Yanagijima, também eficientes. Com enquadramentos e movimentos que valorizam a sua iluminação, o setor cumpre bem o seu trabalho ao registrar as imagens diante do design de produção de Iwao Satô, gerenciador da equipe que conta com a cenógrafa de Tatsuo Ozeki, também cuidadosa na construção dos espaços por onde circulam os personagens, num trabalho arquitetural competente. O som, matéria básica para a atmosfera do filme, continua um dos seus pontos mais conceituados, principalmente nas cenas de aparição das assombrações.

Com todas essas qualidades, O Grito 2 poderia ser um filme com mais potencial dramático se as histórias fossem, digamos, mais bem elaboradas. Há pouco espaço em cena para a interação das irmãs Davis, o que nos faz purgar pouco pela morte de uma delas, seguida da sensação de solidão e abandono da outra, visto que fica evidente que a mãe prefere a filha mais velha. A crise na família de Trish também beira ao superficial, tal como a história da maldição que acomete Allyson (Arielle Kebbel), jovem que sofre bullying na escola e só chega até a casa para sentir-se parte das colegas que a rejeitam constantemente. Era apenas uma questão de ajustes, pois as propostas dramáticas dos segmentos possuem potencial que não é aproveitado.

O Grito 2 (The Grudge 2) — Estados Unidos/Japão, 2006
Direção: Takashi Shimizu
Roteiro: Stephen Susco, Takashi Shimizu
Elenco: Amber Tamblyn, Arielle Kebbel, Edison Chen, Jennifer Beals, Sarah Michelle Gellar, Sarah Roemer, Takako Fuji
Duração: 105 min.