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Crítica | O Defunto Logan (Dead Man Logan)

Série completa
(não é uma média)

  • Só há spoilers das histórias anteriores do personagem, que podem ser lidas aqui. 

Criado por Mark Millar e Steve McNiven, o Velho Logan debutou em 2008 em arco homônimo e auto-contido da publicação mensal Wolverine Vol. 2, logo ganhando enorme notoriedade a ponto de ter servido de inspiração para o mais festejado filme solo do Carcaju, Logan, de 2017. Mantido intocado por surpreendentes sete anos, o personagem ganhou uma minissérie também simplesmente batizada com seu nome como parte dos vários tie-ins da saga Guerras Secretas (2015) que teve como função principal trazê-lo (ou uma versão idêntica dele pelo menos já que há quem considere que o primeiro Velho Logan é diferente desse segundo) para o universo padrão da Marvel Comics, ou seja, a Terra-616.

Em um universo diferente do seu e com o Wolverine “jovem” temporariamente morto, o Velho Logan passou a substituir sua contrapartida ainda sem cabelos grisalhos, ganhando uma série mensal própria entre 2016 e 2018 que durou 50 edições (10 volumes) em que teve seu já combalido fator de cura ainda mais debilitado com o uso da droga Regenix, fazendo com que o envenenamento por adamantium começasse a matá-lo, além de ter perdido um olho para sempre e uma mão, esta última tendo crescido de volta, inclusive com as garras, mas, claro, sem o revestimento metálico. Na última edição, um semi-morto Logan conseguiu derrotar Maestro e desmaiou na neve.

O Defunto Logan (ou Dead Man Logan no original) é a maxissérie em 12 edições que pretende encerrar a longa e sofrida jornada do personagem de uma vez por todas (ou, pelo menos, de uma vez por todas até quando resolverem usar o Velho Logan novamente). Publicada entre novembro de 2018 e outubro de 2019, a obra escrita por Ed Brisson e desenhada por Mike Henderson em seu primeiro trabalho para a Marvel, foi dividida em dois arcos bem definidos e diferentes – Pecados do Pai e Bem Vindo de Volta, Logan -, sendo que essa foi também a maneira que elegi para criticá-los, com uma nota geral (acima) e notas específicas para cada arco de seis edições.

Vamos lá!

Pecados do Pai
(O Defunto Logan #1 a 6)

(1) Velho Logan vs Vingadores e (2) Velho Logan vs Neo-Hidra.

Jeff Lemire trabalhou como roteirista da série mensal ao longo dos cinco primeiros encadernados de O Velho Logan, entregando belos arcos. Quando Ed Brisson assumiu o título na 25ª edição, contida no sexto encadernado – Dias de Fúria – a qualidade começou a oscilar muito, com um viés de queda, jamais retornando de verdade para o nível anterior. Pecados do Pai, o primeiro arco de O Defunto Logan, parece-se muito com o que Brisson vinha fazendo, o que, claro, não é exatamente algo encorajador. Mas há o que ser apreciado aqui se o leitor comprar o texto mais leve, por vezes até cômico que o autor escreve, retornando à primeira missão do Velho Carcaju quando chegou à Terra-616: eliminar Mystério de maneira que o trágico futuro que viveu não tenha chance alguma de ser repetido. Esse é o legado que ele quer deixar antes de morrer, algo que ele considera inevitável, tendo até passado muito da hora.

Mas, como toda boa história que envolve viagem no tempo (e, no caso, também no espaço), tentar matar aquele que deu causa à sua tragédia costuma ser justamente a causa de sua tragédia, algo que Brisson usa em doses generosas para construir seu arco inicial. Nele, depois que Logan é resgatado semi-morto do Canadá por seus colegas X-Men (Jubileu, Forge, Glob Herman e a Dra. Cecilia Reyes), ele parte para localizar Quentin Beck que está quieto no seu canto em uma clínica psiquiátrica. Com a ajuda do Gavião Arqueiro, que se recusa a deixar o amigo sozinho, a dupla começa sua investigação, logo inadvertidamente revelando suas intenções para a Srta. Sinistra que passa usar as informações sobre a queda dos heróis do futuro de Logan para arquitetar um plano para “repetir” o evento não só arregimentando Mystério, como também a da organização Neo-Hidra comandada por Pecado (filha do Caveira Vermelha) e Ossos Cruzados.

O lado cômico da história vem justamente do relacionamento entre os vilões, com Pecado aproveitando a oportunidade muito mais para divertir-se do que para efetivamente colocar em andamento um plano sério, o que enfurece a Srta. Sinistra, com Mystério no meio como um peru tonto, fazendo apenas hesitantemente o que lhe é ordenado. Ao mesmo tempo que essa não é a maneira que eu imaginava o desenvolvimento dessa linha narrativa, acho que devo parabenizar Brisson por transformar um limão em uma limonada, ainda que o resultado não seja exatamente espetacular ou fora da curva. A questão é que essa história de matar Mystério para evitar uma desgraça no futuro já tinha sido abordada antes e já havia ficado claro que o futuro de Logan é alternativo, que nada indicaria que o presente da Terra-616 levaria aos acontecimentos que viveu (obviamente!). Ele mesmo já havia feito as pazes com isso e não tinha mais como tirar um suco rico dessa fruta. É por isso que o que Brisson faz aqui – de maneira inesperada e engraçada – acaba funcionando, com a dinâmica entre os “malvados” permanecendo fresca e por vezes até mesmo hilária, com Pecado sendo uma debochada incorrigível e a Srta. Sinistra a frustração em pessoa.

O que realmente não funciona é a rotina do “fator de cura exaurido, mas que mesmo assim funciona sempre que necessário”, algo que já estava ficando cansativo antes e que, aqui, chega ao extremo, ou quase. Se não é para realmente limitar a capacidade do Velho Logan de causar estragos em seres superpoderosos como o Homem de Ferro, que ele retalha muito facilmente, então é melhor simplesmente esquecer disso. Sim, eu sei que as injeções de Regenix que Logan não hesita em se aplicar dão um boost no poder mutante dele, mas o problema persiste, até porque ele apanha tanto, mas tanto, e mesmo assim é capaz de lutar sozinho contra os Vingadores e contra uma horda de soldados da Neo-Hidra, que tudo perde a urgência e o mínimo de sensação de perigo e de potencial perda. Mas faz parte, pois Brisson já vinha escrevendo assim há tempos e eu realmente não esperaria algo muito diferente.

A arte de Mike Henderson é uma boa companheira para o texto leve de Brisson, com o artista preocupando-se muito mais com os acontecimentos em primeiro plano, incluindo expressões faciais e corporais, do que com detalhes de fundo, que geralmente são os mais simples possíveis. Com isso, ele trabalha uma progressão narrativa que não cansa, sequências de ação que, apesar de pouco inspiradas, são enérgicas e violentas (mas não explicitamente violentas, com gore e tripas, por exemplo) e que acaba funcionando bem para o tipo de história sendo contada. Talvez seu Velho Logan não pareça tão velho quanto devesse ser, mas isso não é lá algo particularmente problemático, porque o personagem continua consideravelmente mais velho que seus colegas, inclusive que ele mesmo em um breve encontro que ocorre na edição #6 que é, na verdade, um dénouement de despedida.

Pecados do Pai não deve ser lido com seriedade, mesmo considerando a rabugice de seu protagonista. Se o leitor souber o que esperar, terá em mãos um arco que pode não ser o esperado para algo próximo do fim, mas que funciona bem dentro de sua proposta.

Bem Vindo de Volta, Logan
(O Defunto Logan #7 a 12)

(1) Velho Logan de volta às Terras Devastadas e (2) Velho Logan com Dani Cage e Bruce Jr.

Usando a máquina do tempo de Maestro, Forge manda de o Velho Logan de volta para o seu próprio futuro e universo, mas sete anos depois que ele foi atrás da cabeça de Ultron, dando início à última aventura do personagem. Materializando-se no meio do nada com coisa nenhuma, o Carcaju anda durante dias e descobre que está na Flórida, região comandada pelo Lagarto, o que serve de início para uma road trip para Sacramento, já que ele deseja morrer junto de Maureen e de seus filhos chacinados pela gangue do Hulk. Claro que nada é fácil na vida de Wolverine e, depois de passar semanas servindo de bufê auto-regenerativo para uma família de canibais (Brisson está de parabéns pelo nível de doença que ele chega aqui), ele é resgatando por ninguém menos do que Dani Cage, filha de Jessica Jones e Luke Cage, que tem a tira-colo um jovem Hulk, Bruce Jr., que era um bebê quando Logan o deixou com ela e agora é um brutamontes que não só adora sair na pancadaria, como também devorar livros científicos.

Bem Vindo de Volta, Logan recaptura um pouco da essência do arco original de 2008, fazendo o leitor visitar novos lugares e revisitar outros nas Terras Devastadas, descobrindo novos sobreviventes heroicos e vilanescos nesse processo. Logan só quer morrer em paz, mas ele precisa ter certeza, antes, que Dani e Banner estarão seguros, já que um Hulk seria muito perigoso nas mãos erradas, especialmente nesse futuro em que as ações anteriores dele causaram um vácuo de poder ainda não preenchido completamente. E, de fato, em seu encalço só poderia mesmo estar seu arqui-inimigo Dentes-de-Sabre, aqui em sua “versão Frankenstein, já que Logan já o havia matado “definitivamente” antes, com direito a corpo picotado e as partes enterradas em lugares diferentes, obviamente nem de longe o suficiente.

É a escolha óbvia, mas perfeita para ser o vilão principal do arco final. Exagerado, falastrão e tão raivoso e violento quanto Logan, Victor Creed, por mais unidimensional que seja retratado, simplesmente precisava ser o final boss para Wolverine e a pancadaria vale a pena, algo que é deixado para a derradeira edição. Nas demais, a dinâmica entre o Velho Logan, Dani e Bruce Jr. também vale ouro, ainda que não terrivelmente original. Mas Brisson consegue criar uma trinca divertida que carrega muito bem a história, ainda que, de novo, o artifício do fator de cura que não funciona, mas que na verdade funciona seja de novo levado ao limite do aceitável (na verdade o autor ultrapassa e muito o limite), com direito até mesmo aos pulmões de Logan serem arrancados de seu peito, deixando-lhe com coloração azul por falta de oxigênio em uma escolha ao mesmo tempo de rolar os olhos e de fazer rir.

Sem entrar em detalhes para não mergulhar no terreno dos spoilers, o final do Velho Logan parece ser realmente definitivo (ainda que eu sempre duvide disso em quadrinhos), mas, muito mais do que isso, bonito e digno para o personagem. O círculo se completa e se fecha em um roteiro que retorna às raízes do personagem e lhe dá um adeus que muito provavelmente fará o leitor virar a última página com a sensação de dever cumprido, talvez até com um sorriso – ou uma lágrima – no rosto. Ao mesmo tempo, um novo capítulo nesse futuro é aberto, com Dani Cage ganhando um upgrade e o Hulk bem… o Hulk não precisa ser mais do que ele já é, não é mesmo? Considerando que esse “mini-universo” já vinha ganhando expansões, primeiro com O Velho Gavião Arqueiro, depois com O Velho Quill (em andamento na data da publicação da presente crítica) e os prometidos Vingadores das Terras Devastadas com lançamento previsto para janeiro de 2020, o encerramento não é surpresa e pode continuar a trazer histórias divertidas nesse futuro distópico em que os vilões ganharam a guerra.

Henderson, na arte, mostra-se bastante adaptável, alterando sua tonalidade leve do arco anterior para algo mais pesado, ainda que longe de sombrio. A violência mais explícita, a pancadaria mais constante e os diálogos mais sérios e melancólicos fizeram bem ao arco também no lado dos desenhos, com o artista mais à vontade para fazer desabrochar seu talento em recriar personagens icônicos de sua maneira, valendo especial destaque para essa versão do Hulk e para Dani Cage.

Bem Vindo de Volta, Logan, portanto, encerra de maneira digna as desventuras do Velho Logan e estabelece o que pode ser um novo começo nesse mundo desolado e desértico. Mas certamente o Carcaju grisalho fará falta!

O Defunto Logan (Dead Man Logan – EUA, 2018/9)
Contendo: Dead Man Logan #1 a 12
Roteiro: Ed Brisson
Arte: Mike Henderson
Cores: Nolan Woodard
Letras: Cory Petit
Capas: Declan Shalvey
Editoria: Chris Roberson, Jordan D. White, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 28 de novembro de 2018 a 30 de outubro de 2019
Páginas: 302

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