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Crítica | Marvels X #1

Era uma vez duas graphic novels clássicas da Marvel Comics com envolvimento direto de um dos maiores nomes dos quadrinhos: Alex Ross. Marvels contava a história do Universo Marvel a partir do ponto-de-vista de um fotógrafo e Terra X imaginava um futuro distópico em que todos os habitantes do planeta ganharam poderes. Corta para 2019 e, como parte das extensas comemorações de seu 80º aniversário, a editora trouxe Alex Ross primeiro juntamente com Kurt Busiek para escreverem um singelo epilogo para Marvels e, agora, com Jim Krueger para uma minissérie em seis edições que preludia Terra X. Mas, diferente de Marvels: Epílogo, em Marvels X Ross ficou só nas ideias e não arregaçou as mangas para desenhar as páginas da história, apenas as capas, trabalho que ficou ao encargo de Well-Bee, nom de plume de Velibor Stanojevic.

E a singeleza das ideias que vemos na primeira edição da nova minissérie é quase desconcertante de óbvia e eficiente: Marvels X, como o título dá a entender, reúne Marvels com Terra X. Como? Muito simplesmente elegendo um personagem novo, o garoto David, como o ponto-de-vista pelo qual vemos o mundo pré-Terra X ser transformado pelas Névoas Terrígenas. Aquilo que Ross imaginou e Krueger escreveu na maxissérie de 1999-2000 ganha um começo, algo como o que Fear the Walking Dead deveria ter sido para The Walking Dead, por assim dizer. Exatamente como o fotógrafo de Marvels, David é fascinado por super-heróis, especialmente o Homem-Aranha, Capitão América e Homem de Ferro e, quando a história começa, nós o vemos brincando com recortes de ppel dos personagens enquanto sua família assiste, apreensiva, a notícias na televisão sobre uma epidemia que vem criando crostas nas peles dos humanos como o início do processo de formação de um casulo que revela novos poderes para cada um.

Mas Krueger não investe muito tempo nesse comecinho da infestação e logo estabelece um elipse em que vemos David, algum tempo depois, cuidando de sua irmã e de sua avó – a primeira desenvolvendo poderes e a segunda ficando enclausurada em um semi-casulo – à base de sucrilhos que consegue com uma vizinha que quase que completamente transformara-se em uma árvore falante. David, porém, permanece imaculado, completamente normal diante do inferno que o mundo ao seu redor transformou-se, com as pessoas usando seus novos poderes para basicamente reverter a um estado mais primal e selvagem. Aparentemente, o jovem é imune às Névoas Terrígenas e não entende o porquê, sofrendo por ser o único diferente onde mora e por ter, da noite para o dia, se transformado em chefe de uma família em frangalhos.

Como toda primeira edição, o objetivo é apresentar esse novo status quo – que, aliás, funciona até mesmo para quem não leu Terra X – e sedimentar David como o protagonista com quem o leitor pode facilmente identificar-se. O texto de Krueger é fácil de ler e foge completamente do didatismo que, aliás, marca Terra X, até porque o roteirista não precisa entrar nos porquês das transformações, algo perfeitamente justificado pela manutenção do foco em David e no que ele entende do mundo ao seu redor. Por outro lado, aqueles que leram Terra X podem achar estranho esse início abordado quase que como uma praga zumbi, uma vez que a situação na maxissérie está absolutamente controlada e normalizada. Claro que temos que levar em consideração que a história clássica se passa 20 anos depois do começo da epidemia, mas, mesmo assim, será importante que, de algum jeito, Krueger faça a ponte entre o que vemos aqui e  o que pode ser testemunhado em Terra X, pois a diferença é muito grande.

A arte de Well-Bee é bem diferente tanto da de Alex Ross em Marvels quanto da de John Paul Leon em Terra X, ficando em um meio-termo que faz pleno sentido. Não há nada das cores e traços vibrantes de Ross, mas também não há os aspecto sombrios de Leon. O que vemos é um garoto lidando com seríssimos problemas de maneira esperançosa, procurando a ajuda dos super-heróis que tanto ama e em quem tanto confia, elemento que dá azo ao que parece ser uma viagem até Nova York, com a ajuda de um misterioso caminhoneiro de tatuagem flamejante no braço que aparece para salvá-lo de uma enrascada. Well-Bee trabalha com vagar os detalhes desse universo, mas mantendo um ar de inocência sempre presente, algo que suas cores fazem sobressair constantemente como um raio de esperança nos olhos do pequeno jovem sem poderes em um mundo em que todos têm habilidades especiais.

Marvels X, pelo menos nessa sua primeira edição, funciona muito bem como uma homenagem de aniversário a duas das mais importantes graphic novels da editora e como uma história de méritos próprios que captura de imediato o leitor. Será sem dúvida muito interessante ver o que Krueger e Ross planejaram para o jovem David em sua desesperada busca por seus super-heróis favoritos.

Marvels X #1 (Idem – EUA, 2020)
História: Alex Ross, Jim Krueger
Roteiro: Jim Krueger
Arte: Well-Bee
Letras: Cory Petit
Capa: Alex Ross
Editoria: Shannon Andrews Ballesteros, Alanna Smith, Tom Brevoort, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 08 de janeiro de 2020
Páginas: 31