Crítica | Locke & Key – Vol. 3: Coroa de Sombras

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Quem já leu minhas críticas dos volumes anteriores de Locke & Key notou que nas duas vezes descrevi a narrativa de Joe Hill como de queima lenta, com o autor simplesmente não tendo pressa alguma em fazer sua história evoluir a passos largos, preferindo “comer pelas beiradas”, alimentando os leitores com excelentes aperitivos que prezam sabor no lugar de quantidade. E Coroa de Sombras não é diferente, já que mais uma vez a cadência é vagarosa, mas absolutamente deliciosa, daquelas que é impossível parar de ler.

Talvez o grande segredo de Hill não esteja na originalidade da premissa de sua criação, ou seja, na existência de chaves e fechaduras com características mágicas que permitem a seus utentes desde a troca de sexo, passando pela transformação em fantasma e chegando até, nesse terceiro volume, nas habilidades de agigantar-se como nos melhores tokusatsu e, claro, de acordar e controlar sombras com a tal coroa do título. O verdadeiro valor no que o filho de Stephen King escreve está na capacidade de criar e desenvolver personagens perfeitamente relacionáveis na forma como lidam com a tragédia da perda brutal de um ente querido. É envigorante notar que há muito menos preocupação em trazer surpresas rocambolescas a cada página do que há em estabelecer as personalidades de Ellie, Tyler, Kinsey e Bode Locke e de trabalhar cada um deles de maneira constante, sem temor de investir páginas e mais páginas em ações que aparentam – só aparentam! – não levar a lugar algum.

Claro que, em Coroa de Sombras, o grande destaque narrativo fica mesmo por conta de Ellie que, depois do trauma de perder o marido e de ser estuprada, socorre-se da bebida para suportar a vida, para aguentar o medo de perder seus amados filhos para alguma outra tragédia. Sua queda já vinha sendo semeada ao longo dos volumes anteriores, mas, aqui, ela ganha grande enfoque, com a arte de Gabriel Rodriguez representando com o definhamento físico da matriarca aquilo por que ela está psicologicamente passando. É algo doloroso até de se ler, especialmente em uma obra em quadrinhos – mídia normalmente voltada para um público mais jovem – de teor sobrenatural, mas a humanidade da “destruição” de Ellie é algo que funciona magnificamente bem dentro do contexto trágico da saga sendo desenrolada bem vagarosamente por Hill.

Em meio a isso, vemos a reação violenta da destemida (literalmente) Kinsey, que não aceita que a mãe fuja de suas responsabilidades, a tentativa de conciliação que faz com que Tyler amadureça a olhos vistos e o pavor nos olhos do jovem Bode. Mesmo que Locke & Key não contivesse a trama sobrenatural, só esses elementos já seriam justificativas mais do que suficientes para o leitor de quadrinhos mergulhar nessa história.

Mas a boa notícia é que, também do lado “mágico” da narrativa, Joe Hill se sobressai, engrossando o misticismo por trás das chaves e fechaduras que pontilham o volume e, logo de início, trazendo mais um mistério sobre Dodge – ou Lucas Caravaggio ou Zack Wells, como queiram – quando o vemos em sua forma de espírito com algum tipo de mecanismo (uma espécie de chave como ele mesmo diz ao fantasma do assassino Sam Lesser. O que exatamente é aquilo e o que significa, fica para volumes posteriores, pois é impressionante como a história do conflito entre Dodge e Sam é bem conduzida na primeira edição, com a segunda já focando quase que exclusivamente em Kinsey e as novas amizades que faz na escola com pessoas “diferentes” como ela. Quando o mini-arco das sombras começa, há uma pegada exclusiva de ação sobrenatural que, porém, em nada diminui ou afasta os elementos humanos do volume. Muito ao contrário, por mais exagerados que os embates possam parecer, eles são orgânicos à proposta de Hill, fazendo absolutamente todo sentido e, mais do que isso, reiterando e amplificando o lado psicológico da história.

A arte de Rodriguez acompanha a maturidade do texto de Hill não só ao trabalhar os aspectos humanos que a narrativa exige, como é o caso do já citado definhamento de Ellie, como também ao afastar de vez o leve tom arquetípico que carregava nas pistas visuais sobre quem é “do bem” e que é “do mal”, algo que era e continua sendo completamente desnecessário. Seus traços, portanto, estão mais sutis e, com isso, mais bonitos e condizentes com os diálogos e com a construção de cada personagem, mas sem que o autor precise se conter quando Hill tira o pé do freio sobrenatural. Afinal, a forma como o desenhista aborda o duelo de fantasmas na edição inicial e a invasão das sombras nas edições finais do volume é de se tirar o chapéu em termos de originalidade e cuidado com detalhes. Há, de certa forma, até uma falta de sutileza nesse aspecto, mas isso é algo exigido pela história e não extrapolado desnecessariamente pelo artista, o que resulta em um conjunto harmônico e agradabilíssimo de se ler.

Coroa de Sombras é, até o momento, o ponto mais alto na já alta qualidade de Locke & Key. Um drama de horror bem arquitetado que entende que o terror verdadeiro não está apenas em monstros embaixo da cama, mas sim, principalmente, em nós mesmos, escondido nas profundezas de nossas mentes. Será muito interessante ver a direção que essa história tomará!

Locke & Key – Vol. 3: Coroa de Sombras (Locke & Key – Vol. 3: Crown of Shadows, EUA – 2009/10)
Contendo: Locke & Key: Crown of Shadows #1 a 6
Roteiro: Joe Hill
Arte: Gabriel Rodriguez
Cores: Jay Fotos
Letras: Robbie Robbins
Editoria: Chris Ryall, Justin Eisinger
Editora original: IDW Publishing
Data original de publicação: novembro de 2009 a julho de 2010
Páginas: 153