Crítica | Ju-On – O Grito

Segundo elementos do folclore japonês, toda vez que alguém morre diante de uma situação de extremo ódio, uma maldição se estabelece. Isso é o que ouvimos nas aberturas dos filmes da franquia O Grito, tanto nas versões nipônica, isto é, a base, o ponto de partida, quanto nas estadunidenses, o bojo da refilmagem e do reboot.  Sob a direção e roteiro de Takashi Shimizu, os filmes deste universo começaram em 1998, ocasião do lançamento de Katasumi e 4444444444, curta-metragem que fixou as bases da história de Kayako e Toshio, personagens elaborados pelo cineasta ao longo de sua formação Escola de Cinema de Tóquio, espaço acadêmico onde moldou a sua aptidão para a produção cinematográfica.

Basicamente, em O Grito, o que encontramos é a presença do já citado folclore japonês, com a maldição a se erguer com base na forma das vítimas, além de manter-se no local onde algo terrível aconteceu. Alegoricamente, funciona como uma espécie de infecção, pois no mínimo contato, a maldição se estabelece e, para piorar, não há nada material que a resolva. Não adianta reza, exorcismo, crucifixo, alho, estaca, bala de prata ou qualquer outra coisa. A maldição nunca encontra um fim, mesmo quando descoberta e divulgada. Nos filmes estadunidenses, por exemplo, é muito comum uma entidade ou espírito se manifestar em torno de alguém para denunciar a sua morte trágica. Resolvido o problema, o mal se afasta e as coisas voltam ao normal.

Nas narrativas ocidentais, ao menos a extensa lista de filmes a que tive acesso, depois que a maldição encontra alguém, não há escapatória. Haverá luta, embate, mas não tem jeito, ela dominará no desfecho. Dentro da dinâmica de O Grito, Kayako e Toshio estão unidos para trazer o horror para a vida daqueles que tem a falta de sorte de cruzar os seus caminhos malditos. Em O Chamado, o horror vinha da fita maldita, pois ao assistir, a pessoa tinha sete dias até a sua morte. A maldição de O Grito se manifesta quando alguém decide ter acesso à casa assombrada. Sem a linearidade e a explicação exaustiva das narrativas estadunidenses, no filme, encontramos blocos de histórias fragmentadas que dialogam todos com a tal maldição, um choque cultural que pode não responder às expectativas de alguns espectadores ocidentais despreparados ou resistentes às mudanças bruscas de padrões.

No enredo, temos inicialmente a história de Rika (Megumi Onika), assistente social voluntária que é chamada para cuidar de uma idosa, Sachie (Chikako Isonura), senhora catatônica que não dá uma palavra há tempos e sequer muda a direção do olhar fixo, constantemente. Rika percebe na casa a atmosfera ominosa, extremamente sombria e misteriosa. Ela circula pelo espaço e descobre um armário selado com fita. O que será que há ali dentro? Encontrará respostas para as suas perguntas diante da curiosidade daquele lar? Ao vasculhar, ela deslacra o móvel e traz para si a pior das situações, pois era ali que a maldição estava instalada.

Deste momento em diante, todos que cruzam o seu caminho são acometidos pelo mal. Essa é uma parte, um dos blocos narrativos. Kazumi (Shuri Matsuda) é a enteada da senhora que habita a casa. Em determinado ponto ela se depara com o emaranhado de horror de Kayako e Toshio, tal como o seu marido, Katsuya (Konji Tsuda). Ambos são parte integrante de um dos blocos narrativos. Temos ainda Izumi (Misa Uehara), uma colegial que acaba se encontrando com a maldição e tem o seu destino selado tragicamente. São todos parte de um problema em comum: a perseguição de Kayako e Toshio, entidades que selam o destino destas pessoas de maneira taxativa, pois como já apontado, nada consegue exterminá-los ou fazê-los conjugar o verbo “perdoar”. Uma vez amaldiçoados, já era.

No que tange aos elementos estéticos, a produção é uma experiência bem conduzida. As tomadas de câmera lenta, as abordagens estáticas, os enquadramentos que dão vigor ao horror, dentre outras estratégias bem-sucedidas, fazem parte da eficiente direção de fotografia de Takushô Kikumera. A trilha sonora de Shiro Sato, apesar de atmosférica, surge em poucos momentos, quando comparado aos efeitos sonoros do design de som de Masaya Kitada, bastante assustadores, espasmódicos, tais como as assombrações da trama. O design de produção de Toshiharu Tokuia também é adequado, pois transforma bem os espaços por onde circulam os personagens, sem dispersões visuais que atrapalhem a condução da história.  Numa análise geral, além dos elementos estéticos bem conduzidos, O Grito dialoga com diversas questões contextuais do nosso contemporâneo, não apenas no bojo das relações orientais. São reflexões que podemos chamar de “universais”.

A família é o caso mais pontual. Ao longo dos 92 minutos da narrativa, a família é apresentada como um espaço de fragmentação, com as suas partículas espalhadas diante de situações devastadoras, tais como as apresentadas em O Chamado. Se lá a menina é jogada no poço, aqui temos uma mãe morta por um pai possuído, homem que em seguida aniquila o seu filho e o animal de estimação, um gato preto, criatura que na cultura japonesa, é visto como arauto do inferno, representação do maligno.  Ademais, o que temos é a ação de fantasmas ressentidos em busca de vingança por algo ocorrido ainda em vida. Retirados de suas existências humanas por meio de situações angustiantes, eles retornam para cobrar pelo que lhes fora extraído, não é a toa que duas décadas depois, serão reiniciados, haja vista o lançamento do novo filme da franquia em 2020, três anos depois do equivocado retorno de Samara em O Chamado 3.

Ju-On – O Grito (Ju-On) — Japão, 2003
Direção: Takashi Shimizu
Roteiro: Takashi Shimizu, Bobby White
Elenco: Megumi Okina, Misaki Itô, Misa Uehara, Yui Ichikawa. Kanji Tsuda, Kayoko Shibata, Yukako Kukuri, Yuya Ozeki, Takako Fuji
Duração: 99 min.