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Crítica | As Golpistas

“Essa cidade, esse país inteiro, é um clube de strip. Você tem pessoas jogando o dinheiro, e pessoas fazendo a dança.”

O nome do cineasta Adam Mckay, responsável por A Grande Aposta, é um dos citados, no longa-metragem de Lorene Scarafia, como produtor. Usando essa coincidência como ponto de partida, comparações se aplicam entre um artista e outro. O seu caráter dinâmico e o pedagógico podem ser percebidos em alguns momentos dessa obra, em vista dela estar posicionada, além de outras similaridades, em meio até mesmo à crise financeira de 2008. No mais, uma necessidade aparente é a de contextualizar um universo particular: o das strippers, que ou ganham uma miséria para se sustentar ou conseguem crescer às custas da incompetência dos milionários de Wall Street. Numa das cenas, ao passo que algumas das mulheres executam o ofício pelo qual são pagas, também conversam com o espectador acerca do que está acontecendo, buscando explicar o contexto do mundo que vivem. O mais curioso, porém, é que a obra da diretora norte-americana contradiz a impessoalidade percebida em certos projetos de Mckay, mais preocupado em construir um grande acervo de informações do que em chegar a um ponto qualquer nesses casos. Por meio de um olhar humanizado de um grupo de mulheres que participaram de golpes ao longo de anos, a obra de Lorene se transforma em um retrato íntimo da amizade entre suas personagens femininas, que, em decorrência de viverem perante um cenário masculino, se conhecem, se entendem e se amam.

Para outros contadores de histórias, a trama que é narrada, espelhada em um caso real e numa matéria jornalística, poderia simplesmente se apegar a seu aspecto lúdico sem precisar preocupar-se com demais consequências. Dorothy (Constance Wu), conhecida também pelo seu nome de stripper Destiny, é um novata num clube em que trabalha para conseguir pagar as despesas de sua avó. No presente, paralelamente a isso, anos depois dos eventos que reconta, a mulher é entrevistada por uma jornalista, vivida por Julia Stiles, interessada em saber mais afundo do caso das golpistas comandadas por uma antiga sócia e mentora de Destiny, Ramona Vega (Jennifer Lopez). Dentre tudo que é posto pela premissa, o terreno seria propício para uma narrativa sensual, que explorasse de maneira apelativa os seus elementos. No entanto, é pela sensibilidade que o longa-metragem surpreende, a começar pela condução do seu relacionamento principal, entre Destiny e Ramona. Quando Scarafia captura Lopez em sua primeira cena, no palco do clube apresentando-se, o interesse da cineasta é em reproduzir o sentimento de Destiny ao perceber a grandiosidade emitida por Vega. À cineasta, pouca importa o prazer dos homens, mas os pontos trocados de mulher para mulher, o que termina abrangendo uma construção enorme e convincente de cumplicidade feminina. Logo, impede-se um ar genérico para esse ser um projeto mais especial.

Por meio da conversa entre o passado e o presente, os reais propósitos da obra se materializam – e às vezes de modos explícitos demais. De qualquer forma, eles não contam apenas os ganhos e as perdas do grupo de golpistas, e não questionam de modo unidimensional os crimes cometidos por elas. Ou seja, essa não é uma obra de ascensão e queda. Na abrangência de um escopo muito maior, que margeia um inesperado diagnóstico da nação norte-americana daquela época como um todo, o longa consegue sustentar, ao mesmo tempo, um posicionamento dessas pessoas num jogo complexo jogado por gente machucada. Lorene Scarafia vai além da premissa em si e se atém a um exemplar sincero dos dramas de um mundo que não pensa no próximo e não percebe que ele também tem a sua própria vida, com os seus problemas, responsabilidades e medos. Não apenas isso acontece num determinado momento da história, em que uma das vítimas do grupo ganha mais proeminência na história, porém, principalmente entre as mulheres e suas questões particulares. Pela interação entre as personagens de Wu e Stiles, no mais, a obra concede até a criação de um arco para a figura da jornalista, que se vê em meio a esse universo plural e precisa compreender seu papel ao dimensionar o que aconteceu naqueles anos de golpes. Na verdade, sua maior contribuição acaba sendo outra que não a exposição de um escândalo pouco conhecido.

Existe, por sinal, até mesmo uma ameaça de se criar um antagonismo na personagem de Lopez, que comete certos erros bastante questionáveis no decorrer do longa-metragem. Essa questão, no caso, é explorada em meio às reflexões de Destiny acerca do seu passado, quando em entrevista à jornalista. No entanto, não é essa a verdadeira história, em oposição a tão comum narrativa de corrupção de pessoas ingênuas por outras mais experientes, que Lorene Scarafia transporta ao seu longa-metragem. No que tange à concretização de sinceras conexões empáticas entre as suas personagens, a cineasta possui na condução do relacionamento entre Destiny e Vega a resposta para respaldar o seu objetivo-mor. Destiny, mais nova, enxerga uma irmã mais velha em Ramona, e quiçá seja por isso que a performance de Jennifer Lopez esteja sendo tão prestigiada – já Wu constrói um amadurecimento. Uma boa quantidade de cenas entre as duas pavimenta um mar de sentimentos inerentes ao que uma possui pela outra. O conforto de um reencontro entre Destiny e Vega, numa delas, é notório por conseguir exemplificar com sucesso o que termina sendo colocado à prova quando, no terceiro ato, o envolvimento entre as mulheres é inteiramente renovado. Pelos impasses que entram no caminho, como o surgimento de uma outra espécie de irmã mais nova para Ramona Vega, permanecem indagações que se referem à verdade por trás daquela amizade.

O grande sucesso dramático da obra, portanto, mora na relação entre Ramona e Destiny, o que, por outro lado, diminui o impacto de demais figuras femininas. Na verdade, o primeiro ato do longa, que conta os primórdios do passado precedendo a parte dos golpes, até consegue configurar personagens únicas, mesmo sem enfocar em nenhuma delas. Porém, mais tarde, a tentativa de criar uma centralização para além da dupla protagonista, por meio das aparições de Keke Palmer e Lili Reinhart como coadjuvantes em evidência, não convence tanto quanto a amizade principal. Fora elas, a entrada de uma outra peça no esquema do enredo, Dawn (Madeline Brewer), não é competente em consolidar a ruptura que a garota, no papel, tem que criar entre o grupo. Em termos cômicos, existe uma irregularidade tanto nessa personagem quanto no uso de uma gag envolvendo a de Reinhart. A exceção é a avó de Destiny, interpretada por Ching Hoh-Wai, que se comunica bem com a vida de sua neta e estabelece bons pontos de vínculo, mesmo que breves, com Vega. Entre essas mulheres, no caso, não existe julgamento, mas uma compreensão mútua. Um ponto do clímax, por sinal, que traça uma ação de uma delas que seria normalmente vista como traição, é preciso em exemplificar o poder da empatia existente ali. No fim das contas, não existe lugar mais confortante que aquele encoberto pelo casaco de pele da personagem de Lopez.

As Golpistas (Hustlers) – EUA, 2019
Direção: Lorene Scarafia
Roteiro: Lorene Scafaria, Jessica Pressler
Elenco: Constance Wu, Jennifer Lopez, Julia Stiles, Keke Palmer, Lili Reinhart, Lizzo, Cardi B, Mercedes Ruehl, Trace Lysette, Usher, G-Eazy, Mette Towley, Madeline Brewer, Stormi Maya, Tia Barr, Ching Hoh-Wai, Doris McCarthy
Duração: 107 min.