Tucker Gates

Crítica | Homeland – 8X06: Two Minutes

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Não sei quantas vezes, em apenas seis episódios, Carrie engrupiu Jenna de todas as formas possíveis a ponto de eu não saber exatamente se eu fico com pena ou com raiva da agente mais incompetente da CIA. Bastou dar uma missão para a sujeita que é garantia que ela não será cumprida.

Por outro lado, Two Minutes, episódio que marca a metade da temporada final de Homeland, cumpre sua missão de fazer a transição entre a complexa armação de tabuleiro que culminou com a morte do presidente Warner e a captura de Max que, por sua vez, carrega a caixa preta do helicóptero e o que está por vir. É muito interessante ver a amplificação da conexão de Carrie com Yevgeny Gromov, até porque eu tinha receio que a jogo de sombras em cima da lealdade da agente bipolar, tema principal da temporada que retorna à base da Trilogia Brody, fosse abafado. Muito ao contrário, o episódio recrudesce esse aspecto, mais uma vez colocando Carrie na mira de Mike e Jenna e, pior ainda, do próprio Saul Berenson, que se sente traído.

A tensa sequência que batiza o episódio é simples, mas muito bem construída, ao mesmo tempo mantendo-nos no escuro sobre as intenções de Yevgeny e sobre a possível manipulação de Carrie por ele, culminando na mais do que esperada segunda fuga dela que, obviamente, não tinha a menor chance de entrar no avião (vai ser muito divertido quando Jenna descobrir que mais uma vez foi ludibriada…). Gosto muito também da forma como Costa Ronin e Claire Danes conseguem formar uma dupla hesitante que esbanja química e conexão em tela, ele com aquele jeito cínico, mas estranhamente sincero que marca Yevgeny e ela com a fúria cheia de hesitação que marca Carrie.

Do outro lado do oceano, o facilmente manipulável presidente Benjamin Hayes – algo que já havia ficado bem claro na relação dele com David Wellington logo depois da morte de Warner – tem um momento daqueles que realmente deu vontade enfiar a cabeça em algum buraco de tanta vergonha alheia quando ele cai no papinho do espertíssimo presidente afegão Abdul Qadir G’ulom (pouco falei de Mohammad Bakri, mas ele está sensacionalmente vilanesco aqui – poderia ser fácil um baita inimigo de James Bond!) para desespero completo de seu chefe de gabinete e de Saul Berenson. Tudo está armado para que a tão almejada paz termine de ruir com uma provável maior presença militar americana no Afeganistão, tudo que G’ulom sempre quis.

Meu único receio, porém, é que a segunda metade da temporada cozinhe essa escalação da guerra em fogo baixo de forma que muito lentamente os episódios sejam ocupados com tudo o que for necessário para que o resgate de Max e a busca pela caixa preta aconteçam, com uma revelação canhestra de que, como Carrie desconfia, o helicóptero do presidente Warner não foi derrubado e sim caiu em razão de um problema mecânico, absolvendo o talibã e colocando a opinião pública contra G’ulom e Hayes ainda a tempo de um final, digamos, mais esperançoso. Mas isso é só algo que me passou pela cabeça enquanto os créditos finais do episódio rolavam, já que, mesmo quando Homeland erra – ou seja, na 4ª temporada – a não série não deixa de ser desafiadora e jamais subestima o espectador. Howard Gordon e Alex Gansa, aliás, tiveram um bom tempo para imaginar um fim digno a esses oito anos de aventuras de Carrie para eles seguirem esse caminho tão pouco imaginativo.

Portanto, ainda que a busca pela caixa preta certamente tenha sua importância, as maquinações políticas americanas, afegãs, paquistanesas e do talibã precisam estar competindo pela atenção do espectador, ali muito perto do já mencionado tema central – e bem pessoal – da temporada. Com Carrie agindo completamente fora da lei e, ainda por cima, em conluio com um espião russo, Homeland tem tudo para ter seis explosivos episódios pela frente, com ótimas chances de Jenna ser enganada mais uma meia dúzia de vezes para tornar tudo ainda melhor.

Homeland – 8X06: Two Minutes (EUA, 15 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Tucker Gates
Roteiro: Debora Cahn, Alex Gansa
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas
Duração: 55 min.

Crítica | Ray Donovan – 6ª Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Ray Donovan é uma série que se manteve firme em sua premissa ao longo de quatro excelentes temporadas, mas que soube iniciar um processo de transformação na quinta, levando seu protagonista às vias de fato consigo mesmo, tendo a morte de sua esposa como principal elemento catalisador. A sexta temporada, então, que foi ao ar entre o final de 2018 e o começo de 2019, pega os cacos que sobraram de Ray e os mói sem dó nem piedade, tragando de vez toda a família Donovan para um intrincado e doloroso processo de reinvenção e ressurgimento. O que começou como a história de um “resolvedor de problemas” de celebridades, transformou-se em um profundo estudo de personagem que trafega entre a vida e a morte com a mesma facilidade com que se bebe um copo de uísque.

Começando exatamente do ponto em que a temporada anterior parou, ou seja, com a tentativa de suicídio de Ray (Liev Schreiber) jogando-se de um prédio em Nova York, nós o vemos ser resgatado do rio pelo policial Sean “Mac” McGrath (Domenick Lombardozzi) em circunstâncias estranhas que são explicadas e desenvolvidas ao longo da narrativa inicial e que selam a conexão entre os dois. Ray larga sua vida pregressa e passa a morar com Mac até que é tragado de volta para seu passado pela magnata do entretenimento Samantha Winslow (Susan Sarandon retornando ao seu ótimo papel da temporada anterior) que precisa de sua ajuda para eleger sua protegida Anita Novak (Lola Glaudini) à prefeitura da cidade, custe o que custar. Circulando ao redor de Ray, mas mantendo-se consideravelmente sem conexão direta com o protagonista, vemos os demais membros de sua família lentamente reunindo-se em Nova York por razões diferentes: Bunchy (Dash Mihok) é manobrado por Mick (Jon Voight) a libertá-lo da prisão e dirigir até a outra costa dos EUA, Terry (Eddie Marsan) começa a autodestruir-se entregando-se a lutas mortais em um clube da luta, Daryll (Pooch Hall) começa a produção do filme de longe baseado em roteiro de seu pai, e Bridget (Kerris Dorsey) tenta firmar-se ao lado de Smitty (Graham Rogers).

A variedade narrativa é bem-vinda e muito interessante, especialmente, claro, a que lida com Mick e seus cada vez mais absurdos planos que culminam em uma sequência de desmembramento e enterro de corpos no jardim de Sandy Donovan (Sandy Martin, uma sensacional adição ao elenco) que teria perfeito lugar em alguma obra do surrealismo cinematográfico ou do Teatro do Absurdo de tão inacreditável que é e ao mesmo tempo tão triste por deixar evidente o quão profunda é a conexão dos Donovans com o submundo, com o que de pior há no mundo. Claro que o foco da temporada fica mesmo, como não poderia deixar de ser, em Ray e em sua percepção de que sua vida está completamente descontrolada e que todos ao seu redor sofrem por causa dele. A cada passo que ele dá para a frente, ele é obrigado a retroceder 50, em um processo doloroso física e mentalmente que o coloca em um verdadeiro labirinto de onde dificilmente conseguirá escapar.

Esse labirinto, porém, revela o que reputo ser a única fraqueza da temporada e o elemento que me impede de dar nota máxima para ela: a conexão aleatória de Ray com Mac acaba sendo peça-chave para que ele seja envolvido diretamente no conflito de interesses opostos representados por sua chefe Samantha e o prefeito atual da cidade Ed Ferrati (Zach Grenier). É que Ferrati tem Mac, dentre outros, em sua folha de pagamento de um enorme esquema de corrupção e é impossível não achar conveniente demais que coincidentemente Ray seja salvo por Mac e que com ele crie amizade somente para depois estabelecerem posturas antitéticas. Talvez para alguns isso seja um detalhe, talvez até uma premissa para que a temporada seja aceita como ela é, mas, particularmente, achei preguiça do roteiro em estabelecer tamanhos encaixes aleatórios.

No entanto, a grande verdade é que tudo ao redor desse elemento ruim funciona muito bem, já que o foco não é exatamente nos trabalhos de Ray para Samantha, mas sim na forma como ele e os demais membros de sua família vão finalmente alcançando o fundo do poço para que, então, a catarse possa vir com força total e de maneira muito eficiente nos episódios finais, mesmo que o preço seja potencialmente alto. Ray Donovan sempre deixou o niilismo permear sua narrativa e sua presença é particularmente sentida nessa temporada que desconstrói seus personagens para desnudá-los completamente e, talvez, dizer a nós, espectadores, que eles são assim mesmo, não tem jeito. Há, não tenham dúvida, um resvalar em um trabalho psiquiátrico que pode vir a potencialmente manter a autodestruição de Ray em xeque, mas isso é algo que, provavelmente, só será explorado na temporada seguinte (que está acabando na época em que redijo a presente crítica).

Em meio a todo esse sofrimento, mais uma vez Liev Schreiber tem um grande trabalho dramático, talvez superior até ao da temporada anterior. Melhor ainda, diferente do que veio antes, todo o elenco principal tem espaço de sobra para brilhar e todos conseguem se superar aqui, entregando-se em nuances complexas que eternizam cada um de seus personagens em nossas mentes. É, talvez, a primeira vez que os Donovans realmente mostram suas verdadeiras faces e atuam como um só, com a já mencionada bem-vinda adição de Sandy nessa equação.

Chega a ser impressionante como Ray Donovan consegue se reinventar, recusando-se a ficar parada em uma estrutura fixa. Resta saber se foi aqui o fundo do poço da família ou se há mais a ser escavado.

Ray Donovan – 6ª Temporada (Idem, EUA – 28 de outubro de 2018 a 13 de janeiro de 2019)
Criação: Ann Biderman
Showrunner: David Hollander
Direção: Allen Coulter, Tucker Gates, Robert McLachlan, Michael Uppendahl, Zetna Fuentes, Tarik Saleh, John Dahl, Joshua Marston, David Hollander
Roteiro: David Hollander, Miki Johnson, Chad Feehan, Sean Conway
Elenco: Liev Schreiber, Jon Voight, Paula Malcomson, Eddie Marsan, Dash Mihok, Pooch Hall, Katherine Moennig, Kerris Dorsey, Devon Bagby, Susan Sarandon, Graham Rogers, Domenick Lombardozzi, Kate Arrington, Tony Curran, Lola Glaudini, Gerard Cordero, Sandy Martin, Alexandra Turshen, Zach Grenier, Alan Alda
Duração: 654 min. (12 episódios)

Crítica | The Morning Show – 1ª Temporada

A ficção costuma ser um eficientíssimo veículo para fazer com que a realidade alcance um público muito maior que a própria realidade jornalística é capaz de tocar. Nessa toada é que The Morning Show, série criada por Jay Carson com base em jornalismo investigativo de Brian Stelter, vem, surpreendentemente, preencher um espaço que merecia mesmo atenção sobretudo do público masculino: o movimento #metoo.

Mas antes que os roladores de olhos de plantão façam o usual e desdenhem da questão como “mimimi”, algo que “não acontece” ou que “vitimiza o homem” (tadinho do homem…) ou até mesmo que “sempre foi assim e não tem nada de errado com isso” (minha vez de rolar os olhos…), deem uma chance a The Morning Show, uma série que parece começar usando o #metoo apenas como catapulta narrativa para uma discussão sobre a estrutura corporativa de conglomerados de jornalismo e entretenimento, o que por si só é um assunto interessantíssimo, mas que consegue lidar com as duas questões de maneira equilibrada, adulta e excitante, por vezes beirando a estrutura de série de ação. Mas é importante perseverar, pois, como parece ser marca de todas as séries de lançamento do Apple TV+, o início de TMS é errático, patinando entre assuntos e demorando a firmar-se de verdade, algo que aconteceu, para mim, apenas a partir do quarto episódio.

O título da série é também o do programa jornalístico ficcional matutino mais assistido nos EUA e apresentado por Alex Levy (Jennifer Anniston) e Mitch Kessler (Steve Carell) há uma década. No entanto, uma denúncia de assédio contra Mitch leva à sua demissão imediata pela UBA, produtora do programa, desencadeando frenéticas reformulações do TMS, a começar por uma Alex fragilizada tendo que tomar as rédeas para enfatizar que ainda é relevante, passando pela revoltada repórter de rua Bradley Jackson (Reese Witherspoon) sendo tragada para esse furacão por Cory Ellison (Billy Crudup), executivo da divisão de entretenimento da UBA que acabou de assumir a de telejornalismo e chegando ao ansioso e inseguro Charlie “Chip” Black (Mark Duplass), produtor executivo do programa. Gravitando ao redor deles, há uma verdadeira constelação de personagens que são afetados ou afetam a situação cada vez mais calamitosa e sem saída que os roteiros da série vão costurando magistralmente.

Como disse, porém, há algumas escorregadas narrativas no início que colocam muito foco em Alex e sua jogada de mestre para consolidar seu poder na ausência de Mitch, assim como o relativo escanteamento do #metoo com a reinserção (tecnicamente inserção, já que ele começa a temporada “de fora”) do próprio Mitch. Mas, ultrapassada a trinca inicial de episódios, que são fundamentais para a temporada, não se enganem, mas que arriscam ao não destravar o potencial pleno da série, a história ganha complexidade e relevância, além de desenvolver maravilhosamente bem diversos personagens para além de Alex e Bradley, valendo especial destaque para o brilhante “jogador de xadrez corporativo” Cory e o extremamente nervoso Chip, com Crudup e Duplass realmente marcando presença com suas atuações bem diferentes, mas ambas de se tirar o chapéu. 

Claro que muito da força dramática da série vem de Reese Witherspoon e Jennifer Anniston, a primeira uma atriz que particularmente não gosto, mas que não posso deixar de elogiar pela estirada de trabalhos excelentes nos últimos anos, e a segunda uma atriz que nunca vi galgar o primeiro escalão, mas que, aqui, ela ameaça chegar lá. Alex e Bradley têm personalidades opostas – uma acomodada, outra combativa – que se complementam antiteticamente desde que as primeiras farpas voam entre elas, ambas com presenças em tela que competem pelo olhar do espectador.

Mas o verdadeiro valor da série é saber trabalhar os bastidores de um telejornal com a seriedade de The Newsroom casada com a urgência de unReal resultando em um mix próprio que abre todo o espaço possível para o tema do #metoo a ponto de, mesmo quando a temporada é didática, ela o é no momento certo e dentro de um contexto preciso. Esse é o caso, por exemplo, do oitavo episódio, o único trabalhado como flashback e o único a nos permitir um vislumbre do TMS com Mitch ainda lá dividindo – na verdade absorvendo – os holofotes com Alex. 

Trata-se de um momento poderoso que mais diretamente nos deixa (e por “nos”, leia-se especificamente nós, homens) entrever a mecânica insidiosa e quase imperceptível do jogo de poder e do sexo e o estrago que ele pode causar a alguém. Há coragem no texto em manter a narrativa bem no fio da navalha para que o espectador tire suas próprias e, espero, inevitáveis conclusões sobre o assunto, ainda que a temporada não arrisque em deixar dúvidas sobre o que quer dizer. É um tapa na cara muito bem dado e um alerta.

The Morning Show ficcionaliza uma realidade dolorosa, convertendo-a em televisão do mais alto gabarito que não deixa pedra sobre pedra ao ponto de ser até difícil visualizar como a série continuará na próxima temporada (e, só para ficar claro, isso é um elogio!). Não é fácil trabalhar um assunto do momento sem cair na armadilha do maniqueísmo ou do didatismo extremo, mas Jay Carson, mesmo derrapando no começo, recupera sem demora o equilíbrio e presenteia a Apple TV+ com sua melhor série inaugural.

The Morning Show – 1ª Temporada (EUA – 1º de novembro a 20 de dezembro de 2020)
Criação: Jay Carson (baseado em obra de Brian Stelter)
Direção: Mimi Leder, David Frankel, Lynn Shelton, Tucker Gates, Roxann Dawson, Michelle MacLaren,  Kevin Bray
Roteiro: Kerry Ehrin, Jay Carson, Erica Lipez, Adam Milch, Torrey Speer, Kristen Layden, Jeff Augustin, JC Lee, Ali Vingiano
Elenco: Jennifer Aniston, Reese Witherspoon, Billy Crudup, Mark Duplass, Gugu Mbatha-Raw, Néstor Carbonell, Karen Pittman, Bel Powley, Desean Terry, Jack Davenport, Steve Carell, Tom Irwin
Duração: 550 min. aprox. (10 episódios no total)