The Walking Dead: 10ª Temporada

Crítica | The Walking Dead – 10X13: Walk With Us

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  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Mãe, ele está vivo?

Uma das maiores tristezas de quem ainda acompanha The Walking Dead é ter a cada temporada uma notícia prévia de abandono de alguém do elenco, consequentemente já criando uma expectativa para a sua despedida, que acaba tornando sem impacto o fato de que não iremos mais ver aquele personagem em ação. Foram várias as perdas desde a queda de audiência, a primeira e mais significativa foi Carl na 8ª Temporada, e felizmente, por mais questionável que fosse a decisão, foi a única que garantiu alguma surpresa por simplesmente ter acontecido sem o aviso prévio dessas notícias de bastidores, seguido de Maggie, Rick, Jesus e agora Michonne, todas com datas premeditadas para acontecer, sem aquele elemento surpresa que faria essas perdas serem sentidas com mais alvoroço. 

Nisso, esse episódio já começa problemático, pois sabemos exatamente que no final algo irá acontecer para distanciar a personagem do núcleo principal, uma vez que dentro do cenário apresentado, tempo e demais circunstâncias, a morte com certeza não viria. Ele até ameaça com essa possibilidade, mas de forma muito rápida. Quando Virgil tranca Michonne naquele alçapão, bate uma rápida sensação de que ele poderia ser algum louco psicótico que iria torturá-la até a morte, mas é lógico que em um episódio de despedida, a série não teria culhões para isso (talvez em um outro momento e se acontecesse seria sensacional). Ao contrário, a “tortura” alucinógena foi apenas uma desculpa preguiçosa para se instaurar um clima romântico nostálgico e revisionista dos bons momentos da série em uma perspectiva invertida. 

O propósito das sequências de Michonne viajando por destinos diferentes que ela poderia ter tido ao tomar diferentes atitudes, deixando Andrea para morrer, juntando-se aos Salvadores, não acrescentam em nada à própria jornada individual da personagem que na finalidade (se não era a morte) seria iniciar uma busca verdadeira por Rick, a que já estava previamente decidida por acreditar que ele estava vivo. Então, fica aquele velho fan service gratuito e inserido às coxas, uma vez que fora Laurie Holden, nenhuma das outras participações especiais antigas trouxeram os atores novamente, só fizeram uma colagem por cima de cenas que já aconteceram e “tá valendo”.

Aliás, Virgil se demonstrou um personagem meramente descartável, sem qualquer carisma e motivações pouco plausíveis pela mutabilidade rápida, além de genéricas. O cara mente, sequestra a Michonne e inventa uma desculpa de misericórdia aceita com muitíssima facilidade, visando reforçar um espírito benevolente mais forte na personagem que já estava bem estabelecido. Sua conexão em fornecer a motivação de Michonne para viajar é meramente uma coincidência, pelo menos é o que dá a entender, já que o episódio não busca estabelecer uma clareza maior de como aquele celular com a imagem de Carl e as botas do Rick foram parar ali. É um gancho final aleatório que poderia muito bem ter sido o mote inicial do capítulo, mas prefere-se enrolar todo o caminho até lá com uma subtrama de um personagem que no fim das contas nunca mais aparecerá na série.

E aí retomo a dívida orçamentária, pensando nesse mini arco como uma forma de tentar contornar o que o episódio planejadamente poderia ter sido em expansão de universo, mas não pode, graças a essa economia exacerbada de orçamento. Não é o ideal criticar algo pelo que deveria acontecer e não pelo que de fato ocorreu, mas diante de como surgiu esse arco, a idealização de uma nova comunidade buscando novamente armas para ajudar numa nova guerra, por mais repetitivo que fosse, teria fins diferentes. Supondo que realmente existisse essa comunidade, Michonne a conheceria e o tempo que levaria para tentar convencer uma aliança… Judith por ligação avisaria sobre o fim da guerra, ao mesmo tempo Michonne descobriria esse possível paradeiro de Rick, e junto a essa nova comunidade começaria uma nova busca que poderia já fazer link direto com os filmes ou World Beyond a depender da questão do planejamento dessa expansão do mundo zumbi.

Aí é que tá, creio eu que não existe esse planejamento, e que a série vem nas coxas, plantando possibilidades dentro da obrigação de se livrar do elenco, para no futuro resolver essas pendências de alguma forma que ela ainda não sabe. Entristece ver que a série chegou a esse ponto, porque no papel, acho que qualquer um é a favor dessa expansão, desde que haja engajamento para sua construção, algo que para a AMC parece ser uma eterna promessa, que dura faz um tempo. Esse engasgo da necessidade engole qualquer possibilidade de uma relação mais próxima com esses futuros possíveis, assim, a gloriosa cena da chamada de rádio só não é tão artificial porque existe uma entrega verdadeira de ambos os lados atuantes. Até que ponto aquilo não foi mais um remendo do que um destino plantado com convicção e ao menos um norte bem definido para onde ir? Convenhamos, se não tivesse a informação antes de que Danai Gurira iria sair, a cena não funcionaria emocionalmente e o destino dessa missão expansiva seria severamente mais questionado.

The Walking Dead – 10X13: What We Become — EUA, 22 de março de 2020
Direção: Sharat Raju
Roteiro: Vivian Tse
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

Crítica | The Walking Dead – 10X12: Walk With Us

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Não aguento mais isso.

A grande dificuldade de analisar séries como um todo é a possibilidade de tudo ser posto a perder em uma temporada (como pra mim foi o caso da última de Game of Thrones), por isso costuma-se analisá-las dentro do recorte da temporada, que mesmo bem encaminhada, também pode ser terrivelmente prejudicada por apenas um episódio, principalmente quando esse marca um momento decisivo das ações. Infelizmente, Walk With Us se enquadra nessa definição, um episódio “grande” que arrega em escala e toma escolhas no mínimo questionáveis dentro do panorama final do arco dos sussurradores, consequentemente, afeta diretamente vários bons elementos quase consolidados na temporada e não faz valer a sua construção até aqui, principalmente por parte dos três últimos singelos episódios.

O principal problema começa nas vias orçamentárias. Fica difícil decifrar o motivo, mas desde meados da 7ª Temporada, a queda de investimento por episódio era gritante e a série se tornava cada vez mais “feia” do ponto de vista técnico, mesmo sendo naquele período, ainda com a queda de audiência, uma das séries mais lucrativas do momento. Parecia uma falta de culhões não arriscar na série em meio ao decrescente público, contudo com Angela Kang assumindo como showrunner, na prática a produção passou a correr mais riscos no roteiro, experimentando diversos métodos diferenciados para tentar conquistar novamente o telespectador, com o agravante de perda e desvio de elenco constantes para se resolver.

Então, se desde a 9ª Temporada esses riscos vêm sendo tomados, a única justificativa plausível para essa baixa grana investida seria a maior extração de lucros possível para compensar a queda de público, o que acaba sendo um tiro no pé, porque quando se pode entregar momentos de grande escala, que fizeram os picos de audiência no passado, não há investimento e eles precisam ser desviados de forma artificial e sem peso na narrativa, perdendo o pouco de público casual que ainda acompanha.

Pois bem, todo esse desabafo válido para esse período mencionado foi para começar a demonstrar a minha indignação de “A Batalha de Hilltop” não ter nem acontecido. O gancho cirúrgico de Morning Star foi absolutamente inútil, porque o episódio o engole em elipse e mostra os personagens basicamente prontos para fuga e Hilltop caída em míseros 5 minutos de uma batalha (mostrada na íntegra em promo da semana) fechada em planos, e ao mesmo tempo, contemplativa em câmera lenta com fins previamente estabelecidos. Além de esvair todo o senso de temor colocado pelo episódio anterior, abusando da suspensão de descrença (como eles conseguiram sair daquela situação? Pouco importa? Não é assim, TWD…), as decisões tomadas durante o episódio orquestram arcos de forma tão protocolar que desvincula qualquer importância que eles poderiam ter.

Por exemplo, separar os personagens “pós-batalha” é algo que já foi feito na 4ª Temporada, depois da guerra com o governador, só que dentro de um período bem mais longínquo, o que elaborava um panorama tranquilo para desenvolver os personagens e extrair o máximo do desespero por eles estarem tão distantes uns dos outros. Mesmo que o recorte aqui seja mais curto e com um destino certo, geograficamente não há qualquer sentido porque a horda gigante de zumbis que destruiu Hilltop não sumiu do nada (ou melhor, sumiu porque o roteiro “precisava”), e se houvesse o investimento necessário, ela continuaria perseguindo cada personagem ali mostrado para dar continuidade minimamente à urgência que deveria ser aquela situação. 

Tudo bem, não “houve” orçamento para fazer isso, aí sim, seria uma ótima hora de implementar uma elipse, colocando os personagens bem mais à frente e em território já próximo a Alexandria, justificando não haver zumbis por perto. Contudo, a outra forma como o roteiro tenta contornar a falta de tensão de perigo próximo, que seria a procura das crianças que em teoria fugiram com Ezequiel, quebra esse raciocínio, já que ele não se encontrava no ponto combinado com Daryl e ainda estava preso em Hilltop, onde rapidamente Daryl o encontra embaixo dos escombros e mais rapidamente ainda volta quando as crianças são encontradas.

Podem ter ocorrido várias elipses temporais e geográficas aí? Sim, mas a montagem é tão desorganizada que não elabora esses saltos com coerência e os move inteiramente por conveniência. Confirmando o sumiço protocolar das linhas de força zumbi, Negan e Alfa passeiam sozinhos pelo campo de mortos pós-batalha, abrindo-se um com o outro de forma inescrupulosa, desenhando expositivamente o grande acontecimento de antemão esperado entre os dois graças às HQs. Sendo precoce como o roteiro, afirmo que a morte dela e de Gama como fato isolado é deveras impactante, principalmente pensando em não ser episódios de meio ou final de temporada, contudo, na prática, na construção da temporada elas não fazem tanto sentido pelas amarras preguiçosas. Indo por partes, Gama e Alden na disputa com o sobrinho não foi algo bem elaborado no episódio anterior para ser nesse, só para a morte de Gama ter o pensamento “Poxa, ela finalmente conseguiu fazer as pazes com ele, iria poder curtir a sobrinha, mas acaba morrendo”, sério? 

Parando para pensar, essa intriga inicial é incoerente com o próprio Alden, visto que ele era o Salvador e foi perdoado, pelo histórico, ele deveria ter demonstrado compaixão logo de cara, mas não, fez frescura que acabou matando a mulher nas mãos de Beta, que também ficou de frescura ao se expor em terreno aberto somente para ter o prazer de humilhar Gama esperando que ela virasse zumbi para levá-la a Alfa e mostrar o quanto ele é obediente. Sorte dele que Alden é tão desprovido de inteligência que ao invés de acertar uma flechada nele, preferiu acertar em Gama para ela ter uma morte “digna”, mas convenhamos senhor Alden, dava para você ter feito os dois, não? E as conveniências nas mortes não valem só para os sussurradores, pois Earl também foi morto neste episódio possivelmente pelo mesmo zumbi fracote que mordeu o Carl, porque pense numa mordida fraca que parecia mais uma humana normal, cadê os maquiadores para arrancar um toco de braço daquele rapaz?

Enfim, mesmo sendo absolutamente terciário, o melhor momento do episódio o envolve junto a Judith, forçada a matá-lo para proteger o restante das crianças figurantes que estavam ali, um dos poucos momentos delicados da direção de Greg Nicotero, que com o auxílio da ótima atriz mirim Cailey Fleming, acertou ao menos em um micro desenvolvimento do episódio. Comentando os outros, Magna retorna sozinha após o evento na caverna, no meio da manada da batalha de Hilltop, sem mostrar como ela chegou até ali, apenas contando verbalmente, e a gente que acredite nela, sem qualquer sentimento de desespero para incentivar o pessoal a ligeiramente começar a procura pela amiga, ou remorso de Carol, apesar do que ela fez. Carol que era a mulher personagem possível (só que não) para dar o passe livre para Eugene ir em busca do amor de sua vida, na conversa mais sentimentalmente brega da temporada. 

Pior que isso só a revelação final de que na verdade ela estava orquestrando o plano com Negan desde o princípio, um twist bacana do ponto de vista fandom, mas extremamente incoerente diante do seu arco dramático na temporada. Quer dizer então que todas aquelas decisões irracionais eram teatrinho? E que no fundo ela sabia o que estava fazendo e era só para enrolar e dar tempo de Negan matar Alfa? Puxando os outros episódios, com muita suspensão de descrença dá para dizer que sim, já que ela iria levar Lydia para Alfa e de alguma forma tentar matá-la lá com o Negan, mas para que isso fizesse sentido, era necessário mais tempo, até para Negan ter a confiança de Alfa para fazer o serviço. Ou seja, essa amarra, além de completamente jogada, faz com que todos os meus elogios ao retorno do emocional desamparado da personagem – que retomou uma das melhores características da série que era os desafios narrativos consequenciais da frágil mente humana em situações de risco – sejam invalidados. Não que Carol por tudo que passou não seja capaz de tal feito, mas o jogo criado em cima disso foi no mínimo trapaceiro, no pior sentido.

E era algo completamente desnecessário, visto que a cena de manipulação do Negan em si, desconsiderando as conveniências já mencionadas ou aquela cena avulsa com o Aaron, foi bem construída. O desconforto do personagem matando “sem querer” os zumbis na cabeça e não no coração, ele não agrupando a horda, sequestrando Lydia como isca e se abrindo com a Alfa para atraí-la a uma armadilha, tudo foi bastante plausível porque houve uma prévia consolidada anteriormente. Contudo, colocar isso na conta da Carol foi o último tiro no pé de um episódio que já estava problemático e ficou ainda mais covarde. Dava para tudo isso que aconteceu ter ocorrido de outra maneira, se a série evocasse os culhões passados em algo definitivo, cada subtrama dessa seria orquestrada dentro da batalha principal não mostrada, e o resultado tinha enorme potencial de ser um dos grandes episódios da série. Infelizmente, não foi o caso e a temporada perde muito o fôlego na reta final, mesmo que ainda tenha quatro capítulos para se ajeitar, o recado está reforçado, mesmo no geral, ainda subestimada, não dá mais para confiar em regularidade com The Walking Dead.

The Walking Dead – 10X12: Walk With Us — EUA, 15 de março de 2020
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Nicole Mirante-Matthews, Eli Jorne
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.