Nell Tiger Free

Crítica | Servant – 1X07 a 1X10: Haggis / Boba / Jericho / Baloon

Temporada como um todo
(não é uma média)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Como tirei férias durante os episódios 1X07 a 1X09 de Servant, deixei a temporada chegar ao seu final para trazer as críticas do que faltava. Vamos lá!

1X07
Haggis

Rain expandiu a mitologia da série ao apresentar o tio de Leanne e apontar para a existência de uma tia, em Haggis, é a vez do lado de Dorothy ganhar uma adição: Natalie, amiga e kinesióloga da perturbada mãe de Jericho que foi responsável pela terapia com o “bebê boneco realista”. Vivida por Jerrika Hinton, a personagem serve fundamentalmente de veículo para o desenvolvimento da ideia que a morte do bebê, nunca antes explicada, não se deu por causas naturais ou algo mais, digamos, mundano, como uma doença.

A presença de Natalie na casa dos Turners não é construída de maneira orgânica, porém, já que a personagem simplesmente está lá cuidando de Dorothy que, se sentindo segura, a dispensa somente para convidá-la para um jantar, gerando desespero em Sean em razão da criança que foi ressuscitada. Considerando a duração padrão dos episódios da série, há uma aceleração de passo muito grande aqui, completamente desproporcional em relação à cadência narrativa anterior.

Há bons momentos de suspense e um particularmente eficiente jump scare quando Leanne derruba Natalie, mas a velocidade vertiginosa dos acontecimentos e o crescente lado sobrenatural que inclui agora rachaduras no chão do porão e um cachorro ressuscitado não exatamente beneficiam a temporada como um todo. Claro que a claustrofobia da mansão dos Turners é muito bem mantida pela direção de Alexis Ostrander e a fotografia escurecida, além das revelações que nunca são completas e abertas, criam um bom grau de ansiedade que mantém alto o interesse pelo desenrolar dessa macabra história.

1X08
Boba

Boba é praticamente o contrário narrativo de Haggis, o que acaba criando um bom equilíbrio na história. Se, no episódio anterior, há muito acontecendo, aqui não há quase nada, ainda que mais uma vez a dose de suspense seja não só alta, como eficiente, tendo Julian como o principal foco quando ele fica sozinho na casa dos Turners para cuidar de Jericho.

O sobrenatural comanda a cadência, com a descoberta, por Julian, de que o bebê voltou a ser um boneco, algo que ele se recusa a acreditar e acha que faz parte de um plano de Leanne e sua família para extorquir dinheiro de Sean e Dorothy. A rotina de completa incredulidade sobre o que pode estar acontecendo, com a constante busca de explicações racionais, é cansativa, mas, em última análise, crível, bastando que o leitor ponha-se no lugar de Julian – ou Sean – diante de uma situação tão estranha como a volta à vida de Jericho.

E a diretora Lisa Brühlmann usa muito bem essa incredulidade e a inegável aflição que o boneco realista automaticamente causa para construir cenas sufocantes que culminam com a em que Julian ameaça jogar o bebê boneco no vão da escada. No entanto, é problemático notar que a temporada parece fiar-se demais em momentos chocantes para fazer sua história avançar, o que retira muito de sua fluidez, substituindo-o por solavancos repentinos. Não é um problema sério diante do tamanho dos episódios, mas é algo que detrai da experiência por subtrair a naturalidade da progressão narrativa.

1X09
Jericho

M. Night Shyamalan volta à direção de um episódio da temporada depois do inaugural e sua presença é facilmente sentida na qualidade do suspense que ele entrega. Sim, boa parte do mérito vai para o roteiro do showrunner Tony Basgallop, que lida com duas linhas temporais, uma no presente e outra que volta ao passado para finalmente revelar como foi a morte de Jericho.

No lugar de transições óbvias, Shyamalan opta pela extrema sutileza e elegância, focando em Dorothy no presente abalada pelos tormentos psicológicos infligidos por uma vingativa Leanne, agora que sabe o que aconteceu, e uma Dorothy sozinha e exausta que acaba esquecendo Jericho no carro durante uma canícula na cidade, levando-o à morte por hipertermia. O horror em si da situação é suficiente para tornar esse o episódio mais difícil de se assistir da temporada, mas o diretor faz questão de amplificar ainda mais a repugnância da situação ao trabalhar tudo muito lentamente, mas sem perder de vista o inevitável.

A cadência imposta pela direção é absolutamente enervante e devastadora em tudo o que cirurgicamente não mostra (jamais vemos o bebê morrendo – seria fácil demais) e na forma como a morte, a podridão e, no fim, a loucura acaba invadindo a mansão-sobrado em que a história se passa enquanto Sean está fora como juiz de um reality show culinário tipo Master Chef em que ele se mostra particularmente desagradável. A conciliação da desgraça que se abate nos Turners com o que Leanne significa para eles ainda permanece como uma névoa impenetrável só explicável pelo mergulho completo no sobrenatural, mas Shyamalan não está preocupado com isso nesse capítulo, procurando, muito ao contrário, torturar o espectador com seu passo lento e inexorável na pior direção possível e que abre um maravilhoso espaço para a melhor atuação de Lauren Ambrose na temporada.

1X10
Baloon

Gostaria de poder dizer que Servant encerra sua primeira temporada em seu ponto mais alto, mas terei que me contentar em afirmar que, apesar de não ser o melhor episódio, Baloon não reverte para a qualidade mediana dos episódios 1X02, 1X03 e 1X04. Nada como olhar para o lado positivo das coisas, não é mesmo?

O ponto é que, depois do horror visceral de Jericho, somos brindados com um episódio narrativamente tumultuado que se passa durante a festa pós-batizado do bebê dos Turners, o que é, claro, o momento exato para o tio de Leanne voltar trazendo a tira-colo a ainda mais sinistra tia May que, como é revelado mais para o final quando a memória de Dorothy é sacudida, foi líder de um culto religioso fanático. Desnecessário dizer, por certo, que o foco fica quase que inteiramente no lado sobrenatural da história e, justamente por ficar aí e por Servant já ter sido renovada para uma 2ª temporada, é que nada de relevante é realmente revelado.

Há uma confirmação – em tese – de que realmente Leanne tem poderes para reviver pessoas e animais e que ela é particularmente importante para o tal culto, mas isso não é exatamente uma surpresa, não é mesmo? Há momentos tensos com o tio George e Sean no porão e Leanne, Tia May e Dorothy no quarto de Jericho, mas tudo não passa da típica enrolação que um episódio final que precisa manter segredo sobre o mistério central acaba sendo obrigado a fazer. Na verdade, pensando em retrospecto, Baloon até poderia funcionar como um completamente críptico encerramento da série como um todo, com a perspectiva de uma outra temporada sendo até uma potencial pedra no sapato que exigirá um bom plano de médio prazo de Basgallop. Tomara que ele o tenha!

Servant – 1X07 a 1X10: Haggis / Boba / Jericho / Baloon (EUA – 27 de dezembro de 2019, 03, 10 e 17 de janeiro de 2020)
Criação e showrunner: Tony Basgallop
Direção: Alexis Ostrander, Lisa Brühlmann, M. Night Shyamalan, John Dahl
Roteiro: Tony Basgallop
Elenco: Toby Kebbell, Lauren Ambrose, Nell Tiger Free, Rupert Grint, M. Night Shyamalan, Phillip James Brannon, Tony Revolori, Jerrika Hinton, Boris McGiver
Duração: 30 min. por episódio

Crítica | Servant – 1X06: Rain

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Você vive em uma casa com uma babá já bastante assustadora, cuja chegada catalisou a ressurreição (ou troca, sei lá) de seu bebê morto e, um belo dia, em viagem a negócios, você recebe uma ligação de sua esposa dizendo que o tio ainda mais assustador da babá, com aparência de mendigo, todo sujo e com roupa puída, apareceu do nada. Se você não sofrer um ataque cardíaco fulminante lá do outro lado da linha, então você, provavelmente, é imortal.

Pelo visto, colocar bizarrice em cima de bizarrice é o mote de Servant e devo confessar que, contra todas as probabilidades e mesmo ainda distante de qualquer tipo de resolução ou pelo menos fechamento de arco, a série vem firmando suas bases de horror psicológico se o espectador souber aceitar as reações razoavelmente brandas para tudo que a família Turner se depara, especialmente a avoada Dorothy. É uma escolha narrativa que pode sem dúvida frustrar, mas que funciona dentro daquela estranheza que incomoda que muitos filmes decidem privilegiar no lugar de sustos baratos e monstros de CGI.

A chegada do “tio George” (Boris McGiver muito bem como religioso devoto/mendigo/sujeito de arrepiar a raiz do cabelo) é muito bem trabalhada porque não há filtros morais ou educacionais ou de qualquer outra natureza. Com Sean convenientemente longe (não há coincidências, tenho certeza), ele simplesmente entra no casarão depois que sua “sobrinha” abre as portas para o homem encharcado de figurino e sujeira nas mãos como se ele tivesse acabado de sair de seu túmulo querendo ver o bebê. Para que, não sabemos, mas fiquei com aquela pulga atrás da orelha de que talvez a dupla sinistra não seja má, mas sim, muito ao contrário, como anjos da guarda. Mas especulações não cabem aqui, pois ainda há muito o que acontecer.

A chegada de Dorothy, que recebe o estranho com efusividade – e algo como meio segundo de estranhamento – e, mais ainda, a de Julian esbaforido e desesperado, a pedido do também desesperado Shane, trazem aquela pegada de levez contrastante que só acrescenta à toda a atmosfera para lá de surreal, especialmente durante as refeições com direito a mãos (sujas) dadas e uma reza ininteligível por parte de George. A sensação de inevitabilidade é muito boa, por Alexis Ostrander, na direção, retorna ao estilo que M. Night Shyamalan imprimiu no primeiro episódio.

A claustrofobia é a chave e as câmeras trabalhando close-ups nos rostos e mãos dos personagens, além de alguns plongées e contra-plongées com pouca iluminação fecham o casarão ao redor de todos ali, transferindo essa impressão também para o espectador. Além disso, o roteiro que segue na base do conta-gotas causa ansiedade. Pouco sabemos de Leanne e do tio George e muito menos ainda da tia May que George menciona de forma ameaçadora e isso mesmo depois que a investigação de Julian e Matthew revelou um passado tenebroso para toda essa combinação.

Há um véu narrativo ainda bem espesso que não é levantado de forma alguma. Isso atrai na mesma medida em que afasta e, se Tony Basgallop tem realmente um plano de médio prazo (há pelo menos mais uma temporada já aprovada pela Apple TV+) bem estabelecido para a série, será necessário, pelo menos nessa estirada final de quatro episódios, que ele pare de acumular mistérios e ofereça algumas respostas que, claro, não precisam ser objetivas e muito menos científicas, já que o caminho para o sobrenatural parece ser mesmo inevitável. O que ele não pode é arriscar a verossimilhança que ele tem conseguido manter até agora, mas cobrando o preço de manter todo mundo no escuro e fazendo o espectador glosar grande parte das atitudes de Sean, Dorothy e Julian.

Rain é o primeiro episódio da temporada que realmente mostra promessa e que levantou minha sobrancelha em curiosidade pelo que vem adiante. Sem dúvida um grande mérito para uma série que vinha se baseando, apenas, em atmosfera e bizarrices.

Servant – 1X06: Rain (EUA – 20 de dezembro de 2019)
Criação e showrunner: Tony Basgallop
Direção: Alexis Ostrander
Roteiro: Tony Basgallop
Elenco: Toby Kebbell, Lauren Ambrose, Nell Tiger Free, Rupert Grint, M. Night Shyamalan, Phillip James Brannon, Tony Revolori, Phillip James Brannon, Boris McGiver
Duração: 30 min.